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Oswaldo Henrique Duek Marques Paulo Henrique Aranda Fuller Silvio Luís Ferreira da Rocha

Crimes em Licitações e Contratos Administrativos


Copyright© Tirant lo Blanch Brasil Editor Responsável: Aline Gostinski Assistente Editorial: Izabela Eid Capa e diagramação: Jéssica Razia CONSELHO EDITORIAL CIENTÍFICO: Eduardo Ferrer Mac-Gregor Poisot Presidente da Corte Interamericana de Direitos Humanos. Investigador do Instituto de Investigações Jurídicas da UNAM - México

Juarez Tavares Catedrático de Direito Penal da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - Brasil

Luis López Guerra Ex Magistrado do Tribunal Europeu de Direitos Humanos. Catedrático de Direito Constitucional da Universidade Carlos III de Madrid - Espanha

Owen M. Fiss Catedrático Emérito de Teoria de Direito da Universidade de Yale - EUA

Tomás S. Vives Antón CIP-BRASIL. NA PUBLICAÇÃO Catedrático de CATALOGAÇÃO Direito Penal da Universidade de Valência - Espanha SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ M319c Marques, Oswaldo Henrique Duek Crimes em licitações e contratos administrativos [recurso eletrônico] / Oswaldo Henrique Duek Marques, Paulo Henrique Aranda Fuller, Silvio Luís Ferreira da Rocha. 1. ed. - São Paulo : Tirant Lo Blanch, 2023. recurso digital ; 1 MB Formato: ebook Modo de acesso: world wide web ISBN 978-65-5908-657-3 (recurso eletrônico) 1. Crimes contra administração pública - Brasil. 2. Contratos administrativos Brasil. 3. Licitação pública - Legislação - Brasil. 4. Livros eletrônicos. I. Fuller, Paulo Henrique Aranda. II. Rocha, Silvio Luís Ferreira da. III. Título. 23-86282 CDU: 343.35(81) Gabriela Faray Ferreira Lopes - Bibliotecária - CRB-7/6643

DOI: 10.53071/boo-2023-09-14-650373ed0d5d0 21/09/2023 28/09/2023

É proibida a reprodução total ou parcial, por qualquer meio ou processo, inclusive quanto às características gráficas e/ou editoriais. A violação de direitos autorais constitui crime (Código Penal, art.184 e §§, Lei n° 10.695, de 01/07/2003), sujeitando-se à busca e apreensão e indenizações diversas (Lei n°9.610/98).

Todos os direitos desta edição reservados à Tirant lo Blanch. Fone: 11 2894 7330 / Email: editora@tirant.com / atendimento@tirant.com tirant.com/br - editorial.tirant.com/br/ Impresso no Brasil / Printed in Brazil


Oswaldo Henrique Duek Marques Paulo Henrique Aranda Fuller Silvio Luís Ferreira da Rocha

Crimes em Licitações e Contratos Administrativos


Sumário Prefácio......................................................................................... 9 João Mestieri Capítulo I

Considerações Gerais acerca da Licitação e do Contrato Administrativo. ........................................................................... 12 1. Considerações gerais............................................................................. 12 2. Procedimento licitatório........................................................................ 13 3. Do contrato administrativo................................................................... 28 Capítulo II

Noções gerais da teoria do crime................................................ 32 1. Conceito de crime e conduta................................................................. 32 1.2. A omissão........................................................................................ 35 2. Tipicidade (adequação típica)................................................................ 36 2.1. Tipicidade dolosa e culposa.............................................................. 37 2.2. Erro de tipo..................................................................................... 38 2.3. Adequação típica direta e indireta (por norma de extensão).............. 39 3. Teorias sobre o resultado....................................................................... 39 4. Teoria da imputação objetiva................................................................. 40 5. Antijuridicidade.................................................................................... 41 6. Culpabilidade........................................................................................ 42 7. Classificação dos crimes......................................................................... 43 8. O concurso de pessoas e a teoria do domínio do fato............................ 44 8.1. Concurso de pessoas........................................................................ 44 8.2. Teorias sobre autoria e participação: o domínio do fato.................... 45 9. Responsabilidade penal da pessoa jurídica............................................. 48 10. Responsabilidade objetiva administrativa e civil das pessoas jurídicas......49 Capítulo III

