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Sobre o novo jornalismo

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Gay Talese

Revelando um mundo diferente Por Tiago Lobo

“A

ponte para os objetos o aparelho da sua atenção, para descobrir, neles, algo que não foi visto, nem dito por ninguém”. Quando Gustave Flaubert disse esta frase mal imaginava que serviria de ponto de encontro para jornalistas como Gay Talese, Truman Capote, John Hersey, Joseph Mitchell e Eliane Brum. A compilação de posfácios dos livros A Vida que Ninguém Vê (Eliane Brum, Arquipélago Editorial, 2006), A Sangue Frio (Truman Capote, Companhia das Letras, 2004), Hiroshima (John Hersey, Companhia das Letras, 2002), Fama e Anonimato (Gay Talese, Companhia das Letras, 2004) e O Segredo de Joe Gould (Joseph Mitchell, Companhia das Letras, 2003)

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28 de Maio de 2012

trata do jornalismo da mais alta qualidade. Ao invés de render-se a pura colcha de elogios, os textos rompem a idolatria e dão lugar a um rico exercício do Modus Operandi daqueles que poderíamos chamar de contadores de histórias de não ficção.

M

atinas Suzuki Jr nos revela um John Hersey que teve a sagacidade de pegar emprestada uma partícula da Bomba Atômica que atingiu Hiroshima e utilizá-la em um texto que roubou 90% das páginas, dos cerca de 300 mil exemplares, da revista New Yorker de 31 de agosto de 1964. Para o inglês Ben Yagoda, professor de jornalismo na universida-

de norte-americana de Delaware, o chamado jornalismo literário começa com Hersey. Parafraseando Yagoda, “Hersey tinha o olho e a orelha de um romancista e a ética de trabalho de um repórter”, sendo a pessoa perfeita para misturar jornalismo com literatura. No entanto, o mais marcante de Hiroshima é a capacidade de jogar luz sobre um assunto que vivia nos esgotos da ignorância da época. A reportagem causou desconforto no governo americano, mas foi decisiva para abrir os olhos da sociedade para armas de destruição em massa. A repercussão e o potencial de atingir diversas camadas de leitores, e fisgá-los para dentro dos dramas de


John Hersey

Joseph Mitchell

Truman Capote

seis sobreviventes personalizados no relato, só atingiram seu ápice por terem como aliado exaustiva apuração, redação impecável e olhar humano. Hersey deu voz e vida a personagens com quem seus leitores, até hoje, podem se aproximar e sofrer, torcer e se colocar no fato. Já Eliane Brum, ao apresentar A Vida que Ninguém Vê retira o leitor da sua zona de conforto de textos lugar-comum, que recheiam jornais diários, e o convida a ousar. Tudo para descobrir grandes histórias e personagens em gente simples, como ela fez em suas reportagens. E como John Mitchell fazia ao se apegar a personagens e situações prosaicas, como um Pica-pau martelando o tronco de uma árvore. É isso que nos conta João Moreira Salles, no texto que encerra a obra da edição brasileira de O Segredo de Joe Gould. Mitchell era um detalhista que inspirou nomes como Gay Talese, Truman Capote, Tom Wolfe e, porque não, Eliane Brum? Seu alto grau de detalhamento buscava destilar a alma dos protagonistas de suas histórias. Mesmo que esses personagens fossem uma pequena cidade, um bar, ou um objeto inanimado. O talento vinha do exercício da paciência, do convívio, e da sua principal virtude: saber ouvir. Assim como Gay Talese fazia, e ainda faz.

Humberto Werneck descarna o elegante autor de “Frank Sinatra está resfriado” em um perfil que traça o DNA do repórter. Aquilo que Gabriel García Marquez definiria como uma “paixão insaciável que só se pode digerir com a confrontação descarnada da realidade” Esse confronto com o real foi exercício diário para Talese e, também, para Trumam Capote. Matinas Suzuki Jr, de novo, analisa o autor de A Sangue Frio e suas especificidades e polêmicas. Mas descobre que Capote, que não era necessariamente um repórter, possuía precisão invejável em suas apurações. Seus métodos também se assemelhavam a Mitchell e Talese: não usava gravador ou bloco, pois achava que intimidava o entrevistado, e sujava os sapatos — pois lugar de repórter é na rua. Trabalhava duro em suas apurações e entrevistava diversas fontes, inúmeras e repetitivas vezes, até dominar, quase que por completo, o assunto de sua atenção. Todos estes escritores de reportagens decidiram não baixar a cabeça aos maneirismos pasteurizados das fábricas de montagem de notícias que chamamos de redações. Eles beberam direto da fonte e encontraram um caminho unindo o antigo ao novo, valendo-se de espólios deixados por escritores como Edgar

Allan Poe, Guy de Maupassant e Honoré de Balzac. O novo jornalismo nada mais é do que, como o jornalismo investigativo, um nome pomposo dado a repórteres que cumprem bem o seu papel. O de fazer jornalismo bem feito. E tal técnica é mais velha do que se pensa: não começou, exatamente, com o Hershey em 1964, com seu relato sobre Hiroshima publicado em edição especial da revista New Yorker. É só lembrarmos que Honoré de Balzac e Edgar Allan Poe, falecidos respectivamente em 1850 e 1849, entre tantos outros gênios da literatura, foram jornalistas. Allan Poe sendo considerado, inclusive, o criador da editoria policial. Atualmente “a diferença entre literatura e jornalismo é que o jornalismo é ilegível e a literatura não é lida”, segundo Oscar Wilde. Mas quando se misturam as duas coisas, se descobre a teoria do escritor argentino Mempo Giardinelli, onde “as pessoas jamais deixarão de se interessar pelo que lhes contam bem contado”. Diria que torço para que os jornalistas jamais deixem que se interessar de contar uma história... Bem contada. Para aquele que buscar uma espécie de caminho das pedras para o bom repórter, estes textos são, sem dúvida alguma, um ótimo atalho para a riqueza da reportagem. 28 de Maio de 2012

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