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O Conservador x Voto Livre

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O Conservador x Voto Livre: a imprensa que fez história em Cantagalo

Álvaro Lutterback Dutra


Mem贸ria da Imprensa Fluminense


Copyright © by Álvaro Lutterback Colaboração Thiago Petra da Silva

LUTTERBACK, Álvaro. O Conservador x Voto Livre: a imprensa que fez história em Cantagalo. 2011


Álvaro Lutterback Dutra é formado pela faculdade de Estudos Culturais e Mídia da Universidade Federal Fluminense e desenvolve projetos de pesquisas na área da cultura, focando o interior do Estado do Rio de Janeiro. Jornalista, escritor e poeta, foi um dos vencedores do edital 009 da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, focando a Memória da Imprensa Fluminense, o que gerou o presente trabalho. contatos: alldd@ig.com.br


Índice 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. 13. 14. 15.

Apresentação História A imprensa na época Voto Livre O Conservador Cronologia Localização O Conservador X Voto Livre Economia Escravos A Cidade A Saúde A Sociedade As Personalidades Barão de Cantagalo

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Apresentação Em dezembro de 2010, iniciei minhas pesquisas em materiais impressos visando à elaboração de um projeto que atendesse às exigências do Edital 009, da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, cujo conteúdo aborda a “Memória da Imprensa Fluminense”, objetivando incentivar o levantamento, a investigação e a produção de trabalhos originais sobre os periódicos publicados no Estado do Rio de Janeiro. Após ler muitos artigos e folhear centenas de páginas de jornais, resolvi focar o levantamento em semanários do município de Cantagalo, situado na Região Serrana do estado do Rio de Janeiro, num recorte temporal compreendido entre os anos de 1850 a 1900, pois acreditava estar ali um manancial de informações e dados que poderiam muito bem retratar os costumes, os modos de viver e de fazer política , numa época em que a região desfrutava do apogeu das lavouras de café. Para que se tenha uma dimensão da importância da região no contexto econômico do Império, torna-se necessário expor que em 1860 haviam mais de duzentas propriedades fazendeiras no local, sendo quase a totalidade cafeeiras, fazendo com que o eixo

gravitacional da produção fluminense de café se deslocasse do setor ocidental da bacia do Paraíba (onde se destacava Vila de Vassouras), para o setor oriental, no qual Cantagalo era responsável por mais de 60% da colheita de café, gerando riqueza, luxo, ademais de belas fazendas e intenso tráfico de escravos. Neste sentido, os periódicos que por ali circularam, nestes cinqüenta anos, testemunharam e registraram a dinâmica de uma região num momento marcado pelo fim da escravidão e pela proclamação da República. Mais tarde pude confirmar que a história de Cantagalo e a história da imprensa local caminharam juntas, completaram-se e explicaram-se. Criei um título para batizar o projeto: “O Conservador x Voto Livre: a imprensa que fez história em Cantagalo”, citando apenas dois dos impressos que circularam no século XIX. A partir de então, foram mais de quarenta idas à Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, outras tantas à Biblioteca Municipal de Cantagalo, inúmeras visitas a diferentes fazendas da região, além de entrevistas com pesquisadores e historiadores, fora as várias horas “nave-

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gando” na internet, lançando nomes e palavras-chaves na busca por mais e melhores informações. Pude desfrutar de momentos de enorme satisfação ao correr os olhos por impressos centenários, cujas páginas de muitos dos quais quase se desmanchavam pelas minhas mãos, e onde a cada folha observada surgia um dado, que cruzava com elementos da área econômica, da vida política, do cotidiano, inclusive de ocorrências policiais, do poder do coronel, das lamúrias nas senzalas, das pragas dos cafezais, das enchentes ameaçadoras, das noites no theatro e das grandes festas privadas nos salões das fazendas. Tal esforço forma um amplo painel e comprova o papel que a imprensa constitui como fonte privilegiada para o estudo da História, pois, com base em seus registros, vestígios e fontes, expõe momentos do glamour e da crise, da abundância e da escassez de um período, nos quais assuntos relevantes, como o tráfico e a escravidão, foram discutidos na arena pública. O professor Nelson Werneck Sodré, após ter se debruçado longamente sobre este tipo de documento, afirmou que “a vida política quase se resumia na imprensa” , o que significa que os periódicos formavam o palco no qual eram discutidos os assuntos que nortearam a vida política da época. O resultado desses seis meses de pesquisa pode ser observado a seguir, onde pretendo ser um observador que caminha tranquilamente nas folhas dilaceradas de um velho jornal, descobrindo detalhes e procurando fatos novos que possam enriquecer a história dessas terras que um dia foram chamadas de Sertões do Macacu. Divido os temas por tópicos, a fim de facilitar consultas e, conforme prevê o edital “Memória da Imprensa Fluminense”, mil cópias do estudo foram disponibilizadas em DVD a serem arquivados nas bibliotecas do Estado. Cerca de 360 páginas foram digitalizadas e um portal foi criado na internet para o acesso mundial através da rede de computadores.

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História

História Texto baseado em trabalhos dos pesquisadores Henrique Bon e Clélio Erthal Uma das primeiras referências oficiais à região, na qual surgiria posteriormente o arraial de Cantagalo, data de 1767, quando as autoridades coloniais ordenaram ao Sargento-Mor Manoel Vieira Leão a confecção de uma carta geográfica. A ignorância relacionada ao que encerrava as vertentes da Serra da Boa Vista em direção ao Rio Paraíba do Sul, bem como o território compreendido entre os seus afluentes Paquequer e Grande, era tal que se limitaria o militar a inscrever na vasta extensão, hoje ocupada por quinze municípios, uma frase tão singela quanto imprecisa: “Sertão Ocupado por Índios Brabos”. É possível que Vieira Leão se referisse aos índios Coroados, bem como a remanescentes de tribos que, pressionadas pelas frentes de ocupação oriundas de Campos dos Goytacazes, deslocavam-se para o médio Paraíba. A região se mantivera fechada aos europeus ao longo de quase todo o século XVIII, por força de Cartas Régias, cujo objetivo era coibir o contrabando aurífero de Minas Gerais, interditando a abertura de novas estradas e estabelecendo áreas proibidas à ocupação. Os Sertões do Leste, correspondente à Zona da Mata mineira, e os Sertões do Macacu, na província fluminense, eram duas delas. Em torno de 1780, no entanto, um garimpeiro de nome Manoel Henriques, por alcunha Mão de Luva, provavelmente natural das Minas Gerais, atravessa o Rio Paraíba do Sul, invadindo o território interditado com o escopo de gaTropa de burros rimpar ouro de aluvião sem recolher a quin-

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ta parte, por lei exigida pela coroa portuguesa. A imaginação desabrida de alguns autores atribuiria a este contrabandista a identidade de um hipotético e fantasioso Duque de Santo Tirso, nobre português enamorado da futura rainha Maria I, que desterrado por Pombal em terras brasileiras vingava-se desta forma das autoridades coloniais. Quanto à luva, sua origem estaria vinculada a um ato de amor: visitado secretamente na prisão por sua eleita antes de consumado o desterro, protegeria desta forma o infeliz amante, a mão que fora por ela beijada uma derradeira vez. Distante, porém, da condição de protagonista de uma lenda de amor irrealizado, seria Mão de Luva o inconteste líder de um grupo, que, à revelia das leis metropolitanas, explorava o precioso metal nos córregos adjacentes ao acampamento, situado no centro da Cantagalo atual. Irrequieto e algo desordeiro, existem referências a ter ele perdido ou mutilado uma das mãos em alguma refrega, protegendo desde então o coto, com uma luva de couro. Em 1784, organiza-se a primeira expedição contra Mão de Luva e seu bando, comandada pelo Sargento-Mor Pedro Afonso Galvão de São Martinho. Tiradentes, como alferes, fazia parte do destacamento, incumbido da realização de levantamentos topográficos. Uma segunda expedição, em 1786, lograria finalmente capturar o contrabandista, referido como “facinoroso” pelas autoridades coloniais. Quanto ao Sargento-Mor, deve-se a ele a primeira referência documental ao sítio conquistado como Córrego do Canta Gallo do descoberto do Macacu, não expli-citando o motivo de tal nome. O mineralogista inglês John Mawe, que em 1809 visitaria a região, teria colhido dos habitantes a versão de que as tropas invasoras, desorientadas por infrutíferas buscas, haviam, por fim, ouvido o canto de um galo, levando-os à paliçada defendida pelos contraventores. Uma vez devassado clandestinamente o território, decidiria a Coroa por autorizar o seu povoamento, esperançosa de que o novo descoberto viesse a compensar a decadência observada nas jazidas mineiras. O Vice-Rei D. Luiz de Vasconcellos e Souza ordenou desta forma ao Superintendente Geral do Ouro da Capitania do Rio de Janeiro, desembargador Manoel Pinto da Cunha e Souza, que se dirigisse ao local e erguesse

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História

uma sede administrativa do novo garimpo, promovendo em seguida a distribuição de datas auríferas aos interessados em explorá-las, os quais, para tal, deveriam possuir pelo menos doze escravos. Manoel Pinto da Cunha e Souza, munido de atribuições que lhe conferiam a condição de autoridade máxima, chega ao destino em 2 de junho de 1787, juntamente com um séqüito de militares, párocos e agentes administrativos. Na falta de melhor sítio, instala-se exatamente no antigo local do acampamento destruído, edificando as primórdias construções, dentre as quais a casa do Registro do Ouro. Ordena ele preliminarmente que se proceda uma prospecção nos córregos da Lavra Velha e do Canta Gallo, nos dias de hoje respectivamente córrego das Lavrinhas e de São Pedro, iniciando ao longo dos mesmos a distribuição das terras. Este primeiro administrador morreria em 1799, sem que o ouro arrecadado sequer igualasse as despesas administrativas. De qualquer forma, pouco depois da abertura oficial do novo território, algumas escassas famílias, originárias principalmente de Minas Gerais, dos Açores e de Santo Antonio de Sá, dariam inicio à ocupação permanente da região, abrindo clareiras nas matas e reivindicando a posse de largas faixas de terras à volta, as quais, uma vez concedidas pelo Governo Provincial ou pela Coroa, dava-se o nome de “sesmarias” - em geral, grandes extensões de meia ou mesmo uma légua em quadra, cujos limites imprecisos, não raro, provocariam arrastados conflitos nos anos subseqüentes. Da cultura de subsistência, deslocar-se-iam estes povoadores para a cana de açúcar e o café, este último, já assinalado de forma ainda incipiente em torno de 1805. O inglês Mawe, já em 1809, mostrara-se surpreso pelo número e qualidade das fazendas que havia encontrado, pouco mais de vinte anos decorridos desde o início do povoamento sistemático. Quanto à formação étnica dos habitantes, considerando-se os que batizaram os filhos livres desde a ocupação oficial entre 1787 e 1817, observa-se uma composição de 58% de brancos ou dos que se reconheciam e eram reconhecidos como tal; 23% de pardos ou pretos; e 16% de índios, não sendo possível determinar a origem em 3% dos indivíduos. Considerando-se o número de escravos no mesmo período, bem como o de indígenas não aculturados, evidencia-se que a população não branca suplantava em muito, no período, o contingente de origem européia, ainda que este último dominasse o território política e economicamente.

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Em 1814, cessada a corrida do ouro, não obstante tendo iniciado o incremento do café, o “arraial e distrito das Novas Minas de Cantagallo” assume importância crescente, sendo elevado, através de alvará do príncipe regente D. João, datado de 9 de março, à condição de Vila, sob o nome de “São Pedro de Cantagallo”, emancipando-se, pois, de Santo Antônio de Sá. Esta última, antiga sede de vasto município que se estendia da baía de Guanabara até os limites com Minas Gerais, poucos anos depois mergulharia em um processo de irreversível decadência, até que dela não restasse mais que as magníficas ruínas de um mosteiro a poucos quilômetros da atual cidade de Itaboraí. A primeira Câmara Municipal de Cantagalo seria inaugurada em 1815, erigindo-se então o pelourinho no Largo do Rossio, descampado situado em frente à velha igreja, numa área que difere poucos metros da localização do templo atual, este com data de 1870. Em 1818 o município de Cantagalo sofreria seu primeiro desmembramento, uma vez que D. João VI apartou-lhe uma vasta região junto à serra da Boa Vista, para a instalação, no ano seguinte, de uma colônia suíça. Em 1824, os arraiais de Aldeia de Pedra e São Fidélis, anteriormente pertencentes a Campos dos Goytacazes e desde 1814 sob a jurisdição de Cantagalo, retornam ao município de origem. De qualquer maneira, Cantagalo neste período abrange ainda um território que daria origem a uma dezena de outros municípios. Logo atrairia muitas das famílias suíças originalmente destinadas à Nova Friburgo, as quais abandonam os píncaros da serra em favor de terras mais quentes. Estes imigrantes europeus – primeira alternativa ao modelo escravista a ser intentado no Brasil – espalhar-se-iam por todo o município a partir de 1820, incrementando a implantação de novas lavouras de café. A eles seguiriam os alemães, a partir de 1824, bem como alguns poucos italianos, britânicos e franceses. Quanto aos indígenas, habitantes primordiais, aos quais se referira com indisfarçável temor em 1767 o Sargento-Mor Vieira Leão, já não passavam de esparsos grupos, aculturados gradualmente e, não raro, mão-de-obra semi-escrava nas derrubadas que se dariam em toda a região. Inicialmente reduzidos por ação dos religiosos que subiam o Paraíba, a algumas aldeias pouco a pouco descaracterizadas, encontravam-se cercados pela frente que avançava de Campos, pela ocupação dos Sertões do Leste em Minas Gerais e finalmente pela chegada do colonizador às Novas Minas de Cantagalo.

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História

Sua presença intimidante no imaginário europeu desapareceria também por força das doenças, entre as quais a tuberculose e a varíola, bem como as frentes de ocupação utilizariam outros artifícios, entre os quais donativos baratos e aguardente. Cantagalo, que desde 1787, além da população civil, contaria com uma milícia de pelo menos duas dezenas de soldados, estava igualmente em condições de se contrapor, através da força, a qualquer resistência que os indígenas viessem a oferecer contra os invasores. John Mawe, ao atravessar o município, em 1809, encontra alguns remanescentes de uma aldeia, já parcialmente aculturados, vestindo-se segundo os portugueses e Debret, pouco mais de dez anos depois, registra em aquarela os “caboclos dos arredores de São Pedro de Cantagalo”, assinalando que os mesmos executavam tarefas para os ricos proprietários da região, que os remuneravam com “gêneros alimentícios e cachaça”. A primitiva ocupação territorial pelo europeu e a concomitante desagregação do elemento autóctone, portanto, não iria diferir do observado em outras regiões brasileiras, ora prevalecendo o aparato bélico, ora a abordagem de cunho religiosa, bem como a sedução através de presentes de pouco valor. Nesta equação, a aguardente e as enfermidades exerceriam um significativo papel e os livros paroquiais de Cantagalo conteriam cada vez mais raras referencias aos indígenas, até que fossem os mesmos em meados do século, sepultados no silencio absoluto. O plantio da rubiácea, ao longo de pelo menos sete décadas do século XIX reinaria inconteste em Cantagalo, chegando o município, por momentos, a suplantar a produção de todos os outros pólos da província fluminense. Muito mais do que a expansão da urbe, esta fabulosa riqueza, aliada a uma influência política crescente no âmbito provincial, acabaria por elevar a sede municipal à condição de cidade, em 2 de outubro de 1857. A data de tal título, na verdade mais simbólico do que representativo de uma real modificação de status seria durante muitas décadas, já no século XX, confundida com a da sua verdadeira emancipação político-administrativa ocorrida em 9 de março de 1814. Esta acumulação de capital amealhada principalmente sobre o dorso cativo e através de um desmatamento acelerado levaria ao surgimento de uma aristocracia agrária, cujo

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perfil conservador e arraigado à monocultura e ao escravismo, acabaria por levá-la ao colapso antes do final do século. Não obstante, indivíduos como Antônio Clemente Pinto, imigrante português que enriquecera através do café e do tráfico e se tornaria comendador e posteriormente o primeiro Barão de Nova Friburgo, representava, em meados do século XIX, uma das maiores fortunas de todo o país, proprietário de duas dezenas de fazendas e palácios como os do Catete, no Rio de Janeiro, e do Gavião, em Cantagalo. Cerca de dezenove cantagalenses ou moradores de Cantagalo, via de regra ligados à produção e ao comércio de café, seriam agraciados com títulos nobiliárquicos, até o advento da República. A família Clemente Pinto, em sua segunda geração, seria responsável pela chegada em Cantagalo da estrada de ferro, cujo ramal do distrito de Cordeiro até a sede, seria inaugurado em 1876, sob responsabilidade de Bernardo Clemente Pinto Sobrinho, filho do patriarca, já falecido. A ferrovia, além de beneficiar o escoamento da produção das fazendas da família, seria explorada por longos anos, através de contrato de exclusividade, por quem a financiara. Data desta época até o final do século, o afluxo para Cantagalo de numerosas famílias originárias da Itália, as quais, juntamente com as libanesas, encerrariam o ciclo migratório iniciado com os açorianos ainda no final do século XVIII. A partir da crise das lavouras cafeeiras, passaria o município por um longo período de decaimento e estagnação. A emancipação de velhos distritos lhe causara significativa perda territorial, bem como famílias arruinadas abandonaram suas antigas estâncias e casarões. O gado, em regime extensivo, substituiria o café no solo enfraquecido por quase um século de plantio e a população chegara a diminuir. Somente nas últimas décadas do século XX, o calcário, já assinalado por John Mawe em 1809, entraria em cena, arrojando Cantagalo em novo ciclo de ascensão econômica. Hoje, o município, dono do terceiro parque cimenteiro do país, volta a figurar como aquele que detém a maior arrecadação per capita de todo o seu antigo território, o que estabelece o desafio de fazer com que o novo ciclo seja duradouro e reverta, de fato, em melhor qualidade de vida para todos os seus habitantes.

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A imprensa na época

A imprensa na época O jornalista Acácio Ferreira Dias publicou em 1940 o livro “Terra de Cantagalo”, no qual informa que em 22 de março de 1838 Manuel José de Azevedo comunicou à Câmara Municipal de Cantagalo que estabeleceria na antiga rua Direita uma tipografia com a denominação de “Tipografia Patriótica, “a fim de divulgar as luzes e conhecimentos literários, responsabilizando-se por quaisquer abusos, ou excessos que nela se cometerem em ofensas às leis”. Meses depois, a tipografia passou a funcionar num prédio atrás da atual Igreja Matriz, de onde, em 12 de março de 1839, saiu o primeiro periódico daquelas terras, com o nome de “Correio Cantagalense”, sob responsabilidade de Cristovão Vieira de Freitas.

