Tecn. de Reportagem e Formas Narrativas
Junho de 2011 / Famecos / PUCRS
Entrevista
O desejo que virou realidade O diretor de redação do Correio do Povo fala do seu início na profissão e perspectivas para o jornal impresso aos alunos da Famecos
TIAGO LOBO
“Eu tive um sonho e corri atrás dele, me esforcei pra realizar”. A frase é do gaúcho, de Porto Alegre, Telmo Ricardo Borges Flor, há 14 anos diretor de redação do jornal mais tradicional do estado, em entrevista aos alunos da Famecos para a cadeira “Técnicas de Reportagem e Formas Narrativas”, na noite de 6 de junho. Telmo conta que sempre teve o objetivo de trabalhar no Correio do Povo, pois na sua época o jornal era a referência de qualidade e pela relação com o ambiente da redação desde cedo: Aos 15 anos ele trabalhava como office boy e todos os meses ia até o jornal para pagar as contas da empresa Macosul, uma anunciante. Trajetória de sucesso Quando se formou em jornalismo pela PUCRS, em 84, já trabalhava no Ministério da Agricultura, no setor administrativo. Só depois de formado que passou para a assessoria de imprensa do órgão público pois o chefe de lá, que hoje é repórter do jornal, dizia que antes de se formar ninguém entrava na assessoria. “Veja o respeito que se tinha mesmo numa assessoria de imprensa”, comenta. Então surgiu a oportunidade de trabalhar na Rádio Guaíba: Telmo conheceu um editor, Floriano Soares, que se interessou pelo seu texto e lhe deu um cargo de redator na Guaíba. Segundo ele, “era uma escola”. O jornalista conta que na época devia receber em torno de
Telmo Flor dirige o Correio do Povo há 14 anos
uns R$600,00. Mas a rádio só pagava um vale de 50 reais por semana, o que dava uns R$200,00 por mês. “Houve um sacrifício mas aprendi muito nesse período.”. Quando o Correio reabriu, em 86, ele já estava na ponta da fila pra trabalhar no jornal, então foi contratado como repórter. “Foi uma conquista por sorte, porque alguém me conheceu e gostou de mim, e por dedicação porque aceitei ganhar pouco pra trabalhar muito”, lembra. Teve uma época em que ele trabalhava em 3 lugares. Das 8h da manhã às 13h no Ministério da Agricultura. Das 13 às 18h na rádio e das 18h até a madrugada no jornal.
Nessa época Telmo Flor abriu mão do cargo público para se dedicar ao jornalismo impresso. “Eu era funcionário público concursado, o que é relevante porque ninguém abre mão do serviço público no Brasil, e pedi demissão chocando família e amigos”. Pouco tempo depois saiu da Guaíba. Por dentro do sonho Já no No Correio do Povo, como repórter de política conheceu o editor José Barrionuevo. “Um grande repórter, mas um bagunçado de primeira marca”, relembra. Na hora de organizar as páginas, Barrionuevo editava cor-
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rendo, e acabava atrasando o trabalho dos colegas. Então Telmo entregava sua matéria e precisava dar uma apressada pro fechamento do jornal. “Eu vi que se eu desse uma força nisso, ele fechava as páginas mais rápido, nos pautava e eu podia ir pra casa”. Aí ele percebeu que se selecionasse as matérias demorava ainda menos. Mais umas semanas e comecçou a entregar as páginas prontas sob orientação de Barrionuevo. “Assim que aprendi a editar” revela. Aí aconteceu uma crise no jornal onde saíram várias pessoas e a editoria de economia ficou sem editor. Como Telmo já tinha feito algumas matérias pra economia, e sabia editar foi chamado pra função. Apesar de nunca ter o objetivo de exercer cargos de chefia, Telmo passou pra chefe e logo diretor de redação, cargo que ocupa até hoje. Ele diz que seu maior desafio é fazer a coisa certa todos os dias e revela que o seu trabalho consiste em propiciar condições pra que o jornal saia sempre, regendo a equipe de tal forma que os esforços tornem o jornal melhor a cada edição. Tais desafios variam desde achar uma manchete em um dia fraco, uma boa foto e e etc. Telmo Flor vê o Correio do Povo como um produto “enxuto e eficiente como jornal”, mas admite que ele precisa se transformar, principalmente ampliando a atuação na internet. Revela que além das máquinas de impressão adquiridas pelo jornal no ano passado, o próximo investimento será em equipamento de informática. Sobre os rumores do Correio do Povo ter planos de lançar um novo jornal, Telmo revela que “essa possibilidade sempre
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existe” e que eles têm um plano pronto e guardado pra quando for oportuno e necessário, sem data ou previsão. Quando questionado sobre o fim da era dos jornais impressos, por causa da internet, Telmo é otimista e defende que o jornal impresso te dá as notícias selecionadas e organizadas. Diz ainda que “ouço essas previsões sobre a internet desde os anos 90. Quem produz jornalismo ainda são os veículos tradicionais. Fazer reportagem custa caro.” A má notícia a respeito disso é que os jornalistas não sabem quando o jornal vai acabar e qual será o futuro do jornal na internet. A boa é que o concorrente também não sabe, para ele “é tudo chute”. A ética Telmo se mostra adepto da teoria de Cláudio Abramo, de que a ética não é necessariamente jornalística, mas a ética do cidadão. “É claro que isso é um exagero dele, mas o fundo é verdadeiro, tirando questões técnicas. A ética é a mesma, a ética do cidadão pensando nos outros e na consequência dos seus atos”. A primeira lição de ética que aprendeu foi de que não existe uma receita, pois cada caso é um caso. Quando a Governadora Yeda Crusius colocou os netos no portão, Telmo conta que optou por não dar a foto das crianças. Mas ressalta que fez isso com os netos da governadora e com os netos de miseráveis, como uma menina de caxias, em 2010, que fora violentada e os jornais da região não davam o nome mas davam um jeito de mostrar o local onde tinha ocorrido. “A minha consciência diz que agi certo, e tenho dúvidas se
foi uma decisão jornalística. Fiz isso por causa das crianças que eu nem conheço”. Consultado sobre a ética em matérias investigativas, Telmo revela que considera ético, à grosso modo, aquilo que o jornalista consegue fazer sem pisotear a profissão. Frisa que jornalistas não mentem e que uma notícia obtida a partir da mentira é algo a ser muito bem examinado. Reconhece que existe a mentira justificável, mas a trata como exceção, por exemplo, quando o interesse público entra em jogo. Para Telmo tal interesse público justifica certas coisas, mas isso é delicado. “Muitas pessoas confundem interesse público com interesse do público”, explica. Questionado se faria algo diferente Telmo é enfático ao dizer que não, pois tudo para ele é uma conquista. E sobre seus sonhos e sentimentos de realização o diretor de redação revela que pensa que só estamos realizados quando estamos mortos. Ele sonha em ver o jornal melhor, com colegas mais bem remunerados, mais leitores e revela que tem vontade de escrever um livro. Afirma ainda que pretende continuar trabalhando até o dia que puder, como Barbosa Lima Sobrinho, que ficou até os 103 anos na redação do Jornal do Brasil. Como conselho para futuros repórteres, o diretor de redação do Correio do Povo informa que tinha o desejo de ser jornalista e que o resto foi uma consequência da maneira como trabalhou e avisa: “Esperam que você faça uma pauta, mas faça essa pauta melhor do que outro faria, em qualquer nível da tua carreira”. Por Tiago Lobo