ATENÇÃO! Esse livro trata de assuntos que podem ser sensíveis para alguns leitores, tais como: – Ansiedade – Ataques de pânico – Violência Explícita – Terror psicológico – Manipulação – Ilustrações com teor sombrio
Dedicatória Para nosso querido professor, Raffael Amado, que nos proporcionou a incrível missão de fazer este livro. Um beijo.
Alex Sousa e Vithoria Santos
Ilustrações coloridas e em preto em branco
Alex Sousa
Esse livro é narrado por:
GALERIA DOS ARTISTAS Versão Colorida
Damon
O grande mágico do circo; Um carneiro extremamente perfeccionista e ansioso.
Cain
O incrível contador de histórias, um coelho gentil porém explosivo; Responsável pelas gêmeas.
Kali
A malabarista carismática, uma gatinha extrovertida e muito sapeca.
Nelian
O contorcionista esbelto, um gato vaidoso e irritadiço.
Viktor
O palhaço risonho, um cachorro animado e amigavél com todos.
Lin e Lili
As trapezistas inseparáveis, duas ratinhas gêmeas cheias de energia.
L’EUPHORIE
PRÓLOGO
Há um mundo coberto de ilusões, e esse mundo é o nosso.
Nos primeiros resquícios de que o sol iria se pôr, Damon caminhava ansioso enquanto se questionava por que o tempo não passava mais rápido. Os alto-falantes nos arredores falavam de apenas uma coisa: “O grande espetáculo está prestes a começar! Todos com o ingresso devem se direcionar ao circo localizado no centro do festival!” Ele se assusta com o barulho do lado de fora, então se dirige ao espelho para praticar mais uma vez seus truques e revisar seus movimentos para não esquecer nada. O público sempre aguardava sua performance — que era deixada para o final — com muita expectativa. Afinal, ele era o favorito do público. Fato que ele nunca compreendeu por completo, o circo possuía outros artistas talentosos com habilidades impressionantes, enquanto ele fazia ilusões que com um pouco de prática poderiam ser replicados. —1—
PRÓLOGO
Damon nunca deixou de agradecer pela atenção que recebia em todos os shows, porém, isso não o deixava menos nervoso. Suspirou ao olhar o próprio reflexo. “É só mais uma noite. O que pode dar errado?” – Pensou. Já na caravana ao lado, Nelian fazia alongamentos rigorosos para garantir sua flexibilidade e entregar uma excelente performance. Ele adorava o palco, sentia que tinha nascido para brilhar e se entregar na glória do público, tendo um talento que poucos tinham chance de aperfeiçoar: A arte de contorcer o próprio corpo. Se expressando com cada pose. Era teatral, espetacular. Ele já conseguia ouvir os aplausos de todos a sua frente e... – Sonhando acordado mais uma vez? – Uma voz fina o tira de seus devaneios. Nelian pulou de susto. – Kali! – Exclamou. – Quantas vezes eu preciso dizer que você não pode entrar aqui sem bater antes? – Suspirou frustrado. – Eu bati. – Cruzou os dois braços com uma cara sapeca – Mas não tenho culpa se você fica ocupado demais se imaginando como o herói do circo, e às vezes você fala sozinho coisas como “Sim, sim, eu sei que sou o melhor” – A gata imitou, rindo em seguida. —2—
L’EUPHORIE
– Agh! Chega, saia daqui agora! – Nelian tentou agarrar a felina, mas ela saiu correndo da caravana rindo e gritando “Bobo! Bobo e sonhador”. Viktor, que estava bem próximo dos gritos de Kali, ajustava suas roupas coloridas e seus apetrechos que iria utilizar mais tarde, pronto para fazer o público se revirar nos assentos de tanto rir. Os gritos que ouvia ficaram mais próximos, e quando olhou para o lado viu um corpo minúsculo prestes a colidir com o seu. Por ser muito maior que a pequena Kali, ele a pegou nos braços antes que ela se machucasse. – Kali! Cuidado! – Disse risonho. — Você não é um Damon da vida para tentar atravessar pessoas magicamente enquanto corre desse jeito. – Não quero atravessar ninguém, Viktor, não seja bobinho. – Riu, mas logo se virou nos braços do cachorro para observar um felino raivoso vindo em sua direção. – Você não concorda comigo, Viktor? Não concorda que Nelian não passa de um bobo sonhador? – Oh! Ele estava na frente do espelho fazendo poses estranhas de novo? – Falou animado, colocando a gata no chão. – O que vocês estão falando agora? – Nelian chegou com o rosto vermelho. —3—
PRÓLOGO
– Não, não! — Kali responde, ignorando Nelian e respondendo Viktor – Ele estava se esticando enquanto fazia expressões engraçadas, como alguém que acabou de ganhar um prêmio. – Disse enquanto fazia caretas. Kali e Viktor caíram na risada, enquanto Nelian inspirava e expirava três vezes para não surtar. – Então ele é um bobo sonhador! – Disse o cão, levantando os braços em animação. – Saiam da minha frente! – Nelian exclamou. Os dois brincalhões saíram correndo para a caravana de Viktor, rindo do novo apelido que provavelmente não iriam parar de proferir ao pobre gato por pelo menos um mês. No meio de toda a gritaria estava Cain, que preparava suas narrativas mágicas que iriam cativavar as mentes das crianças e adultos naquela noite. Lin e Lili estavam ao seu lado, animadas como sempre, estavam por verificar seus equipamentos, assegurando-se de que tudo estivesse em perfeito estado. Elas falavam como nunca. Pareciam ter um gravador com infinitas fitas de áudio disponíveis dentro de cada uma, e isso até poderia tirar a concentração do coelho, mas depois de anos convivendo com as pequenas pestes, Cain desenvolveu a habilidade de pensar sem que fatores externos bagunçassem tudo. —4—
