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THE HIDDEN MAG #37 | OUT 26

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01 02 03 18 27 36 45 DANIEL FURLAN 57 69 79 82 87 93 104 SUMÁRIO + STAFF

CARTA DO EDITOR

GALERIA

PERFIL GRIFE

MÚSICA ANTCONSTANTINO

MODA ISA LUCENA

GASTRONOMIA LUCAS CASERTANI

EM DESTAQUE LATINO RUA , NO ALTO E ADEUS + VAL’S Colunistas | Ana Ximenes (@anaximenes) Bernardo Ancillotti (@bernardo.anci), Edu Carneiro (@eduurs),

NEWS

SHOTGUN

Comix Curadoria: Leonardo Luz (@uleozin)

COLUNAS

EDITORIAL AWAY DAYS BRASIL COMIX

Esta revista é um projeto Spread® Design Studio

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Ei, pessoal Ufa, que mês, hein? Se você não ficou maluco e em psicose política durante os últimos dias, com certeza nós

Na capa, trouxemos Daniel Furlan, músico, humorista,

não estamos vivendo no mesmo mundo. Felizmente,

escritor, roteirista e ator, que transformou personagens

tivemos um final feliz, elegemos Lula mais uma vez e

caricatos e diálogos aparentemente despretensiosos em

podemos respirar aliviados pelos próximos quatro anos

uma das expressões mais reconhecidas do humor

de democracia garantida. Além de todo esse surto,

brasileiro contemporâneo. Paralelamente, Furlan

outubro também marca o aniversário de 6 anos da

manteve uma relação constante com a música,

revista. Tivemos uma trajetória sinuosa até aqui, mas da

retomada de maneira mais intensa durante a pandemia

qual temos muito orgulho! Estamos vivendo uma nova

com o projeto Tropical Nada.

fase agora em São Paulo, e espero que daqui pra frente só tenhamos motivos para comemorar. Vida longa ao

Em Gastronomia, Lucas Casertani narra como sua

corre independente!

experiência com criação e identidade visual se desdobrou em uma nova carreira na gastronomia,

A edição 37 começa com a Galeria recheada de obras

unindo memórias familiares, técnica e estética para criar

de arte selecionadas por Marcos Mendonça. No Perfil,

experiências gastronômicas exclusivas. Já Em Destaque,

apresentamos Grife, stylist e músico que constrói uma

falamos sobre o a collab do artista Nunk1adeus e Vals

identidade criativa transformando vivências, referências

Fingerboard, a última edição da festa No Alto e a nova

e experimentações em diferentes formas de expressão.

coleção de tênis da Latino Rua. Em seguida, você pode

Em Música, ANTCONSTANTINO divide como construiu

conferir as seções Shotgun, News e Colunas. No

a sua carreira a partir do rock, hardcore e da cultura

Editorial, compartilhamos o resultado da campanha

underground com muita autenticidade. Depois, em

“Away Days”, que fizemos para a Umbro (modéstia à

Moda, Isa Lucena conta sobre a tradição familiar da

parte, ficou lindo demais! Obrigada, equipe!).

costura e sua experiência com roupas sob medida em

Finalizamos com as artes da seção Comix.

uma moda que combina alfaiataria, estética minimalista Boa leitura e até a próxima!

e peças pensadas para diferentes corpos.

Laura Mansur - Editora Chefe

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GALERIA

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PERFIL | GRIFE

PERFIL: GRIFE Nascido e criado na Zona Norte do Rio de Janeiro, Lucca D'Saint

bairros de Rocha Miranda e Honório Gurgel, na Zona Norte da

encontrou na música o primeiro caminho para explorar sua

cidade. Criado pela mãe, que assumiu grande parte das

criatividade, antes de descobrir na moda um universo de

responsabilidades familiares depois da separação dos pais, teve uma

possibilidades profissionais. Da carreira como modelo ao trabalho

infância marcada por brincadeiras e por uma curiosidade que se

nos bastidores de produções e campanhas, passando pelo rap e pela

manifestava de diferentes maneiras. Embora se descreva como uma

criação da Kidz, o artista construiu uma trajetória marcada pela

criança agitada e bagunceira, lembra que tinha facilidade com os

curiosidade e experimentação.

estudos e gostava de explorar assuntos que despertavam sua imaginação, entre eles os dinossauros.

Conhecido artisticamente como Grife, o carioca construiu sua identidade a partir do contato com diferentes ambientes culturais,

A relação com o pai, por outro lado, foi atravessada por momentos

transitando entre as ruas do Rio de Janeiro, os encontros da cena

de ausência, mas também por experiências culturais que acabariam

independente do rap e os bastidores do mercado de moda

tendo uma influência importante sobre seus interesses. Ligado à

paulistano. Embora essas experiências tenham acontecido de

boemia e ao samba, ele proporcionou alguns dos primeiros contatos

maneira simultânea em determinados momentos, cada uma delas

de Lucca com ambientes musicais, além de estimular sua relação com

contribuiu de forma particular para sua formação, permitindo que

a leitura. Enquanto a mãe precisava concentrar esforços no trabalho e

desenvolvesse um repertório que hoje utiliza tanto na construção de

na criação dos filhos, os encontros com o pai apresentavam outras

imagens quanto em suas composições musicais.

possibilidades de convivência e repertório. “Fui criado pela minha mãe, que é mãe solo desde que eu era muito novo. Meu pai saiu de

As origens

casa e sempre foi uma pessoa bem ausente na minha vida, mas, ao

Nascido no Rio de Janeiro, Grife cresceu principalmente entre os

mesmo tempo, foi alguém que me apresentou muito do que eu cultivo

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PERFIL | GRIFE

Modelando para Campanha global Spotify

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PERFIL | GRIFE

até hoje, principalmente musicalmente. Nas poucas vezes em que

Janeiro havia limitado seu contato com determinados espaços, e a

estava com ele, eu sempre estava nesses ambientes de samba, e isso

aproximação com a música abriu possibilidades de circulação que

aflorou bastante o meu lado musical”, relembra.

ultrapassavam as fronteiras de sua região. “Eu comecei a frequentar as batalhas e a conhecer essa galera quando muita coisa ainda

Outra influência decisiva veio do filho de seu padrinho, que considera

estava se formando. Boa parte das pessoas que a gente vê hoje nem

um primo. Mais velho, o rapaz participava de uma banda de rock e

imaginava o que ia acontecer depois, mas já estava todo mundo ali

apresentou a Grife artistas e grupos que faziam parte de seu universo,

acompanhando, ouvindo, participando. E foi através dessa conexão

como Forfun, Strike e Matanza. Foi também por intermédio dele que

com o rap que, em determinado momento, comecei a fazer música

conheceu os Racionais MC's, depois de assistir a um DVD do grupo,

com amigos que fui conhecendo nesse meio”, conta.

experiência que despertou um interesse mais profundo pelo rap brasileiro. Naquele período, o acesso à internet ainda era limitado.

A música também contribuiu para que Lucca construísse novas

Sem computador em casa, Lucca aproveitava as visitas à família do

relações sociais em um período de questionamentos pessoais.

padrinho para pesquisar músicas, descobrir artistas e explorar

Durante a adolescência, enfrentou dificuldades de identificação com

referências que não encontrava facilmente em seu cotidiano. A

o ambiente escolar e com parte das pessoas de seu convívio,

possibilidade de acessar novos conteúdos transformou a maneira

especialmente quando seus interesses culturais começaram a se

como compreendia a cultura, especialmente quando começou a

distanciar daqueles predominantes em seu entorno. O contato com

perceber que existiam cenas artísticas organizadas para além dos

outros grupos e espaços mostrou que existiam caminhos diferentes

ambientes que frequentava.

dos que conhecia até então.

O rap como primeiro caminho artístico

Essa percepção permanece importante na maneira como interpreta

Por volta dos 15 anos, Lucca começou a frequentar batalhas de rima e

sua própria trajetória. Para ele, o acesso à cultura e à educação,

encontros ligados ao hip-hop no Rio de Janeiro, aproximando-se de

dentro e fora das instituições de ensino, desempenha um papel

espaços como a Batalha do Real, na Lapa, e a Batalha do

fundamental na ampliação das possibilidades individuais, sobretudo

Conhecimento, associada ao MC Marechal. Mais do que

para jovens que crescem em regiões com menos oportunidades de

acompanhar apresentações, esses encontros permitiram que

circulação e contato com diferentes manifestações artísticas.

conhecesse pessoas com interesses semelhantes e percebesse a música como uma atividade que poderia desenvolver por conta

A descoberta da moda

própria.

Embora a música tenha sido sua primeira forma de expressão artística, a moda começou a despertar seu interesse ainda durante a

A experiência aconteceu em um momento de transformação do rap

adolescência, principalmente por meio da observação de

nacional, quando diferentes artistas e coletivos começavam a

videoclipes, filmes e artistas que acompanhava. Inicialmente, Lucca

construir novas linguagens e a ampliar as possibilidades de

se interessava pelas roupas, combinações e maneira como

circulação de suas produções. Para Grife, participar dessa

determinados visuais ajudavam a construir a identidade de um

movimentação significava acompanhar de perto um cenário ainda

personagem ou músico, sem compreender completamente o

em formação, no qual muitos dos nomes que posteriormente

trabalho necessário para produzir aquelas imagens.

alcançariam reconhecimento estavam apenas começando suas Com o tempo, passou a perceber que a moda envolvia uma estrutura

trajetórias.

profissional muito mais ampla do que imaginava, reunindo Além disso, convivência com esses grupos também representou uma

fotógrafos, stylists, produtores, diretores criativos, maquiadores e

mudança importante na sua relação com a cidade. Crescer em

diferentes especialistas. Curiosamente, apesar de demonstrar

bairros afastados do circuito cultural mais conhecido do Rio de

interesse pelas atividades realizadas atrás das câmeras, sua primeira

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PERFIL | GRIFE

Styling Campanha Copa do Mundo CNS 2026

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PERFIL | GRIFE

oportunidade concreta de ingressar nesse mercado aconteceu como

Aos poucos, Grife passou a desenvolver atividades relacionadas à

modelo.

produção de moda e ao styling, acumulando experiências de quem sabia também como era estar na frente das câmeras. Essa dupla

O início dessa trajetória remonta a aproximadamente 2016, quando

perspectiva se tornou um diferencial em sua atuação, já que saber na

começou a deixar o cabelo crescer e aceitou a sugestão de uma

prática como era vestir as peças e ser dirigido durante um ensaio fez

amiga para descolori-lo. A intenção inicial era pintar os fios de azul,

com que ele tivesse uma consideração maior não apenas com o

mas ambos gostaram do resultado da descoloração e decidiram

resultado estético das combinações, mas também com a relação com

mantê-lo daquela maneira. A mudança visual despertou a ideia de

o corpo, o movimento e a personalidade de quem as utiliza.

realizar algumas fotografias com uma câmera semiprofissional. “Foi depois dessas fotos que criei meu Instagram e comecei a chamar a

O trabalho com styling também ampliou sua atenção para a pesquisa

atenção de algumas pessoas da moda. Naquela época, tudo era

visual. Referências de cinema, música, animação e cultura urbana

muito orgânico, então as coisas foram acontecendo naturalmente”,

passaram a ser utilizadas de maneira mais consciente, contribuindo

explica.

para o desenvolvimento de propostas que combinam elementos de diferentes universos.

Os primeiros trabalhos aconteceram com marcas cariocas, até que Lucca chamou a atenção da Squad Brasil, agência de São Paulo que

Atualmente, Grife concentra boa parte de sua atuação profissional no

buscava ampliar a representação de diferentes perfis no mercado de

styling, especialmente por meio do trabalho de assistência realizado

modelos. A aproximação permitiu que começasse a realizar trabalhos

ao lado de Fernanda Ary, com quem participa de produções e

por intermédio da agência enquanto ainda morava no Rio de Janeiro.

campanhas. A rotina envolve atividades que começam muito antes da

Em 2018, veio a primeira viagem profissional a São Paulo para

chegada ao set, incluindo a organização de peças, a preparação de

participar da Fashion Week, experiência que representou uma

looks e a busca por materiais necessários para cada trabalho.

mudança importante em sua trajetória. O contato com o mercado paulistano ampliou sua rede de relacionamentos e o aproximou de

Quando está em ação, seu interesse está ligado à possibilidade de

profissionais que atuavam em diferentes áreas da moda, fazendo com

transformar peças existentes em composições inesperadas,

que a cidade se tornasse progressivamente parte de sua rotina.

explorando sobreposições, proporções e relações entre diferentes materiais. Ao mesmo tempo, o stylist demonstra uma preocupação

Experiências nos bastidores da moda

crescente com a funcionalidade das roupas, questionando a distância

A experiência diante das câmeras permitiu que Lucca conhecesse a

que muitas vezes separa a imagem produzida para um editorial das

dinâmica profissional das produções de moda, mas também

possibilidades reais de utilização daquele visual. “Eu gosto muito de

confirmou um interesse que já existia desde seus primeiros contatos

fazer essas coisas, de brincar com sobreposições e transformar uma

com videoclipes e editoriais: compreender como as imagens eram

peça em outra. Só que, ao mesmo tempo, sei que algumas dessas

construídas. Ao acompanhar diferentes trabalhos como modelo,

construções não funcionariam na vida real. A pessoa não conseguiria

passou a observar com atenção as decisões relacionadas ao figurino,

simplesmente sair na rua usando aquilo, porque teria dificuldade até

às combinações de peças, à direção de poses e à maneira como

para se movimentar. Então tenho sentido cada vez mais vontade de

roupas e acessórios contribuíam para comunicar uma determinada

trabalhar com coisas palpáveis, que as pessoas possam usar no dia a

proposta visual. Com isso, a convivência com equipes criativas

dia, mas que continuem sendo interessantes. Não precisa ser uma

ampliou seu repertório e abriu espaço para que começasse a

peça extremamente cara ou extravagante para ser incrível”, observa.

participar de outras etapas do processo também. Essa reflexão também se relaciona com seu desejo de trabalhar A transição para o trabalho nos bastidores aconteceu gradualmente,

futuramente com figurino para cinema e televisão, especialmente em

sem que precisasse abandonar completamente a carreira de modelo.

produções que permitam desenvolver roupas vinculadas à

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PERFIL | GRIFE

Assistência de Styling especial de natal com a Menina Veneno

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PERFIL | GRIFE

personalidade dos personagens e ao contexto das histórias, sem

Confortável”, música que reuniu de maneira explícita as referências

depender exclusivamente de construções fantasiosas.

de moda e as experiências pessoais que começavam a orientar suas composições. O videoclipe alcançou dezenas de milhares de

O músico

visualizações de maneira orgânica, contribuindo para que seu

Embora sua trajetória profissional na moda tenha se consolidado ao

trabalho circulasse entre artistas e ouvintes ligados à cena do rap.

longo dos anos, a música permaneceu como uma atividade paralela e uma das principais formas de expressão pessoal de Lucca. Antes de

A construção musical de Grife também se diferencia pela importância

adotar o nome Grife, assinava suas composições como LC, período

atribuída às narrativas, uma vez que o artista gosta de desenvolver

em que sua produção estava mais próxima das referências de boom

histórias utilizando personagens, acontecimentos e referências

bap e das vivências compartilhadas com outros jovens ligados ao rap

culturais como ponto de partida para suas composições. “Eu tenho

carioca. Nessa época, as primeiras letras abordavam experiências

uma coisa de que não consigo me desapegar, que é o lance das

cotidianas, situações observadas nos bairros em que cresceu e

crônicas, gosto de contar historinhas nas músicas. Pouquíssimas

questões relacionadas à marginalização dessas vivências. Ao mesmo

músicas minhas são versos soltos, porque geralmente existe uma

tempo, seu repertório musical já incluía gêneros como trap e grime,

história que estou desenvolvendo, e algumas até se interligam. Acho

que começavam a conquistar maior espaço entre artistas brasileiros.

que isso vem muito do samba, porque os sambistas são cronistas natos, têm uma capacidade incrível de construir histórias”, afirma.

