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Música e distinção social em Ribeirão Preto

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Música e distinção social em Ribeirão Preto


Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Fernandes, Thaty Mariana Música e distinção social em Ribeirão Preto [livro eletrônico] / Thaty Mariana Fernandes. -Rio de Janeiro : Bookess, 2012. 1,74 Mb ; PDF Bibliografia. ISBN 978-85-8045-349-2 1. Cultura - Ribeirão Preto (SP) - História 2. Modernização 3. Música - Aspectos sociais 4. Música - Ribeirão Preto (SP) - História 5. Ribeirão Preto (SP) - História 6. Socialização pela música I. Título. 12-07021 CDD-981.612


Thaty Mariana Fernandes

Música e distinção social em Ribeirão Preto


O conteúdo desta obra, inclusive revisão ortográfica, é de responsabilidade exclusiva do autor


A Ribeirão Preto, cidade onde vivi 17 dos meus 35 anos. A José Ramos Tinhorão, José Miguel Wisnik, José Geraldo Vinci de Moraes, Alberto T. Ikeda, Hermano Vianna e Vicente de Paula Araújo, os inspiradores. Ao músico Márcio Coelho, quem me deu a sugestão.


Agradeço ao meu marido Henrique Scaloppi pela paciência e o carinho, e à minha orientadora, Tânia da Costa Garcia, por acreditar no meu projeto.


Sumário Música e distinção social em Ribeirão Preto............................ 12 Introdução ............................................................................. 19 1.

O desenvolvimento urbano de Ribeirão Preto .............. 16 1.1.

Economia ......................................................................32

1.2.

Sociedade .....................................................................38

1.3.

A modernização de Ribeirão Preto ...............................46

2.

A modernização na música e nos entretenimentos ...... 51

3.

Música e entretenimento como negócio ...................... 61 3.1.

Frequência dos espetáculos e controle social ..............77

3.2.

Circos ............................................................................84

4.

Profissionais da música ............................................... 86 4.1.

Bandas e músicos locais ...............................................87

5. Comércio de instrumentos, partituras, discos e gramofones ......................................................................... 102 5.1.

Comércio de pianos ....................................................107

6. Música e entretenimento como meios de culto e educação ............................................................................. 114 6.1. 7.

A música nas escolas ..................................................115 O carnaval ................................................................ 136

8. Outras formas de socialização pela música: bailes e saraus, festas e serenatas ..................................................... 152 Considerações finais............................................................. 159


Referências bibliográficas ...........................................................163 Fontes .....................................................................................170


Introdução


Thaty Mariana Fernandes

Este livro é resultante da revisão e edição da pesquisa desenvolvida no mestrado em História e Cultura Social da UNESP. Uma primeira revisão e edição foi feita para o lançamento do livro A Música em Ribeirão Preto (FERNANDES, 2011). A presente versão aproveita a maior parte do texto desse livro, acrescida de novos trechos e ilustrações que fariam parte da dissertação original e foram omitidos. Esse trabalho teve como objetivo abordar o universo do entretenimento e das atividades musicais, não propriamente como uma “história da música”, mas como uma sondagem dos ambientes pelos quais a música circulava, como era produzida e consumida pela sociedade da época. A pujança econômica derivada do café permitiu investimentos expressivos no ramo do entretenimento, estimulando o surgimento de empresários do setor, capitalizando o lazer e os circuitos que envolviam a música. A urbanização e a conseqüente tentativa de construção da Ribeirão Preto higiênica, organizada e bela, foi um processo que se iniciou na segunda metade do século XIX e até a década de 1920 já havia criado serviços e obras essenciais como a rede de água e esgoto, o calçamento das ruas, o ajardinamento do antigo Largo da Matriz, regras para o embelezamento arquitetônico, instalação da linha ferroviária, construção de prédios públicos como os da Câmara e Cadeia e o Paço Municipal. A ideologia do urbanismo sanitarista, legitimado pelo discurso das autoridades políticas e científicas da cidade, e o desejo das

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camadas mais abastadas de construir a sua Belle Époque local moveram a modernização da cidade e transformaram o povoado rural em “Capital d’Oeste”. Dentre a produção historiográfica a respeito de Ribeirão Preto focada nas primeiras décadas do século XX predominam trabalhos sobre economia, política, questões urbanísticas e arquitetônicas. Os trabalhos que se dedicaram à história local ajudam a conhecer o espaço urbano e a realidade sócio-econômica da época. Auxiliam, ainda, na compreensão da penetração da ideologia do moderno no município e como ela se manifestou no circuito do entretenimento e de outras atividades ligadas à música. As obras dos memorialistas locais também são úteis ao fornecerem informações adicionais que, embora muitas vezes não sejam embasadas em fontes documentais, nos indicam como certos fatos foram tratados pela memória coletiva, da qual representam um testemunho, ou são úteis no diálogo com as fontes aqui utilizadas. Entre as obras de memorialistas utilizadas neste trabalho destacam-se as de José Pedro Miranda (1971), Prisco da Cruz Prates (1956) e Rubem Cione (1985). Esse último é o mais conhecido e o seu trabalho se constitui como a mais popular referência para o estudo da história da cidade. Esta obra foi, em parte, baseada na obra de Plínio Travassos dos Santos (1923). A esta pesquisa interessa também o trabalho inédito da professora Myriam Strambi, sobre o músico

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Belmácio Pousa Godinho (1983), os seus manuscritos e o livro 50 anos da Orquestra Sinfônica em Ribeirão Preto (1938-1988), publicado em 19891. Rodrigo S. Faria (2003) analisa o desenvolvimento da cidade nas três primeiras décadas do século XX, demonstrando quais eram as prioridades, embates e opiniões das autoridades políticas e científicas e dos munícipes sobre as obras de infra-estrutura necessárias, utilizando-se das Atas da Câmara Municipal e as correspondências enviadas aos jornais locais. O autor revela as direções da expansão da cidade, o anseio pelo belo e o moderno, e quais medidas foram tomadas através do tempo para sanar os diversos problemas e deficiências – inclusive estéticas – do município, desde a sua emancipação. As medidas ordenadas pela Câmara Municipal revelam que as obras consideradas urgentes, tais como os serviços de coleta de esgoto e a canalização da água, entre outros, muitas vezes eram discutidos com morosidade e falta de objetividade. As obras públicas ou particulares de interesse público não priorizavam o saneamento básico e a higienização, haja vista a inauguração do Theatro Carlos Gomes, em 1897, quando ainda faltavam serviços essenciais. A Câmara sofria com a falta de verbas para a realização de todas as obras necessárias, tendo que recorrer constantemente a empreendedores particulares e empréstimos, tal como no

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Material cedido pela filha da autora, Luciane Strambi.

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caso do Theatro Carlos Gomes, construído por um consórcio de empreendedores particulares. Isso evidencia um esforço considerável para a constituição de um ambiente propício para as atividades culturais. Essa informação é muito interessante porque vai ao encontro do trabalho de Veruschka de Sales Azevedo (2001), no qual a autora acompanha a metamorfose dos espetáculos e, ao mesmo tempo, da cidade, comparando-a a um grande palco onde a elite representa os atores e o restante da população, a platéia. Nesse cenário, onde a modernidade era o espetáculo, era preciso que os seus signos estivessem presentes. Era necessário formar uma imagem de cidade "moderna", “higiênica" e "civilizada", e, para isso, a presença de um teatro era fundamental - no caso, o Theatro Santa Clara, fundado em 1874, e construído pelo Coronel e Barão de Franca, José Garcia Duarte. Um teatro suntuoso era o lugar apropriado para as maiores e as mais prestigiadas companhias teatrais e espetáculos. Era também o cenário onde a elite podia desfilar os seus figurinos e trejeitos para a assistência da "platéia", ou seja, aqueles que estavam excluídos desses lugares. Essa segregação espacial dos pobres se repetia constantemente, com áreas destinadas à moradia e à frequência de uns e de outros. Adriana C. B. da Silva (2006) analisou a criação e o desenvolvimento do Núcleo Colonial Antônio Prado, sua ocupação e posterior incorporação à malha urbana, tornando-se o bairro conhecido como Barracão. O Barracão, que deu nome ao bairro, consistia no galpão que abrigava provisoriamente os imigrantes vindos de trem em busca de

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trabalho, e ao seu lado havia uma estação de mesmo nome, a exemplo da Hospedaria do Imigrante, em São Paulo. Ali os imigrantes eram registrados e aguardavam por trabalho. Os que tinham algum pecúlio podiam comprar um lote no Núcleo Colonial. Esse estudo propiciou uma referência sobre quem eram e como viviam as pessoas fora do centro. Os trabalhos sobre a cidade de São Paulo sugerem um modelo de estrutura formal e analítica, além de informações sobre como era o universo musical na capital, no mesmo período. No livro As Sonoridades paulistanas, José Geraldo Vinci de Moraes (1995) reflete sobre as tensões e as dinâmicas sócio-culturais na formação das sonoridades paulistanas. Nesse período, São Paulo passava por transformações decisivas, de um centro rural, agropastoril e provinciano para uma cidade industrial e cosmopolita, habitada por pessoas vindas de diversas partes do mundo e do país, trazendo cada grupo os seus costumes e a sua musicalidade. O trabalho utilizou depoimentos de artistas e de outras pessoas que traziam recordações dessa época, e relatos de memorialistas. Dentro dessa diversidade, sobressairam-se os intermediários culturais, aqueles agentes que contribuíram para a fusão e a difusão das culturas dos diversos grupos, comunicando-se com vários deles: os chorões paulistanos. Ribeirão Preto, na fase estudada, também passava por mudanças decisivas no sentido da urbanização e modernização, da diversificação social e cultural, com a introdução dos imigrantes em grande escala, principalmente após a criação do Núcleo Colonial Antônio Prado. Sua trajetória de mudanças e desenvolvimento se assemelhou em muitos aspectos com a