L’EUPHORIE
Fora da área do circo, o festival estava em clima de animação, como era esperado todos os dias. O público se maravilhava com as atrações do teatro logo na entrada, bem como com os brinquedos do enorme parque de diversões. No entanto, todos estavam ansiosos pelo grande evento da noite: o circo. O Circo L’Euphorie era famoso por suas performances de tirar o fôlego e pelo ambiente frenético, onde a diversão não cessava por um segundo. À medida que o sol se punha completamente no horizonte, o circo se iluminava com uma profusão de luzes cintilantes ao redor. O público se acomodava nas grandes tendas, com uma variedade de pessoas presentes, tanto crianças como adultos, todos ficavam eufóricos com o apagar das luzes e a abertura das cortinas do palco. E o espetáculo começou. Cain hipnotizou a todos com suas histórias fascinantes e reviravoltas mirabolantes, além de ser o narrados dos atos seguintes. Kali deixava todos boquiabertos com sua destreza incrível ao malabarizar mais de seis bolas com perfeição, e todos aplaudiram de pé quando ela fez o mesmo equilibrando-se em cima de uma bola. —5—
PRÓLOGO
– E vejam só! Ainda consigo me equilibrar com somente um pé! – Falou de forma confiante e astuta. Quando tirou o pé direito, deixando somente o pé esquerdo na bola de plástico, o público foi à loucura. Viktor era a dose de serotonina de todas as noite, com seu pensamento rápido para piadas e expressões que encantavam todos que o observavam, ele levava todos um êxtase de risadas e sorrisos genuínos. Nelian entrou em cena logo depois, torcendo e dobrando seu corpo de maneiras impossíveis, questionando o conhecimento de qualquer um sobre anatomia. Lin e Lili, as trapezistas ágeis, voaram pelo ar com graça e habilidade como nenhum outro poderia. A tensão estava no ar quando Damon entrou no palco. Damon era comunicativo com a plateia, mesmo que ainda um pouco nervoso, ele conseguia cativar as pessoas a acreditar em coisas irreais, como a mágica. Realizou truques que desafiavam a crença de muitos, fazendo objetos desaparecerem e reaparecerem em um instsnte. Ele envolveu o público em seu mundo de ilusões, e todos ficaram maravilhados com sua magia. No final, fez surgir fogos de artifício que iluminaram o céu, encerrando o ato como apenas ele sabia. A noite terminou com aplausos ensurdecedores, e o circo deixou uma lembrança mágica na mente de todos, ansiando pela próxima vez no festival. —6—
L’EUPHORIE
Mapa do Festival —7—
CAPÍTULO UM
L’EUPHORIE
I.
A arte imita a vida, mas nem toda vida é uma arte.
Nas narrativas dos contos mais clássicos, a história sempre se inicia com “Era uma vez...”, ou em livros mais contemporâneos onde a narrativa sempre se inicia com a descrição do clima para que o leitor saiba por onde começar. É impossível não escolher uma das duas formas hoje em dia, de tão utilizadas que são, se tornando costume para o cérebro do leitor. Era um dia ensolarado. O sol ainda buscava coragem para alcançar o seu posto no céu; no entanto, já lançava um suave brilho dourado sobre o circo L’Euphorie. Damon observava o astro amarelo da sua janela, sua mente transbordava pensamentos. Se alguém o observasse de perto, veria fumaça saindo de suas orelhas. Mais um dia de apresentações. Ele já tinha sua rotina planejada: levantar-se às —9—
CAPÍTULO UM
seis em ponto, pois dessa maneira achava que poderia aproveitar mais o dia; escovar os dentes e depois escovar os pelos em excesso que o pinicavam a pele; comer junto de seu namorado, conversar com os outros e perguntar como estavam, para então voltar para sua caravana e ficar revisando seus truques até a hora da apresentação. Não costumava ser assim antes, ele se lembrava muito bem. Antes, Damon não sentia a necessidade de ser perfeccionista em suas performances; ele apenas fazia o que suas mãos desejavam no momento, deixando a mente envolvida na frenesi da expectativa da plateia. O circo não era tão conhecido como é nos dias de hoje, então o público era menor e menos exigente em relação a algo extraordinário vindo dos artistas. E as vezes, apenas isso é necessário para matar alguém: Expectativa. À medida que a divulgação era feita nos arredores, o circo L’Euphorie atraia mais e mais pessoas a cada dia que passava, tornando necessária uma expansão do espaço para suportar tamanha demanda. Haviam shows onde era possível ver as crianças tentando enxergar através da brecha das grandes cortinas, era hilário. No circo, alguns dos atos já são esperados e até — 10 —
L’EUPHORIE
