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Revista Rostos & Ruas

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ANO I - ED. 01 | DEZ. 2014 - A CADA EDIÇÃO, UM NOVO BAIRRO

Um Centro de Histórias PERFIL

CAPA

COTIDIANO

Raimundo do Queijo tradicional ponto de encontro no Centro de Fortaleza P. 12

Entenda a ligação do Centro com a capital cearense P. 20

Um Centro, duas praças e muitas histórias a contar P. 26 Rostos & Ruas | 1


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Editorial

EXPEDIENTE A Revista Rostos & Ruas é uma publicação de caráter experimental produzida como trabalho de conclusão de curso das alunas Juliana de Paula, Leyliane Mariano e Leidiane Cavalcante, concludentes do Curso de Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo da Faculdade Cearense (FaC), sob orientação da professora Klycia Fontenele. EDIÇÃO DE TEXTOS: Juliana de Paula Leyliane Mariano Leidiane Cavalcante PROJETO GRÁFICO: Thiago C. Bezerra DIAGRAMAÇÃO: Thiago C. Bezerra Contato: (85) 8863.5393 Twitter: @thijoey issuu.com/thiagojoey IMAGENS: Juliana de Paula Leyliane Mariano Leidiane Cavalcante Internet REVISÃO DE TEXTOS: Profa. Klycia Fontenele TIRAGEM: 10 exemplares

O lugar do trabalho à diversão

F

ortaleza é uma cidade que guarda vida em todos os cantos. E cada lugar representa algo para os seus moradores. A nossa paixão pela capital cearense nos inspirou a mostrarmos, na Revista Rostos & Ruas, reportagens humanas, buscando fortalecer a autoestima dos moradores e as identificações dessas pessoas com o lugar. O Centro de Fortaleza é um bairro que é mais do que comércio. Além de ser um marco central da cidade, ele traduz cultura, história, moda, fé e outros aspectos curiosos, que você poderá conferir nessa primeira edição. Pessoas em situação de rua, como o Seu Santinho, ou o Seu Raimundo dos Queijos que atrai a galera “cult”, o Seu Cristiano Câmara que tem um museu na sua casa, a Dona Cotinha que há mais de trinta anos deixou a família no Maranhão e foi trabalhar como camelô no Centro, entre outros personagens, irão revelar que o Centro, revitalizado ou não, tem vida sim! Uma vida cheia de histórias para contar que vai da diversão ao comércio, do lixo ao luxo, da gastronomia à fé e respira dia e noite. Portanto, após pegar rapidinho o seu pastel no Leão do Sul, ascender uma vela na Coração de Jesus e comprar o que procurava nos “Coreanos”, sente-se num banco da Praça do Ferreira e aproveite o vento maravilhoso que tem lá apreciando a primeira edição da Revista Rostos & Ruas, que mostrará como Fortaleza é encantadora, especialmente o Centro da Cidade.

CAPA

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Sumário Enquete Você acha que a cidade de Fortaleza representa sua identidade? Por Quê? 6 Perfil Do Velho ao Novo 8 Rastros - A casa do mendigo 10 Perfil Raimundo do Queijo tradicional ponto de encontro no Centro de Fortaleza 12 Gastronomia O Centro da Gastronomia 14 Moda Com que roupa eu vou...

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Manias 17 História com sabor de pastel

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Capa O Centro Forte e a Formosa Fortaleza

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As Várias Formas de Trabalho 24 Lugar Onde Fica Isso? 25 Um Centro, duas praças e muitas histórias a contar Do buraco ao beco Religião O Centro da fé

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Na Linha do Tempo A revista Rostos & Ruas convida você a uma viagem no tempo... 33 Cotidiano Uma Noite Diferente 34 Perfil Não tem preço que pague 36 Acuma é? Espelhos

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Enquete

VOCÊ ACHA QUE A CIDADE DE FORTALEZA REPRESENTA SUA IDENTIDADE? POR QUÊ? A Revista Rostos & Ruas realizou uma pesquisa com várias pessoas de diferentes idades para descobrir o que a história da cidade representa para a sua identidade. Muitas das pessoas entrevistadas afirmaram ter uma identidade muito forte com Fortaleza devido a influências diversas, da cultural à política. Outros questionaram que não têm identidade alguma, mesmo sendo fortalezenses. As respostas nos surpreenderam, pois as pessoas conseguiram assimilar o conceito de identidade com a cidade. Isso mostra que as características do local estão ligadas às pessoas que aqui vivem. 6 | Rostos & Ruas


Fazemos parte de um meio e de certa forma somos influenciados pela realidade social, política e cultural desse meio. Então, carrego um pouco da identidade de Fortaleza. Viviane Silva, 35 anos, Pedagoga. Acho que todos independentes de onde moram acabam adquirindo características da cidade, e isso contribui para sua identidade. Landa Saraiva, 27 anos, Supervisora. A nossa identidade não é valorizada e nunca foi, vivemos na busca pela identidade alheia. Janaína Santana, 30 anos, Professora. Apesar de não conhecer muito a história de Fortaleza, eu me identifico com o jeito acolhedor da cidade. Camila Severo, 20 anos, Estudante de Direito. Não vejo nenhuma relação da minha identidade com a história da cidade. Jonas Martins, 34 anos, Funcionário Público. Não tanto como eu gostaria! Fortaleza vem sofrendo influências ao longo dos anos, mas que não tiraram sua identidade. Quem ama verdadeiramente a cidade procura saber sobre sua história. Leila Nobre, 32 anos, Pesquisadora. Durante os trinta anos que trabalhei no Centro, vi o Romcy se instalar e falir, o Boris vender óculos nas calçadas, a praça José de Alencar ser um terminal rodoviário, lá eu comi meu primeiro pastel de carne. Mas, não me senti parte daquele lugar. Pedro Castelo, 51 anos, Aposentado. Em partes sim, porque muitas coisas que vivo e vivi acontecem por causa da rotina da cidade, e do modo como as pessoas agem. Paulo Cardoso, 19 anos, Estudante de Comunicação Social. Me espelho em sua história de força na conquista de seu espaço para traçar minhas metas e chegar aos meus objetivos. Mariana Bessa, 22 anos, Analista Financeiro. Sim, porque eu vi essa cidade crescer em população, na área comercial, industrial e outros seguimentos. Emilía Sá, 52 anos, Assistente Social.

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Perfil

DO VELHO AO NOVO Como a vontade de explorar a história influenciou na construção da identidade de um senhor de quase 80 anos, que fez da sua casa um museu.

“Há muitos vivos morrendo em nosso afeto, enquanto há mortos vivendo em nossa ternura.”

Por Leyliane Mariano

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inteligência e o olhar crítico são características marcantes na personalidade do pesquisador e memorista e pesquisador Cristiano Câmara. Sentado em sua cadeira de balanço, nosso entrevistado aparenta uma vasta experiência de vida. Os óculos e os cabelos brancos formam a fisionomia desse simpático idoso, que logo nos primeiros minutos abre um largo sorriso para demonstrar que adora uma boa conversa. Seu Cristiano – como costumam chamá-lo – fala que durante toda a sua vida se dedicou à pesquisa sobre a história da humanidade. Essas recordações são bem perceptíveis no decorrer da nossa prosa. Filho de delegado com uma dona de casa, Seu Cristiano herdou dos pais a casa onde nasceu e se criou, a mesma que trans8 | Rostos & Ruas

formou em museu. A casa, ou melhor o museu, fica localizada na Rua Baturité, 162 – antiga Rua da Escadinha – próximo a Catedral no Centro. Uma edificação estilo anos 60, na cor verde claro, com um pequeno portão na entrada e de lado uma janela estilo neoclássico. Ao entrar na casa, me deparo com um longo corredor entre várias portas, como se cada uma daquelas salas fossem um novo museu. Há livros, CDs, quadros e objetos antigos espalhados em meio aquele memorável lugar. Sem a ajuda de órgãos governamentais, o museu é mantido com a aposentadoria, de um salário mínimo, que recebe como ex-funcionário do Banco do Brasil. Casado há 60 anos com Dona Dolvina, é muito visível à cumplicidade e o carinho mútuos. Pais de quatro meninas, o casal expressa a falta de

uma das filhas que faleceu aos 14 anos, com “uma doença na garganta”. Essa saudade está descrita em vários versos e frases, escritas pelo historiador e espalhadas por muitos lugares da casa, ou melhor, do museu. Sempre risonho, apesar da voz aguda e forte, o pesquisador falou tantos fatos históricos e mostrou uma identidade com a cidade de Fortaleza, unida pela cultura e a memória infalível. Mesmo com uma enfermidade no pé esquerdo, Cristiano Câmara me recebe com uma doçura e uma vontade imensa de repassar o seu conhecimento. Observou que eu torcia por um determinado time de futebol e começou a fazer piadas e contar fatos históricos relacionados ao esporte. Percebi então, que essa nossa entrevista se tornaria um encontro bastante animado.


Rostos & Ruas - O senhor tem uma identidade ligada à história e a cultura. Como essa identidade foi construída? Minha identidade foi construída com muita leitura. Tenho muita curiosidade em aprender, passo noite em claro lendo e estudando livros históricos. Assisto a vários filmes e escuto muita música da minha época. Minha mãe também tinha uma cultura muito apurada e sempre me incentivou a ler e aprender. Meu pai me criou com disciplinas e regras. Essa herança foi quem fez ser o que sou hoje. Rostos & Ruas - Como surgiu a ideia de construir um museu? Em 1952, eu comecei a colecionar fotos, fatos e livros. Comecei a pesquisar sobre história. Na época, não estava morando nesta casa. Sempre tive vontade de preservar a história. Fui pesquisando e guardando tudo que comprava. Então, em meados dos anos 80, herdei a casa e pensei em abrir minhas pesquisas para quem tivesse interesse em aprender. Rostos & Ruas - O Centro é, sem dúvida, um mundo que guarda inúmeras recordações da sociedade fortalezense. Para o senhor, o Centro ainda tem essa identidade? O Centro perdeu a identidade cultural dele. Você vê que aqui mesmo, nessa rua não há mais casas que guardam nossa cultura. Aquela que aderimos quando chegamos nelas. Antigamente, as casas tinham uma aparência mais bonita. Nesta casa mesmo, minha mãe colocou belos vitrais estilo da Catedral, modelo da década de 20. Lindos, [quando] vistos de longe. Mas, quando herdei, infelizmente eu não tive condições de manter a casa como realmente foi construída. Os recursos financeiramente

não eram suficientes. Fiz uma reforma onde mudei todo estilo original. Arrependo-me. Então resolvi procurar pelo menos não mexer mais na estrutura, desde à ultima reforma. Veio à modernidade e busco preservá-la ao máximo. Hoje vivo ao redor de lojas, mercantis, insegurança... A cada dia vai ficando mais complicado manter essa identidade. Rostos & Ruas - Então, o Centro, não é mais como antes? Nada! Todo país se orgulha e protege o Centro histórico habitacional, aqui bota é pra fora. O antigo aqui é tido como velharia, na Europa, como cultura. Lá fora, as pessoas preservam a história da sua cidade, aqui as pessoas não ligam. Eu me sinto imprensado dentro da minha própria casa, é oficina, mercantil, tudo uns por cima dos outros. Não posso mais deixar as portas abertas, porque se não, entram e roubam. Vivemos trancados dentro de casa. Às vezes, no final da noite me sento na calçada com a Dolvina, mas essa é uma rua morta, as pessoas não valorizam mais essas coisas. Antes, isso era diversão, ficávamos durante horas sentados na calçada conversando com parentes ou amigos. Não tinha perigo de nada. Passavam por nós e nos cumprimentavam, às vezes nem eram nossos amigos ou mesmo vizinhos. As ruas eram mais movimentadas e esse era o programa de final da tarde. Hoje, as pessoas não valorizam essas coisas, essa identidade. Rostos & Ruas - O senhor disse que as pessoas não valorizam a identidade do Centro. Mas o senhor valoriza? Creio que sim, pois eu sou uma das pessoas que mais gostam de história. E essa é a minha história. Escrevi um artigo, onde falo que Fortaleza está sem rosto. Lá, eu conto as diversas mudanças que ocorrem durante

anos. Entendo que no momento que procuro fazer da minha casa um museu, estou valorizando minha identidade, preservando minha história, guardando o que há de bom na minha cultura. Vejo que hoje as pessoas não fazem mais isso. O que eu acho uma pena. As coisas estão se perdendo, se desvalorizando, mas ninguém faz nada. Rostos & Ruas - E com os fatos históricos ajudam na construção da identidade? As pessoas não conhecem a história e não querem conhecer. A mídia de hoje é tudo na construção da identidade do indivíduo. Pois ela é quem dita as regras, ela controla e manipula as opiniões em seu favor. Então, quando você tem noção de fazer alguma coisa você faz baseado no que é certo, sem influência da mídia. Você constrói sua identidade e não precisa de algo que diga como deve ser ou agir, para ser como os outros querem que você seja. Na medida em que a mídia foi se aperfeiçoando, você foi deixando de pensar. Hoje, o que a televisão fala você acredita, não pensa. Rostos & Ruas - Nesse caso, o senhor afirma que atualmente os meios de comunicação influenciam na construção da identidade do indivíduo? Sim, o rádio, por exemplo, na época que foi trazido para o Brasil em 1922... Roquete Pinto dizia que seria um meio de educar as pessoas. No começo, foi, mas hoje, o rádio é uma pornofonia e deboche. Eram programas de aprendizado e curiosidade. Eu alcancei. A televisão e os outros meios, como a infernet, na medida em que foram se aperfeiçoando tornaram-se meios de dominação. Hoje, não há mais denúncias como antes, só se vê a casca. Esses meios foram modificados para favorecer um ou outro e não mais para educar com antes. Rostos & Ruas | 9


Juliana de Paula é graduanda em jornalismo, trabalha na assessoria de comunicação do Sindiônibus.

