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L'EUPHORIE (PARTE DOIS)

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CAPÍTULO TRÊS


L’EUPHORIE

III.

Rostos cheios de emoções, depositando suas expectativas em mim.

O clima de agitação pairava em meio às caravanas do circo naquela manhã de terça-feira. Podia-se ouvir os passos apressados e sons de portas abrindo e fechando pelas caravanas, na esperança que tudo ficasse organizado e pronto até a hora marcada do encontro. Nos aposentos de Cain, o coelho tentava mediar a situação das ratinhas enquanto também terminava de se arrumar. — Ai, Cain! Isso dói! — Lili choramingou e olhou feio para o mais velho. — Se você ficasse parada como eu pedi não iria doer tanto. — Respondeu o coelho enquanto finalizava a trança no cabelo da ratinha. Ela choramingou mais alto e se balançou no colo do coelho, fazendo birra. Cain suspirou. — 45 —


CAPÍTULO TRÊS

— Lin, conseguiu se vestir sozinha? — Sim... — Saiu do provador, passando as patinhas pelo tecido do vestido. — Mas não acho que esse vestido vai combinar para hoje... — Eu disse que o azul-bebê era melhor. — Lili disse olhando de lado para a irmã. Cain fez uma cara desgostosa, mas não deu corda para nenhuma das duas. Sabia que uma única palavra errada iria causar uma discussão desnecessária sobre cor de roupa e não estava precisando disso à essa hora da manhã. Um grunhido o tirou de seus pensamentos na mesma hora. — Ainda tendo uma crise interna? — Olhou para a cama onde repousava um certo carneiro. Damon olhava pensativo para o teto da caravana enquanto ajeitava a cabeça no travesseiro macio. Estava ansioso, como sempre. Além do que aconteceria no dia atual, ainda pensava sobre o ato inesperado de Nelian no último jantar. — Acha que Nelian está bem? — Desviou o olhar do teto para seu namorado. — Não é algo que eu esteja pensando agora, mas espero que sim. — Disse concentrado no cabelo da ratinha em seu colo. — Eu não iria querer que ele causasse alguma cena hoje. — 46 —


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— As vezes é muito para a cabeça dele... — Que cabeça pequena, então. As gêmeas riram da conversa, mesmo Damon tendo certeza de que o comentário de Cain não tinha sido em tom de piada. — Prontinho, Lili, você está uma princesinha agora. — Guiou a ratinha para poder ver seu reflexo no espelho. — Oh! Que lindo, Cain! — Passou as patinhas pelo cabelo recém feito e se virou com um sorriso no rosto. — Muito obrigado! — De nada. — Sorriu abertamente. Adorava quando suas pequenas estavam felizes. — Tudo pronto com você, Lin? — Sim, já terminei de calçar minhas sapatilhas! — Ótimo. — Olhou de novo para o namorado deitado miseravelmente na cama. — E você, senhor espaçoso, já está arrumado? — Desde cedo. — Damon riu e o coelho o acompanhou, pois sabia como o mágico era pontual com seus horários. — Então levante seus cascos e vamos lá pra fora. — Se virou para as gêmeas. — Vocês duas também! Vamos, vamos. Todos pra fora. Depois de três resmungos em conjunto, todos se juntaram para sair da caravana. — 47 —


CAPÍTULO TRÊS

Em um trailer mais afastado dos demais, Nelian já estava de pé em sua caravana, cuidando da sua pele diante do grande espelho de sua penteadeira. Tinha que estar belo para ver o promotor, não queria causar uma má impressão. Por um breve momento, sua visão ficou turva e seus pensamentos vagaram para longe, enquanto ouvia um sussurro distante em seu ouvido. No entanto, ele balançou a cabeça para afastar a sensação estranha, tentando ignorá-la. Logo, Nelian olhou para um canto do quarto e suspirou pesadamente antes de continuar a se preparar. — Você é o melhor, Nelian. — Encarou sério o próprio reflexo. — O único possível. “Você pode ser mais.” Ouviu bem ao pé do seu ouvido. Se levantou assustado da cadeira enquanto olhava ao redor do ambiente, tentando identificar de onde vinha o som, mas não tinha ninguém além de si ali. Riu com uma pitada de medo. — Só faltava essa... Agora estou ouvindo vozes, que ótimo! — Disse sarcástico, e nervoso. “Você é mais do que todos eles.” Ouviu novamente, porém mais perto ainda. Parecia ecoar dentro de sua cabeça. — 48 —


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Sentiu os batimentos do seu coração acelerarem de forma atípica e uma camada fina de suor se formar na sua testa. Tinha alguma coisa errada com ele, com aquele quarto. Seus pelos se arrepiavam e alguma força desconhecida o fazia querer se mover. Se mover para perto. Mais perto daquilo. Ofegou sofrido quando uma tontura repentina o atingiu. Colocou as patas na cabeça e se agachou lentamente no chão, na tentativa de se estabilizar e se acalmar, mas nada parecia funcionar. O quarto parecia cada vez menor a cada segundo que se passava, como se tudo fosse o engolir a qualquer momento. Ou tivesse virado um gato filhote preso dentro de uma caixa muito apertada. Sentiu lágrimas molhando seu rosto e tentou limpá-las para não desmanchar sua maquiagem, mas elas caíam sem parar como uma torneira recém ligada. O ar o pareceu faltar na mesma hora, como se alguém tivesse apertando seus pulmões de forma agressiva ou lhe apunhalando pelas costas. Ele olhou novamente pro canto do quarto, onde repousava a caixa que mais parecia o encarar de volta. Seus olhos doíam como se fossem sair de seu rosto na primeira oportunidade. Era aquele maldito objeto o tentando. Ou o que tinha dentro dele. Não é possível. Não é possível. — 49 —