previsíveis aos olhos do povo. O palhaço contará piadas, as trapezistas irão se pendurar, o contorcionista vai testar os limites do próprio corpo e etc. Mas o mágico... O mágico era imprevisível. Ele era a promessa no meio da noite. O estimulante da imaginação, mestre da ilusão. Em suas mãos, segredos são escondidos em sombras e luzes, revelados apenas quando a cortina se ergue, com emoção. Ele desafia as leis da lógica, quebrando barreiras, transformando o comum em algo fenomenal. Sob as luzes brilhantes da lona do circo, ele testa o senso de realidade de cada um, encantando corações sem nem perceber. Os olhos de seus expectadores brilham de admiração enquanto ele os envolve em um mundo de magia e fantasia com apenas um estalar de dedos. Impactante. Impressionante. Algo nunca visto antes, de chocar qualquer um. Bem... Continuando. Infelizmente, nem sempre o mágico tem noção do impacto que causa. Damon estava com o coração pesado devido à pressão que resultava da necessidade constante de impressionar a audiência e superar suas — 11 —
CAPÍTULO UM
suas próprias expectativas a cada performance. Com a fama iminente, ele foi se tornando mais pensativo, mais preocupado, mais ansioso. Sempre dentro da bolha que foi criada em sua volta, para que ele pudesse conter pelo menos um fio de sanidade que ainda o restava. Era inegável que ele recebia o apoio de seus amigos, todos sempre o parabenizavam no final de cada espetáculo e mostravam como ele fazia valer a pena cada apresentação. Afinal, é impossível não ficar feliz ao ver seu amigo se destacar em algo, certo? Certo? Damon saiu de sua caravana e foi em direção ao refeitório, onde Cain, seu namorado, já o aguardava com um sorriso caloroso. – Dez minutos mais cedo que o normal, acordou com o casco esquerdo hoje? – Cain disse enquanto dava batidinhas no assento ao seu lado, indicando para Damon sentar. – Não fiquei tanto tempo escovando meus pelos desta vez, acho que os hidratantes que você me deu realmente fizeram diferença. – Respondeu com um sorriso pequeno no rosto. – Faria mais diferença se você comesse direito e — 12 —
L’EUPHORIE
e dormisse no horário adequado, assim seu pelo cairia menos. – Falou beliscando a bochecha do carneiro. Damon teve um espasmo com a ação. Odiava quando Cain apertava sua bochecha; o coelho apenas riu da situação. – Que seja... – Disse massageando a bochecha – O que tem para comer? Admito que estou com fome agora. – Bom, Viktor e Kali se aventuraram na cozinha mais cedo dizendo que fariam o café da manhã hoje. Damon fez uma expressão azeda. – Alguém já teve coragem de provar a “aventura” deles? – Falou enquanto observava Cain colocar a mão na boca para esconder a risada. – Nelian foi o único que chegou perto da cozinha, tenho certeza que vi um pedaço da alma dele saindo do corpo quando ele viu o que fizeram na panela. – Os dois riram. Viktor e Kali eram duas pestes totalmente imprevisíveis. Eles tinham muito amor para dar e vender, mas seus métodos poderiam ser bem inusitados as vezes, sem contar que nenhum dos dois tem experiência na cozinha, já é um fator para se preocupar. – Maaas... – Cantarolando. – Como um bom coelho que sou, posso te oferecer uma xícara de café e uma torrada com geleia. — 13 —
CAPÍTULO UM
– Uau! – Damon exclamou. – E como eu poderia recusar algo assim de um coelho tão bom? – Riu, ambos sabiam que estavam brincando. – Então espere um momento, senhor, – Disse num tom formal enquanto se levantava da mesa. – Pois seu café da manhã logo chegará à mesa. — Se abaixou um pouco ao terminar de falar, como uma reverência, e foi em direção a cozinha. Damon sorriu enquanto via o coelho sair do seu campo de visão. Cain realmente melhorava seu dia. Depois de um tempo, voltou com uma bandeja contendo uma xícara de café, um frasco com leite, torradas e algumas opções de geleias. – Estou recebendo um tratamento de rei. – Comentou sorridente – E o dia mal começou. – Ora, ora, o grande mágico do show precisa ser tratado como o tal. – Respondeu Cain, dando um beijo na cabeça do companheiro. Ele contorceu o rosto com a fala do coelho, mas logo voltou para uma expressão neutra. Enquanto saboreavam o café da manhã, o carneiro não pôde esconder sua preocupação diante do namorado. – Você sabe que eu estava brincando mais cedo, né? – Indagou, empurrando o ombro dele levemente. — 14 —
L’EUPHORIE
– Hã? Ah... Não se preocupe, está tudo bem. – Disse sem olhar em sua direção. Cain segurou o rosto de Damon, forçando-o a encarar seus olhos. – Você é incrível, Damon. Confie mais em si mesmo. – Sorriu docemente. E por um momento se permitiu acreditar. Após conversarem por um longo tempo sobre assuntos triviais, o mágico perguntou: – Você já escreveu alguma história nova? Posso dar uma olhada outra hora...? Finalizaram com uma despedida. Porém, Damon não conseguiu sair sem que Cain bagunçasse seu cabelo, o desejando um bom dia. Deixou o refeitório ajeitando o chapéu e acalmando os fios de cabelo arrepiados, seguindo em direção à área comum do circo. À medida que se aproximava, o burburinho entre os artistas que ali estavam preenchia o ar. Ele avistou Viktor e Kali tendo uma animada conversa com Nelian, o mesmo estava com um sorriso confiante no rosto. – Sua apresentação ontem à noite foi simplesmente incrível, Nelian! Você é o melhor contorcionista que já vi! – Viktor sorriu calorosamente para o felino. — 15 —