RASTROS

A casa do mendigo

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ia e noite vejo aqueles que passam por mim. Esse universo que a muitos pertence é um lugar de várias pisadas. De várias jornadas. Alguém me vê?! Estou aqui. Como você entrou? Pulou o muro? Ah, esqueci que não posso colocar cercas elétricas... Pois entre! A casa é minha, mas a porta é de todos. Veja! Minhas janelas são grandes, olhe como a vista é linda! Tenho muitos vizinhos. Não lhe ofereço uma xícara de café, pois ainda vou garantir a minha de hoje. Mas tenho muitos bancos para você sentar. Vamos conversar. Aqui, eu tenho todo o tempo do mundo... Esse não é o lugar que escolhi para ficar, mas ele me acolheu como ninguém pôde fazer por mim. Tenho um Theatro no meu jardim e tenho também muitos visitantes – que passam por mim todos os dias. E isso me basta. Minhas cortinas são de papelão, mas meu amor por elas não tem preço.

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Peço, peço, peço... Não me ouvem! Fazer o quê? Está vendo aquele sentado ali? É o Dr. José de Alencar, meu amigo e meu abrigo de todos os dias e noites. Com ele, eu converso, eu desabafo, eu acho graça, eu observo... Olhe essas pessoas que passam por nós a todo o momento. Correm, passeiam, trabalham, têm pressa. Pressa de quê? Assim como diz meu amigo poeta, sabemos que “a honra não consiste em vanglórias que insufla a vaidade”. O ilustre ou o mendigo dividem o mesmo espaço nesse miserável chão de terra. Se não divide agora, um dia não tem como escapar. Enquanto isso, colega, vou desfrutar da minha castanhola com a brisa que a sombra do meu amigo me dá. Vou dormir, pois já é qualquer hora e daqui a pouco vou esmolar. Feche a porta ao sair, pois não quero que os ratos me perturbem. Pois aqui, somente aqui, eu posso mandar.


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Perfil

Raimundo do Queijo tradicional ponto de encontro no Centro de Fortaleza 36 anos de um bar que atrai clientes de todos os tipos, incluindo intelectuais, e que pode se transformar em um espaço cultural Por Leidiane Cavalcante

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aimundo Oliveira Araújo, 80 anos, cearense de Chaval, comanda um estabelecimento há 36 anos no Centro de Fortaleza onde vende produtos regionais durante a semana. Nos finais de semana, a casa do “Seu Raimundo dos Queijos”, assim conhecido pela população, se transforma em um agradável bar que atrai clientes de todos os tipos. Muitos deles são boêmios, escritores, músicos, que se reúnem para degustar o famoso queijo coalho com carne de sol, acompanhado de muita bebida e de belas apresentações de chorinho e forró. Os políticos também fazem parte da freguesia, com interesses à parte são os que mais frequentam o estabelecimento em busca de votos, coisa que não agrada muito Seu Raimundo. Por ser tão frequentado por pessoas importantes, o comercio pode se transformar em um espaço cultural, principalmente, se depender do projeto do vereador do (PT) Acrísio Sena, que está junto com Régis Dias, secretário do Centro e representantes do 12 | Rostos & Ruas

Banco do Nordeste. De Chaval para Fortaleza, sem ter familiares por aqui, Seu Raimundo veio com o intuito de educar os seus filhos que são três, dois homens e uma mulher, e que hoje já são formados e trabalham com ele. Sempre simpático e sorridente, diz que não quer dar mais entrevistas. É chamado de grosso pelos amigos, mas, é “tudo brincadeira”, e fala muito bem deles. Com muito entusiasmo, agradece sempre aos seus colegas pelo sucesso que tem hoje, foi por conta deles que o Raimundo dos Queijos ficou conhecido. O estabelecimento fica entre as Ruas Conde D´Eu e General Bezerril, no Centro da cidade. É pequeno e apertado, mas agrada a muitos, e nos finais de semana fica lotado com mesas do começo ao fim. Sem muitos concorrentes no local, Seu Raimundo, só se preocupava com a concorrência dos mercados grandes, porque “vendiam na promoção” e como seu comercio só recebe em dinheiro era difícil para ele. Foi aí que deixou a venda

de carnes de lado e passou a vender queijo, que é o tradicional do local, junto com carne de sol, paçoca e doces. Ele sempre cita os irmão da vila Romero [Vila residencial da família Romero, que fica ao lado do parque das crianças] e o engenheiro Hernandes Honorato, como os responsáveis pelo boteco nos finais de semana. Foram eles que começaram a frequentar o local, levando bebidas e tira gostos. Como diz Seu Raimundo, um sempre traz um; e o ambiente se expandiu. Os finais de semana ficaram tão populares que hoje é o ponto de encontro de grandes personalidades, amigos e familiares que se reúnem para bater um bom papo, ouvir boa música e se confraternizarem. Mas, já cansado, Seu Raimundo pensa em parar. Na verdade, não quer se afastar, quer apenas diminuir o trabalho e deixar os filhos tomarem conta. Um homem de fé, que decora o seu trabalho com imagens de Nossa Senhora e Jesus Cristo.


“Não sou político e não gosto de políticos, eles vêm pra conseguir voto.”

Seu Raimundo, dono de um pequeno comércio regional que pode virá espaço cultural

Rostos & Ruas - Como surgiu o Raimundo dos queijos? Quando eu vim de Chaval para Fortaleza eu vim com a ideia de educar meus filhos, então abri o Frigorifico Central, no Centro. Não tinha outro lugar melhor e eu vim para cá. Inaugurei a loja em 1975, ficava próxima à Praça José de Alencar. Em 1978, eu me mudei aqui para a Travessa Crato [entre as ruas Conde D´Eu e General Bizerril] e estou até hoje. Comecei vendendo carne, depois mudei para peixe, e agora só vendo a carne de sol, paçoca e queijo. E está dando certo graças a Deus. Rostos & Ruas - Mas Porque o nome do estabelecimento mudou para Raimundo do Queijo? O nome surgiu através de uma brincadeira de outro Raimundo morador da Vila Romero [Vila residencial que fica ao lado do parque das crianças] que frequenta o boteco. Como são dois Raimundos, ele disse que um era o Raimundo com queijo e o outro sem queijo. Aí, todos passaram a me chamar assim. O nome pegou e eu mudei de Frigorífico Central para Raimundo dos Queijos. Rostos & Ruas - Como surgiu a ideia de transformar o seu estabelecimento em um bar nos finais de semana? O pessoal da Vila Romero – que é uma vila de casas cujos donos são os irmãos Romeros – todo dia vinha pra cá, e o amigo Hernandes, engenheiro da prefeitura começou a fazer tira gosto. Aí, começaram a trazer os amigos... Traz um, sempre traz... e foi formando e hoje cresceu desse jeito. Comecei vendendo uma caixa de cerveja e hoje vendo 30 a 40 caixas. Tudo isso há 12 anos. Rostos & Ruas - E como são os domingos em dias de boteco? Domingo aqui é gente demais, é uma

loucura pra atender, falta mesa, falta espaço e está ficando pequeno agora. Só tem eu no Centro nos dias de domingo à tarde, o resto tudo é fechado, só tem eu mesmo e o movimento é grande. [Seu Raimundo se referindo ao movimento nos domingos à tarde no boteco] Espero que ajeite isso aqui para melhorar, tá muito feio, está precisando de uma reforma. Rostos & Ruas - Quais as atrações musicais mais tocadas e mais pedidas pelos seus clientes? Chorinho, forró, são muitos. Todo domingo é uma atração diferente, até a Rossicléa já fez show aqui. Todo dia, vem gente aqui falar pra tocar nos finais de semana. Mas o que estão pedindo muito é o bregão... Rostos & Ruas - O que tem no cardápio que atrai tantas pessoas? De bebidas eu só sirvo a cerveja e whisky, e como tira gosto a paçoca e queijo. Rostos & Ruas - E o senhor pensa em aumentar o cardápio? Não, eu estou querendo parar e entregar para os filhos, 80 anos, já dá pra cansar. Eu trabalho de domingo a domingo sem folga... Rostos & Ruas - E não vai sentir faltar de estar aqui? Parar de vir aqui eu não paro não, quero diminuir o trabalho. Quando eu chego em casa já é pensando em voltar, só vou pra dormir, eu moro aqui. Rostos & Ruas - O que falta para ficar melhor? Ajeitar o piso que está horrível. Eu tenho mais de cem mesas aqui nessa travessa, então fica lotado. Se ajeitassem o piso, pra mim, não precisava de mais nada. A prefeitura só faz prometer e não cumpre.

Clientela do Raimundo dos Queijos nos fins de semana

Rostos & Ruas - O Senhor aprova a ideia do seu estabelecimento virá um espaço cultural? Eu só tenho que aprovar né, tudo que vem de bem para cá eu aprovo. Foi prometido e até agora nada. Rostos & Ruas - Quando teve a ideia de fazer esse boteco nos finais de semana, o senhor pensou que fosse atrair um público tão grande e ficar tão conhecido? Eu nunca pensei. Logo, eu não gostava de vender bebida, gostava de beber, mas vender não [risos], eu nunca gostei não. Mas aí, começou e deu certo, eles estão gostando e todo domingo vêm muita gente pra cá. Em época de política é que vem mesmo, vem muitos políticos pra cá. E reconhecido, eu nunca pensei que fosse chegar ao ponto que cheguei. Rostos & Ruas - Porque o senhor acha que eles frequentam o seu estabelecimento? Olha não sou político e não gosto de político. Eles vêm pra conseguir voto, porque sabem que vem muita gente importante para cá... Rostos & Ruas - Quem são essas pessoas importantes além dos seus amigos que frequentam o boteco nos finais de semana? Engenheiros, muitos amigos médicos que eu tenho que vêm todos os domingos para cá, escritores, professores, arquitetos. Eles vêm e sempre trazem mais gente. Rostos & Ruas - Há quem o senhor atribui todo o sucesso que teve? À boa freguesia que eu tenho, eles brincam comigo que eu sou muito grosso, mas foi com a minha grossura que consegui arranjar tudo isso. Rostos & Ruas | 13


Gastronomia

O Centro dos Sabores A comida é diversa e para todos os gostos Por Leidiane Cavalcante

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gastronomia cearense reflete os traços marcantes da cultura popular e da influência que os colonizadores europeus deixaram. Um expressivo hábito alimentar mesclado aos de indígenas, europeus, e africano. A sua base vem através da pesca e da produção agrícola, incluindo a pecuária. O sabor vai do sertão às delícias praianas. Fortaleza tem essa porta de entrada que permite a diversidade da culinária, com muitas opções para a população cearense e para quem vem de fora se encantar com os pratos aqui oferecidos. O Centro de Fortaleza não fica de fora dessa diversidade, sua culinária cresceu devido aos hábitos alimentares da população e o aumento do número de pessoas que circulam no local todos os dias. Tem de tudo, do mais sofisticado ao do povão. São muitas as opções para quem frequenta e trabalha no lugar. Visualizamos três pontos que marcam a gastronomia no Centro de Fortaleza. Por ter um cardápio diferenciado e por ser frequentado por um público específico, apontamos como Sofisticado, Popular e do Povão.