Tipografia na região de Cantagalo

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No período pesquisado (1850-1900), o Brasil atravessou o longo Segundo Reinado (1840-1889), caracterizado por uma estrutura política conservadora; uma população essencialmente rural, abrangendo mais de 90% dos indivíduos; uma produção baseada enormemente na mão-de-obra escrava; e um índice de analfabetismo na ordem de 85%, incluindo grande parte dos proprietários de terra. Esse quadro impunha barreiras intransponíveis ao desenvolvimento da imprensa brasileira, no entanto os jornais circularam livres e o reinado de D. Pedro II tolerou críticas e até deboche em demasia, com caricaturas consideradas, no mínimo, ofensivas. Em 1880, a população de Cantagalo contabilizava exatos 12.648 habitantes, com 66 eleitores e 23.649 escravos matriculados. Havia doze escolas, três chafarizes, uma igreja, um cemitério e uma casa de caridade. Os diários da região tiveram vida curta, salvo algumas exceções, e no período pesquisado, do ponto de vista ideológico, a segmentação deu-se em torno de duas clivagens: entre monarquistas e republicanos e entre abolicionistas e partidários da ordem escravocrata. Em defesa dessas causas, as principais lideranças políticas e intelectuais debatiam nos jornais. Dois periódicos de tendências opostas: O Conservador fundado em 1865 por José Joaquim de Santana e Francisco Emilio, então dirigido por Alberto Bezamath, e o Voto Livre, de orientação liberal, fundado em 1882 por José Bento de Vieira Barcellos, eram tidos como os mais representativos nesta época. Através dessas folhas, os intelectuais travavam belos desafios literários e os políticos divulgavam suas plataformas partidárias. Com a República, veio a repressão e o mais lido jornal da região, Voto Livre, foi fechado em novembro de 1889, após publicar um artigo intitulado “Assalto ao Poder”, com violentas críticas ao Marechal Deodoro da Fonseca. Eis parte deste texto: Com o sentimento do mais verdadeiro espanto, foi ontem a chegada do trem recebida nesta cidade a noticia da deposição do governo legal pelas tropas de mar e guerra da corte, sob o comando do general Deodoro da

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A imprensa na época

Fonseca. O assédio ao paço imperial, a prisão dos membros do gabinete, são fatos de tão gravidade reveladora, de tal audácia e força. Ainda sob a impressão dolorosa do todos estes acontecimentos, que não podem encontrar simpatias no país, custa-nos a crer que não se organize a resistência legal. Não pode ser governo um partido republicano que apenas conta em seu grupo uma diminuta minoria de adeptos sinceros e sérios. Não podemos nos sujeitar a uma ditadura militar, levantada pela indisciplina, pelo despeito, e que só pela violência poderá se impor. Que confiança pode inspirar-nos a promessa de garantia de nossa vida e de nossa propriedade num governo que faz proclamar a pena de morte a qualquer um que arrombe uma porta?

Logo depois, o Governo Provisório baixa o Decreto 85, de 23 de dezembro de 1889, pelo qual “os indivíduos que conspirarem contra a República e o seu governo; que aconselharem ou promoverem por palavras escritos ou atos a revolta civil ou a indisciplina militar... serão julgados por uma comissão militar... e punidos com as penas militares de sedição”. O Voto Livre nunca mais publicou uma frase e em seu lugar surge o Pátria Nova, ocupando a mesma tipografia, mas agora com a cor republicana. O último exemplar do VL merece registro no novo jornal, que publica: “O ultimo numero do Voto Livre não foi distribuído e dele só existe uma folha em poder da redação do Correio de Cantagalo. Fazemos esta declaração para evitar justas reclamações dos seus assinantes e leitores”. Em 24 de novembro de 1889 circula o primeiro número do Pátria Nova, sob a responsabilidade de João Damasceno e Júlio Santos, e com o editorial “O Que Somos” aborda a mudança repentina: “O que somos O Pátria Nova vem substituir o Voto Livre que desapareceu no meio da transformação geral por que acaba de passar o pais. Quando tudo se transformou, quando tudo se modificou, os homens e a instituições, é natural que a velha bandeira que tremulava seja substituída. Rompemos de-

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finitivamente com o passado, que nos oferece ensinamentos. Só conhecemos o presente e vamos em procura do futuro desconhecido com o Pátria Nova. Constituímos hoje, os brasileiros, um só partido, o da organização da nova pátria. Esta proclamada a republica, mas estamos debaixo de um governo de necessária ditadura. Estabelecer as instituições republicanas e tornar de hoje em diante impossível toda a volta ofensiva da reação, não imitar os erros e as faltas do regime passado, por se imediatamente ao trabalho para cumprir do modo o mais pratico um atarefa útil, tal é a missão imposta pelo pais ao patriotismo de todos os seus filhos. Não nos perguntem por que mudamos.

Edição de 1884 do Voto

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Voto Livre

Voto Livre O Voto Livre vem suprir uma lacuna sensível na política e imprensa do município de Cantagalo... Há muito tempo, o órgão do partido liberal deste município desarvorou a bandeira, à cuja sombra vivia, para constituir-se mero patrono dos interesses da lavoura e do comércio... Queremos a livre manifestação de todas as crenças e convicções. É este o maior empenho do liberalismo moderno.

Com estas intenções manifestadas no editorial de primeira página, circulou no dia 29 de janeiro de 1882 a primeira edição do jornal Voto Livre. Impresso numa tipografia situada no Largo da Matriz, sendo seu redator chefe o Dr. José Bento Vieira Barcelos e tendo como “responsável moral da secção livre” os Srs. Dr Joaquim Marques da Cruz, Capitão Luiz Vieira de Carvalho, Tenente Aurélio Hypólito de Araujo e Dr. Alberto Bezamat, o jornal em tamanho tablóide, medindo 45 cm x 32 cm, circulava todos os domingos e era vendido nas ruas ao preço de 300 réis e entregue aos seus assinantes por 10$000 anualmente.

Primeira página Voto Livre

Com quatro páginas, pouquíssimas gravuras, alguns anúncios na última folha, o Voto Livre ocupava quase todo o seu espaço com fatos locais e regionais, abrangendo a vida social e política e, em 17/08/1882, assumiram a Redação o Dr. João Damasceno Pinto de Mendonça e o Dr. Júlio Veríssimo da Silva Santos. O semanário era eficiente e ligeiro na divulgação das informa-

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ções e por diversas vezes incluiu em sua edição de domingo acontecimentos, de Cantagalo, na parte da tarde de sábado. Outro atributo era o zelo em detalhar o dia-a-dia da região, publicando cartas de leitores, reclamações, sugestões, abrindo seu espaço para promover festas, peças teatrais e narrar o cotidiano, gerando um painel real da vida naquela comunidade oitocentista. Em uma época na qual os semanários ocupavam suas páginas com reproduções de textos dos jornais da capital e com longas e cansativas narrativas literárias, este registro de detalhes da paisagem urbana transformou o Voto Livre numa fonte inesgotável de pesquisa para se entender um período fantástico da História regional. O periódico sobreviveu por quase oito anos e sem dúvidas marcou a imprensa de Cantagalo, conseguindo retratar casos importantes como a abolição da escravatura e a proclamação da República. Também detalhou e produziu excelentes textos que abordaram a praga nos cafezais, as revoltas nas senzalas, as enchentes no córrego São Pedro, o progresso com a chegada do trem, os bailes de carnaval, assim como inseriu interessantes anúncios que abalizam os costumes e os modos de vida da sociedade que desfrutava das benesses do “ouro verde.” No dia 17 de novembro de 1889, o Voto Livre circulou pela última vez e a maioria dos leitores habituais e assinantes nunca leram uma linha sequer das matérias e textos incluídos nessa impressão. Ela foi retirada de circulação e muitos republicanos e novos republicanos da região poderiam estar envolvidos no esquema de censura e repressão, que culminou com o extermínio de um dos mais atuantes veículos de comunicação histórica do município. Essa edição tornou-se uma preciosidade e uma raridade para pesquisadores e estudiosos que se dedicam a levantar a história de uma das regiões mais importantes da província. O exemplar está arquivado na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e disponibilizado ao público. Com recursos do presente edital da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, este número tão raro foi digitalizado e colocado para livre acesso através do site criado para armazenar toda a pesquisa. Em 17 de novembro de 1889, o jornalista Júlio Veríssimo da Silva Santos escreveu o editorial com o título “Assalto ao Poder”, com severas críticas ao Marechal Deodoro

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Voto Livre

da Fonseca. Com o sentimento do mais verdadeiro espanto foi ontem à chegada do trem, recebida nesta cidade a notícia da deposição do governo legal pelas tropas de mar e guerra da Corte sob o comando do general Deodoro da Fonseca. O assalto ao paço imperial, a prisão dos membros do gabinete a 7 de junho, a tentativa de assassinato do brioso Barão de Ladário, ministro da Marinha, a organização de um governo provisório sob a ditadura do general Deodoro, são fatos de tal gravidade reveladores de tal audácia e força, que não acreditaríamos neles se não fossem autenticados por todos os diários da imprensa fluminense. Ainda que sob impressão dolorosa de todos esses acontecimentos, que não podem encontrar simpatias no país, custa-nos a crer que não se organize a resistência legal. Não pode ser governo o partido republicano que apenas conta em seu seio diminuta minoria de adeptos sinceros e sérios. Povo de ordem e de paz não podemos sujeitar-nos a uma ditadura militar, levantada pela indisciplina, pelo despeito e que só pela violência se poderá impor. Que confiança poderá inspirar um governo que prometendo-nos aguardar a sanção nacional para a sua efetividade, começa anulando todos os elementos da representação nacional, e decretando, de sua autoridade revolucionária a dissolução da Assembléia Geral, do Senado e do Conselho de Estado? É isto um governo nacional? Que confiança pode inspirar-nos a promessa de garantia de nossa vida e de nossa propriedade um governo que faz proclamar a pena de morte a qualquer que arrombe uma porta? Que prende e faz deportar os membros de um governo que se demitiu? É isso um governo digno desse nome e de um país civilizado? E a isso se chama um governo de liberdade?

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Propaganda no Voto Livre

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O Conservador

O Conservador Em 1865 foi lançado o jornal O Conservador, fundado por José Joaquim de Santana e Francisco Emilio, com escritório e tipografia no Largo da Matriz. Na Biblioteca Nacional constam exemplares de 17 de dezembro 1878 a setembro de 1879, quando ele poderia ter sido extinto. O bi-semanário não tinha uma circulação pontual e parece que ao longo dessa sua história muitos períodos ficaram sem a impressão, o que nos permite supor em uma prática jornalística decorrente de uma necessidade social a ser satisfeita num determinado momento da História. Uma vez modificadas as condições sociais, os periódicos ou simplesmente desaparecem e ou se modificam para interagir com o novo momento da história. No exemplares levantados na Biblioteca Nacional, o Conservador era dirigido pelo advogado Luiz Bezamat, o qual tinha a responsabilidade editorial, auxiliado por outros jornalistas da região. Órgão político e noticioso, possuía o formato tablóide e quase sempre circulava com quatro páginas, com letras tipográficas de tamanho pequeno e em papel comum. No seu conteúdo constavam pouquíssimas ilustrações e algumas propagandas, na maioria anunciando produtos farmacêuticos e prestação de serviços. Na área social, publicava muitas notas de falecimentos e pedidos religiosos, assim como agradecimentos. Também se registra inúmeras fugas de escravos, com descrições detalhadas do físico, vestimentas e local da evasão, sempre oferecendo generosas quantias pela captura ou alguma informação.

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O Conservador pouco noticiava o dia-a-dia da região. Não é uma abundante fonte de consulta para quem deseja conhecer os modos de viver daquela comunidade. Preocupava-se em inserir notas políticas, quase todas ligadas à capital da Província, ou mesma copiadas dos grandes impressos da Corte. Publicava poesias, contos, versos e textos literários, geralmente de autores do Rio de Janeiro e vez por outra dedicava espaço para um tema local. O jornal abordava diversos assuntos ligados à Corte e sagrava bom espaço para à História do Brasil, assim como incluía novidades e curiosidades surgidas no mundo, quase sempre copiadas de textos dos jornais de grande circulação. Era habitual também que o Conservador, em suas matérias, principalmente às ligadas à vida da cidade, não identificasse claramente o envolvido ou o protagonista desta ou daquela atividade ou fato noticiado. Não citava nomes, dava indiretas, circulando o protagonista com muitas insinuações e descrições. As edições localizadas na Biblioteca Nacional encontram-se em deterioração, com muitas páginas rasgadas ou se desmanchando. Mesmo com o cuidado no manuseio, se perde um pouco da estrutura física a cada consulta.

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Cronologia dos impressos

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CORREIO CANTAGALENSE 12/3/1839

Diretor: Cristóvão Vieira de Freitas - professor público de meninos. Impresso na tipografia adquirida de Manuel José de Azevedo, que a fundara em 22/3/1838. Localizava-se na Praça Júlio Santos (atrás da Igreja Matriz). Pleiteou ser considerado órgão oficial da municipalidade. Os atos oficiais eram publicados por jornais de Niterói. Teve vida efêmera.

O ARISTARCO 17/5/1840

Diretor: Antônio Mendes Campelo. Impresso na Tipografia Popular Cantagalista. Órgão combativo. Político.

3 O TANGEDOR

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CANTAGALENSE 1/8/1840

Diretor: Cristóvão Vieira de Freitas. Tipografia de Manuel Teixeira de Sousa Jr. Semanário de cunho científico, literário e agrícola

4/9/1840

Diretor: Cristóvão Vieira de Freitas. Na tipografia de Manuel Teixeira de Sousa Jr.

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O Conservador x Voto Livre: a imprensa que fez história em Cantagalo

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O CONSERVADOR 1865

Diretor: José Joaquim de Santana e Francisco Emílio.

O SETE DE SETEMBRO 1875

Fundador: Marinoni. Redatores: Boaventura José Rodrigues e Dr. Alberto Bezamath.

7 O PAPAGAIO

O CANTAGALLENSE 6/1/1871

Editor: Valentim Braz Tinoco. Redator: Francisco Emílio. Obtém subvenção da Câmara.

1871

Diretor: Ângelo Ferreira da Costa.

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CORREIO DE CANTAGALLO 1/1/1874

Editor: Boaventura José Rodrigues. Feito com o material do “CANTAGALENSE”. Adquirido pelo Dr. Herculano José de Oliveira Mafra. Nele foram publicados os atos oficiais da Câmara até 1883, quando Clemente Rabelo Falcão, seu novo proprietário, perdeu essa publicação, dada a outro órgão: “O VOTO LIVRE”.


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O VOTO LIVRE 29/01/1882

Redator: Dr. José Bento Vieira Barcelos. Tipografia no Largo da Matriz. Redatores: Dr. Joaquim Marques da Cruz, Capitão Luiz Vieira de Carvalho, Tenente Aurélio Hipólito de Araújo, Dr. Alberto Bezamath e Dr. Modesto Alves Pereira de Melo. Em 17/08/1882, assumiram a Redação: Dr. João Damasceno Pinto de Mendonça e Dr. Júlio Veríssimo da Silva Santos. Parou de circular em 17/11/1889, quando publicou violenta crítica ao Marechal Deodoro da Fonseca. Nesta ocasião, eram seus redatores: João Damasceno, Júlio Santos, Francisco Alípio, Alberto Bezamath e João Albino.

PÁTRIA NOVA 02/02/1890

Direção: Júlio Santos, M.F. Alípio de Damasceno. Veio a substituir o “O VOTO LIVRE”. Durou até dezembro do mesmo ano.

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CORREIO DE CANTAGALLO 02/10/1892 (2a fase)

Diretor: Dr. Júlio Santos. Gerente: Diogo Lopes de Oliveira (proprietário). Colaboradores: Raimundo Barreto Durão, Gastão Barreto, Homero Mendes, Henrique Sauerbronn, de Souza, Mário Silva, Hugo Cunha, Cássio Passos Barreto, Sadi Costa Vieira, Júlio Santos Filho, Ari Vieira, Antônio Rocha e Silva. Parou de circular em 1896.

O CANTAGALLO 1896

Redatores: Honório de Souza Pacheco, Alcino Silveira, Eurico Halfeld e Cezar Freijanes. Caracterizou-se por sua combatividade e agressividade. Impresso na tipografia do adormecido “Correio de Cantagallo”. Parou de circular em 1904.

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Obs: conforme publicação do jornalista Sebastião A. B. de Carvalho

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O Conservador x Voto Livre: a imprensa que fez história em Cantagalo

Localização Na Biblioteca Municipal de Cantagalo, encontram-se arquivados, em estado de preservação regular, cerca de 46 edições do jornal Voto Livre do ano de 1884, que podem ser consultadas livremente por qualquer freqüentador. Estes são os únicos exemplares encontrados fora do ambiente da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, onde está guardada a coleção do Voto Livre praticamente completa (1882-1889), além de outros números em duplicata que constam também no ambiente da BN, só que no catálogo de periódicos raros. Todos esses exemplares encontram-se na fila para serem micro-filmados e muitos foram digitalizados com recursos do presente edital, garantindo sua preservação. Exemplares do Correio de Cantagalo só foram localizados na BN e encontram-se em estado regular, alguns já partidos e outros com ausência de partes. Edições de 1888 a 1914 podem ser consultadas, porém com muitas falhas na cronologia de publicação. Infelizmente, O Conservador já é uma raridade. Na BN encontramos algumas edições de 1878 a 1879, todas em estado regular ou precário. A Biblioteca Nacional possui em seus arquivos uma raridade: a última edição do Voto Livre que não chegou a circular junto aos seus leitores e assinantes, e inseria um grande editorial com críticas ferrenhas à proclamação da República e ao Marechal Deodoro da Fonseca. A edição de 17 de novembro de 1889 foi toda apreendida.

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Localização

O jornal Pátria Nova, que substituiu o Voto Livre em novembro de 1889, está arquivado junto com as últimas edições do VL e se encontra em perfeito estado de conservação, sendo também uma boa fonte de pesquisa. A Coordenadoria de Publicações Seriadas da Fundação Biblioteca Nacional, criada através de decreto em 6 de janeiro de 1922, possui atualmente o maior acervo de periódicos da América Latina. São colocados à disposição do leitor, jornais, revistas, boletins técnicos e anuários, entre outras publicações, com destaque a títulos históricos e publicações extintas. Os jornais pesquisados encontram-se identificados e sua localização segue em anexo: O Voto Livre Seq.

