E
u comecei a imprimir livros na esperança de produzir algo que tivesse o direito legítimo de ser considerado bonito e, ao mesmo tempo, fácil de ler sem prejudicar a visão ou distrair o intelecto do leitor pelas formas singulares das letras. Eu sempre fui um grande admirador da caligrafia da idade média e pelos primeiros livros impressos que os substituíram. Assim, os livros do século XV, belos simplesmente com a tipografia sem a adição de ornamentos, possibilitaram que muitos deles fossem reproduzidos de forma abundante. E essa foi a essência da minha idéia, produzir livros que fossem um prazer para os olhos em vez de simples peças impressas. Olhando minha aventura deste ponto de vista, achei que era necessário considerar as seguintes coisas: o papel, a forma dos tipos, o espaçamento das letras, as palavras e linhas e, por último, a ordem da “mancha” na página. No decorrer dos acontecimentos considerei necessário que o papel fosse feito à mão por motivos de durabilidade e aparência. Seguramente seria uma economia duvidosa limitar a qualidade do papel pelo preço, assim só pensei nos benefícios do papel artesanal. Com esta ideia na cabeça cheguei a duas conclusões: a primeira é que o papel deveria ser totalmente de linho (atualmente muitos papéis artesanáis são de algodão) e que este deveria ter uma espessura considerável. A segunda é que o papel tinha que ser estendido e não tecido(elaborado em um molde com fibras visíveis) e que as linhas causadas por estas fibras não fossem muito fortes, para dar ao papel uma aparência estirada. Assim que me detive na prática da produção de papel no século XV e tomei como exemplo um papel Bolognese de 1473. Meu amigo Mr. Batchelor, de Kent, observou minhas recomendações de uma forma satisfatória e produziu para mim um execelente
papel que eu venho usando. O próximo passo eram os tipos de letra. Mais por instinto do que por idéia préconcebida eu optei por um tipo romano. O que buscava era uma letra de forma pura, severa, sem adornos desnecessários. Sólida, sem variações nos traços, que o principal ponto fraco dos tipos modernos e que tornam difícil a leitura. Um tipo que não fosse lateralmente comprimido, como os tipos mais recentes nascidos das exigências comerciais. E só existia um recurso para tomar como exemplo da fonte romana perfeita que eu buscava, estes eram os traçados do grande impressor veneziano do século XV Nicholas Jenson. Estudei o tipo de Jenson com muita atenção, fotografando em grande escala, e desenhando diversas vezes antes de criar meu próprio tipo. Minha idéia foi resgatar sua essência e, por isso, não quiz realizar uma mera cópia. Na verdade meu tipo romano, especialmente em caixa baixa, tende mais para o gótico que o tipo de Jenson. Depois pensei que era necessário dispor também de um tipo gótico e tomei como tarefa redimir o tipo gótico dessa carga de ilegibilidade com que é comumente associado. E me dei conta de que esta objeção não poderia se opor aos tipos
surgidos durante as duas primeiras décadas da imprensa: os tipos de Schoeffer, em Mainz, de Mentelin em Estraburgo ou de Gunther Zainer em Ausburgo, evitavam os traços terminais pontiagudos e a compreensão das letras que faziam alusão aos impressores posteriores. Somente os primeiros impressores (que seguiam as praticas de seus antecessores, os escribas) faziam uso liberal das contrações e abusavam do uso de ligaduras, que, por outro lado, eram bem conhecidas para o compositor. Eu evitei todas as contrações exceto para o símbolo “&” y a maior parte das ligaduras, deixando somente as necessárias. Penso que a letra gótica que desenhei é tão legível como qualquer romana e incluo, em honra a verdade, que eu a prefiro. O tipo é do tamanho chamado “Gran Premier” que mais tarde, devido a necessidades de Chaucer (um livro em duas colunas), eu vi a necessidade de elaborar u tipo gótico do tamanho “Pica”. As marcas de todos estes tipos foram gravados com grande inteligência e maestria por Mr. E. P. Prince, seguindo meus desenhos de forma satisfatória. E agora passamos ao espaçamento: primeiro, o “olho” do tipo deve corresponder-se o máximo possível com o “corpo”, para evitar espaços brancos entre as letras, e o espaço lateral entre as palavras deve ser a) não mais do que o necessário para distinguir claramente a divisão entre palavras e b) deve ser o mais igualado possível. Os impressores modernos, incluindo os melhores, prestan pouca atenção a estes dois requisitos essenciais da correta composição e nos trabalhos dos menos escrupulosos com o espaçamento aparecem horrorosos “rios” de linhas correndo entre as páginas, algo que desfigura qualquer impressão decente. Terceiro, o espaço em branco entre as linhas não deve ser excessivo; a prática moderna da entrelinha deve ser usada tão pouco quanto for possível e nunca sem uma rzão de peso, coo definir uma parte concreta do impresso. O único entrelinhamento que eu me permito é uma entrelinha fina no meu tipo gótico de tamanho
“Pica”; Em Chaucer e nos livros de duas colunas utilizo uma entrelinha de “cabelo” e nenhum nos livros impressos em “dezesseis avos”. Por último, mas não menos importante, vem a instituição da “Mancha” na página. Geralmente sempre se deixa a margem da lombada mais estreita, e a da cabeça maior, a de corte ainda maior e a do rodapé amior de todas. Esta regra não foi abandonada desde os livros medievais, uma vez que eles foram manuscritos ou impressos, no entanto os impressores modernos a transgridem sistematicamente; até tal ponto em que se produz a contradição de que a unidade do livro não seja a página, senão duas. Um amigo, o dono de uma das nossas mais importantes bibliotecas privadas, me disse que depois de realizar alguns cálculos cuidados chegou a conclusão que na prática da época medieval havia uma diferença de 20 por cento de margem a margem. Agora este assunto do espaçamento e a instituição da mancha adquire uma importância crucial na produção de belos livros; se estas premissas forem levadas em conta, fará com que um livro impresso com um tipo regular seja visto de uma forma agradável e, por outro lado, sua omissão pode estragar o efeito do melhor tipo. Era natural que eu, um decorador de profissão, prestasse atenção muito especial na ornamentação dos meus livros; sobre isto eu tenho que dizer que sempre tenho em mente a necessidade de fazer da decoração uma parte integrante da página. E para isso disponho de magníficos e inimitáveis gravuras em madeira que adornam muitos dos meus livros e adornaram Chaucer, que se encontrar agora terminando de desenhar meu amigo Sir Edward Burne-Jones e que não somente são uma série de desenhos imaginativos e bonitos, mas a mais harmoniosa decoração possível que pode conter um livro impresso.
William Morris
Objetivos na fundação da Kelmscott House, Upper Mall, Hammersmith, 11 de novembro de 1895