CAPÍTULO TRÊS

“Você pode ser mais, Nelia a an “ Nelian. Nelian. Nelian. Você pode ser mais.Você pode ser mais. Você pode ser mais.Você pode ser mais.Você pode ser mais. Você pode ser mais. Você pode ser mais. Você pode ser mais. Você pode ser mais. Você pode ser mais. Você pode ser mais. Você pode ser mais. Você pode ser mais.Você pode ser mais. Você pode ser mais. Você pode ser mais.Você pode ser mais. Você pode ser mais. Você pode ser mais.Você pode ser mais. Você pode ser mais.Você pode ser mais.Você pode ser mais. Você pode ser mais. Você pode ser mais. Você pode ser mais. Você pode ser mais.Você pode ser mais.Você pode ser mais. Você pode ser mais. Você pode ser mais.Você pode ser mais. Você pode ser mais.Você pode ser mais.Você pode ser mais. Você pode ser mais. Você pode ser mais.Você pode ser mais. Você pode ser mais.Você pode ser mais. Você pode ser mais. Você pode ser mais. Você pode ser mais.Você pode ser mais. Você pode ser mais.Você pode ser mais.Você pode ser mais. Você pode ser — 50 —


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— Nelian! Nelian! Batidas fortes na porta o fizeram voltar a respirar novamente e poder escutar tudo com mais clareza, como se tivesse sido tirado do fundo do mar. Tentou controlar a respiração desregulada enquanto observava o seu estado. Encolhido no chão, suando como uma cachoeira, suas mãos tremendo, totalmente descabelado e o rosto inchado após chorar tal qual um bebê. Patético. — Nelian, pare de me ignorar! — Mais batidas foram ouvidas fazendo o felino lembrar que tinha uma pessoa lá fora. Era Kali. Uma Kali muito brava. — Sinceramente... Olha, eu não sei o que você tá fazendo mas eu vou entrar! O desespero cresceu em seu peito em lembrar o jeito que estava. Não podia de jeito maneira deixar que a gatinha o visse. — E-Eu estou aqui, calma! — Se levantou rapidamente e foi em direção a porta, mesmo que ainda estivesse um pouco tonto e com as pernas trêmulas. — Eu só estava... Dentro dos meus pensamentos de novo, isso! Estava me imaginando em algum cenário fantasioso, por isso não respondi. Ai, que bobagem a — 51 —


CAPÍTULO TRÊS

minha, ha ha! — Riu forçadamente. Conseguiu correr e empurrar a porta antes que Kali a abrisse, ouvindo um grunhido frustrado do lado de fora. — Ei! Por que não me deixa entrar? — Exclamou impaciente. — Oras, porque não! Ainda estou me arrumando, então vá atentar outra pessoa! — Como assim você ainda está se arrumando? Falta menos de 20 minutos pro horário marcado com aquele boboca. — A gatinha tentou abrir de novo a porta, mas Nelian a impediu de novo. Olhou para o relógio e realmente faltava pouquíssimo para o encontro. Bateu a cabeça contra a porta em decepção. Era só o que faltava. Além de ter tido as piores sensações da sua vida de uma vez só, ainda havia feito isso por um longo período de tempo sem nem perceber. Queria dar um soco na sua própria cara, mas se absteve. — Eu tive alguns... contratempos, só isso. — Ponderou. — E eu sei ver a hora, tá bom? Estarei pronto em um segundo. — Agh, seu gato sarnento! Todos já estão prontos aqui fora! Venha logo! — Disse e logo foi embora resmungando, e desistindo de entrar na caravana. — 52 —


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Respirou fundo para não perder a cabeça. O dia não tinha como piorar mesmo.

O som alto do motor tirou a atenção de todos que se concentravam no portão central do festival, ansiosamente aguardando pelo investidor que saía do carro de luxo com uma expressão tranquila. Beliel Vassago. Uma raposa conhecida que se candidatou a ajudar o festival crescer há muito tempo atrás, dando conselhos para os donos atuais e depois de um período dando até mesmo ajuda financeira após ver o sucesso lucrativo que o evento trazia. Coisa de animais de terno e gravata, não podem ver uma chance de ganhar dinheiro que já se agarram fortemente nela. Tsk. Mesmo com seu jeito engomado e suas piadinhas as vezes um tanto quanto sem graça — Viktor que o diga — era impossível negar que as opiniões dele traziam prosperidade para a integridade do circo, então a “visão de mundo” da raposa tinha de ser bem vinda, mesmo que as vezes não sendo querida. Beliel tirou os óculos escuros que usava e deu um assobio impressionado ao observar os artistas — 53 —


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reunidos no horário estipulado. — Vejo que todos estão animados para hoje! — Abriu um sorriso de canto. — E espero que continuem assim, pois tenho diversas novidades para contar. — Disse balançando a maleta que segurava. Olhou sorridente para a cara de cada um, mas o que chamou sua atenção era algo mais abaixo deles. Mais especificamente duas pequenas ratinhas coloridas que o encaravam com seus pares de olhos enormes e cintilantes. — Olha só, o que temos aqui? — Se agachou para ficar na altura das duas e deu um sorriso de canto a canto, assustando um pouco as ratas. — Vejam se não são as coisinhas mais lindas. — Apertou a bochecha de Lili, que grunhiu de dor. — Ai, seu bobalhão! Isso dói! — Exclamou ao empurrar a mão enorme que lhe apertava, fazendo o sorriso da raposa sumir. — Por que você não pega essa sua mãozona eFoi logo interrompida por uma mão branca e felpuda que foi colocada gentilmente sobre sua boca. Olhou para cima indignada e viu Cain olhando fixamente para a raposa ainda agachada. — É uma honra tê-lo aqui conosco, Senhor Vassago. — O coelho disse tranquilamente, mesmo estando borbulhando de raiva por dentro. — É melhor — 54 —


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entrarmos para começar nossa reunião, não acha? Segurou as mãozinhas das duas ratinhas e as guiou para ficar atrás de si, longe das “brincadeiras” do investidor que agora levantava e dava batidinhas para desamassar sua roupa chique. — Claro, não vamos mais perder tempo aqui. — Sorriu e seguiu para dentro do festival, como se nada tivesse acontecido.

