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Revista Escriba 9ª ed. especial – “A Invencionática”

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9ª Edição

Revista Escriba Especial

´ A Invencionatica Produção

Tiro de Letras Editora Capa

Annacris Andrades Contracapa (fotos cedidas)

Maria Alice Bragança

Dan Juan Nissan Cohen Deni Maliska Duda Foturna Edgardo Néstor Brites Fábio Pessanha Gabriel Pinheiro Gerson Nagel JBMN Leandro Monteiro Logã Lota Moncada Manuela Dipp Maria Alice Bragança Maria Ottilia Rodrigues Noélia Ribeiro Rudi Renato Jr. Sérgio Canarim Teresa Bendini Wesley Faria Vi Rac Abrunhosa Porto Alegre / RS 2020


“Noventa por cento do que eu escrevo é invenção. Só dez por cento é mentira”. (Manoel de Barros)


Galรกxias, de Haroldo de Campos


Quando se tem amigos poetas e músicos iniciar alguma coisa legal é consequência lógica. Foi assim que nasceu a 9ª Revista Escriba que nesta edição homenageia outro projeto gerado pela mesma simbiose explosiva. Numa descompromissada sexta-feira de isolamento social, começou aquilo que viria a ser o Sarau homenageado nesta querida publicação. O encontro embrionário foi numa noite entre quatro poetas e músicos amigos que se reuniram virtualmente para beber vinho, dizer poesia e ouvir boa música. O entusiasmo tomou conta e fez com que cada um chamasse mais um amigo para a reunião. E tudo foi tão bom que achamos por bem criar um Sarau aos sábados e ampliar o nosso horizonte. No primeiro sábado não havia inspiração da noite, o que começou apenas no segundo com Manoel de Barros, cuja palavra extraída de um poema seu deu nome ao nosso sarau: SARAU DA INVENCIONÁTICA. O Sarau acontece via Zoom com poetas e músicos do RS, RJ, MG, RN, SP e Argentina. É bem intimista e descontraído. Inicia ao cair da noite e dura até os últimos sobreviventes se renderem ao sono... e somos resistentes! Muitos já duraram até o início da manhã do outro dia.


A cada edição é escolhido um artista da literatura ou da música para ser a inspiração da noite. Mas isso é apenas um mote para estarmos juntos em verso e melodia. A escolha de poemas e poetas, músicas e músicos é bem livre e a gente gosta mesmo é de conhecer os poemas e canções autorais dos convivas. Há um time fixo de poetas (os Invencionáticos) e há poetas convidados que, com o passar do tempo, já estão praticamente habilitados a pleitear a naturalização Invencionática. Enfim! Uma noite entre amigos criou novos laços de amizade, algumas parcerias e muita produção artística. Fundou novos sonhos e fez brotar novos bem-quereres. Deu vida a vida. E, contra todos os prognósticos, fez de 2020 um marco na vida de cada invencionático e, por que inventamos, um marco na poesia e na música brasileira. Tudo o que é belo e verdadeiro flui. Nosso rio das artes se entregou à correnteza e acabou por desaguar no mar de versos da 9ª Revista Escriba. É como gosto de dizer: só a poesia Salva e só a música Reanima! Vida longa ao Sarau da Invencionática! Manuela Dipp


Distância esquizofrênica Essa distância esquizofrênica Que me impõe os CEPs e me imobiliza os atos, Arranca-me dos braços os toques que nunca dei e os abraços que não fechei. Maltrata-me o peito pela não justaposição dos lábios e não proferidos versos. Versos não labiados. A não contiguidade, contato-lacunar, confinidade interrompida, preposição nunca acontecida. Logã Rio de Janeiro/RJ www.ologaoficial.com


Eu tenho um sonho de fotografar a tristeza. Colocar ela num porta-retratos a enfeitar a estante. Fazer um álbum cheio de imagens: da tristeza sorrindo; da tristeza chorando; fazer imagens da tristeza de todos os ângulos. Eu tenho um sonho de fotografar a tristeza. Dar a ela uma forma física, que possa ser vista, que possa ser tocada. Eu tenho esse sonho de fotografar a tristeza. E, às vezes, penso que já o realizei, como neste momento, com estas palavras. Este poema é a imagem da minha tristeza posando para a foto. Rudi Renato Jr. Porto Alegre/RS rudi.tedeschi@acad.pucrs.br