Período

Localização

Coleção

1

1882/01/29 a 1882/12/31

2,276,01,28

1(1-49)

2

1883/01/07 a 1883/12/30

2,276,01,29

2(1-32,34-53)

3

1884/01/06 a 1884/12/28

2,276,01,30

3(1-52)

4

1885/01/04 a 1885/12/27

2,276,01,33

4(1-52)

5

1886/01/03 a 1886/12/26

2,276,01,31

5(1-51)

6

1887/01/02 a 1887/12/25

2,276,01,32

6(1-52)

7

1888/01/01 a 1889/11/10

2,277,01,02

7(1-52);8(1-7,9-44)

8

1888/01/01 a 1890/12/21

2,277,01,01

7(1-52);8(3-7,10,17-19,21-35,37,39,4143,45);1(1-6);2

Situação

O Conservador Seq.

Período

Localização

Coleção

1

1878/12/17 a 1879/09/12

2,230,01,32

1(21-36,38-53,55,57,58,60-62,64-67,71,73,75-91,93)

Situação

O Conservador Seq.

Período

Localização

Coleção

1

1870 a 1914

3,457,03,27

2

1888/01/05 a 1888/12/30

3,457,03,22

3

1908/09/27 a 1910/10/30

3,457,03,23

4

1911/01/29 a 1911/12/17

3,457,03,24

37(38,42-48);38(1-3,5-19,21-35,40-53);39(1-9,11-19,22, 40(1-44)

5

1912/01/01 a 1912/12/29

3,457,03,25

41(1-21,24-49)

6

1913/01/05 a 1914/12/13

3,457,03,26

Situação

(44 aniverário do Correio de Cantagallo - Disponível homenagem a imprensa) 17(2-98)

42(1-3,5-14,16-29,31,32-43,45-49- Disponível );43(1,3-24,26-36,38-49)

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O Conservador x Voto Livre: a imprensa que fez história em Cantagalo

O Conservador x Voto Livre Os jornais O Conservador, fundado em 1865 por José Joaquim de Santana e Francisco Emilio, Correio de Cantagalo, do Dr Herculano Mafra, em 1874, e Voto Livre, de orientação liberal, criado em 1882 por José Bento de Vieira Barcellos, serviam como palco para calorosos embates na área política e onde os intelectuais da época travavam belos desafios literários. Os partidos divulgavam suas plataformas políticas e os coronéis e barões apareciam ganhando uma boa repercussão em toda região. Às vezes o clima esquentava, e conservadores e liberais chegavam a agressões e ironias que tinham outros desdobramentos. Pelas colunas do Voto Livre e Correio de Cantagalo travaramse brigas políticas, nas quais se destacavam os jornalistas João Damasceno, Júlio Santos, Francisco Alipio, Eduardo Durão e tantos outros que formavam um seleto grupo de escritores que honraram o nome da imprensa cantagalense junto às melhores publicações da então Província do Rio de Janeiro. Em 05 de fevereiro de 1882, o Voto Livre publicou em editorial: Designa-se reconhecer o Correio de Cantagalo que representamos uma fração respeitável e o próprio redator do Correio quem afirma: “O Correio de Cantagalo tinha abdicado o honroso encargo de órgão do partido liberal do município, por faltar-lhe, no momento, a necessária

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O Conservador X Voto Livre

faculdade, que ainda não lhe foi outorgada.

No dia 12 de fevereiro, o VL volta a atacar o jornal concorrente, desta vez numerando vários funcionários públicos que foram perseguidos e exonerados pelos líderes dos Conservadores: A bandeira do Correio não pode cobrir a carga... Permita o Correio que lhes ofereça uma lista para ser lembrada.... 1- remoção do juiz de direito, 2- suspensão do juiz municipal, 3- demissão do promotor publico, 4 - demissão do coletor e escrivão, 5- demissão coletor de Nova Friburgo, 6- demissão empregado Correio.

Em 06 de janeiro de 1883, o VL coloca em editorial: O VL entra agora no seu segundo ano de resistência em busca da liberdade e da justiça. Neste município a opinião publica agitou-se revolucionaria pelas impressões colhidas no VL. Se não fizemos tudo que devíamos, fizemos com certeza tudo que pudemos. Tínhamos diante de nos um mar de problemas a estudar, uma infinidade de abusos a investigar e mais que tudo uma bandeira a sustentar, hasteada pela dignidade.

Em 08 de julho de 1883, o Voto Livre ataca o Barão de Cantagalo, que teria assumido a sua posição conservadora. Finou-se o grupo dos liberais puros de Cantagalo. A nossa missão na esfera política deste município estaria hoje concluída. Não somos ambiciosos e ainda hoje nos conservamos no campo da luta. Ao iniciar uma luta desfraldamos a todos a bandeira da revolta contra uma onda de coisas... O grande sentimento de reconstrução do partido, sobre bases mais largas e mais generosas. O abandono da vida publica por parte do sr Barão de Cantagalo foi um golpe que feriu de morte instantânea o seu grupo, ficando dispersos e aniquilados. Com o retraimento do Barão, tinha-se também de finar-se o seu paraíso: a projeção da luz devia desaparecer desde que sumiu o único astro que a produzia. Queríamos que o partido liberal se libertasse da opressão ditatorial da vontade soberana.

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O Conservador x Voto Livre: a imprensa que fez história em Cantagalo

O Partido Liberal há de ser uma comunhão política em perfeita igualdade de direitos e não mais uma corte de servos, obedecendo cegamente à vontade ditatorial de uma pequena camarilha.

O Voto Livre inicia o ano de 1884 atacando o Correio de Cantagalo de uma forma ferina. No editorial de primeira página acusa o rival de plagiar os periódicos da Corte: “.... a transcrição da Gazeta de Noticias do Rio de janeiro é da natureza íntima do órgão comercial. Sem transcrição não há Correio de Cantagalo possível...”. Em 08 de janeiro de 1886, o VL comemorou mais um ano de existência: Editorial - Entra o Voto Livre em seu quinto ano de existência. Já não é tão insignificante o espaço de tempo percorrido, que não possa ele oferecer o seu passado como garantia de seu futuro. É possível que não tenhamos desempenhado os árduos deveres que nos impusemos, mas é certo que nem por um só momento ainda não nos abandonou a íntima satisfação de havermos dedicado todos os nossos esforços, todas as nossas energias, em defesa da causa a que nos devotamos. As dificuldades que nos assoberbam não nos intimidam. O Voto Livre não desertará de seu posto de combate e, principalmente agora, quando vê alastrado o campo de luta do rebaixamento dos caracteres fracos e egoístas.

No dia 31 de janeiro, o VL volta ao ataque: Editorial - No último dia 24 de janeiro, depois de uma eclipse de quase um mês, foi enfim publicado o primeiro numero do Correio de Cantagallo do corrente ano . A larva não havia desaparecido, nem morrido. Órgão liberal, depois republicano, depois da lavoura e do comércio, e final-

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O Conservador X Voto Livre

mente jornal do seu dono, o Correio de Cantagallo é hoje o órgão dos interesses dos conservadores.

Observação da editoria do VL: “O último número do Correio de Cantagallo foi especial e quase totalmente só dedicado ao Voto Livre. No artigo de fundo e no noticiário fomos a matéria da ordem do dia, tanta era a verve acumulada”. Na edição de 09 de janeiro de 1887, o VL inseriu editorial parabenizando com muita ironia o Correio de Cantagalo pelo seu aniversário: AO CORREIO - Entrou o jornal Correio de Cantagallo no seu 16 ano de existência, e por esse fato lhe dirigimos as mais sinceras felicitações. Temos, porém, necessidade de fazer uma retificação indispensável, quando o Correio de Cantagallo atribui os seus sucessos a “fidelidade aos princípios e a lealdade aos amigos”. Nesses 16 anos têm o colega defendido todos os princípios: foi republicano, liberal, órgão da lavoura e do comércio e agora dos interesses dos conservadores. No bojo dos interesses conservadores se encontram todos os princípios, todas as idéias, todos os interesses, conforme as oportunidades.

No dia 06 de maio de 1888, em meio a intensas movimentações que culminaram com a libertação dos escravos, o Voto Livre respondeu ao conservador e escravocrata Correio de Cantagalo: Editorial - O Correio de Cantagallo enumerou vários fatos que, no seu entender, demonstram o erro que cometem aqueles que se deixam levar pela onda abolicionista. Diz: “o nosso colega dr João Damasceno Pinto de Mendonça, redator do Voto Livre, que ultimamente havia dado liberdade aos seus escravizados, esta com o seu estabelecimento desprovido de trabalhadores, restando-lhe apenas três”. Posso afirma que até hoje não recebi participação alguma do meu administrador neste sentido. É exato, que logo depois que os alforriei, três dos libertos vieram a ter comigo, pedindo para aumentar o salário, disse que eles agora eram homens livres e poderiam procurar serviço em outros lugares. Mostram-se resignados, e retornaram...

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O Conservador x Voto Livre: a imprensa que fez história em Cantagalo

A Economia O mineralogista inglês Jonh Mawe, em 1809, foi contratado pela Coroa para apurar a existência de um divulgado veio de prata nos arredores de Cantagalo. Muito pouco encontrou, talvez o local já estivesse esgotado pelos antigos contrabandistas. A única riqueza achada pelo pesquisador foi o calcário, que nos anos de 1970 trouxe certo alívio à crise econômica da qual vinha padecendo o município. O que Mawe não previu é que naquela época estava nascendo em toda a região um império de fartura, de riqueza e de ostentação. O antigo distrito de Cantagalo vinha sendo ocupado por fazendas com grande número de proprietários egressos de Minas Gerais. O café ainda estava chegando aos arredores e ninguém poderia imaginar sua força e seu poder econômico para alterar e desfigurar toda uma região. Em 1820, Cantagalo já produzia onze mil arrobas e tornava-se um município monocultor. As matas foram devastadas de uma forma impressionante e os poucos índios restantes são aculturados. As fazendas, algumas com mais de 800 alqueires, de propriedade de senhores poderosos e autoritários, em conseqüência dos privilégios conferidos pelo Governo Imperial, prosperavam formidavelmente. O trabalho escravo era de fácil aquisição e muitos imigrantes fugiram das terras frias do Morro Queimado, vindo se instalar na região de Duas Barras. O escritor Acácio Dias lembra que, em 1840, Cantagalo havia chegado ao auge de sua prosperidade econômica e comercial:

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A Economia

“Era o farto celeiro da terra fluminense e o seu nome fastigioso projetava-se através das fronteiras nacionais, sendo conhecido na Europa como um centro formidável de atividade, de esforço humano e de produção”. No ano de 1860, a situação do município já preocupava a políticos e a alguns fazendeiros. Vários fatores, como a falta de braços para a lavoura, a ausência de tecnologia no uso do solo e a falta de vias de acesso e meios mais eficazes para o transporte do café, oneravam a produção. Mas nada disso impediu o avanço dos pés de café para novos horizontes. Enfim, chegaram mais fazendeiros, autoridades diversas, religiosos poderosos e as fortunas se formaram. Em 1880, Cantagalo possuía o maior plantel de escravos da província do Rio de Janeiro. Na edição de 21 de maio de 1882, o Voto Livre publica editorial na primeira página, onde registra a preocupação dos fazendeiros locais com a situação do café: A Baixa do Café -.. a lavoura de café esta passando por uma crise temerosa que nos cerca de embaraços e nos rouba a confiança no futuro... A grande baixa que atualmente esta sofrendo o café terá grandes conseqüências. Desde a falha da colheita de 71 e 72 subiram os preços, acarretando um natural, progressivo e indefinido desenvolvimento. Essa perspectiva veio trazer extraordinária animação e os nossos fazendeiros confiaram , alargando as plantações e aumentando a compra de escravos. Hoje o mercado esta inundado pela forte produção dos últimos anos, com uma queda de preço de 30%.

Em janeiro de 1883, o semanário publica atos e decisões da Câmara Municipal, onde insere lista nominal dos maiores recolhedores de impostos da região. Cerca de 120 pessoas pagavam a referida contribuição. Tal listagem nos permite tirar algumas conclusões e a primeira e mais evidente é a dos destaques no comércio em geral: Sauerbon & Irmaos negócios 140$, oficina de ferreiro 10$, Fabrica de Cerveja 30$, Quatro bilhares e bebidas sortidas 60$ Jose Calabria, mascate de fazendas e armarinho 120$ Francisco Custodio da Fonseca, negócios 130$, oficina de sapateiro 25$, oficina de alfaiate 25$ Alfredo Duccomun, oficina de ouro e prata/joias 100$

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O Conservador x Voto Livre: a imprensa que fez história em Cantagalo

Cesarino Pereira Galero, fábrica de cigarros 25$ bilhetes de loteria 50$

Nesta listagem surgem algumas curiosidades, como o Sr. Manoel Pereira Alves Pimenta, que recolhia 45$ referente a “encarregado de enterros”. Já o Sr Henrique Teclefon tinha uma oficina dentária e pagava só 12$. A cidade tinha cinco hotéis, dos Srs. Emydio de Abreu, José Manoel Sauerbron, Valério José da Costa, Thomaz Galero e José Ferreira. Possuía uma fábrica de cerveja, dois açougues, duas tipografias, sete sapateiros, oito mascastes de fazenda e armarinho, além de funileiros, ourives, padeiros etc. Na localidade de Taquara, havia uma famosa fábrica de aguardente, a qual recolhia 40$ e era de propriedade do Sr Antônio da Silva. Também lá, instalaram-se mais dois hotéis, uma fábrica de cerveja, uma olaria e pequenos comércios. Já em Cordeiro, destacava-se a empresa Van Erven&Engeler com diversas atividades e um recolhimento de 160$. O Voto Livre de 18 de fevereiro de 1883 volta a se preocupar com a situação do café e lança na primeira página um extenso editorial, onde faz um quadro da crise que se vê no horizonte e cita a superprodução como a causa dessa baixa nos preços, justificando com os preços firmes e animadores que perduraram por dez longos anos e o desprezo dos lavradores para com outros produtos. Em 17 de fevereiro de 1884, o VL dá destaque à decisão de se obrigar o trânsito de trens nos domingos: “Desde hoje começa a deliberação ordenando o movimento dos trens de passageiros aos domingos. A direção dos correios também autorizou a transitar malas e correspondências”. Em janeiro de 1885, o jornal publica com certo realce um anúncio que mostra o vigor da economia na região. O espaço urbano já estava tomado por boas residências, muitas delas assobradadas, com varandas e muitos aposentos, e era habitual que os senhores proprietários de terra possuíssem bons imóveis nas principais ruas da cidade, para onde se mudavam nos dias de festas e em alguns finais de semana. “Aluga-se ou vende-se uma ótima casa na rua Santana, esquina rua Uruguaiana, pertencente a Manoel José Barbosa, em excelentes condições, bons cômodos, boa água e um grande pasto fechado”.

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A Economia

Em fevereiro de 1885, o botânico francês Auguste François Marie Glaziou passou uns dias na cidade. O engenheiro civil e especialista em agricultura e horticultura veio ao Brasil em 1858, a convite do Imperador D. Pedro II e assumiu a diretoria de Parques e Jardins da Casa Imperial. No Rio de Janeiro, ele foi o responsável pelo jardim da Quinta da Boa Vista e o projeto de reforma do Passeio Público. Trabalhando para a família Clemente Pinto, Glaziou projetou o Parque São Clemente, residência do Conde, Antônio Clemente Pinto Filho, filho do primeiro Barão de Nova Friburgo. O paisagista realizou ainda em Nova Friburgo a reforma e melhoramentos na Praça Princesa Isabel, atual praça Getúlio Vargas, quando foram plantados dezenas de pés de eucalipto, objetivando secar uma área constantemente alagada. A edição de quatro de fevereiro de 1885 abordou a visita: Praga do café - Acaba de chegar entre nós o distinto e conhecido naturalista Dr Glaziou, que veio no intuito de estudar a praga que lavra com intensidade nos nossos cafezais. Veio a convite do dr Jobert, que há dois anos aqui esteve. Com o estudo do dr Jobert e com as novas observações do dr Glaziou, é provável que dentro em pouco conheçamos não só a natureza do mal como talvez a forma de combate. Por esses estudos e observações já feitos, parece que o mal é terrível, achando-se localizado nas rádículas e é devido a produção de uma enorme quantidade de pequenas animálculos que se introduzem no interior delas, impedindo a circulação da seiva.

Em 15 de março de 1885, o VL tratou da imigração de colonos para a lavoura de café: Chama a atenção dos leitores para a cláusula do contrato de colonização que o Sr. José Serbino apresenta aos senhores fazendeiros, comprometendo-se a agenciar lavradores italianos, válidos, moralizados, e aptos para lavoura, mediante uma módica contribuição de cada um. Muitos dos nossos fazendeiros deste município fizeram encomendas de colonos. O Sr Serbino seguirá sem demora para a Itália. Art 1 - o proprietário dará transporte e adiantará a viagem e passagem. O colono restituirá as parcelas a partir do segundo ano.

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O Conservador x Voto Livre: a imprensa que fez história em Cantagalo

Art 2 - concederá a cada família 1 casa e 1 lote de terra para a cultura de cereais e hortaliças. A colheita será dividida. Art 3 - o proprietário suprirá de alimentos nos seis primeiros meses, recebendo cada trabalhador: 10 litros feijão, 5kg toucinho, 5 kg carne seca, 5 kg sal, 10 litros de arroz. 40 litros de fubá, 6 garrafas de azeite ou querosene.

Em 24 de maio de 1885, o semanário, novamente em editorial, lamenta que em função da recusa do Governo em pagar as passagens, um grupo de imigrantes já qualificados não pode embarcar com destino as terras de Cantagalo: “... não podemos deixar de lastimar que alguns grupos de italianos não venham para vila porque não houve o pagamento de suas passagens pelo governo.... é esse o único meio prático capaz de transformar o trabalho e apressar a abolição da escravatura...”. Na edição de 05 de julho de 1885, o tema da imigração voltou à primeira página: No dia 01.07 desembarcaram na estação férrea desta cidade, uns 15 imigrantes, homens moços e bem dispostos, todos vindos da região de Funchal, em Portugal... Aquela pobre gente achava-se completamente desprovida de recursos, sem saber para onde ir, nem como arranjar pouso. Em triste situação, desanimados, com mulheres e filhos na plataforma da estação, lastimando-se entre lágrimas de saudade da pátria e no fim de tantas esperanças, só encontrando a desilusão... Durou pouco. Não faltaram–lhes acolhimentos... O Van Erven, já bastante conhecido pela inteligente introdução do trabalho livre na Fazenda Santa Clara, mandou-lhe oferecer pouso e suas aflições transformaram-se em alegrias... Ah, que em vez de poucos viessem trabalhadores às centenas, em breve teríamos o fim da crise do trabalho.