A aproximação com a moda provocou uma transformação importante em sua escrita. Em vez de abandonar as referências de

Nos últimos tempos, sua pesquisa sonora passou a se concentrar

origem, Lucca passou a incorporar às composições as experiências

especialmente no G-funk (abreviação de gangsta funk), subgênero

que vivia nos dois ambientes, construindo uma linguagem em que

do hip-hop associado à Costa Oeste dos Estados Unidos e

roupas, marcas, desfiles e elementos do universo fashion apareciam

caracterizado pelo uso de sintetizadores, melodias marcantes e

ao lado das referências da rua e da cultura hip-hop. “Eu comecei a

influências do funk norte-americano. A proposta representa um

mesclar esse lance da moda com as minhas vivências, e isso trouxe

desejo antigo de explorar uma sonoridade que considera

uma perspectiva muito diferente para o cenário naquela época.

fundamental para a história do rap, mas que ainda encontra poucos

Enquanto muita gente estava falando sobre os mesmos temas, eu

produtores especializados no Brasil.

queria mostrar outra coisa. Eram dois mundos que faziam parte da minha vida, então comecei a trazer isso para as músicas”, explica.

O universo da Kidz A criação da Kidz representa outra dimensão da trajetória de Grife,

A mudança de linguagem coincidiu com a adoção definitiva do nome

relacionada ao desejo de desenvolver projetos coletivos e construir

Grife, apelido que havia surgido de maneira espontânea durante sua

uma marca própria. A ideia surgiu durante a gravação do videoclipe

convivência com outros artistas. Entre brincadeiras e expressões

de “Top Boys”, de BK', quando Lucca estava reunido com amigos que

utilizadas pelo grupo, Lucca chegou a usar o nome Grifenoia nas

compartilhavam interesses por moda, arte e produção audiovisual. A

redes sociais, até que o rapper BK' começou a chamá-lo de “menino

partir daí, uma referência ao filme “Kids”, de Larry Clark, despertou a

Grife”, fazendo com que a expressão se espalhasse entre os amigos.

possibilidade de utilizar aquele nome para representar um grupo de

Com o tempo, o apelido deixou de ser apenas uma maneira informal

jovens criadores. “A Kidz inicialmente era um coletivo artístico que

de identificação e passou a representar uma proposta artística. Ao

unia várias vertentes voltadas para moda e arte visual. Cada um fazia

refletir sobre o significado da palavra, Lucca encontrou na associação

uma coisa muito específica, e a ideia era reunir essas pessoas para

com marcas de luxo e objetos de desejo uma possibilidade de

construir projetos juntos, tirar ideias do papel, produzir videoclipes e

construir uma imagem que despertasse curiosidade.

desenvolver coisas desde o zero. Eu queria criar uma identidade ligada à rebeldia da juventude, aos nossos desejos de infância e à ousadia de querer fazer coisas diferentes”, relembra.

O primeiro single lançado oficialmente sob o nome Grife foi “Bonito e

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PERFIL | GRIFE

Desfile ums458 na Casa de Criadores

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PERFIL | GRIFE

A proposta original, entretanto, não se desenvolveu como planejado.

passou a observar a diversidade de estilos presentes nas ruas, a

Com o afastamento de alguns integrantes e a dificuldade de conciliar

arquitetura e a relação entre as pessoas e os espaços urbanos. “Eu

interesses e disponibilidades, o coletivo acabou se dissolvendo antes

sou uma pessoa muito observadora. Gosto de estar na rua vendo as

de consolidar uma produção contínua. Lucca decidiu, então,

pessoas, percebendo a beleza das coisas e da vida acontecendo”.

preservar a ideia e transformá-la em uma marca de roupas. Utilizando recursos acumulados em seus trabalhos na moda, investiu

Aos 28 anos, Grife reconhece que um dos pontos altos da sua

na produção de um primeiro lançamento.

trajetória é a possibilidade de frequentar ambientes que, durante a infância, pareciam completamente inacessíveis, como realizar um

A experiência revelou dificuldades que ultrapassavam a criação das

trabalho com Dilma Rousseff, trabalhar com marcas nacionais e

peças. Sem investidores ou uma estrutura administrativa, precisou

internacionais e frequentar ateliês de estilistas como Reinaldo

conciliar as necessidades da marca com as próprias despesas, o que

Lourenço. “Eu nunca imaginei viver nada disso. Hoje entro no ateliê

dificultou o reinvestimento dos valores obtidos com as vendas. “Eu fiz

do Reinaldo Lourenço para escolher roupa e continuo achando

tudo sozinho, não tive investimento financeiro de ninguém. Depois

aquilo muito doido. Vejo pessoas no meu meio para quem isso já

que comecei a vender, tentei guardar a grana, mas também precisava

virou uma coisa completamente normal, mas, para mim, não é. Não

pagar minhas contas, então não consegui manter o dinheiro da

cresci imaginando que trabalharia com moda, não tive familiares

marca separado. Tive ajuda de pessoas próximas em várias coisas,

nesse mercado nem acesso a esses lugares. Então tudo isso continua

mas financeiramente era eu por mim mesmo, e isso foi muito difícil”.

sendo muito mágico. Cada momento tem um significado enorme”.

Apesar de a Kidz não ter avançado para novos lançamentos, Lucca

Quando fala sobre os próximos anos, o principal desejo do artista

não descarta retomar a experiência no futuro. Sua visão, entretanto,

envolve a conquista de estabilidade financeira, autonomia

mudou consideravelmente desde a criação do projeto. Hoje,

profissional e condições para ajudar a família. “Eu sonho muito, mas

demonstra maior interesse por peças elaboradas, materiais especiais

meu foco principal é conseguir estabilidade. Quero poder ajudar

e construções ligadas à alfaiataria, incluindo camisas, jaquetas e

minha mãe, ajudar minha família e fazer minhas coisas sem ficar

calças que reflitam um repertório mais maduro.

preocupado com o dia de amanhã. Quero evoluir no styling até conseguir ter autonomia e desenvolver cada vez mais trabalhos meus.

Repertório que atravessa diferentes linguagens

Estou caminhando para isso, mas ainda não cheguei ao lugar em que

A convivência entre música e moda continua sendo uma

gostaria de estar”, afirma.

característica central do trabalho de Grife, especialmente porque suas referências não se limitam às produções diretamente

Mais do que alcançar um destino específico, Grife parece interessado

relacionadas a esses mercados. Capas de álbuns, fotografias, filmes,

em preservar a liberdade de continuar construindo caminhos

animes, arquitetura e cenas observadas nas ruas fazem parte de um

diferentes. A música, a moda e os projetos autorais aparecem como

repertório que alimenta sua atuação criativa.

manifestações de uma mesma necessidade de criar, observar e transformar referências em possibilidades. “Não gosto de pensar em

Quando pesquisa música, por exemplo, Lucca costuma observar não

um caminho só e passar a vida inteira mirando naquilo. A vida é feita

apenas as composições, mas também a direção visual dos projetos,

de momentos, e nada garante que eu não possa realizar vários

incluindo capas, cores e fotografias. O interesse por animações

sonhos em fases diferentes. Quero continuar criando, construindo

japonesas também aparece na maneira como pensa roupas, poses e

coisas com pessoas de quem gosto e vendo essas pessoas crescerem

personagens, sobretudo quando encontra referências que combinam

também. Meu maior sonho é conseguir viver bem e ver todo mundo

elementos fantásticos com peças próximas do vestuário cotidiano.

que amo vivendo bem, com mais estabilidade e menos

Além disso, a cidade de São Paulo, onde mora atualmente, ocupa um

preocupações. É isso que me mantém forte e com vontade de

lugar importante nesse processo. Frequentando a capital paulista,

continuar seguindo em frente”, conclui.

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ANTCONSTANTINO Autenticidade e irreverência na música underground FOTOS POR IZABELA CUNHA

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MÚSICA | ANTCONSTANTINO

Do rock e do funk que marcaram sua infância em Duque de Caxias à

jovem transitou por diferentes vertentes do rock, do metalcore ao

construção de uma linguagem própria dentro do grime, o DJ,

hardcore, aproximando-se da cultura punk e do movimento straight

produtor e diretor criativo transformou referências aparentemente

edge, cujas ideias de autonomia, colaboração e produção

incompatíveis em uma trajetória atravessada pela colaboração e pela

independente ajudaram a moldar sua maneira de trabalhar.

vontade de continuar surpreendendo a si mesmo. Ao mesmo tempo, o funk carioca fazia parte de sua formação Entre as conquistas que Antônio Constantino acumulou ao longo da

cotidiana, seja pelos bailes, pelos DVDs da Furacão 2000 ou pelas

carreira, uma das mais importantes não aconteceu diante de uma

músicas que circulavam entre os jovens de Caxias. Enquanto alguns

pista lotada, mas dentro de casa, quando conseguiu proporcionar à

amigos se interessavam principalmente pelas dançarinas, Antônio

mãe um espaço maior e mais confortável do que aquele em que os

acompanhava atentamente as coreografias de grupos como Os

dois haviam vivido durante quase três décadas. Embora tenha

Hawaianos e Os Ousados, fascinado pela precisão dos movimentos

participado da consolidação do grime brasileiro, construído uma

e pela capacidade de transformar ritmo em expressão corporal.

rede de colaboradores que ultrapassa as fronteiras do país e realizado uma turnê de três meses pela Europa, o artista nascido na

A convivência entre esses universos também influenciou sua

Baixada Fluminense encontra na transformação da realidade familiar

aparência: cabelos compridos, unhas pintadas, roupas associadas

uma medida especialmente significativa de sucesso.

ao rock e uma relação desinibida com a dança fizeram com que enfrentasse provocações desde cedo. Essa experiência, em vez de

Para ele, a possibilidade de viver da própria criatividade não se

afastá-lo das próprias referências, fortaleceu sua disposição para

resume à liberdade de produzir música, viajar ou trabalhar com seus

experimentar. Artistas como Michael Jackson, Beyoncé e Oli Sykes,

ídolos, mas também representa a oportunidade de modificar uma

vocalista do Bring Me the Horizon, ocupavam espaços igualmente

história marcada por limitações econômicas e pela necessidade

importantes em seu imaginário, demonstrando que a identificação

constante de trabalhar. “Eu morei durante 27 anos em uma casa que

com determinado universo cultural nunca precisou significar a

era muito menor do que a casa em que moro hoje. A gente vivia ali

rejeição de outro. “Eu sempre fui muito livre com essas coisas. Tinha

normalmente, mas, depois que conseguimos nos mudar, comecei a

cabelo grande, pintava unha, gostava de rebolar, dançava Beyoncé e

perceber como aquele ambiente acabava afetando a gente. Minha

ouvia metal. As pessoas faziam piada, mas eu nunca liguei muito. Eu

mãe veio da Bahia para trabalhar, para mandar dinheiro para a

admiro um dançarino da mesma forma que admiro um produtor

minha avó e ajudar a sustentar os irmãos. Ela passou a vida inteira

musical, porque existe muito treino, concentração e técnica naquilo.

trabalhando e nunca conseguiu comprar uma casa própria. Acho que

Acho que essa liberdade acabou aparecendo em tudo que faço”,

chega um momento em que a pessoa começa a acreditar que aquela

explica.

realidade é tudo que merece, e eu quero mudar isso. Meu sonho é chegar a um ponto em que minha mãe não precise trabalhar para ter

ANTCO

dinheiro, que ela possa fazer alguma coisa simplesmente porque

Antes de se reconhecer como DJ ou produtor musical, Antônio

gosta”, conta.

encontrou na moda uma maneira de transformar suas referências em algo concreto. A relação com o merchandising de bandas,

A história de Antônio começa justamente no encontro entre a herança

especialmente as camisetas de heavy metal dos anos 1980 e 1990,

baiana da família materna e a efervescência cultural do território

despertou seu interesse pela criação de estampas e pelo

carioca onde cresceu e desenvolveu boa parte das relações que

desenvolvimento de uma identidade visual própria. Em 2014,

sustentam seu trabalho atualmente. Uma das figuras fundamentais no

começou a produzir as primeiras peças da ANTCO, marca que

processo de construção de repertório foi o tio Fernando, responsável

inicialmente funcionava de maneira inteiramente artesanal: ele

por apresentá-lo a bandas como Metallica e Slayer e despertar seu

comprava os tecidos, preparava as telas, desenvolvia as artes e

interesse pelo universo do rock pesado. Durante a adolescência, o

realizava as estampas em casa.

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MÚSICA | ANTCONSTANTINO

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MÚSICA | ANTCONSTANTINO

A experiência, entretanto, ofereceu uma formação prática que

combinação de elementos que dialogava diretamente com seus

ultrapassava o vestuário. Ao aprender a transformar uma ideia em

interesses: batidas agressivas, MCs de grande presença vocal, forte

produto, administrar pequenas tiragens e construir uma relação

relação com o território e uma cultura construída a partir da

direta com o público, Antônio desenvolveu habilidades que

autonomia de seus participantes. O gênero também apresentava um

posteriormente seriam fundamentais para seus lançamentos

modelo de produção e circulação que fazia sentido para alguém

musicais. A ANTCO também se tornou uma extensão de sua

acostumado a desenvolver projetos com poucos recursos, utilizando

personalidade, permitindo explorar imagens sombrias, referências

as ferramentas disponíveis e contando com a colaboração dos

religiosas, símbolos associados ao ocultismo e a estética provocativa

amigos.

que havia conhecido através do rock. Para ele, essas escolhas não representam necessariamente uma posição religiosa, mas fazem

A criação do Brasil Grime Show representou uma das primeiras

parte da construção de um universo artístico capaz de despertar

oportunidades de transformar esse interesse em uma plataforma de

curiosidade, estranhamento e diferentes interpretações. “Eu gosto

alcance mais amplo. Ao lado de colaboradores como diniBoy, Lucas

muito de criar esses misticismos em torno das coisas. Pode ser uma

Sá, Rennan Guerra e Diego Padilha, Antônio participou da

cruz de cabeça para baixo, uma fotografia em um cemitério, uma

construção de um projeto dedicado a registrar apresentações de MCs

espada ou alguma referência ao Black Sabbath. Acho interessante

sobre instrumentais de grime, contribuindo não apenas

como as pessoas começam a inventar histórias a partir dessas

musicalmente, mas também com a identidade visual, a direção

imagens”, comenta.

criativa e a concepção estética dos episódios. O programa ajudou a aproximar artistas, ampliar a circulação do gênero e apresentar ao

Com o passar dos anos, a ANTCO ganhou uma estrutura de

público brasileiro uma linguagem que ainda encontrava poucos

produção mais profissional, embora tenha preservado a lógica de

espaços de visibilidade.

tiragens limitadas. Atualmente, Antônio costuma trabalhar com prévendas de aproximadamente 40 a 80 camisetas, produzindo apenas

Com o crescimento da iniciativa, entretanto, Antônio passou a sentir

as quantidades necessárias e disponibilizando posteriormente as

que os processos de aprovação e a estrutura de trabalho limitavam

peças remanescentes. A decisão combina preocupação com o

sua espontaneidade criativa. Acostumado a desenvolver uma ideia e

excesso de produtos colocados no mercado, valorização da

colocá-la em prática rapidamente, percebeu que desejava

exclusividade e uma exigência crescente em relação aos materiais e

concentrar seus esforços em projetos nos quais tivesse maior

acabamentos. A marca também passou a realizar colaborações com

liberdade de decisão. “Eu sou muito de ter uma ideia e querer fazer na

artistas e projetos ligados à música, como KBrum, Maui e Brasil Grime

hora. Quando começa a existir muita aprovação, muita gente

Show.

precisando decidir tudo, fico frustrado. E chegou um momento em que pensei que queria dedicar meu tempo aos meus amigos, às

Música como profissão

pessoas que estavam comigo desde o começo. Tenho muito orgulho

Embora a criação de roupas já ocupasse parte importante de sua

do Brasil Grime Show, porque ajudamos a criar uma coisa que vai

rotina, Antônio ainda precisava conciliar os projetos independentes

continuar existindo por muitos anos. Mas precisava seguir meu

com o trabalho formal como estoquista. Com o tempo, a

caminho e descobrir o que conseguiria fazer com mais liberdade”.

participação em festas, a produção de beats e o contato com artistas de diferentes cenas foram abrindo caminhos que inicialmente

A pandemia acabou acelerando essa transformação. Depois de

pareciam difíceis de transformar em profissão.

perder o emprego formal, Antônio passou a dedicar mais tempo à produção musical, às transmissões pela Twitch e ao desenvolvimento

A aproximação com o grime aconteceu em um momento em que

de projetos independentes dentro de casa. O contexto também o

Antônio já acumulava referências do rock, funk, rap e da cultura

levou a experimentar novas formas de remuneração, como a venda

independente. Ao descobrir a sonoridade britânica, reconheceu uma

direta de músicas pelo Bandcamp e a comercialização de um

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MÚSICA | ANTCONSTANTINO

catálogo digital de produções. Em um período marcado pela

jovens da cidade acompanham seus projetos e reconhecem sua

instabilidade, essas iniciativas demonstraram que seria possível

trajetória, ele identifica uma responsabilidade de continuar abrindo

construir uma renda a partir de diferentes atividades criativas, sem

caminhos para novos artistas. A intenção não é apenas levar o nome

depender exclusivamente de apresentações presenciais.

de Caxias para outras cidades, mas contribuir para que os próprios moradores reconheçam as possibilidades criativas existentes no território.