Dos crimes em licitações e contratos administrativos. ............... 55 1. Considerações gerais............................................................................. 55 2. Bem jurídico tutelado (objetividade jurídica)........................................ 56 3. Sujeitos ativo e passivo.......................................................................... 56 3.1. Sujeito ativo: prefeito....................................................................... 61


4. Tipicidade objetiva................................................................................ 64 4.1. Alteração da norma complementar do tipo penal em branco: a questão da retroatividade penal benigna em caso de ampliação das situações legais de inexigibilidade e dispensa de licitação................................................. 76 4.2. Valores atualizados para os efeitos da Lei n. 14.133/2021................. 80 5. Tipicidade subjetiva.............................................................................. 81 6. Consumação e tentativa........................................................................ 88 7. O parecer jurídico e a responsabilidade penal........................................ 92 7.1. Responsabilidade penal da autoridade administrativa....................... 93 7.2. Responsabilidade penal do parecerista............................................ 101 8. Concurso aparente de normas............................................................. 112 9. Sucessão de leis penais......................................................................... 112 10. Penas................................................................................................. 115

Frustração do caráter competitivo de licitação....................... 116 1. Bem jurídico tutelado (objetividade jurídica)...................................... 116 2. Sujeitos ativo e passivo........................................................................ 118 3. Tipicidade objetiva.............................................................................. 122 4. Tipicidade subjetiva............................................................................ 129 5. Consumação e tentativa...................................................................... 132 5.1. A questão do termo inicial da prescrição........................................ 135 6. Concurso aparente de normas............................................................. 138 7. Sucessão de leis penais......................................................................... 140 8. Penas................................................................................................... 140

Patrocínio de contratação indevida. ........................................ 141 1. Bem jurídico tutelado (objetividade jurídica)...................................... 141 2. Sujeitos ativo e passivo........................................................................ 142 3. Tipicidade objetiva.............................................................................. 143 4. Tipicidade subjetiva............................................................................ 150 5. Consumação e tentativa...................................................................... 151 6. Concurso aparente de normas............................................................. 152 7. Sucessão de leis penais......................................................................... 152 8. Penas................................................................................................... 153

Modificação ou Pagamento Irregular em Contrato Administrativo. ......................................................................... 154 1. Bem jurídico tutelado (objetividade jurídica)...................................... 154 2. Sujeitos ativo e passivo........................................................................ 158 3. Tipicidade objetiva.............................................................................. 159


3.1. Crime de modificação irregular em contrato administrativo (art. 337H, primeira parte, do CP)..................................................................... 160 3.2. Crime de pagamento irregular em contrato administrativo (art. 337H, segunda parte, do CP)..................................................................... 160 4. Tipicidade subjetiva............................................................................ 161 5. Consumação e Tentativa..................................................................... 162 6. Sucessão de Leis penais........................................................................ 162 7. Penas................................................................................................... 162

Perturbação de processo licitatório......................................... 163 1. Considerações gerais........................................................................... 163 2. Bem jurídico tutelado (objetividade jurídica)...................................... 163 3. Sujeitos ativo e passivo........................................................................ 164 4. Tipicidade Objetiva............................................................................. 164 5. Tipicidade Subjetiva............................................................................ 165 6. Consumação e Tentativa..................................................................... 165 7. Sucessão de Leis Penais........................................................................ 166 8. Pena.................................................................................................... 166

Violação de sigilo em licitação................................................. 167 1. Considerações gerais........................................................................... 167 2. Bem jurídico tutelado (Objetividade jurídica)..................................... 167 3. Sujeitos ativo e passivo........................................................................ 168 4. Tipicidade Objetiva............................................................................. 169 5. Tipicidade Subjetiva............................................................................ 170 6. Consumação e Tentativa..................................................................... 171 7. Sucessão de Leis Penais........................................................................ 172 8. Pena.................................................................................................... 172

Afastamento de licitante........................................................... 173 1. Considerações gerais........................................................................... 173 2. Bem jurídico tutelado (objetividade jurídica)...................................... 173 3. Sujeitos ativo e passivo........................................................................ 174 4. Tipicidade Objetiva............................................................................. 174 5. Tipicidade subjetiva............................................................................ 175 6. Consumação e Tentativa..................................................................... 176 7. Sucessão de Leis penais........................................................................ 176 8. Penas................................................................................................... 177