No grande salão do circo, os artistas se reuniam na arquibancada enquanto Beliel estava em pé no centro do palco e com os holofotes virados para si, como se fosse a atração principal. O semblante confiante da raposa se refletia em tensão nos outros, mas também com um toque de esperança que algo incrível estava prestes a ser anunciado. — Cain, quando vamos poder voltar? — Lin cutucou o coelho, com uma expressão pidona. Enquanto Lili ao seu lado bocejava e massageava sua bochecha. — A gente não quer ficar ouvindo coisas chatas de adulto. — Acredite em mim, eu também não. — Revirou a cara. — Nós vamos embora o mais cedo possível, não se preocupem. — 55 —


CAPÍTULO TRÊS

Um som de alguém tocando o microfone ecoou pelas lonas do circo. — Caros artistas, estou aqui hoje para discutir com vocês sobre nossos ganhos e perdas recentes. E fico extremamente feliz em dizer que nossos lucros estão nas alturas, graças ao talento inegável de cada um de vocês. — Apontou para todos a sua frente, sorrindo de lado. — Nossas apresentações têm encantado o público cada vez mais, e a adição das duas pequenas trapezistas trouxe um toque de leveza e fofura que o circo precisava. — Minhas meninas! — Cain gritou animado mas logo arregalou os olhos, pois não tinha a intenção de interromper Beliel. Felizmente, todos ao redor só riram da empolgação do coelho, e Damon o abraçou de lado sorridente. Sabia o quão duro o parceiro tinha trabalhado para ensinar tudo que as ratinhas sabiam sobre circo. Nelian, que estava quieto até o presente momento, interrompe a bolha de risos para de dirigir à raposa no palco. — Mas, Beliel, imagine se um de nós se destacar ainda mais? — Colocou a mão no rosto, fingindo estar pensativo. — Não seria possível conquistar oportunidades maiores, dentro e fora desse festival? — Perguntou em um tom de quem já sabia a resposta. — 56 —


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— Você está certo, querido felino. — Concordou, apontando para Nelian. — É exatamente por isso que estou aqui hoje. O gato fica de boca aberta. Será possível? Será que ele finalmente teria a chance de brilhar que ele tanto sonhou? Seus pelos se arrepiavam só de começar a imaginar. — Estarei oferecendo uma grande oportunidade a um de vocês. Uma chance de brilhar como nunca antes e conquistar o reconhecimento que merecem, não apenas dentro deste circo... — Fez uma pausa dramática, observando a feição de cada um presente. — Mas com uma apresentação própria dentro do festival! Todos se entre olhavam chocados com a notícias. Alguém ganharia um espetáculo somente para si? Era incrível mas também totalmente fora da realidade. A ansiedade e a empolgação aumentam entre os artistas, enquanto começam a vislumbrar um futuro repleto de possibilidades emocionantes que um deles poderia ter. — Não seria... muita responsabilidade para uma pessoa só? — Damon perguntou, receoso. Não conseguiria nem imaginar o pavor de ser o único a se apresentar na frente de tantas pessoas pela noite inteira. — Responsabilidade demais? Tsk. — Nelian — 57 —


CAPÍTULO TRÊS

desdenhou. — Para artistas natos, não existe coisas como “responsabilidades demais”, Damon. — Exatamente! — A raposa que observava a conversa em silêncio exclamou. — Por isso que estarei dando essa oportunidade ao artista mais talentoso daqui. Tenho certeza que ele trará mais prosperidade para nosso querido festival. E mais dinheiro também. — Sussurrou para si a última parte. Nelian cruzou os braços e estufou o peito, confiante de si. Todos no circo o achavam demais, não havia nada que ele não pudesse fazer para levar o público a loucura em suas apresentações. Tinha que ser ele. Tinha que ser. — Por isso parabenizo Damon, que irá ganhar sua própria tenda de espetáculo! Cain foi o primeiro a vibrar de alegria e a se levantar para abraçar o amado ao seu lado, que estava perplexo com a notícia. Depois do choque inicial, todos os outros deram gritos animados e envolveram o amigo em um abraço em grupo. — Damon, o melhor mágico do mundo! — Lili exclamou saltitante. — Você merece, merece demais! — O coelho repetiu diversas vezes enquanto dava selares na bochecha do mágico. — Não tem outra pessoa que mereça isso mais do que você. — 58 —


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— E-Eu ainda não entendo... — Damon disse ainda desnorteado com tudo. Não tinha noção de como havia chegado àquele momento ou até mesmo se merecia estar vivendo aquela oportunidade dada como “maravilhosa”, já que se ela fosse maravilhosa mesmo ele não estaria sentindo seu coração querer sair pela boca ou suas pernas perdendo as forças. — Você, meu querido amigo carneiro, teve a sorte grande! — Beliel apontou para Damon. — Não se preocupe com mais nada, agora com sua própria tenda você terá a maior oportunidade de todas! Fama, dinheiro, tempo livre, e tudo mais. — Oh, tempo livre? Talvez assim você vai parar de pensar tanto, Sr. Ansioso. — Cain brincou. Todos riram e Damon se encolheu com um pequeno sorriso no rosto. Infelizmente não era ele que escolhia ser ansioso, mas ficava feliz que seus amigos não se incomodavam tanto com isso. — Já chega! As expressões risonhas foram substituídas por confusão ao ouvir a voz gritando, e todos olharam para a mesma direção. Nelian se encontrava na parte mais alta da arquibancada, com o rosto vermelho e lágrimas grossas escorrendo pelos olhos. A respiração descompassada — 59 —