O Mais Sofisticado Localizado em um prédio histórico no Centro de Fortaleza, que foi construído em 1914, com o estilo neo plácio francês, o restaurante Palacete L´escale, tem uma cozinha mista e internacional. Sua culinária varia entre pratos cearense e francês, nos quais se destacam: a Peixada Cearense; Moqueca de Peixe e Arraia, o Filé a Boulanger e a Lagosta Thermidor, como os mais sofisticados. O cardápio

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é diverso e para todos os gostos. Diariamente, além das saladas árabe e francesa, é servido o Camarão à Grega, Pernil de Porco à Califórnia, Peixe Frito Acebolado, Chester à California, Panqueca de Bacalhau, Peixe recheado com Camarão, Mão de Vaca que é típico do Nordeste, entre outros. Tanta sofisticação do lugar atrai uma media de 100 a 150 pessoas por dia, que variam de advogados, empresários, médicos a comerciantes que trabalham no Centro. Para Neila Damasceno, freguesa a anos do local, a Léscale é um ambiente sofisticado e tem um bom atendimento. Ela resalta que a loja da Praça do Ferreira é diferente da que se encontra no shopping central, que é apertada e quente.

O Popular A feijoada é a tradição. Todos os sábados e domingos quem vai ao Centro pode se deliciar com o feijão preto e bela música, ao som do chorinho. Localizado na Praça do Passeio Público, o Café Passeio, há quatro anos, oferece aos seus clientes um ambiente aberto, com uma boa música e uma comida saborosa. A Feijoada é tratada com muito carinho, seus ingredientes são selecionados pela qualidade. O prato leva o feijão preto, linguiça calabresa, paio, pé de porco salgado e defumado, costela suína, bacon e alho. Além da feijoada, a moqueca de arraia e o arroz de camarão são bastante procurados pelos clientes. Seu maior público é formado por moradores de Fortaleza que tiveram o direito de frequentar o Passeio Publico,


após sua revitalização, em 2008, quando o lugar passou por uma reforma. Em média, 700 pessoas frequentam o Café Passeio nos sábados e domingos. Segundo Carlos Alberto ferreira, frequentador do Café Passeio, desde 2012, a feijoada é uma das melhores de Fortaleza, bem temperada e com um ótimo sabor. Para ele, o restaurante valoriza ainda mais a vontade de frequentar o passeio público, pois, a comida tem qualidade e além da música que circula, a natureza do local é exuberante.

O do Povão A variedade é grande. Para quem vai ao Centro e quer fazer um lanche rápido, tem uma diversidade de opções espalhadas pelos quatros cantos do bairro. Ruas, praças, calçadas, galerias, pontos de ônibus são a preferência dos comerciantes que trabalham com comidas. A quantidade é grande e tem para todos os gostos. Mungunzá, milho-verde, salgado com suco, acarajé, salada de frutas, sorvete,

pastel, frutas da época cortadas, doces, chá e café, batatinha frita, pratinhos feitos... “Gosto de comer pastel, milho verde, batata frita, essas coisas que vendem nas calçadas.” Diz Ana Paula Cavalcante, que prefere comidas mais rápidas, que vai de acordo com o seu ritmo. Mas, as esses lanches não agradam a todos. Para Mariana Silva, “nem pensar”, ela prefere comer “fast-food, pois sente nojo das comidas vendidas nas ruas”. Nos pontos das ruas do Centro, quem toma o lugar são as lanchonetes e pequenos restaurantes onde o prato feito, a comida a quilo, diversos tipos de salgados, doces e bebidas preenchem o local. A cada dia casas vêm se destacando pela culinária, para satisfazer o desejo do cliente. Comida chinesa e os fast-food como o Mc Donald ganham espaço também no local. Destacamos o povão como público. Pessoas do dia a dia, que vão ao Centro para trabalhar, resolver ou comprar algo e preferem uma comida rápida que acompanhe o seu ritmo.

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Moda

Com que roupa eu vou...

No Centro, a moda é ditada pelo clima, pela ocasião ou mesmo, pela cultura. Com isso, o bairro se transformou na maior passarela de estilos diversificados de Fortaleza

Por Leyliane Mariano

Q

uer conhecer um turbilhão de moda, estilo e tendências? Então, basta um simples passeio pelas ruas do Centro de Fortaleza. Lá, é possível observar que existe um verdadeiro caldeirão de “look” para todos os gostos. Pessoas desfilam em meio às ruas do bairro com as mais diversas roupas. Desde a praticidade das bermudas ou short jeans, acompanhados de camisetas aos requintados paletós e gravatas. Mas, claro que a preferência acaba sempre sendo pelo conforto. A estudante de Serviço Social, Geisa Alves, de 18 anos, é uma adepta da leveza e simplicidade ao passear pelo Centro. “Eu venho ao Centro bem simples, sempre de short e camiseta, rasteirinhas ou havaianas. Porque aqui é muito quente”, conta. Para a professora de Design de Moda da Universidade Federal do Ceará (UFC), Naiana Rodrigues, o fato de andar a pé no Centro faz com que o conforto seja levado em consideração, principalmente, na hora de escolher o que calçar. “A forma de transitar no bairro faz com que os frequentadores prefiram calçadas que possibilitem a caminhada, como tênis, sapatilhas e, até mesmo, rasteiras, apesar de não serem indicadas para essa circunstância, mas como são muito populares no vestuário local, acabam virando também uma opção”, explica.

A ocasião que me veste Cada pessoa se veste como bem entende, a diferença está na moda ou estilo de cada um. “Moda e estilo estão sempre caminhando juntos, porém, moda é sistêmica, há todo processo mercadológico envolvido até chegar às ruas e ser usado 16 | Rostos & Ruas

amplamente, mediante a uma aceitação social. Estilo é pessoal e é o que você tem de particular e pode te definir quanto estética ou ainda subverter todos esses padrões”, explica o figurinista Isac Sobrinho. Percebemos que hoje em dia no Centro de Fortaleza, muitos adeptos consomem algumas propostas de se vestir que acabam “virando moda”, talvez pelo local ser representado como um dos maiores núcleos têxtil da cidade. “Além disso, por ser um comércio onde se tem muitos preços a custos mais acessíveis, o Centro é um lugar popular. Portanto, a moda que por lá passa também tem esse aspecto, é a cópia de modelos das personagens da novela, é a falsificação de grifes internacionais. É lá que se encontra a moda massiva popular, tanto à venda quanto desfilando nos corpos de quem lá frequenta”, completa Naiana. No Centro, encontramos várias feiras ou barracas que vendem roupas nas vias públicas, como também há muitas pessoas. Agora, não podemos é definir de imediato o que a pessoa é, ou foi fazer lá, pelo que está vestindo. “É complicado uma vez que você observa, por exemplo, pessoas vestidas de calça social e blusas de abotoamento, elas podem ser pastores ou executivos. Meninas vestidas de legging e camiseta e elas podem ser vendedoras ou frequentadoras, um rapaz de shorts pode ser um camelô ou um artista buscando materiais de pesquisa”, observa Isac. Mas, não é formal trabalhar em uma repartição e chegar de chinelos de dedo. “Ando pelas ruas do Centro de chinela. Mas, sempre levo na sacola uma sandália de salto e quando chego ao trabalho, troco

pela sandália. No final do dia, volto a calçar o chinelo para andar até a parada de ônibus”, revela a supervisora, de 29 anos, Viviane Dias. Por ser um local, muitas vezes de passagem, a vestimenta que é usada no Centro é diferente do que se costuma usar para ir ao shopping, por exemplo. Embora ambos tenham funções parecidas, a compra, o calor obriga os frequentadores do Centro a usarem roupas leves, já que na maioria dos shoppings há ar condicionado. “Toda vez que penso em vir ao Centro, visto o que for mais leve possível. Sei que vou andar muito e sempre me deparo com o sol quase que escaldante”, confessa a funcionária pública, Solange Viana, 49 anos, que vai ao Centro com frequência. Claro que, quando a ocasião obriga, temos que ceder e acabamos usando peça de tecido resistente, mas quente. Há muito, no Centro, homens e mulheres de paletó e roupas mais formais, uma exigência de profissões como advogados e executivos. Mas, são pessoas que trabalham em ambientes fechados, com climatização artificial, o que justifica o uso desse vestuário. O fato é que a roupa, geralmente, é uma expressão da posição ocupada pela pessoa naquele ambiente. “Temos o despojamento como uma característica da identidade cultural do cearense. Uma marca que predomina em muitas situações, prevalecendo mesmo em detrimento de outras identidades particulares do sujeito, como profissão, por exemplo. Dessa forma, a moda acaba sendo um elemento de identificação coletiva, de afirmação do pertencimento a um lugar em detrimento da exaltação de uma identidade individualista”, conclui Naiana.


Leidiane Cavalcante é graduanda em Jornalismo e trabalha como monitora de jornal escolar e tutora do Programa Jovens na Escola Professora Telina Barbosa da Costa.

Manias Quem dizia que MADE IN CHINA era Paraguai se enganou Sempre existiu essa comparação: “o que não presta é Paraguai”. Com a diversidade de produtos da China no Centro, o Paraguai ficou esquecido e a China tomou o lugar. A comparação mudou: “Se for barato é da China”. Com o crescimento surpreendente, os novos colegas com traços orientais provaram e quebraram essa supertição, que por um tempo se agregou a eles. Agora, os produtos de fora são os mais procurados.

Nem todos são coreanos Há pelo menos quatro anos, quem vai ao Centro de Fortaleza se depara com uma grande quantidade de comerciantes com caras bem diferentes da nossa. São os chineses e coreanos. Eles estão por toda parte, onde quer que se vá, da Guilherme Rocha à Praça do Ferreira, nos deparamos com os novos colegas. Muitos entraram no Brasil por São Paulo. No total, já são em média 354 chineses regulares no Ceará, 306 vivem em Fortaleza e a maioria é comerciante do Centro, segundo a Delegacia de Imigração (Delemig) da Polícia Federal no Ceará.

E a concorrência? Com a grande quantidade de estrangeiros, os cearenses têm que dividir o seu território, que está bastante disputado e concorrido. A concorrência não fica por conta dos brasileiros, e sim, dos chineses e coreanos, que topam pagar um aluguel mais caro. Como fisicamente são muito parecidos e vendem o mesmo tipo de mercadoria, para os clientes cearenses parece não haver diferenças. Chegamos até a pensar que são todos de uma mesma família. Devido seus traços serem semelhantes, é difícil distinguir quem é quem. E para todos eles sempre serão os chineses.

Alguém entende o que eles falam? A língua chinesa é totalmente diferente dos nossos cearenses. E os costumes também. É curioso saber como fazem para dialogar com seus funcionários, clientes e vizinhos, já que convivem todos os dias com o jeitão do cearense. Mas, em meio a trocas de culturas, de todos os dias, cearenses e orientais estão se entendendo.

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História com sabor de pastel

Por Juliana de Paula

C

omo passar pelo Centro de Fortaleza e não dar aquela paradinha rápida no Leão do Sul? Para muitos, é como “ir à Roma e não ver o Papa.” Lugar que não só oferece, simplesmente, o melhor pastel da cidade, como trás consigo um mundo de histórias, tradição e prosas, que só se encontra à beira daquele balcão. Acompanhando a história da Praça do Ferreira, as fotos na parede montam uma linha do tempo que mostra as diversas fases

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da estreita pastelaria que está sempre com muito movimento de pessoas entrando, saindo, com os braços esticados recebendo os pedidos dos pastéis com caldo de cana e que muitas vezes comem em pé mesmo, pois no longo banco, geralmente, já estão sentados os prioritários frequentadores assíduos: os idosos. Junto ao cheirinho do pastel feito na hora, vêm as lembranças de um lugar que já passou muita gente que cresceu e mudou

de hábitos, mas que preservou o costume de, comendo pastel com caldo de cana, saborear o passado.

O lugar que passou por três famílias, mas não perdeu a essência A pastelaria Leão do Sul, conhecida popularmente como O Leão do Sul, fica localizada na Rua Pedro Borges, nº 193 no Centro


de Fortaleza, mais precisamente na Praça do Ferreira, desde 1926. A pastelaria, que hoje atende cerca de mil pessoas por dia, segundo o atual administrador Dany Dantas, já teve vários donos, mas sempre manteve o mesmo nome, embora, no início, vendesse produtos diversos, como frios, cerais, dentre outros. Não há fatos concretos que justifiquem a origem do nome. Mas, segundo pesquisas feitas com clientes daquela época, pela própria administração, afirmam que o nome Leão do Sul se deu porque o primeiro proprietário vendia apenas produtos vindos do Sul do país e porque o estabelecimento era como se fosse o “Rei do Centro”. Daí o nome Leão do Sul. Segundo documentos antigos da pastelaria, o nome do primeiro proprietário só foi achado com a abreviação “A. Silva”. Em 1952, o empreendimento foi vendido para Dimas de Castro e Silva. No ano de 1980, Renato Dantas e sua esposa Maria Dantas compraram o Leão do Sul. O casal comprou a pastelaria quando voltou de São Paulo, após viverem por lá durante muitos anos. Chegando à capital do Ceará, Renato Dantas foi ao Centro da cidade, sentou-se na Praça do Ferreira e, observando o movimento do comércio, viu o movimentado Leão do Sul. Seguiu então até lá, conversou com o “Seu Dimas” e acertaram a compra do comércio, que posteriormente foi legalizada. Em 1988, Renato Dantas faleceu e sua esposa, atual proprietária, passou a ensinar os segredos do comércio para o filho mais velho, Dany Ricardo Dantas, na época com 13 anos de idade. A tradição foi passada de geração para geração. Atualmente, Dany Dantas administra a sede do Leão do Sul na Praça do Ferreira. Mas, já existem outras duas pastelarias na cidade, no bairro Aldeota e na Avenida Bezerra de Menezes, administradas por outros dois herdeiros de Renato Dantas.