CAPÍTULO UM
– Não é como se conhecêssemos muitos contorcionistas por aí também, Viktor! – Kali disse em tom de piada. – Agh, você é muito melhor calada, Kali. – Nelian revirou os olhos. Kali riu da cara do gato. – De qualquer forma, você realmente roubou o show! A maneira que você se contorce é hipnotizante. Nelian agradeceu com um sorriso tímido, mas visivelmente lisonjeado. Damon, que observava de longe, sentiu um calor de orgulho pelos seus colegas, pois sabia do esforço que o contorcionista havia feito desde o dia que foi escolhido pela equipe. Ele tinha sonhos e ambições como qualquer artista e sempre mirava mais alto. Desejava tudo de bom para ele. Quando Viktor e Kali notaram sua presença, o chamaram com entusiasmo, então, ele se aproximou com um sorriso. – Damon, venha se juntar a nós! – Exclamou Kali. – Estávamos falando sobre nossas atividades favoritas no festival L’Euphorie. – Exato! – Disse o cão. – Eu amo o parque de diversões, mas da última vez que fui na roda gigante quase botei meu almoço pra fora. – Se arrepiou ao lembrar daquele momento terrível. — 16 —
L’EUPHORIE
– Mas você também, hein? – Kali deu um peteleco no braço do amigo. – Onde já se viu um cachorro com medo de altura ir em uma roda gigante? – As vezes temos que enfrentar nossos medos... – E você, amigo Damon? Gosta do festival? – Kali pergunta, ignorando o cachorro que resmungava ao lado – Claro! como não amar? As luzes, as cores, a magia no ar. É um momento maravilhoso para todos nós. – Disse com um sorriso estampado no rosto. No entanto, Nelian não pôde deixar de transparecer seu semblante ácido. – Claro, tudo pra você é magia e fantasia, não é mesmo? – Gesticulava com os braços. – E todos sempre amam o seu jeito rápido de pensar. Damon estava confuso. – O que você quer dizer com isso, Nelian? – Ah, nada, apenas me pergunto como truques de mágica que vemos em qualquer lugar chamam tanta atenção assim. Silêncio. Viktor e Kali trocaram olhares. – Nelian, isso não é muito legal de se dizer.– Kali comentou, seu tom brincalhão havia ido embora. — 17 —
CAPÍTULO UM
– Sabemos que nossos números não são originais por aí, mas cada um aqui ainda se esforça para apresentar algo legal. Viktor balança a cabeça, concordando. O gato arregalou os olhos e logo em seguida coloca a mão direita em sua têmpora. – Agh... Bem... Eu sinto muito, venho sentindo dores de cabeça frequentemente e qualquer coisa me deixa estressado. – Você está sempre estressado. – A gata rebate, o cutucando em seguida. – Tanto faz. – Ele a empurrou de maneira fraca e se levantou de onde estava sentado. – Irei tomar algo para melhorar a dor e ensaiar algumas poses na minha caravana. Até mais. Os três permaneceram observando o felino sair rapidamente do campo de visão. Em seguida, ela pôde notar o silêncio prolongado e o olhar fixo do carneiro em direção ao que estava saindo do local. A gata ficou atenta e deu uma cotovelada no amigo. – Ai! O que foi isso? – O cachorro resmunga, olhando raivoso para Kali. Apontou com a cabeça para o disperso, esperando que o cachorro pegasse a pista. Viktor ficou parado olhando. — 18 —
L’EUPHORIE
– Tinha que ser um cão... – Kali botou a mão no rosto em decepção. – Fala alguma coisa, ele tá chateado! – Sussurrou de maneira agressiva. Viktor, ao ver a expressão murcha de Damon, deixou escapulir um pequeno “Oh!”. – Não leve para o coração o que aquele gato feio diz, você sabe que ele fala as coisas da boca pra fora! – Exclamou. – É isso aí! Tivemos uma semana cheia e ele provavelmente já está nas últimas. – Ela continuou. – Não quero nem ver quando ele ficar velhinho. – Um velho muito rabugento, isso sim. Os dois caíram na gargalhada. Damon deu um sorriso pequeno, sabia que seus colegas estavam tentando amenizar sua angústia. — Tem razão, a semana foi corrida mesmo. Pelo menos amanhã é segunda, podemos descansar e diminuir a tensão. — Falou enquanto esticava o corpo, ele realmente precisava de um descanso. — Exatamente, vamos dar nosso melhor hoje para que amanhã possamos roncar o dia inteiro! — Exclamou Kali, levantando os braços. — Nem se você quisesse você conseguiria fazer isso, Kali. — Riu Viktor. – Olha só quem fala, senão é o cão que antes mesmo do sol nascer me perturba por aí! – Kali apontou para o colega – Não consegue ficar parado no — 19 —
CAPÍTULO UM