A força da colaboração A criação da Leigo Records, um selo criativo, surgiu inicialmente de uma tentativa de aproximar o público brasileiro da cultura dos discos

Uma sonoridade entre a dança e o caos

de grime. Antônio queria importar vinis de selos estrangeiros e

A identidade musical de Antônio foi se consolidando justamente a

comercializá-los a preços mais acessíveis, mas os custos envolvidos

partir da recusa em separar suas referências. Em seus trabalhos, a

tornaram a proposta difícil de sustentar. Enquanto buscava

energia corporal do funk encontra a agressividade do rock, enquanto

alternativas, começou a receber contatos de produtores

elementos do grime, do drill e de outras vertentes da música

internacionais interessados em lançar músicas no Brasil, circunstância

eletrônica são reorganizados de acordo com sua sensibilidade. A

que transformou gradualmente a ideia original em um selo musical.

mistura aparece tanto na escolha dos instrumentais quanto nas

O projeto ganhou novos contornos à medida que amigos e

texturas sonoras, frequentemente mais ásperas e menos polidas do

colaboradores passaram a participar das produções, da

que aquelas associadas a produções comerciais. Para ele, a

comunicação e da organização dos lançamentos.

assinatura artística não está necessariamente em uma técnica específica, mas na combinação de experiências que formaram sua

Para além de ser uma gravadora convencional, a Leigo se

maneira de escutar e produzir música. “Acho que minha assinatura é a

desenvolveu como uma rede de apoio entre artistas e profissionais de

maluquice e a falta de medo. É a junção da parte dançante do funk

diferentes áreas. O que começou em um grupo de WhatsApp, no qual

com a parte caótica do rock”, define.

produtores se ajudavam a organizar lançamentos e aproveitar oportunidades de venda direta, tornou-se um coletivo que reúne

Essa abordagem também orientou a evolução de sua discografia.

músicos, designers, jornalistas e outros colaboradores. Antônio

Projetos como “Death Drop” evidenciaram o interesse pela

assumiu naturalmente uma função de articulação, conectando

construção de um lançamento completo, no qual capa, conceito e

pessoas, identificando necessidades e encontrando soluções para

colaborações tinham tanta importância quanto o instrumental. Em

que projetos fossem concluídos, mesmo quando não existiam

“Drill Apology”, Antônio aproximou beats de drill das referências do

recursos financeiros disponíveis. “Eu sei produzir, sei fazer arte, mas

funk proibidão que acompanhavam sua adolescência, explorando

não sou o melhor em tudo isso. O que faço muito bem é juntar

semelhanças sonoras e narrativas entre contextos aparentemente

pessoas. Se alguém chega e fala que quer lançar um EP, eu pergunto o

distantes. Já em trabalhos com KBrum, Maui e outros artistas,

que está faltando. Precisa de capa? Precisa de distribuição? Precisa

desenvolveu uma compreensão mais ampla da produção musical,

de alguém para fazer release ou mandar a música para os DJs? Aí a

percebendo que sua contribuição poderia envolver curadoria de

gente vê quem consegue ajudar. A Leigo surgiu dessa ideia de reunir

instrumentais, direção criativa e organização de um projeto, mesmo

amigos que gostam de trabalhar juntos e que estão dispostos a ajudar

quando não fosse responsável pela criação de todas as batidas.

o trabalho uns dos outros”, explica. A preocupação com a experiência visual e física também aparece em Essa lógica também está profundamente relacionada ao sentimento

seu projeto de álbum em vinil, desenvolvido a partir de instrumentais

de pertencimento a Duque de Caxias. Durante a juventude, Antônio e

guardados desde aproximadamente 2019. Durante anos, Antônio

seus amigos enfrentavam a falta de espaços culturais que

decidiu não lançar aquelas músicas enquanto não tivesse condições

dialogassem com seus interesses, circunstância que os levou a

de transformá-las em um disco físico, reunindo posteriormente

organizar as próprias festas e movimentações. Hoje, ao perceber que

produtores que haviam inspirado sua criação e MCs brasileiros que

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MÚSICA | ANTCONSTANTINO

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MÚSICA | ANTCONSTANTINO

desejava ouvir sobre aquelas bases. A capa, baseada em uma

Hoje, embora reconheça o alcance de suas conquistas, Antônio

imagem histórica associada ao passinho carioca e reinterpretada em

continua enxergando a carreira como uma disputa consigo mesmo,

pintura, sintetiza a relação entre memória cultural, direção de arte e

na qual cada novo projeto representa a oportunidade de

música que atravessa seu trabalho. “Consegui reunir produtores que

experimentar algo que ainda não fez. Entre os próximos objetivos

me inspiraram a criar aquilo, convidar MCs de que gosto e

estão a conquista da casa própria e a construção de um estúdio. Ao

desenvolver uma capa que estava guardando havia anos. Para mim,

mesmo tempo, pretende preservar a liberdade de continuar

é uma sensação de vitória gigantesca. Acho que quem acompanha

dançando, criando roupas, fazendo música e frequentando os

meu trabalho entende essas nuances e vibra junto, porque sabe como

mesmos lugares de Duque de Caxias, sem transformar o

é difícil cada conquista dentro de uma cena tão nichada”, afirma.

reconhecimento em uma barreira entre sua vida cotidiana e as pessoas que acompanham seu trabalho. “Acho que praticamente

A Europa como ponto de virada

tudo que crio é para o meu eu adolescente. Pode parecer

Entre todas as experiências proporcionadas pela música, a primeira

egocêntrico, mas, se eu existisse como artista naquela época, acho

turnê europeia ocupa um lugar especial na memória de Antônio.

que seria fã de mim mesmo, porque são as mesmas referências e as

Durante aproximadamente três meses, o artista passou por seis

mesmas vontades. No fim das contas, minha carreira é uma disputa

países, conheceu pessoalmente referências que acompanhava havia

de mim comigo mesmo, para descobrir até onde consigo chegar. Se

anos e experimentou uma realidade que, durante boa parte da vida,

alguém tivesse aparecido do futuro e contado tudo que eu viveria

parecia inacessível. Em Londres, cidade central para a formação do

através da música, eu não teria acreditado. E acho que é isso que me

grime, chegou a morar durante um mês na casa de um fã, dividindo o

movimenta: continuar vivendo coisas que aquele garoto nunca

espaço com outras pessoas e vivenciando de perto a cultura que

imaginou que seriam possíveis”, conclui.

havia transformado sua trajetória profissional.

A experiência incluiu dificuldades com o frio, a comunicação e os deslocamentos, mas também ofereceu uma compreensão mais profunda sobre os contextos sociais e culturais que influenciaram sua música. A possibilidade de circular sozinho por Londres, conversar em inglês, frequentar festas e produzir beats ao lado de artistas locais representou uma conquista pessoal tão importante quanto as apresentações. Entre elas, uma se destacou particularmente: o set realizado no Berghain, em Berlim, espaço emblemático da música eletrônica internacional, onde Antônio encontrou a confirmação de uma identidade profissional que havia começado a construir anos antes. “Quando toquei no Berghain, foi como uma formatura. Queria saber se conseguiria movimentar uma pista em outro país, onde as pessoas não falavam minha língua e não conheciam necessariamente minha história. Quando terminei, parecia que eu ia voar, foi uma sensação absurda de dever cumprido, e eu tinha conseguido provar para mim mesmo que podia fazer aquilo em qualquer lugar”, relembra.

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MÚSICA | ANTCONSTANTINO

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ISA LUCENA Moda pensada para todos os corpos

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MODA | ISA LUCENA

Criada entre máquinas de costura, moldes e as histórias de uma

adaptação. Interessada por História, Matemática e, posteriormente,

família que encontrou no trabalho uma possibilidade de

Sociologia, era uma aluna dedicada, com poucos amigos próximos e

transformação, Isa Lucena construiu uma trajetória que atravessa a

uma personalidade que descreve como “firme”. O ambiente escolar,

alfaiataria, o streetwear e a defesa de uma moda capaz de vestir

assim como o edifício onde cresceu, ampliou seu contato com

diferentes corpos. À frente da marca que leva seu nome, a estilista

pessoas de outras classes sociais e reforçou uma característica que

revisita suas origens, os desafios de empreender e o processo de

continuaria presente em sua vida adulta: a vontade de construir as

aprender a reconhecer o próprio valor para além do trabalho.

próprias oportunidades sem depender de uma origem privilegiada. Nesse contexto, a independência feminina também ocupava um

A vontade de prosperar

lugar central nas referências familiares. A mãe e as tias trabalhavam,

Desde sempre, Isa Lucena já convivia com a moda de maneira

administravam suas responsabilidades e demonstravam, na prática, a

cotidiana, embora ainda não compreendesse que aquele universo

importância de conquistar autonomia financeira.

poderia se transformar em profissão. Na casa em que cresceu, em São Paulo, a sala também funcionava como espaço de trabalho da

A descoberta da moda como engenharia

mãe, uma costureira que havia deixado a Paraíba em busca de

Quando chegou o momento de escolher uma faculdade, a

oportunidades. O pai, que também havia migrado do Nordeste,

possibilidade de estudar Moda não apareceu imediatamente como

trabalhava como zelador de um edifício, circunstância que colocou

uma opção. Isa considerou Economia por acreditar que o curso

Isa, desde pequena, em contato com realidades sociais bastante

poderia reunir seus interesses por história, estruturas sociais e

diferentes da sua e contribuiu para construir uma percepção sobre

matemática, enquanto enfrentava a pressão familiar para escolher

trabalho, independência e possibilidades de futuro que mais tarde

uma profissão que justificasse o investimento financeiro dos pais.

atravessaria sua trajetória profissional.

“Meu pai falava: 'Olha, eu vou pagar sua faculdade, mas você sabe que não tenho condições. Então precisa escolher direito'. Era aquela

A convivência com a costura não significava, entretanto, que a

preocupação de fazer a escolha certa, porque não existia uma

menina estivesse destinada a seguir a profissão materna. A mãe fazia

condição financeira que permitisse ficar mudando de curso”,

questão de preservar sua liberdade de escolha e, embora produzisse

relembra.

roupas, fantasias de balé e até ursinhos de pelúcia, não se preocupava em ensinar a filha a costurar. Isa cresceu observando o

Na mesma época, entretanto, a jovem começou a pedir que a mãe

funcionamento daquele pequeno universo produtivo, mas quando

produzisse roupas para ela, despertando um interesse mais direto

pensava o que queria ser quando crescesse, a resposta era: ser dona

pelo desenvolvimento das peças. O obstáculo estava na imagem que

de alguma coisa. “Mesmo sem saber do que exatamente, eu sabia

associava à profissão de estilista, marcada, em sua percepção, por

que queria muito ser dona de alguma coisa. Lembro que ficava na

um ambiente de relações difíceis e por uma exigência de criatividade

cama, pegava vários papéis e começava a brincar como se estivesse

com a qual não se identificava.

administrando alguma empresa. Gostava muito dessa ideia de ter um A resposta para esse dilema surgiu durante uma pesquisa sobre as

negócio meu, mesmo sem saber exatamente o que seria”, recorda.

diferentes ocupações da indústria da moda, quando encontrou um Embora tenha estudado em escola particular com bolsa durante toda

vídeo de Alexandre Herchcovitch explicando o trabalho do modelista.

a educação básica, Isa reconhece que sua formação foi atravessada

Ao descobrir que existia um profissional responsável por transformar

por diferenças sociais que exigiram esforço e capacidade de

croquis e conceitos em estruturas concretas, reconheceu uma

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MODA | ISA LUCENA

Foto de campanha da Isa Lucena Ateliê

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MODA | ISA LUCENA

atividade que combinava sua familiaridade com roupas e sua

obrigatório em uma confecção de roupas femininas na área de

inclinação para o raciocínio técnico. “Ele explicou que existe uma

modelagem, mas permaneceu apenas pelo período necessário. Sua

profissão chamada modelista, que pega todo aquele conceito, o

principal experiência profissional continuou sendo o ateliê da mãe,

croqui, e transforma aquilo em uma construção possível. É a pessoa

onde começou a aplicar os conhecimentos adquiridos e a receber

que vai trabalhar com a engenharia da roupa. Quando ouvi aquilo,

encomendas próprias. Muitas das primeiras clientes eram mulheres

pensei: 'Cara, acho que é isso'. Lembro que foi naquele vídeo que

que a conheciam desde criança e que passaram a procurá-la depois

decidi fazer modelagem”, conta.

de saber que havia estudado Moda.

A graduação, então dividida entre Estilo e Modelagem, oferecia uma

As solicitações envolviam principalmente vestidos de formatura,

base comum de história, design e desenvolvimento de conceitos, mas

roupas de festa e peças sob medida, consolidando uma atividade que

permitia que os estudantes se aprofundassem em áreas técnicas

cresceu sem um planejamento inicial de marca. Isa chegou a

distintas. Isa se identificou imediatamente com a construção das

considerar trabalhar em outras empresas para ampliar sua

roupas, e percebeu que, na prática, mesmo sem saber operar uma

experiência, mas o volume de encomendas tornou essa possibilidade

máquina de costura antes da faculdade, demonstrou facilidade para

cada vez menos viável. Decidiu, então, cursar uma pós-graduação

compreender os processos.

em negócios para compreender melhor a administração do ateliê.

Essa descoberta também transformou sua relação profissional com a

A grande transformação aconteceu durante a pandemia, quando a

mãe. Enquanto a experiência materna havia sido construída

interrupção das atividades presenciais colocou em risco o

principalmente dentro de confecções e ateliês, por meio da

funcionamento de um negócio dependente de encomendas para

observação e da prática, Isa passou a levar para casa conhecimentos

ocasiões especiais. Diante da necessidade de encontrar novas

específicos sobre modelagem. “Eu chegava e falava: 'Mãe, olha isso

possibilidades de produção, Isa começou a desenvolver moletons,

aqui! Você sabia que dá para fazer dessa maneira?'. Ela tinha uma

inicialmente a partir de referências apresentadas pelos próprios

experiência enorme como costureira, mas não tinha tido tanto acesso

clientes. O trabalho acabou compartilhado em um grupo de

à parte dos moldes. Então começou uma troca muito legal, porque eu

streetwear no Facebook, ampliando inesperadamente sua

trazia o conhecimento técnico da faculdade e ela tinha toda aquela

visibilidade e apresentando a marca a um público que até então não

vivência prática”, explica.

fazia parte de sua rotina. “Meu primo falou: 'Isa, te colocaram em um grupo de streetwear'. E eu fiquei: 'Gente, o que é isso?'. Foi quando as

O interesse por história também encontrou espaço no trabalho de

coisas começaram a crescer e percebi que precisava pensar em

conclusão de curso, dedicado à maneira como a alfaiataria se

nome, identidade e posicionamento. Até então, meu Instagram tinha

transformou por meio do discurso feminista durante a década de

uns duzentos seguidores, que eram basicamente meus amigos. Não

1970. A pesquisa, inicialmente acompanhada pela produção de um

tinha noção de postagem, de marketing, de nada disso”, recorda. O

look, acabou resultando em três peças muito elogiadas pela banca

crescimento obrigou a empreendedora a desenvolver competências

avaliadora.

que não faziam parte de sua formação original e a reconhecer que seu trabalho já não se limitava à execução técnica das peças.