CAPÍTULO TRÊS

dele era visível, e parecia que ele iria explodir a qualquer momento. — Nelian? Está tudo bem? Por que está chorando? — Damon perguntou, preocupado. — Ah, por favor... — O felino riu sem humor e revirou os olhos. — Você rouba o meu lugar e agora quer perguntar se estou bem? Que gracinha. Nelian. — Eu sempre fui a estrela daqui, sempre dei meu melhor para entregar o mais perto da perfeição em todas as minhas performances. — As patas do felino tremiam, assim como meus lábios enquanto soltava todas as suas frustrações. — Nada me fazia para de ensaiar, nem mesmo chuva ou até mesmo ventania. E o público me ama! Todos sempre aplaudem de pé o grande contorcionista do circo! — Bateu as patas no chão, frustrado. Nelian... Nelian sempre viu o circo como um trampolim para alcançar voos mais altos no mundo da arte, como ele sempre sonhou. A oportunidade de transcender a caravana do circo e brilhar em grandes palcos era o seu anseio mais profundo. Agora, seu coração palpitava com a mais pura raiva e inveja. O contorcionista que costumava dobrar seu corpo em formas impressionantes, agora contorcia-se — 60 —


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em agonia interna. As flexíveis linhas do seu corpo se tornaram contornos de frustração, enquanto suas acrobacias perderam a graça habitual. A força de suas pernas não aguentaram o peso da dor em seu peito, o fazendo se ajoelhar no chão, em sinal de derrota. — Nelian, ei... Vai ficar tudo bem... — Viktor tentou consolá-lo, mas estava tudo muito abafado para o felino ouvir. Você é melhor que todos eles, e você sabe disso. O surto de Nelian foi uma dança caótica entre a agonia física e emocional. Seus movimentos fluidos se transformaram em gestos erráticos, ecoando a turbulência interna que o consumia. As cordas invisíveis que o ligavam ao circo pareciam apertar, restringindo a liberdade que ele tanto almejava. Colocou as mãos na cabeça, a sentindo latejar, e desejou que tudo aquilo acabasse. Você poderia fazer com que tudo ficasse melhor, Nelian. Somente você. Lágrimas salgadas se misturavam ao suor, escorrendo por seu rosto contorcido em desespero. Os colegas, acostumado a aplaudi-lo e elogiá-lo, agora corriam com expressões preocupadas até sua direção, testemunhando a metamorfose do artista nato em um gato de sonhos quebrados. As risadas substituídas por murmúrios de compaixão e consolos inúteis. — 61 —


CAPÍTULO TRÊS

Ele só desejava que todos sumissem dali e ele pudesse ficar em paz. Você pode fazer todos desaparecerem. Em meio a loucura da sua cabeça, o felino começou a se sentir sufocado por tudo ao seu redor. A lona gigantesca. As roupas extravagantes, porém sufocantes. A incessante conversa de seus colegas, esperando que fosse acalmá-lo. Em um pulo, Nelian empurrou quem estava perto de si, não se importando com quem era, e saiu correndo daquele local. Você sabe que é o certo, Nelian. Procurou escapar das correntes imaginárias que o mantinham preso ao circo. A lona colorida transformou-se em um cenário de desespero, e a música alegre tornou-se uma trilha sonora amarga para seus ouvidos sensíveis. Cada contorção agora expressava não apenas a flexibilidade física, mas também a sua luta interna. Ao chegar em sua caravana, o felino não esperou para entrar e se trancar dentro do local. Se encostou na porta e se permitiu escorregar miseravelmente até se sentar no chão, chorando novamente. Tinha de haver um jeito de tudo ser como ele planejava. Não podia deixar seus sonhos escaparem assim por suas patas. Não podia deixar que simplesmente tirassem o seu maior desejo e dessem para — 62 —


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para outra pessoa que não fosse ele. Era inaceitável. Observou algo brilhar pela sua visão periférica e se virou para o canto do quarto, vendo um pequeno feixe de luz sair do seu armário. Se levantou do chão com pressa e correu até o brilho em desespero e abriu o armário, se deparando com a fonte de luz. É isso. Era isso que ele precisava. Com as patas tremendo e o corpo completamente pulsando de ansiedade, Nelian pega a caixa brilhosa que parecia gritar — não, suplicar — para que fosse aberta por si. — E-Eu vou... eu vou ter tudo que eu quero... — Riu, um pouco destoado da realidade. Ouvia vozes sussurrando em seu ouvido, lhe enchendo de elogios e amassando seu ego enorme. O melhor contorcionista do mundo. O mais belo de todos. O mais amado por todos. — Sim, sim. Eu serei o melhor! Click. Click. Click. — 63 —


CAPÍTULO TRÊS

A caixa foi aberta e o felino se deparou com as que residam lá dentro. Exalavam beleza, elegância e — Então é isso? Isso que vai me fazer melhor do que todos os outros? ,Nelian.

E riu. Nelian riu como se fosse um bebê dando a primeira risada da vida. Doce e inocente. Com lágrimas escorrendo no rosto e encolhido no canto de seu armário, ele riu. Como se fosse sua última risada.

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.....

— ?? —


Você também riu, certo?

— ?? —


CAPÍTULO QUATRO


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IV.

Aquilo que é feito por amor está além do bem e do mal, beira a insanidade.

Damon esfregou os olhos e se contorceu na cama ao ouvir batidas fortes na sua porta. Olhou para o relógio em sua mesinha e se questionou o que, ou quem poderia interromper seu sono sagrado antes de seu despertador tocar. 8:34. Ele... estava atrasado? Impossível, ele sempre colocava seu despertador para às 6:00 em ponto todas as noites. Não tinha como ele ter esquecido. Imediatamente pulou da cama, quase caindo de cara no chão no processo, e foi direto para seu guarda-roupa pegar uma roupa nova quando se deparou com o móvel totalmente intocado, como se não tivesse sido mexido há um tempo. — Mas eu não arrumei ontem... — Sussurrou para si mesmo. — 67 —


CAPÍTULO QUATRO

Mais batidas na porta o impediram de pensar mais sobre o assunto, mas o fez lembrar que alguém o esperava do lado de fora, e parecia bem apressado. — Só um momento! — Disse enquanto pegava sua roupa costumeira e foi vestindo as pressas. Odiava se vestir sem antes escovar seu pelo e lustrar seus cascos, mas hoje o dia não parecia estar ao seu favor. Ao abrir a porta, deparou-se com Viktor, cuja alegria estava estampada na cara e em seu rabo que não parava de balançar. — Bom dia, Damon! Não te vi no refeitório como de costume, então achei que estivesse aqui. — Sorriu abertamente. — Espero que não tenha esquecido sua promessa comigo. — Promessa? — Sim, bobão! — Fez uma expressão raivosa, porém parecia mais um cachorro pidão. — De irmos no teatro investigar o cheiro estranho! Hoje acordei com um pressentimento estranho, e mesmo que aquele lugar me dê arrepios eu quero dar um descanso para o meu focinho... — Certo, certo... Eu me lembro agora. Desculpa, hoje estou meio avoado, eu acho. — Disse com uma expressão amuada. Ao ver a cara do amigo, Viktor o envolveu em — 68 —