Fraude em Licitação ou Contrato............................................. 178 1. Considerações gerais........................................................................... 178 2. Bem jurídico tutelado (objetividade jurídica)...................................... 178


3. Sujeitos ativo e passivo........................................................................ 180 4. Tipicidade objetiva.............................................................................. 181 5. Tipicidade subjetiva............................................................................ 181 6. Consumação e tentativa...................................................................... 181 7. Sucessão de leis penais......................................................................... 182 8. Penas................................................................................................... 182

Contratação Inidônea............................................................... 183 1. Considerações Gerais.......................................................................... 183 2. Bem jurídico tutelado (objetividade jurídica)...................................... 183 3. Sujeito ativo e passivo.......................................................................... 184 4. Tipicidade objetiva.............................................................................. 185 5. Tipicidade subjetiva............................................................................ 186 6. Consumação e tentativa...................................................................... 186 7. Sucessão de leis penais......................................................................... 187 8. Penas................................................................................................... 187

Impedimento Indevido............................................................... 188 1. Considerações Gerais.......................................................................... 188 2. Bem jurídico tutelado (objetividade jurídica)...................................... 188 3. Sujeito ativo e passivo.......................................................................... 189 4. Tipicidade Objetiva............................................................................. 190 5. Tipicidade subjetiva............................................................................ 190 6. Consumação e Tentativa..................................................................... 191 7. Sucessão de leis penais......................................................................... 191 8. Penas................................................................................................... 191

Omissão Grave de Dado ou de Informação por Projetista........ 192 1. Considerações Gerais.......................................................................... 192 2. Bem jurídico tutelado (objetividade jurídica)...................................... 192 3. Sujeitos ativo e passivo........................................................................ 193 4. Tipicidade objetiva.............................................................................. 193 5. Tipicidade subjetiva............................................................................ 193 6. Consumação e Tentativa..................................................................... 193 7. Penas................................................................................................... 193

Da pena de Multa...................................................................... 194 1. Do cálculo da pena de multa no Código Penal.................................... 194 2. Do valor mínimo imposto pelo artigo 337-P....................................... 194

Referências bibliográficas......................................................... 195


Prefácio Foi com indizível prazer que aceitei o honroso e imerecido convite dos professores Oswaldo Henrique Duek Marques, Paulo Henrique Aranda Fuller e Silvio Luiz Ferreira da Rocha, para apresentar a obra ‘Crimes em Licitações e Contratos Administrativos’. Trata-se de obra muito bem cuidada e pensada, que aborda os crimes em licitações e contratos administrativos em geral. A temática, bastante atual, estava a reclamar tratamento mais abrangente e aprofundado. Muito especialmente, carecia de clara correlação entre os interesses a serem alcançados pelas regras jurídicas administrativas, objetivando a consecução dos objetivos da administração pública, e os tipos criados pela legislação penal, de caráter supletivo sancionador. Predomina, no tratamento das matérias, a preocupação com a didática e a garantia, ao longo de todo o trabalho, de tratamento sistemático sobre os vários temas. Além disso, cabe mencionar a preocupação em tratar cada espécie de forma abrangente, de modo a garantir que o leitor encontre, da leitura de certo ponto do texto, a questão que estava a buscar, bem guardada no tratamento detalhado de cada segmento. Este, é de se dizer, vem a ser aspecto positivo aurido da experiência da cátedra, aliada à prática da advocacia forense e de pareceres. A obra se faz preceder de três capítulos introdutórios, de suma importância, que muito auxiliam na compreensão e no tratamento das regras jurídicas especiais, ou seja, do controle penal de cada espécie. O primeiro trata das considerações gerais acerca da licitação e do contrato administrativo. É introdução fundamental ao trabalho, pois permite ao leitor interpretar, lógica e sistematicamente, as conclusões dos autores, e conhecer seus posicionamentos fundamentais sobre cada categoria jurídica. Lembro-me ainda das aulas de Direito Administrativo, no meu longínquo bacharelado, na PUC-SP, no 9