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cidade de São Paulo do início do século XX. O autor Vicente de Paula Araújo (1981) evidenciou, através das notícias de jornais e anúncios da época (1897 a 1914), o cotidiano da nascente indústria do lazer de salão: empresas, espaços, filmes e artistas que circulavam pela capital paulista. O seu livro, nas suas muitas transcrições textuais e reproduções de imagens, expõs a estética e a linguagem dos anúncios e notícias, além de ter demonstrado os fatos e a dinâmica das diversões na cidade durante o período. A pesquisa que resultou neste livro delimitou-se entre os anos 1893 e 1917 – desde o jornal mais antigo encontrado até o ano da falência da Empreza Cassoulet. Esta empresa foi a primeira a surgir no ramo de entretenimentos da cidade. Ela era a maior promotora de eventos no período, criando uma moderna dinâmica comercial dos entretenimentos urbanos locais, administrando teatros, trazendo espetáculos do Rio de Janeiro, de São Paulo, de Buenos Aires e de Montevidéu, enfim, de centros urbanos que gozavam de um status de modernidade e sofisticação. A empresa de Cassoulet difundiu padrões estéticos, fornecendo por meio dos seus artistas e de filmes, modelos de comportamento, modas de vestuário, um repertório musical, etc. Seus espetáculos serviram de referência para as empresas concorrentes, que surgiram anos depois, e para a criação de um senso estético identificado com o moderno na população em geral. Embora esta pesquisa leve em consideração outros aspectos do chamado "universo musical", a capitalização do lazer por intermédio destas empresas é o que mais chama a atenção, constituindo-se na transformação mais marcante, e capaz de influenciar no

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ensino de música, na sua comercialização através de partituras, instrumentos, discos, na sua execução, etc. Os jornais davam destaque aos eventos mais glamorosos e identificados com as elites, cujo local era o centro da cidade. Encontramos, também, formas mais tradicionais e populares de usos da música, mas sem o mesmo destaque e o mesmo tratamento nos noticiários. Quase diariamente eram publicadas notícias de eventos significativos para o estudo do universo musical e do entretenimento, tais como a programação dos teatros, festas comunitárias, comemorações cívicas, o repertório a ser executado pelas bandas nas retretas do Jardim Público (atual Praça XV), carnaval, anúncios de professores e outros. Os comentários sobre tais eventos, a forma como eram noticiados, anunciados ou omitidos, são reveladoras de como a sociedade os acolhia, qual era a sua finalidade, o seu público preferencial, o seu repertório, o status e a origem de tais eventos e dos artistas. Os primeiros jornais do final do século XIX, são uma fonte de informação sobre os espetáculos e demais atividades relacionadas à música. Havia uma grande quantidade de jornais publicados, a maioria de curta duração (TUON, 1997, p. 99). Os jornais mais influentes e de circulação constante eram o Diário da Manhã (1899) e A Cidade (1905). Na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro foram pesquisadas as coleções do jornal A Cidade. No Arquivo Público do Estado de São Paulo foram consultados os exemplares avulsos de jornais diversos, a partir de 1893. Em Ribeirão Preto foi possível localizar na Biblioteca Padre Euclides algumas coleções, entre essas duas datas, dos jornais A Cidade e Diário da Manhã. Os dois

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últimos, considerados os principais jornais, apresentavam divergências políticas, mas, nos assuntos ligados à cultura e ao entretenimento, costumavam apoiar os eventos locais. Poucas vezes os espetáculos, festejos ou outras atividades estudadas eram alvo de críticas. Havia sessões diárias que davam notícias sobre os entretenimentos na cidade, e esse assunto ocupava uma parte considerável das quatro páginas dos jornais da época. Os jornalistas tinham entrada franca nos eventos e espetáculos, por isso, nunca faltavam notícias desse tipo. Havia também os anúncios de casas comerciais de partituras, instrumentos, professores e outros profissionais ligados à música. Os Códigos de Posturas Municipais, de 1889 e 1902, vigentes no período delimitado para a pesquisa, demonstram as tentativas do poder público de disciplinar os espetáculos e demais diversões e eventos públicos, criando regras para o seu bom andamento. Os Códigos são uma importante fonte para se avaliar o que era julgado próprio ou impróprio no universo estudado.

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1. O desenvolvimento urbano de RibeirĂŁo Preto

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A cidade de Ribeirão Preto se formou em meados do século XIX, em um período em que a população de São Paulo já havia se sedentarizado e em que a lavoura do café já dominava grande parte do seu território. Por um curto período a principal atividade econômica dos habitantes da cidade foi a criação de gado, que, vindos de Minas Gerais, ocuparam esse novo território a fim de expandir sua atividade. A lei de Terras de 1850 tinha como objetivo regularizar e valorizar a sua posse. No entanto, mesmo depois de ter entrado em vigor em 1854, ainda era fácil tomar posse de terras devolutas e forjar títulos falsificados. Uma das formas era doar uma parcela à Igreja, com o compromisso de se construir ali uma capela. Assim, a família Reis recorreu à doação de parte das terras das suas fazendas à Igreja, junto a outros proprietários vizinhos, constituindo o patrimônio religioso. Habitantes das fazendas Palmeiras, Ribeirão Preto, Retiro e Barra do Retiro ergueram uma capela sob a invocação de São Sebastião. Esse foi também um ato político, pois assim se garantiam ali os registros de nascimento, de matrimônio, de óbito e outros com todas as implicações jurídicas e sociais (LAGES, 1996, p. 221). Em 19 de junho de 1856 (data oficial de fundação da cidade) é escolhido o lugar para o patrimônio de São Sebastião. A demarcação do largo e o traçado dos arruamentos do novo povoado foi feito seguindo o traçado de tabuleiro de xadrez, com quarteirões simétricos. Embora já houvesse registro do povoado antes da construção da capela (LAGES, 1996, p. 223), a partir desse acontecimento foi que se iniciou de fato o aumento progressivo da população, de modo que o

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povoado de São Sebastião do Ribeirão Preto tornou-se Freguesia em 1870, ano em que foi edificada a 1ª matriz, tomando o lugar da capela provisória. No ano seguinte a Freguesia foi elevada à categoria de Vila, desmembrando-se de São Simão (SILVA, A. C. B., 2006, p. 51). Quando os cafeicultores se instalaram, a partir da década de 1870, entraram em conflito com os antigos posseiros pecuaristas, mas se tornaram dominantes em pouco tempo. Essa nova classe de fazendeiros administrava sociedades ferroviárias, bancárias e detinha postos na administração pública. A cafeicultura provoca um processo de concentração de terras e Ribeirão Preto. Em novembro de 1883, quando os trilhos da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro chegam à vila, se dá a sua definitiva integração com o mercado cafeeiro. A ferrovia foi um elemento decisivo para a modernização e integração local, e trouxe uma arrancada de desenvolvimento econômico, cultural e mais crescimento populacional. O espaço da cidade apresentava uma divisão fundamental, entre o centro (a área entre os ribeirões Preto e Retiro Saudoso) e a periferia, formada pelo Núcleo Colonial Antônio Prado e os bairros surgidos a partir de terras particulares, como o Retiro (às margens do córrego de mesmo nome), República (ao longo do ribeirão Preto), Santa Cruz de José Jacques (próximo ao caminho de São Simão) e Vila Tibério (loteamento próximo à estação da Mogiana). Higienópolis, ao sul da cidade, representava o eixo de expansão mais elitizado e uma excessão a essa regra, como se fosse um prolongamento do centro.

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A primeira ordenação urbanística do povoado era delimitada em torno do Largo da Matriz, entre as atuais ruas Álvares Cabral, Cerqueira César, Duque de Caxias e General Osório. Os arruamentos e edificações surgiam alinhados ao imenso quadrilátero e se expandiam num tabuleiro linear. Em 12 de abril de 1871, a Freguesia de São Sebastião do Ribeirão Preto foi elevada à categoria de Município pela lei n° 67 da Assembléia Legislativa Provincial. Antes, Ribeirão Preto estava atrelada juridicamente ao Município de São Simão. A distância entre as duas localidades dificultava o acesso aos serviços disponíveis no município e favorecia o isolamento e a independência de Ribeirão Preto. A criação do novo município implicou em uma série de obrigações que os seus representantes teriam que adotar, como a construção da Casa de Câmara e Cadeia. A primeira normatização oficial surge a partir da constituição da primeira Câmara Municipal, em 13 de julho de 1874. A Câmara se depara com questões referentes à criação de instituições públicas ordenadoras e a criação de uma estrutura física adequada. Os debates sobre a construção de um edifício próprio para a Câmara e Cadeia perduraram até 1904, quando foi finalmente construído na praça Barão do Rio Branco. As dificuldades orçamentárias impediram durante muitos anos o aluguel e a construção de um edifício adequado. Questões de higiene e saúde pública também entraram na pauta de discussão das primeiras sessões da Câmara. Nos seus primeiros dias de atuação constituiu-se uma Comissão de Obras Públicas, a fim de empreender a implantação de melhorias para o município.