A poesia me inundou Quando eu era pequena Criar-ança Olhava para tintas e imaginava Céus — arranha Brilhos — estrelas Ao mesmo tempo que Palavras Me possuíam Como carne ou magia Segredos que Inundavam minhas pernas Sucumbiam meu êxtase E por isso mesmo Poesia Foi meu romance Deni Maliska Porto Alegre/RS ddmaliska@gmail.com


Poema sem verbo Teresa? A terra. Teresa? O sumo. Teresa? A sina. A lida, Teresa...o mundo! Teresa? O gozo! Teresa? O riso! O sonho, Teresa...o viço! Teresa? O medo. A curva, Teresa...o rio. Teresa? O tombo! Teresa? A dor. O corte, Teresa...o sangue. Teresa...Teresa ... Teresa Bendini TremembÊ/SP cristau2011@gmail.com


Vingança Aí chegam as palavras, furiosas com o adjetivo supérfluo, odeiam o floreio que não diz nada. Vão dar pauladas. Aliadas aos artigos, avançam, prometem socos os pronomes e sangue os advérbios. Com ódio de rimas se uniram às andorinhas que a cada instante as nomeiam. Atacarão ao adjetivador de nada. Ao palavreador sem sentido o degolarão com o fio de uma vírgula, lhe colocarão ponto final, ponto e parágrafo, o enforcarão entre aspas. Aí chegam as palavras, as que não perdoam, as diretas e específicas, dizendo tudo com pouco, vão se vingar. Edgardo Néstor Brites Argentina edgarbrit@hotmail.com


Palavra que me desnuda Poesia me levou a loucuras Para uns é completamente essencial Para reverberar o sentimento mais puro Que o ser humano criou Mas quem inventou mão que afaga o feto? A semente do semear ar condicionante afeto Vem de dentro pra fora, leva e eleva sentir tudo aquilo que liberta a dor e transforma no mar da cor azul Que vibra no navegar contínuo ao desbravar mundos Que seja na base de amar que abre portas, janelas do Conhecimento de devorar o cais caos do céu por inteiro Mas em primeiro momento tem que ter a chave Peça chave do amor Amor que regurgita Devora com fome veloz, feroz mandíbula que morde O medo do medo de ter ser ver ao ler palavra A pá de cal, má que sai por aí a coragem de ler... Pá-que-lavra na palavra linha do tempo Criar Edições da vida pulsante, gritar uma supernova a cada imagem refletida em compor ecos do silêncio da Solidão da Multidão do Eu Sozinho e me livro no livro Ressoante consoante constante vogal para ler mente aberta para compor vida em poema Faço aqui no meio mundo natureza caos a pergunta que não quer calar a boca pulsante para ser mente criativa: -Você sabe qual é o nude do poeta? A Poesia que desnuda e nutre a vibração de toda alma

Dan Juan Nissan Cohen Rio de Janeiro/RJ


Domingo de praia Deitado sobre a areia, um homem aguarda o mar. Não presume o próprio deserto porque tem em si o mar de Sophia. Sussurra o mar ao seu ouvido o epílogo da vida. Dias e horas de rabiscos na página aberta do diário. Os banhistas não reparam a ausência do poeta nem da poesia. Mais uma vez, desperdiçam o mar. Noélia Ribeiro Brasília/DF instagram: @noeliaribeiropoeta


Tenho em mim todos os gritos em silêncio Tenho todas verborrágicas vontades em páginas em branco Tenho as cores camufladas em nuvens acinzentadas Em todas verdades em vidros entreabertos Tenho em mim bumbos dentro do peito Que batem feito pegadas de blocos afros Tenho afetos expirados ao longe Jamais esquecidos, mesmo não visualizados Mas interno guardados Em um pranto enclausurado JBMN Porto Alegre/RS joaomeloneto71@gmail.com

Augusto de Campos, Amortemor (1970)


Não só um ator, também autor autor-escritor, tal cantautor se faz presente e tanto ausente canta a dor que deveras sente. Por versar maneiras me assento no ex-tinto ato indicativo do sujeito por instinto atuo para versejar de fato o outro verso ainda mais íntimo. Amargurado me sagro num todo belo tanto quanto noutro pessoa, amada. No desassossego negro deste quadro Em cujo centro me ergo ante a tudo que se põe cinzento rubra flor regenerada, me abra. Gerson Nagel Porto Alegre/RS ed.tirodeletras@gmail.com


