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ABRE ASPAS JOÃO MIGUEL ATOR

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A arte tem

urgência

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Texto TATIANA MENDONÇA tmendonca@grupoatarde.com.br Fotos REJANE CARNEIRO rcarneiro@grupoatarde.com.br


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Depois da pergunta, João Miguel, 38, vai como uma pipa, brincando de reticências com o vento, entre construções e desconstruções. Não dá para saber onde ele vai parar, mas esteja certo de que é um lugar interessante. O ator ainda fala com uma malemolência muito baiana, que os seis anos em São Paulo não conseguiram roubar, e tem o vício de terminar as frases pedindo a aprovação do interlocutor. Né? Ele tem no currículo filmes como Estômago (2008), O Céu de Suely (2006), Cidade Baixa (2005) e Cinema, Aspirinas e Urubus (2005), com o qual ganhou 11 prêmios. Na televisão, já participou das séries Antônia, A Grande Família e Te Quiero, America , quadro do Fantástico. Encarnou no teatro o Bispo do Rosário, que ainda não o largou por completo. João quer remontar a peça no ano que vem. Enquanto isso, segue seu caminho de “buscador”, como se define. João, estava pesquisando os filmes que você vai fazer por agora: Bonitinha, mas Ordinária, A Hora e a Vez de Augusto Matraga, Quincas Berro D´água e Se Nada Mais Der Certo. Você não está trabalhando demais? Não, não é trabalhando demais, é sobrevivência (Risos). Bonitinha, mas ordinária eu já filmei; deve estrear em 2009. A hora e a Vez, filmo no ano que vem. As filmagens de Quincas vão ser no final deste ano e Se Nada mais der certo também já filmei, deve ir para algum festival ainda este ano. Recebi outras propostas de longas, mas não tem nada definido. Terminei de gravar agora Ó Paí ó, que deve ir ao ar em setembro, na Globo. E queria muito remontar o Bispo. Você foi convidado pelo diretor Fábio Barreto para interpretar Lula no cinema. Vai aceitar? Houve o convite, mas infelizmente não vou poder fazer. Tenho uma tendência de mergulhar muito nas coisas, e o projeto que tenho para o ano que vem é o Matraga. Talvez seja o personagem mais desafiante que já fiz. É inspirado num conto fabuloso do Guimarães Rosa, é muito universal. Tenho me preocupado com essa catalogação de fazer nordestino e tal, mas por outro lado percebo que o sertanejo, querendo ou não, representa o País na sua profundidade, me faz entrar em contato com os corações que o País tem. É óbvio que não quero ficar nisso, acho que tenho uma humanidade que é muito urbana também e tenho vontade de falar do meu tempo. Mas fiz esses personagens acreditando que as contradições e as histórias que eu contei têm a ver com o nosso tempo.


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REJANE CARNEIRO | AG. A TARDE | 3.3.2001

Na peça Bispo, O Senhor do Labirinto (2001)

A gente falava de Lula, e o seu pai é Domingos Leonelli, secretário estadual de Turismo. Política é um assunto que lhe interessa? Não, não é um assunto que me interessa, mas também... Como é que eu digo isso? Não me interessa a política partidária por uma questão da situação do País mesmo, mas me interessam os aspectos políticos do mundo. Me sinto um cidadão político como artista. Você acha que um artista pode, ou deve opinar sobre tudo? A gente tem o direito de participar. Da maneira como o Lázaro (Ramos), por exemplo, escreveu sobre a violência. Um artista que vai ao seu bairro e percebe que há um toque de recolher pode questionar, porque talvez a voz dele tenha espaço que um cidadão “normal” não teria. Voltando a falar de cinema, você já passou da fase de fazer testes?

FOTOS DIVULGAÇÃO

Cinema, Aspirinas e Urubus (2005), ao lado de Peter Ketnath

«Não me interessa a política partidária, mas os aspectos políticos do mundo» Não sou muito bom de teste. Graças a Deus agora tenho recebido mais convites diretos. Em Cinema, Aspirinas e Urubus fiz um teste com 300 pessoas. Foi tão ruim que cheguei para o Marcelo (Gomes, diretor) e falei: "Não se preocupe, a gente vai continuar bróder, adorei o roteiro, está tudo certo" (Risos). Tenho o maior orgulho desse filme. Para mim foi importante essa passagem do Bispo para o Aspirinas. Estava fazendo o espetáculo há quatro anos e meio, era uma coisa extremamente autoral... E estava fazendo de muitos jeitos. Fiz uma performance na jaula do leão aqui no Jardim Zoológico, para quinhentas pessoas. O

leão estava preso numa jaula menor. Teve uma hora que ele urrou e aí um menino pegou no pai e falou: "Meu pai, ele engoliu o leão"! É isso que me interessa, criar essa eletricidade com o espectador. É bacana você se desconstruir, se colocar num espaço surpresa. O fato de eu ter sido palhaço por muito tempo está sempre presente no meu trabalho. Como foi isso de você ser palhaço? Morava no Rio de Janeiro e aí o Luiz (Carlos Vasconcellos) foi dar uma oficina no grupo de teatro onde eu estava. Voltando à sua pergunta, o palhaço, por exemplo, é um ser político. Ali ele pode dizer o que geral-