qual o professor fazia questão de nos alinhar onze conceitos de ato administrativo. O segundo capítulo, de igual propósito, trata de alguns institutos fundamentais do Direito Penal, deixando claro o pensamento dos autores sobre tais conceitos, indispensáveis à compreensão da dinâmica dos crimes a serem tratados em capítulos a seguir. De outro lado, sendo os temas versados no livro de natureza interdisciplinar, é de valia esse conjunto de posicionamentos dogmáticos, particularmente para aqueles leitores não tão familiarizados com a teoria penal. O terceiro, mais denso e compreendendo as características das figuras de crime em geral, das licitações e dos contratos, já se justapõe aos enunciados dos novos tipos de delito, de modo especial aqueles trazidos pela Lei n. 14.133 de 2021. Como sempre, nesse importante e profundo tratamento dos delitos da Administração Pública e das Licitações, aspectos importantes, muita vez deixados de lado em comentários de doutrina, são aqui tratados superlativa e especificamente, como a responsabilidade dos prefeitos, dos pareceristas e das autoridades administrativas. O trabalho trata, com a profundidade necessária, da alma do instituto da licitação, a se considerar no exame de dado suporte fático posto em questão: garantir a verdade e o caráter competitivo da licitação. Ainda que se enfatize a importância das regras cogentes criminais, não se abandona aqui o entendimento visceral de que a administração pública necessita pautar seus caminhos, suas soluções e resoluções independentemente do crivo do Poder Judiciário, até porque ela exerce função primordial na realização das tarefas do Estado e no equilíbrio entre os Poderes. Em verdade, as criações legislativas a latere do núcleo básico das regras administrativas de criação, sustentação e realização equilibrada dos propósitos licitatórios, ainda que de sancionamento mais gravoso, são complementares, incidindo apenas para regular certa e determinada espécie fática, quando indispensável. A razão para tanto não reside apenas no princípio de “conseguir a aceitação da regra com o mínimo de coação possível”, mas no de desenvolver progres10


sivamente uma visão de interesse na conformidade, na aplicação da boa regra de direito, ou, como dizemos hoje, com as partes e seus interesses convergindo para um ponto e desidério comuns. É que a relação dicotômica entre o Estado e o particular, se bem convenientemente analisada, deve ser muito mais abrangente do que a simples questão da normalidade do pleito licitatório. Para além do corpo do instituto jurídico, da regularidade externa do processo licitatório, há de se perquerir, e desenvolver, a alma do instituto, isso com o mínimo de coação possível, apenas lançando mão do braço punitivo do Estado em casos restritos e especiais. Aqui, uma vez mais, cabe lembrar, como fazemos sempre ao tratar do Direito Tributário, que a coação penal não pode e nem deve ser usada como ferramenta de coerção para a cobrança de tributos ou de quaisquer dívidas públicas, mesmo porque esse ramo do Direito Público possui princípios orientadores de sua aplicação, entre os quais ressaltamos aquele da intervenção mínima, a garantir ao cidadão a mínima presença do direito penal na vida social. “Crimes em Licitações e Contratos Administrativos” é obra muito de se ler, com grande proveito, sendo de exaltar, uma vez mais, suas qualidades de sempre ter presentes as necessidades do leitor, para o que os autores nos brindam com muitas considerações do Direito Público e exame aprofundado dos institutos do Direito Penal mais pertinentes, o que a torna, de modo igual, muito útil na consulta diária para dirimir dúvidas e indicar os caminhos e soluções para as questões do dia a dia forense. João Mestieri

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Capítulo I

Considerações Gerais acerca da Licitação e do Contrato Administrativo 1. Considerações gerais A Administração Pública, no exercício de uma função administrativa, deve atingir determinados fins e, para isso, necessita de meios e instrumentos, expressos por bens móveis, bens imóveis e serviços. Para obter tais bens, necessários ao atingimento de certos fins, ela pode utilizar-se de meios unilaterais, exorbitantes, que dispensam a vontade e a colaboração dos proprietários desses bens, como a ocupação temporária, a requisição e a desapropriação, ou pode utilizar-se de meios bilaterais, normais, que dependem da vontade e da colaboração dos proprietários desses bens, como o contrato. Contudo, uma dificuldade adicional se coloca à Administração Pública quando ela recorre ao uso do instituto do contrato, porque, em decorrência do princípio da igualdade e do princípio da impessoalidade, não se reconhece a ela a liberdade, existente na ordem jurídica privada, de escolher o particular que irá contratar com ela e a de fornecer-lhe os bens ou prestar os serviços dos quais necessita. A Administração Pública deve, antes de contratar, licitar. Se os particulares em geral gozam de ampla liberdade para contratar em razão do princípio da autonomia privada, o Poder Público – em particular a Administração Pública –, em decorrência do princípio da indisponibilidade do interesse público, está obrigado pela Constituição a seguir o procedimento preliminar, determinado e preestabelecido, na conformidade da lei, denominado licitação. A licitação, como regra, precede a contratação pela Administração Pública. A licitação constitui antecedente lógico e necessário 12