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O primeiro Código de Posturas da Câmara é de 1889. Em tal código, temas fundamentais foram inicialmente abordados: edificações, alinhamentos, etc.; asseio, segurança e comodidade pública; polícia preventiva; comércio e indústria; iluminação. Não havia obrigações referentes aos subúrbios, delimitados por esse mesmo código, situados além da área entre rios (córrego do Retiro e ribeirão Preto). Determinou-se que nenhum edifício da área central deveria ser construído fora da linha do arruamento, ou deveria ter muro ou grade nessa mesma linha, dando continuidade à ocupação linear das quadras. O Código de Posturas não condicionava nenhum tipo de adequação estética específica, limitando-se a questões exclusivamente técnico-construtivas. A preocupação com higiene e salubridade está mais relacionada com os terrenos, quintais e a sua ocupação. É estabelecido um padrão de ocupação dos lotes e quadras, gabaritos para as casas térreas e sobrados. O não cumprimento dessas regras pelos construtores implicava na obrigação de demolir a parte já construída e o pagamento de multa. Esse código tinha por objetivo ordenar a cidade e erradicar os resquícios de um ambiente rural, como casas de pau-a-pique e sapé que ainda restavam. Os proprietários estavam encarregados também de efetuar o nivelamento das ruas e colocação das sarjetas. O acúmulo de fossas, estagnação de águas pluviais sem um sistema de escoamento e captação e acúmulo de detritos contribuíram para uma situação desequilibrada no ambiente urbano, originando doenças e maus odores. A rede de esgoto foi inaugurada em 24 de fevereiro de 1900, e o abastecimento de água, em 12 de novembro de 1898.

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Estes dois serviços foram arrendados por 35 anos e unificados numa única empresa em 1903, a Empresa de Água e Exgottos de Ribeirão Preto, criada pelo engenheiro Flavio Uchôa. Até a conclusão e inauguração do primeiro ajardinamento do Largo da Matriz (entre as ruas Tibiriçá e Álvares Cabral, ou seja, menos da metade da área total) no início de 1902, a situação do Largo era bastante precária: não havia abaulamento ou calçamento das ruas e os passeios eram irregulares. Ali também havia casas velhas e pardieiros, e a antiga matriz foi se arruinando com o tempo, até a sua demolição em 1905. Símbolo da modernização em processo e centralizador do núcleo urbano, o entorno do Jardim Publico seria o local preferencial para a construção de palacetes e outros edifícios suntuosos como a sede da Sociedade Recreativa de Desportos (1906). Além deste, nas suas adjacências, outros espaços públicos retangulares e retos complementariam o projeto urbano de modernização da cidade: Praça Treze de Maio, com o edifício da Catedral Metropolitana2, praça Schimidt e Praça da Estação (próximas à estação central da Mogiana) e praça Aureliano de Gusmão (atual 7 de Setembro). A praça Barão do Rio Branco era a continuação do Largo da Matriz, entre as ruas Barão do Amazonas e Cerqueira

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O seu projeto fora aprovado em 1903, e a pedra fundamental fora lançada em 1904. A bênção e o término da construção aconteceram em 1920.

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César. Em 1889 a Câmara determinou a sua divisão e a área para a construção do Theatro Carlos Gomes. Entre as duas praças, além do teatro, foi ocupado meio quarteirão com edificações. Na Barão do Rio Branco foram construídos o prédio da Câmara e Cadeia (1904) e o Paço Municipal (1917). As atividades comerciais que começavam a se implantar no município necessitavam de um ambiente propício ao seu desenvolvimento. Em 1878 a Câmara cria uma zona comercial através das principais ruas da região central da Vila. Conforme Ata de 26 de dezembro de 1878, citada por Faria (2003, p. 118), ficou determinado que a Camara marque um quadro comprehendendo as ruas de mais commercio, para dentro do qual os terrenos que existirem pertencentes ao patrimonio devem ser limpos a custa desta Camara, os mais serem os proprietarios obrigadosa conservarem limpos, o qual seo de parecer o mesmo comprehende as ruas do Commercio, Visconde do Rio Branco, Duque de Caxias e General Ozorio, desde a rua da Liberdade até a rua Saldanha Marinho.

A rua General Osório seria o grande eixo comercial, ligando o Largo da Matriz até o edifício definitivo da estação central da EF Mogiana, na avenida Jerônimo Gonçalves em 1885, às margens do ribeirão Preto3.

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A ferrovia foi inaugurada em 23 de novembro de 1883, com uma estação provisória.

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A dinâmica de fatores econômicos, de infra-estrutura e transporte, promoveu no município uma alteração dos acontecimentos em um ritmo que não iria admitir a condição estática do Código de Posturas. Tais fatores exerciam e impunham uma dinâmica também aos poderes políticos, sobretudo à Câmara Municipal, nas suas ações, sessões e atas, a fim de instaurar na cidade condições favoráveis à mudança. Em 1883 surgiram as primeiras propostas oficiais de implantação de iluminação pública, que se efetivou até 1884. Os moradores e proprietários eram responsáveis pela colocação dos postes de iluminação a lamparina. Em 1885 a Câmara determina que a área em torno do Largo da Matriz seria prioritária em termos de melhoramentos urbanos, e regulamenta como deve ser provida a iluminação dessa área. Isto evidencia a sua importância como espaço de sociabilidade e de referência urbanística. Ali realizavam-se eventos lúdico-religiosas que intensificavam a vida social. Como área livre na cidade propícia à ocupação, as atividades e as pessoas tinham que interagir. Era também um ambiente de atividades comerciais. Antes da construção do mercado em 1901, este era o espaço utilizado para o comércio de gêneros alimentícios e bens de consumo doméstico. Aos poucos o lazer e a socialização que ocorriam nos pátios, terreiros e armazéns rurais foram tomando lugar nas ruas, feiras, praças e jardins públicos da área urbana. A iluminação favorecia o uso noturno da cidade. O lazer da população não estaria mais limitado aos cultos e festas religiosas de caráter familiar e diurno.

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O Theatro Carlos Gomes, cuja construção foi impulsionada pelo cafeicultor Francisco Schimidt, inaugurado em 18 de dezembro de 1897, em sua época constituiu o maior símbolo do poder econômico local e da europeização do espaço urbano. Representava a imposição dos desejos da elite dominante através de uma arquitetura monumental, da sua capacidade de viabilização e de legitimação do seu projeto de cidade moderna. Essa construção marcou profundamente a paisagem urbana. Fazia um contraste evidente com o seu entorno, sem melhorias urbanas dignas daquela edificação, e com o prédio da matriz ao seu lado, de um aspecto bem mais arcaico e simplório. A sua aprovação na Câmara e posterior construção aconteceram antes mesmo da implantação da rede de esgoto, o que demonstra a importância atribuída ao teatro e o que ele representava. O Núcleo Colonial Antônio Prado correspondia à maior área povoada além do quadrilátero central de Ribeirão Preto. Em princípio, era considerado área rural, mas no período estudado o seu povoamento se torma cada vez mais denso e a sua ocupação toma, progressivamente, um aspecto urbanizado, ao menos em algumas áreas específicas. As informações sobre o Núcleo Colonial foram extraídas da obra de Adriana Capretz Borges da Silva (2006), já citada na Introdução. A abolição da escravidão, na segunda metade do século XIX, criava os seguintes problemas para os fazendeiros proprietários de escravos: reorganizar o seu sistema de trabalho, renovar a sua mão-de-obra, e criar uma nova

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garantia de crédito hipotecado, antes representado pelo escravo. A solução para este problema vem a partir da Lei de Terras de 1850, que passa a atribuir valor financeiro à terra. A partir de então, a terra se capitalizou. Este processo, no entanto, ocorreu de forma gradual e às vezes conflituosa, entre outras coisas porque, antes e depois da lei entrar em vigor, havia muitas terras devolutas e era fácil forjar a sua posse. A questão da mão-de-obra também foi um problema persistente durante o século XIX, e que resultou em muitos impasses. A solução proposta foi o subsídio à vinda de imigrantes, especialmente europeus, pois o governo central tinha como objetivo oculto “clarear” a população brasileira, predominantemente negra, indígena e mestiça. Havia também uma preocupação em se “dignificar” o trabalho trazendo indivídos habituados a uma outra ordem social, pois numa sociedade dividida entre senhores e escravos o trabalho manual era considerado degradante. Nas diversas províncias, depois Estados, surgiram diferentes soluções para a falta de mão-de-obra. Os fazendeiros paulistas tinham uma resistência em criar núcleos coloniais no Estado, pois acreditavam que os colonos, se tivessem terras próprias, iriam se tornar concorrentes. Em princípio foram criados núcleos em locais afastados de povoamentos e sem comunicação. Isso resultou no fracasso dos mesmos e no momentâneo abandono de tal prática, entre 1860 (quando foi criado o núcleo de Cananéia) e 1885 (criação do núcleo de Cascalho, em Cordeirópolis). Em 1887 foram criados mais cinco núcleos, entre os quais o Núcleo Colonial Antônio Prado, em Ribeirão Preto.

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Dessa vez a estratégia adotada e as finalidades eram diferentes. Chegou-se à conclusão de que, para fixar o imigrante, era preciso permitir o seu acesso à pequena propriedade, caso contrário ele poderia migrar, ou mesmo voltar à sua pátria de origem, e assim perpetuar o problema da falta de braços para a lavoura. Na segunda metade do século XIX São Paulo começa a sofrer com a falta de abastecimento. Permitir o acesso à pequena propriedade poderia sanar esse problema, pois esses agricultores se ocupariam de cultivar gêneros de subsistência. A proximidade a um centro urbano era fundamental para o escoamento da produção dos colonos e para o seu acesso aos serviços urbanos, o que favorecia a sua fixação e proporcionava uma perspectiva de crescimento populacional e territorial ao município. Dessa forma, estes novos núcleos foram implantados a fim de se criar “viveiros de mão-de-obra” (SILVA, A. C. B., 2005, p. 38), abastecer e estimular o desenvolvimento dos municípios. As terras utilizadas para a formação do Núcleo Colonial Antônio Prado se localizavam ao norte do centro urbano de Ribeirão Preto, seguindo os leitos dos córregos que margeavam a cidade e a EF Mogiana. Estas terras foram consideradas devolutas e, uma vez apropriadas pelo Estado, foram loteadas e vendidas aos imigrantes em condições especiais. Eram consideradas de baixo valor por estarem à margem dos córregos (várzeas) e cortadas pela ferrovia. No entanto, para os futuros ocupantes das pequenas glebas, isso facilitaria o acesso à água e ao transporte.