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Em Estômago (2008), entre Alexandre Sil e Babu Santana

mente não diz num estado civil. A gente se apresentava em praças, feiras, favelas. E também em salas fechadas, como exercício de criação, que é a base do trabalho do ator. Você tem que ter um espaço técnico e depois abandonar a técnica no exercício, no jogo. Então você está com saudade do teatro. Ave Maria! Mas não que isso não exista no cinema. Acho que descobri uma outra coisa que é a possibilidade de botar essa atitude interior, tanto do palhaço quanto de aspectos de construção do personagem, no cinema. O cinema vai direto na alma. É quase um não-fazer. É interessante às vezes suspeitar que uma câmera está lendo seu pensamento! (Risos) Dá uma certa agonia, mas é interessante. A câmera pega tudo, é um exercício de abismo. Me lembro dessa sensação quando fiz o Aspirinas, que foi o primeiro filme que protagonizei.

Na Globo, em Te Quiero América (2007), com Denise Fraga

Você teve medo, ficou ansioso? Não, mas essa coisa abismal, de ficar 24 horas com o personagem, praticamente... Me lembro que, quando acabou, falei: "Rapaz, isso não dá pra mim não, o juízo não fica bom" (Risos). Mas, por outro lado, é um vício maravilhoso. O cinema é um exercício dos pequenos coletivos. É um monte de gente trabalhando, e aquilo pode ser um horror ou pode ser uma maravilha. Acredito no cinema brasileiro que tem isso como base, não é uma coisa que vem de fora, sabe. A gente nunca vai ser americano mesmo e nem precisa ser. A gente tem que ter a coragem de se ver, o que não é fácil. É a partir do regional – que pode ser São Paulo, ou Salvador hoje, urbana, não importa – que a coisa pode ecoar e isso ser universal. Quando aciono uma espécie de memória celular, física, é que estou em contato com a minha existência e com as coisas que vejo. O Bispo e o cinema têm me mostra-

do que é importante a gente se deslocar. Aquilo que o Chico Science falava: "Um passo à frente e você já não está mais no mesmo lugar". É um não ficar no meu umbigo e nem por isso deixar de estar em mim. Estou mais em mim ainda. Você costuma receber excelentes críticas pelo seu trabalho. Isso o seduz ou você não costuma levar muito em conta? É uma mistura... Quando fiz o Aspirinas tinha 34, 35 anos, e lido com esse ofício desde os nove. Naturalmente, não me seduzo tanto. Se eu tivesse 19, 20 anos, talvez fosse outra coisa. Mas é muito bacana esse reconhecimento da crítica que vem do trabalho. Vejo a arte como um espaço da sobrevivência física, mental, como um espaço para exercitar minha lucidez. Não acredito, para minha trajetória, nesse exercício da celebridade. Quero criar personagens que possam me provocar e criar questões na sociedade. Isso


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não quer dizer que você não dialogue com o mercado. É inevitável. Mas esse “Deus Mercadus”, que parece que faz uma sombra em torno do que é você... Quero sempre estar me perguntando, não quero estar me respondendo. Mas respondendo à sua pergunta sobre a crítica, é maravilhoso quando é uma avaliação consistente, independentemente de se falar bem ou mal do seu trabalho. Acredito que tenho um perfil que não é tão fácil de ser digerido, porque não trabalho em uma mídia grande. Dialogo com a televisão, mas não assinei nenhum contrato. Acredito na possibilidade de o cinema virar uma indústria. E me sinto privilegiado de viver de cinema neste País. O legal é que, com isso, a própria televisão está se revisitando. Tem o Sérgio (Machado) que foi fazer HBO... Fiz até uma participação pequena na série, mas foi uma cena maravilhosa. Ó, parece que estou me gabando, nem sou disso. A cena é que ficou maravilhosa. Você é muito crítico? Sou, supercrítico. Mas agüenta se ver na tela ou não? Depende. Quando você acredita mais no filme, é mais fácil porque você está vendo como um todo e pode até se anular. Mas quando não acredito tanto, fico saltando as cenas. "Rapaz, o que você fez...". Isso tem acontecido menos, imagino. É, mas meu estado crítico é constante. Na hora de fazer, não, na hora de fazer eu me jogo. Defendo meu personagem, me apaixono por ele.