do contrato administrativo. Entre os possíveis objetivos da licitação, podemos destacar o de a) proporcionar à Administração a oportunidade de realizar o negócio mais vantajoso; b) o de assegurar aos administrados a possibilidade de disputarem, em igualdade de condições, o direito de contratar com o Estado, como preveem, expressamente, os incisos I e II do art. 11 da LGL1. A licitação atende, também, a quatro exigências públicas: 1) protege os interesses públicos e os recursos governamentais, pois evita pela concorrência a contratação por valores elevados ou acima dos níveis praticados no mercado; 2) respeita o princípio da isonomia entre os particulares, pois lhes assegura uma disputa em igualdade de condições; 3) obedece ao princípio da impessoalidade, ao embargar a escolha discricionária do contratante pela Administração, que poderia ser guiada com a intenção de favorecer ou de prejudicar; 4) obedece aos reclamos de probidade administrativa, ao estabelecer procedimento que assegure o respeito aos princípios da isonomia e impessoalidade, acima mencionados.

2. Procedimento licitatório A licitação é um procedimento administrativo, isto é, uma sucessão encadeada de atos administrativos orientados ao fim de escolher o licitante que, segundo os critérios objetivos previamente estipulados, apresentou a proposta considerada mais vantajosa à Administração. É o resultado do somatório de atos relativamente independentes, mas vinculados por um objetivo comum. O art. 28 da LGL prevê cinco modalidades de licitação: o pregão; a concorrência; o concurso; o leilão; o diálogo competitivo. O concurso e o leilão servem a propósitos específicos. 1

Art. 11. O processo licitatório tem por objetivos: I – assegurar a seleção da proposta apta a gerar o resultado de contratação mais vantajoso para a Administração Pública, inclusive no que se refere ao ciclo de vida do objeto; II – assegurar tratamento isonômico entre os licitantes, bem como a justa competição; III – evitar contratações com sobrepreço ou com preços manifestamente inexequíveis e superfaturamento na execução dos contratos; IV – incentivar a inovação e o desenvolvimento nacional sustentável.

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Considerada a concorrência modalidade de licitação destinada a contratos mais complexos e de maior valor, os atos que integram a licitação podem ser repartidos, para fins didáticos, em duas etapas, uma denominada interna e a outra externa. A etapa interna é destinada a firmar a intenção da entidade licitante e a obter certas informações necessárias à consolidação da licitação. Nessa parte, abre-se o processo de licitação, determina-se seu objeto, estabelecem-se suas condições, estima-se a eventual despesa e decide-se pela modalidade adequada, verifica-se a existência de recursos orçamentários, estima-se o impacto orçamentário-financeiro no exercício em que deva entrar em vigor, bem como nos dois subsequentes, e obtém-se a declaração do ordenador da despesa de que o aumento tem adequação orçamentária e financeira com a lei orçamentária anual e compatibilidade com o plano plurianual e com a lei de diretrizes orçamentárias. Em seguida, obtêm-se a autorização de abertura e a aprovação do instrumento convocatório, ou seja, do edital. É preparatória da segunda parte, ou da licitação propriamente dita. Esta se destina a selecionar a melhor proposta à celebração do ato ou contrato desejado pela Administração Pública2. A etapa interna desenvolve-se na intimidade da Administração, sem produzir efeitos jurídicos relevantes externos, para além da Administração Pública, apesar da publicidade3. Nessa etapa, também chamada de preparatória, a Administração, em seu recesso, pratica todos os atos necessários à abertura da licitação, antes de convocar os interessados. A etapa externa, por sua vez, projeta efeitos para fora da Administração, na medida em que requer a participação de terceiros como protagonistas de certos atos. Na fase externa, considerada essencial, temos a licitação propriamente dita, isto é, a prática de atos destinados à escolha de um contratante para com a Administração. Por se tratar de procedimento administrativo, a conclusão da etapa anterior condicionará a irrupção da etapa subsequente. Elas não se 2 3