Do ateliê familiar à criação de uma marca A entrada de Isa no mercado de trabalho aconteceu de maneira

Entre o clássico e o streetwear

relativamente direta. Durante a graduação, realizou o estágio

A identidade visual da Isa Lucena também foi construída

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MODA | ISA LUCENA

Dust bags que acompanham os pedidos da marca

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MODA | ISA LUCENA

gradualmente. No início, as encomendas de moletons estavam muito

para o mercado, percebe que ainda existem poucas marcas que

relacionadas às modelagens oversized e às tendências que

oferecem uma grade realmente ampla, principalmente entre as

circulavam no streetwear. Isa admite que seu papel inicial era

marcas independentes. E até a minha grade hoje já considero

interpretar essas demandas e transformá-las em produtos, sem

pequena, porque os clientes continuam pedindo tamanhos maiores.

necessariamente desenvolver uma linguagem estética própria. Com o

Então fui entendendo que minha missão era atender cada vez mais

tempo, começou a incorporar seu interesse por roupas clássicas,

pessoas e não ter essa limitação”, afirma.

construções refinadas e peças que pudessem permanecer relevantes para além de tendências passageiras. “Comecei a pensar no que

A preocupação envolve também a precificação. Isa reconhece que

poderia trazer para deixar as peças mais refinadas. Então trouxe

uma calça tamanho 56 utiliza mais tecido do que uma tamanho 38,

muito do meu gosto pessoal, de gostar de roupas clássicas que a

mas procura incorporar essa diferença ao planejamento financeiro

gente consiga usar por bastante tempo. Acho que o minimalismo

sem cobrar valores distintos apenas pela numeração. Alterações

funciona melhor a longo prazo”, explica.

específicas de modelagem, que transformam uma peça em um projeto sob medida, podem ter outro preço, mas a proposta é evitar

Além de trabalhar com roupas unissex e ter uma clientela composta

que o tamanho do corpo determine automaticamente quanto o

majoritariamente por homens, Isa identifica na modelagem e na

cliente pagará.

qualidade dos materiais a assinatura mais reconhecida de seu trabalho. A escolha dos tecidos, os acabamentos e a maneira como

O conhecimento técnico também orienta sua resistência a soluções

cada peça veste são decisões que considera fundamentais para

que considera inadequadas, como peças anunciadas em tamanho

estabelecer confiança com o consumidor. Atualmente, a marca

único ou modelagens que tentam compensar diferenças corporais

mantém uma produção interna, realizada por uma equipe fixa de

por meio de amarrações e ajustes improvisados. A experiência do

quatro pessoas, com apoio pontual de outros profissionais e

ateliê com reformas de roupas permite observar problemas de

familiares quando a demanda aumenta.

caimento que poderiam ser evitados durante o desenvolvimento. “Às vezes, a pessoa coloca um botão para ajustar uma calça, mas fica

O funcionamento continua fortemente associado à produção sob

uma quantidade enorme de tecido dobrado atrás. Não adianta

demanda. Os produtos são apresentados no site, mas parte

resolver uma medida e comprometer todo o resto. É preciso pensar na

significativa das encomendas é produzida após a compra,

construção, na proporção e em como aquela roupa vai funcionar no

normalmente com prazo de uma semana para envio. Os

corpo”, argumenta.

lançamentos acontecem por meio de drops maiores no final do ano e durante o inverno, intercalados com novidades menores a cada um

A imagem da criadora

ou dois meses. A quantidade produzida é ajustada conforme a

Apesar de aproximadamente 80% dos consumidores da marca serem

procura, evitando estoques excessivos e desperdício de materiais.

homens, Isa é a principal pessoa a apresentar os produtos nas redes sociais. Tímida fora do ambiente profissional, começou a aparecer

Vestir diferentes corpos como propósito

nos conteúdos quando percebeu que sua presença aumentava o

Se a construção técnica define a identidade dos produtos, a

engajamento e as vendas. A experiência adquirida no atendimento

ampliação do acesso a diferentes tamanhos tornou-se um dos

presencial ajudou a desenvolver uma linguagem baseada em

principais propósitos da Isa Lucena. “Acho que meu propósito hoje é

explicações técnicas, permitindo que consumidores de diferentes

democratizar as roupas para todos os corpos. Quando você olha

corpos compreendessem as características das peças mesmo sem vê-

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MODA | ISA LUCENA

las vestidas por alguém de suas proporções. “Eu entendi que, se

a buscar atividades que não estivessem diretamente relacionadas à

aparecesse, venderia mais. Como sou tímida, não era uma coisa que

marca. Leituras sobre história das mulheres e questões sociais, visitas

queria fazer naturalmente, mas percebi que precisava usar nas redes

a exposições, cafeterias e encontros com amigos fazem parte dessa

aquilo que sabia fazer no atendimento presencial. Então comecei a

tentativa de construir uma identidade que não dependa

explicar a roupa, falar da modelagem, do tecido e de como ela veste,

exclusivamente da profissão. “Preciso ter um CPF, não apenas um

mesmo que a pessoa que esteja assistindo não tenha o mesmo

CNPJ”, resume ao reconhecer que deixou de viver experiências

tamanho que eu”, conta.

importantes por permanecer constantemente envolvida nas demandas profissionais.

Isa reconhece, entretanto, a importância de ampliar a representação de diferentes corpos nos conteúdos. Quando precisa apresentar

Hoje, ao mesmo tempo que considera fazer um mestrado e viajar

determinada peça em um homem de tamanho maior, procura

mais, Isa começa a imaginar uma estrutura maior para a marca, com

convidar clientes que já consomem a marca, valorizando uma

uma equipe ampliada e um galpão de produção capaz de atender

comunicação construída a partir de relações reais. A estratégia

mais consumidores. Se antes o crescimento despertava medo pela

reforça a proximidade com o público e as tomadas de decisão a partir

responsabilidade de administrar salários e compromissos financeiros,

da observação das necessidades concretas dos consumidores.

agora aparece como uma possibilidade necessária para ampliar o alcance de seu trabalho. “Antes eu não queria crescer, não imaginava

Reconhecimento, esgotamento e novos sonhos

uma estrutura maior. Tinha medo de ser responsável pelo salário de

Entre as experiências mais marcantes de sua trajetória, Isa destaca o

outras pessoas. Hoje começo a entender que sou capaz, sim, de ter

primeiro vestido de noiva que produziu, a participação em eventos

uma equipe maior. Se quero chegar a mais pessoas e fazer com que

presenciais de streetwear e a publicação de seu trabalho na revista

mais pessoas vistam a marca, preciso aumentar a estrutura. Acho que

Glamour. O reconhecimento profissional, entretanto, conviveu com

voltei a sonhar”, finaliza.

um período de esgotamento que transformou profundamente sua relação com o trabalho. Acostumada a trabalhar continuamente, havia naturalizado uma rotina que ultrapassava seus limites e comprometia tanto sua vida pessoal quanto sua capacidade criativa. “Eu absorvia muita coisa e não percebia, porque sempre trabalhei muito. Comecei a ter crises de choro do nada, e minhas amigas falaram que talvez fosse importante procurar acompanhamento psicológico. Foi muito difícil, porque aquilo começou a afetar meu trabalho, minha capacidade de resolver as coisas e até de sonhar. Acho que, se não fosse a terapia, talvez a marca nem existisse mais hoje, porque eu já não tinha condições de continuar daquela maneira”, revela.

O processo de recuperação também exigiu aprender a delegar responsabilidades e estabelecer períodos de descanso. Isa deixou de trabalhar todos os sábados, começou a fazer viagens curtas e passou

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MODA | ISA LUCENA

Modelos posam para Isa Lucena Ateliê

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DANIEL FURLAN 45


DANIEL FURLAN

Da criação da Revista Quase à consolidação do Choque de Cultura,

A escrita, por outro lado, já fazia parte de sua rotina escolar. Daniel

passando pela MTV, pela televisão, pelo cinema e pela música,

gostava de inventar histórias e encontrava prazer tanto na criação de

Daniel Furlan construiu uma trajetória marcada pela experimentação

situações engraçadas quanto em narrativas exageradamente

e trabalho coletivo. Entre personagens que se tornaram fenômenos

dramáticas, revelando desde cedo uma inclinação para explorar

da internet e o desejo de dedicar cada vez mais tempo à banda

diferentes registros de linguagem. Dentro de casa, a convivência com

Tropical Nada, o artista revisita os caminhos que transformaram

a mãe, astróloga e escritora, também contribuiu para aproximá-lo

projetos independentes em referências da cultura brasileira

das palavras e da música. Foi ela quem lhe ensinou os primeiros

contemporânea.

acordes no violão e apresentou referências musicais. “Lembro de quando assisti ao filme 'Curtindo a Vida Adoidado' e a música 'Twist

A trajetória de Daniel Furlan poderia ser organizada a partir dos

and Shout' me chamou a atenção. Procurei a faixa nos vinis da minha

personagens que interpretou, dos programas que ajudou a criar ou

mãe e acabei conhecendo mais dos Beatles aí, o que foi um ponto de

das diferentes linguagens artísticas pelas quais transitou ao longo das

partida para a minha ligação com o rock”, divide. Por volta dos 14

últimas duas décadas, mas talvez nenhuma dessas possibilidades

anos, o interesse passou a dar lugar para a experimentação musical

consiga explicar completamente o percurso de um artista que parece

também, participando de projetos ao lado de amigos.

ter construído sua carreira justamente pela recusa em se limitar a uma única atividade. Roteirista, ator, humorista, músico e escritor, Furlan

Mais tarde, de volta à Vitória, Daniel ingressou na Universidade

pertence a uma geração de criadores que encontrou na internet um

Federal do Espírito Santo, onde escolheu cursar Publicidade e

espaço para desenvolver projetos independentes, experimentar

Propaganda. A decisão, segundo ele, foi influenciada pela ideia

formatos e estabelecer uma relação direta com o público. Ele foi

bastante difundida de que a publicidade seria uma área

capaz de construir uma linguagem própria de humor a partir do

especialmente voltada à criatividade, embora posteriormente tenha

absurdo, da observação cotidiana e de personagens que parecem

passado a questionar essa associação. Ao trabalhar como redator

existir em algum lugar entre a ficção e a realidade.

publicitário, percebeu que a rotina das agências nem sempre correspondia à liberdade de criação que imaginava encontrar na

Apesar da dimensão alcançada por essas produções, o artista não

profissão, e sua passagem por esse mercado acabou sendo

descreve sua trajetória como resultado de um planejamento

relativamente curta.

profissional cuidadosamente elaborado. Ao contrário, sua relação com o trabalho permanece vinculada à curiosidade e à possibilidade

Revista Quase

de colocar ideias em prática, uma característica que também ajuda a

O ambiente efervescente da faculdade e a convivência com amigos

compreender seu envolvimento com a música, atividade que ganhou

que compartilhavam referências e gostos em comum foi palco para a

novo protagonismo em sua vida com o Tropical Nada.

criação da Revista Quase, em 2002, ao lado de Gabriel Labanca, Juliano Enrico e Raul Chequer. A proposta era produzir uma revista de

Primeiras referências

quadrinhos e humor com acabamento profissional, mesmo sem

Antes de se tornar um dos rostos mais reconhecíveis do humor

dispor de uma estrutura financeira compatível com a ambição

brasileiro contemporâneo, Daniel Furlan viveu uma infância e uma

editorial. A edição inicial teve uma tiragem de aproximadamente mil

adolescência atravessadas por mudanças e uma relação precoce

exemplares, e o grupo buscava apoios e patrocinadores para

com a criação artística. É nascido em Vitória, no Espírito Santo, mas

viabilizar a impressão.

viveu boa parte da infância e adolescência no Rio de Janeiro. Durante esse período, o futebol ocupava um lugar central em seu imaginário

A publicação se tornou um espaço de experimentação para Furlan e

e, como muitos meninos brasileiros, sonhava em ser jogador um dia.

os colaboradores, permitindo que diferentes interesses culturais

Torcedor do Flamengo, chegou a frequentar a Gávea como

fossem reunidos em um projeto que não precisava responder às

associado do clube, convivendo com aquele universo que, aos

expectativas de uma grande empresa de comunicação. O humor

poucos, também despertaria sua curiosidade pelos bastidores da

aparecia como uma linguagem central, mas não necessariamente

transmissão esportiva.

obedecia aos formatos tradicionais de piada, sátira ou comentário sobre acontecimentos recentes. Havia espaço para o absurdo, para

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DANIEL FURLAN

situações aparentemente sem propósito e para uma escrita que

jogos eletrônicos Jagex, realizando traduções para títulos como

explorava a própria estranheza como elemento narrativo.

RuneScape. Durante parte daquele período, Daniel trabalhava no emprego formal durante a semana e nos fins de semana se dedicava

Entre 2002 e 2009, a revista atravessou diferentes fases de

a ensaiar, gravar e fazer shows. O grupo chegou a dividir um estúdio

publicação, começando com uma periodicidade bimestral,

alugado permanentemente com outras bandas, mantendo uma

passando por edições trimestrais e chegando a uma circulação mais

rotina musical intensa e realizando apresentações em países como

eventual. As mudanças refletiam as possibilidades de uma produção

Alemanha, Holanda, Escócia e Itália. A experiência ampliou os

independente, cuja continuidade dependia do envolvimento de

horizontes do projeto, mas também trouxe dificuldades relacionadas

pessoas que também desenvolviam outras atividades. Para além de

à instabilidade financeira e à mudança constante de integrantes.

ser uma publicação, a Quase acabou funcionando como um laboratório de linguagem. Ali, seus colaboradores puderam testar

Depois de um período inicial de crescimento, o Ócio parecia ter

ideias, desenvolver personagens e estabelecer uma dinâmica de

chegado a uma espécie de estagnação, repetindo casas de show,

colaboração que seria transportada para o audiovisual alguns anos

públicos e circuitos de apresentação. Para Daniel, a perspectiva de

depois.

retornar ao Brasil e voltar a tocar com os antigos companheiros se tornou mais atraente do que reorganizar a banda mais uma vez na

O caráter independente também ajudou a consolidar uma maneira

Inglaterra. Por isso, decidiu que seria melhor retomar as atividades

particular de trabalhar, na qual a liberdade criativa ocupava um

em Vitória, tendo continuado a produzir até meados da década

lugar mais importante do que a adequação a fórmulas comerciais.

seguinte, lançado um compacto de vinil em 2016 e realizado uma

Essa característica continuaria presente nos projetos seguintes,

turnê de despedida em 2018.

mesmo quando o grupo passou a trabalhar com emissoras de Apesar das pausas e mudanças de formação, a história do Ócio

televisão e plataformas de maior alcance.

permaneceu importante para Daniel, que voltou a conversar com os Ócio

antigos integrantes sobre apresentações comemorativas dos 20

Paralelamente à produção de quadrinhos, Daniel continuava

anos de “Mood Swings”, incluindo shows previstos para Brasília e

investindo na música. Ainda durante o período universitário, surgiu o

Goiânia em novembro de 2026. A possibilidade de reencontrar o

Ócio, banda que consolidaria sua experiência como compositor e

repertório e os parceiros daquele período representa uma

vocalista e abriria um capítulo internacional em sua trajetória. “A

continuidade afetiva de um projeto que acompanhou sua passagem

banda surgiu porque o Igor Peres, conhecido como Chuck,

da adolescência à vida adulta e se desenvolveu em paralelo aos

inicialmente me convidou para fazer um teste como cantor de outra

primeiros passos de sua carreira no audiovisual.

banda. Fui lá, mas o pessoal não gostou de mim nem como vocalista, nem como pessoa (risos). Depois disso, o Chuck me

TV Quase

chamou para montarmos um outro projeto juntos”, conta.