De pai pra filho Dany Dantas, que procura manter o padrão de qualidade dos produtos e do atendimento que seu pai solidificou, afirma feliz que o Leão do Sul é um patrimônio histórico da cidade de Fortaleza que merece ser preservado. “Realmente, é muito gratificante poder fazer parte da história não só da praça, mas da cidade de Fortaleza”, conclui.

A pastelaria atende clientes de todas as idades, mas, segundo o proprietário a maior parte da clientela é da terceira idade ou são aqueles clientes cujos pais traziam quando eles eram crianças e que hoje trazem seus filhos. “Existe toda uma história de vida que envolve várias cenas em suas mentes. Embora muitas vezes com pressa, as pessoas que passaram por aqui saboreiam o pastel com o caldo de cana relembrando fatos que envolveram tanto o Leão do Sul, quanto a Praça do Ferreira”, afirma. Dany ainda comenta que, enquanto os clientes comem os pastéis, contam suas histórias visualizando através das fotografias antigas suas lembranças de um passado agradável e feliz. Para ele, “ver a alegria estampada no rosto dos clientes mais antigos fazendo uma viagem no tempo através do sabor é o que de fato faz do Leão do Sul parte da história da Praça do Ferreira”. O aposentado Valdener Vieira, de 87 anos, comenta que frequenta o Leão do Sul desde os seus dezoitos anos de idade. Ele diz que hoje em dia não sai muito de casa, mas, mesmo com a lotação da pastelaria, dá sempre um jeitinho de ir com a esposa, Maria Vieira, comer “o pastel de frango do Leão do Sul, que ela tanto gosta”.

Mais do que trabalho, parte da vida A sede da Leão do Sul possui 15 funcionários. Entre eles, está o conhecido Seu Guanabara, gerente do estabelecimento e funcionário do Leão do Sul a vinte e três anos, desde quando o antigo dono era vivo. Seu Guanabara conhece logo quando chegam os clientes fiéis. “Eles não precisam nem pedir, pois eu já sei até o que eles querem”, diz. Ele afirma que a pastelaria tem uma clientela muito fiel, principalmente de aposentados. “Tem alguns que vem ao Centro só para passar aqui na Leão do Sul e levar um pastel para casa. Às vezes até os médicos proíbem eles de comerem pastel, por serem diabéticos, mas mesmo assim, não conseguem resistir ao tradicional pastel com caldo de cana e uma boa prosa”, comenta. O funcionário que já se considera parte da família Leão do Sul diz não se imaginar sem trabalhar na pastelaria. “Aqui foi onde eu aprendi tudo o que sou. Lido com pessoas de vários tipos, de todas as idades e de todos os lugares”.

À esquerda, Valdener Vieira, cliente há quase 70 anos

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Capa

O CENTRO FORTE E A FORMOSA FORTALEZA Por Leyliane Mariano

As relações históricas do Centro com a cidade de Fortaleza e os principais patrimônios culturais.

Vista atual da Praça do Ferreira

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A

s margens do rio Pajeú um forte é construído pelo holandês Matias Beck. Ao seu redor várias casas foram se aglomerando, e dali uma aldeia foi crescendo. Exatamente no dia 13 de Abril de 1726, a Coroa portuguesa transforma aquele povoado na Vila de Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Mas, ainda hoje, há rumores sobre onde realmente a cidade foi fundada. Para historiadores como Ismael Pordeus, falecido em 1964, o ponto de partida dessa história foi à construção do Forte de São Sebastião pelo desbravador português, Martim Soares Moreno na Barra do Ceará, e não com a construção do Forte Schoonenborch, com conta a maioria dos livros de historia e é defendido pelo historiador Raimundo Girão, também já falecido. Seja como for, só em 1799 a Capitania do Ceará tornou-se independente da Capitania Geral de Pernambuco, possibilitando fazer comércio direto com Portugal. Com isso o comércio de Fortaleza começou prosperar e a mudança fez com que a cidade crescesse, porém de forma desordenada. Casas e prédios eram construídos em qualquer jeito e em qualquer lugar, surgiram também os primeiros palacetes e sobrados e as ruas começaram a ficar aglomeradas. Então, Silva Paulet foi contratado pelo governo em 1812 para criar um plano urbano para a Vila. O engenheiro traçou um plano em linhas retas estilo um tabuleiro de xadrez. “O alinhamento das ruas facilitava a circulação dos transportes, das pessoas e mercadorias. Deixou Fortaleza mais arrumada.”, como fala a professora de história da UFC, Simone Vieira no livro FORTALEZA, a criança e a cidade. Mas, foi somente em 1823 o imperador do Brasil, D. Pedro II elevou a Vila de Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção a categoria de cidade, com o nome de Fortaleza de Nova Bragança. Na época, o algodão fez da nossa capital o principal eixo do comércio cearense. Em 1870 Charles Neate, desenvolve o projeto do primeiro porto da cidade, localizado na Prainha ao lado direito da foz do rio Pajeú, próximo a Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Já a primeira ferrovia do Ceará, Estrada de Ferro de Baturité (atual Estação Engenheiro João Felipe), foi instalada em 1879, ela ligava o interior a nossa capital, fazendo com que os produtos chegassem mais rápido ao porto. No inicio do século XIX, outras transformações aconteceram na cidade, entre elas, a iluminação a gás carbônico, linhas de bondes puxados a burro, rede de telégrafos para Europa e para o sul do país, só que a cidade ainda solicitava melhorias. Dai veio

à construção de novos equipamentos urbanos como: A Santa Casa de Misericórdia, a Biblioteca Pública, a implantação de calçamentos nas principais ruas, a construção de chafarizes, sem falar que a quantidade de casas, prédios, sobrados, ruas e praças, aumentavam consideravelmente. Foi, então, necessário novo plano urbano, para conter a expansão desordenada da cidade. O engenheiro-arquiteto Adolfo Herbster, 1875, começou a aperfeiçoar o traçado feito incialmente por Paulet, estendendo até os subúrbios existentes, já pensando no futuro da capital. Com esse projeto, Herbster planejou a abertura das três principais vias do Centro de Fortaleza. Que são as atuais avenidas do Imperador, Duque de Caxias e Dom Manuel, e junto com o mar formavam um quadrilátero, sendo hoje as principais, limitações com bairro. “Os primeiros automóveis passaram a circular em Fortaleza a partir de 1910 e de lá pra cá a quantidade deles aumentou bastante.”, conta Simone. Já os ônibus começaram a aparecer somente em 1930 e com eles com bondes foram sumindo, já que a população precisava de transporte mais rápidos. Também nessa época as pessoas ricas, ou de classe média moravam no Centro, mas com a tomada das lojas, carros e multidões as elas começaram a morar em locais mais afastados.

A Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção, ou melhor, o Forte Schoonenborch está localizado na Avenida Alberto Nepomuceno s/n no Centro e, desde 1942 é a sede do Quartel General da 10ª Região Militar do Exército Brasileiro. Mesmo tendo sido reconstruído várias vezes, a localização inicial sempre foi mantida. Muita gente não sabe, mas na Fortaleza tem um museu aberto à visitação nos horários de 8h às 11h e das 14h as 17h. Mesmo sem muita atração, pela existência de dependências militares o museu guarda objetos (incluindo espadas, uniformes, pistolas) do General Antônio Sampaio, cearense morto na Guerra do Paraguai. Na parte de fora do forte é possível ver o mar, isso era feito de forma pensada já que a ideia era ter uma maior visibilidade do inimigo, existem também alguns canhões antigos.

Moça Francesa O século XX talvez tenha sido o período em que Fortaleza e o Centro tenham sofrido as transformações mais requintadas. E de conhecimento de muitos que na década de 40, Fortaleza sofreu grandes influências vindas da França, isso se refletiu nas construções, bem com, nos costumes e nos valores da época. A famosa Belle Époque foi um marco para a história da nossa cidade e como era no Centro que as coisas aconteciam. Tudo ficou entre o quadrilátero das Avenidas Dom Manuel, Duque de Caxias, do Imperador e do mar. Sebastião Rogério Ponte no livro Fortaleza Belle Époque, comenta que o “afrancesamento” é entendido como processo de “prestígio e refinamento” da cidade em relação à modernidade. “O afrancesamento foi, nessa perspectiva, uma vivência e uma das frentes de persuasão tentadas para romper com a tradição e o ‘provincianismo’ da cidade.”. Atrevida Fortaleza busca o padrão frances de qualidade com o surgimento de uma arquitetura riquíssima, com clubes, teatro, hotel, cinema, etc. Com os costumes e as novidades impor-

Estação Engenheiro João Felipe, antiga Estrada de Ferro Baturité, foi importantíssima para intensificar a exportação do algodão para Europa. O algodão vinha do interior até a estação e de lá ai para porto rumo aos países europeus. Com um belo relógio neoclássico na fachada.

O Hotel Excelsior foi o primeiro edifício construído em Fortaleza. Com sete andares sua construção se realizou em 1931.Localizado na Praça do Ferreira, esquina das ruas Guilherme Rocha e General Sampaio, hoje ele recebe todo final de ano um coral infantil que canta músicas natalinas a partir das 18h. Rostos & Ruas | 21


O Theatro José de Alencar é um dos patrimônios mais importantes para o Centro de Fortaleza. Considerado como um dos mais bonitos do Brasil, o Theatro foi inaugurado em 1910, sendo um dos locais mais frequentados pela sociedade fortalezense no século XX. O glamoroso Theatro José de Alencar está localizando na rua Liberato Barroso entre as ruas General Sampaio e 24 de Maio, e hoje é tombado pelo Instituto Patrimônio Histórico Artístico Nacional. – (IPHAN), devido à riquíssima estrutura inspirada na Art Nouveau, com escadarias, camarotes e frisas de ferro fundido. Atualmente encontra-se em reforma.

Vista da Praça do Ferreira em 1947

tadas, principalmente, da França, algumas coisas não podiam continuar. Os loucos e os doentes foram afastados, os cemitérios e matadouros transferidos. Leis proibiam a nudez nos banhos de riachos, e com isso o uso de paletós, chapéus, vestidos longos e sombrinhas passam a ser rotina na sociedade. Em locais como a Praça dos Mártires – Passeio Público - era possível ver pessoas usando esses trajes. “O Passeio Publico, por muito tempo, foi o principal espaço de lazer em Fortaleza. Mais tarde surgiram outras formas de lazer que ganharam a preferência da população como o teatro, cinemas e clubes.”, destaca Simone. Também havia café, sexo e diversão. Os cafés eram importantes polos de conversas entre os intelectuais, e a sua maioria estavam instalados na Praça do Ferreira. E, mesmo as praças sendo os principais pontos de encontro entre moças e rapazes da época, a boemia também se fazia presente nas pensões “prostíbulos”, entre os mais frequentados por

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gente importante nas décadas de 40 a 70. Entre os mais famosos tinham o Senadorzão que ficava na rua Senador Alencar numa galeria que ligava a Barão do Rio Branco à Senador Pompeu. A febre dos cinemas também chegou a Fortaleza e era no Centro que os três principais cinemas da época se instalaram. O cine-teatro Majestic Palace na rua Major Facundo inaugurado em 1917 e no mesmo ano o cine Moderno, tornando-se o principal cinema do estado. Mesmo esquecido durante anos o famoso cine São Luiz só foi inaugurado em 26 de março de 1958. Hoje é tombado pelo Estado e será reinaugurado em breve com Anastácia sua primeira apresentação.