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GASPARINI, Diógenes. Direito Administrativo. 13. ed. São Paulo: Saraiva. 2008, p. 594. Maria Sylvia Zanella Di Pietro, Direito Administrativo, cit., 22a ed., p. 387.


interpenetram. Nada do que haja sido objeto de exame na primeira fase pode vir a ser tomado em conta na segunda fase. A abertura configura, na fase externa, a primeira etapa da licitação. Com a abertura, a Administração Pública noticia a licitação e convoca os possíveis interessados a ofertar. A abertura concretiza-se com a divulgação do instrumento convocatório, que pode ser definido como o ato pelo qual a Administração torna público o propósito de licitar determinado objeto. O edital é ato convocatório para a licitação. Tem a natureza jurídica de convite a ofertar, ou invitatio ad offerendum. Por meio dele, a Administração convoca os interessados a apresentar propostas. Com isso, a expedição do edital não vincula a Administração a contratar, mas, tão somente, comunica a terceiros seu interesse em receber propostas de contratação. O edital desempenha papel fundamental na licitação, por ser o documento que contém todas as regras que a dirigem, a ponto de Hely Lopes Meirelles o considerar “a lei interna da concorrência e da tomada de preços”. De acordo com o citado autor, as indicações do edital “consubstanciam a vontade da Administração sobre a obra, a compra, a alienação ou o serviço desejado pelo Poder Público e orientam os interessados no preparo das propostas”4. O edital visa a dar publicidade à licitação, identificar o objeto licitado, delimitar o universo das propostas, circunscrever o universo de proponentes, estabelecer os critérios para análise e avaliação dos proponentes e propostas, disciplinar atos e prazos e fixar as cláusulas do futuro contrato. Os doutrinadores nacionais definem de modo semelhante o edital. Diógenes Gasparini o considera “ato administrativo normativo através do qual a pessoa licitante noticia a abertura da licitação em uma das modalidades, fixa as condições de sua realização e do contrato e convoca os interessados para a apresentação das propos4

MEIRELLES, Hely Lopes. Licitação e Contrato Administrativo. 15. ed. São Paulo: Malheiros Editores, 2010, pp. 166 e 167.

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tas para o negócio de seu interesse”5. Hely Lopes Meirelles o define como “o instrumento pelo qual a Administração leva ao conhecimento público a abertura de licitação, fixa as condições de sua realização e convoca os interessados para a apresentação de suas propostas”6. Segundo Celso Antônio Bandeira de Mello, edital “é o ato por cujo meio a Administração faz público seu propósito de licitar um objeto determinado, estabelece os requisitos exigidos dos proponentes e das propostas, regula os termos segundo os quais os avaliará e fixa as cláusulas do eventual contrato a ser travado”7. Para Maria Sylvia Zanella Di Pietro, “o edital é ato pelo qual a Administração divulga a abertura da concorrência, fixa os requisitos para participação, define o objeto e as condições básicas do contrato e convida a todos os interessados para que apresentem suas propostas”8. Em todos esses conceitos, o edital desempenha as funções de tornar pública a licitação; identificar o objeto licitado; delimitar o universo de proponentes e das propostas; estabelecer os critérios para análise e avaliação dos proponentes e propostas; regular os atos e termos processuais do procedimento; fixar as cláusulas do futuro contrato9. A publicidade do edital de licitação se realiza pela divulgação e manutenção do inteiro teor do edital e de seus anexos à disposição do público em sítio eletrônico oficial, facultada a divulgação direta a interessados devidamente cadastrados para esse fim, de acordo com o artigo 54 da LGL10. O corpo do edital deve conter obrigatoriamente as informações descritas no artigo 25, como a descrição do objeto da licitação e as regras relativas à convocação, ao julgamento, à habilitação, aos 5 6 7 8 9 10

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GASPARINI, Diógenes. Direito Administrativo. 13. ed. São Paulo: Saraiva, 2008, p. 595. MEIRELLES, Hely Lopes. Direito Administrativo Brasileiro. 38. ed. São Paulo: Malheiros Editores, 2012, p. 311. MELLO, Celso Antônio Bandeira de. Curso de Direito Administrativo. 29. ed., São Paulo: Malheiros Editores, 2012, p. 594. Maria Sylvia Zanella Di Pietro, Direito Administrativo, cit., 22a ed., p. 389. Idem, ibidem. Art. 54. A publicidade do edital de licitação será realizada mediante divulgação e manutenção do inteiro teor do ato convocatório e de seus anexos no Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP).