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No projeto do núcleo estavam previstas uma sede, a ser ocupada por aqueles que comprovassem poder exercer uma atividade ou profissão urbana, e quatro seções rurais, destinadas aos agricultores. A aquisição de um lote obedecia a uma série de condicionamentos, e a administração do Núcleo tinha suas próprias regras. A preferência era dada aos imigrantes estrangeiros, recém introduzido no Estado de São Paulo ou mais antigos, e que possuíssem família numerosa. Era concedido apenas um lote por candidato (eram 200 lotes ao todo) nas seções rurais, mas na sede essa regra não foi observada. Seis meses após entregue o lote rural o colono deveria ter roçado e plantado, e construído a sua casa. O lote urbano deveria ter uma edificação erguida, seguindo os alinhamentos demarcados pelo encarregado do núcleo. A pena para o não cumprimento de tais exigências era a perda do lote e das benfeitorias já realizadas. O título definitivo de propriedade era dado ao colono que quitasse a sua dívida. O lote não poderia ser transferido de dono sem a autorização da Inspetoria de Terras, Colonização e Imigração enquanto o núcleo não fosse emancipado, o que aconteceria quando pelo menos a maioria dos colonos quitasse a sua dívida, cujo prazo máximo era de dois anos. Depois de emancipado, o Núcleo passaria a pertencer ao município onde estava situado e os seus lotes se tornariam propriedades particulares. Havia obrigatoriedade em se manter os marcos do lote, as dimensões das ruas, inclusive aquelas que servissem a outras povoações e passassem por dentro do núcleo, distanciamento de dois metros e meio entre as árvores que fossem plantadas, indenizações aos

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proprietários do terreno que fosse utilizado para a abertura de novas estradas, permissão para a utilização de pedras, madeiras e outros materiais das áreas incultas do núcleo para a construção de pontes, casas e outras benfeitorias, limpeza da frente ao lote, desobstrução de valetas e encaminhamento das águas pluviais. Enfim, havia uma espécie de “plano diretor” em relação a alguns aspectos da infra-estrutura. Depois de emancipado, já em 1892, o Núcleo Colonial Antônio Prado saiu da tutela do Estado e deixou de ter administradores e encarregados. Os seus lotes passaram a fazer parte do mercado de terras e puderam ser comercializados livremente. Nesse período de transição houve uma valorização dos terrenos, que mesmo assim continuavam com preços baixos e acessíveis àqueles que não podiam morar em outras áreas do centro urbano. Certas instalações passaram a ocupara sua área, pelo preço baixo dos terrenos e por serem consideradas perigosas à saúde da população do centro, cujo povoamento era mais denso e mais elitizado. No Núcleo se instalaram fábricas, o Cemitério Municipal, o Hospital de Isolamento de Leprosos (Lazaretto), o Matadouro, etc. Ao lado do lote n° 7A da Sede ficava a estação Barracão, da EF Mogiana. O Barracão, que dava nome à estação próxima4, consistia num galpão onde se alojavam provisoriamente os

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“Provavelmente existia uma estação provisória junto ao Barracão pois, segundo Zamboni (1993), a Estação Barracão data de 1/6/1900.” (SILVA, A. C. B., 2006, p. 79).

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imigrantes, tal como na Hospedaria dos Imigrantes, em São Paulo. Ali eles eram recebidos, registrados e aguardavam ser encaminhados para as fazendas onde iriam trabalhar, ou faziam o pedido de lote. O Barracão também funcionava como uma espécie de “prefeitura” do Núcleo, e concentrava toda a sua documentação, a qual se incendiou junto com o prédio no início do século XX. Posteriormente, o Núcleo foi cortado também pelo ramal da Mogiana que ia até Sertãozinho, e pela EF São Paulo - Minas. O bairro que se formou após a emancipação do Núcleo continuou sendo denominado Barracão, mas com uma distinção: a área ao sul da linha da Mogiana era chamada Barracão de Baixo, e ao norte, Barracão de Cima. As chácaras do Núcleo produziam os gêneros de subsistência necessários à cidade, e isso constituía uma das formas de ganho dos seus habitantes. O que lhes proporcionava a maior renda era a criação de gado leiteiro: vendiam o leite diretamente nas residências ou à fábrica de laticínios Rio Pardo. Alguns plantavam café em suas pequenas propriedades. Uma ocupação que se tornou bastante comum e predominante entre os habitantes do Núcleo até 1892 foi a de alugar charretes para o transporte de mercadorias e pessoas. No Núcleo e na cidade eram comuns os "carros de aluguel", pois nunca chegou a haver bondes. Esse era então o principal meio de transporte em distâncias mais curtas. Nos principais eixos de trânsito do Núcleo formaram-se os principais corredores de povoamento e de comércio: a rua Capitão Salmão (entre a sede e a segunda seção), no

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Barracão de Cima, e a rua Saldanha Marinho (entre a terceira e a quarta seção, continuação do caminho para Batatais), no Barracão de Baixo. Apesar de a sede ter sido planejada para esta finalidade, a terceira seção urbanizouse mais rapidamente, favorecida pela proximidade em relação à cidade e a localização da Santa Casa de Misericórdia e do cemitério, na rua Saldanha Marinho. A implantação do Núcleo Colonial Antônio Prado viria a desenhar imediatamente o fundamento de uma “geografia social da cidade”, que perdura até os dias de hoje: o vetor de expansão sul, partindo do “quadrilátero central”, nas proximidades com a Avenida Nove de Julho e Independência, configurando a centralidade da elite, concentrando valores imobiliários altos, habitações luxuosas, alto consumo e mais investimentos públicos; no sentido oposto, a partir da chamada “baixada” formada pelo encontro do ribeirão Preto e do córrego Retiro, na proximidade com as avenidas Jerônimo Gonçalves e Francisco Junqueira, seguindo por todo o eixo Norte, entre os bairros que tiveram origem no Núcleo Colonial Antônio Prado, foi delimitado o território da população mais pobre.

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Figura 1: esquema mostrando o centro de Ribeirão Preto em formato quadriculado e .os lotes do Núcleo Colonial Antônio Prado em suas várias seções e a área urbanizada em 1910, em cinza. (SILVA, A. C. B., Plantas de Ribeirão Preto [mensagem

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Thaty Mariana Fernandes pessoal]. Mensagem recebida por <thatymar@terra.com.br> em 22 ago 2007).

1.1.

Economia

Nos primórdios do povoamento de Ribeirão Preto, os cafeicultores que chegavam enfrentaram conflitos com os antigos posseiros pecuaristas, mas estes foram derrotados por essa classe de proprietários mais enriquecida e bem estruturada. O cultivo extensivo de café em Ribeirão Preto começou na década de 1870 e teve seu auge até 1930. O período desde a década de 1880 até a de 1930 foi a época em que o oeste paulista predominou entre as áreas produtoras de café no mundo, principalmente aquela denominada Alta Mogiana5, cujo município de maior destaque foi Ribeirão Preto. Um número reduzido de proprietários era responsável por 62% da produção de café. Tinham uma produtividade média de 72 arrobas/1000 pés. Na Alta Mogiana, Ribeirão Preto era o município que reunia a maior produção, a maior produtividade e a maior concentração de grandes cafezais. A agricultura de subsistência e a criação de gado tiveram papel fundamental no preparo do município para o café, permitindo a abertura das matas, o desbravamento do sertão, a ocupação efetiva do solo e a permanência de uma

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Nesse período a Província ou Estado de São Paulo era dividido em áreas correspondentes às estradas de ferro o que cortavam.

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quantidade razoável de moradores, mão-de-obra livre em potencial. As principais questões de legalização e disputa de terras teriam sido resolvidas até a década de 1870, quando se inicia o processo de exploração intensiva. De acordo com Pinto (2000, p. 72): Houve uma corrida à região do Oeste Paulista, especialmente para as cidades de S. Simão, Cravinhos, Sertãozinho e Ribeirão Preto após a chegada da ferrovia em Campinas, em 1872. Em 1874, a ferrovia já havia chegado em Limeira. As terras economicamente viáveis para se plantar café eram as distantes até 200 quilômetros da última estação ferroviária, portanto, em 1874 Ribeirão se tornava uma área muito atrativa para o café.

O auge da formação de cafezais e da compra de terras ocorre entre as décadas de 1870 e 1890. De acordo com Cano (1998), as mais avançadas e dinâmicas relações de produção do complexo cafeeiro possibilitaram o acelerado e diversificado crescimento da economia paulista. Esse complexo compreendia uma série de atividades econômicas que cresceram e se desenvolveram em função da cafeicultura. A partir de 1886/1887 até 1897, as condições eram favoráveis para a expansão do plantio, especialmente nas terras do oeste paulista. Essa expansão fez com que fossem atraídos capitais e mão-de-obra para essa região – 30% dos imigrantes atraídos para São Paulo se dirigiram para as zonas “pioneiras” da Mogiana, entre 1901 e 1920.