O jornal publicou, em 02 de agosto de 1885, sob o título “Emancipação e Colonização”, uma carta do Visconde de Nova Friburgo ao Visconde de Taunay, que da Corte pedia informações sobre o trabalho de colonos livres nas terras da família em Cantagalo. Acuso recebimento de seu ofício, no qual V.Excia pede informações exatas e minuciosas sobre as culturas empreendidas por imigrantes em nossos

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A Economia

estabelecimentos agrícolas, a fim de que sejam transmitidas aos representantes do Brasil na exposição de Antuérpia... Tentativas em 1852, 1873 e 1878 para introdução, na qual só foram empregados colonos contratados a prazo e salário fixo, sem cuidar das novas plantações... O imigrante não quererá ou não poderá esperar tanto tempo pela compensação de seu salário para somente daqui quatro anos... Ele se limitará a conservar os cafezais e a plantar cereais e mantimentos de resultado imediato... Assim pensando, fui levado à conclusão de que para a cultura do café, as futuras lavouras terão que forçosamente de desaparecer.

O café era tema de todas as rodas políticas. O Voto Livre volta ao assunto em janeiro de 1886, com extensa reportagem: MOLESTIA DO CAFÉ Ainda esta viva na lembrança dos nossos leitores, a magnífica exposição que o dr Láper fez na Assembléia Provincial, sobre a moléstia no cafeeiro, que tem flagelado as lavouras, de diversos municípios, principalmente Cantagalo, Santa Maria Madalena e São Fidelis. Na sua fala, frisou e provou os enormes prejuízos:- na fazenda do sr Francisco Dias Ferreira, a colheita não excede 700 arrobas, tendo colhido antes de aparecer o mal 13.800 e poderia colher 16.000. - na do sr Aristides Caire já colheu 10.000 arrobas, e hoje colhe apenas 700 arrobas. O valor da fazenda que antes era orçado em 300.000$000 ficou reduzido a 50.000$000 - na fazenda da viúva Heggendorn & Filhos colhe-se atualmente 2.500 arrobas, contra 11.000 de outrora. - quarenta fazendas constantes de uma relação exibida na tribuna pelo dr Laper produzem atualmente 26.580 arrobas, tendo produzido 128.840, podendo produzir se não fosse o mal 234.000 arrobas. Finalmente nos três municípios indicados o desfalque total causado pela praga eleva-se 1.000.000 de arrobas, avaliada s no mínimo em 5.000.000$000. Este enorme prejuízo deliberou a assembléia a instituir um prêmio de 50.000$000 a quem descobrisse um meio de extinguir, de maneira eficaz, a praga, sendo obrigado a divulgar o segredo da descoberta. Um agricultor residente na localidade denominada Gambá, deste

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O Conservador x Voto Livre: a imprensa que fez história em Cantagalo

município, Sr Antonio Correa Ruela, que ali mora há seis anos, descobriu um meio para exterminar a praga e tem a maior certeza da eficiência da sua descoberta pelos magníficos resultados que obteve. O leitor poderá avaliar pela correspondência remetida pelo inventor: - quando me dediquei ao plantio do café, notei que os arbustos começavam a amarelar as folhas e poucos dias depois morriam. Em alguns morriam parte dos ramos e outros tudo, ficando o tronco ileso, que brotava pela segunda vez formando novos ramos e tornando-se um arbusto lindo e viçoso..... A minha inteligência é pouco cultivada. Apliquei ao arbusto o extrato que começava a enfraquecer... (o cafeicultor não revela a fórmula).

Ainda com relação ao tema da imigração, em 15 de janeiro de 1887, o VL publicou: Imigrantes, Por intermédio do sr agente Angelo Fiorita, foi autorizado pelo nosso amigo Sr Cornelio de Souza Lima, para introdução de 10 famílias de agricultores italianos na fazenda Córregos dos Índios, da qual é proprietário no município de Santa Maria Madalena. , tomando a si o dever que cabe ao governo imperial de pagar integralmente o preço da passagem das mesmas famílias depois de se acharem estabelecidas. Este auxílio prestado a lavoura é valiosíssimo.

Em 22 de julho de 1888, logo após a abolição da escravatura, o VL publica editorial: “O que Vira? Se não estamos em véspera de uma revolução, não se pode negar que atravessamos uma época de transformações. Chegamos ao momento em que a monarquia deve tornar-se profundamente democrática, ou tende necessariamente a desaparecer. A posição do regente imperial é melindrosa....” Em meio a tantos problemas na cultura do café, o jornal lança matéria explicando o sucesso da lavoura de fumo num recanto do município. O VL deu destaque à reportagem, mostrando como o veículo de comunicação estava atuante no cotidiano da cidade, cobrindo ocorrências nos mais distantes pontos da região e apresentando à comunidade algumas possíveis soluções.

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A Economia

Cultura do fumo De nosso amigo e importante lavrador, sr Cornélio de Souza Lima, recebemos uma carta, para qual chamamos a atenção dos nossos lavradores. No estado de decadência da nossa principal cultura, devemos hoje fundar a pequena lavoura. Os cigarros e charutos são fracos, mas de sabor agradável. Córrego dos Índios, 15 de junho de 1888. Sr Redator acompanha esta um embrulho contendo uma manilha de fumo que aqui cultivei e alguns cigarros e charutos, do mesmo fumo para facilitar a prova. As terras da nossa região tem se tornado muito propicia para o cultivo... menos empregado, menos cuidado, menos custos, maior produção...

Em 19 de agosto de 1888, o VL volta ao tema da imigração, agora com boas notícias para os senhores proprietários de terra. Imigração Temos prazer de anunciar a nossos munícipes que se acha definitivamente contratado, entre o governo imperial e a associação de lavradores de Cantagalo, a introdução de dez mil imigrantes para esta localidade. Segundo o contrato, os imigrantes serão entregues aos srs fazendeiros em Cordeiro, em uma hospedaria que a associação fundará para recebê-los, sem ônus nenhum para o imigrante. É intenção da associação manter constantemente uma corrente imigratória para este município durante o prazo que lhe foi concedido pelo governo. Espera-se no mês de outubro receber a primeira leva, de imigrantes italianos, vindos do norte, e portugueses, todos tirados da região rural destes países.

Um mês depois, completou: Imigração em Cantagalo - É com o mais vivo prazer que a Sociedade de Imigração Cantagalense comunica que de novembro até a data de hoje trouxe mais de dois mil imigrantes portugueses, espanhóis, belgas, austríacos e italianos. A Sociedade colocou-se a frente da hospedaria de Cordeiro e tem tomado para si todas as despesas. Ela foi ampliada. Tem dormitórios, restaurante, hospital, casa de banhos, e pode acomodar bem

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500 pessoas. Todos são bem alimentados e quando adoecem são tratados pelos drs de Cordeiro. Braços europeus, gente ativa, inteligente, industriosa.

O Pátria Nova, já em novembro de 1889, noticiava: “Imigrantes. Chegaram no vapor francês, cerca de 700 imigrantes espanhóis para este município. Com estes já podemos contar cerca de 4000 imigrantes que vieram a procura terras férteis. Estamos no início de uma organização complexa e difícil, que acompanha o inicio de todas as revoluções.”

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Escravos

Escravos Desde o raiar do século XIX, imensas fazendas de café foram se formando, desfrutando das terras férteis e da abundância da mão-de-obra escrava na região de Cantagalo. Ao lado da poderosa aristocracia, que detinha o controle econômico e político da região, vivia a massa escrava, sobre a qual recaía o peso do trabalho braçal. Algumas fazendas com maior produção de café possuíam até trezentos escravos e, segundo o escritor Acácio Ferreira Dias, viviam 20.432 trabalhadores negros em 1884 só no município de Cantagalo. Em seu livro, Terras de Cantagalo, cuja primeira edição foi publicada em 1942, narrou o historiador Acácio Dias: Os cafeeiros prodigiosos, exuberantes, se estendiam, a perder de vista, desde as vargens às cristas das serras. Verdes como o oceano, ao soprar da ventania se sacudiam todos, galhos abertos e pendentes carregados de grãos sazonados, rubis reluzindo...; nos intervalos dos cafezais, em verdadeiro exército em fileiras cerradas formigavam os escravos de ambos os sexos. As negras de camisa e saia de algodão, tendo um pano enrodilhado na carapinha. Os negros, com largos chapéus de palha, braços e dorsos desnudos, trazendo peneiras uns, e, enchendo as “quiçambas”, outros, na faina fabril da apanha do café.

Quase todos os negros que chegaram à ampla região de Cantagalo eram da cultura Banto, provenientes de Angola, do Congo e de Moçambique, e desembarcavam em Macaé ou São João

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Trabalho escravo

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da Barra, onde eram amarrados uns aos outros, formando grandes procissões que atravessavam as matas até alcançar as fazendas. O Príncipe Adalberto de Hohenzollern, da Prússia, em excursão pela província do Rio de Janeiro, visitou a graúda região de Cantagalo em 1847. Conforme consta no livro Brasil: Amazonas: Xingu, com tradução de 1977, o príncipe relata alguns detalhes dos alojamentos dos escravos: Ocupavam os cativos um edifício térreo comprido, sujo, que externamente lembrava uma estrebaria. Na enfermaria havia cômodos separados para ambos os sexos. A uma preta viram deitada numa esteira, dando o seio ao filho recém-nascido da véspera. Na sala dos homens estavam recolhidos uns quatro ou cinco enfermos, vítimas de acidentes vários. Á enfermaria seguia-se a lavanderia, onde cada escravo tinha a sua tábua de bater roupa numerada.

O relato do príncipe detalha as acomodações precárias e o dia-a-dia de uma senzala. Cada homem recebia, aos domingos, um par de calças e uma camisa. Longo corredor servia de acesso ao dormitório dos escravos, pequeno e de paredes fuliginosas. Os cativos eram recolhidos ao quadrado, acendiam fogueiras no centro das senzalas, em torno das quais se assentavam horas e horas, mesmo depois dos dias da mais penosa labuta, a fumar e conversar, tanto os homens como as mulheres. Todos recebiam certo fornecimento semanal de fumo.

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Escravos

De acordo com a narração, às quatro da manhã os negros deveriam estar levantados, para tomar café; às dez horas, almoçavam arroz e pirão de farinha de mandioca ou angu de fubá; por volta das duas da tarde, jantavam carne seca, geralmente de procedência platina, arroz e pirão de farinha; continuava o serviço na lavoura até às sete da noite, quando se distribuía a ceia, composta de arroz, aipim, e novamente angu de fubá; às nove, cessavam inteiramente o serviço, mas os escravos não se resignavam ao silêncio e ficavam conversando até meia noite ou mesmo à uma da madrugada. “Em cada compartimento estendiam-se sete ou oito esteiras. Haviam, porém, escravos que a elas preferiam simples tábuas ou acamados de folhagem”.

A alimentação dos escravos era basicamente o angu

O Voto Livre, nos oito anos de atividade, não deixou de dedicar destacado espaço ao problema da escravidão e em quase todas suas edições publicava alguma nota, matéria ou mesmo extensos editoriais. Com o escopo de traçar um perfil dessa atuação, reproduzimos alguns trechos. No dia 12 de fevereiro de 1882, o Voto Livre noticiava com destaque um crime que envolvia um escravo: O abastado fazendeiro Sr Bernardo Pires Veloso acaba de ser vitima de um criminoso atentado no dia 20 do corrente quando voltava da fazenda

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Pouso Alegre, apeando-se do trole, abriu a porteira que separa o pasto, recebeu um tiro quase a queima roupa. A carga era de chumbo grosso e produziu felizmente ferimentos leves. Escravos e feitores foram ao encalço do criminoso que logrou fugir. O criminoso foi pego no dia seguinte. Era um escravo fugitivo da fazenda.

Alguns fatos contribuíram para levar certo temor aos ricos fazendeiros. No cenário mundial se desenrolava a revolução em São Domingos, onde os negros se rebelaram contra a escravidão e proclamaram a independência do Haiti. Na Bahia, muitas insurreições de escravos ocorreram na primeira metade do século XIX, organizadas pelas nações haussás, nagôs e maleses. Na província do Rio de Janeiro, era comum a publicação de notícias de fugas em massas e, em 1835, espalhou-se o boato da possibilidade de uma insurreição de escravos em Friburgo e nos municípios vizinhos, como narra a historiadora Janaina Botelho. Havia a denúncia de que um grupo de escravos vagava armado pelas fazendas e estradas, transmitindo aos cativos da região que haveria uma sublevação no dia 25 de dezembro. Segundo relatos, o problema da rebelião se originava do fato de haver um excessivo número de escravos administrados por poucos feitores. Além do mais, alguns administradores das fazendas eram também escravos, o que os fazia temer ainda mais pela facilidade de apoderar-se do armamento. A população estava tão apavorada com a possibilidade de uma insurreição que alguns estavam até determinados a desocupar suas casas temendo ser achacados pelos revoltosos. Nestes momentos de tensão, as novidades corriam soltas como o de haver 800 escravos evadidos, reunidos nos matos para entrar em ação.

E, em 21 de maio de 1882, o Voto Livre publicou um artigo no qual o editor exige dos poderes competentes uma maior eficácia da força pública, a fim de conter as crescentes fugas de escravos e os crimes a eles atribuídos: “A deficiência da força policial com uma população escrava de 18 mil, sendo repetidos os atentados contra a segurança individual, principalmente por parte dos escravos não havendo mais a rigorosa disciplina de outrora”.

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Escravos

O Voto Livre volta a se preocupar com a questão servil, e em 04 de junho de 1882 publica editorial, no qual levanta muitas questões: Não se resolvem as questões sociais com sentimentalismos e princípios abstratos. Venham os braços livre para a lavoura e ela não porá duvidas em libertar-se do elemento servil. O escravo hoje não representa propriamente valor, é unicamente um braço para o trabalho. Substitua-se o braço e a lavoura ficará satisfeita. A fonte da escravidão esta esgotada, o braço escravo desapareceu e a lavoura esta em frente de provável ruína. Os fatos constantes, desde que começou a lei de 28.09.1871, demonstram que o primeiro cuidado do escravo que recebe a liberdade é evitar o trabalho no estabelecimento agrícola. Ao passo que a sociedade recebe em seu seio um cidadão inútil e ate prejudicial. Quem poderia garantir a ordem publica com essa força desagregada, sem disciplina, sem temor, ignorando as mais rudimentares noções de vida social? Suprimos o lamento servil desde já é a desorganização do campo político e a supressão dos rendimentos que mantém o estado. Cito Berayer no parlamento francês de 1838. Três questões a resolver antes de entrar no caminho da emancipação: 1- prepara instrução e a educação moral dos negros, 2- dar segurança aos brancos e 3- dar garantia de trabalho. Senhores, a liberdade sem os costumes, sem o trabalho, é o estado selvagem, é cem vezes pior que a escravidão.

Em janeiro de 1883, o Voto Livre anuncia a fuga de um escravo: “Recompensa 150$000. Fugiu da fazenda Sossego na freguesia de Santa Rita, o escravo Antonio, pardo, de estatura baixa, robusto, pescoço grosso, bons dentes, pés curtos e voltados para fora, sem barba, cerca de 27 anos, gratifica-se muito bem.” Outra ocorrência policial é registrada em 04 de fevereiro de 1883: “Foi vitima de uma tentativa de morte o feitor da fazenda Monte Alegre, sendo autor um dos escravos.” Em interessante matéria, o VL destacou, na primeira página da edição de 09 de março de 1884, um relato sobre a visita de uma missão africana: Nesse momento percorre o município o revdmo padre Fernando Terrien,

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missionário apostólico que vem agir em prol da fé católica entre os selvagens da África. A missão tem por fim formar sacerdotes para a catequese dos africanos, chamando-os à religião e ao convívio do civilismo. O padre há de encontrar o acolhimento que merece a missão.

Em 01 de junho de 1884, o VL noticia a criação do clube de lavradores e volta a tocar na crise do sistema servil, onde se nota a dificuldade em se manter e se adquirir um escravo: Reuniram-se no dia 26.05 alguns lavradores do município, no prédio da Câmara Municipal, para resolver sobre o modo de conjugar a crise de que se julga a lavoura ameaçada pelos excessos abolicionistas. A reunião nada resolveu que possa produzir um resultado. Em um período financeiro verdadeiramente crítico, triste legado da imprudência dos que demais confiaram nas forças produtoras da nação, é agora que vemonos precisamente à braços com a questão momentosa do elemento servil. Questão que deve ser encaminhada com o maior critério, para que não sejamos arrastados a completo aniquilamento. Pretender-se abolir a escravatura com sacrifício de uma só classe, alem de acarretar a ruína geral, é estabelecer o regime odioso dos excessos. Não se resolve questões de tal natureza nem com exageros do sentimentalismo, nem com a cegueira do egoísmo dos interesses individuais, a solução estaria na aquisição de brancos livres.