A transição da Quase para o audiovisual começou de maneira gradual, por volta de 2008, por iniciativa de integrantes do grupo

A banda passou por diferentes formações até chegar ao trio

que passaram a experimentar a produção de vídeos. Daniel,

responsável pelo primeiro álbum, “Mood Swings”, lançado em

inicialmente, não demonstrava o mesmo entusiasmo pela mudança.

2006. O disco reuniu composições desenvolvidas ao longo dos

“O Raul já trabalhava como cinegrafista e tinha uma câmera

anos anteriores, incluindo músicas feitas em parceria com Chuck, e

própria, enquanto o Juliano atuava em projetos audiovisuais e tinha

marcou a consolidação de uma linguagem musical que dialogava

acesso a equipamentos de gravação e edição. Essa estrutura, ainda

com diferentes vertentes do rock, sem abandonar o humor e a

que modesta, foi o que permitiu que começássemos a produzir

irreverência presentes em outras criações de Furlan.

curtas e conteúdos para festivais locais, enquanto o YouTube já servia como uma plataforma alternativa para distribuir as nossas produções”, diz.

Em 2007, Daniel se mudou com a banda para a Inglaterra, onde também cursou um mestrado na Universidade de Greenwich, em

A criação da TV Quase representou uma mudança importante

Londres, e posteriormente trabalhou em Cambridge, na empresa de

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DANIEL FURLAN

porque introduziu novas exigências técnicas e narrativas em um

mas também explorava um humor mais experimental, próximo

contexto de recursos limitados. Se, na revista, uma ideia podia ser

daquilo que já vinha sendo produzido pela TV Quase.

desenvolvida exclusivamente por meio da escrita, da ilustração e da composição gráfica, no vídeo era necessário lidar com interpretação,

A falta de recursos também determinou características fundamentais

gravação, montagem e ritmo, elementos que passaram a fazer parte

do formato. Como não havia dinheiro para trazer convidados de

do processo criativo do grupo. A experiência também consolidou

outras cidades, os entrevistados passaram a ser escolhidos entre as

uma característica que atravessaria o trabalho de Furlan: a

pessoas que trabalhavam no próprio prédio da MTV. O programa

disposição para experimentar uma linguagem antes de dominar

também incorporou o cenário real de encerramento da emissora,

completamente todas as suas possibilidades. Em vez de esperar pelas

filmando corredores vazios, computadores empilhados e salas

condições ideais, o grupo desenvolvia projetos a partir dos recursos

abandonadas, imagens que Daniel considerava estimulantes por sua

disponíveis, aprendendo durante a própria execução.

atmosfera de decadência e pelo teor apocalíptico. “A gente tinha muita liberdade criativa, mas não tinha nenhuma liberdade orçamentária”, comenta.

A internet oferecia uma liberdade que dificilmente seria encontrada em uma emissora tradicional, permitindo que os vídeos circulassem sem a necessidade de aprovação de uma estrutura editorial externa.

A liberdade, entretanto, veio acompanhada de uma rotina intensa.

Ao mesmo tempo, essa autonomia exigia que os próprios criadores

Inicialmente, Furlan imaginava que o programa poderia ser semanal,

assumissem diferentes funções, desde a elaboração dos roteiros até a

permitindo que os roteiros fossem desenvolvidos com maior

edição final. O resultado foi a construção de um repertório

antecedência, mas a decisão da emissora foi apostar em uma atração

audiovisual que preservava o espírito da revista, mas encontrava

diária, exibida de segunda a quinta-feira. “Inicialmente eu fui muito

novas possibilidades no trabalho com personagens, entrevistas,

contra, porque achava que não tinha como fazer um programa bom

situações absurdas e referências à própria linguagem televisiva.

todo dia. Só que acabou sendo assim, e a gente entrou naquela loucura de gravar um episódio enquanto o outro estava sendo

MTV e O Último Programa do Mundo

editado. Era tudo acontecendo ao mesmo tempo, e por isso foi tão

A circulação dos vídeos da TV Quase abriu caminho para a

importante ter outras pessoas ajudando nos roteiros e na produção”,

aproximação com a MTV, emissora que, naquele período, convidava

relembra.

criadores independentes para participar de projetos. A chegada de Daniel Furlan à emissora, então, representou uma mudança de

A dinâmica exigia que diferentes etapas de produção acontecessem

escala, mas não significou o abandono da linguagem desenvolvida

simultaneamente. Enquanto Furlan preparava ou gravava novos

nos projetos autorais. Pelo contrário, a experiência ofereceu a

episódios, Juliano Enrico trabalhava na montagem do material

oportunidade de transportar parte daquele universo para uma

anterior, e colaboradores como Caito Mainier e Raul Chequer

estrutura profissional de televisão, em um momento particularmente

contribuíam para os roteiros, muitas vezes assumindo partes do

singular da história da emissora, que anunciava o encerramento de

processo que o apresentador não conseguia desenvolver sozinho. A

suas atividades.

experiência foi curta em termos cronológicos, embora tenha deixado uma impressão duradoura. Posteriormente, o programa ganhou uma

A proposta de começar um programa novo dentro de uma emissora

segunda temporada no YouTube e uma terceira no canal FX,

prestes a fechar as portas parecia absurda para a direção, mas Daniel

mantendo sua ligação com o universo da TV Quase.

enxergava justamente nessa condição uma oportunidade de experimentar sem as pressões habituais de uma produção televisiva.

Um dos aspectos mais importantes da experiência na MTV foi o

“Eu falei: 'Não, mas é agora que a gente faz! Agora é a hora boa de

fortalecimento das relações criativas que já existiam entre os

fazer o programa. Quando é que na sua vida você vai estar de novo

integrantes da TV Quase e novos colaboradores. O contato com

numa emissora que vai acabar? Nunca mais!'”, relembra. O Último

Caito Mainier, por exemplo, aproximou Furlan de um humor que

Programa do Mundo nasceu, então, nesse ambiente de relativa

compartilhava algumas características com a Quase, mas

liberdade editorial. Para Furlan, essa circunstância permitiu

apresentava uma dimensão ainda mais acentuada de absurdo e

desenvolver um programa que dialogava com a tradição do canal,

nonsense. Os dois haviam se conhecido em experiências anteriores

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DANIEL FURLAN

ligadas ao audiovisual, incluindo o universo de Larica Total, produção

Choque De Cultura

que também reunia profissionais interessados em experimentar

O desenvolvimento de Choque de Cultura aconteceu a partir do

formas pouco convencionais de humor. Quando surgiu a

encontro entre diferentes ideias que já circulavam entre os integrantes

necessidade de ampliar a equipe de roteiristas do Último Programa do

do grupo. Um dos pontos de partida foi um convite de Thiago

Mundo, Furlan convidou Caito para contribuir com o projeto.

Romariz, ligado ao Omelete, que acompanhava Falha de Cobertura e imaginou a possibilidade de desenvolver uma atração semelhante, mas dedicada ao cinema.

Falha De Cobertura Entre os desdobramentos da experiência na MTV, o surgimento do Falha de Cobertura ocupa um lugar importante por demonstrar como

A proposta inicial poderia ter resultado em uma simples adaptação

uma oportunidade aparentemente circunstancial podia se

do formato esportivo para outro assunto, mas Furlan enxergou a

transformar em um projeto duradouro. Durante sua passagem pela

oportunidade de criar um programa completamente novo. Havia,

emissora, Furlan participou de produções relacionadas ao futebol,

naquele momento, o interesse em explorar melhor Rogerinho do

incluindo o universo do RockGol.

Ingá, personagem que já havia aparecido no Último Programa do Mundo e despertado uma resposta positiva do público.

Quando surgiu a possibilidade de apresentar uma atração dedicada ao esporte, ele foi convidado a indicar alguém que pudesse participar

Ao mesmo tempo, Caito e outros colaboradores haviam desenvolvido

de conversas bem-humoradas sobre o assunto, e o nome de Caito

anteriormente um projeto chamado Julinho da Van Talk Show, no qual

Mainier apareceu como uma escolha natural. “Eu conhecia o Caito e

motoristas de van participavam de conversas absurdas. A

sabia que ele era muito engraçado, mas também sabia que ele não

combinação dessas referências levou à ideia de reunir quatro

queria aparecer na frente das câmeras. Ele era professor, roteirista,

motoristas para comentar filmes, utilizando a linguagem de

não gostava de aparecer. Então liguei e falei que a gente ia fazer um

programas especializados em cinema. “Eu lembro que o Thiago

programa de futebol, que era basicamente conversar sobre o

chamou a gente porque gostava do Falha de Cobertura e queria

assunto, e que ele não precisava se preocupar com nada. Só tinha um

alguma coisa parecida, só que falando de cinema. Aí comecei a

detalhe: ia ter uma câmera apontada para ele, transmitindo aquilo

pensar que talvez fosse melhor fazer um programa novo. O Rogerinho

para o Brasil inteiro”, conta. Caito acabou aceitando a proposta, com

já tinha dado certo no Último Programa do Mundo, e eu tinha vontade

a condição de poder escolher um nome artístico. A experiência abriu

de fazer alguma coisa com ele. Também lembrava daquele Julinho da

caminho para a construção do Professor Cerginho, personagem que

Van Talk Show, que achava muito engraçado, e pensei que dava para

ganharia características próprias e se tornaria parte fundamental do

juntar essas ideias: fazer um programa com quatro motoristas de van

Falha de Cobertura.

falando de cinema, com o Rogerinho apresentando”, explica.

Depois do encerramento da MTV Brasil, a dupla encontrou uma

A partir dessa proposta, o grupo reuniu colaboradores para

oportunidade de continuar trabalhando junto em um projeto digital

desenvolver os personagens, escrever os roteiros e produzir o

ligado à Abril, que buscava desenvolver conteúdos para o YouTube. A

material. Leandro Ramos retomou Julinho, Raul Chequer passou a

proposta de criar uma atração sobre futebol permitiu que Furlan e

integrar o elenco e a equipe contou com profissionais como Pedro

Caito aprofundassem uma dinâmica baseada na combinação entre

Leite e Fernando Fraiha na construção do projeto. O primeiro

comentários esportivos, personagens ficcionais e situações absurdas.

material gravado foi concebido como um piloto, posteriormente

O resultado foi um programa que utilizava o futebol como ponto de

dividido em dois episódios, acompanhando a lógica de circulação de

partida, mas não dependia exclusivamente do interesse do público

vídeos mais curtos que predominava no YouTube naquele período. A

pelo esporte. A relação entre os apresentadores, as características

repercussão ultrapassou rapidamente o público que já acompanhava

dos personagens e a maneira como interpretavam acontecimentos

a TV Quase, uma vez que a circulação pelo Omelete ajudou a

esportivos tornaram-se elementos centrais de sua identidade.

apresentar os personagens a pessoas que não conheciam os

Atualmente, o programa faz parte da grade do Podpah, transmitido

trabalhos anteriores de Furlan e seus colaboradores, transformando

pelo YouTube.

Choque de Cultura em uma das produções mais reconhecidas do humor brasileiro na internet.

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DANIEL FURLAN

O programa conquistou espaço justamente por explorar um contraste

crônicas inéditas e versões ampliadas de textos antigos, explorando

entre a linguagem especializada da crítica cinematográfica e a

memórias especialmente sobre as expectativas, frustrações e

interpretação completamente particular dos personagens. Rogerinho

situações que cercavam a espera pelo primeiro beijo. “Vão ser

do Ingá, Renan, Julinho e Maurílio discutiam filmes, atores e roteiros a

crônicas inéditas e antigas, mas as antigas vão estar mais

partir de referências próprias, frequentemente confundindo conceitos

aprofundadas, mais dilatadas. São histórias de infância, pré-

ou estabelecendo relações inesperadas, mas sempre com a

adolescência e adolescência, nessa jornada rumo ao primeiro beijo

convicção de quem acreditava dominar o assunto. O humor não

na boca, que nunca acontecia, misturada a vários outros assuntos

dependia apenas das frases isoladas que se tornaram memes – sua

também”, explica.

força estava na consistência dos personagens e na maneira como eles reproduziam comportamentos reconhecíveis, transformando a

Apesar da variedade de experiências, Furlan não costuma enxergar a

segurança excessiva, a desinformação e as disputas de opinião em

sua trajetória como algo calculado linearmente. Sua trajetória parece

elementos centrais da comédia.

mais relacionada à oportunidade de desenvolver projetos que despertam interesse, independentemente do formato ou do alcance

A expansão para outras linguagens

que possam conquistar. Essa postura ajuda a explicar por que, mesmo

A projeção conquistada por Choque de Cultura ampliou as

depois de participar de produções amplamente reconhecidas,

possibilidades profissionais de Furlan, mas não interrompeu seu

continuou interessado em iniciativas menores, colaborativas e menos

envolvimento com outras produções. Ao longo dos anos, ele

condicionadas pelas expectativas comerciais.

continuou trabalhando com roteiros, interpretação e projetos audiovisuais, incluindo animação, cinema e televisão. Sua

Tropical Nada

participação em Irmão do Jorel (desenho animado produzido pelo

Se o humor e o audiovisual ocuparam grande parte da vida

Cartoon Network), por exemplo, aproximou seu trabalho de um

profissional de Daniel durante a década de 2010, a pandemia

universo narrativo diferente daquele desenvolvido pela TV Quase,

representou um momento de retorno a uma linguagem que havia

demonstrando a capacidade de transitar entre linguagens sem

ficado em segundo plano. Depois do encerramento do Ócio, ele

necessariamente abandonar o humor absurdo que caracteriza parte

passou alguns anos sem compor ou tocar regularmente,

de sua produção. Com o passar dos anos, Daniel alternou funções de

concentrando sua energia nos programas, roteiros e projetos que se

roteirista e redação final, além de assumir a interpretação de

multiplicavam em diferentes plataformas. Com a interrupção de parte

diferentes personagens, como Carlos Felino, William Shostners e o

dessas atividades em 2020, encontrou tempo para voltar a escrever

gato Yuki. Furlan também é o responsável pela voz da música de

músicas, desta vez em português.

abertura, além de ter composto diversas canções das primeiras temporadas.

As novas composições surgiram sem um planejamento definido, inicialmente como uma maneira de recuperar o prazer de criar

O mesmo interesse pela experimentação também aparece em seus

música. “Um dia meu amigo Bento Abreu, que estava montando um

trabalhos como ator e escritor, atividades que oferecem

estúdio no porão de casa, me perguntou se eu não tinha músicas para

possibilidades distintas de construção de personagens e histórias.

serem gravadas. E eu estava cheio de música! Gravamos lá e o

Enquanto ator, Furlan está presente em filmes como “TOC:

material chegou ao produtor Rafael Ramos, da Deck, responsável

Transtornada Obsessiva Compulsiva” e “La Vingança”. Já na

pelo lançamento do primeiro álbum. Isso se desdobrou na formação

literatura, o artista encontrou um cenário que permite desenvolver

do Tropical Nada, com Bento Abreu (bateria), Zé Ruivo e Marcel

ideias em outro ritmo, explorando recursos que não dependem de

Dadalto (teclados)”, conta. Lançado em 2023, o primeiro álbum

montagem audiovisual. Ao longo de sua trajetória, publicou os livros

homônimo apresentou um universo musical que, embora diferente do

“79 Filmes pra Assistir Enquanto Dirige” (com o Choque de Cultura),

humor desenvolvido na televisão, preservava aspectos reconhecíveis

“Guia da Copa Falha de Cobertura” e “Você Não Merece Ser Feliz -

de sua maneira de escrever. A atenção às situações cotidianas, às

Como Conseguir Mesmo Assim”.

contradições humanas e às relações entre as pessoas continuava presente, agora organizada a partir de melodias, arranjos e letras.