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um abraço apertado, tentando passar energias positivas para o mágico. — Tudo bem! Até os melhores artistas tem seus dias mais lentos e sem sentido. — Sorriu empático. — Se quiser, podemos ir outro dia. — Não, não. — Se soltou do abraço e balançou a cabeça, negando. — Eu prometi que iríamos, então vamos logo hoje. Eu apenas preciso comer algo. — Ué, você já não deveria ter tomado café da manhã por agora? — Sim... Mas como você disse, até os melhores artistas tem seus dias sem sentido. E acho que estou tendo o meu primeiro hoje. — Sorriu pequeno.

Chegando ao refeitório, Damon se depara com o restante de seus amigos comendo enquanto conversaram animadamente, como de costume. A única coisa fora de costume era ele estar ali naquele horário. E isso o dava uma pontada de ansiedade no estômago. “Estou fora do horário.” E para piorar a sensação, todos seus amigos o veem chegando com Viktor e ficam confusos. — Damon? O que faz aqui? — Kali perguntou. — 69 —


CAPÍTULO QUATRO

Ia responder a gatinha mas no mesmo momento sentiu um olhar fixo em si logo atrás dela, e um arrepio se formou em sua espinha. Era Cain. Um Cain bem bravo. — E-Eu... Dormi demais hoje! Que coisa, né? — Riu de nervoso. — Não sei onde eu tava com a cabeça. Kali e as duas ratinhas que também estavam presente riram de sua fala. Para elas tudo que Damon fazia era engraçado. Se permitiu rir um pouco também, mas o brilho logo saiu de seu rosto quando foi puxado pelo braço por um certo coelho. Antes de sair do refeitório, Cain se virou para Viktor que estava parado tal qual uma estátua com medo, pois apenas os inconsequentes se atreviam a discordar do coelho quando estava com raiva. — Me dá um minuto com ele, Viktor? Depois vocês podem ir pra aventura de vocês. — À vontade, Cain... Damon xingou o cachorro mentalmente mas não negava que faria o mesmo se estivesse no lugar dele. Foi arrastado pelo namorado até o lado de fora do refeitório e foi colocado na frente do mesmo. — Eu não fiz nada, eu juro. — Começou se defendendo. — O que deu em você? — Exclamou alto, indo — 70 —


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segurar os braços do namorado, mas sem muita força. — Quase morro do coração quando não te vi no refeitório mais cedo ou quando fui na sua caravana e você não me respondeu. Percebeu que toda a raiva do coelho na verdade era pura preocupação consigo, então se acalmou mais. Se soltou do aperto de Cain e entrelaçou suas patas com as dele, formando um sorriso triste no rosto. — Eu sinto muito mesmo, não queria te preocupar desse jeito. Também não tenho ideia do que me fez acordar com o casco esquerdo hoje, mas infelizmente aconteceu. Cain suspirou. Queria tanto ter o otimismo do carneiro, pois se fosse consigo já estaria perdendo a cabeça a essa hora. — Olha só seu pelo, todo bagunçado. — Riu ao passar a pata por cima dos pelos soltos. — Aposto que nem teve tempo de fazer suas reflexões matinais. — Um certo cachorro não me deixou. — Acompanhou Cain na risada. Pelo menos agora o coelho não parecia mais tão preocupado. De repente, um pensamento curioso passou por sua cabeça. — Sabe como o Nelian está? — E por que eu saberia? — Fez uma cara azeda na mesma hora. — 71 —


CAPÍTULO QUATRO

Cain o olhava como se tivesse crescido uma segunda cabeça em seu ombro e não conseguiu compreender o motivo. Será que o coelho odiava tanto o felino ao ponto de não se importar com o que houve? — Damon, você teve algum sonho ruim de novo? — Chegou mais perto do mágico, colocando a pata em sua testa para medir a temperatura. — Hã? Claro que não, por que a pergunta? — Nosso encontro com o investidor foi adiado para a semana que vem, e não teve nenhum “surto” do Nelian. — Fez as aspas com as patas. — Por incrível que pareça... — O que? Mas... Mas ontem mesmo nós... — Tudo ao redor parecia girar para si, e tudo piorava quando Cain o observava como se não entendesse nada que Damon falava. Era impossível. Lembrava de cada momento do dia anterior. De quando havia acordado, de que fora até a caravana do namorado para esperá-lo se arrumar, de se encontrar com o investidor e conversar sobre o desempenho dos demais. De ganhar uma tenda somente para si. Se arrepiava só de lembrar. Do momento em que Nelian começou a gritar e quando ele saiu correndo do circo, deixando todos preocupados por ele pra trás. Mas... Tudo depois disso — 72 —


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parece ser apenas um grande borrão, como se nem ao menos tivesse existido. Logo, se virou para o namorado. — O que nós fizemos ontem? — Questionou nervoso. — Nós acordamos juntos, fizemos nossa rotina como sempre e depois fomos passear com as ratinhas pelo parque de diversões. Elas estavam animadas porque vão construir um brinquedo novo, aparentemente. Depois ficamos a tarde conversando na área comum e de noite jantamos todos juntos no refeitório. Foi um dia completamente tranquilo. — Falou de forma mansa, para não assustar o carneiro que já parecia um filhote de tão encolhido que estava. Damon encarou o namorado com a feição incrédula. Será que havia batido a cabeça em algum momento? Não era possível que ele tinha criado um dia inteiro na sua cabeça. Foi envolvido em um abraço por Cain, que começou a acariciar suas costas no intuito de acalmá-lo. Estava sendo muito abraçado hoje. — Você realmente não se lembra? — E-Eu... Eu realmente não sei, para mim ontem o dia foi totalmente diferente. — Estava começando a ficar desesperado. — Calma, calma. Pode ter sido o estresse da — 73 —