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O emprego do trabalho livre na cafeicultura possibilitou as seguintes vantagens no sentido do desenvolvimento capitalista: aumento da produtividade e diminuição dos custos, diversificação agrícola, surgimento de uma ampla camada social com capacidade de consumo e o alargamento da disponibilidade de mão-de-obra para a expansão urbanoindustrial. Esses trabalhadores também eram responsáveis pela produção de alimentos dentro das próprias fazendas de café (arrendando uma parte do terreno e nas “ruas” do cafezal) ou em pequenas propriedades, contribuindo para diversificar a agricultura paulista e diminuir a importação de alimentos pelo Estado. O crescimento urbano aumenta a demanda por esses gêneros, pressionando para que a agricultura de subsistência se tornasse cada vez mais independente da cafeicultura. As ferrovias, além de diminuirem os custos do transporte do café, também eram um investimento lucrativo. Os cafeicultores foram os grandes organizadores e investidores da maior parte da malha ferroviária paulistas. À medida que a atividade nuclear se ampliava, passou a induzir crescentemente, o surgimento de uma série de atividades tipicamente urbanas, como a industrial, a bancária, escritórios, armazéns e oficinas de estradas de ferro, comércio atacadista, comércio de exportação e importação, requerendo e facultando, ainda, a expansão do aparelho do Estado. À medida que essas atividades cresciam, uma série de outras, mais vinculadas ao processo de urbanização, também se desenvolviam: o comércio

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varejista, os transportes urbanos, comunicações, energia elétrica, construção civil, etc.(CANO, 1998, p. 80) No oeste paulista o “complexo cafeeiro” proporcionou condições para que houvesse um mercado interno diversificado e voltado para o meio urbano. De acordo com Adriana C. B. da Silva (2006, p. 56): Ribeirão Preto, como na maioria das cidades do interior de São Paulo, firmou-se com a expansão do capitalismo no mundo agrário, pois a urbanização da cidade ocorreu a partir da combinação da formação do mercado interno com vários processos: a expansão da cafeicultura ao longo do oeste paulista, a extinção do regime de trabalho escravos a aceitação positiva do regime de trabalho livre e a imigração de trabalhadores europeus para a lavoura. A cidade soube aproveitar esta fase, de forma que, por ocasião da quebra da bolsa de valores de Nova lorque em 1929 e queda brusca nas exportações do produto, o município já não dependia exclusivamente do setor primário-exportador, pois a rede urbana que se formou no período do auge cafeeiro e o capital acumulado proporcionaram condições para reverter o quadro da crise. Embora grande parte do excedente do sobreproduto gerado internamente com a produção tenha sido canalizada para outros países, outra parte foi mantida no território de origem ou foi investida em outros setores já vistos como direta ou indiretamente rentáveis (ferrovias, bancos etc.). Essa foi uma das condições para que bens e serviços fossem transformados em novas mercadorias, proporcionando auto-suficiência às fazendas, e fazendo crescer e dando estabilidade aos recém-formados núcleos urbanos. Os

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Thaty Mariana Fernandes fazendeiros também investiam em novas terras, por ser um investimento seguro, para expandir os cafezais. Com isso, a renda foi sendo concentrada à medida que pequenas propriedades foram diminuindo, levando à liberação de mão-de-obra para a indústria, formando assim a massa proletariada.

A chegada de imigrantes contribuiu para ampliar a demanda por gêneros alimentícios, vestuário, moradias. Muitos deles possuíam algum outro tipo de profissão além da agricultura, geralmente ligada à manufatura. Assim que podiam, deixavam as fazendas a fim de se tornarem proprietários ou passavam a se dedicar a profissões urbanas, abastecendo o mercado local com seus produtos e serviços, ao mesmo tempo em que eram também consumidores. Ainda de acordo com Adriana C. B. da Silva(2006, p. 97), nos primeiros anos do Núcleo Colonial praticamente não existiam estabelecimentos comerciais, nem mesmo na sede. Os lucros dos moradores eram obtidos por atividades predominantemente rurais e do comércio de terras. As profissões urbanas passaram a ser exercidas principalmente por aqueles que compraram terras dos primeiros proprietários, ou seus descendentes. A feira livre aos domingos no Largo da Matriz foi organizada ainda no século XIX, numa tentativa de regularizar e organizar o comércio ambulante, e garantir a qualidade dos alimentos. Essa foi a primeira iniciativa no sentido de regularizar o comércio no espaço urbano. Um primeiro mercado foi construído em 1889, às margens do

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Ribeirão Preto, e incendiado poucos anos depois. Junto a ele foi construída uma praça, que depois do incêndio passou a servir de local para a feira. A firma Folema & Cia. venceu a concorrência para construir um novo mercado, inaugurado em 1901. Ali havia diariamente um funcionário público responsável pelo controle dos gêneros comercializados e pelo recolhimento dos impostos. As indústrias que existiam eram ligadas à produção de alimentos, como massas, licores, cervejas, açúcar, doces e à atividade cafeicultora, como torrefação, máquinas de beneficiar, moinhos e fábricas de peneiras. A indústria não teria se expandido no município porque demandava maiores investimentos, e tinha que disputar capital e mãode-obra com o café. O transporte pela Mogiana também pode ter desestimulado o surgimento e a consolidação da indústria municipal, porque ela permitia que os produtos chegassem de outras localidades. O comércio era a atividade que possuía o maior número de estabelecimentos no município, seguido da prestação de serviços e, por último, a indústria. A sistemática comercialização do entretenimento (por cinemas, teatros e outras formas de lazer capitalizadas) teria vindo no mesmo compasso em que a economia da cidade, de modo geral, crescia e se diversificava, impulsionada pela capitalização gerada pelo café. No entanto, ainda não há estudos de natureza econômica sobre os negócios ligados ao entretenimento em Ribeirão Preto, sobre a movimentação de recursos, número de

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espectadores, etc., e as fontes utilizadas não apresentam muitas informações nesse sentido.

Figura 2: sem data, entre o final do século XIX e a década de 1920. Edificação comercial no centro da cidade, obedecendo as regras ditadas pelos Códigos de Posturas. O nome em francês dava ao estabelecimento ares de modernidade e sofisticação. (RIBEIRÃO PRETO: memória fotográfica, 1985, p. 35).

1.2.

Sociedade

Em 1869 havia 3.000 habitantes. Em 1890 já eram 12.033, e em 1900, 59.195 habitantes. Até 1882, 80% dos habitantes eram mineiros.(WALKER; BARBOSA, 2000, p. 39)

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Música e distinção social em Ribeirão Preto A importação de imigrantes, principalmente da Itália, Espanha e Portugal, iniciada na década de 1880, atingiu seu apogeu nas duas décadas da virada do século. Na primeira década do século XX, Ribeirão Preto recebeu mais de 19.000 novos imigrantes. Segundo o censo local de 1912, 41,83% da população do município eram estrangeiros. Os imigrantes causaram tremendo impacto social em Ribeirão Preto. Existiam organizações étnicas para cada nacionalidade representativa, jornais em língua estrangeira e, além disso, os recém chegados, certamente, trouxeram consigo uma variedade de novos costumes e preferências. Em geral, o ambiente de Ribeirão Preto naquele período havia-se tornado bastante cosmopolita. (WALKER; BARBOSA, 2000, p. 41)

Pelo recenseamento de 1873, citado por Borges (1999, p. 17), o povoado que daria origem à cidade possuía 5.552 habitantes, entre os quais 857 eram escravos. Pelo recenseamento de 1886, também citado por Borges(1999, p. 21), Ribeirão Preto possuía 10.420 habitantes. Tal crescimento deveu-se, certamente, ao início da cafeicultura, na década de 1870. Em 1902, a cidade já contava com 52.910 habitantes, dos quais 19.711 eram brasileiros e 33.199 estrangeiros (27.765 italianos e 5.434 de outras nacionalidades) (BORGES, 1999, p. 29). A proporção de estrangeiros diminuiu de 1902 a 1920 devido à estabilização da imigração e ao nascimento de novas gerações brasileiras a partir de de famílias de estrangeiros. Walker e Barbosa (2000, p. 48-49) têm uma perspectiva otimista quanto à sociedade ribeirãopretana da República Velha, qualificando-a de “cosmopolita”, “dinâmica”,

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“próspera” e “aberta”, pois a cidade desenvolveu-se durante um período de fartura, quando se poderia esperar que invejas e preconceitos acontecessem pouco, e qualidades de cooperação e generosidade fossem comuns. De acordo com o autor, eram poucos e pouco expressivos os casos de intolerância por religião, classe social e cor, com raras exceções. A forma de discriminação mais acentuada era em relação à nacionalidade. No entanto, essa “convivência pacífica” acontecia devido a uma ocupação segmentada do espaço urbano. Sérgio Luiz de Souza assim define a população ribeirãopretana: Um ambiente urbano basicamente constituído por três grupos sociais: uma pequena elite ligada aos negócios do café e congêneres, uma expressiva população branca, composta por elementos nacionais e descendentes de europeus que começavam a se destacar como comerciantes, pequenos industriais, no setor de serviços, enquanto a população negra buscava se estabelecer economicamente [...]. (2007, p. 69)

Esse autor justifica o uso de depoimentos como fontes para a sua pesquisa: Nos jornais e em outros documentos, assim como na bibliografia consultada sobre a cidade, são escassas as referências a respeito das vivências das populações negras. Cabe ressaltar que as poucas referências encontradas, em sua quase totalidade, diziam respeito a visões

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Música e distinção social em Ribeirão Preto depreciativas ou a visões estereotipadas de cidadãos civilizados e ordeiros, vivendo em perfeita harmonia social. (2007, p. 33)

Esta é uma clara demonstração do desejo de branqueamento, normatização e uniformização da sociedade, comum entre a elite brasileira do início do século XX. O Código de Posturas da Câmara Municipal de Ribeirão Preto, de 30 de setembro de 1889, no Capítulo II, que tratava do Asseio, segurança e comodidade publica, no Art.48, proibia as dansas chamadas batuques e cateretê, sob a pena de multa de 20$000 e cinco dias de prisão ao dono da casa, onde se derem taes dansas e de 5$000 e 24 horas de prisão a cada dansador.