Tortura para escravos fugitivos

Na mesma edição, podia-se ler: “Alugase escravos Precisa-se alugar 6 escravos que sejam prestativos e bons colhedores de café. Afiança-se o bom tratamento e

pagamento”. Para se ter uma idéia do que representava dentro da economia da região a força do trabalho servil, o VL divulgou, em 31 de agosto de 1884, uma tabela espelhando o quadro da população escrava de 30 de setembro de 1873 a 30 de junho de 1884:

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Existentes em 30.09.1873 Homens 9.111 Mulheres 8.451 Entrou depois de 30.09.1873 Homens 5.112 Mulheres 4.520 Saíram do município depois de 30.09.1873 Homens 1.145 Mulheres 940 Falecidos Homens 2.522 Mulheres 1.954 Libertos pelo fundo de emancipação Homens 72 Mulheres 66 Libertos pela iniciativa particular Homens 188 Mulheres 185 Libertos por ato oneroso Homens 19 Mulheres 30 Existentes em 30.06.1884 Homens 10.277 Mulheres 10.155 Em serviço rural - menores 21 anos Homens 1.792 Mulheres 1.670 De 21 a 60 anos Homens 8.740 Mulheres 6.585 Maiores de 60 anos Homens 1.006 Mulheres 506

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Em serviço urbano menores - 21 anos Homens 4 Mulheres 16 De 21 a 60 anos Homens 28 Mulheres 84 Acima de 60 anos Mulheres 2 Total geral 20.433 Na mesma edição de 31 de agosto, com o título em destaque “Libertação de Escravos, o VL anunciou: “A Exma Sra Baronesa de Duas Barras deu liberdade a seus 14 escravos. Não é a primeira vez que a virtuosa senhora praticou ato de beneficência. Mais de 100 antigos escravos já foram libertos, com abrigo das necessidades, pois recebem asilo em terras dos seus antigos senhores”. No dia 02 de novembro do mesmo ano, o VL volta a narrar dois fatos envolvendo escravos: “O escravo Pedro, muito conhecido nessa cidade, onde há anos se ocupa como carroceiro, recebeu no dia 15.10 a sua carta de liberdade, mediante o pagamento de 200$ entregues ao seu senhor”; e “No dia 24.10 foi encontrado na fazenda denominado Socorro, em Bom Jardim, o cadáver de um homem, cerca de 30 anos, preto, pendurado numa arvore. Ele estava fugido.” Em 30 de novembro de 1884, o VL noticia a morte da Baronesa de Duas Barras: “No dia 26.11 faleceu aos 83 anos, as 10h30m da noite, em sua fazenda do Rio Grande, a exma sra Baronesa de Duas Barras, viúva em segunda núpcias do barão . Deixou livre todos os escravos e deixou 8.000$ que serão empregados na aquisição de terras de lavoura para eles.” O Conde de Nova Friburgo possuía onze fazendas na região e contava com o serviço de cerca de 1200 escravos. No dia 21 de junho de 1885, o VL expressou: As 10hs da noite do dia 15.06 foi assassinado com um tiro na fazenda de Santa Rita, do Conde de Nova Friburgo, o sr Manoel Ribeiro Pinto, administrador da fazenda. Recai suspeita sobre um dos escravos que pou-

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cos dias antes tido sido castigado pelo administrador. O escravo penetrou a noite na área da fazenda sem ser molestado pelos cães.

Na edição de 04 de julho de 1886, após desmentir o jornal Correio de Cantagalo, que noticiara um levante de escravos na fazenda Boa Sorte, do Visconde São Clemente, o VL publica novo editorial prevendo o fim da escravidão: ... Ninguém mais do que nós desejaria ver resolvido o grande problema do elemento servil... O nosso desejo não é uma utopia, nem um sonho dourado, senão uma bela realidade... De uma verdade, porém, devemos estará convencidos: os dias para a extinção da escravidão no Brasil estão contados. Sobre isso não há mais nenhuma dúvida...

Na edição de 09 de janeiro de 1887, o VL dá relevo a um crime que comoveu toda a comunidade: No dia 2 do corrente, às sete horas da manhã, foi barbaramente assassinado, em sua fazenda no Palmital, o conhecido fazendeiro Joaquim Henrique Dennevitz, sobrinho do amigo Guilherme Sauerbron. Conta-se que o lugar do delito foi na roça da fazenda, para onde se dirigia o sr Dennevitz. Foram autores dois escravos. É indiciado como mandante o feitor da fazenda. Todos três se acham detidos.

Com o título “Cenas da Escravidão”, em 23 de janeiro de 1887, o VL narra em detalhes um fato que novamente vem surpreender a região: Apresentou-se no dia 18 de janeiro ao subdelegado de polícia nesta cidade, o escravo Luiz, de 25 anos, que diz pertencer a um sitiante de São Sebastião do Paraíba. Vimos esse desgraçado escravo quase nu, com um ferro nos pescoço e outro em um dos pés, de pesos desmesurados, com sinais de sevicias, eclarando esse pobre que esteve amarrado no tronco quatro dias e quatro noites, sem comer, sem beber, e que fugindo gastara quatro dias para chegar a cidade. Agora perguntamos a policia o que fará, e se estes castigos são os moderados que trata a lei. Ficamos a espera de providencias.

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Em 22 de abril de 1888, ou seja, vinte e um dias antes da assinatura da Lei Áurea, o VL dá grande ênfase, com a manchete “Abolição Triunfante”, à onda de liberdade que rondava algumas fazendas: Os escravos fugitivos ficavam acorrentados

O grande momento chegou enfim para Cantagalo, e graças à iniciativa patriótica de alguns dos nossos mais importantes lavradores, brevemente não encontrara a futura lei libertadora um único escravo neste município. Vamos vendo, nas fazendas, os escravos sendo chamados para ouvir, do tope da escada do solar de seus senhores, a palavra liberdade que é eles restituída espontaneamente, sem condições, sem atavios de linguagem, sem flores de retórica, e ao mesmo tempo eloqüente até as lágrimas. Honra aos nossos lavradores, que cansados e descrentes do catecismo da resistência e dos argumentos de outrora, acabam de resolver por si e pelas inspirações de sua inteligência individual. Ontem, 21.04.88, os Viscondes de Nova Friburgo e de São Clemente, por intermédio do seu filho, o sr Antonio Clemente Pinto, libertaram todos os seus escravos, em numero superior a 1.200. A Exma Sra Josepha Leopoldina Soares Teixeira e suas filhas libertaram igualmente os seus, em número superior a 40. O sr Guilherme Sauerbron os seus 35. O sr dr Joaquim Marques da Cruz os seus 6. O sr Francisco Rodrigues da Fonseca 1. O sr Henrique Halfed 1. Exma Sra Anna Martins de Avelino Pinto mais de 80. Sr Anibal Antonio de Moraes mais de 70. Sr Arnaldo Dietrich & Irmãos mais de 90. Sr. Ludugero Pinho mais de 20. Comendador José Alves Pereira mais de 100. Sr. Antonio Rodrigues de Moraes mais de 70. Exma sra Bazilia Rodrigues de Moraes mais de 100. Os srs Theophilo de Moraes Martins e a Viúva Torres e Moraes foram os primeiros a libertarem seus escravos no município.

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E o Voto Livre continuou a noticiar os fatos referentes a libertação dos escravos: Neste imenso e grandioso concurso de abnegação e filantropia em que entramos com todos os riscos, visto que não nos achamos preparados para tão violenta transformação do trabalho, só se julgam felizes os que podem libertar. Os dias que ora se sucedem se assinalarão por consecutivas libertações e ficarão gravados, pela gratidão, na memória de milhares de nossos co-cidadãos até hoje condenados a ignomínia, que após um longo cativeiro, por um crime original sem nome, acabam finalmente de receber o batismo da liberdade. Os libertos da Fazenda do Gavião, do nosso amigo Visconde de Nova Friburgo, em sinal de seu reconhecimento e gratidão para com o seu ex-senhor, mandaram buscar a esta cidade a banda de musica Caliope Cantagallense e com ela a frente fizeram uma tocante manifestação ao seu generoso libertador, prometendo não abandoná-lo e redobrarem os esforços para servi-lo. Entre os inúmeros vivas, partidos da multidão dos libertos, ao seu benfeitor, anotamos os dois seguintes pelo grão significativo de suas expressões. “viva o senhor que nos restituiu a liberdade que Deus nos deu...”, e “Viva o Partido Liberal que nos ajudou. Os libertos da Fazenda das Lavrinhas depois de manifestarem a gratidão a suas benfeitoras, desistiram do feriado que lhe fora dado , preferindo a começar a ganhar o salário, partindo logo para o trabalho e, segundo um feitor, nunca se viu tanta ordem no serviço, nem tanto trabalho feito num só dia.

No dia 20 de abril de 1888, o VL publica nota que informa que os viscondes de Nova Friburgo e São Clemente, logo após a libertação dos escravos, receberam os títulos de Conde. Ainda nesta edição, o jornal enumera outros fazendeiros que também libertaram seus escravos: Francisco Clemente Pinto 366 Joaquim Baptista Láper 41 Antonio Machado Victoria 25 Isabel Sauerbron 12

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E serão libertos nos próximos dia os dos srs. Accacio Americo 116 Duarte Taborda Flores 59 Jose Gonçalves Neves mais de 60 Phelipe Jacob Clair 33 Jose Augusto da Fonseca Lontra mais de 80 Dr Vicente Moncada 66 Bernardo Pires Veloso 49 Hygino Teixeira de Siqueira 49 Dona Joaquina Angélica do Nascimento 160

A edição de 20 de maio de 1888 do Voto Livre foi especial: SALVE O BRAZIL LIVRE!!!! LEI 3353 de 13 de maio 1888 DECLARA EXTINCTA A ESCRAVIDAO NO BRAZIL” São já passados oito dias por sobre a data gloriosa de 13 de maio. Vampiros cruéis e desumanos sugávamos a vida e mentalidade de milhares de nossos concidadãos, roubando a sua liberdade. O Voto Livre orgulha-se de haver caminhado sempre com a vanguarda nesta luta que foi de vida e de morte para a dignidade nacional.

O Voto Livre prossegue no noticiário: MANIFESTAÇAO No dia 14 do corrente ao chegar a noticia da sanção de sua alteza, diversos moços de boa vontade saíram as ruas e saudaram com inúmeros foguetes, sendo a noite improvisada uma procissão cívica que percorreu as ruas da cidade precedidos pela banda Calliope Cantagalense, dando vivas ao imperador e a lei de libertação. O sr Moreira de Vasconcelos, diretor da Cia Dramática que se acha entre nós, tomou parte na manifestação com todos os seus companheiros e recebeu o desfile na porta do teatro, onde pronunciou um entusiasmado discurso. “... a civilização brasileira acaba de dar mais um passo impelida pela

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democracia nacional... O cadáver da escravidão desapareceu nos últimos enxurros da muralha escravagista...” ( o discurso foi acompanhado por dezenas de pessoas e foi publicado na integra pelo Voto Livre, com referências a muitos aplausos e interrupções de vivas)

Com a manchete A FESTA DOS NEGROS, o Voto Livre publicou manifesto dos estudantes que lideraram a passeata: No único intuito de molestar aqueles cidadãos brasileiros que procuraram solenizar a promulgação da lei de sua majestade, o Correio Cantagallense cuspiu um insulto com o titulo “a festa dos negros”. Protestamos contra o miserável insulto que não exprime os patrióticos sentimentos nobres do povo cantagalense. Quando em todos os pontos do império repercutem os ecos da abolição triunfante, não seria o povo de Cantagalo, quiça o mais devedor aos libertos, o que havia de se calar. A resistência partiu de dois ou três indivíduos que se julgam os donos desta terra. Asss. Manoel Vieira da Silva Santos, Gustavo Sauerbron, Augusto Torres de Sampaio.

O VL também noticia a reunião dos libertos no dia 20 de maio na localidade de Macuco: No dia 20 do corrente estiveram reunidos na estação de Macuco perto de 1000 trabalhadores livres que ali foram fazer as suas compras e passear. Depois de satisfeitos no seu intento e de formarem danças, ao toque das duas excelentes bandas de música, retiraram-se todos paras as fazendas onde trabalham, na melhor paz e sem que tivesse ocorrido o mais leve incidente digno de repressão. Vai esta noticia com vista aos terroristas que procuram intimidar a população com receios. Em redor desta cidade estão mais de 3.000 libertos.

No dia 26 de maio de 1889, o VL narra um princípio de tumulto em São Sebastião do Paraíba envolvendo libertos: No dia 13 de maio diversos líbertos daquela freguesia, em número supe-

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rior a 400, compareceram ao arraial com a banda Recreio Paraybano, e percorreram as ruas comemorando a data, precedidos pela bandeira nacional. Depois se recolheram a um lugar espaçoso, onde dançaram durante toda a noite. No dia 16, porém, um grupo de 20 libertos armados de facas e cassetetes invadiu o arraial declarando que iriam a missa. O grupo aramado percorreu todas as rua do arraial, e ofendiam aos republicanos que ali estavam. Posteriormente foram repelidos pelos fazendeiros locais.

Objetos de ferro prendiam os escravos rebeldes

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A Cidade

A Cidade

Cantagalo em 1874

A cidade surgiu com o café, que foi o impulsionador desta incrível e fantástica mudança verificada igualmente na região urbana. Em 1950, Alberto Ribeiro Lamego escreveu o que sentencia a força desta lavoura: “Nunca será demais repetir que, com a subida do café, chegavam afinal os grandes dias da Serra Fluminense, mantida até o séc.XIX como uma das mais selvagens e desconhecidas regiões brasileiras, ainda que próxima ao litoral. O motivo econômico que lhe faltara nos séculos precedentes para a entrada da cultura, por fim aparecera”. Lamego descreve este avanço do homem sobre a natureza:

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“Toda a impenetrabilidade e oposição do hirsuto matagal, com ele se tornaria impotente, para que uma vigorosa e esplêndida civilização, em breve, também ali estendesse o domínio do homem sobre a cordilheira”. E conclui: “Nada, porém, resiste ao café, o mais vertiginoso derrubador de selvas, a cujo embate todos os obstáculos se aniquilam. Continuamente novas fazendas rasgam a floresta. Multiplicam-se de ano a ano aos milhares as arrobas de café e, com isto, (...) a Serra civilizar-se-ia com os seus numerosos focos culturais”. O sucesso do café lançou a semente do glamour na urbe. A ligação com a cidade não se limitava às visitas dos senhores proprietários de fazendas às reuniões na Câmara e aos encontros políticos. Muitos deles tinham seus assobradados na rua Direita ou Santana e ali mantinham escravos e serviçais que conservavam a casa da cidade para a chegada inesperada de qualquer membro da família. O tratamento de saúde, os negócios do café, as compras e as idas ao teatro e aos salões eram motivos para boas temporadas na área urbana e essa presença era fundamental para marcar lugar no convívio social. As festas religiosas e a educação dos filhos também eram fortes convites a essa migração urbana, mesmo que temporária, onde havia a troca de modismos da Corte e do exterior, além do consumo de peças que enchiam os olhos das senhoras dos ricos fazendeiros. Era a louça mais requintada, os móveis avantajados e bem talhados, as roupas de cama de tecido importado e muitas vestimentas que poderiam ser escolhidos através de um catálogo. A prosperidade econômica da região garantia aos barões e coronéis do café uma representação social apropriada e o comércio crescia e oferecia cada vez mais novidades. No auge da produção do café pode se dizer que a cidade de Cantagalo concorria com a própria Corte como mercado consumidor de produtos importados, contratador de serviços fotográficos e de eventos culturais. Muitos desses profissionais, que tinham uma vida cigana e itinerante, resolveram fixar residência na área urbana e seus arredores, indicando que estes serviços simbólicos tinham uma expressiva aceitação junto à sociedade local. O Voto Livre publicava notas e incluía pequenas matérias que retrataram esta movimentação urbana. Por exemplo, em 19 de março de 1882, o VL destacou: “Antropolo-

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gia. Tem-se encontrado ultimamente neste município, na zona denominada Córrego dos Índios, diversos objetos que serviram de uso dos aborígenes. Um cachimbo de barro cozido simulando um tronco humano e um machado de pedra polida.” Nesta mesma edição, o periódico publicou nota registrando o movimento na Biblioteca Pública. Chama a atenção para a quantidade de livros emprestados em outras línguas: “Esta biblioteca foi frequentada no mês de dezembro por 254 visitantes. Obras emprestadas: 89, sendo 82 em português, 6 em francês e 1 em espanhol. Obras consultadas: 59, sendo 43em português e 16 em francês.” Em 17 de fevereiro de 1884, um terrível temporal caiu sobre a região de Cantagalo. A população ficou assustada e as autoridades constituídas passaram a noite circulando pelos arredores, prestando socorro aos moradores. O córrego de São Pedro transbordou, alagando ruas, praças e muitas casas. O Voto Livre cobriu o fato e acompanhou os desdobramentos da tragédia nas edições posteriores. ENCHENTE A cidade de Cantagalo foi surpreendida durante a noite de 17.02, das 20 as 21hs, por um formidável enchente, que assoberbou o rio que banha a cidade inundando as ruas Santana e Largo da Matriz. Em toda sua extensão as ruas Santana, Largo da Matriz e Mão de Luva formou-se um caudaloso rio, que ameaçava e alertava para funestas conseqüências, pondo em perigo todos os prédios e construções que foram invadidas... Uma das pontes que segue para o caminho da batalha caiu. No dia seguinte o presidente da Câmara, Major Guilherme Sauerbron, tomou as necessárias providências para minimizar o lamaçal. Oficiou aos fazendeiros solicitando escravos. O Visconde Nova Friburgo mandou 50, Guilherme Sauerbron 12 e o Capitão Luiz Vieira de Carvalho 16. Logo que a enchente tomou proporções assustadoras diferentes cavaleiros correram aos pontos de perigo prestando ajuda. O Sr tenente Sapucayano, comandante do destacamento policial, teve grande coragem.

Na edição de 5 de julho de 1884, o Voto Livre insere nota sobre vários furtos acontecidos na Rua Santana. Em outras datas o jornal volta ao assunto, com novos relatos, onde os objetos roubados eram, geralmente, selas de cavalo, animais criados no ter-

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reiro, e pequenos utensílios domésticos. Em muitos destes registros, o VL indica a participação de escravos libertos ou fugitivos. “Ratoneiros. Várias casas da ria de Santana foram assaltadas. As portas devem ficar fechadas”. Em seis de setembro de 1885 a população de Cantagalo se encantou com o relógio que foi instalado no alto da Igreja Matriz. Relógio da torre Acha-se a devidamente assentado e funcionando o grande regulador das horas, que a Câmara Municipal mandou colocar na face principal da nossa matriz. A pericia reconhecida dos srs Dubois, relojoeiro, e Kafestein, marceneiro, que efetuaram o trabalho.É de se lamentar que o sino escolhido não tenha um som cheio e vibrante que se possa ouvir em toda cidade.

O VL, em 1886, deixa de publicar os atos oficiais da Câmara Municipal, e então inicia uma campanha em prol de melhoramentos da cidade, atacando fortemente o descaso das autoridades na conservação das áreas públicas: SUJEIRA NA RUA - Há pouco vimos um despacho da Câmara Municipal mandando pagar a quantia de 622$500 pelo serviço de limpeza da cidade. É publico e notório que o empreiteiro limita-se a varrer uma ou outra rua, notadamente a da Direita e parte da rua Sant’ana, acumulando o cisco em montinhos que nunca são removidos, onde são deixados até a chegada das chuvas. Tudo ai esta e tudo ai ficará para celebrar diariamente esta incomparável Câmara Municipal, que paga os votos de certos seus eleitores com o dinheiro do município. Para que se avaliem os escândalos na execução do serviço, basta atentar que o trabalho da limpeza é realizado por dois negrinhos sexagenários, Manoel e Sebastião, libertos por 50$.