Tempos Modernos A segunda guerra mundial trouxe uma nova fase para a nossa cidade e o modo de vida dos americanos passa a ser mais

A exuberante Catedral Metropolitana de Fortalezaque vemos hoje foi começou a ser construída em 1939, devido à constatação de rachaduras a igreja matriz de Fortaleza, com a demolição da igreja o engenheiro francês George Mounier projetou sua a arquitetura da nossa Catedral, levando então 39 anos para ser concluída. Em estilo New Gótico-Romano nossa Catedral está localizada na Praça Pedro II no Centro, é terceira maior do país, com altura de 12 andares, e com capacidade para cinco mil pessoas. É a principal Igreja de Fortaleza e abriga todos os grandes eventos religiosos da cidade.


deslumbrante do que os costumes franceses. As praias, até então ignoradas, começam a ganhar um novo destaque. Com o novo estilo americano as pessoas começam a esvaziar o Centro em busca da moderna forma de vida, e a “Geração Coca Cola” se espalha pela cidade. Os clubes e bares são transportados para praia tornando o Centro, agora somente em um polo comercial. As pessoas de classes altas saem de cena e entra a população periférica. Casas começam a dar lugar às lojas, o Centro deixa de ter pessoas passeando numa tarde de sol e começa a receber pessoas que vão trabalhar em repartições ou lojas. Os pontos comerciais mais disputados na década de 70 até os anos 90 eram os que ficam na Praça do Ferreira, considerada o “Coração” da cidade. Em 1970 grandes lojas – como Mesbla e a Lobrás e a sua moderna escada rolante - se arrumam em meio ao Centro da cidade. Os arranha-céus começam a se expandir pelo bairro, o movimento aumenta. As paradas de ônibus saem da Praça do Ferreira e se espalham por vários terminais rodoviários. Entre eles, o da Praça José de Alencar e da Igreja Coração de Jesus, próximo ao Parque das Crianças. Com a chegada dos shoppings centers década de 80, o Centro começa a perder seu público. Apesar disso, o consumo popular passar a ser a tradicional forma de habitação do Centro. Mesmo motivados por outros polos de comércio, as pessoas fazem do centro o maior detentor da economia local. Segundo a Câmara de Dirigentes Lojistas de Fortaleza (CDL) o Centro gera, hoje o maior Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) do nosso estado.

A História Entre Prédios e Fachadas O Centro é o berço da história de Fortaleza e lá estão os principais patrimônios históricos e culturais do nosso povo. “Com certeza, o centro concentra a maior quantidade de bens que a cidade preserva, que cidade ainda mantem em pé. Por que é o bairro mais antigo, é o símbolo da cidade e que durante dois séculos, foi o ponto de concentração de moradia da população da cidade.”, declara Murilo Cunha que é Superintendente substituto do Instituto Patrimônio Histórico Artístico Nacional. – (IPHAN). De acordo com o superintendente, o Teatro José de Alencar talvez seja a maior

referência como patrimônio histórico e cultural de Fortaleza e do Centro. “Em termo do que é veiculado em campanha, o Theatro José de Alencar talvez seja a maior referencia na imagem das pessoas como monumento e como patrimônio histórico do Centro.”. Mas, Murilo revela que ainda é pouco o interesse da população em preservar esses patrimônios, pois as pessoas estão sempre voltadas para a modernidade, “Ainda vemos casas antigas sendo demolidas. Hoje, o que é preservado é o que é protegido por lei. Eu ainda não vejo uma pessoa que preserva, mas há sim, uma tomada de consciência, muito lenta.”, ressalta. Ele diz também que, atualmente, há um esforço maior dos órgãos públicos em promover a preservação patrimonial. “Eu acredito que os órgãos do patrimônio estão se estruturando mais, há certa tomada de consciência, mas ainda é muito inicial. Mesmo num processo muito lento, o patrimônio está nos debates públicos, essa questão está sendo mais discutida na mídia.”, resume. Existe um projeto chamado “Processo de Educação Patrimonial” que deve ser inserido como matéria nas escolas, onde o será focado a conscientização de crianças e dos jovens, onde eles possam fazer parte dessa preservação da historia e da cultura do seu povo. “Então é importante que o Centro e os outros bairros históricos mantenham um patrimônio preservado, que isso vai ser a referencia da cidade, de onde você veio para onde você vai. Isso faz parte da formação da sua identidade. Eu acho que isso tem que começar nas escolas, para o individuo crescer com referencia da sua história.”, revela o superintendente. O Centro passou do glamour dos anos 40 para decadência no início do século XXI. Contudo percebemos que o Centro não está tão abandonado como muitos pensam, ainda há o comércio, mesmo sendo em sua maioria um comércio informal, houve a revitalização de alguns pontos como, o Passeio Público que voltou a ser utilizado como lazer, com restaurantes e apresentação de chorinho. No Centro tem várias repartições públicas importantes e as sedes de grandes bancos, ou seja, ele não está tão esquecido, mas percebemos que as pessoas não dão mais tanto valor como antes.

Passeio Público foi escolhido com um dos principais pontos de lazer dos fortalezenses. Criado em 1884 frente à Santa Casa de Misericórdia, frequentados por pessoas de todas as idades. Lá foram instalados bancos, alamedas, lagos artificias, estátuas importadas, um café e um coreto que tocava uma banda de música, enquanto as pessoas passeavam, conversavam, paqueravam etc.

A igreja do Rosário é a mais antiga de Fortaleza e foi construída de palha e taipa em 1730, pelos escravos daVila. Quando a Matriz de São José precisou ser reconstruída a igreja funcionou como Igreja Matriz de Fortaleza até 1854. Em um de suas paredes está sepultado Major Facundo de pé, olhando para o Palácio da Luz (antigo Palácio do Governo e atual Academia Brasileira de Letras). Localizada na Praça dos Leões, está aberta a visitações de segunda a sexta de 7h as 16h30.

A Praça do Ferreira é um dos lugares mais antigos da nossa cidade e do nosso Centro, por isso talvez seja hoje a nossa principal praça. Era em 1850, apenas um largo de areia frouxa, com alguns cajueiros, rodeado de casebres e o “beco do cotovelo” que foi derrubado pelo boticário Antônio Rodrigues Ferreira, criando a praça em 1871 que ficou popularmente conhecida com Praça do Ferreira. Rostos & Ruas | 23


As Várias Formas de Trabalho A quantidade de trabalhadores é grande sendo ela formal ou informal Por Leidiane Cavalcante

Q

uem vai ao Centro de Fortaleza se depara com uma grande quantidade de trabalhadores e empregados. Eles estão por toda parte, nas ruas, praças, prédios e lojas. A quantidade é grande e o trabalho informal vem ganhando espaço nas ruas e calçadas do Centro. É o vendedor de CDs e DVDs ou de roupas. O senhor que canta para ganhar dinheiro e o homem estátua que deixa muitos boquiabertos por ficar tanto tempo parado. Há ainda os vendedores de lanches e doces; camelôs que vendem de calçados, bolsas, brinquedos, utensílios para cozinha até material escolar. Além, dos flanelinhas que ficam nas ruas e praças e o rapaz que anda de um lado a outro, panfletando. São muitos. Trabalhadores informais são pessoas que prestam serviços de forma autônoma e esporádica, diferente dos empregados que de forma habitual prestam serviços, mediante remuneração e subordinação. A maioria desses empregados está nas diversas lojas varejistas, é o que diz a pesquisa de emprego do comércio varejista, que é realizada mensalmente pela Fecomércio, com o objetivo de estudar o mercado de trabalho do comércio varejista. A pesquisa feita em outubro de 2014, trouxe dados da evolução no emprego formal, pois, a taxa de admissão, que indica a proporção de empregados no mercado de trabalho, aumentou 51%. No Centro, lojas de departamentos, de móveis e decorações; lojas de calçados, tecidos e vestuários; de autopeças e de materiais de construção; além das farmácias e perfumarias, ficam entre as dez no relatório de comportamento do emprego do comércio varejista. Outra pesquisa divulgada pela PED (Pesquisa Emprego e Desemprego, órgão ligada a Região Metropolitana de São Paulo,

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em convênio entre o DIEESE e a Fundação Seade.), da região metropolitana de Fortaleza, informa que a taxa de desemprego apresentou uma ligeira redução, ao passar de 8,1%, em setembro de 2014, para 7,8% nos messes atuais. Para Ociano Cordeiro, 46, vendedor de milho, não trabalha hoje em dia quem não quer. Ociano conta que trabalha no Centro há quinze anos, quando ficou desempregado teve a ideia de vender milho, e há seis meses lucra por dia uma média R$ 150,00 a R$ 200,00. E foi com essa ajuda que conseguiu compra a casa própria e sustenta três filhos e a esposa. Mas, trabalhar no Centro não agrada a todos. Apesar de ser um local movimentado e onde se encontra de tudo, tem gente

que não gosta, pois o Centro passa uma sensação de medo. É o que acha Joelma Cristina, 26, supervisora de Telemarketing, que trabalha no Centro há um ano e cinco meses. Segundo ela, o Centro é perigoso no horário que for. “Infelizmente, muitos moradores de rua não respeitam o cidadão e querem roubar.”, diz. Já para outros, o Centro de Fortaleza é um local de trabalho que não se compara a qualquer outro. Diego Sales, 26, auxiliar de almoxarifado, trabalha em um pet shop há cinco meses e diz que trabalhar no Centro de Fortaleza não tem comparação. “Já trabalhei em outros locais sim, mas, nada se iguala ao Centro. Não há comparação, porque não tinha todo esse movimento, aglomerado de gente, de veículos.”, conta.


Lugar

Onde Fica Isso? Muitos locais do Centro são conhecidos por nomes populares e as pessoas desconhecem seus nomes oficiais Por Juliana de Paula

- Oi, tu tá onde? Eu tô aqui em frente ao BEC dos Peixinhos. - E eu te esperando aqui no Calçadão C Rolim. - Ah, pois vamos nos encontrar no Passeio Público? - Né melhor na Praça General Tibúrcio, não? - Valha! E onde fica isso?!

Alguns frequentadores do Centro desconhecem os nomes oficiais da maioria dos patrimônios ou mesmo das ruas do Centro de Fortaleza. Ao marcar um encontro no Centro, na maioria das vezes, dizemos nomes que estão no nosso dia a dia devido a uma referência que temos com algo que aconteceu ou com loja, ou mesmo um banco, como é o caso do BEC dos Peixinhos. Uma agência bancaria localizada na rua Barão do Rio Branco, 1288 – hoje uma agência do Bradesco – onde encontramos um aquário cheio de peixinhos. O Calçadão C Rolim é outro exemplo de ponto de referência que usamos para dizer que estamos na Rua Pedro Borges entre as ruas Sena Madureira

e rua do Rosário. O calçadão tem esse nome porque lá se encontra o edifício C Rolim e uma rede de lojas do Grupo. “As principais ruas da Vila de Fortaleza partiam da chamada Praça Principal – hoje Praça da Sé.”, ensina a socióloga e ambientalista Fátima Garcia. Fátima também revela que antigamente as ruas eram denominadas de acordo com referências do cotidiano. Hoje, por exemplo, a atual Avenida Alberto Nepomuceno era conhecida como “Caminho da Praia”, pois fazia ligação com a Praia de Iracema, e somente em 1922 que recebeu denominação oficial, em homenagem ao músico cearense. Outros exemplos são a rua da Misericórdia, porque passava ao lado da

Santa Casa e a rua da Cadeia onde ficava a cadeia pública da cidade. Fátima conta que a rua Floriano Peixoto, inicialmente, tinha três curiosos nomes: rua das Belas, rua da Pitombeira e rua da Alegria, e somente anos depois é que recebeu o nome oficial de Floriano Peixoto. Hoje em dia não é diferente. Nomeamos os locais do Centro a partir de algum ponto de referência que se tenha com o local. Talvez, muitos não saibam onde fica a Praça General Tibúrcio, como os nossos personagens fictícios no começo de nossa história. Agora, se eu dissesse que o encontro seria na Praça dos Leões, certamente, muitos de vocês já teriam se localizado no Centro. Ou não?!