Podemos interpretar tal restrição como uma condenação generalizada às músicas e danças populares de origem africana ou indígena, realizadas no ambiente doméstico (talvez público, como em salões de aluguel ou locais afastados), consideradas “incivilizadas” ou “feitiçaria”. O Art. 50 traz uma restrição mais generalizada sobre ajuntamentos tumultuarios com algazarra e vozerias pelas ruas e praças da cidade ou em casas publicas e particulares, sob pena de dispersão e multa de 10$000 ao dono da casa e 5$000 a cada uma das pessoas que fizerem parte do ajuntamento.

Esse artigo impõe uma condenação a qualquer forma de comportamento ou manifestação que envolva a sonoridade e seja considerado degradante. O Art. 51 determina a

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proibição da permanência de ciganos por mais de 24 horas, e a menos de uma légua da povoação. Os proprietários dos terrenos onde estes ergueriam acampamentos deveriam comunicar o fiscal do município. Tal discriminação levou certos grupos à invisibilidade social nos noticiários, onde ou eram omitidos, ou tratados de forma depreciativa. Seu comportamento e suas atitudes, quando não anulados, muitas vezes se tornavam caso de polícia. O Código de Posturas de 1902 é menos explícito neste sentido, mas a discriminação certamente permanecera na mentalidade da população. No Título II, Do comércio e das industrias e profissões, Capítulo I, Das licenças, Art. 118, temos: A licença será cassada: [...] II) À requisição da autoridade policial, quando o licenciado usar da licença para fins ilicitos, ou consentir que no seu estabelecimento sejam praticados actos offensivos á moral e aos bons costumes, de que seja perturbado o socego publico.

O espaço urbano era, portanto, um lugar onde conviviam diferentes grupos sociais e objeto de disputas simbólicas entre os mesmos. As ações modernizantes tinham como conseqüência a marginalização dos pobres e o enaltecimento dos valores e da estética da elite branca europeizada, criando o palco ideal por onde pudesse circular. Essa tentativa de uniformização empobrecedora marginalizou, mas não impediu que os marginalizados criassem seus espaços de convivência e de identidade

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cultural, que procurassem formas de adaptação e resistência a esta realidade. Prisco da Cruz Prates nos dá uma clara demonstração de como funcionava a segregação espacial, e como os grupos se dividiam, numa época em que “não havia rádios”, e as televisões “nem sequer existiam”, pois a primeira edição do livro é de 1956, ou seja, o autor se refere a um período anterior à década de 1930 (PRATES, 1971, p. 275-277). O título de sua crônica – Existirá racismo em Ribeirão Preto? – e a situação que o autor descreve são muito significativos, por isso tal texto é citado por muitos autores como um exemplo de como ocorria a estratificação social, na primeira metade do século XX. Segundo Prates, durante as retretas6 da banda Filhos de Euterpe, nos domingos, dias santos e feriados, a população se reunia no Jardim Publico para desfrutar desta que era “uma das poucas distrações” que havia naquela época. O lugar dos ricos era o lado da rua General Osório, a classe média girava em torno do coreto e os negros se concentravam do lado oposto dos ricos, na rua Duque de Caxias. Havia inclusive a intenção de se criar um espaço exclusivo para os negros, e que estes não passavam por “vexames racistas” desde que cohecessem o seu lugar. Classes sociais diferentes podiam freqüentar os mesmos locais, desde que, dentro dos mesmos, cada uma ocupasse o seu espaço. Ao longo deste trabalho veremos que esse

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Concertos realizados por bandas nos coretos das praças e outros . lugares públicos

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tipo de divisão dentro dos espaços de diversão era recorrente. Prates também revela, em outra de suas crônicas, que [...] sempre houve fartura de mendigos em Ribeirão Preto e suponho que nos decênios passados, apesar da cidade não contar sequer 20.000 habitantes, o número de pedintes era proporcionalmente superior ao de agora. [...] Diariamente viamos pelas ruas da cidade pedintes de todas as idades e nacionalidades. Não era apenas nas ruas centrais que os mendigos exploravam a caridade pública; também pelos arrabaldes viam-se êsses elementos desfilarem solicitando óbulos para as suas manutenções. (PRATES, 1971, p. 18)

Apesar da conhecida opulência da “Capital do café”, a miséria se fazia presente. Apesar de o autor afirmar haver mendigos “de todas as nacionalidades”, desde o século XIX, a presença dos imigrantes e seus descendentes, em todos os setores da economia local, desde a agricultura, passando pelo comércio, indústria e prestação de serviços, já era muito grande, o que, inclusive, contribuía para dificultar o acesso da população negra aos empregos disponíveis, restando-lhes as ocupações mais modestas: empregos domésticos, construção civil e outros trabalhos informais.(SOUZA, 2007, p. 107-108) Numa sociedade onde predominava a ética personalista e autoritária, as identidades culturais ou étnicas tendiam a dissolver-se. Porém, no início do século XX, criaram-se associações com o objetivo de atuar nas áreas de lazer,

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assistência social e religiosa, a fim de criar espaços e meios de convivência para os diversos grupos, de diversas origens. Essas associações serviam como forma de distinção e de união entre iguais em meio à diversidade, e criavam sociabilidades mais horizontalizadas. A Sociedade Legião Brasileira e a Sociedade Recreativa de Desportos eram as mais elitistas. A primeira procurou promover a “alta cultura” organizando saraus, palestras, exposições de arte e concertos. Fundada em 1903, era liderada pelo padre Euclides Carneiro, que também era responsável por diversos empreendimentos filantrópicos, como a Santa Casa de Misericórdia. Contava com uma das maiores bibliotecas da cidade, com muitos livros em francês, italiano e outras línguas estrangeiras. A segunda, fundada em 1906, dedicava-se às atividades desportivas e à organização de saraus, festas e bailes. Os imigrantes organizavam-se em sociedades de auxílio mútuo, como a Sociedade Espanhola de Socorros Mútuos (1904), a Societá Operaria Unione Italiana (1895), Circolo Italiano (1919), Sociedade Dante Alighieri. Além destas havia também a Associação de Empregados do Comércio (em 1910 tornou-se Sociedade Protectora dos Empregados do Comércio). Entre os afro-descendentes (“homens de cor”) havia a Sociedade José do Patrocinio, sobre a qual há poucas informações, apenas de que ela já atuava no período estudado e promovia atividades de lazer, reuniões e protestos a fim de combater a discriminação racista (TUON, 1997, p. 75-76). Estas associações promoviam festas e outros eventos para arrecadar fundos e em comemoração

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a datas e fatos importantes para as suas comunidades. As sociedades de socorros mútuos tinham como principal objetivo assegurar aos seus sócios serviços médicos, uma pensão na velhice e seguro no caso de acidente de trabalho ou desemprego (TUON, 1997, p. 65-84).

Figura 3: sem data, entre o final do século XIX e a década de 1920). Casa de colono italiano. (RIBEIRÃO PRETO: memória fotográfica, 1985, p. 36).

1.3. A modernização de Ribeirão Preto Baseado na concepção de Marshall Berman, Rodrigo R. Paziani define o conceito de modernização ocorrido na

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cidade de Ribeirão Preto entre o final do século XIX e as duas primeiras décadas do século XX: 1) enquanto um processo histórico de acumulação capitalista nas mãos de um pequeno grupo de fazendeiros de café; 2) como um projeto de transformação material de costumes e da paisagem urbana da cidade e 3) os processos sociais que impulsionam ou obstacularizam a dialética ambivalente entre a riqueza agrícola do município e do Estado e os investimentos urbanos na cidade (2004, p. 28).

Ainda de acordo com Paziani: Planta de civilização e negócio de grande escala, o café – produto entrelaçado ao sistema-mundo capitalista – assegurou um intenso movimento de aventureiros formados por oportunos bacharéis, mineiros criadores de gado, cafeicultores derrocados e imigrantes de toda estirpe, que inventavam tradições e construíam, como resultado dessa dinâmica, um novo espaço-mundo no Oeste paulista (2004, p. 20).

A agilização do comércio, dos transportes, da indústria, da publicidade e da circulação de informações passaram a atrair um número cada vez maior e mais diversificada de indivíduos. Esses negócios, especialmente aqueles ligados ao lazer, à infra-estrutura e embelezamento urbanos, tinham a ver com a transformação dos costumes e da paisagem. Materializavam o ideal civilizador consolidado na Primeira República de modernizar as cidades e os seus próprios habitantes, incutindo-lhes novas sociabilidades e novos hábitos, em sintonia com as metrópoles européias. O

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centro de Ribeirão Preto tornou-se o referencial de civilização e progresso. O modelo da Paris Haussmaniana fora apropriado, nesse período, por várias cidades brasileiras, inclusive Ribeirão Preto e outras do interior paulista, como demonstraram Paziani, Azevedo e Faria. As cidades modernas deveriam se constituir em espaços simbólicos do poder da burguesia e, ao mesmo tempo, em arenas de combate ao arcaísmo. Ao lado das transformações espaciais e de infra-estrutura já mencionadas, houve a imposição de comportamentos normativos e modos de sociabilidade aos seus moradores através dos Códigos de Posturas e outros meios, o que gerava exclusão e hierarquização sociais. Os processos sociais que intermediavam a riqueza agrícola e os investimentos urbanos guardavam uma marcante contradição em relação ao ideal moderno. A cordialidade vencia a racionalidade capitalista. Ela permeava as solidariedades, as redes de influência, comandando o poder e o dinheiro (HOLLANDA, 1995, p. 76). Para operar o esforço civilizatório, os coronéis necessitavam inserir nos seus círculos de poder político a elite de doutores que seria responsável pela organização e desenvolvimento dos principais serviços públicos trazidos pelo capital cafeeiro. Os critérios par inserção nos círculos das elites ribeirãopretanas eram a competência, os conhecimentos técnico-científicos e o talento para a vida política, como no caso de Joaquim Macedo Bittencourt, médico sanitarista que se tornou prefeito, analisado por Rodrigo P. Paziani no trabalho já citado. Os principais jornais, também surgidos nessa época, eram comandados