Agora, Daniel prepara o livro “Boca Virgem”, obra que reunirá

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DANIEL FURLAN

A formação do Tropical Nada cresceu posteriormente para os shows,

experiências que teve na televisão, no cinema e no humor, o desejo

incorporando outros instrumentos e vozes, como violoncelo e vocais

atual de dedicar mais tempo à música parece estar relacionado

de apoio. A ampliação permitiu que o repertório ganhasse novas

menos à necessidade de conquistar um novo espaço no mercado e

possibilidades de arranjo, enquanto Daniel reencontrava a

mais à vontade de aprofundar uma atividade que continua

experiência de subir ao palco como vocalista de uma banda. A

despertando entusiasmo. Essa disposição também ajuda a

recepção ao primeiro álbum surpreendeu Furlan, especialmente pela

compreender a maneira como sua carreira se desenvolveu desde a

maneira como o público passou a se relacionar com as letras.

Revista Quase. Em diferentes momentos, Furlan participou de

Durante os shows de lançamento, o artista percebeu que as músicas

projetos que começaram sem garantias de continuidade, mas que

já haviam encontrado ouvintes dispostos a acompanhar as

encontraram públicos e possibilidades de crescimento justamente

apresentações de maneira ativa, cantando composições que haviam

porque seus criadores acreditavam naquilo que estavam fazendo.

sido disponibilizadas havia pouco tempo. Ao refletir sobre a importância da música neste momento, Daniel A experiência representou uma diferença significativa em relação à

permanece na mesma lógica que orientou boa parte de sua trajetória:

fase do Ócio, quando o repertório em inglês estabelecia outro tipo de

fazer aquilo que desperta interesse e encontrar maneiras de colocar

relação entre o vocalista e a plateia. “Quando a gente fez os shows de

essas ideias em circulação. “Eu fiquei muito tempo sem dar atenção a

lançamento do disco com o Tropical Nada, o lugar estava cheio, e o

isso, mas não sei se existe um motivo específico para querer focar

que mais me surpreendeu foi perceber que as pessoas cantavam as

mais na música agora. Acho que é uma necessidade interna, uma

músicas. O single 'Não Vale Nada' tinha sido lançado havia uma

vontade de fazer, de gostar daquilo e de me sentir bem. No

semana, e a galera já estava cantando. Eu nunca tinha vivido isso em

audiovisual também procuro trabalhar com projetos autorais, e acho

um show, de estar cantando e ter o público cantando junto. Foi uma

que 95% do que faço parte dessa vontade de criar alguma coisa, de

surpresa muito grande”, relembra. Apesar da resposta positiva,

colocar aquilo na rua porque acredito no projeto. É muito intuitivo,

Furlan reconhece que o Tropical Nada permanece como uma banda

não tem necessariamente um plano de carreira ou uma coisa

de nicho, condição que não considera necessariamente negativa.

pensada muito à frente”, afirma.

Existe, claro, o desejo de alcançar mais pessoas, mas sem transformar o crescimento em uma obrigação capaz de comprometer a

Essa relação com a criação também explica a importância que o

identidade do projeto.

trabalho coletivo continua tendo em sua vida. Seja na construção de personagens, no desenvolvimento de programas ou na elaboração

Para Furlan, a música oferece possibilidades expressivas que não

de um álbum, Furlan encontrou maneiras de reunir pessoas que

encontram necessariamente o mesmo espaço no audiovisual,

compartilham referências e interesses, preservando um espaço para

especialmente em produções marcadas por diálogos rápidos e uma

que as ideias se transformem durante o processo.

linguagem mais verbal. “Acho que é outra coisa, outra pegada. Não tem como falar as coisas que dá vontade de falar nas músicas usando

Mais de duas décadas depois do surgimento da Revista Quase, a

a linguagem do humor ou do audiovisual, principalmente um

trajetória de Daniel Furlan demonstra como um projeto independente

audiovisual tão verborrágico como o nosso. Mas acho que dá para

pode ultrapassar as expectativas de seus próprios criadores sem

perceber, pelas letras, que está tudo dentro do mesmo universo

necessariamente perder a identidade que o tornou possível. Talvez

mental. No audiovisual, o trabalho é muito coletivo, tem roteiro de

seja justamente essa a continuidade mais evidente de uma carreira

várias pessoas, enquanto as letras das músicas eu escrevo sozinho,

construída em diferentes formatos: a possibilidade de transformar

embora musicalmente também exista um trabalho de colaboração”,

curiosidade em trabalho, encontrar colaboradores dispostos a

explica.

compartilhar ideias e preservar, mesmo diante das exigências do mercado, a liberdade de continuar fazendo aquilo que dá vontade.

A vontade de continuar criando Depois de tantos projetos e mudanças de linguagem, Daniel Furlan não demonstra interesse em estabelecer uma definição permanente para sua atuação profissional. Embora reconheça a importância das

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LUCAS CASERNTANI Memórias familiares, técnica e estética na criação de experiências gastronômicas exclusivas

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GASTRONOMIA | LUCAS CASERTANI

Entre a infância cercada pela cozinha familiar, a influência do graffiti,

pratos inspirados na culinária asiática. Embora seus avós não fossem

uma carreira premiada no design e a decisão de recomeçar na

cozinheiros profissionais, o interesse pela gastronomia atravessava a

gastronomia, Lucas Casertani encontrou no ato de servir uma nova

rotina familiar e estimulava a curiosidade de Lucas. “Eu sempre fui

maneira de expressar sua identidade criativa. À frente do Lucas &

muito observador. Gostava de ficar perto das pessoas mais velhas,

Pietro, o chef reúne técnica, repertório visual e referências afetivas

vendo o que elas estavam fazendo, aprendendo. Na época da escola,

para construir experiências que ultrapassam os limites do prato.

muitas vezes eu ia para a casa da minha avó depois da aula, fazia minha lição, desenhava e ficava ali na cozinha, observando minha

A arte de transformar referências em experiências

avó e minhas bisavós prepararem as coisas. Eu gostava de

Há uma diferença fundamental entre criar uma identidade visual para

experimentar tudo, de entender o que estava acontecendo. Acho que,

uma marca e preparar uma refeição para alguém. Entretanto, para

para mim, o lugar mais interessante da casa sempre foi a cozinha”.

Lucas Casertani, as duas atividades estão muito mais próximas do que parecem. Durante anos, seu trabalho esteve concentrado na

O caminho do design

construção de conceitos, desenvolvimento de linguagens visuais e

Apesar da presença constante da gastronomia, Lucas não cresceu

elaboração de projetos que transformavam ideias em imagens

imaginando que se tornaria chef. Durante a adolescência, seus

reconhecíveis. Hoje, aos 32 anos, ele continua interessado nos

interesses estavam muito mais próximos da arte urbana, da música e

mesmos processos criativos, mas substituiu parte das ferramentas

do esporte, atividades que ocupavam um espaço maior em sua rotina

digitais por facas, panelas e ingredientes, encontrando na

do que as disciplinas escolares. No período escolar, o jovem não se

gastronomia uma possibilidade de expressão que envolve não

identificava com o formato tradicional de ensino e encontrava nas

apenas o olhar, mas também o tato, o olfato, o paladar e,

amizades e nas manifestações culturais que circulavam fora da sala

principalmente, a relação direta com as pessoas. A mudança de

de aula suas principais fontes de estímulo.

profissão, que poderia ser interpretada como uma ruptura, revela uma trajetória em que experiências aparentemente distintas se

Quando cursava os últimos anos do ensino fundamental, começou a

conectam por meio de um interesse constante pela criação.

acompanhar com maior interesse a cena das batalhas de rima, do graffiti e da pichação em São Paulo. Aos 12 anos, já desenhava letras

Nascido em São Paulo, Lucas cresceu mantendo uma relação

e assinaturas no papel, experimentando formas que mais tarde

profunda com Ubatuba, cidade do litoral paulista onde seus pais se

reconheceria como parte do universo da tipografia e do design

conheceram e onde passou boa parte das férias durante a infância. A

gráfico. O contato com amigos mais velhos e com pessoas ligadas à

proximidade com o mar, a prática esportiva e os encontros familiares

arte urbana ampliou esse interesse. Naquele período, Lucas já

construíram um repertório afetivo que, muitos anos depois,

desenvolvia adesivos, pintava telas, desenhava e, paralelamente,

encontraria espaço em sua cozinha. Descendente de italianos pelos

colecionava revistas de surfe, skate e arte urbana, observando não

dois lados da família, acostumou-se desde cedo a observar a comida

apenas as imagens e os conteúdos, mas também a composição

como um elemento central da convivência, especialmente nas

gráfica das páginas.

reuniões em que diferentes gerações se encontravam ao redor de A relação com essas publicações foi determinante para suas escolhas

uma mesa, de uma churrasqueira ou de um forno de pizza.

profissionais. Fascinado pela combinação entre fotografia, tipografia Na casa do avô, na Serra da Cantareira, os encontros

e espaços em branco, Lucas passou a enxergar no design uma

frequentemente giravam em torno de preparações coletivas,

maneira de transformar interesses pessoais em trabalho. Na escola,

enquanto as viagens realizadas pelo patriarca ampliavam as

as aulas de informática já ofereciam contato com programas de

referências gastronômicas da família. Depois de viver no Japão e

edição como o Photoshop, ferramenta com a qual demonstrava

conhecer lugares como a Tailândia, o avô costumava visitar o bairro

facilidade justamente por conseguir associar conhecimentos técnicos

da Liberdade, em São Paulo, para comprar ingredientes e reproduzir

à criatividade desenvolvida fora do ambiente escolar.

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GASTRONOMIA | LUCAS CASERTANI

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GASTRONOMIA | LUCAS CASERTANI

Aos 17 anos, sem referências profissionais próximas que o

Ao longo dos anos seguintes, passou por agências e consultorias de

orientassem, Lucas ingressou no curso de Sistemas de Informação. A

São Paulo, desenvolveu projetos para grandes empresas e trabalhou

decisão surgiu da ideia de trabalhar com sites, jogos e projetos

com escritórios estrangeiros. Conquistou premiações nacionais e

digitais, mas a realidade da graduação, fortemente concentrada em

internacionais, participou da criação de embalagens e identidades

programação, matemática e desenvolvimento de sistemas,

visuais que circularam (e circulam) amplamente no mercado e

rapidamente se mostrou distante de suas expectativas. Enquanto os

alcançou uma posição profissional consolidada ainda jovem.

colegas se preparavam para carreiras relacionadas à tecnologia, bancos e engenharia de software, ele continuava interessado na

Entretanto, por volta dos 25 ou 26 anos, quando já ocupava posições

dimensão visual das plataformas.

seniores, começou a questionar os caminhos disponíveis para continuar crescendo. Na sua percepção, a progressão profissional

A necessidade de conseguir um estágio, estimulada também pelo

exigia uma disposição cada vez maior para negociações políticas

acordo familiar de contribuir com os custos da faculdade, acabou

internas, enquanto os projetos pareciam seguir linguagens visuais

aproximando Lucas do universo que realmente desejava explorar.

semelhantes, independentemente das agências responsáveis por sua

Depois de uma primeira entrevista em um ambiente corporativo com

execução. “Eu comecei a olhar os trabalhos que ganhavam prêmio,

o qual não se identificou, passou a procurar oportunidades

os projetos das agências e até o que estava sendo desenvolvido fora

relacionadas a esporte, moda, surfe e arte, até ingressar na Big

do Brasil, e parecia que tudo estava ficando muito parecido. Às vezes,

Brands, empresa que trabalhava com marcas como MCD, Globe e

mudava o CNPJ, mas a ideia continuava a mesma. Eu já tinha

Lost.

chegado a um nível salarial bom e comecei a perceber que, para crescer mais, teria que entrar em um jogo de relacionamento e

A experiência representou seu primeiro contato profissional com o

política interna com o qual não me identificava. Aquilo foi me

design gráfico. Ainda adolescente, começou produzindo cartões de

desanimando da profissão”, afirma.

visita, convites para eventos e materiais de comunicação, aprendendo a lidar com novas ferramentas enquanto executava

Virada de chave

trabalhos reais. “Quando entrei, parecia que estava em casa. Eram

Enquanto o entusiasmo pelo mercado publicitário diminuía, a

marcas que eu usava desde criança, que apareciam nas revistas que

gastronomia ganhava espaço em sua vida de maneira gradual.

colecionava e nos lugares que frequentava. Eu podia acompanhar os

Inicialmente, aparecia como uma fonte de repertório para o trabalho

ilustradores, ver como as artes eram desenvolvidas, participar de

criativo, ao lado da moda, da arquitetura e da fotografia, áreas que

projetos e ainda estar próximo dos eventos de surfe. Conheci pessoas

Lucas estudava para ampliar suas referências. A influência familiar

que eram referências para mim e percebi que aquele universo podia

permanecia presente, assim como o contato com a irmã, que

ser uma profissão. Foi quando tive certeza de que queria trabalhar

trabalha com confeitaria, e com um primo que é ligado à produção

com criação”, relembra.

de ostras em Ilhabela.

A experiência levou Lucas a abandonar Sistemas de Informação e

Com o tempo, passou a participar de cursos de massas, peixes e

ingressar em Design Gráfico no Mackenzie, direcionando os estudos

outras preparações, além de acompanhar programas culinários e

para áreas como diagramação, tipografia e comunicação visual.

estudar livros de chefs internacionais. A obra do peruano Virgilio

Posteriormente, aprofundou seu interesse pela construção conceitual

Martínez, por exemplo, despertou seu interesse não apenas pela

das marcas ao estudar branding na Belas Artes, formação que

apresentação visual dos pratos, mas principalmente pelas técnicas

ampliou sua compreensão sobre a relação entre estética, narrativa e

utilizadas para transformar ingredientes em novas texturas e formatos.

experiência.

Ao mesmo tempo, começaram a surgir oportunidades de branding para restaurantes, chefs e empresas do setor gastronômico.