Soneto para Ana Na bíblia tu és mãe de Samuel Tu és eternamente minha amada Abelha; colmeia ; flor, néctar; mel... Ao te notar, desmaio. Luz dourada! Tua pele reflete todo céu! Branca, crua... Quiçá enamorada Um dia colocarei um anel nessa mão formosa, tão aguardada! Prometo, meu anjo, não ser cruel Cobre tua face com esse véu E só tira, quando desvirginada Promete, Divina, serás fiel se não fores, irás para o bordel Ó alma virtuosa, imaculada! Maria Ottilia Rodrigues Porto Alegre/RS Instagram: @mottiliarc


Fortuna à vista Tapetes vermelhos, Mas nenhum arroz no chão, As albas mãos dão A safra e o cifrão Para alheiros brancos dedos.. Sem a grama para o piso, Arranja pro anel, Se o tem, será repartido... Com alface, acelga, Feijão à granel... Fazemos o nosso prato! Sei bem, minha flor Que nada está bom... (sim, nada) Ouvi atrás de portas, Que o desespero e o terror Muitos lares dominaram...

Leandro Monteiro Taubaté/SP leandropoemas.blogspot.com

Sei que é momento, Aflição às portas abertas, A alegria e o sonho Em ares suspensos Para fora das residências... (E cuidado com os poros!) E o preço do arroz Está fora do poema! Está na vida de nós Indexado ao esforço De rebaixados dedos! Tapetes vermelhos, Muitos arrozes nos sacos... Os ébanos mãos preparam, Cozinham os zapallos, Ou então, as Ukljevas... Quando nosso fado é Chupar os nossos dedos!


DĂŠcio Pignatari, Orgasmo, 1960.


O Sexo das Mulheres Os homens espiam o sexo das mulheres. E não o encontram em suas calcinhas. Quando as penetram, também não o encontram. As mulheres escondem o sexo em seus olhos. O sexo das mulheres está exposto. O sexo das mulheres balança em seu andar. O sexo das mulheres balança em seus braços quando acalentam seus filhos. O sexo das mulheres não tem nome, nem imagem, nem figura. Os artistas não o aprisionaram em pinturas. O sexo das mulheres está exposto, quando se vestem, quando se despem, no grande teatro da vida. O sexo das mulheres elas o disfarçam. Com maquiagem, encobrem seu rastro. O escondem com perfumes. O sexo das mulheres elas o recriam nos rios. O sexo das mulheres está imerso no mar. O sexo das mulheres é concha. Maresia. Maria Alice Bragança Porto Alegre/RS instagram: @maria_alice_braganca


- Maldita tempestade. Estamos perdidos! – Define o Capitão aos mais de quatro ventos. - Maldita tempestade. – Repete o pássaro tropical de plantão no ombro do velho marujo, chancelando os mais íntimos pensamentos. Mas quando foi que não estávamos perdidos? Sem manche, sem direção. Viagem interminável. A bússola, um mero objeto de decoração. Pode embaralhar, descartar e definir como indefinição. Tudo numa única tese. Na fé. O ruído das maquinas soa assustador. Garantia de torque no meio da confusão. Sensação de caos rumo a calmaria. Espécie de sinfonia arranjada em dissonância com o tufão, o tempo das ondas no casco da barca e o solo de um realejo, que de tanta precisão do comandante parece tocar solitário. Compondo num trabalho ermo, histórias em um mundo à parte. Onde frequentam poetas, inventores e lunáticos. Invencionáticos. Todos os tipos assim descritos e incompreendidos. Orquestra fantasma vinda de lugar nenhum, num caminho de volta pro nada. Máquina de fazer louco. Duda Fortuna Porto Alegre/RS instagram: @dudafortuna.oko2