mesmo lugar nem por um minuto! – Exclamou. – Isso não é verdade! – É verdade sim! Observando uma nova discussão se formar, Damon suspirou balançando a cabeça, porém com um sorriso no rosto. Esses dois não tinham jeito mesmo. Deixou as criaturinhas se resolvendo e saiu de fininho, pensando em ir para a própria caravana e repensar sobre seus truques. Seus cascos contrariaram a sua mente, visto que sem ao menos perceber, estava em frente a porta de Cain. A porta estava entreaberta, então ele adentrou sem fazer barulho. Seus olhos se fixaram imediatamente na mesa onde o coelho estava escrevendo concentrado, afinal, montar histórias encantadoras levava tempo e dedicação. Pensou profundamente se deveria interromper a linha de pensamento do coelho, visto que ele parecia tão entretido no seu mundinho. Do outro lado, Lin e Lili reviravam o armário em busca de alguma roupa diferente para a apresentação daquela noite. Elas combinavam padrões de cores e acessórios enquanto perguntavam inúmeras coisas a Cain, que respondia tudo — 20 —
L’EUPHORIE
calmamente sem tirar os olhos do papel. — Acha que o vestido verde-água é melhor que o turquesa, Cain? — Lin perguntou, segurando os dois vestidos nas mãos. — Turquesa é feio! — Exclamou Lili. — Estamos nessa há horas e no final iremos com as roupas de sempre... — Resmungou, com as orelhas para baixo em tristeza. Cain suspirou, virando-se para as duas. — Os dois estilos são maravilhosos, vocês não precisam ter um embate sobre isso. Vocês podem usar um hoje e o outro na próxima semana, não tem problema nenhum. — Disse com seu jeito calmo. — E Lili, quando sua irmã tiver uma opinião você deve respeitá-la, nem todo mundo tem que agradar os nossos gostos, assim como nós como artistas temos que abrir mão das nossas preferências para trazer um espetáculo bonito. As duas o encararam com seus olhos enormes. Lin e Lili eram basicamente filhotes, então era preciso ter um discurso mais leve com as duas. Damon ainda lembrava do dia em que elas chegaram, ou, na verdade, quando elas foram deixadas no circo. Em uma madrugada fria, colocadas dentro de uma caixa de papelão, bem ao lado do trailer de Cain. Recordava muito bem da feição de desespero do coelho ao ver os dois corpinhos tremendo de frio. Foi — 21 —
CAPÍTULO UM
calmamente sem tirar os olhos do papel. — Acha que o vestido verde-água é melhor que o turquesa, Cain? — Lin perguntou, segurando os dois vestidos nas mãos. — Turquesa é feio! — Exclamou Lili. — Estamos nessa há horas e no final iremos com as roupas de sempre... — Resmungou, com as orelhas para baixo em tristeza. Cain suspirou, virando-se para as duas. — Os dois estilos são maravilhosos, vocês não precisam ter um embate sobre isso. Vocês podem usar um hoje e o outro na próxima semana, não tem problema nenhum. — Disse com seu jeito calmo. — E Lili, quando sua irmã tiver uma opinião você deve respeitá-la, nem todo mundo tem que agradar os nossos gostos, assim como nós como artistas temos que abrir mão das nossas preferências para trazer um espetáculo bonito. As duas o encararam com seus olhos enormes. Lin e Lili eram basicamente filhotes, então era preciso ter um discurso mais leve com as duas. Damon ainda lembrava do dia em que elas chegaram, ou, na verdade, quando elas foram deixadas no circo. Em uma madrugada fria, colocadas dentro de uma caixa de papelão, bem ao lado do trailer de Cain. Recordava muito bem da feição de desespero do coelho ao ver os dois corpinhos tremendo de frio. — 22 —
L’EUPHORIE
Foi algo marcante para todos. Principalmente para Cain. Damon suspirou com um sorriso no rosto. Cain era mais do que apenas um namorado ou colega de trabalho. Ele era o pilar emocional e a alma acolhedora do circo L’Euphorie, tal qual um irmão mais velho. Tendo uma natureza doce e gentil, era impossível não se ver perto dele. Ele ensinou tudo o que as ratinhas precisavam saber, seja falar ou escrever, e pôde encorajá-las a aprender algum truque para que pudessem fazer parte do circo também. E claro, ele que deu nome às pequenas. Observar o caos organizado na caravana de Cain, onde a criatividade fluía e as preocupações se dissipavam, sempre trazia uma sensação de tranquilidade. Era como se ali dentro tudo acontecesse enquanto o mundo lá fora parasse de vez. — Então tudo bem! Vamos usar o vestido verde-água dessa vez. — Falou Lili, fazendo Damon se dispersar dos seus pensamentos. — E desculpa, Lin, não queria falar mal da sua opinião... — Que nada, Lili! — Deu tapinhas nas costas da irmã. — O importante é que resolvemos a situação. — 23 —
CAPÍTULO UM
— Isso mesmo. — Bateu palmas com um sorrisinho no rosto — Agora arrumem essa bagunça. O mágico permaneceu ali na entrada, rindo e sentindo-se grato por ter Cain em sua vida e por fazer parte deste mágico e unido circo, onde as habilidades individuais se entrelaçavam em uma teia de confiança e amor. Era ali, naquele momento silencioso e observador, que Damon compreendeu que, naquele mundo circense, a verdadeira magia existia não apenas nos truques e ilusões, mas também nas conexões e no afeto de seus companheiros de circo.
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CAPÍTULO DOIS
L’EUPHORIE
II.
Aquilo que é feito por amor está além do bem e do mal, beira a insanidade.