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GASTRONOMIA | LUCAS CASERTANI

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GASTRONOMIA | LUCAS CASERTANI

A aproximação profissional com esse mercado revelou possibilidades

própria insatisfação, decidiu que precisava agir. No dia seguinte,

que ultrapassavam a identidade visual. Durante os projetos, Lucas

pediu ajuda à esposa para gravar o vídeo de inscrição para o

passou a sugerir apresentações de pratos, formatos de serviço e

MasterChef, mesmo sem nunca ter produzido qualquer tipo de

conceitos para experiências gastronômicas, percebendo que seu

conteúdo gastronômico.

interesse estava migrando da comunicação das marcas para a O resultado foi um vídeo de aproximadamente 14 minutos, no qual

própria construção daquilo que elas ofereciam.

apresentou preparações ligadas às próprias referências culinárias. Ao O desgaste com a publicidade também se intensificou diante da

editar o material, utilizando conhecimentos adquiridos durante a

crescente utilização de ferramentas de inteligência artificial nos

carreira criativa, reconheceu uma identidade que lhe parecia familiar:

processos criativos. Acostumado a trabalhar com redatores,

os pratos remetiam à infância, ao litoral e à maneira como havia

ilustradores e profissionais especializados, incomodava-se com

aprendido a se relacionar com a comida.

decisões que, em sua percepção, substituíam parte do Durante as seletivas do programa, continuou trabalhando na

desenvolvimento artístico por soluções automatizadas.

agência, conciliando compromissos profissionais com as etapas Com isso, a decisão de mudar de carreira começou a ganhar forma

classificatórias realizadas pela Band. À medida que avançava, a

durante uma reunião de trabalho que se prolongava desde o início da

possibilidade de abandonar definitivamente o design se tornava mais

manhã. Enquanto acompanhava uma discussão que considerava

concreta. Na terça-feira anterior à prova que definiria sua entrada no

improdutiva, Lucas se deu conta de que precisava preparar o almoço

programa, decidiu pedir demissão, mesmo sem saber se conquistaria

da filha antes que ela fosse para a escola. Desligou a câmera e foi

o avental. “Eu falei para minha esposa que, se não passasse, não teria

para a cozinha, onde uma tarefa aparentemente banal provocou uma

problema, mas que não queria mais continuar na agência. Quando

reflexão decisiva. “Eu estava cortando uma cebola e comecei a

avisei que estava saindo, tentaram me oferecer um aumento, mas eu

pensar que aquele corte tinha muito mais intenção do que vários

já tinha decidido. No dia seguinte, senti como se tivesse tirado uma

projetos que estava fazendo. A cebola passou pela mão de um

tonelada das costas. Fui para a prova muito leve, querendo viver uma

agricultor, veio da natureza, tem textura, cheiro, sabor. Você consegue

experiência nova e aprender. Pensei que não tinha nada a perder”,

despertar várias sensações imediatamente. No branding, muitas

recorda.

vezes existe um caminho muito longo até uma marca provocar alguma emoção nas pessoas. Na gastronomia, às vezes isso

A participação no programa trouxe uma rotina intensa de gravações,

acontece no primeiro contato. Aquilo começou a fazer muito mais

estudos e preparação técnica. Lucas aproveitou o período para

sentido para mim”, conta.

aprofundar conhecimentos que ainda considerava insuficientes, especialmente em confeitaria e técnicas clássicas. Comprava dezenas

A ideia de abandonar uma carreira financeiramente estável,

de ovos para praticar preparações como o ovo pochê, treinava cortes

entretanto, exigia planejamento. Lucas tinha responsabilidades

com grandes quantidades de legumes e desossava aves

familiares e sabia que começar em uma cozinha profissional poderia

repetidamente, buscando desenvolver precisão e segurança.

significar uma redução expressiva de renda. Foi aí que, como admirador do MasterChef, passou a considerar o programa uma

Posteriormente, uma parte fundamental dessa formação aconteceu

possibilidade de acelerar sua entrada no mercado.

na escola de Laurent Suaudeau, chef francês que Lucas considera uma das principais referências de sua trajetória gastronômica. O

O MasterChef e a decisão de recomeçar

contato com técnicas clássicas, livros e experiências compartilhadas

O impulso definitivo surgiu durante uma festa de aniversário da filha,

pelo profissional representou, segundo ele, uma formação

quando Lucas se percebeu participando de mais uma conversa

equivalente à graduação que não havia realizado na área. “A escola

dominada por reclamações sobre o trabalho. Incomodado com a

do Laurent foi basicamente minha faculdade de Gastronomia. Sem

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GASTRONOMIA | LUCAS CASERTANI

Brunch desenvolvido para uma ação de marca da Nike

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GASTRONOMIA | LUCAS CASERTANI

aquilo, eu não teria desenvolvido a base técnica que tenho hoje.

eventos de alto padrão, especialmente na possibilidade de oferecer

Sempre fui muito curioso, então perguntava sobre os chefs, os livros,

não apenas comida, mas uma experiência completa, com atenção ao

as histórias e os processos. Ele foi muito atencioso, compartilhou

serviço, à apresentação e à identidade visual.

experiências e me direcionou para referências que fizeram muita diferença no meu trabalho. Acho importante destacar isso porque

No que diz respeito às escolhas culinárias, a afinidade entre os sócios

minha entrada na gastronomia não foi simplesmente uma mudança

também foi determinante. Pietro havia vivido na Itália e estudado no

de profissão; foi uma decisão de estudar seriamente e aprender uma

Japão, experiências que encontraram pontos de contato com as

coisa nova”, ressalta.

referências familiares de Lucas. A culinária italiana, as técnicas asiáticas e o interesse pela comida brasileira, especialmente pela

A construção do Lucas & Pietro

tradição caiçara, então, passaram a orientar o desenvolvimento dos

Foi durante o MasterChef que Lucas conheceu Pietro, com quem

cardápios.

desenvolveria seu principal projeto gastronômico. A proximidade entre os dois, frequentemente colocados juntos nas provas em grupo,

Foco na experiência

também chamou a atenção do público, que passou a associar seus

Atualmente, o Lucas & Pietro mantém uma cozinha de produção na

nomes nas redes sociais. A relação continuou depois das gravações,

capital paulista e uma estrutura voltada ao atendimento de eventos

inicialmente por meio de jantares experimentais organizados para

privados e corporativos. Para organizar o crescimento do negócio, os

pessoas próximas, nos quais testavam preparações, apresentações e

sócios contrataram uma consultoria especializada durante

formatos de serviço. Com o tempo, a ideia foi amadurecendo para

aproximadamente um ano, aprofundando conhecimentos sobre

que abrissem um negócio juntos oficialmente.

gestão, custos, aproveitamento de alimentos e funcionamento de uma operação gastronômica.

Para o projeto, em vez de criar um nome completamente novo, os sócios decidiram utilizar a associação que já existia entre eles,

A empresa conta com profissionais fixos na cozinha, equipes

transformando Lucas & Pietro em uma identidade comercial baseada

administrativas e uma rede de colaboradores mobilizados conforme a

nas próprias personalidades. A proposta também buscava se

demanda. Além disso, possui acervo próprio de louças, cerâmicas,

diferenciar visualmente dos serviços gastronômicos tradicionais,

talheres e equipamentos, com capacidade de atender eventos de

apostando em fotografias conceituais, direção de arte e uma

diferentes portes, incluindo produções que já chegaram a

comunicação menos formal. “Eu queria lançar um projeto que tivesse

aproximadamente 350 convidados. Enquanto Lucas acompanha

a nossa cara. Não queria simplesmente criar mais uma marca com

mais diretamente a operação, as compras e a produção

um nome inventado, um logotipo e uma comunicação convencional.

gastronômica, Pietro concentra parte importante de suas atividades

Pensei em fazer o contrário de muita coisa que tinha aprendido no

no relacionamento comercial e no atendimento aos clientes.

branding: lançar um projeto sem logo, com uma direção de arte muito forte, mostrando a nossa personalidade. Queria criar imagens

O desejo de desenvolver uma experiência integrada também se

que provocassem alguma coisa e construir uma linguagem que o

tornou um diferencial para projetos corporativos. Utilizando a

público que queríamos atingir conseguisse reconhecer”, explica.

experiência anterior em branding, Lucas passou a oferecer soluções que podem incluir a criação da identidade visual do evento, materiais

A estratégia comercial combinou a exposição conquistada durante o

gráficos, direção de arte e elementos de decoração, reunindo

programa com relacionamentos construídos fora das redes sociais.

serviços que normalmente seriam contratados separadamente. “Eu

Enquanto o Instagram funcionava como uma vitrine para atrair

percebi que muitas marcas queriam fazer um jantar, mas também

marcas e projetos corporativos, o atendimento a clientes particulares

precisavam construir uma identidade para aquela experiência. E

se desenvolveu principalmente por indicações e contatos pessoais.

pensei: eu consigo fazer as duas coisas. Posso desenvolver a parte

Com isso, a dupla identificou uma oportunidade no mercado de

gastronômica, criar o material gráfico, pensar na decoração e

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GASTRONOMIA | LUCAS CASERTANI

construir um evento em que tudo esteja conectado. Acho que esse é

desperdicei nada. Acho que esse é o ponto mais importante. Tudo o

um dos diferenciais do nosso trabalho, porque não estamos

que aprendi no design continua fazendo parte do meu trabalho, só

pensando apenas no que vai ser servido, mas em toda a experiência”,

que agora consigo aplicar esse conhecimento de outra maneira.

explica.

Quero que as pessoas reconheçam nossa criatividade, nossa técnica e o cuidado com os detalhes, porque não basta simplesmente servir

Para o futuro, embora considere a possibilidade de desenvolver

uma boa massa. Isso deveria ser o básico. Quero construir

futuramente uma operação fixa, Lucas não demonstra pressa em abrir

experiências que tenham personalidade, que sejam lembradas e que

um restaurante. Entre as ideias estão uma marca de massas frescas,

façam sentido para quem está participando”, conclui.

um pequeno empório de produtos artesanais e projetos ligados ao desenvolvimento de objetos próprios. Mais do que ampliar a estrutura física, seu interesse está concentrado em fortalecer a identidade autoral do negócio, criando peças de cerâmica, bandejas, aventais e uniformes que expressem a linguagem visual do Lucas & Pietro.

O valor de servir e a liberdade de escolher A mudança de carreira também transformou sua relação com a rotina. Embora o trabalho em eventos envolva jornadas fisicamente exigentes, que podem ultrapassar dez ou quinze horas, Lucas afirma sentir menos desgaste mental do que na época em que passava os dias diante do computador. Sempre ligado ao esporte, continua praticando corrida, frequentando a academia e aproveitando as oportunidades de voltar ao litoral para surfar.

A satisfação profissional, entretanto, aparece principalmente na maneira como passou a compreender o reconhecimento. Se antes as premiações representavam uma das principais medidas de sucesso, hoje Lucas encontra uma recompensa diferente na reação de quem experimenta sua comida e na validação de profissionais que admirava antes de entrar na gastronomia. “Na época do design gráfico, o auge era ganhar prêmio, ter um projeto reconhecido internacionalmente, ver sua marca ou sua embalagem circulando. Hoje, terminar um jantar e ouvir alguém dizer que aquele foi um dos melhores molhos que já comeu pode ser muito mais satisfatório para mim. É uma experiência que fica marcada na memória da pessoa. Investi tempo, dinheiro, estudei muito e virei noites para conseguir chegar até aqui”, afirma.

Ainda assim, Lucas não interpreta a mudança de carreira como uma substituição de uma pela outra, mas como a continuidade de um percurso em que a arte urbana, o design, a comunicação e a gastronomia encontraram maneiras diferentes de coexistir. “Eu não

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GASTRONOMIA | LUCAS CASERTANI

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EM DESTAQUE | LATINO RUA COLEÇÃO ‘‘RAÍZES’’

manifestações culturais. Paralelamente, o portfólio cresceu com a chegada de luminárias, objetos e novas peças de mobiliário,

LATINO RUA APRESENTA: COLEÇÃO ‘‘RAÍZES’’

ultrapassando cinquenta produtos na Latino Casa.

A expansão para a moda aconteceu em 2024, com a criação da Latino Rua, concebida como uma continuidade da linguagem Entre a arquitetura, o mobiliário, a moda e a gastronomia, existem

desenvolvida no mobiliário, mas direcionada a objetos capazes de

possibilidades de criação que ultrapassam as fronteiras

acompanhar as pessoas fora de casa. Embora o calçado estivesse

tradicionalmente estabelecidas entre essas disciplinas. É justamente

desde o início no centro dos planos, o projeto ganhou proporções

nesse território de experimentação que o Estúdio Latino de Design

maiores durante seu desenvolvimento, incorporando camisetas,

vem construindo sua identidade desde 2021, quando surgiu em

jaquetas, bonés, mochilas e acessórios. “A gente queria fazer uma

Curitiba com a proposta de desenvolver produtos que traduzissem

marca que fosse com você para a rua, que levasse o seu estilo

referências culturais latino-americanas por meio de uma linguagem

também andando por aí, e por isso criamos a Latino Rua”, conta

contemporânea, vibrante e autoral. Cinco anos depois, a marca

Sérgio.

apresenta um novo capítulo dessa trajetória com o lançamento de Raízes, primeira coleção de tênis da Latino Rua, que transforma Da cozinha para os pés

ingredientes populares da culinária em referências para o

Se a Latino construiu sua identidade a partir da observação do

desenvolvimento de três modelos inéditos: Mani, Yuca e Guava.

cotidiano, a coleção Raízes encontra na cozinha uma de suas expressões mais representativas. Armazéns, botequins, balcões e

Apresentada oficialmente em 10 de outubro, a coleção reúne doze

receitas populares serviram como ponto de partida para a criação de

combinações de cores distribuídas entre os três modelos, com uma

um universo visual que relaciona memória afetiva e alimentação.

tiragem inicial limitada. Mais do que representar a entrada definitiva do estúdio no mercado de calçados, o lançamento materializa um processo de pesquisa e desenvolvimento que se estendeu por anos,

Os três modelos de tênis receberam nomes associados a ingredientes

combinando conhecimentos adquiridos na criação de móveis e

presentes em diferentes tradições culinárias latino-americanas: Mani

objetos com técnicas específicas da indústria calçadista.

faz referência ao amendoim, Yuca à mandioca e Guava à goiaba. A escolha se estende às embalagens, desenvolvidas para remeter a produtos encontrados nas prateleiras de antigos armazéns, com

Para compreender o caminho que levou à coleção, entretanto, é

caixas inspiradas em farinha de mandioca, amendoim torrado e

necessário retornar às origens da Latino, cuja história começou a

goiabada cascão, acompanhadas de receitas relacionadas aos

partir do desejo de seus fundadores de construir uma marca que

respectivos ingredientes. “A gente gosta muito de gastronomia e

apresentasse uma perspectiva diferente sobre o design brasileiro.

sempre faz festas puxando para algum tipo de comida, porque acha

Inicialmente dedicada ao mobiliário, a empresa nasceu da

que isso enriquece tanto a marca quanto os eventos. Resolvemos

experiência de seus sócios no setor da construção civil e de uma

levar essa ideia para a coleção de tênis, o que não é uma coisa muito

aproximação crescente com o universo do design. “Resolvemos

óbvia. Começamos a pesquisar bastante e encontramos nesses

lançar uma marca que achávamos que deveria existir, que fosse

ingredientes uma forma de homenagear elementos muito presentes

diferente, mais vibrante. Até por isso colocamos o nome de Latino,

na cultura latino-americana”, explica Sérgio.

porque trazemos nossas raízes latino-americanas para a pesquisa, não apenas das coisas que estão aqui, mas também das nossas ascendências, das referências que vêm de outros lugares e de

A principal expressão dessa pesquisa aparece na sola, desenvolvida

designers variados. A gente mistura tudo isso e faz da nossa forma”,

integralmente pelo estúdio a partir de uma referência pouco

explica Sérgio Sone, um dos sócios do estúdio.

convencional: a manteiga. Considerada um ingrediente fundamental para inúmeras preparações culinárias, ela foi escolhida como inspiração para a estrutura que sustenta os calçados, estabelecendo

A inauguração da loja própria, em 2023, representou um passo

uma relação entre função e conceito. “Escolhemos a manteiga

importante para consolidar essa identidade. Para além de funcionar

porque ela é muito simples, está muito presente na culinária latino-

como um espaço comercial, o endereço na Alameda Julia da Costa

americana e serve de base para muitas coisas, tanto doces quanto

passou a funcionar como um ambiente de experimentação e

salgadas. Achamos bonito colocar essa referência justamente na

convivência, recebendo exposições de artistas locais, apresentações

sola, que é a base do tênis”, divide.

musicais e eventos que aproximaram a marca de diferentes

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EM DESTAQUE | LATINO RUA COLEÇÃO ‘‘RAÍZES’’

Modelo Yuca Rosa

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EM DESTAQUE | LATINO RUA COLEÇÃO ‘‘RAÍZES’’

Latino desenvolveu um jogo inspirado nos videogames espaciais dos

Para chegar ao resultado, a equipe recorreu à experiência acumulada no desenvolvimento de móveis e luminárias, criando uma maquete

anos 1990, no qual os tênis assumem o papel de naves que

física que foi esculpida manualmente até alcançar a textura desejada.

atravessam cenários habitados por objetos de cozinha e criaturas

O desenho reproduz as irregularidades de um bloco de manteiga

feitas de manteiga. “A gente acha cansativo quando uma marca fica

trabalhado com uma ferramenta, incluindo pequenas rebarbas que

só falando para comprar o produto. Queremos devolver alguma

acompanham o canal da costura responsável por unir a sola ao

coisa interessante para as pessoas, seja uma exposição de arte, um

cabedal. “A gente fez um bloco como se fosse um bloco de manteiga e

projeto musical ou um jogo. É uma forma diferente de comunicar,

criou essa textura como se fosse uma escultura mesmo. Já temos

mais leve e divertida, que permite participar desse universo sem

experiência com modelagem por causa do mobiliário, então fizemos

necessariamente consumir alguma coisa”, afirma Sérgio.

um bloco de madeira e fomos lapidando até chegar ao resultado”, detalha.