recursos e às penalidades da licitação, à fiscalização e à gestão do contrato, à entrega do objeto e às condições de pagamento. Habitualmente, os vícios do edital consistem na indicação defeituosa do objeto ou na delimitação incorreta do universo de propostas; na delimitação imprópria do universo de proponentes; no caráter aleatório ou discriminatório dos critérios de avaliação de proponentes e propostas; no estabelecimento de trâmites processuais cerceadores da liberdade de fiscalizar a lisura do procedimento11. A indicação defeituosa do objeto ou a delimitação incorreta do universo de propostas ocorrem por ser imprecisa e obscura a identificação do objeto, o que impede seu exato reconhecimento, e tornam incomparáveis as propostas. A impropriedade na delimitação do universo de proponentes configura-se pelo estabelecimento de índices ou fatores de capacitação excessivos, desproporcionais aos encargos envolvidos na licitação, ou exigidos em época irrelevante para a segurança das propostas. O caráter aleatório ou discriminatório dos critérios de avaliação de proponentes e propostas ocorre pela estipulação de objetivos discriminatórios ou pela vagueza dos critérios, tudo a proporcionar excesso de subjetivismo à Administração. O estabelecimento de trâmites processuais cerceadores da liberdade de fiscalizar a lisura do procedimento retira dos licitantes a faculdade de fiscalizar a licitação. O edital viciado é nulo de pleno direito. A extensão das consequências do vício dependerá da análise do caso, mas os vícios do ato contaminam os atos sucessivos do procedimento. A fase externa, após sua abertura pelo edital, pode ser desdobrada em duas etapas fundamentais, sem prejuízo de outras, como a análise das propostas e a análise das condições dos interessados que concorreram à licitação12. 11 12

MELLO, Celso Antônio Bandeira de. Curso de Direito Administrativo. 29. ed., São Paulo: Malheiros Editores, 2012, pp. 596-597. MELLO, Celso Antônio Bandeira de. Curso de Direito Administrativo. 29. ed., São Paulo: Malheiros Editores, 2012, p. 588.

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A habilitação no sistema da LGL foi postergada para depois da análise das propostas e escolha de um vencedor, como forma de economia procedimental, salvo possibilidade de inversão por ato motivado (art. 17, §1º, da LGL), tanto que o artigo 63, I, da LGL contenta-se com a declaração dos licitantes de que atendem aos requisitos da habilitação, e a apresentação dos documentos de habilitação será exigida apenas do licitante vencedor. Observado o artigo 17 da LGL, a ordem proposta para o procedimento na fase externa, após a divulgação do edital, é apresentação de propostas e lances, julgamento, habilitação, apresentação de recursos, adjudicação e homologação. O exame das propostas se inicia com a abertura dos envelopes, a análise das propostas conforme o edital, o descarte ou a desclassificação daquelas desconformes com o edital e a classificação, isto é, a ordenação das propostas em vista das vantagens que oferecem. Portanto, em um primeiro momento será verificada a adequação das propostas aos requisitos do edital. Em dia e hora previamente divulgados, em sessão pública, o agente ou a comissão reunida abre os envelopes e realiza exame de conformidade das propostas com os aspectos formais e substanciais exigidos no ato convocatório. As propostas devem revestir-se dos atributos de precisão, firmeza, seriedade e não onerosidade. Oferta precisa é a que contém os requisitos mínimos para vincular o ofertante. Proíbe-se a proposta que não contenha a indicação do preço e se reporte, por exemplo, a outras, até então desconhecidas pelo licitante – como propor um preço 20% mais barato que o menor preço oferecido. A proposta deve ser firme, realizada com o propósito de obrigar o licitante caso seja declarada vencedora. Será desclassificada a oferta redigida com os termos “se me aprouver”, “se ainda tiver interesse”, por ser indicativa da ausência de firmeza. Deve ser séria, exequível, passível de ser cumprida, representativa do propósito do ofertante de cumprir o contrato, razão pela qual deverá ser desqualificada quando apresentar preços simbólicos, irrisórios, de valor zero, incompatíveis com os preços dos insumos e salários de mercado, acrescidos dos respectivos encargos. 18