O sol se erguia sobre o circo L’Euphorie naquela segunda-feira, o único dia de folga para todos os artistas. Era um momento para relaxar e consertar qualquer detalhe que estivesse fora do lugar, além de ser um breve intervalo da agitação do dia a dia. Damon estava ocupado ajudando Lin e Lili a ajustar seus trapézios, pois segundo as ratinhas, eles pareciam “prestes a desabar tudo” seja o que isso quer dizer na linguagem delas, porém ele tomou como um problema técnico simples. — Você vai conseguir resolver, Damon? — Perguntou Lin, apreensiva. — É algo muito difícil de concertar? Amanhã já temos que nos apresentar de novo! — Falou Lili logo em seguida. Damon suspirou. Ratos e seus gênios apressa— 27 —
CAPÍTULO DOIS
— Nada que não dê para resolver com isso. — Falou, balançando as ferramentas que tinha na mão. — Irei dar uma olhada aqui de cima e logo logo seus trapézios estarão novinhos em folha. As duas gritaram em animação, levantando os braços e fazendo uma dancinha. Damon riu. Olhando a estrutura na sua frente, dava pra perceber o quão instável estava. Não aguentaria nem mais duas apresentações sem ir abaixo com as ratinhas penduradas, pensou com uma expressão de medo. Mas como havia dito antes, era algo fácil de resolver. Após apertar alguns parafusos ao redor e dar dois puxões nas cordas do trapézio, achou que já estava bem melhor e mais seguro. — Prontinho, acredito que agora vamos evitar acidentes por bastante tempo. — Soltou um ar pela boca, aliviado. — Eba! Muito obrigado, Damon Fofinho! — As duas falaram em uníssono. Ao descer de onde estava, ele foi recebido com abraçado das duas ratinhas. Riu abertamente, não tinha como não ficar feliz com a presença delas. Em um momento de distração, Damon nem percebeu uma pata traiçoeira chegando para puxar suas orelhas. — 28 —
L’EUPHORIE
— Ah! — Grita e se solta do aperto das pequenas ratas. — Aqui está ele, o Senhor Esconde-esconde, que entra na caravana dos outros e não dá um piu. — Torceu um pouco a orelha do carneiro, o fazendo se contorcer de dor. — Não! Não machuque o Damon Fofinho! — Lili falou com a voz fina enquanto tentava alcançar o braço de Cain, porém era pequena demais para tal ato. — Não estou machucando ninguém, apenas dando uma pequena lição para esse carneiro sapeca! — Riu de forma maldosa. — Ai, ai, minhas orelhas! — Tentou sair do aperto do coelho, mas falhou. — Cain, por favor, me solta! — Admita que você estava ontem na minha caravana ontem bisbilhotando, que eu penso no seu caso. — Desculpa, desculpa! — Juntou as mãos em súplica. — Eu estava na sua caravana escondido, eu admito! A pata felpuda logo afrouxa o aperto e Damon cambaleia pro lado, com as mãos na orelha que estava sensível. — Escondido? Por que não veio falar conosco? — 29 —
CAPÍTULO DOIS
— Perguntou Lin, confusa. — É! Devia ter falado algo! — Lili complementou a irmã. — Eu... Eu não queria incomodar vocês, pareciam estar se divertindo muito escolhendo as roupas. Então apenas fiquei observando por um tempo. — Suspirou meio envergonhado. De repente, sentiu dois braços rodeando sua cintura e um peso se posicionando no seu ombro. Era Cain. — Mas esqueceu que o coelhão bem aqui tem uma audição bem aguçada. — O observou de onde estava, sorrindo de lado. — É, realmente esqueci... — Abaixou a cabeça e riu de si mesmo. — Hm, então tudo bem. — Começou Lili. — Eu e Lin vamos dar uma volta pelo parque de diversões, queremos ver se tem algum brinquedo novo. — Isso aí! — Exclamou Lin. As duas deram um high five animadas. — Tá legal, mas sem mexer em nada! — Falou Cain depois de ajeitar sua postura, autoritário. — E se a equipe de manutenção estiver lá, voltem para cá imediatamente, entederam? As duas ratinhas saíram correndo em seguida, gritando um “Tá bom!” ao mesmo tempo. — 30 —
L’EUPHORIE
Tentar impedir duas crianças de brincar era basicamente impossível. Sentiu uma mão em seu ombro e logo virou o rosto para o coelho. — Cabeça cheia? — Sorriu empaticamente. — Digo, quando você estava na caravana. — Tipo isso... — Olhou para o teto do circo, não querendo encarar Cain. — Não estava querendo conversar no momento. Apenas ... ficar ali. Desculpa se incomodei. — De jeito algum! — Apertou as bochechas do carneiro com as duas. — Só estava preocupado e queria falar disso de um jeito mais leve. Damon sorriu. — Está tudo bem, só estou sendo o carneiro esquisito de sempre. — Seu olhar estava na plateia do circo mas logo se fixou no coelho. — Acho melhor irmos, não quero passar minha folga no palco onde eu trabalho. — Concordo. — Cain riu. — E você não é esquisito! Se você falar isso de novo, você vai ver só! O mágico colocou as patas nas bochechas, com medo de um possível ataque. — Nem inventa! — Então não me dê motivos pra inventar! Os dois se encaram sério por alguns segundos, — 31 —
CAPÍTULO DOIS
e em seguida caem na risada. — Tá bom, vamos embora agora, “Damon Fofinho” — Disse Cain em tom de brincadeira. — Agh, não me chame disso... — Grunhiu. — Só deixo elas me chamarem assim porque são criança. — É um apelido bom, deveria virar seu novo nome artístico. “Damon, o mágico fofinho” — Cutucou a lateral do carneiro. — Cain! Continuaram a conversar e brincar um com o outro enquanto iam em direção a saída do circo. Por estarem distraído, Damon e Cain não percebem um corpo se locomovendo rapidamente até eles, o que ocasiona uma colisão. O mágico quase cai, mas o coelho consegue o segurar a tempo. — Mas o que...? — A voz pergunta confusa. — Nelian? — Questiona Cain. — Pra que tanta pressa assim? O felino olha para os dois com os olhos arregalados, como se tivesse acabado e sair de um transe. Mas, logo se recompõe. — Hm... Eu... — Se ajeitou no lugar, tímido. — Eu vim pedir desculpas... — Sussurrou de forma quase inaudível. — Você o que? — Damon queria saber se tinha ouvido direito. — 32 —