Em janeiro de 1887, o VL publicou uma importante reunião na Câmara, quando foi apresentado o orçamento para melhorias na iluminação pública: Acha se ente nos o sr Arminio Ferreira de Andrade, representante da

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casa J Richseu e Cia, que vem propor a câmara municipal a substituição da atual iluminação pelas das acreditadas Lâmpadas Belgas. Essa lâmpadas são hoje conhecidas como as melhores que foram inventadas e não há comparação com os lampiões comuns de querosene. A substituição seria um grande melhoramento para esta cidade, que possui péssima iluminação. A mesma iluminação será inaugurada em Nova Friburgo no próximo mês.

O jornalista do VL estava atento a tudo o que acontecia na cidade. Em janeiro de 1888, insere nota reclamando de um açougue: “Carne verde - A carne que esta sendo vendida à população da cidade não pode ser de pior qualidade. Se o Sr Presidente da Câmara não reclamar do fiscal deste distrito, não tardará que sejamos envenenados ou quando menos atacados de alguma peste.” O VL dá destaque a um fato na zona rural, em fevereiro de 1888, envolvendo uma criança, entretanto não cita detalhes do episódio que possam justificar ou explicar o porquê da participação de um menor: Enorme Jacaré - Na fazenda Pouso Alegre, pertencente a Exma Sra Joaquina Angélica do Nascimento Pires, na localidade denominada Ribeirão das Aréas, foi morto pelo menino Virgílio um enorme jacaré que vinha consumindo grande numero de leitões e cabritos. A criação era capturada quando se aproximava do referido ribeirão. O animal tinha dois metros e trinta centímetros de comprimento e um metro de circunferência.

Na edição de 05 de fevereiro de 1888, o semanário insere na primeira página, com grande proeminência, a inauguração de um posto da Caixa Econômica Federal: De conformidade com o decreto n 9638 de 02.04.87, acha-se instalada na Colectoria de Rendas Gerais deste município uma agência da Caixa Econômica que recebe depósitos de 1$000 ou seus múltiplos, a juros de 5% ao ano capitalizados de 6 em 6 meses. Gerenciada pelo agente Dr. F de Souza. Chamamos a atenção dos nossos leitores, pequenos capitalistas, que queiram bem colocar suas economias.

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Em abril de 1888, o periódico inclui, na capa, uma nota pilhérica, a qual escapa levemente do padrão atinado do semanário. O redator elogia a carne vendida por um açougue e faz piada: “Carne verde. O nosso amigo capitão Augusto Sampaio abriu nesta cidade um estabelecimento de corte. A carne verde oferecida é excelente: verde como a esperança e deliciosa como ausência de sogra.” O naturalista sueco G.W, Freireyss viajou por terras brasileiras em 1814, e em seus relatos ressalta a presença generalizada da caça como prática cultural entre os habitantes das montanhas. “A simplicidade dos costumes, a franqueza e obsequiosidade são qualidades características destes habitantes... A caça é ali muito abundante.. sendo perseguidos os veados, as antas, os porcos-do-mato etc... Esta paixão pela caça é de algum modo útil... daí resulta excelentes atiradores...” O Voto Livre inseria, em muitas edições, histórias e narrativas envolvendo a prática da caça e as aventuras de caçadores. No dia sete de outubro de 1888, por exemplo, o jornal comenta que algumas propriedades que circulam a área urbana da cidade estão perdendo animais, geralmente atacados no período noturno. Leitões, galinhas e patos somem dos quintais, dos terreiros e dos cercados. O VL pede a intervenção dos caçadores: “Aos caçadores - Encontrou-se rastos de uma grande onça no pomar pertencente a exma Sra Joana Cacemira Monteiro dos Santos, sendo certo que a tempo se supõe ter sido morta uma porca que existia no local.” Em janeiro de 1889, o semanário aborda um problema que já existia naquela época e que muita preocupação levava aos comerciantes em geral: “Moeda Falsa - Prossegue a polícia no inquérito a fim de descobrir o introdutor de cédulas falsas de 200$000, tendo sido apreendidas três notas no município”. Duas notas inseridas na edição do final de abril de 1888 demonstram como o VL estava presente na rotina da cidade. “GELO - 1 k d gelo custa na fazenda do Gavião, do sr Visconde de Nova Friburgo, 200 reis, e o frete no trem do Gavião até a cidade custa 300 reis. Toucinho Mineiro - Vende-se a 600 reis o quilo do toucinho e 700 reis a banha, tratar no Bazar Cantagalense, de João de Almeida Brito”. Logo após a proclamação da República, o município passou por uma transformação

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política. Os monarquistas passaram a ser perseguidos e os republicanos assumiram o comando da região. O jornal Pátria Nova publicou nota relatando decisões tomadas pela Câmara Municipal logo após o 15 de novembro: “Câmara Municipal. Estando reunida no dia 20 do corrente, a Câmara Municipal resolveu que a Praça da Matriz passará a chamar-se Praça Quinze de Novembro, a praça municipal passará a Praça Marechal Deodoro da Fonseca, e a rua Princesa Imperial passará a rua Benjamim Constant.” Na mesma edição, o Pátria Nova se despede de D Pedro II: “D Pedro II. Atravessando o Atlântico com destino ao velho mundo, o que de outras vezes tem feito no gozo da felicidade, lá vai desta vez triste, abatido, atordoado, aquele virtuoso e venerado ancião...”

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A Saúde Na Chácara Queimada funcionava desde abril de 1875 um hospital beneficente, mantido pela maçonaria, denominado Casa de Caridade. O jornal O Conservador que correu no dia 07 de janeiro de 1789 deu destaque a um ofício enviado pelo Barão de Nova Friburgo aos diretores da Casa de Caridade de Cantagalo, no qual o Barão e seu irmão, o Barão de São Clemente, doaram a quantia de 12 contos de réis para a instituição “criando uma casa de misericórdia, asilo certo dos desprotegidos de fortuna, vitimados pela enfermidade”. Residiam em Cantagalo bons médicos, contudo o VL de 12 de fevereiro de 1882 registra um fato: “Curandeiro - Faleceram e foram sepultadas no dia 1 de fevereiro no cemitério do povoado do distrito da Floresta, duas meninas, de 11 e 13 anos, tendo sido tratadas por um tal Antonio Lopes, que não tem autorização legal para exercer a medicina. Sucumbiram com febre , tendo consistido o tratamento com vinagre, água e açúcar.” Na mesma edição, o jornal apresenta um belo currículo de um dos médicos que atendiam na região: “Atendimento Médico - Dr. Adolpho Lantz formado pela Universidade de Wurzburg, na Alemanha, e pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, reside em Santa Rita, e atende os chamados a qualquer hora do dia e da noite. Especialidade operador e partos”. Em 23 de abril de 1882, o semanário insere uma nota pitores-

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ca: “Embriaguez - Cura completa deste vício com o infalível remédio de J Cardoso. Não tem dieta.” O redator do VL, em 28 de janeiro de 1883, narrou as condições precárias do estabelecimento carcerário da cidade: “Presos Doentes - É fundamental prestar cuidados médicos aos míseros doentes presos na cadeia desta cidade.. Vivem aglomerados em um espaço pequeno, de ar confinado, mal alimentados. Em cada compartimento de 25 palmas sobre 30 habitam 5,6 e 7 indivíduos doentes.” O historiador Alfred Crosby escreveu em seu livro os efeitos e a devastação provocada pela varíola, que, segundo ele, era “uma doença com botas de sete léguas” e seus efeitos são aterrorizantes, como febre e dor, além do aparecimento de pústulas que às vezes destroem a pele e transformam a vítima numa massa hedionda de sangue, com uma estarrecedora taxa de mortalidade, que chega a um quarto, metade ou mais das vítimas nas variedades mais violentas. As pessoas ainda saudáveis fogem, deixando os doentes para trás a enfrentar uma morte certa, e geralmente levando consigo a doença. O período de incubação da varíola é de dez a catorze dias, longo o suficiente para que o portador percorra longas distâncias a pé, de canoa ou, mais tarde, a cavalo, até alcançar pessoas que nada sabem da ameaça que ele representa e lá infectá-las inspirando outros recém infectados com o vírus a fugir para infectar novos inocentes, e assim por diante.

A partir do dia 03 de março de 1889, o Voto Livre passou a noticiar em todas as suas edições a epidemia que surgiu no município: “Somos informados que na freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Duas Barras grossa a epidemia de varíola”. Relatava o jornal em 05 de maio de 1889: Parece que durará mais tempo do que o previsto esta doença em nosso município. Segundo nos informaram, caíram doentes quatro empregados do sr José da Rocha Monteiro, que tem sua chácara ao extremo da cidade, e foi recolhido mais um doente atacado pelo mal ao lazareto da cidade. Na fazenda da Aldeia também caiu doente o administrador. Os doentes

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estão sob os cuidados do dr Belmonte de Andrade, que de certo ordenará todas as desinfectações necessárias. Achamos de bom ávido que não se tome as águas do córrego e que não sejam molhadas hortaliças e que não se lave roupas com aquelas águas.

As narrativas com relação ao mal prosseguiram nos dias subseqüentes, como atestam as notícias a seguir. Em 12 de maio de 1889: A epidemia esta localizada no lazareto e na fazenda da Aldeia, onde 50 foram atacados. No dia 7 houve reunião na câmara deliberam que se oficie ao delegado de polícia pedindo diversas providências para a estação de Macuco. Vigilância aos doentes que trafegam no ramal ferroviário... quando atravessamos uma quadra calamitosa pelas epidemias todos os cuidados são poucos. O nosso estimável vigário João Evangelista dos Santos Castro com medo das graves conseqüências do mal, com o inconveniente das grandes aglomerações, resolveu suspender as ladainhas rezadas nos domingos.

Em 26 de maio 1889: Tem declinado sensivelmente a epidemia de varíola, não apareceram novos casos. Carta do médico dr Joaquim Marques da Cruz: na qualidade de médico e de delegado de policia sinto na necessidade de por a imprensa informada e com isso tranqüilizar a população sobre o receio da doença. Há com efeito nas imediações da cidade dois focos da varíola: na fazenda da Aldeia, e na chácara do sr Jose da Rocha Monteiro. A maior parte da população esta devidamente vacinada e os que restam continuam a vacinar-se ... Não tem a policia sido indiferente a empregos de medidas que evitem a propagação do mal... Evite-se o contato com os doentes .. Abater o ânimo público é imprudente e pode preparar o terreno para devastação do mal...

E, por fim, em 22 de setembro de 1889, expunha o periódico que “... na casa de negócios do sr Antônio Gamboa, na rua Direita, apareceram dois casos de varíola, é

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A Saúde

possível que havendo cuidado, o mal não se propague.” No início de 1891, quando o Voto Livre já não circulava e o Pátria Nova igualmente já havia sido extinto, Cantagalo sofreu com a epidemia de febre amarela que dizimou rapidamente uma parte da sua população. A moléstia atacou a ricos e pobres, escravos e senhores proprietários, matando duas entre dez de suas vítimas, e não existiam tratamentos eficazes e nem vacinas. A enfermidade se caracterizava por sintomas como vômitos, calafrios, rubor na face e, é claro, febres altas. “A febre amarela, junto com a peste bubônica e a cólera são os maiores desafios da medicina moderna”, afirmou o cientista francês Louis Pasteur, considerado na ocasião uma das maiores autoridades em microbiologia do mundo.

Casa de Caridade

Numerosas famílias, especialmente as mais abastadas, fugiram apavoradas para outros cantões, e até o fórum passou a funcionar em Cordeiro. Grandes valas foram abertas no cemitério e os praças da polícia ficaram encarregados de sepultar tantos cadáveres. Uma boa explicação para o avanço da febre amarela era a situação caótica de saneamento básico na área urbana de Cantagalo. Logo depois foram realizadas obras de saneamento e melhorias na cidade em razão de dita epidemia.

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A Sociedade O regime servil e a pujança da cafeicultura foram os pilares que fomentaram o glamour da vida dos senhores fazendeiros, suscitando acúmulo de riqueza e formando uma aristocracia rural. Estes grandes proprietários de terras concentraram em suas mãos o acesso à terra, à escravaria, aos cargos públicos e políticos locais. Muitos deles desempenharam funções variadas, tais quais juízes de paz, vereadores, advogados, juízes de órfãos e delegados de polícia. No apogeu da economia cafeeira local, podemos mesmo afirmar que, em determinados casos, prestígio, poder e riqueza convergiam para poucas mãos. Tal riqueza gerava conforto e estimulava o luxo, e muitos desses fazendeiros não resistiram à tentação de modismos vindos da Europa e da Corte. Em conseqüência, grandes mudanças foram verificadas na sociedade da região no desenrolar do século XIX, onde uma elite requintada e endinheirada se esforçava em copiar formas de morar, de se vestir, de se comportar. Nas fazendas, enormes varandas e amplos salões foram construídos, muitos destes cobertos com papel de parede importado, denotando opulência, assim como capelas recebiam adornos e jardins enfeitavam as alamedas de entrada. Mesas de bilhar, pianos ingleses e relógios monumentais não faltavam nessa decoração, onde a “onda” dos nobres exigia pratarias, porcelanas e muitas jóias. O jornal Voto Livre acompanhou essa transformação nos detalhes, relatando festas, recitais e peças no teatro, reuniões políticas e o dia-a-dia de uma elite composta em sua maioria pelos

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barões e coronéis. Pesquisando o Voto Livre de 1883, encontramos um registro curioso, o qual pode comprovar este período de sofisticação e de “modos europeus”, quando se registra o aluguel da “Fayton”, que pertencia ao Sr. Leopoldo Augusto de Oliveira Pimentel. Fayton são carruagens de quatro rodas, geralmente puxadas por dois cavalos e que ofereciam grande conforto aos seus viajantes. Muitas delas são cobertas por uma lona de cor escura. O modelo que desfilava pelas ruas e estradas de Cantagalo deveria ser mais simples, pois a vias de trânsito comumente se encontravam em péssimas condições. Para além da vida social, a cultural, igualmente se viu atravessada pelas transformações oriundas da pujança da prosperidade econômica da época. O Teatro Cantagalense, por exemplo, fundado em 1853, teve todo o prédio reformado por um grupo de fazendeiros e empresários em 1878. Foi reinaugurado, aumentando Theatro Cantagallo sua capacidade para duzentos lugares, e a construção dos camarotes, onde se instalava a elite agrária e política, com capacidade para cinqüenta pessoas. Havia também uma galeria para menos afortunados e jovens estudantes, com também cinqüenta lugares. Desde então, apresentava uma agenda cultural repleta de atrações, dentre musicais e peças encenadas por grupos de artistas que viajavam pelo país. Sobre este tempo glorioso, o jornalista Acácio Ferreira Dias escreveu em seu livro de 1941: Foi uma época palpitante para a vida da velha Cantagalo, composta de uma sociedade na maioria de fidalgos, fazendeiros abastados, comerci-

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antes importantíssimos e capitalistas. Nesse grandiosos saraus que marcaram a época mais requintada da existência citadina, pela importância dos convidados que chegavam em vistosas segues e troleis, puxados por não menos vistosas parelhas, guiados por escravos agaloados e de cartola, afluíam as damas trajadas ricamente, cobertas de jóias e enchendo o ambiente de perfume e mocidade.

Na edição de seis de janeiro de 1883, o Voto Livre noticia a criação do Clube Familiar, que promovia festas e bailes. “Realizou-se ontem a primeira Soirré no salão do theatro. A noite correu animada, dançaram-se até de madrugada. Distintas senhoras elegantemente vestidas estiveram presentes”. Na mesma edição, o redator comunica “que deve chegar da corte por estes dias, o Sr Vitorino Jose de Campos, fotógrafo, que vem residir aqui por uns tempos na rua Santana 16, e vai tirar retratos todos os dias, das 8hs as 16hs, menos nos dias de chuva”. Nesta ocasião, já se contratavam empregados domésticos, como podemos notar no anúncio de duas linhas: “aluguel de um preto, excelente cozinheiro de forno e fogão e duas pretas perfeitas cozinheiras, lavadeiras e engomadeiras, tratar com Felipe Clair no Largo da Matriz”. Também se alugava “uma ama de leite mucama de muita boa índole, bons costumes e com bastante leite. Informações na tipografia”. Em 1883, o comércio crescia: “A partir do dia 11 de janeiro reabriu a antiga e muita acreditada padaria do Srs. Guilherme Sauerbron e irmãos, onde o respeitável público encontrará pães de todas as qualidades, biscoitos sortidos e feitos a capricho”. No mês de fevereiro de 1883, um espetáculo encantou os cantagalenses com a casa lotada e muito comentário nas rodas sociais: “Theatro de Cantagalo, 18.02, mimoso drama do repertório da atriz Appolonia e ator Furtado Cunha, - Sua Majestade o dinheiro”. Alguns dias depois, o jornal deu destaque a outro evento que contou com a presença de muitos foliões e mais de cinqüenta fantasias concorreram numa noite animada que se esticou até as três da madrugada: “Grande e pomposo baile a fanta-

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sia no dia 05 de março no salão do Theatro, ricamente adornado e preparado com toda suntuosidade, aberto para receber os familiares. A orquestra executara lindas e variadas quadrilhas, valsas e polkas. A festa teve lugar no dia de páscoa.” No início do ano de 1884 o VL noticiou a chegada de um grupo de alunos do Rio de Janeiro: Sexta-feira do corrente chegaram a cidade 40 estudantes da Escola Politécnica do Rio de Janeiro, que vieram correr a estrada de ferro de Cantagalo. Acompanho-os nessa excursão o Dr Viriato Belfort Duarte, professor daquela academia. Os nossos hóspedes chegaram com muita chuva e dificilmente poderão agasalhar-se nos 3 modestos hotéis que possuímos e que estão despreparados para receber tão numerosos inquilinos.

Alguns dias depois, o jornal já daria outra informação quanto à qualidade dos hotéis: Hotel Cantagalo - Tendo passado por uma completa reforma, este antigo e bem conhecido estabelecimento, mais que nunca, acha-se montado de modo a bem servir os seus numerosos amigos e fregueses, tendo também acomodações para famílias, que encontrarão tratamento condigno. O seu novo proprietário garante modicidade nos preços e o mais escrupuloso asseio. Ass E Abreu Santos.