A poesia é inútil Poesia não serve para nada A diminuta borboleta também não Alguém lê um verso no Brasil Um pequeno inseto bate suas asas na Etiópia Esses ínfimos acontecimentos podem gerar um terremoto no Japão ou talvez não ou podem alterar a posição da borboleta no espaço ou mudar o olhar de alguém sobre si mesmo ou, quem sabe, sensibilizar um olhar ou tudo pode permanecer como está mas a beleza bateu asas e uma pessoa abriu olhos por um instante Sérgio Canarim Porto Alegre/RS instagram: @sergio_canarim


um dia a tristeza bate à porta deixe-a entrar ela é livre independente solta não tem hora pra chegar aceite a companhia é suave calma quase sempre silenciosa talvez um tanto fria mas até na tristeza pode-se achar poesia e saiba uma hora ela vai querer sair demorar-se em outros olhos pousar em outros ninhos então sorria e abra a porta deixe o pássaro triste voar aproveite desfrute curta por que com certeza ele voltará Lota Moncada Porto Alegre/RS facebook.com/lota.moncada


Nossa Senhora Sonora* Nossa Senhora Sonora, Com tambores e velas lhe rogo, Lhe peço em sua mandinga, O vulto de amor que me envolve Nossa Senhora Sonora, Quero ter sempre em meu leito, Uma imagem de santa, Teu rosto, teu manto e teu jeito Sem perceber eu me deito, Me vou e me chego na cama, Oro e acendo a chama da vela para me alumiar, Durante todos os sete dias Nos quais me dedico a cantar Senhora Odoya Saravá! *Como uma forma silenciosa de protesto contra o dogma de que a “religião branca” é a que define o certo e o errado, existente no meio religioso, o texto ‘Nossa Senhora Sonora’ foi construído como uma pequena oração/poema que tem a intenção de trazer à tona a discussão quase inaudível da religiosidade de matrizes africanas em nossa literatura e musicalidade. Grandes nomes de nossa arte celebram as religiões ancestrais, porém a pequena parcela que luta contra os conceitos brancos sem fundamentos plausíveis e baseados em colorismo e racismo precisa de todo o apoio possível para que tenha mais voz em todo o cenário da literatura e da música popular brasileira.

Wesley Faria Niterói/RJ wesleyjfaria@gmail.com


Esse arrebatamento À distância Arrebenta Incendeia Embriaga Teus olhos me devoram E eu me entrego Inteira Tua Tudo o que peço é que perdure essa delicadeza de te amar constante essa força de te querer permanente esse desejo louco que me pega de assalto em horas insuspeitas Essa torrente de sensações Essa eletricidade dos sentidos Essa fissura Essa abundância Que me fazem Desfalecer de torpor Sussurra pra mim Que queres mais Me faz teu cais Ancora

Manuela Dipp

Porto Alegre/RS manueladipp@hotmail.com


Exaltação à Invencionática Uma Invenção Divina Dra. e Poetisa Manuela Além de recursos e petição Também experimentou criar Com a sua imaginação E auxílio da Informática Um Sarau O da Invencionática Mas Deixemos os joguetes de palavras Para versar sobre a Idealizadora Manu ou Ilma. Dipp Divinamente presente Faz quem a ama Sempre contente Muito vitoriosa Tem uma vida gloriosa Advogada, Poetisa ou Poeta Artista, e até Atriz ou Musicista Manuela pode ser o que quiser Cristã e fervorosa que é Se entra em uma discussão Manu só sai com o seu perdão Setenta vezes sete Amém, Irmão(s)?! Já viveu aventuras de paixão Mas quando Manuela amou Foi genuíno Tal como ama as criaturas O seu Divino Criador Vida Longa para a Invencionática Gratidão a Todos do seu Sarau No qual até um Órfão chorão Foi adotado com Amor Fraternal Gabriel Pinheiro Barbacena/MG Instagram: @gabriel.r.pinheiro


... é como se eu pegasse tudo com força e metesse goela adentro a animosidade ao perder pedaços de pele debaixo das minhas unhas. voz sufocada entre os dedos, as marcas no pescoço e bem de repente o peso das estrelas no preto da visão. o som bruto da carne ao chão. o frio e a rigidez num ritmo em que a pele se anula em secreções e se esvai na secreta ação dos vermes. e eu queria só dizer que te amo… triste engano... Fábio Pessanha São Gonçalo/RJ facebook.com/fabiospessanha


Papel jornal - impressão rubra (baixada extra) A_bala Abala a fusão dos egos Aquele segundo preciso Não existo só, só existe nós. Não hesito a bala; brilhante e quente. Solda incandescente, fio escarlate. Na contramão dos Kenedy: Fugir não faz sentido sem ti; então, é preciso sentir; a Bala. Vi R.C Rio de Janeiro/RJ vivianerc1101@gmail.com


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