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Um Centro, duas praças e muitas histórias a contar Em meio a tantos vai e vens, O Centro de Fortaleza revela histórias de vida

À esq., O aposentado Francisco Pessoa, frequenta a Praça do Ferreira pelo menos três vezes na semana

Por Juliana de Paula e Leidiane Cavalcante

P

essoas indo de um lado para o outro, barulho de ambulantes, idosos, jovens, mulheres com sacolas e com criança, comércio, pedintes, artistas, estilos, histórias e cultura. Que lugar é esse? Essa mistura de identidades é o Centro de Fortaleza. Lugar que abrange uma área de 5,6255 km² que se delimita ao Norte pelas avenidas Historiador Raimundo Girão, Almirante Barroso e Pessoa Anta, ruas Adolfo Caminha e Santa Terezinha, e Avenida Presidente Castelo Branco (a Leste-Oeste); ao Leste, pela rua João Cordeiro; ao Oeste, pelas avenidas Filomeno Gomes e Padre Ibiapina; e ao Sul, pela Avenida Domingos Olímpio e início da Avenida Antô26 | Rostos & Ruas

nio Sales. Estima-se que cerca de 300 mil pessoas circulam pelo Centro diariamente. Em período de fim de ano, esse número sobe para 500 mil pessoas. São dados da Secretaria Executiva Regional do Centro. Para uns, o Centro é um lugar de trabalho, para outros de passeio, lazer e até moradia. Há aqueles que não veem a hora de ele ser revitalizado, modernizado. Há outros que têm medo das reformas que possam tirar a riqueza histórica que existe no lugar. Muitas pessoas depositam o sonho e a vontade de ganhar o sustento de vida indo todos os dias para o Centro. Ainda segundo a Re-


gional, hoje, o Centro possui 1.451 ambulantes cadastrados, com permissão formal para trabalhar. Mas, estima-se que haja cerca de 5.000 ambulantes trabalhando nas ruas do bairro. É o caso de Antônio Carlos, 32 anos, pipoqueiro, que, aos sete anos de idade, começou a trabalhar na Praça do Ferreira. Ele vinha com o pai, Francisco Loureiro, hoje com 60 anos e há 45 trabalhando e frequentando a praça. Atualmente, o sexagenário só vai ao Centro de passagem. Os filhos e netos é que tomam conta do negócio, que ao todo são sete carrinhos de pipoca que circulam pelo Centro de Fortaleza. “A gente era trazido aqui dentro [apontando para uma pequena porta na parte inferior da carrocinha de pipoca]. Vinha meu pai e minha mãe trabalhar e não tinha com quem deixar a gente, então ele trazia eu e meus dois irmãos também. Eu subia em cima do pneu da carrocinha e despachava. Só que eu não tinha noção de troco, de nada... Só

Loureiro, e o primo, Railson. Ambos dizem que não há coisa melhor do que trabalhar com o povão. “Aqui, a gente faz favor para as pessoas, tem gente que vai aqui na Loja Marisa e pede pra gente olhar as sacolas, porque já sabe que a gente fica fixo aqui. Pedem pra gente olhar bicicleta, pede um pouco de sal porque tá com a pressão baixa... Também dou muita informação. Se eu fosse cobrar por cada informação que eu dou aqui eu tava era rico! Mas a gente não acha ruim. Já estamos acostumados.”. Conta Railson, com muito entusiasmo. Toda a família mora na Barra do Ceará, mas vieram do Piauí. São onze “carroças” da família. Sete delas são usadas no dia a dia no Centro e as outras ficam guardadas para alugar em festas de crianças, aniversários e outros eventos. “Meu pai foi o fundador. Foi ele quem começou a fazer esses carrinhos. Meu pai ajudava também

sabia encher o saquinho da pipoca! [risos] Aí, fui crescendo e até hoje eu tô aqui!”, relembra Antônio Carlos. Antônio recorda que, quando criança, trabalhar na praça do Ferreira era bom. Ele descreve aquele tempo com um belo sorriso no rosto. “Naquela época era bom demais. A praça [do Ferreira] era diferente, essa rua era reta, as vendas eram boas. Não tinha tanto assalto como tem hoje, nem brigas.”. Revela ainda que o que mais gosta no Centro é o vento, que, para ele, é maravilhoso e não existe coisa melhor. “Se me chamassem pra trabalhar em outro lugar eu não iria. Aqui tem a minha história... Aqui eu já vi muita coisa, muitas pessoas, gente de todos os cantos.”, ressalta. Junto com Antônio, trabalha o irmão caçula, Augusto Carlos

o pessoal que vinha do interior pra cá e não tinha emprego. Aí, ele arrumava um carrinho pra eles irem trabalhar.”, explica Antônio. O sino da Praça do Ferreira marca 15 horas e lá está Francisco Pessoa, de 68 anos, que mora em Icó, interior do Ceará, mas que vem a Fortaleza de dois em dois meses. Aposentado há pouco mais de cinco anos pelo Banco do Brasil, Pessoa leva quatro horas e meia de viagem até a capital. Ele tem um apartamento no bairro de Fátima e, quando está aqui, vai à praça umas três vezes por semana desde quando se aposentou. “Fazer alguma compra, olhar as lojas, mas é mais para me divertir. Fugir um pouco de casa, me distrair... Aqui no Centro, a gente começa a conversar, fazer amizade. Eu acho que a população que Rostos & Ruas | 27


Seu Santinho, assim, conhecido pelos seus colegas, em frente a sua casa na Praça José de Alencarpelo menos três vezes na semana

frequenta a praça é uns 70% aposentado, como eu. Hoje, meu grupo não tá aqui, por isso estou isolado, mas geralmente, ficam uns cinco ou sete aqui conversando e o tempo passa rapidamente,”. Relata o aposentado. Francisco chega à praça do Ferreira por volta das 14:40h e retorna às 17 ou 17:30h. A conversa com os colegas, geralmente, é sobre política, economia e atualidades em geral. Para ele, a praça é um lugar que o relaxa, onde ele quebra a monotonia de dentro de casa, isso sem falar do clima ventilado. “Ah, não é gostoso? Parece que a gente está numa região fria! Bem diferente de Icó que uma hora dessas deve tá com uns trinta e dois graus.”, diz. O que mais lhe chama atenção na praça são os eventos que acontecem frequentemente. “Aqui sempre tem algum evento, exposição, demonstrações, eventos da prefeitura, ação social. É um lugar muito movimentado, um ponto de encontro, o acesso é fácil e tem muita gente que já é viciado em vim pra cá.”, informa. Muitos dos eventos citados por Francisco faz parte da ação Lazer e Cidadania – Estímulo à Ocupação Cidadã, realizada pela Prefeitura, como parte da estratégia de requalificação da área do Centro, cujo objetivo é estimular a ocupação cidadã dos espaços públicos. A programação conta com apresentações musicais, oficinas de reciclagem, feira de artesanato, atividades infantis (pula-pula, cama elástica), distribuição de mudas. Além de serviços de saúde ofertados pelo Núcleo de Educação em Saúde e Mobilização Social (NESMS) da Regional do Centro. Segundo a Regional, a atual administração municipal de Fortaleza tem se empenhado na realização de ações voltadas para a requalificação do Centro, especialmente para espaços de valor histórico na cidade. Em agosto de 2014, a Prefeitura anunciou um pacote de reformas para todas as praças do Centro, que faz parte do Projeto de Valorização e Ampliação da Infraestrutura e Atividade Turística (Provatur), de responsabilidade da Secretaria de Turismo de Fortaleza (Setfor). Está previsto que, em 2015, ocorram obras de revitalização do Centro-Histórico de Fortaleza, que contarão, além da reforma de todas as praças (o que inclui a do Passeio Público), com a restauração de dez prédios históricos e a padronização das calçadas. Os recursos, de R$ 1,1 bilhão, são da prefeitura em parceria com o CAF - Banco de Desenvolvimento da América Latina.

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Augusto Carlos, vendedor do carrinho de pipoca mais antigo da Praça do Ferreira

Mas, nem tudo são flores no Centro de Fortaleza. Cláudio Tavares, 38 anos, mora na rua. Muito conhecido como Seu Santinho, trabalha de vigia nas bancas da Praça José de Alencar, onde mora atualmente, com um barraco dentro da praça. Desde criança trabalha no Centro de Fortaleza, fazendo reciclagem. Hoje, continua com a reciclagem, mas também faz artesanato para vender na Praia de Iracema. Não há um levantamento sobre a população de rua localizada especificamente no Centro. Porém, no último dia 3 de dezembro, a Prefeitura de Fortaleza, por meio da Secretaria Municipal de Trabalho, Desenvolvimento Social e Combate à Fome (Setra), divulgou dados preliminares do Censo e Pesquisa Municipal sobre População em Situação de Rua. Segundo o estudo, 1.718 pessoas estão em situação de rua na capital. Destes, mais de 50% estão no entorno do Centro. O estudo foi realizado pelo Centro de Treinamento e Desenvolvimento da Universidade Federal do Ceará (UFC), em parceria com o Fórum de Rua. Apesar da vida humilde, Seu Santinho tem a arte no sangue. Umas das coisas de que ele mais gosta no Centro é o Centro Cultural do BNB, que fica na Avenida Conde Deu, e o Vila das Artes, na Rua 24 de Maio. “Lá, tem cinema de graça, festival de reggae...”, conta. Separado, seu santinho tem duas filhas que moram no bairro Conjunto Esperança. O que faz hoje, com a reciclagem e venda de artesanato, dá apenas pra se manter. Para ele, o Centro é um lugar de calmaria. Ele conta que já foi para outros lugares, mas acaba sempre voltando. Mas, reclama o fato de a Praça José de Alencar ser sempre esquecida. “Tudo de bom vai para a Praça do Ferreira, aqui na Praça José de Alencar é tudo esquecido. A praça é morta, diferente da do Ferreira que tem vida.”, fala com indignação. Mas, de acordo com a Regional, há um projeto de reforma da Praça José de Alencar – fruto de parceria entre a prefeitura e o governo do estado – que já foi aprovado e seguirá para licitação. Com um investimento de cerca de R$ 9 milhões, o projeto prevê a requalificação da praça, com troca de piso, implantação de nova iluminação, fontes, novo mobiliário urbano e paisagismo. A previsão de início das obras depende da finalização do processo licitatório, que pode acontecer no primeiro semestre de 2015. É bem possível que a reforma aconteça e a praça ganhe nova estrutura. Resta saber o que acontecerá com a casa de Seu Santinho.


Do buraco ao beco Os dois comércios de grande movimento no Centro que atrai pessoas de todos os lugares, devido à grande variedade e o preço baixo

Feira do Buraco da Gia, em frente a Catedral

Lojas do Beco da Poeira

Por Leidiane Cavalcante

C

oncentram-se no Centro os dois comércios têxteis mais movimentados de Fortaleza, o Beco da Poeira e o Buraco da Gia. Acessórios e roupas são a atração do local, os lugares são os mais recomendados para quem é de Fortaleza e quem vem de fora para compra em atacado ou à unidade. O preço baixo e a diversidade de opções encantam o formigueiro de gente que frequenta as feiras de segunda a sábado. Mas, o que será que atrai tantas pessoas para esses locais, a mercadoria ou o preço? Para muitos, os produtos vendidos nas feiras são melhores do que os das lojas do Centro, pois a qualidade é a mesma e sai mais em conta, apesar de ser à vista. É o que diz Samylli Nóbrega, 31, cliente há anos do Beco da Poeira, onde compra por unidade para ela e a família. Ela afirma que os produtos são de qualidade e o preço está sempre bom. Sempre com grande movimento, o que diferencia um lugar do outro parece ser somente o nome. O Beco da Poeira – que lembra mais um labirinto, estreito e apertado – está sempre aglomerado de mercadorias e gente, que sai de lá com diversas sacolas e bolsas sempre cheias, a maioria de roupas. Mas, o espaço oferece algo além de confecções em geral, diversos acessórios e produtos eletrônicos. Uma forma de atrair os

clientes que ficam muito satisfeitos. Já o buraco da Gia é literalmente um buraco. A feira, que abre de madrugada, toma o lugar de um estacionamento que funciona durante o dia. Com barracas de um lado para o outro, a maioria das vendas é para pessoas de outros estados que vêm comprar para revenda. No buraco, acessórios de todos os gostos e confecção tomam conta das bancas que estão distribuídas no local, cada uma com uma mercadoria diferente. Para o vendedor Paulo Ricardo Santos, 30, que mora em Maracanaú, trabalhar no Centro é bom. Há um ano comercializando na feira do Buraco da Gia, trabalha com revenda porque para ele sai mais barato, e isso diferencia o seu ponto de venda para outro. Segundo Paulo, as vendam sobem 100% no período de novembro e dezembro, e também nos dias das mães. O crescimento é grande e a cada dia esses comércios estão inovando para manter a boa clientela, especialmente a que vem de fora em busca de algo diferente. É o que atrai Clementina Vieira, 58, comerciante que sempre vem da Paraíba comprar em Fortaleza. O Beco da Poeira é o seu ponto favorito, pois a mercadoria agrada a todos que ela vende. “Aqui as roupas são diferentes, lá na Paraíba não tem nada parecido ou semelhante com

o que eu levo.”, ressalta. O Beco da Poeira, hoje, está concentrado em um galpão que fica na Av. do Imperador, 546, próximo a estação do metrô. É formado por 22 estreitos becos com um total de mais de 2.100 boxes. Fundado em 1991, antes se localizava em um terreno baldio na Praça José de Alencar e era visto como um dos locais mais perigosos do Centro. Com o projeto da Prefeitura “Reconquistando o Coração da Cidade”, o lugar foi demolido, dando um novo ambiente para a Praça. Hoje com 23 anos, o Centro de Pequenos Negócios (CPN) Beco da Poeira e como o maior centro comercial popular de Fortaleza. Já o Buraco da Gia, que acontece em um estacionamento e parece mesmo um buraco, está localizado ao lado da Catedral, na Rua São José, s/n. Seu diferencial é o horário, pois a feira começa de madrugada quando todo Centro está fechado e vai até de manhã nos dias de quarta, sexta, sábado e domingos. Quem vê pela primeira vez estranha a quantidade de pessoas que frequenta o lugar. Tudo acontece quando o Centro já está fechado e as luzes da Catedral já estão acessas. O local é mais frequentado por pessoas de outros estados que vêm para cá aproveitar os preços baixos que vão da roupa aos acessórios.