CAPÍTULO QUATRO

semana que mexeu com sua cabeça, não é algo bom de acontecer mas é comum para quem trabalha muito. — Segurou o rosto do mágico e olhou bem nos olhos dele. Odiava ver a pessoa mais querida para si tão desnorteada. Viktor veio saltitando para fora do refeitório em busca dos dois amigos, pois imaginava que já estava tudo bem para chamar Damon. Porém, parou quando viu a cena do mágico em um estado miserável sendo confortado pelo coelho. O casal percebeu a presença do cachorro e tentaram se recompor, fazendo o canino abaixar as orelhas. — Desculpa interromper a conversa de vocês... — Arrastou a pata no chão, em vergonha. — Tá tudo bem, Damon? — Tá sim, eu acho. — Olhou para Cain que o deu um sorriso pequeno como se falasse “Vai ficar tudo bem. Eu tô aqui.” — É, tá tudo bem sim. O cachorro abanou o rabo em felicidade e se aproximou mais do casal. — Ótimo! Então, será que podemos ir para o teatro agora? — É melhor irem logo mesmo. Não vão querer explorar o teatro quando já estiver escuro, não é mesmo? — Cain brincou, olhando para Viktor, sabendo que o cachorro era um medroso. — 74 —


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Na mesma hora o palhaço pulou com medo da possibilidade e pegou o braço de Damon, o arrastando para fora dali e longe das provocações do maldito coelho. Além de ficar resmungando de forma inaudível de como o outro era um cretino e queria apenas colocar medo em si. Deixado um pouco pra trás, Cain ria e observava os dois se afastarem mais, indo em direção ao teatro. Enquanto caminham, Damon aproveita para perguntar para Viktor sobre acontecimento misterioso do dia anterior. Não iria conseguir tirar isso tão fácil da cabeça, mesmo que Cain tivesse dado uma justificativa plausível para si. — Então... Viktor, o que você fez de bom ontem? — Tentou soar como quem não queria nada. — Eu? Hm, eu acordei cedo com a coceira no focinho de novo e vim rondar o teatro depois de me arrumar. O cheiro parecia ter piorado e até me deu dor de cabeça por estar muito perto, então fui perturbar a Kali enquanto esperava ela se aprontar para... — Viktor para de andar e de repente se cala, franzindo a testa em uma expressão dolorosamente pensativa. Antes de se virar para o cachorro, Damon percebe que eles já estavam em frente do teatro. Encarou a estrutura fixamente por alguns segundos. — Está se sentindo bem, Viktor? — Colocou a — 75 —


CAPÍTULO QUATRO

mão no ombro do amigo, dando um certo apoio. — Sim, eu só... Não consigo lembrar o que eu fiz ontem. — Fez um biquinho chateado. — Eu normalmente tenho uma boa memória para essas coisas. Bingo. Pensou Damon. — Você lembra do encontro com o investidor? E o Nelian tendo um surto? — Segurou os ombros do cachorro. — Me diz que você lembra, por favor. — Nelian? — Pensou bastante e logo sua feição foi de confusa para surpresa. — Sim! Eu me lembro! E-Ele ficou com raiva por você ter ganhado uma tenda só pra você. — Meu Deus, eu não estou louco. — Soltou Viktor e começou a andar de um lado pro outro, incrédulo com a própria sanidade. — Cain achou que eu estivesse alucinando por causa do estresse, mas eu sei o que eu vivi! E todos estavam lá também, só não entendo como ninguém se lembra disso. — Suspirou pesadamente. — Bom, ninguém exceto você. Viktor sorriu em sua direção, mas algo foi captado pelas suas orelhas e o fez virar em direção ao teatro assustado e arisco. — Algo se mexeu. — O que? No teatro? — O cachorro acenou com a cabeça, sem tirar os olhos o teatro. — Impossível ter sido alguém, ninguém pode entrar lá a essa hora. — 76 —


L’EUPHORIE

Quando foi dar um passo para adentrar o local, foi segurado pelo braço por um cachorro muito medroso. — T-Tem certeza que não é melhor a gente ir embora? — Olhou para Damon amedrontado. — Calma, cachorrinho. — Riu do desespero do amigo. — Temos que resolver essa história de uma vez por toda, e vai ser agora mesmo. — Ai, tá bom. Mas vai na frente! — Por mim tudo bem, você pode ficar atrás junto com os espíritos maus. — Disse provocando, e saiu correndo para dentro do teatro. — Ei! Não me deixa sozinho aqui!

Damon e Viktor finalmente adentraram o teatro, seus passos ecoando pelo vazio silencioso da recepção e pelos corredores que os guiavam para o auditório. A penumbra do local, banhada apenas pela luz tênue que escapava das cortinas entreabertas, transmitia uma atmosfera sinistra e intrigante ao mesmo tempo. Chegava a dar arrepios. Segundo Viktor, o cheiro estranho tornava-se mais evidente à medida que avançavam pelos corredores enormes e extensos. — 77 —


CAPÍTULO QUATRO

— Este lugar parece completamente diferente quando está vazio. — Sussurrou para o cachorro, mesmo só estando os dois no local. — Sim, é como se a própria essência da risada e da alegria que existe no teatro tivesse se dissolvido e virado uma piada de mau gosto. — Sussurrou, melindroso. Realmente não gostava de lugares que o deixavam assustado. — Que analogia... interessante. — Por que estamos sussurrando? — Não sei, parece o certo a se fazer em um lugar como esse. — Deu de ombros. O som abafado de suas vozes refletia pelas paredes, amplificando a sensação de solidão e imensidão. O palco, normalmente palco de performances cheias de vida, agora repousava em silêncio. As fileiras de assentos vazias pareciam observar, silenciosas, como se guardassem segredos há muito tempo esquecidos. À medida que avançavam pelos bastidores, um arrepio percorria a espinha de Damon. O vazio do teatro, uma enorme concha de emoções passadas, parecia se fechar ao redor deles, intensificando a sensação de estar em um lugar onde a alegria e a animação haviam sido sutilmente apagadas. — Isso é mais assustador do que eu imaginava. O silêncio é quase ensurdecedor. — 78 —