Essa relação com a comunidade também esteve presente no evento de lançamento, realizado na loja de Curitiba, quando, segundo o

Além disso, a coleção incorpora uma pesquisa de materiais que

sócio, foram comercializados cerca de cinquenta pares. A recepção

privilegia couro, camurça e lona, escolhidos pela resistência e pela

reforçou a importância do espaço físico para a marca, especialmente

maneira como envelhecem com o uso. O forro interno de couro e a

pela possibilidade de experimentar os produtos e estabelecer contato

construção com sola costurada ao cabedal reforçam a preocupação

direto com o público.

com a durabilidade, enquanto elementos como etiquetas bordadas, gravações laterais e as coordenadas geográficas da loja acrescentam

Com Raízes, a Latino Rua inaugura uma nova etapa de sua trajetória,

detalhes particulares aos modelos.

mas não pretende encerrar a experimentação nos três modelos apresentados. O estúdio já trabalha com possibilidades de novos acabamentos, combinações de materiais e outras categorias de

Um universo que ultrapassa o produto A proposta de transformar o lançamento em uma experiência cultural

calçados, enquanto prepara colaborações e iniciativas para ampliar

também ganhou uma dimensão digital. Para apresentar Raízes, a

sua presença em São Paulo.

Modelo Guava Castanho

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EM DESTAQUE | LATINO RUA COLEÇÃO ‘‘RAÍZES’’

Modelo Mani Branco e Preto

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EM DESTAQUE | NO ALTO VII

o crescimento aconteceu de maneira orgânica, impulsionado principalmente pela circulação de registros nas redes sociais e pelas

NO ALTO EDIÇÃO VII

recomendações de quem participava dos encontros.

Na terceira edição, a festa passou a ocupar o Baronesa, na região do Anhangabaú, ampliando seu público para cerca de trezentas pessoas Em uma cidade cuja vida noturna se reinventa constantemente,

e incorporando novos DJs à programação. O projeto continuou

encontrar novas maneiras de reunir pessoas em torno da música pode

crescendo até chegar ao Edifício Martinelli, onde reuniu o seu maior

ser tão importante quanto a própria seleção de artistas que ocupam

público em uma edição que representou um marco para seus

as pistas. Entre festas independentes, coletivos culturais e espaços que

organizadores. “Foi um marco muito grande, porque percebemos

transformam a paisagem urbana em ambientes de convivência, São

que a festa tinha saído completamente da nossa bolha. Já não era

Paulo acompanha o surgimento de iniciativas que procuram oferecer

mais aquele negócio de amigo chamando amigo, embora essa

experiências para além dos formatos convencionais de

comunidade continue muito fiel. A NO ALTO começou a alcançar

entretenimento. É nesse contexto que a NO ALTO vem construindo

pessoas que a gente nem conhecia”, relembra Will.

sua trajetória, transformando rooftops em pontos de encontro para um público interessado em música, experimentação e novas formas A experiência como parte da curadoria

de ocupar a cidade. No dia 26 de setembro, o projeto realizou sua sétima edição, levando sua proposta a um novo endereço e

O crescimento do projeto trouxe também a necessidade de repensar

ampliando as possibilidades de uma festa que começou como uma

seus formatos, especialmente porque a escolha dos espaços sempre

reunião entre amigos.

ocupou uma posição central na identidade da NO ALTO. Depois de passar por alguns dos rooftops mais conhecidos do centro paulistano, os organizadores começaram a procurar alternativas que permitissem

Criada por Willian Kne e Gabriel Kempf, integrantes do duo de DJs

expandir a experiência sem abandonar a proposta original.

Will e Kempf, a NO ALTO surgiu de maneira independente, como uma alternativa aos caminhos tradicionais de inserção na cena musical paulistana. Os dois se conheceram durante a universidade,

A sétima edição, portanto, marcou essa transição ao acontecer em

quando Gabriel, que já atuava como DJ em Mato Grosso do Sul,

um novo espaço, o Clube, cuja estrutura permitiu distribuir a festa por

encontrou em Will um parceiro interessado em desenvolver projetos

três andares. A mudança representou uma oportunidade de explorar

musicais. A afinidade levou à formação do duo, que começou a se

outras configurações de circulação e convivência, preservando a

apresentar em bares próximos à faculdade e, gradualmente,

relação com a paisagem urbana que acompanha o projeto desde sua

construiu uma comunidade de pessoas que acompanhavam suas

criação. A programação de 26 de setembro reuniu apresentações de

apresentações.

Inawdyvel b2b Tiza, Kenya20Hz, Braba da NBR, Adame b2b Carlos do Complexo e Will e Kempf, com atividades previstas desde as 23h até as primeiras horas da manhã.

Em vez de concentrar esforços na elaboração de portfólios e na busca por oportunidades em festas já estabelecidas, os dois decidiram criar seu próprio evento, reunindo o público que haviam conquistado e

A seleção evidencia uma característica importante da NO ALTO: o

oferecendo espaço para outros artistas independentes. “A gente já

interesse por artistas que transitam entre diferentes vertentes da

tinha uma galera que acompanhava nossas apresentações perto da

música eletrônica e do funk, incluindo nomes em ascensão e

universidade, então resolvemos juntar essas pessoas e construir

encontros concebidos especialmente para a festa. Para os

alguma coisa. Foi assim que nasceu a NO ALTO, com a ideia de criar

fundadores, a curadoria musical não depende exclusivamente da

uma experiência em rooftop, porque não é só sobre ir a uma festa

popularidade dos convidados, mas principalmente da afinidade com

para ouvir música, mas também sobre descobrir um espaço novo”,

a proposta do evento e da possibilidade de apresentar novas experiências ao público. “A gente dá oportunidade para DJs

explica Will.

independentes que estão começando porque também já fomos esses DJs e, de certa forma, ainda somos. A gente vai a outras festas,

A primeira edição aconteceu no Mirante do Vale, no centro de São

conhece artistas, escuta um DJ de que gosta muito e pensa que

Paulo, reunindo aproximadamente quarenta pessoas, entre amigos e

precisa levar aquela pessoa para tocar no nosso evento. É uma forma

frequentadores das apresentações do duo. A resposta positiva

de continuar alimentando a cena e apresentar novos gêneros para

incentivou uma segunda edição no mesmo endereço, dessa vez

quem acompanha a gente”, explica Will. Essa lógica também orienta

alcançando a capacidade máxima de cem participantes. A partir dali,

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EM DESTAQUE | NO ALTO VII

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EM DESTAQUE | NO ALTO VII

a criação de apresentações em formato back-to-back, nas quais dois

para mim, conseguir trazer um pouco dessas raízes do bairro onde

DJs dividem o comando da pista.

moro para uma área mais central é muito importante. A gente sabe que o ingresso da NO ALTO não é tão acessível quanto gostaríamos, mas tentamos trazer o máximo possível dessa galera para viver uma

Além da programação, a NO ALTO procura estabelecer uma relação

experiência diferente, em um rooftop, em um lugar onde as pessoas

com o público que ultrapasse a expectativa em torno dos artistas

sejam bem acolhidas e possam se expressar sem julgamento”, afirma.

anunciados. Segundo os fundadores, a confiança construída ao longo das edições permite que os ingressos se esgotem antes mesmo da divulgação completa do line-up, demonstrando que a identidade

Curiosamente, o crescimento da NO ALTO colocou seus fundadores

da festa se tornou um elemento tão importante quanto suas atrações.

diante de uma questão que não estava prevista quando o projeto

Parte dessa construção passa também pela comunicação visual. Em

começou. Originalmente, a intenção era realizar apenas oito

vez de depender exclusivamente de flyers tradicionais, a equipe

edições, encerrando a festa antes que sua proposta perdesse a

desenvolve teasers cinematográficos que apresentam cada edição

conexão com o público e com as transformações constantes da

como parte de uma narrativa contínua.

música. Porém, a expansão da comunidade, a repercussão nas redes sociais e o interesse de marcas em apoiar o projeto fizeram com que essa possibilidade fosse reconsiderada. “Quando a gente criou a NO

Entretanto, é na relação com a cultura periférica que os

ALTO, a ideia era acabar na oitava edição. Pensávamos que o público

organizadores identificam uma dimensão particularmente importante

ia envelhecendo, que o gosto musical mudaria e que talvez fosse

de seu trabalho. Morador do Jaraguá, na Zona Norte de São Paulo,

melhor encerrar depois de entregar aquilo que queríamos. Só que a

Will reconhece no funk e nas festas de bairro referências

festa tomou uma proporção muito maior do que imaginávamos,

fundamentais para a construção da NO ALTO, especialmente diante

começaram a aparecer marcas interessadas, novas oportunidades e

das dificuldades enfrentadas por manifestações culturais que

uma comunidade que realmente acredita no projeto. Hoje, acho que

historicamente encontram nas periferias seus principais espaços de

não podemos parar, principalmente porque ainda temos muito

expressão. “A gente sabe que muitos rolês estão acabando nas áreas

espaço para continuar desenvolvendo essa curadoria”, adianta Will.

periféricas. A galera tinha os bailes de favela como espaço de cultura e encontro, mas muitos foram sendo impedidos de acontecer. Então,

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EM DESTAQUE | ADEUS + VALS FINGERBOARD

de plástico ao lado dos amigos. Com o tempo, descobriu um universo que reproduz, em escala reduzida, elementos da cultura do skate, incluindo marcas especializadas, equipamentos profissionais, competições e praticantes dedicados.

COLLAB ADEUS + VALS FINGERBOARD A relação entre graffiti e skate ultrapassa a proximidade estética que essas duas manifestações construíram ao longo das últimas décadas. Compartilhando espaços urbanos, referências culturais e formas de expressão que frequentemente desafiam convenções, ambas se desenvolveram a partir de comunidades que encontraram na rua um território de experimentação e pertencimento. É justamente nessa interseção que nasce a colaboração entre o artista paulistano NUNK1ADEUS e a VALS Fingershop, marca brasileira especializada em fingerboards (os famosos “skates de dedo”), que apresenta uma coleção de três modelos com gráficos autorais, acompanhados de embalagens desenvolvidas para ampliar a experiência artística e colecionável do projeto.

A possibilidade de conectar esse universo ao graffiti surgiu justamente da percepção de que as duas comunidades compartilham referências, comportamentos e interesses semelhantes. “Eu sempre gostei muito desse lifestyle do fingerboard. Vejo que é uma comunidade bem unida, assim como a do graffiti, e acho que são públicos que conversam. Queria unir esses dois universos e fazer com que a galera do fingerboard abraçasse a colaboração, curtisse os gráficos, as embalagens e entendesse o conceito por trás do projeto”, explica. A colaboração começou, então, a tomar forma quando NUNK1ADEUS decidiu desenvolver uma série de gráficos para shapes de fingerboard e procurar uma marca que compartilhasse sua visão criativa. Entre as empresas brasileiras que acompanhava, identificou na VALS Fingershop uma afinidade estética que poderia tornar a parceria possível. Depois de criar três composições, entrou em contato com Valentina, responsável pela marca, que recebeu positivamente a proposta. A partir daí, o desenvolvimento aconteceu de maneira colaborativa, preservando a liberdade artística que havia orientado a concepção inicial.

NUNK1ADEUS é um artista paulistano profundamente ligado ao graffiti e ao skate. Com o amadurecimento de sua identidade artística, o artista começou a buscar maneiras de transportar seus personagens para além das paredes, explorando suportes que permitissem uma relação mais próxima e física com o público. O interesse por brinquedos, miniaturas e embalagens colecionáveis passou a orientar parte de suas pesquisas, aproximando seu trabalho de linguagens associadas ao design de produto e à toy art. “Eu sempre tive vontade de fazer produtos, mas não tinha muita informação sobre como poderia fazer isso ou quais materiais usar. Foi uma coisa natural, que veio junto com a evolução da minha identidade. Comecei a sentir necessidade de fazer aquilo sair da arte e virar um objeto, algo que as pessoas pudessem pegar na mão e enxergar em outra dimensão”, comenta.

Cada um dos três gráficos representa uma perspectiva diferente sobre a relação entre graffiti e fingerboard. O primeiro explora o universo imaginário do artista, apresentando personagens que interagem com a prática em uma composição de fundo preto e figura azul. O segundo se aproxima do cotidiano das ruas e das situações vivenciadas por praticantes de manifestações urbanas, estabelecendo um paralelo entre o graffiti, o skate e as intervenções que frequentemente enfrentam restrições nos espaços públicos. Já o terceiro concentra sua atenção na dimensão coletiva do fingerboard, retratando personagens reunidos em um cenário de prática e convivência.

Nesse contexto, a aproximação com o fingerboard representou também um reencontro com experiências da infância. Antes de conhecer a existência de uma comunidade organizada em torno da modalidade, NUNK1ADEUS já improvisava obstáculos com cadernos e objetos domésticos para brincar com pequenos skates

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EM DESTAQUE | ADEUS + VALS FINGERBOARD

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EM DESTAQUE | ADEUS + VALS FINGERBOARD

também inclui um evento presencial previsto para 28 de novembro, em parceria com a loja Otra Vibe, no Centro de São Paulo. A proposta reúne exposição de telas de NUNK1ADEUS, intervenções de graffiti, espaços interativos e um campeonato de fingerboard, aproximando o público do processo criativo e das referências que deram origem à colaboração.

O cuidado com a apresentação também se estende às embalagens, concebidas como parte integrante da coleção. Cada modelo recebe uma caixa que reorganiza os elementos gráficos de maneira particular, acompanhada de adesivos e pensada para funcionar como um objeto decorativo e colecionável. “Eu quis trazer esse conceito de box porque acho muito legal a pessoa ter uma experiência além do fingerboard. Poder olhar os gráficos, abrir a caixa, encontrar os adesivos e depois guardar aquilo. A ideia é que cada embalagem represente um modelo e que as pessoas possam colecionar as três, deixando as caixas em casa como objetos de decoração também”, detalha.

Mais do que apresentar os produtos, NUNK1ADEUS pretende criar uma oportunidade de encontro entre pessoas que compartilham interesses semelhantes, reforçando a dimensão comunitária que acompanha sua trajetória desde os primeiros contatos com o skate. “A gente quer tirar o projeto da tela e colocar na mão da galera, fazer as pessoas verem de perto o que construímos. Quero que quem pratica fingerboard participe do campeonato, conheça os decks e sinta o clima da colaboração. Não é só lançar um produto, é fazer com que as pessoas entendam o que a gente quis criar”, conclui.

Com lançamento comercial previsto para 20 de novembro, a coleção será disponibilizada no site da VALS Fingershop, com distribuição para todo o Brasil. Os três gráficos poderão ser adquiridos em diferentes configurações de equipamentos oferecidas pela marca, permitindo que praticantes com diferentes níveis de experiência escolham a montagem mais adequada às suas preferências. A programação de lançamento

Representação digital do figernoard

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EDITORIAL / RELÍQUIAS NUNCA MORREM

EDITORIAL “AWAY DAYS BRASIL” Realização: Agência BAE e The Hidden Mag Cliente: Umbro Brasil Produto: Coleção ‘'Away Days'' Título: "Away Days Brasil'' Direção de Criação: Marcos Mendonça e Laura Mansur Fotografia: Vitor Cipriano Film: Gabriel Monteiro Assistente: Pedro Damasceno Stylist: Georgia Feola Assistente de Styling: Vitor Santos Beleza: Vinícius Martins Produção: Isabella Lobo Casting: Fellipe Escudero, Gabriela Kassis Bravo, Thaisinha Duarte, Kingsley Chegwo Time BAE Direção Executiva e Sócia: Jessica Martins Comercial e Sócia: Luana Jarandilha Comercial: João Pedro Guidio Atendimento: Melanie Teodoro Coordenadora de Projetos: Carolaine Santos Time Umbro Mídia Paga: Rebeca Paixão Conteúdo: Caio Bastos Criativos: Luiz Henrique, Júlio César

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POR NUTTA @NUTTAJAMESS

POR WESLEY DA HORA @DAHORAWES

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POR BERNARDO NARDI @RANHOCOMIX

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POR GIOVANNE MACHADO @1COSM.JPG

POR EMERSON DIAS @EMERSONDIASM5

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