A noite de Reis, no dia 06 de janeiro, era um acontecimento social. Personalidades da vida política e familiares, além de músicos e cantores, reuniam-se no início da tarde e transformavam a data religiosa num grande acontecimento social: “O nosso maestro Sr. Presciliano Silva percorreu a cidade durante a noite do dia 06 de janeiro, acompanhado de discípulos e diversos instrumentistas, desfilando pelas vias, entoando muitas canções. Cantaram as sras. Emilia, Elisa, Adelia e Bertha Sauerbron”. A rotina elegante, o dever de receber bem, a ostentação para marcar o lugar social e uma vida de glamour cercada de serviçais, marcaram estes anos na região de Cantagalo. Alguns comerciantes da Corte e outros da própria cidade descobriram este nicho e investiram em belas casas de negócio. Nos textos apresentados, pode-se notar o destaque a qualquer produto de origem européia. Outro ponto relevante é que naquela

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época já se fazia publicidade. No dia 9 de março de 1884, por exemplo, o VL publicou um grande anúncio na sua última página e insere uma matéria bem elaborada: A LA VILLE DE BOURDEAUX - No dia 03.03 foi inaugurado este elegante estabelecimento de vendas de conservas, cerveja, vinho, licores. Dirigido e montado pelo sr A Viscaya. Recomendamos ao publico, na rua Princesa Imperial, haverá gelos todos os dias e garante como legitimo todas as águas sulfurosas e gasosas. Aceita-s encomendas para bailes, casamentos, batizados, e oferece cristais, porcelanas e linhos de mesa. Licores holandeses e franceses, vinhos de Portugal, carnes e peixes.

Em 1885, no mês de janeiro, o VL divulga com destaque outra especialidade da culinária cantagalense: “Presuntos deliciosos a venda, crus e preparados, e também queijos reino de superior qualidade por preços módicos, na casa de J Gavino.” Na mesma edição, relata o jornal sobre mais um espetáculo no Theatro: “Fomos informados que chegará o sr Vicente Cernicchiano, distinto rabequista, laureado pelo Real Conservatório de Milão, com a medalha de ouro do ano 1879, e pretende dar alguns concertos no nosso Theatro. O espetáculo será acompanhado pela exma cantora Marietta Siebs e o maestro Presciliano Silva.” Em 21 de junho de 1885, o VL noticiou o maior acontecimento social do ano: “Inauguração do prado - Dia 12.07 as 11hs - No primeiro páreo prêmio de 150$000 com a distancia de 1.400 metros. Para cavalos e éguas de meio sangue. O trem levará o passageiro depois da corrida e haverá buffet bem servido onde se encontra almoço, lanche e bebidas.” O Solar do Gavião, propriedade da família Clemente Pinto, foi projetado por Carl Friedrich Gustav Wehneldt, o mesmo arquiteto que idealizou o Palácio do Catete, onde, décadas à frente, viveria e morria o presidente Getúlio Vargas. As doze colunas frontais dão ao prédio uma suntuosidade romana. Os vários salões internos eram ricamente adornados com peças de mármore e prata, e do teto caíam belos candelabros. Sem dúvidas, era o solar mais suntuoso e confortável de toda região, a ponto de por

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ali passaram o imperador D Pedro II com sua filha Princesa Isabel, além de ministros, Condes e Barões. Na edição de 18 de abril de 1886, o VL parabeniza a Viscondessa de Nova Friburgo, por comemorar seu aniversário em uma concorrida festa nos salões encerados da Fazenda do Gavião. Os seus múltiplos aposentos acomodaram autoridades da Corte e as personalidades mais destacadas de Nova Friburgo e arredores. Em matéria longa e repleta de adjetivos, relatou-se o acontecimento: Ontem, foi o dia de aniversário natalício da Exma Sra Viscondessa de Nova Friburgo. Além da presença do Visconde de Nova Friburgo e familiares, estavam presentes diversos cavalheiros e damas desta cidade. Achavam-se no palacete do Gavião os Exmos Srs Conselheiro Eduardo de Andrade e dr Achilles Varejão. Fazemos votos que a Exma Senhora tenha muitos aniversários a comemorar entre nós. E hoje as oito horas da manhã deve partir da Fazenda do Gavião um trem especial que sua Exa, o Visconde de Nova Friburgo, mandou por a disposição de seus ilustres hóspedes.

Em janeiro de 1888, o Voto Livre comunicava a inauguração de mais uma loja de produtos para festas: “Festas - Theodoro Sauerbron & Cia receberam doces, queijos suíços, produtos londrinos, uvas moscatel, maças e castanhas portuguesas, na rua Princesa Izabel”. Ainda em 1888, o VL fazia propaganda da farinha láctea: “Preparação alemã, superior, para alimentação das crianças, dúzia 3$000. Encomendas na drogaria Pecklot, na rua da Quitanda, no centro do Rio de Janeiro”. Em várias edições seguidas, durante o verão de 1888, o jornal publicou notas e matérias sobre um novo produto que estava fazendo o maior sucesso no mercado cantagalense: “Refresco Gasoso - Excelente bebida para a presente estação calmosa, denominada Champagn Nacional, feita de limão, caju, e abacaxi, com sabor agradabilíssimo. Fabricado por Eduardo Kropf no seu estabelecimento vantajosamente conhecido ao lado da Igreja Matriz”.

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O Voto Livre, ao longo dos seus oito anos, sempre inseriu bastantes notas e matérias envolvendo a clã do Barão de Nova Friburgo. Sucessivamente elogiosas, com detalhes que supervalorizavam esta ou aquela atividade ou atitude, os jornalistas se esmeravam em repassar uma imagem positiva. Em abril de 1888, um mês antes da abolição da escravatura, os Viscondes de Nova Friburgo e São Clemente libertaram seus 1200 escravos, o que gerou grandes textos na imprensa do Reino e na local. Na edição de 13 de maio, o jornal se coloca na defesa dos interesses da família e desmente com firmeza “boatos que circulavam na cidade”: “DESEMENTIDO - Estamos autorizados pelo sr Antônio Clemente Pinto a declarar que tudo que tem se referido o Correio de Cantagallo quanto aos procedimentos dos libertos na fazenda das Areas é inexato. A força policial requisitada não foi para conter os libertos, e sim para policiar os que vieram de fora.” O ato, que foi acompanhado logo em seguida por dezenas de outros fazendeiros, elevou o prestígio dos viscondes junto ao Império e no dia 20 de abril o VL publica nota parabenizando os dois que foram elevados a Conde de Nova Friburgo e de São Clemente: “Foram elevados a Conde os nossos particulares amigos Visconde Nova Friburgo e Visconde de São Clemente”. Na edição de 03 de junho de 1888, em meio às comemorações do fim da escravatura, publicou a seguinte poesia assinada por Eduardo Ludolf: E a nuvem negra sumiu-se Deixando um céu azulado Lavou-se a nodos terrível Que nos trazia humilhado Agora a terra sagrada Chamada de Santa Cruz Já não se sente nas trevas Para ela tudo é luz

Em de 23 de dezembro de 1888, o VL altera completamente a diagramação da primeira página e dedica todo o espaço para homenagear o político e comerciante Guilherme Sauerbron, falecido dias antes: “Naquele coração generoso nunca houve lugar para o

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ódio e para ressentimento, se a perda gerou uma grande lacuna para o Partido Liberal, que em Guilherme Sauerbron contava um dos mais dedicados combatentes, maior ainda foi para a pátria que nela possuía um servidor leal e dedicado.” Em janeiro de 1889, anunciava o VL, com grande ênfase, a inauguração de mais um ponto comercial na cidade. Tratava-se da charutaria do Sr Welbert, que fora instalada em ponto luxuoso na rua Direita. Em nota assinada pelo redator, os produtos oferecidos são da melhor procedência: O sr Martinho Francisco do Nascimento associado ao sr Pedro Welbert abriu na rua Direita uma excelente charutaria que esta montada com o que de mais exigente existe para agradar todos os fumantes. Grande sortimento de charutos de Havana, Hamburgo e da Bahia. Fumos nacionais, estrangeiros, piteiras, âmbar, e tudo mais para os apreciadores.

Com o fim do Voto Livre começa a circular o Pátria Nova, que em sua edição de primeiro de dezembro de 1889 publica longa matéria relatando a morte da Baronesa de Cantagalo: Às 11 e meia da noite de 28.11 faleceu na residência do seu filho, dr João Baptista Laper, depois de curta agonia, a exma sra Francisca Brandão, baronesa de Cantagalo. Mais pelas suas nobilíssimas qualidades pessoais de que por sua posição social e títulos de nobreza, mereceu a finada a veneração e o respeito de todos que tiveram a oportunidade de se aproximar dela. Era a finada, filha do antigo e conhecido lavrador comendador Joaquim Pires Velosso, e fora casada com o finado João Batista Laper, importante negociante desta cidade e em segunda núpcias com exmo sr Barão de Cantagalo, Augusto de Souza Brandão São seus filhos no primeiro matrimônio o nosso amigo dr João Baptista Laper, capitão Joaquim Laper e a exma sra Francisca Laper. Do segundo matrimônio deixa dois filhos, o dr Augusto de Souza Brandão, lente da Academia de Medicina do Rio de Janeiro e o sr Honório de Souza Brandão. Foi sepultada no dia 20. Dia chuvoso, com enorme acompanhamento.

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A divulgação da vida do Barão

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As Personalidades

As Personalidades A região de Cantagalo, com seu clima e suas encostas cobertas por florestas, foi logo descoberta como um local apropriado para o desenvolvimento da cultura do café. Em menos de quarenta anos, praticamente toda a vegetação nativa, com as suas árvores frondosas e centenárias, cedeu espaço a milhões de “pés de café”, enriquecendo ligeiramente aos ambiciosos e aventureiros fazendeiros, ainda que sem muito planejamento e estudo. Na segunda metade do século XIX, superariam os cafeeiros tanto em poder quanto em riqueza os senhores de engenho do nordeste e se comparavam aos demais seguimentos da elite social brasileira, passando a se constituir num dos mais sólidos pilares de sustentação política do Segundo Império. A imensa riqueza acumulada logo nos primeiros vinte anos os permitiria consumir toda a sorte de artigos de luxo e também construir as suntuosas sedes nas suas terras. Na grande região de Cantagalo, este apogeu da produção cafeeira levou ao abastamento de alguns fazendeiros, tornandoos muito bem-sucedidos, como Antonio Clemente Pinto, Jacob Van-Erven e Augusto de Souza Brandão. Todos listados no Almanaque Laemert, de 1850, e que dotaram suas respectivas propriedades com o que existia de mais sofisticado em termos de beneficiamento do café, onde os grãos eram tratados, de modo pioneiro, pelo sistema de estufas. O apogeu do “ouro verde” caminhou por uma estrada curta. O desgaste do solo e o fim da escravidão seriam fatores categóricos rumo a uma

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iminente crise econômica, que levou ao colapso uma estrutura que envolvia famílias inteiras. Não obstante, antanho à crise e em meio ao apogeu, surgiram nomes de realce na área cultural, dentre os quais destacamos:

Dr. José Bento Vieira Barcelos Nasceu em 30 de agosto de 1851 e faleceu em 12 de novembro de 1884. Jornalista de grande combatividade, fundou o Voto Livre e se tornou redator do mais importante semanário de Cantagalo. Político do Partido Liberal, foi nomeado por ato do Governo Imperial para o cargo de presidente da Província de Alagoas no dia 09 de agosto de 1884. O jornalista morreu ainda jovem, com apenas 33 anos, e o VL fez uma homenagem especial, circulando com uma edição impressa em papel de qualidade superior e com o dobro do número de folhas. A primeira página foi toda tomada por uma enorme manchete informando o falecimento.

Foto do Voto Livre em homenagem ao Dr Jose Barcellos

Dr. Júlio Santos O jornalista Júlio Veríssimo da Silva Santos nasceu em Cantagalo, no dia 17 de setembro de 1845. Era formado em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito de São Paulo. Elegeu-se deputado estadual na legislatura de 1892 a 1895, obtendo outros mandatos no Legislativo. Militou no Partido Liberal durante a Monarquia, e após a proclamação da República contribuiu para a organização do Partido Moderado, em companhia dos Drs. Miguel de Carvalho, João Damasceno, dentre outros. Advogado brilhante e jornalista emérito, escreveu no Voto Livre, Pátria Nova e Correio de Cantagalo. Faleceu em 02 de junho de 1933.

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As Personalidades

Dr. João Damasceno Notável jornalista, João Damasceno Pinto de Mendonça era jurista e orador, ademais redator do Voto Livre por mais de seis anos. Nasceu no dia 14 de julho de 1842 e faleceu em 26 de agosto de 1911. Em 1884, enquanto editor do Voto Livre, sofreu um atentado no Largo da Matriz. O Barão de Cantagalo foi acusado como mandante do crime

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O Conservador x Voto Livre: a imprensa que fez história em Cantagalo

Barão de Cantagalo O jornal Voto Livre não tinha nenhuma admiração pelo coronel Augusto de Souza Brandão, segundo Barão de Cantagalo. Na pesquisa realizada em mais de 400 edições, que totalizam perto de 2000 páginas, poucas vezes os editores se referiram à vida social e particular do conhecido fazendeiro e, no aspecto político, ele sempre recebeu severas críticas pela sua atuação na Câmara Municipal e por suas negociações partidárias. Este silêncio determinado e esse ataque intensivo criou uma lacuna no registro da vida desse que foi um dos homens mais importantes da região e que viveu o apogeu da cafeicultura. Por outro lado, os jornais O Conservador e Correio de Cantagalo, que poderiam pertencer ao próprio Barão, dedicavam pouco espaço à vida da cidade, preferindo reproduzir textos já publicados nos grandes órgãos da imprensa da corte, assim como davam certo foco às produções literárias e artísticas. Estes exemplares tampouco foram enviados e armazenados na Biblioteca Nacional, só algumas edições, dificultando ou impossibilitando o acesso a seus registros. Na vida política, foi liberal, “meio liberal”, conservador, monarquista e no final da vida republicano. Ao que parece, a bandeira que nunca deixou de tremular na sua vida foi a de ser um escravocrata convicto, tido como severo no tratamento aos negros e na defesa do trabalho servil como base principal para a produção no Brasil imperial.

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Barão de Cantagalo


Barão de Cantagalo

Nasceu em 1823, conforme pesquisas nos livros de qualificação de votantes da Prefeitura, e possuía mais dois irmãos Barões, o de Aparecida e o de Porto Novo. Era filho de José de Souza Brandão e de Josefa de Souza Brandão, estabelecidos em Cantagalo desde os primeiros tempos da vila. Casou-se com Francisca Cândido Brandão, filha do lavrador comendador Joaquim Pires Velosso, que fora casada em primeira núpcias com João Batista Laper, importante negociante de Cantagalo, e em segunda núpcias com o Barão de Cantagalo. São seus filhos do primeiro matrimônio o Dr. João Baptista Laper, o capitão Joaquim Laper e Francisca Laper. Do segundo matrimônio, tiveram dois filhos: o Dr. Augusto de Souza Brandão, professor da Academia de Medicina do Rio de Janeiro e o Sr Honório de Souza Brandão. No livro Terra de Cantagalo, o jornalista Acácio Dias, em 1941, assim o caracterizou: “um lendário fidalgo radicado inteiramente Baronesa de Cantagalo à cidade que lhe emprestou o nome no destaque do título de nobreza, galardeando-lhe os relevantes serviços prestados pelo patriotismo no Império e no município, pelos seus sentimentos filantrópicos, como cidadão probo e trabalhador”. E continua o autor: “possuía numerosos colonos devotados à lavoura e à criação, além de ser um influente chefe político, respeitado e temido por seus adversários, pelo seu temperamento algo violento”. Tido como experiente e qualificado comerciante, Augusto de Souza Brandão é eleito para a primeira Câmara Municipal formada na já cidade de Cantagalo, em 1858, e nesse mesmo ano compra a fazenda Sant’Ana. Com 800 alqueires de terra, distante apenas nove quilômetros do centro urbano, a propriedade em seu apogeu chegou a ter mais de 200 escravos, com 1,5 milhão de pés de café e uma suntuosa sede que, com o passar dos anos, recebeu inúmeros melhoramentos. Uma das suas primeiras realizações no Poder Público foi mandar calçar a rua Sant’Ana com pedras irregulares, denominadas “pés-de-moleque”, fornecidas por ele, assim como todo o serviço braçal fora executado por seus escravos . A referida rua era tida como a segunda via mais importante do município, e ligava o centro à subida da Batalha, caminho principal de acesso à fazenda adquirida pelo político. Com o apoio financeiro do Barão de Cantagalo também foram construídos o majes-

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toso prédio do fórum e a Igreja Matriz. Na edição de 25 de fevereiro de 1883, o Voto Livre, com certa ironia, publica matéria sobre o título recebido pelo comerciante. Diz o Jornal do Comercio de 21 do corrente, que consta que vai ser agraciado com o titulo de Barão de Cantagalo, o coronel Augusto de Souza Brandão, fazendeiro deste município. A pujança do partido liberal de Cantagalo, em tempo de pleno domínio conservador, deu àquele que era sustentado na chefia por seus correligionários direito de pretender tal graça imperial. O titulo, pois, com que vai ser agraciado o coronel Barão, deve-o ele ao finado partido liberal de Cantagalo, que cercou-o de toda força e prestígio nos maus dias da fortuna. Só temos a lastimar que fosse conferido tardiamente, quando o agraciado já perdeu grande parte do prestígio político de que gozava e não pode mais contar com as dedicações de um partido que por longo tempo o aclamou e festejou como chefe.

Em editorial de 08 de julho de 1883, o VL coloca o Barão na berlinda política e levanta muitas insinuações: Finou-se o grupo dos liberais puros de Cantagalo. A nossa missão na esfera política deste município estaria hoje concluída. Não somos ambiciosos e ainda hoje nos conservamos no campo da luta. Ao iniciar uma luta, desfraldamos a todos a bandeira da revolta contra uma onda de coisas... O grande sentimento de reconstrução do partido, sobre bases mais largas e mais generosas. O abandono da vida publica por parte do Barão de Cantagalo foi um golpe que feriu de morte instantânea o seu grupo, ficando dispersos e aniquilados. Com o retraimento do Barão, tinha-se também de finar-se o seu paraíso: a projeção da luz devia desaparecer desde que sumiu o único astro que a produzia. Queríamos que o Partido Liberal se libertasse da opressão ditatorial da vontade soberana. O Partido Liberal há de ser uma comunhão política em perfeita igualdade de direitos e não mais uma corte de servos, obedecendo cegamente a vontade ditatorial de uma pequena camarilha.