L’EUPHORIE

— Teatros vazios têm um jeito de mexer com nossos sentimentos. É como se as risadas do passado estivessem ecoando, mas agora somente em nossas memórias. — Assentiu, olhando ao redor. — Ok, senhor poeta. — Deu um peteleco na testa do palhaço, que grunhiu de dor. — Só estamos sendo idiota pensamento nisso, daqui algumas horas eles vão abrir aqui como fazem todos os dias. — É... acho que é o cheiro que está deixando tudo melancólico. Enquanto continuavam a explorar os recantos do teatro, a sombra do desconhecido e a lembrança do surto misterioso de Nelian no dia anterior pairavam no ar da mente do mágico. O estômago de Damon retorcia-se, não apenas pelo cheiro que começara a finalmente sentir, mas pela incerteza do que poderiam descobrir. — É aqui. — Viktor para de andar e aponta para uma escada que dá acesso ao andar de cima, mas que somente funcionários e artistas podiam acessar. — O cheiro vem lá de cima. À medida que os dois subiam as escadas que levavam ao uma espécie de sótão do teatro, a atmosfera tornava-se densa e carregada. O ar parecia pesar à medida que se aproximavam da porta que levava ao misterioso espaço. — 79 —


CAPÍTULO QUATRO

— Uau, até meu focinho está coçando. — Diz Damon com os cascos tampando as narinas. — Isso é horrível. — Agora imagina pra mim. — o palhaço rebate. — Vamos acabar logo com isso. Porém, antes de abrir a porta, uma dor de cabeça intensa atacou tanto Damon quanto Viktor, como se uma onda de energia desarmônica os atingisse em cheio no crânio. A visão distorceu-se momentaneamente, e ambos hesitaram. — Viktor, você está sentindo isso? — Franziu a testa, meio atordoado. — Uma dor de cabeça repentina... Algo não está certo. — Pressionou as têmporas, tentando aliviar um pouco a dor. Apesar do desconforto, decidiram prosseguir e abrir a porta. Viktor, guiado pelo olfato aguçado, os conduziu até um canto do sótão onde várias caixas empoeiradas estavam empilhadas. Entre elas, uma caixa peculiar chamou a atenção de Viktor, que parecia ser a fonte de onde vinha o cheiro que o perturbava a dias. — É isso! — Pegou a caixa na mão e mostrou para o carneiro. — Quem diria que um odor tão forte viria de um objeto tão pequeno. — O que será que é? — Indagou Damon. — 80 —


L’EUPHORIE

— Duvido muito que o cheiro tenha se feito sozinho por essa caixa. — Completou. Viktor balançou a caixa e se ouviu o barulho de algo se remexendo dentro dela, algo pequeno e bastante leve. — Já estou decepcionado por não ser algo grande. — Suspirou e entregou a caixa ao mágico. — Toma. É melhor você abrir. Ao levantar a tampa, uma luz intensa jorrou, cegando Damon por alguns segundos. Os dois gritaram uníssono, com medo do que poderia acontecer. A dor de cabeça atingiu o seu ápice, mas assim que a luz se dissipou, a visão de Damon retornou. No fundo da caixa, repousava uma chave, reluzindo com um brilho peculiar. — Era isso que me perturbava. — Olhou frustrado para o objeto pequeno. — Uma simples chave? — Não é uma chave comum, Viktor. — Disse enquanto a examinava. — Há algo a mais aqui, algo que ainda não compreendemos. — Como assim? — Não percebe? O cheiro, a inquietação, a dor intensa antes de entrar aqui, a quase cegueira ao abrir essa caixa. Isso não pode ser um objeto comum. Damon. Damon olha para o lado achando que Viktor — 81 —


CAPÍTULO QUATRO

chamava por ele, mas o cachorro parecia totalmente absorvido pela chave em sua pata. — Falou comigo? — Hm? Não, eu não disse nada. Damon, inicialmente achando que era uma brincadeira de Viktor, então decidiu ignorar. Damon. Eu vejo você. Começou a se irritar quando a voz o chamando novamente. Ele dirigiu um olhar acusador a Viktor. — Isso não é engraçado, Viktor. — Apontou os cascos para o palhaço. — Por que está fazendo isso? — Hã? Eu juro que não sei do que você está falando. — Disse, confuso. — Eu não falei uma palavra. Agora entendo o que ele dizia sobre você. A voz persistente agora parecia ecoar diretamente na mente de Damon. E Viktor estava bem do seu lado, com a boca fechada. Então era impossível ser ele. — Viktor, você não está ouvindo essa voz? — E-Eu não estou ouvindo nada. — Respondeu assustado e olhando ao redor do sótão. — O que está acontecendo? — 82 —


L’EUPHORIE

A chave reluzia dentro da caixa, piscando e apagando sua luz, como se tivesse comunicando algo. Damon já estava estressado. Parecia que tudo começou a dar errado por causa daquilo. Me responda, Damon. — Tenho um palpite que deve ser por conta da chave. — Grunhiu de frustração por conta da maldita voz. — Acho que seria melhor se... De repente, uma voz nítida porém distante chamou pelos dois, fazendo com que Damon e Viktor se abraçassem com medo do desconhecido que se aproximava deles. A voz tornou-se mais audível, e o terror que circulava em suas veias aumentou. E ficou mais perto. Mais perto. Mais perto. — Damon! Viktor! Era a voz de Cain. Vinda do lado de fora do teatro, procurando pelos dois. — Ei, vocês dois aí dentro! O festival está prestes — 83 —


CAPÍTULO QUATRO

a começar. Saíam daí e venham se arrumar. — Disse rapidamente e foi embora para a área das caravanas. O alívio tomou conta de Damon e Viktor ao descobrirem a fonte da voz. Rindo nervosamente, eles se dirigiram para a saída do sótão, deixando para trás o mistério temporário e voltando à realidade do circo L’Euphorie. Quem é a estrela mais amada do circo, Damon?

