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Entrevista

FRANCISCO AMORIM TIAGO LOBO

“Todo jornalismo deveria ser investigativo” O repórter de ZH falou sobre sua experiência, riscos da profissão, e o que está se pensando em termos de jornalismo investigativo para a América Latina

Q

uem olha para o homem de cabelos cacheados, óculos, calça jeans e camiseta, tênis alto esporte e mochila nas costas, mal imagina que Francisco Amorim gosta de um bom rolo — em sua carreira como jornalista já levou a polícia a reabrir inquéritos, denunciou esquemas de corrupção e tocou o terror em um sem número de contraventores e criminosos do estado do RS. Suas principais armas são dedicação, inteligência e cautela. Francisco, ou apenas Chico, é formado em jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e tem passagem pelo Jornal NH, do Grupo Sinos, e pelas áreas de assessoria de imprensa e economia, mas foi na editoria de policia de Zero Hora, onde trabalha desde 2005, que achou o seu lugar. A ideia de palestrar para alunos da Faculdade de Comunicação Social (Famecos,) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), surgiu durante um bate papo entre Chico e o professor Alexandre Elmi, quando conversavam sobre a experiência do repórter em um seminário de Jornalismo Investigativo promovido pela FNPI (Fundação do Novo Jornalismo Ibero-Americano), com sede em Bogotá, Colômbia. O repórter é prático: abriu a conversa dizendo que “todo jor-

Câmera oculta, tendo cara de pau, é fácil de fazer

nalismo deveria ser investigativo, pois, em tese, todo repórter não deveria aceitar o primeiro discurso que recebe”. Também criticou o fato do jornalismo investigativo brasileiro e latino-americano ser muito limitado ao uso de dossiês, e revelou que o que se discute atualmente é um jornalismo calcado em investigações próprias, o que Gay Talese e outros gurus do New Journalism chamariam de “legworking”. A este fato, no Brasil, atribui o jornalismo de dossiês a um passado ditatorial onde repórteres eram presos, mortos e se acostu-

maram com a repressão. No entanto, acha que isso não traz um diferencial competitivo. No seminário da FNPI, que reuniu 22 jornalistas de 10 países sob orientação da jornalista Mónica Gonzáles, diretora do Centro de Investigação Jornalística do Chile (CIPER) e recentemente agraciada com a 7ªed do prêmio Casa América Catalunya para a Liberdade de Expressão, o norte foi buscar respostas sobre como fazer este jornalismo, fugindo do chamado denuncismo e câmeras ocultas. Uma das conclusões é que a internet facilita e aparece como Não Veja

/ 21 de maio de 2012


uma grande aliada do jornalismo investigativo e que, provavelmente, servirá de diferencial para cobrar por conteúdo online em um mercado da cultura gratuita. Outro ponto debatido foi o fato da necessidade de buscar protagonistas para ilustrarem as histórias de reportagens sobre esquemas de corrupção, fraudes e etc. Chico acredita que não ficar apenas na burocracia do esquema corrupto e mostrar o que é feito com o dinheiro ou bens ilegais adquiridos é um diferencial que torna a reportagem mais interessante para o leitor. Mas avisa que o trabalho de investigação não é feito em um dia ou dois. Uma das saídas indicadas no seminário da FNPI para driblar a pressão do tempo no jornalismo diário foi a melhor utilização da jornada de trabalho do repórter, onde o tempo vago entre um café e outro se torna essencial para investir em reportagens que exijam um grau maior de apuração. Por fim, mas não menos importante, os 22 jornalistas ainda conversaram sobre o que chamam de “Planos de Contingência”: medidas de segurança adotadas por repórteres que partem para apurações perigosas ou que envolvem risco de morte. “Graças a Deus eu nunca precisei usar o meu”, brinca o repórter, que conta com um plano simples. Informa um editor sobre cada passo de uma apuração de risco, conta com o auxílio de um motorista, com quem também divide informações, mantém poucas fotos e dados pessoais em redes sociais e deixa instruções para o caso das coisas saírem do controle. Quando indagado sobre como lida com a repercussão, e vítimas, de suas matérias o repórter explica que “uma coisa é ilegal e outra coisa é imoral, é o grande dilema

fia dos Táxis em Porto Alegre, por exemplo, após a publicação, Chico ficou um bom tempo sem entrar num Táxi. Também foi nessa época que pediu que sua foto fosse retirado do expediente do site de Zero Hora. “É bom ter um pouco de reserva, mas não dá pra ficar paranoico”. Curiosamente o repórter revela que, em toda a carreira, nunca foi processado ou recebeu um pedido de direito de resposta por parte de nenhum membro de esquemas que desbaratou. Sobre utilizar câmeras ocultas, o repórter explica que se baseia na lei, e mostra o relógio com câmera que leva preso ao pulso. O acessório foi comprado pelo jornal, por R$ 200,00. O mesmo aparelho foi utilizado para gravar as vendas de suplementos ilegais em acadedo repórter’’. Para ele ao invés mias gaúchas, que culminou em de apenas trazer uma denúncia uma reportagem que denunciou a matéria precisa avançar e mos- diversos estabelecimentos que entrar os motivos que propiciam a ganavam o consuidor dizendo que tais produtos não eram nocivos à fraude ou irregularidade. Chico explica que, para ele, jor- saúde e seriam, em breve, liberanalista não pode criar vínculos de dos pela Agência Nacional de Viamizade com suas fontes e alerta gilância Sanitária (ANVISA). Chico aproveitou o momento que toda informação passada para o repórter tem, sempre, um inte- para dividir uma novidade: Zero resse por trás. Também revela que Hora criou recentemente um nú“nenhum repórter de polícia deixa cleo de jornalismo investigativo, com o objetivo de produzir apurade ter fontes no submundo”. Quando alunos citam o caso Veja ções próprias e reportagens com x Cachoeira Chico esquiva: com a maior fôlego. As dicas que deixa para futuros cautela de um repórter acostumado a trabalhar com informações jornalistas que queiram ingressar concretas, oriundas de apuração, neste universo, quase sherlockiano, ele avisa que só acompanha o caso são criar personagens factíveis para como leitor e que não leu os inqué- imergir no mundo da pauta a ser ritos para tirar conclusões, mas apurada, checar as informações com ressalta que se uma revista ou jor- mais de uma fonte, e saber que “não nal é pautado por uma fonte, exis- pode ser petulante a ponto de achar que é mais esperto que os outros”. te um problema grave. O repórter acredita que o jornaJá calejado por ameaças, o repórter conta que toma alguns cuida- lismo esteja voltando as suas oridos, mas para ele isso já é normal. gens: contar boas histórias. Então, Na reportagem que fez sobre a má- que continue neste caminho.

uma coisa é ilegal e outra coisa é imoral, este é o grande dilema do repórter

Não Veja

/ 21 de maio de 2012


Entrevista jornalismo investigativo