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Barão de Cantagalo

Em outro editorial, de 9 de março de 1884, o Barão é novamente atacado: A vergonhosa derrota que acaba de ser esmagadora para o Barão de Cantagalo, há de perdurar no espírito publico como o mais potentado ou reação contra a sua política dúbia, odienta e cheia de violência. Mais do que isso, a deslealdade com que ele se houve no pleito. O Barão remetido ao silencio não teve em tempo algum a coragem de explicitamente levantar o desafio. Que razão, porém, tão poderosa era essa que o trazia afastado da imprensa como um morcego da luz? O Barão encolhia-se na sombra e passava ao campo conservador, mendigando a esmola de uma traição que lhe desse ganho de causa no pleito.

No dia 7 de janeiro de 1885, o Barão de Cantagalo tomou posse como Presidente da Câmara Municipal de Cantagalo, demonstrando o seu poder político. O jornal Voto Livre não deu nenhuma nota sobre o relevante fato. O dia 28 de maio de 1885, no entanto, ficou marcado nos registros políticos, policiais e da imprensa do município de Cantagalo. Às 10h30m de uma ensolarada e fria manhã, o Dr. João Damasceno Pinto de Mendonça, advogado e jornalista, um dos principais editores do Voto Livre, quando ia de costume caminhando pela rua Mão de Luva, no centro da cidade, em direção ao seu escritório, foi agredido quando chegava ao Largo da Matriz. O VL abriu manchete em primeira página e inseriu matéria e editorial, no qual qualificou: “o atentado denota uma ousadia e uma perversidade criminosa”.. Um sicário desvencilhou de surpresa diversas cacetadas na região temporal direita, produzindo extensa contusão e muitas escoriações no rosto. Atordoado com as pancadas, o nosso amigo enfrentou o seu agressor, que vendo-se ameaçado, fugiu a procura de um esconderijo... O fato impressionou profundamente a população. O agressor fugiu em direção a Fazenda do Gavião e imediatamente o Visconde de Nova Friburgo foi avisado por telégrafo, que autorizou seu pessoal a sair no encalço.

O jornalista João Damasceno escreveu e publicou na edição de 06 de agosto de 1885 um extenso editorial, no qual ele acusa o Barão de Cantagalo como mandante do atentado que sofrera em maio.

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... O coronel Augusto de Souza Brandão, Barão de Cantagalo, o autor, mandante, do atentado de que fui vitima no dia 28 de do mês de maio, e como tal denuncio-o a todos os homens de bem. Publico, sem comentários, as declarações de seus comparsas no crime, e apreciem todos, sem exceção de seus próprios amigos, o abismo da insondável baixeza em que se afundou um homem, que já teve a ventura de cercar-se de consideração social... Presumia conhecer o caráter do Barão de Cantagalo, e estava completamente iludido. .. Sua vida publica e particular tem sido um tecido de dissimulações e aparências, que tem podido enganar ate aqueles que convivem com ele mais de perto... A mim nunca enganou. Saibam todos, que esse homem se tornou meu rancoroso inimigo pela única circunstância de se haver convencido que e havia constituído o único embaraço à satisfação de suas paixões inconfessáveis, fazendo – o descer das alturas à que nunca devia ter atingido na política local, passando pela humilhação de se ver coagido, pelos seus erros, por sua inepta e vaidosa ignorância de mandão da aldeia, a trocar as insígnias de chefe do Partido Liberal pela rabadilha dos conservadores, com perseguições e picardias... ....Para o Barão de Cantagalo a política tem sido um meio de vida... Basta, porem, o seu retrato moral foi perfeitamente lançado na tela pelas mãos de seus comparsas e instrumentos do crime. Estou ainda sob ameaça do assassinato: não me intimido, continuarei no meu caminho sem recuar um passo... Proceda a justiça publica como entender, quanto a mim prefiro entregar o Barão de Cantagalo ao tribunal da opinião publica e a sua inexorável execração, em vista das confissões de seus co-réus... Joao Damasceno Pinto de Mendonça 06 agosto de 1885.

Nesta edição de seis de agosto, o VL também publica parte dos depoimentos do envolvidos: Candido da Silva Brandão, escrivão do delegado de policia de Cantagalo, certifica que revendo em meu cartório, o processo crime que é autora a justiça e ofendido o Dr. João Damasceno Pinto de Mendonça, onde consta no mesmo auto consta as perguntas feitas aos indiciados Fran-

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Barão de Cantagalo

cisco Fernandes dos Santos, vulgo Chico Mineiro, e Sebastião Machado de Moraes, Auto de perguntas feitas a Francisco Mineiro. Aos 26 de julho 1885, inquirido pelo delegado Capitão Jose Joaquim Soares. Idade mais de 50, solteiro, lavrador, natural das Minas Gerais. Disse que no mês de abril foi procurado por Manoel do Carmo de Santana, que ia por parte do Barão de Cantagalo, fazer-lhe proposta para que ele arranjasse meios de se darem umas cacetadas no Dr. João Damasceno, acrescentado que aquele que fizesse isso seria gratificado pelo Barão de Cantagalo com a quantia de 700 mil reis. Ele então falou isso a Sebastião Machado de Moraes, que mediante a quantia oferecida, se comprometeu a achar a pessoa que iria se incumbir. Chamaram Antonio Suisso, morador do Valão do Barro, sendo explicado que era condição que o Dr Damasceno apanhase de dia, de modo que o fato constasse a todo o povo da cidade. Que no dia e hora combinado chegou a Praça da Matriz e ele indicou o dr Dasmasceno a Suisso.

No dia 15 de agosto, o atentado que sofreu o jornalista João Damasceno Pinto de Mendonça volta à capa do Voto Livre, desta vez com um manifesto assinado pela elite cantagalense. Depois de uma vida longa sem que não lhe tenha faltado a consideração e estima pública, comparece hoje perante o tribunal da opinião o sr Barão de Cantagalo, acusado de um estranho e ignominioso atentado. Conhecíamos-lhes os erros e as paixões, mas nunca o julgávamos capaz de um crime. O manifesto que esta em seguida publicado e que vai firmado por nomes dentre os mais conhecidos e respeitados no município e fora dele, impõe ao Barão de Cantagalo e a seus amigos o dever de uma justificação. O Manifesto Juntamente com um artigo sob a epígrafe “Um criminoso vulgar”, lemos no Voto Livre de 09 de agosto do corrente mês, o resultado do inquérito policial sobre o atentado de 28 de maio próximo passado, do qual foi vítima o nosso particular e distinto amigo, o Dr João Damasceno Pinto

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de Mendonça. Enquanto não forem destruídas as declarações constantes do mesmo inquérito contra o Sr Barão de Cantagalo, o responsabilizamos pela vida e tranqüilidade doméstica do nosso amigo, consignando o nosso protesto contra a agressão insólita, desleal e covarde de que foi vitima um chefe de numerosa família e um cidadão distinto por todos os títulos. Assinam. Dr Alfredo Augusto Vieira Barcellos, Fortunato dos Santos Gomes, Dr Elias Antonio de Moraes, Luiz Francisco de Paula, Dr Candido Basílio de Araujo, Guilherme Sauerbron, Barão de Dourado, Luiz Van Erven, Jacob Van Erven, Dr Henrique Sauerbron, Dr Gustavo Sauerbron, Leopoldo Augusto Pimentel, Paulino Vieira Barcellos, Bernadino Teixeira de Souza, Fernando Belizário Vieira, Antonio Elydio Gomes, Jose Luiz da Silva, Manoel Vieira da Silva Santos, Francisco da Cunha Ferraz Bravo, Felipe Jacob Clair.

Em 23 de agosto o Voto Livre volta a citar o Barão de Cantagalo: Defesa impossível No último número do Correio, prometeu Barão de Cantagalo demonstrar a falsidade das confissões de seus co-réus, fico eu, João Damasceno, a espera dessa demonstração para, de uma vez, por esmagar a perfídia do criminoso, que não tem a coragem de assumir a responsabilidade dos seus atos.

Na edição seguinte o Voto Livre insere novo editorial na primeira página: Ainda estou a espera da satisfação do compromisso tomado pelo Correio em defesa do ilustre varão o Barão de Cantagalo. No Correio de 20 deste disse o defensor “no próximo numero havemos de desvendar essas mazelas”, quando também avançou: “ os desgraçados tinham sido violentados, torturados, deslumbrados por promessas e por espórtulas que receberam”. Ou o Correio produz a defesa do seu venerável, provando a falsidade das declarações dos co-réus, ou não passa de uma desfaçatez petulante o afrontar a opinião publica

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Barão de Cantagalo

O Barão de Cantagalo era considerado como um dos homens mais ricos da região e em sua propriedade eram colhidas mais de dez mil arrobas de café por ano. As grandes fazendas constituíam uma comunidade completa, tinham organização própria e independente de outras instituições, públicas ou privadas, revela o historiador Clélio Erthal em seu livro Cantagalo, da miragem do ouro ao esplendor do café. Nessa estrutura quase feudal jazia a massa escrava, sobre a qual recaía o peso da produção agrícola e também havia os agregados, geralmente brancos pobres ou mestiços, que eram os feitores, carpinteiros, pedreiros, seleiros e mecânicos, os quais davam suporte para que toda a estrutura de produção funcionasse. No cume desta pirâmide social ficava a família fazendeira, gozando das benesses de uma vida de luxo, fartura e conforto. O chefe desse clã somava poderes sem paralelo nas sociedades modernas. Ele não só era poderoso no ambiente familiar e produtivo, como também acumulava funções e cargos públicos que lhe davam, por fim, mais poderes. Foi sustentado com tantos poderes, que o Barão promoveu, no dia 30 de abril de 1887, a exclusiva festa da Guarda Nacional. O sistema eletivo para a escolha dos oficiais foi substituído pela nomeação dos postos conforme regulamentava a Lei nº 602 de 19 de se-tembro de 1850. Os oficiais, dessa forma, passaram a serem escolhidos de acordo com a sua coloração político-partidária, além de pagarem o imposto do selo e emolumentos das patentes de sua graduação. A maior parte dos dirigentes da Guarda comprava o seu título de “coronel” junto ao Estado Brasileiro. Com isso, vários proprietários de terra adquiriram esta patente e foram responsáveis pela organização local das milícias que deveriam, teoricamente, apenas manter a ordem. As portas do salão nobre da fazenda foram abertas para a elite política e afortunada da região, onde aconteceu a cerimônia.Os caminhos de acesso à propriedade foram tomados por troles, charretes e muitos cavaleiros fardados, onde se misturavam familiares dos mais de quarenta oficiais da Guarda Nacional da região. Os redatores do Voto Livre não foram convidados para a concorrida cerimônia, mas comentaram o fato: Ontem, teve lugar na fazenda Sant’Ana, de propriedade do exmo Sr.

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Barão de Cantagalo, a revista dos oficiais da Guarda Nacional. Segundo nos consta, compareceram 42 oficiais fardados. A revista aconteceu no salão de visitas da propriedade do Sr. Barão, formando os oficiais em guarda, sendo levantados vivas a sua Majestade o Imperador D. Pedro II e depois tocado o hino nacional . É de se lastimar que não nos tenha sido dado o direito de assistir a espetacular revista, que deveria ter sido realizada em local público, para que se pudesse ser devidamente apreciada. O Sr Barão de Cantagalo é inimigo rancoroso de todas as pessoas que um dia lhe fizeram algum desagravo, muito propositalmente transformou a sua fazenda num quartel general, objetivando afastar todos os oficiais por quem não cultiva amizade.

Nas edições de abril e maio de 1888, o Voto Livre acompanhou, com muito afinco, a movimentação na região de Cantagalo, cobrindo os fatos que antecederam a assinatura da Lei Áurea pela Princesa Isabel, e, posteriormente, as festas e acontecimentos que marcaram este que talvez tenha sido o fato mais importante na História do município. Um mês antes, o semanário noticiara que os Viscondes de Nova Friburgo e São Clemente haviam libertado seus 1.200 escravos, o que promoveu uma grande festa nos arredores dos terreiros de café da Fazenda do Gavião, na qual até a Banda Calíope Cantagalense esteve presente. O ato fora logo acompanhado por inúmeros fazendeiros, que tiveram seus nomes publicados no Voto Livre e parabenizados “pela grandiosidade da decisão”. O nome do Barão não aparece em nenhuma lista e, ao mesmo tempo, são inseridas algumas notas que criticam este ou aquele proprietário de terra, sem identificá-los: “Vamos vendo, nas fazendas, os escravos sendo chamados para ouvir, do tope da escada do solar de seus senhores, a palavra liberdade que é eles restituída espontaneamente, sem condições, sem atavios de linguagem, sem flores de retórica, e ao mesmo tempo eloqüente até as lágrimas”; “Quando em todos os pontos do império repercutem os ecos da abolição triunfante, não seria o povo de Cantagalo, quiça o mais devedor aos libertos, o que havia de se calar. A resistência partiu de dois ou três indivíduos que se julgam os donos desta terra” (manifesto dos estudantes); “São já passados oito dias por sobre a data gloriosa de 13 de maio. Vampiros cruéis e desumanos, sugávamos a vida e a mentalidade de milhares

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de nossos concidadãos, roubando a sua liberdade. O Voto Livre orgulhase de haver caminhado sempre com a vanguarda nesta luta que foi de vida e de morte para a dignidade nacional”.

A abolição da escravatura, decretada em 13 de maio de 1888 pela Princesa Isabel, atingiu fortemente vastas áreas da produção fluminense concentrada nas fazendas de café, determinando o declínio imediato. Ao contrário das fazendas da região de Duas Barras e de Nova Friburgo, cujos proprietários já haviam contratado colonos e trabalhadores imigrantes, muitas propriedades de Cantagalo foram duramente atingidas pela Lei de maio. A fazenda do Barão foi uma delas. Dependendo exclusivamente do trabalho servil para manter os seus 1,5 milhão de pés de café, os seus mais de 200 escravos ganharam a liberdade e foram procurar outros rumos. Os ricos fazendeiros, descontentes e indignados com a libertação de seus negros, passaram a ficar a favor da propaganda republicana na esperança de receberem do governo alguma indenização pelos prejuízos. O Barão de Cantagalo aguardava esta indenização, e em 25 de novembro de 1888, o Voto Livre noticiou: Acaba de declarar-se republicano, aceitando a chefia deste partido neste município, o sr Barão de Cantagalo...Não cremos que o Barão de Cantagalo tenha desmerecido no conceito dos amigos que o tem acompanhado na sua boa fortuna pelos arraias dos dois partidos constitucionais, e assim é possível que o seu prestigio leve ainda para o novo partido os seus legionários indefesos e unidos... Chamamos a atenção do novo adepto republicando para o noticiário do último número do Correio Cantagalense, onde lhe são talhadas carapuças.

E o Voto Livre continuou acompanhando o caso em outra edição: Em 20 de novembro de 1888, respondendo a uma carta que lhe fora enviada pelo Dr, Laurindo Pita e Coronel José Teixeira Portugal, o aristocrata Barão de Cantagalo adere às idéias republicanas. Movimento Republicano Abaixo transcrevemos oficio enviado pelo Barão de Cantagalo aos chefes

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políticos do partido republicano de São Fidelis, Santa Maria Madalena e Santo Antônio de Pádua.” “...fui honrado com o oficio que me convida para assumir a presidência do conselho distrital , no sentido de orientar e uniformizar o Partido Republicano no sétimo distrito... há poucos dias o nosso governo violou a garantia da propriedade, constitucionalmente firmada, sem atender a direitos, sem indenizar como lhe cumpria, e até sem o indício de uma leve reparação, aos grande males provenientes de ato irrefletido, precipitado e criminoso... por longos anos temos consagrado o melhor dos nossos esforços em favor da administração pública, certo de que a monarquia era o mais seguro penhor da manutenção dos nossos direitos , porem uma série de escândalos coroados pela lei de 13 de maio, veio convencer-nos, afinal, de que o poder entre nos é representativo e não é delegado. É sim pessoal. O governo do imperador pelo imperador, eis o que temos. Cumpre agora que tenhamos o governo do povo pelo povo. Estou ao lado dos amigos republicanos do sétimo distrito. E como neste município ainda não se tenha organizado o Partido Republicano, procurarei provisoriamente conciliar os seus interesses políticos com os do município. Cantagalo 20.09. Barão de Cantagalo Augusto de Sousa Brandão”.

Com o fim do Voto Livre, começa a circular o Pátria Nova, e na edição de primeiro de dezembro de 1889 publica longa matéria relatando a morte da Baronesa de Cantagalo: As 11 e meia da noite de 28.11 faleceu na residência do seu filho, dr João Baptista Laper, depois de curta agonia, a exma sra Francisca Brandão, baronesa de Cantagalo. Mais pelas suas nobilíssimas qualidades pessoais de que por sua posição social e títulos de nobreza, mereceu a finada a veneração e o respeito de todos que tiveram a oportunidade de se aproximar dela. Era a finada, filha do antigo e conhecido lavrador comendador Joaquim Pires Velosso, e fora casada com o finado João Batista Laper, importante negociante desta cidade e em segunda núpcias com exmo sr Barão de Cantagalo, Augusto de Souza Brandão São seus filhos no primeiro matrimônio o nosso amigo dr João Baptista Laper, capitão Joaquim Laper e a exma sra Francisca Laper. Do segundo matrimônio

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Barão de Cantagalo

deixa dois filhos, o dr Augusto de Souza Brandão, lente da Academia de Medicina do Rio de Janeiro e o sr Honório de Souza Brandão. Foi sepultada no dia 20. Dia chuvoso, com enorme acompanhamento.

Reprodução do Voto Livre sobre crítica ao Barão

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Álvaro Lutterback Dutra é formado pela faculdade de Estudos Culturais e Mídia da Universidade Federal Fluminense e desenvolve projetos de pesquisas na área da cultura, focando o interior do Estado do Rio de Janeiro. Jornalista, escritor e poeta, foi um dos vencedores do edital 009 da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, focando a Memória da Imprensa Fluminense, o que gerou o presente trabalho.


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O Conservador x Voto Livre by thiago Petra - Issuu