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CAPÍTULO CINCO


L’EUPHORIE

V.

Para termos liberdade, precisamos tirar a liberdade de outras pessoas.

A energia contagiante se espalhava pelos arredores do festival L’Euphorie em seu pleno andamento naquela noite. Crianças riam e se divertiam no parque de diversões, os adolescentes desafiavam suas habilidades nos jogos de tiro ao alvo, e famílias caminhavam em direção ao teatro para desfrutar de uma peça encantadora que estivesse em cartaz. Damon, de pé junto ao portão que conectava o festival à área das caravanas dos artistas do circo, observava o colorido espetáculo que se desdobrava à sua frente. A música alegre, os risos e o burburinho da multidão criavam uma sinfonia harmoniosa que era a trilha sonora do festival em seu melhor momento. Ele sonhou por um breve momento como seria desfrutar desse tempo mágico com alguém especial. — 87 —


CAPÍTULO CINCO

Tirando-o de seus pensamentos, Viktor aparece ao seu lado, segurando a chave misteriosa mais uma vez. Damon, ao ver o objeto, franziu a testa. — Por que ainda está com isso? Não concordamos em deixar isso guardado? — Sim, mas apenas ainda agora que me lembrei de algo em relação a isso. —Falou, apreensivo. — Damon, você se lembra do cheiro estranho que senti em Nelian? Eu senti isso na chave também. Acho que há uma conexão. A revelação de Viktor fez com que Damon ficasse intrigado, pois lembrava exatamente das palavras do palhaço no último jantar em conjunto. Ele ponderou sobre a possível ligação entre a chave e o surto misterioso que envolveu Nelian. — Você está dizendo que essa chave pode ter algo a ver com Nelian? — Não, mas acredito que ele possa saber de alguma coisa. Afinal, ele é o único que ainda não falou nada sobre os dias que se passaram. — Franziu a testa, cabisbaixo. — Todos os outros não se recordam de ontem... Era angustiante e frustrante a sensação. De saber de algo que todos os outros não tinham memórias sobre. Viktor e Damon trocam olhares empáticos, pois sabiam que era apenas eles dois naquela situação — 88 —


L’EUPHORIE

completamente estranha envolvendo Nelian. Olhando no relógio em seu pulso, viu que ainda tinha um tempo até a primeira apresentação no circo. — Vamos até a caravana do Nelian, então. — Deu dois tapinhas nas costas do palhaço, em encorajamento. — Talvez ele nos ajude com alguma coisa. Viktor acena com a cabeça prontamente e segue os passos de Damon em direção aos aposentos do felino, agora com o coração mais calmo e esperançoso.

Os dois se aproximavam da caravana mais afastada de todas, esperando encontrar respostas para suas perguntas com o felino um tanto irritado. Damon ria com as história que o cachorro lhe contava, sobre como ele e Kali davam tudo de si para deixar o pobre gato morto de raiva na maioria do tempo. Segundo Viktor, era o passatempo favorito dos dois. No entanto, seus sorrisos diminuíram ao chegarem e notarem que as cortinas estavam fechadas, e não havia nenhum feixe de luz entre a porra, como se não tivesse ninguém lá dentro. Ao baterem na porta, o silêncio que ecoou de dentro aumentou ainda mais a apreensão. — Nelian? — Bateu na porta novamente, agora — 89 —


CAPÍTULO CINCO

com um pouco mais de força. — Você está aí? Não houve resposta, apenas o eco vazio da caravana. — Ele ainda não foi para o circo, eu teria notado. — Viktor falou baixo. — Bom, não nos resta muita opção a não ser entrar. — Pegou a maçaneta, mas se sentiu um pouco mal por estar querendo entrar nos aposentos dos outros sem a permissão deles. — Hã, Nelian, não sei se você está aí, mas saiba que estamos entrando. Ao entrar, foram recebidos por uma cena aterradora e até um pouco macabra, levando em conta quem morava lá. Móveis quebrados, vidros espalhados, produtos derramados no chão e manchas escuras no carpete preto como vestígios de um evento caótico ocorrido ali. — O que aconteceu aqui? — Viktor olhou horrizado para toda a cena. Damon, também chocado, tentou entender o que poderia ter causado tal destruição. Adentrando mais o local, e tomando cuidado onde pisava, ele percebeu que o estrago não havia sido feito agora. — Consegue distinguir a quanto tempo isso está assim? — Apontou em volta para o palhaço, que ainda estava parado na porta, não tendo intenções de en— 90 —


L’EUPHORIE

— E-Eu acho que sim... — Botou as duas para dentro e começou a farejar o local, como se fosse um cachorro treinado. — Talvez um dia ou dois, as manchas estão úmidas ainda então não faz muito tempo e também não é muito recente. No meio de toda a bagunça, Damon notou algo um pouco brilhante no meios das roupas espalhadas em frente ao closet. Se agachou no chão e foi tirando os panos de cima do objeto, até relevar ser uma caixa. Uma caixa muito parecida de onde havia encontrado a chave no teatro. — Viktor... — Pegou a caixa e mostrou para o palhaço, e o mesmo o olhou horrizado. Não precisavam nem de palavras para dizer o quão bizzaro era aquilo. Os gritos de Nelian no jantar havia acontecido. O surto de Nelian no circo havia acontecido. E agora era comprovado que o felino de fato tem ligação com a chave misteriosa. Mas... Por que? Antes que pudessem raciocinar completamente alguma teoria, decidiram correr para alertar os outros sobre a perturbadora descoberta. Contudo, ao chegarem aos bastidores, foram imediatamente abordados por Cain e Kali, que não pareciam estar com muita paciência. — 91 —


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L'EUPHORIE (PARTE DOIS) by vit vit - Issuu