L’EUPHORIE
— Eu vim pedir desculpas, tá legal? — Cruzou os braços. — Eu não estava em um momento legal ontem, aí acabei falando aquelas coisas toscas sobre você. Cain observava a situação com um a testa franzida, já que não sabia o que havia acontecido na área comum na manhã passada. — Coisas toscas? — Perguntou olhando pra Damon ao seu lado. O mágico se desesperou um pouco, pois mesmo Cain sendo calmo e gentil, era também muito fácil fazê-lo começar alguma discussão. Principalmente se envolvesse seu namorado no meio. — Hã... Tudo bem, Nelian, eu percebi no seu semblante que você não parecia muito bem. — Se apressou em dizer. — Então não se preocupe, não levei pro coração e nem nada. — Que bom, não iria conseguir ficar tranquilo se eu não pedisse desculpas. — Revirou os olhos. — Por acaso vocês sabem onde o Viktor está? — Da última vez que o vi ele estava no teatro. — Apontou Cain. — Ok, muito obrigado. — Rodeou os dois e depois se virou. — Hm, desculpa por ter esbarrado forte em vocês, não sabia que estariam aqui na entrada. E assim que terminou de falar, o felino se virou e — 33 —
CAPÍTULO DOIS
adentrou o grande circo. Sem esperar respostas. Típico do Nelian. — Que estranho, né? — Damon coçou a cabeça, rindo sem humor. — Bom, eu acho que nós podíamos ir no parque agora e... — O que o Nelian disse pra você? — Cain o interrompeu, sério. Suspirou. Não tinha como fugir quando seu namorado ficava incomodado com algo. — Que não entendia o motivo da minha fama e de todos gostarem do que eu faço... — Você é um anjo mesmo, Damon, porque se fosse comigo... — Você iria discutir com ele, eu sei. — Sabia o que ele era capaz de fazer, já tinha visto várias vezes. — Mas eu não sou assim. Prefiro viver em paz do que em alguma guerra boba com um colega de trabalho. — Tá, tá. — Balançou as mãos — Mas se eu pegar ele falando mal de você de novo, vou fazer espetinho de gato e vender a um real na lanchonete! Damon caiu na risada. “Atenção, atenção.” Uma voz no alto falante disse de repente. — Hm? Será que é manutenção? — Perguntou Cain, com as patas na cintura. — Não faço ideia. — O mágico respondeu. — 34 —
L’EUPHORIE
“Amanhã às 10 horas teremos a visita de um dos nossos investidores, estejam prontos para mostrar seus charmes e talentos!” — Todo mês vem algum chatonildo querer opinar sobre o nosso circo, será que não cansam? — Uma voz fina fala enquanto se aproxima. — Kali! Não estava com Viktor no teatro? — Pergunta o coelho. — Que nada! Vai saber onde esse cachorro se meteu, quando cheguei lá não tinha ninguém. — A gatinha cruza os braços, frustrada. — Um investidor... Espero que isso não afete na rotina. — Diz Damon, pensativo. — Exato! — Exclama a gatinha. — Eu vou limpar minhas bolinhas amanhã, não quero saber de algum investidor bobão! — Agora não sejamos tão grosseiros, Kali. — Cain interrompe. — Um investidor sabe o que está lucrando mais ou menos aqui no circo. Ou seja, ele vindo falar com a gente vai ser mais uma ajuda para vermos o que devemos melhorar. — Não entendo dessas coisas chatas de adultos. — Colocou a língua pra fora fazendo careta. — Talvez seja porquê você tem tudo na hora que quer. — O coelho cruza os braços. — E espero que continue assim! — 35 —
CAPÍTULO DOIS
Os dois balançaram a cabeça para o lado enquanto riam da gatinha. — Esperar que o que continue como? Kali se assusta com a voz que vinha do seu lado esquerdo e se vira rapidamente. — Viktor! — Deu um peteleco no cachorro por ter lhe assustado. — Eu estava te procurando por todo lado, bobão. — Ai! Eu estava no teatro o tempo todo, calma! — Fez uma expressão dolorosa, passando a pata pelo local machucado. — Nelian estava indo para lá te procurar, não encontrou com ele? — Cain perguntou. — Hm? Nelian? — Fez uma cara pensativa. — Não, não o vi pelo perímetro e nem senti o cheiro dele. Damon e o coelho se olham, mas logo balançam os ombros. Vai entender a mente daquele gato. — E o que diabos você fazia no teatro a essa hora? — Kali questionou. — Ah, hoje acordei meio ansioso e com o nariz coçando, e você sabe que é horrível quando ele coça. — Chacoalhou os braços, pois odiava lembrar da sensação. — Aí percebi que era um cheiro muito ruim que eu tava sentindo! E seguindo o rastro acabei chegando no teatro, mas aquele lugar me dá arrepios — 36 —
L’EUPHORIE
quando está vazio e eu não teria coragem de entrar sozinho. — Bom, você achou a fonte do cheiro? — Damon perguntou, agora interessado na história. — Hm, não... — Abaixou as orelhas. — Eu realmente não cheguei a entrar. O cheiro não parecia estar pela área da bilheteria ou do auditório, então deduzi que estariam nos fundos e não me atrevo a entrar lá nem de dia! — Agh, eu vou te esganar, cachorro! — Kali exclamou. — Você começa a contar a história, mas não vai afundo pra saber como ela termina. — Bufou, frustrada. — E não é todo dia que você sente um cheiro diferente, pode ser algo importante. — O coelho adicionou. O cachorro se sentiu nervoso com o olhar dos três direcionado a si e começou a abanar o rabo enquanto bolava algo em sua mente. — Tá, realmente pode ser algo importante... — Ponderou, e rapidamente suas orelhas levantaram quando teve uma ideia. — Mas! Alguém tem que ir comigo até lá depois para investigar! — Eu vou com você. — Damon se candidatou. — Se for cheiro de algo danificado ou mofado, eu posso ajeitar na mesma hora. — 37 —
CAPÍTULO DOIS
Viktor logo se agitou de tanta felicidade e se jogou no mágico, o dando um abraço apertado. — Então tá marcado!