A desqualificação ou desclassificação é a exclusão de proposta desconforme às exigências necessárias para sua participação no certame, ou seja, não era séria, firme, precisa ou não onerosa. Define-a Diógenes Gasparini como “ato administrativo vinculado mediante o qual a comissão de licitação desacolhe as propostas apresentadas sem o atendimento formal e fora dos termos e condições do edital”13. O artigo 59 da LGL considera desclassificáveis as propostas que I) contiverem vícios insanáveis; II) não obedecerem às especificações técnicas pormenorizadas no edital; III) apresentarem preços inexequíveis ou permanecerem acima do orçamento estimado para a contratação; IV) não tiverem sua exequibilidade demonstrada, quando exigida pela Administração; V) apresentarem desconformidade com quaisquer outras exigências do edital, desde que insanáveis. A classificação é o ato pelo qual as propostas são admitidas a exame comparativo. Segundo Diógenes Gasparini, é “ato administrativo vinculado mediante o qual a comissão de licitação acolhe as propostas apresentadas formalmente e nos termos e condições do edital”14. O art. 33 da LGL define, em número exaustivo, os critérios de julgamento das propostas, entre eles: I) a de menor preço; II) maior desconto; III) a de melhor técnica ou conteúdo artístico; IV) técnica e preço; V) a de maior lance, no caso de leilão; VI) maior retorno econômico. Licitação de menor preço – o preço é o fator de maior relevância para a escolha da proposta. O fim de cada licitação é obter a melhor proposta pelo menor custo possível15. Busca-se, em última análise, o melhor – e não o menor – preço, que pode ser analisado com base em fatores técnicos, como qualidade, rendimento produtividade etc.16. Dispõe o art. 34 da LGL que “o julgamento por menor preço ou maior desconto e, quando couber, por técnica e preço considerará o menor dispêndio para a Administração, atendidos os 13 14 15 16

GASPARINI, Diógenes. Direito Administrativo. 13. ed. São Paulo: Saraiva. 2008, p. 611. GASPARINI, Diógenes. Direito Administrativo. 13. ed. São Paulo: Saraiva. 2008, p. 611. JUSTEN FILHO, Marçal. Comentários à Lei de Licitações e Contratos Administrativos. 13. ed. São Paulo: Dialética. 2008, p. 595. JUSTEN FILHO, Marçal. Comentários à Lei de Licitações e Contratos Administrativos. 13. ed. São Paulo: Dialética. 2008, p. 595.

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parâmetros mínimos de qualidade definidos no edital de licitação”. E de acordo com o §1º do art.34 da LGL, “os custos indiretos, relacionados com as despesas de manutenção, utilização, reposição, depreciação e impacto ambiental do objeto licitado, entre outros fatores vinculados ao seu ciclo de vida, poderão ser considerados para a definição do menor dispêndio, sempre que objetivamente mensuráveis. Licitações técnicas – os tipos de licitação melhor técnica ou técnica e preço serão utilizados em serviços técnicos especializados de natureza predominantemente intelectual, serviços majoritariamente dependentes de tecnologia sofisticada e de domínio restrito, bens e serviços especiais de tecnologia da informação e da comunicação, obras e serviços especiais de engenharia, objetos que admitam soluções específicas e alternativas e variações de execução, com repercussões significativas e concretamente mensuráveis sobre sua qualidade, produtividade, rendimento e durabilidade (art. 36, §1º, incisos I a IV da LGL). Dois problemas envolvem as licitações técnicas: a fixação de critérios objetivos de julgamento e o peso a ser atribuído às propostas técnica e comercial17. O edital deve prever exaustivamente os critérios de julgamento das ofertas técnicas, sem privilegiar o subjetivismo, mediante o estabelecimento de parâmetros objetivos de avaliação das propostas, que permitam pontuar as ofertas segundo suas utilidades para a Administração Pública. A licitação melhor técnica deveria ser critério de julgamento guiado exclusivamente pela escolha da melhor tecnologia utilizada pelo proponente na execução do objeto licitado, conforme determina o artigo 35 da LGL. A capacidade e a experiência do licitante serão verificadas por meio de apresentação de atestados de obras, produtos ou serviços previamente realizados. 17

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JUSTEN FILHO, Marçal. Comentários à Lei de Licitações e Contratos Administrativos. 13. ed. São Paulo: Dialética. 2008, p. 608.


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