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Religião

O Centro da fé Atualmente, o bairro possui seis igrejas católicas, três evangélicas e diversas pessoas com um jeito diferente de acreditar

Por Juliana de Paula

Catedral de Fortaleza

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Q

uem disse que no Centro de Fortaleza não há fé? Por trás do corre-corre do dia a dia, há sempre um tempinho para orar para Deus, pedir interseção de Nossa Senhora e até acreditar que as energias positivas podem melhorar a vida de cada um. O Centro abriga a Arquidiocese do Ceará, ou a Igreja da Sé. Ela foi criada em 1853, onde, naquela época, a população era quase totalmente católica. Segundo documentos históricos arquivados na própria arquidiocese, ela foi criada por um decreto do Imperador Dom Pedro II. O recenseamento de 1888 registrava apenas 150 protestantes e uma dúzia de judeus. A cidade de Fortaleza, que constava na época cerca de 9.000 habitantes, tinha ligado à Diocese 34 paróquias. O número de igrejas era de 78 e o de capelas 11, em toda a província do Ceará. A Diocese do Ceará foi elevada a Arquidiocese de Fortaleza, em 10 de novembro de 1915 e o primeiro bispo da Diocese foi Dom Luís Antônio dos Santos. Nos dias de hoje, a Catedral recebe fiéis de vários lugares, mas a maioria é apenas pessoas que estão de passagem ou turistas que param para tirar fotos da igreja que também é um ponto turístico. As igrejas católicas do Centro são as mais antigas da capital. A mais antiga de Fortaleza é a Igreja do Rosário, localizada na Praça dos Leões. Ela foi construída em 1742 e possui o estilo Barroco. Lá, abre todos os dias das 7h às 16h e a maioria dos frequentadores são pessoas que trabalham por perto e aproveitam o horário do almoço para rezar um pouco. Um fato que despertou curiosidade de muitas pessoas foi a descoberta de cinquenta e quatro cadáveres de antigos escravos enterrados abaixo do piso da igreja, por volta de 1740. A descoberta aconteceu em 2001, quando foi realizada uma reforma para trocar o piso por cerâmica. Mas, a Igreja do Rosário, embora faça parte da história de Fortaleza por ter sido a primeira da capital, não é muito visitada pelos turistas e pelos fiéis devido à fama do lugar ser perigoso, afirma Paulo César, responsável pela conservação do patrimônio da paróquia há 14 anos. Ele afirma que a Igreja do Rosário é rica em história, mas não atrai muitas pessoas por causa do local que foi, segundo ele, “dominado por marginais de rua”. Ele afirma que ao redor da igreja e da praça moram aproximadamente 285 pessoas em situação de rua, cuja maior parte do grupo é usuária de droga. Ele também comenta que só em 2014 foram quatro assaltos à mão armada durante a missa.

Catedral de Fortaleza

Igreja d Rosário, Praça dos Leões

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A Universal do Ceará

igreja Universal do Reino de Deus

A igreja evangélica Universal do Reino de Deus está localizada na Avenida Tristão Gonçalves, próximo à Praça José de Alencar, e é a igreja sede não somente de Fortaleza, mas de todo o Ceará. Ela já existe há 12 anos e foi escolhida para ficar no Centro, por ser uma área de referência para muitas pessoas. A igreja comporta quatro mil pessoas e há cultos que chegam a receber cerca de cinco mil fiéis. Isabe do Nascimento é obreira há oito anos e relaciona o seu trabalho, que é de vender perfumes, com o serviço à igreja. Ela disse que mesmo trabalhando por conta própria e sendo voluntária na igreja, está todos os dias no Centro de Fortaleza, porque se sente bem. “Um obreiro é um voluntário a serviço da igreja que se dispõe a ajudar as pessoas a se decidir a encontrar Deus na vida delas. Nós não damos o prato feito, mas damos a receita para aqueles que parecem estar perdidos; uma chance de serem felizes.”, conclui Isabe. A evangélica ainda comenta que qualquer pessoa pode entrar na igreja e procurar ajuda, seja qual for o problema, financeiro, amoroso ou de saúde. “Ajudamos as pessoas a vencerem o medo delas e deixar Jesus entrar em suas vidas, assim como Ele entrou na minha.”, conclui.

A fé na energia positiva Toni Nunes, vendedor de “Filtro dos Sonhos”

Igreja São Bernardo, Rua Senador Pompeu, 1206

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Mas, quem disse que para ter fé é necessário ter religião? O hippie, Toni Nunes, é vendedor de bijuterias e as considera como amuletos de sorte. Toni é do Maranhão, mas há oito anos descobriu que se identifica com a cidade de Fortaleza. Desde então, passou a trabalhar por conta própria na Praça José de Alencar. Um dos seus principais produtos é o filtro dos sonhos. Segundo ele, o filtro dos sonhos é um amuleto que atrai energias positivas. “Além de estar na moda, as pessoas acreditam mesmo na energia desse símbolo. Eu acredito muito também.”, ressalta. As ciganas também trazem esperança para aqueles que creem no que as mãos revelam. As peregrinas de saias rodadas coloridas não têm um ponto fixo, mas vira e mexe estão pelas praças do Centro, contribuindo para um lugar cheio de fé.

IGREJAS CATÓLICAS NO CENTRO: Catedral Metropolitana de São José Endereço: Rua Sobral, S/N, Centro. Horários de missas: segunda a sábado ao meio dia - Domingos: 10h30min, 12h, 18h30min e 20h. Igreja Nossa Senhora do Rosário Endereço: Praça General Tibúrcio (Praça dos Leões) - Horários de missas: Todos os dias, exceto aos sábados: 07h20min. Paróquia e Santuário São Benedito Endereço: Avenida do Imperador, 1165, Centro. - Horários de missas: segunda a sábado 18h20min. - Aos domingos: 7h e 18h. Igreja Nossa Senhora do Patrocínio Endereço: Rua Guilherme Rocha, 536 – Centro. (Praça José de Alencar) Horários de missas: Segunda a sexta 7h, 9h, 12h, 15h e 17h. - Aos sábados: 7h, 9h, 12h e 15h30min. Aos domingos: 17h. Paróquia Nossa Senhora do Carmo Endereço: Praça do Carmo, S/N, Centro. Horários de missas: Terça a sábado 07h30min, 15h30min e 17h30min. - Aos domingos: 8h, 10h e 16h30min. Igreja do Sagrado Coração de Jesus Endereço: Av. Duque de Caxias, S/N, Centro. Horários de missas: As segundas: 7h e 18h. Terça a sábado: 7h, 16h e 18h. Aos domingos: 7h, 08h30min, 16h e 18h. IGREJAS EVANGÉLICAS NO CENTRO: Assembleia de Deus - Templo Central Endereço: Rua Tereza Cristina, 665, Centro. Horário de cultos: sextas-feiras 7h às 9h; Domingos: 18h às 20h. Igreja Internacional da Graça de Deus Endereço: Av. Tristão Gonçalves, 151, Centro. Horário de cultos: Quartas e sextas às 7h, 9h, 12, 15h e 19h. - Aos domingos: às 7h, 10h, 13h e 18h. Igreja Universal do Reino de Deus Endereço: Av. Tristão Gonçalves, 613, Centro. Horários de cultos: Segunda à Sábado: culto às 06h30min, 8h, 10h, 12h, 15h e 19h. Segunda-feira: Reunião Congresso Financeiro Terça-feira: Congresso da Saúde Quarta-feira: Reunião de Vida Espiritual Quinta-feira: Terapia do Amor Sexta-feira: Corrente de Libertação / Vigília da Meia Noite (às 0h) - Sábado: Jejum das Causas Impossíveis - Domingo: Reunião completa (7h e 09h30min)


Na Linha do Tempo

A revista Rostos & Ruas convida você a uma viagem no tempo... Nossa linha do tempo vai te levar ao Centro pouco conhecido para muitos, e muito conhecido para outros. Com fotos antigas traçamos uma caminhada onde você poderá relembrar, ou mesmo imaginar algumas das transformações mais famosas desse belíssimo local. São fotos antigas do tempo em que, ao lado de um riacho, um pequeno forte foi construído, e de lá, uma Fortaleza erguida. Uma Praça com um belo jardim, que ficou conhecida como um dos pontos mais

populares da cidade quando o Passeio Público era a diversão da sociedade fortalezense. Quem não se lembra do Romcy, uma das maiores lojas de departamento dos anos 1980. Ou mesmo o terminal rodoviário da Praça do Ferreira. Sem falar de clássicos como o Teatro José de Alencar, Cine São Luiz, e o glorioso Hotel Excelsior. Uma viagem pelas imagens de um Centro que deixou saudade...

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Cotidiano

Uma Noite Diferente Para quem não sabe, no Centro também encontramos diversão. Desde um simples churrasquinho aos exóticos cines pornôs, é possível encontrar uma vida noturna diferenciada nesta parte de Fortaleza Por Leyliane Mariano conhece bem seus clientes. Eles costumam chegar, se sentar e, muitas vezes, Gil já sabe até qual vai ser o pedido de churrasco ou a música preferida de cada um.

Lions Bar

M

ais um longo dia de trabalho termina no Centro de Fortaleza, ao pôr do sol as lojas começam a fechar suas portas. Enquanto isso, novas formas de comércio se preparam para iniciar mais uma longa noite de trabalho. Nos pontos de ônibus, pequenas churrasqueiras e isopores carregados de bebidas se instalam. Pessoas param, comem e bebem, encontram amigos e, principalmente, relaxam. São os famosos happy hour, ou melhor, hora feliz, uma forma de diversão que vem se espalhando entre os frequentadores locais. Nas noites de segunda à sexta das 17h às 22h encontramos Gildeci Garcia, o conhecido “Gil”, no Calçadão C Rolim, na Rua Pedro Borges. Empurrando um carrinho todo adesivado com o nome “Espetinho do Gil”, é dali que o churrasqueiro tira o sustento da 34 | Rostos & Ruas

família, com um valor mensal de aproximadamente 1.500 reais. Trabalhando há mais de 8 anos como churrasqueiro no mesmo lugar, Gil conta que “o espetinho” tem um grande movimento, mas a sexta sempre é o melhor dia. “Tem dia que na semana é bom, mas sexta é sexta”, declara o comerciante. Segundo Gil, tem gente que nem é do Centro, mas frequenta seu ponto. “Aqui, tem gente que vem lá do Castelão”, orgulha-se. Os frequentadores do “Espetinho do Gil” preferiram não se identificar, mas de acordo com alguns depoimentos, alguns disseram que não custa nada sair do trabalho, dar uma parada e beber uma cervejinha com os amigos. Comentaram também que se sentem à vontade no local, porém não ficam até muito tarde, pois é muito perigoso ficar no Centro depois das dez da noite. Gil

Também encontramos no Centro alguns lugares conhecidos como cult, ou seja, adeptos da cultura popular. E o Lions Bar é um exemplo desse estilo que poucas pessoas sabem que existe por lá. O Lions Bar fica localizado na Rua do Rosário em frente à Praça dos Leões e funciona de segunda à quinta das sete às 19h; nas sextas até às 22h. Já nos finais de semana, até as 17:00. Mas, para quem quer curtir uma boa música o ideal é ir após as 16h. Com pouco mais de 20 anos de existência, a fachada antiga revela um bar estilo anos 40, com mesas e cadeiras espalhadas pelas calçadas. Dentro do local, pessoas conversam sobre vários assuntos, enquanto a música embala mais uma noite de sexta-feira. No segundo andar, pessoas jogam baralho enquanto os garçons rodam de um lado para o outro, em buscar de servir todos os frequentadores. “As noites do Lions são movimentadas por pessoas de todas as classes sociais que muitas vezes saem até de outras cidades para jogar conversar fora, apreciar uma boa música e tomar uma bebida”, diz o gerente, Marciano Sousa, 35 anos, que trabalha há 15 anos no local.

O Bar dos Carlos No bar localizado na Praça dos Leões, há um couvert do Rei Roberto Carlos. Imitando o artista há pouco mais de 40 anos, Carlos Braga, 60, é fã de Roberto Carlos. “Fui


Bar na Rua Assunção esquina com Rua Pedro I

dade. Esse corredor é um corredor cultural”, afirma.