A noite surgiu e todos se reuniram no refeitório para comer. Cain havia estipulado a regra de que toda segunda-feira teria um jantar em conjunto, para que pudessem interagir uns com os outros, mas principalmente para que as duas ratinhas mais novas tivessem um senso de família com todos ali presente. Porém, naquela noite a tensão pairava no ar, já que o investidor estava agendado para visitá-los no dia seguinte, e todos estavam ansiosos para descobrir os detalhes do que ele tinha em mente. Mas, ao sinal de que a comida estava servida todos ignoraram a ansiedade por um momento e se prepararam para encher o bucho. Enquanto se ajeitavam e comiam à mesa, Kali e Lili tagarelavam animadamente sobre moda e cores, compartilhando ideias e inspirações para seus trajes deslumbrantes enquanto Lin apenas escutava e apreciava a conversa, ainda mais estando no meio das duas extrovertidas. — 38 —
L’EUPHORIE
Viktor tentava furtivamente roubar um pedaço suculento de carne do prato de Kali, provocando risadas e olhares cúmplices dos outros membros. Enquanto isso, Nelian falava ao cachorro, com sua confiança inabalável, seus planos ambiciosos sobre como conquistar o mundo do entretenimento se tudo corresse bem no encontro com o investidor. Cain aproveitava a oportunidade para compartilhar com Damon as últimas descobertas das gêmeas, especialmente o conhecimento sobre o nome dos planetas e como o sistema solar funcionava, deixando o carneiro morrendo de amores com a inteligência das pequenas ratas. Foi interrompido por uma pata cutucando repetidamente seu ombro. — Viktor? O que foi? — Se virou para ver o cachorro, que tinha uma expressão nervosa no rosto. — O Nelian! — Sussurrou gritando, para que Damon também pudesse escutar. — Ele está com o mesmo cheiro que eu senti mais cedo. Os dois olharam para o felino que desfrutava da sua refeição tranquilamente, não tendo ideia que falavam sobre ele. — Como é esse cheiro? Você nunca descreveu ele para nós. — Damon questionou. — Realmente. — 39 —
CAPÍTULO DOIS
— E-Eu não sei explicar... — Gaguejou, tentar articular com as patas. — Parece cheiro de fumaça, mas ao mesmo tempo cheirosa, algo bem atípico, até parece magiInterrompendo o transe causado pela refeição e consequentemente a conversa privada dos três, Nelian ergueu o copo e começou a bater levemente o garfo sob a superfície de vidro, chamando a atenção de todos. — Desculpe-me por interromper, mas quero que todos saibam que não é todo dia que um investidor nos visita — Ele disse com entusiasmo. — Esta é a nossa chance de brilhar ainda mais, de ir além do circo. Kali, com as sobrancelhas franzidas, interrompeu Nelian. — Nelian, não seja bobo e sonhador de novo, você sabe que não precisamos ir além do circo. Estamos bem como estamos. — Ela olhou em volta. — Afinal, este é o nosso lar, não é? — Claro, Kali, você está certa. — Pigarreou e sorriu em seguida. — Este lugar é mágico! Mas, vocês sabem, não me surpreenderia se eu conseguisse uma oportunidade de ouro amanhã. Afinal, sou excepcional no que faço. — Ele piscou para o grupo, esperando que suas palavras não fossem mal interpretadas. — 40 —
L’EUPHORIE
— Tá, tá. Você diz isso toda vez. — Kali balançou a mão, não dando importância. — Deveria pensar assim também, Kali! — Exclamou o gato. — É bom ver novos horizontes de vez em quando! Os outros observavam em silêncio os dois felinos se esperarem com palavras. — Não quando estamos confortáveis do jeito que as coisas estão. — Rebateu. — O que ninguém muda, ninguém estraga. — Pois talvez alguém devesse fazer uma mudança nesse lugar, para variar! — Quem, Nelian? Só um bobão para querer mudar nova vida boa! — Eu! Eu quero me mudar dessa vida pacata e monotóna! — Gritou. Silêncio. Alguém deu uma tosse forçada. — Ok! — Cain ri nervosamente. — Acho que todos nós estamos com os nervos a flor da pele por conta de amanhã, então sem mais discussões. — Isso mesmo. — Damon complementou. — Então, vamos comer para recuperar as energias e estarmos prontos. — 41 —
CAPÍTULO DOIS
Nelian se levanta abruptamente da cadeira e sai do refeitório sem dizer uma palavra. Todos observam a saída com um olhar preocupado, mas depois de mais um aviso de Cain voltam a terminar de comer. — Alguém não deveria ir atrás dele? — Viktor sussurrou para o casal. — Ele tem que resolver essas questões sozinho. — Disse Cain em um tom de ponto final. O cachorro ficou com um semblante triste e com as orelhas abaixadas, mas concordou com a cabeça antes de voltar para se prato. Kali ainda estava meio abalada, mas era consolada por Lin com um carinho nas costas, enquanto Lili reclamava do quão feio era o tom de vermelho que tomou a cara do felino mais cedo e como não combinava com suas roupas. O casal observava a situação atual de todos. O mágico preocupado e ansioso, e o coelho sério e pensativo. — Que amanhã dê tudo certo... — Damon suspirou, agora um pouco ansioso. — Que amanhã dê tudo certo. — Repetiu Cain, olhando para o lugar onde Nelian sentou mais cedo.
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