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por “clientes” dos coronéis Quinzinho Junqueira (Diario da Manhã, de 1898, de Jorge Lobato e João Rodrigues Guião) e Francisco Schimidt (A Cidade, de 1905, de Veiga Miranda e Renato Jardim), líderes das duas grandes alas do Partido Republicano Paulista (PRP) local. Esses jornais procuravam destacar os detalhes positivos das personalidades apoiadoras e de sua clientela, redundando numa autoreferência que significava o respeito ao mando e à autoridade dos chefes políticos e fazia deles um exemplo a ser seguido. Pelo recurso à auto-referência os meios de comunicação podiam criar cenários de ordem e a apresentação dos coronéis como paladinos da liberdade, da justiça e do progresso. No período estudado surge uma grande quantidade de periódicos, em meio a um conjunto de objetos modernos, como o telefone, o cinematógrafo e o automóvel. A maioria deles estava inacessível ao grosso da população, mas serviam como aparato para as elites sustentarem o seu status de modernidade e progresso. Os jornais tinham papel significativo na divulgação e propaganda dos signos da modernidade, fiscalizadores e difusores de novos costumes. Os editores reservavam um grande espaço aos anunciantes nos jornais, cujas edições costumavam ter quatro páginas, sendo as duas últimas praticamente tomadas por publicidade. Os textos do jornal são representações que buscam prender a atenção, seduzindo o público a captar. Dessa forma, o jornal, além de anunciar a mercadoria a ser consumida, torna-se também uma mercadoria. As visões daquilo que pudesse indicar o progresso e a civilização eram quase que celebradas pelas notícias dos jornais e pelos

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almanaques, pois essa era uma idéia bastante sedutora. Apesar de boa parte da população ser analfabeta ou estrangeira, o seu conteúdo também se propagavam pelos comentários, concorrendo para formar opiniões coletivas e convencer mesmo aqueles que não os consumiam diretamente.

Figura 4: primeira década do século XX. O Jardim Publico e o coreto, núcleo da “cidade moderna”. Um dos principais locais de lazer e socialização. (FOTOS ANTIGAS – Ribeirão Preto. Disponível em <http://www.cidadederibeiraopreto.com.br/fotosantigas /> . Acessado em 14 nov 2008).

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2. A modernização na música e nos entretenimentos

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A modernidade na música e nos entretenimentos musicais era representada pelas novidades em voga na virada do século XIX para o XX: os cafés-concertos, teatros de revista e a música gravada. O cinema, embora não fosse propriamente um entretenimento musical, fazia uso da música em suas sessões, ou nos intervalos entre elas, mesclando a exibição de películas com apresentações ao vivo. .Em termos de gêneros musicais, destacaram-se como novidades nessa época os ritmos importados através de Paris, a emergente música americana, e a assimilação de ritmos brasileiros mais populares pela classe média, o que será tratado a seguir. Houve também a permanência de formas mais conservadoras, permitida, paradoxalmente, por uma grande novidade da época, que foi a música gravada. A preferência do público, em Ribeirão Preto e no país em geral, recaiu sobre um repertório mais conservador, formado por gêneros surgidos e popularizados ao longo do século XIX, tanto importados como nacionais. A preferência pelas óperas e operetas também permaneceu. Desde o período Imperial a cultura francesa predominava no Brasil, desde o vocabulário até as roupas, comportamentos, a música e seus ambientes. No repertório, predominavam valsas, polcas, schottishes, mazurkas, divulgados via Paris. A partir da Primeira República, à medida que cresce a influência norteamericana no mundo, especialmente no Brasil e América Latina, cresce também a sua influência cultural e a

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importação dos gêneros musicais ragtime, cake-walk, one step, two step e blackbottom. Desde a 1ª Guerra Mundial, vieram o fox-trot e o charleston (TINHORÃO, 1998, p.207)7. A importação de produtos culturais estrangeiros era destinada, via de regra, às classes altas e médias, que as utilizavam como modo de distinção diante das camadas mais baixas. Estas, porém, à sua maneira também se apropriavam de tais produtos. Nas metrópoles européias, em meados do século XIX, quando o processo de industrialização e a dinâmica capitalista já estavam bastante avançados, o seu rápido crescimento levou à criação espontânea de locais públicos de diversão para a massa urbana. Tais lugares eram chamados de tavern-music halls na Inglaterra e caféscantantes na França. Eram frequentados por pessoas da classe média ou das classes mais baixas e contavam com artistas para o entretenimento do público, que cantavam, dançavam e faziam outros tipos de exibições. Dessa forma, muitos amadores foram incorporados ao profissionalismo, alguns deles eram apenas frequentadores dos estabelecimentos, ou seus próprios donos. Devido às dimensões do ambiente, as canções dirigiam versos ao público, em sua própria linguagem, num tom informal e intimista. Havia diversos gêneros de canção compostos para tais ambientes, mas o mais comum era a chansonette (ou,

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As informações sobre a música urbana foram, em sua maioria, extraídas desta obra.

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em português, cançonetas), cujas letras se referiam a temas atuais, de forma coloquial, para serem cantadas apenas por uma temporada. No Brasil, os cafés-cantantes e as cançonetas foram trazidos a partir da segunda metade do século XIX, ao Rio de Janeiro, São Paulo e outras cidades. A moda logo se espalhou pelo país, nos primeiros anos do século XX. Aqui, a cançoneta não chegou a constituir gênero musical determinado, mas tornou-se um rótulo para cantigas engraçadas ou maliciosas, com duplo sentido. Dos caféscantantes, as cançonetas chegaram aos circos e aos estabelecimentos de mesmo gênero, às casas de chope, dirigidos a um público mais modesto. Tais estabelecimentos tenderam a se popularizar “para baixo”, ao contrário do que ocorreu em outros países, como na França, onde os caféscantantes eram mais requintados. Os ritmos nacionais (lundus, maxixes, modinhas, tangos) foram se incorporando às cançonetas, conforme elas se difundiam, principalmente entre as camadas mais baixas, herdeiras de tradições rurais, alimentadas pelos migrantes do campo à procura de trabalho nas cidades, para quem a cultura importada era menos acessível. Ritmos de diversas nacionalidades também se incorporavam às cançonetas. Nos cafés-cantantes costumava haver um pianista ou um pequeno conjunto de músicos a serviço da casa, para acompanhar os artistas. A evolução dos cafés-cantantes mais elegantes foram os cabarets, que se dirigiam a uma clientela mais seleta, onde havia apresentações de artistas

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estrangeiros, e de gêneros considerados mais refinados, como o canto lírico e operetas. Segundo Tinhorão (1998, p. 226): A música popular encarada como artigo criado com a finalidade expressa de atender às expectativas do público consumidor de produções culturais destinadas ao lazer urbano, e com isso possível de transformar-se em objeto de comércio através de venda sob a forma de partituras para piano e, depois, de discos de gramofone e rolos de pianola, surgiu de fato com o chamado teatro de variedades, a partir da década de 1880.

O gênero teatral das revistas8 surgiu na mesma época dos cafés-cantantes. Esse tipo de espetáculo era voltado para as famílias de classe média, pois, os cafés-cantantes e similares eram frequentados apenas por homens ou mulheres de “má vida”. A partir da primeira década do século XX, as revistas se tornaram muito populares. A sua produção tomou grande dinamicidade comercial, e os seus autores e músicos tiveram que produzir numa escala bem maior, a fim de atender a demanda. Havia entre elas e a música uma relação de duplo sentido: às vezes as revistas lançavam as músicas para o sucesso nacional, mas,

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Gênero de teatro musicado caracterizado por passar em revista os principais acontecimentos do ano, encenando-os numa sucessão de quadros em que os fatos são revividos com intenção de humor, em meio a danças, canções e outros números musicais. (ENCICLOPÉDIA DA MÚSICA BRASILEIRA, 1998, p. 767)

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inversamente, músicas de sucesso também eram aproveitadas para atrair o público para o teatro. Tais músicas, inclusive, às vezes eram adaptadas para o carnaval. A ampliação do público e dos artistas envolvidos no teatro de revista teve como consequência a nacionalização dos tipos representados (matuto, coronel, mulata, funcionário público, etc.) e dos seus ritmos. Os músicos de teatro dessa fase tentaram adaptar-se ao gosto das camadas mais amplas (como Chiquinha Gonzaga, Costa Júnior e outros), assimilando formas musicais populares. As operetas também representavam grande sucesso – como A Viúva Alegre, de Franz Lehar, entre outras. Suas músicas chegavam a ser aproveitadas com outras letras, e se tornavam até mesmo temas carnavalescos. O advento do cilindro e do disco, no final do século XIX, permitiu que alguns gêneros musicais, já em extinção naquele período, pudessem ser registrados e mantidos. Assim também aconteceu com os gêneros de danças de salão europeus, como as valsas, mazurcas, schottiches, polcas e quadrilhas. No Brasil, esse novo invento permitiu a coleta de gêneros musicais ligados à cultura afro-brasileira, como o lundu e os batuques, entre outros, transmitidos apenas oralmente até então (TINHORÃO, 1981, p. 14). Além destes, puderam ser gravados também as modinhas seresteiras, as cançonetas de teatro de revista e caféscantantes, marchas e ranchos carnavalescos, chulas, cantigas sertanejas. As novidades – como a emergente moda da música americana (ragtime, cake-walk, one step,

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two step, blackbottom) – também passaram a chegar com mais rapidez a várias partes do mundo. No Brasil, os pioneiros a explorar comercialmente o novo invento foram ambulantes que ofereciam a audição de fonógrafos9. O mais bem-sucedido entre esses pioneiros foi Frederico Figner que, ainda no século XIX, começou a comercializar fonógrafos e cilindros no Rio de Janeiro, depois se expandindo numa rede de revendedores e distribuidores em várias partes do país, inclusive produzindo suas próprias gravações (Casa Edison). Até o início do século XX, utilizavam-se cilindros de celulóide como base para as gravações, logo suplantados pelos flat-discs, ou chapas – discos de 78 rotações por minuto –, reproduzidos pelos gramofones, que facilitaram a difusão da música gravada, transformando-a em produto industrial massificado. Alguns podiam comprá-los e tê-los em casa, mas a música gravada estava presente em locais públicos, como bares e salas de espera de cinemas. Nos capítulos XI e XII do livro Pequena História da Música, de Mário de Andrade (s.d.), o autor definiu e fez algumas considerações sobre o que classificou como música “popular” e “erudita” no Brasil. Sobre a música no período republicano, Mário de Andrade afirmou que houve uma decadência do interesse, por parte do público, pela música classificada como erudita, cujas platéias se esvaziavam cada

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Aparelhos que reproduziam sons gravados em cilindros de celulose e cera.