Diversão discreta

adotado por um orfanato. Comecei a cantar Roberto Carlos e fiquei fã do cantor”. Declara o artista fã, que já viajou para vários locais fazendo couvert do ídolo. No Lions, trabalha há quatro anos e as pessoas gostam. Carlos conta que nos seus shows tem de garotada a gente mais velha, até porque de Roberto Carlos “todo mundo gosta”, comenta Carlos. Já Carlos Silva, 50 anos, é artista plástico, de Barbalha, e frequenta o bar há mais de 20 anos. “Eu gosto desse bar pela paisagem da praça. Esse lugar faz parte da história da cidade, e eu me identifico com a arquitetura dos prédios ao redor. Aqui é um coração onde pulsa a boemia, onde se encontram os artistas. Virou um point de intelectuais, políticos e outros seguimentos da socie-

O pouco movimento no quarteirão entre a Avenida Duque de Caxias e a Rua Clarindo de Queiroz, precisamente na Rua Major Facundo, esconde um cinema diferente. Mas, homens entram e saem daquela fachada luminosa. Com os pôsteres fixados nas paredes, podemos perceber a principal atração apresentada naquelas “salas escuras”: filmes pornôs. Apesar dos cartazes, a discrição é mantida desde a entrada, uma porta com um pouco mais de meio metro de largura. Com 20 anos de existência, o Cine Erós funciona todos os dias da semana. Nas segundas e terças até as 22h, de quarta a domingo, o cinema funciona 24 horas. A sessão custa apenas cinco reais e os dias mais movimentados são as sextas, sábado e domingos. “À tarde, a procura é bem maior do que pela manhã ou à noite.”, completa Regina Lucia, recepcionista e ex esposa do dono do local. Com o dono, são quatro pessoas trabalhando no cine, duas pela manhã e uma à noite. Regina, contou que lá dentro existem várias salas individuais e é da recepção que eles fazem as trocas dos filmes. Com uma média de 200 pessoas por dia, o cine, também atende com serviço de bar, vendendo cerveja, refrigerante e água, além é claro, das sessões de filmes pornográficos.

Os principais frequentadores são homens de 30 até 60, mas há mulheres sozinhas e casais que vão ao local. Regina revela que o período do ano mais procurado é pós-carnaval. “Você pensa que as pessoas voltam lisas e abastecidas, mas não! Depois do carnaval o cinema é muito bem frequentado.” Mas, eles não sabem de onde os clientes vêm, simplesmente pagam e entram. “Tem cliente assíduo, que vem várias vezes no mesmo dia”, fala a recepcionista.

Aparente Calmaria O pouco movimento dos carros e das pessoas faz o clima do Centro de Fortaleza um lugar aparentemente tranquilo à noite. É possível observar pessoas dormindo nos bancos das praças, catadores de lixo recolhendo o material que sobrou das lojas, flanelinhas disputando os carros que ainda rodam o local, vigias observando o movimento das ruas e pessoas saindo ou entrando no trabalho. A boemia não deixa de fazer parte da essência do local. Porém, a primeira percepção que temos ao andar à noite pelo Centro é de insegurança, talvez pela falta da agitação do comércio durante o dia ou até pelo frio que vem da noite. “Me sinto insegura quando saído do trabalho após as 21 horas. Talvez, por não ter aquele alvoroço que há durante o dia. É como se tivesse só eu e Deus na rua”, conta a coordenadora, Gabriela Rocha. Claro que é uma sensação complemente diferente, num ritmo que só quem já viveu pode descrever.

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Perfil

Não tem preço que pague A vida de uma senhora que há mais de trinta anos veio do Maranhão para tentar trabalhar em Fortaleza e que ganhou muito mais do que trabalho no Centro da capital cearense Por Juliana de Paula

“Meus pais já se foram e meus irmãos foram todos morar em São Paulo. Somos quatro irmãos. Os outros parentes que eu tenho são do Maranhão, que foi a terra que eu nasci, mas eu não pretendo ir pra lá não. Prefiro Fortaleza mesmo.”

Dona Cotinha. Assim, Clotilde da Silva é conhecida por muitos que passam pela Rua General Bezerril, em frente à Praça da Polícia, no Centro. Uma pessoa humilde, um pouco desconfiada, que quase não nos dizia o seu verdadeiro nome, mas que transparece o amor que tem pelo seu trabalho e pelos amigos que fez ao longo dos seus trinta e um anos sendo camelô, no mesmo lugar do Centro de Fortaleza. Dona Cotinha tem sua banca na calçada do edifício da Secretaria de Finanças de Fortaleza (SEFIN). Ela abre a banca de segunda a sábado, a partir das oito da manhã e fica até as seis da noite. Todo dia pela manhã, carrega sua mercadoria – panos de prato, calcinhas, sutiãs, sabonete de aroei-

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ra, mel, ervas de chá, entre outros produtos naturais – que guarda em lugar ali perto, que paga mensalmente. A camelô monta a sua mesa, de uns dois metros de largura, com o maior prazer do mundo, recebendo sempre os clientes e os amigos com muita satisfação. O orgulho pelo trabalho que faz e pelo lugar que vai todos os dias é notório em suas palavras, no olhar e zelo pela banca. Mas, como mora sozinha e já conseguiu adquirir alguns bens com o próprio suor como a casa própria, não revela muitos detalhes da sua vida. Tem medo “de golpes”. A trabalhadora autônoma mora no bairro José Walter, em Fortaleza, mas nasceu no Maranhão. Dona Cotinha, que

também não gosta de dizer sua idade, demonstra uma grande experiência de vida. A quantidade de pessoas que a querem bem e o apego que ela tem pelo seu ponto no Centro nos deixam claro o quanto é apegada a sentar-se todos os dias naquele banquinho de plástico. Conhecemos Dona Cotinha, através de comentários de pessoas que trabalham perto dela. Disseram que ela é muito querida por todos que a conhecem. Foi assim que, ao som de uma música antiga, que vinha de uma banca de vinil na Praça da Polícia, entrevistamos Dona Cotinha, que só se sentiu mais confortável com a nossa presença depois que compramos, com dez reais, quatro panos de prato na sua banca.


“Trabalhar dá outra vida, né? Ninguém pode amanhecer o dia esperando as coisas caírem do céu. Tem que trabalhar.”

Rostos & Ruas - Dona Cotinha, por que a senhora veio para Fortaleza e como? Em 1983, bem nova, eu vim do Maranhão pra Fortaleza. Eu não digo minha idade pra ninguém, porque hoje em dia... Não tô dizendo que vocês fazem isso, mas basta dizer a idade que eles estão fazendo cartão no nome da gente... Mas, eu já era de maior quando saí de lá... Eu vim sozinha, pra estudar e trabalhar em casa de família. Terminei o segundo grau, mas não arranjei emprego, porque naquela época era tudo muito difícil. Aí, resolvi trabalhar pra mim mesma. Eu também não queria mais trabalhar em casa de família...

cos aqui nesse ponto. Hoje em dia, graças a Deus, tenho minha casa e minhas coisas com o meu trabalho.

Rostos & Ruas – E quando a senhora chegou, conseguiu o que esperava? Eu andava procurando emprego aqui no Centro, mas era muito difícil. Três meses depois que eu tava trabalhando em casa de família, eu já estava abusada! Já eram oito anos trabalhando assim... Aí eu já queria trabalhar por conta própria. Eu tinha um amigo, um senhor que tinha uma banca de frutas. Eu morava num sítio e ele tirava as frutas dessa casa e vendia numa banquinha ali [apontando para a esquina da Praça da Polícia]. [Ele] que disse que emprego tava muito difícil... e realmente naquela época, em 83 [1983], era muito difícil. Aí, ele disse que se fosse eu, montava uma banquinha de camelô. Aí eu disse: é mesmo?! Então, comecei aos pou-

Rostos & Ruas – A senhora tem algum sonho? Eu pago meu INSS e já já vou me aposentar. O que eu quero é que Deus me dê muitos anos de vida e que eu continue trabalhando com muita saúde até eu me aposentar. Trabalhar dá outra vida, né? Ninguém pode amanhecer o dia esperando as coisas caírem do céu. Tem que trabalhar.

Rostos & Ruas – Como é a sua vida fora do trabalho? Tem família, filhos? Sou desquitada e não tenho filhos. Eu sempre evitei, teve uma época que eu até queria, mas eu já tinha mais de 40 anos e não podia mais. Meus pais já se foram e meus irmãos foram todos morar em São Paulo. Somos quatro irmãos. Os outros parentes que eu tenho são do Maranhão, que foi a terra que eu nasci, mas eu não pretendo ir pra lá não. Prefiro Fortaleza mesmo.

Rostos & Ruas – Que tipo de clientes a senhora atende aqui no Centro? Os clientes aqui variam muito, vêm pessoas de todos os lugares. Na Copa do Mundo, peguei cliente que veio bem de longe. Aqui eu também já vendi diversas coisas, mas sempre nesse mesmo ponto. Hoje em

dia, tem muito mais camelô do que antigamente, mas também as pessoas compram mais, porque todo mundo tem emprego fácil. Até quando sai do emprego tem direito a receber alguma coisa, ao contrário de camelô, que se não trabalhar não ganha nada. Só ganha se trabalhar. Rostos & Ruas – Como é o seu relacionamento com as pessoas desse lugar? Eu gosto de ser camelô. Já tô há mais de trinta anos aqui e conheço muita gente. Aqui [na calçada do prédio da SEFIN], eu já passei por várias administrações e cada um que entra e que sai são todos meus amigos e isso é que é importante. Porque senão, eu não trabalhava aqui há 30 anos. O camelô de rua tem que ter o cadastro e o apoio do dono do prédio. Pra eu trabalhar aqui eu dependo das pessoas e eu tenho apoio de todo mundo, tanto de um lado, como do outro. Rostos & Ruas – O que lhe incentiva a vir todos os dias para o Centro de Fortaleza? Eu prefiro a minha amizade daqui. Tenho saudade de muitos amigos que trabalharam aqui perto. Já tive muitos amigos que também era camelô e já morreram. A convivência que me fez ter tantos amigos como eu tenho. E também, agradeço a Deus pela minha saúde e poder todo dia amanhecer o dia e ter alguma coisa pra fazer na vida.

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Leyliane Mariano é graduanda em jornalismo e assessora de comunicação da Sobi Imóveis.

ESPELHOS Acuma é?

A

receptividade do povo cearense é sem dúvida muito empolgante, e as expressões, aqui usadas, formam uma diversidade cultural muito forte. No Centro de Fortaleza não poderia ser diferente. Os dialetos usados pela nossa gente chamam atenção de qualquer pessoa que não é acostumada com palavras como: abestado, baldear, canelau ou empiriquitar. Quem anda por aqui e não conhece o famoso cearencês - que já rendeu um dicionário popular com as expressões faladas pelos cearenses - fica perdido, ou melhor, “ariado”. Essa diversidade de palavras e expressões é divertidíssima e traz para o povo uma singularidade que impressiona qualquer turista. O sotaque do cearense faz com que essas palavras fiquem ainda mais “ispilicutes”, engraçada, pois a mistura do vocabulário com a forma de falar cantando, como dizem as pessoas de fora, demonstra uma peculiaridade, que só cabe a nós cearenses, “cabras da peste”. Vamos combinar no Ceará e em Fortaleza, as pessoas são meio “abirobadas”, malucas mesmo. Temos, por exemplo, a mania de usar o “não” para confirmar algo. Veja só: “Vai trabalhar?”“Vou não!”. Outra cu-

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riosidade é nossa a única vaia é em “i”, “Ieiiiiiiiiiiiiiiiiiiii”. Como pode isso?! São inúmeras as curiosidades da fala do povo cearense e essa identidade é que faz com que os adeptos da língua consigam se identificar com mais facilidade. Porém, existe um preconceito muito grande em relação a essa diversidade na nossa maneira de falar. Pessoas que desconhecem a cultura e as tradições da região adoram “mangar” e ridicularizar o nosso vocabulário. Isso nos deixa com muita raiva, “fumando numa quenga”, eu diria. Esses, preconceituosos esquecem que da mesma forma que eles acham divertida a forma como falamos, nos também achamos uma “comédia”, quando eles falam conosco. E no fundo todo isso não passa de uma “Marmota!” E assim vamos levando e fazendo escola. Até as mídias sociais também já estão usando o cearencês. Suricate Seboso quem o diga, estão usando de forma humorada, o nosso cotidiano e os nossos costumes, prezam pelo linguajar puxado do nordeste brasileiro. “Fazendo hora”, gozam com o dia a dia das pessoas que aqui vivem.


Fortaleza Praça do Catedral Ferreira emde novembro de 2014 – Foto tirada do 15º andar do Edifício Portugal

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MESSEJANA EM FOCO NA PRÓXIMA EDIÇÃO 40 | Rostos & Ruas


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