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Você quer se meter mais em cinema? Quero. Interessam-me os aspectos por trás da cena. Mas atuar é meu ganha-pão, é minha possibilidade de não ter enlouquecido, é quase espiritual, mas é muito concreto, quase como o candomblé... Estou com uma idéia de roteiro e vou dirigir agora este ano um programa chamado Retratos Brasileiros, no Canal Brasil, sobre o José Dummont, que é um artista que eu amo. Ele abriu caminho para essa maneira mais autoral de atuar. O Zé está entre os atores que eu mais admiro: Chaplin, Mastroianni, Marlon Brando... Qual personagem você sonha em fazer no cinema? Adoraria fazer o Bispo. Infelizmente teria que me dirigir ou então transcender essa catalogação. Sou branco, ele era preto. Mas como o próprio Bispo falava: “Às vezes quando eu deixo de trabalhar, eu sou transparente. Mas normalmente eu sou cheio de cores”. O Bispo deu um nó na psiquiatria, na arte. Saiu do cidadão catalogado como esquizofrênico e virou o cidadão catalogado como um grande artista. Ele falava: "Tão dizendo que isso que eu faço é arte. Quem fala não sabe de nada. Isso é minha salvação na terra, tá mais do que visto". Quando entro em contato com esse tipo de urgência, quero entrar em contato com o que é urgente pra mim. A arte tem urgência. Não sei o que vai vir depois, sei que, enquanto estou vivo, tudo isso daqui é muito palpável. Como você começou a fazer teatro? Tinha nove anos, morava no prédio

«Atuar é como fazer sexo. Você não pensa, você faz. E aí pode ser bom ou ruim» da Nilda Spencer. Um amigo de minha mãe me chamou para fazer uma peça e depois um amigo da Nilda, Nonato Freire, me chamou para apresentar um programa de televisão chamado Bombom Show. Fui entrevistar o Glauber (Rocha) e falei: “Vou te perguntar uma pergunta” e ele: "E eu vou te responder uma resposta". E quando decidiu que ia ser ator? Tinha uns 17 anos e fui ser office boy de uma agência de publicidade. Vi que poderia me tornar um publicitário, ganhar muito dinheiro, fiquei apavorado (Risos). Como o teatro já fazia parte da minha vida, pensei: "Se eu não fizer isso agora, vou estar com 40 anos e vou largar tudo para ser ator". Fui para o Rio com essa decisão. O ator é um buscador. A gente busca um conhecimento que não é só intelectual; é intuitivo, ancestral... Mas que resulta em ação. Ou age ou não age, ou funciona ou não funciona. O que é bacana porque a vida é assim. Atuar é como fazer sexo. Você não pensa; você faz. E aí pode ser bom ou ruim. Às vezes as coisas não viram exatamente o que a gente queria. Por exemplo, o Ó Paí ó, esses personagens que os meninos do Bando de Teatro Olodum

construíram com tanta propriedade, vão agora para o grande público. É óbvio que tem um monte de gente purista, mas isso está por fora. E tem coerência o fato de o Lázaro (Ramos) puxar o Bando. É legal pra caramba, porque não é dentro do que seria perfeito, é dentro do que seria possível. Você mora em São Paulo. Esse caminho de deixar Salvador ainda é inevitável? É engraçado, me sinto bem em São Paulo porque sou mais um... E São Paulo é uma cidade de teatro, tem um público que comparece para ver as peças. Amo Salvador, mas não me vejo mais morando aqui. O mercado é difícil apesar de a gente ter grandes atores. O ator baiano tem uma coisa muito particular que é reflexo da cidade, do jogo de cintura que ela exige. Você tem que atuar em Salvador, ou ela te engole. Você quer fazer novela? (Pausa) Não é uma coisa que eu tenha paixão. Reconheço que a televisão é um espaço importante do popular, que dá visibilidade ao trabalho do ator. Mas até agora me vejo fazendo cinema e teatro. Tem o medo de virar celebridade... (Espreguiça-se, rindo) Adoro andar na rua, pegar metrô... As pessoas falam comigo, mas é de uma maneira muito singela, é diferente de outros amigos, que parecem pop star. É bacana quando uma pessoa acompanha o seu trabalho, e ele não está lá de graça, todos os dias. Nego diz: "Pô, quando vejo seu nome, vou ‘te’ assistir". Isso é um prêmio. «

João Miguel  

Entrevista com o ator João Miguel

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