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vez mais. Isso teria acontecido, de acordo com o autor, por causa da falta de educação artística do povo, entre outros fatores. Andrade (s.d.) colocou Buenos Aires como um centro de desenvolvimento social homogêneo, e esse progresso uniformizado teria levado ao sucesso do comércio musical, e das temporadas de virtuoses musicais e teatrais. De acordo com Ikeda (1988), naquele período Buenos Aires era a maior cidade da América do Sul, tinha grande intensidade de programações culturais e era considerada a “capital cultural” do hemisfério ocidental sul (1988, p. 36). Nessa cidade a criatividade artística e as obras mais sofisticadas tinham espaço, enquanto no Brasil só havia espaço para obras mais tradicionais e com sucesso garantido, repetitivas e que não apresentavam novidade estética. Como afirmou Andrade (1962, p. 159): Não há luta, não há ideal, não há interêsse artístico. O público não se educa; a elite artística do país não se interessa; a outra elite vai às vezes ao teatro por obrigação de moda ou para escutar um virtuose prodigioso. Mas é abalizadamente inculta e boceja diante da arte.

A música classificada como popular, segundo o autor, tomara corpo a partir do século XIX (ANDRADE, 1962). Ele ainda afirma que as manifestações “popularescas” de maior desenvolvimento desde o século anterior foram as modinhas, os maxixes e sambas urbanos, comercializados impressos em grande quantidade. Como já foi observado nas considerações de Tinhorão (1981), esses gêneros se

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popularizaram, no início do século XX, também por meio das cançonetas de teatros de revista, dos cafés-cantantes e das gravações. Wisnik, em O Coro Dos Contrários (1977), ao tratar da música na Semana de Arte Moderna, afirmou que, durante o Império, o governo ofereceu muitas bolsas para os artistas se aperfeiçoarem na Europa. Na Primeira República essas bolsas diminuíram e os músicos perderam o contato com as vanguardas européias. Isso explicaria o conservadorismo tanto dos músicos como da platéia, muito ligados ainda ao romantismo, à sinfonia e à ópera. Para Alberto T. Ikeda (1988, p. 18), a grande presença de estrangeiros e a cultura europeizada da elite local incentivavam as atividades musicais como a ópera e a música de concerto em geral. Entre a elite, desde o século anterior, já era comum a formação de agremiações culturais, que promoviam concertos, saraus musicais, literários e dançantes. A música instrumental se ligava a uma corrente mais progressista esteticamente, enquanto a ópera era preferida pelos mais conservadores. Os teatros de São Paulo não tinham uma estrutura apropriada para abrigar espetáculos mais refinados de grande porte, no início do século XX, até a construção do Theatro Municipal, em 1912. Os teatros existentes até então eram menores, mais rústicos, e abrigavam uma diversidade de espetáculos, como as revistas, “gêneros circenses, música, dança e tudo o que agradasse ao público de classe média” (IKEDA, 1988, p. 26). Em média, apresentavam-se em São Paulo duas companhias por ano.

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As companhias líricas procuravam atrair um público mais amplo por intermédio de récitas populares, com ingressos mais baratos, realizados após a temporada oficial – “e que naturalmente já não primavam pela mesma qualidade da temporada oficial” (IKEDA, 1988, p. 27). A identificação nacional do grande número de imigrantes italianos com a ópera os atraía para esse tipo de espetáculo, contribuindo para a massificação do gênero.

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3. Música e entretenimento como negócio

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A dinamização capitalista da cidade estava diretamente ligada à criação de empresas de entretenimento, que exploravam o teatro, os espetáculos de variedades e o cinema. Ao mesmo tempo, foram-se criando espaços e espetáculos destinados aos diversos segmentos da sociedade. A cultura, tendo se tornado uma mercadoria, era vendida a preços mais altos conforme o status que carregava. Outras formas de mercantilização da música, como os circos itinerantes, em constantes passagens pela cidade, o comércio de instrumentos, de “modinhas” (canções populares em partituras), as atividades de professores de música, consertadores/afinadores de instrumentos e das corporações musicais dinamizaram-se conforme a cidade crescia e tomava forma. O comércio de discos e gramofones representava uma grande novidade para a época, embora acolhido sem muito alarde pelo noticiário dos jornais, onde só se faziam presentes pelos anúncios dos próprios vendedores. O comércio de pianos, embora fosse um produto existente há mais tempo, ganha grande força nesse momento, pois passava a ter representantes locais de grandes vendedores estabelecidos na capital, em Campinas ou no Rio de Janeiro. A partir do final do século XIX, já temos configurada uma estrutura comercial permanente do entretenimento na cidade. Não se trata de espetáculos ou diversões promovidos esporadicamente por iniciativa de um ou outro cidadão, e sim da formação de empresas especializadas nesse ramo de prestação de serviço. O período estudado marca a fase de predomínio e decadência da Empreza Cassoulet. Além desta, outras empresas surgiram e

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decaíram, demonstrando que outros também tentaram investir nesse ramo de atividade, que se tornava lucrativo e atraente.

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Thaty Mariana Fernandes Figuras 5 e 6: fachada e interior do Theatro Carlos Gomes. (FOTOS ANTIGAS – Ribeirão Preto. Disponível em <http://www.cidadederibeiraopreto.com.br/fotosantigas /> . Acessado em 14 nov 2008).

A partir do final do século XIX já havia se configurado uma estrutura comercial permanente de entretenimento na cidade. Não se tratava de espetáculos ou diversões promovidos esporadicamente por iniciativa de um ou outro cidadão, e sim da formação de empresas especializadas nesse ramo de prestação de serviço. Esse período foi marcado pela fase de predomínio e da decadência da Empreza Cassoulet. Além desta, outras empresas surgiram, demonstrando que outros também tentaram investir nesse ramo de atividade, que se tornava lucrativo e atraente. O primeiro grande teatro construído na cidade foi o Carlos Gomes, por iniciativa do poder público municipal e de um consórcio de particulares, no qual se destacou o cafeicultor Francisco Schmidt. Foi inaugurado em 1897, numa época em que a área central da cidade ainda não tinha alguns equipamentos básicos de infra-estrutura. O fato de ter sido construído por particulares, especialmente por um cafeicultor, torna-se significativo para esta análise, pois demonstra simbolicamente que o entretenimento como negócio surgiu a partir da diversificação do capital investido primeiramente na lavoura, e o desejo das elites locais pela modernidade com padrões europeus. A construção do Theatro Carlos Gomes obedecia à estrutura clássica de um teatro de ópera, com platéia (400

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poltronas), galeria (200 poltronas), camarotes, frisas e foyer. Seu interior era suntuoso, feito com materiais nobres. O Theatro localizava-se no coração da cidade, em frente ao Jardim Público. Sua inauguração aconteceu em 7 de dezembro, com a apresentação da prestigiada companhia lírica italiana De Matta, que apresentou O Guarani, de Carlos Gomes (CIONE, 1997, p. 52). Construído com o propósito de abrigar espetáculos considerados de alto nível, como grandes companhias líricas e dramáticas estrangeiras, nem sempre cumpriu esse intuito, apresentando também espetáculos mais populares, como cinema, revistas, cançonetistas e variedades (classificação genérica que incluía prestidigitadores, acrobatas, lutadores, etc.). Mesmo quando os espetáculos populares ocupavam este espaço, sua própria estrutura suntuosa o diferenciava e o tornava o local próprio para ser frequentado pelas elites. François (ou Francisco) Cassoulet foi o mais notório empresário dos entretenimentos na cidade. Sua trajetória nesse ramo de atividade já foi estudada por Benedita Luiza da Silva, na dissertação O Rei da Noite na Eldorado Paulista (2000). Cassoulet abriu seu café-cantante, o Eldorado Paulista, ainda no século XIX, na Rua São Sebastião, entre as ruas Amador Bueno e Álvares Cabral (SILVA, 2000, p. 61). Silva (2000), em sua dissertação, afirmou que esse estabelecimento foi instalado no final da década de 1890, como um rústico barracão, que foi gradativamente ampliado e estruturado. Citando o Livro 3-G de transcrições de imóveis do 1° Cartório de Registros de imóveis de Ribeirão Preto, Siva nos dá uma descrição do ambiente, em 1906:

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Thaty Mariana Fernandes Um prédio a rua São Sebastião, fazendo esquina na rua Amador Bueno, dividido em quatro habitações ou moradia, sendo duas para a rua Amador Bueno, com os números 54 e 56, e duas para as ruas São Sebastião, com os números 13 e 15, constituindo de tijolos, telhado, assoalhado e forrado, edificado em terreno foreiro de 60 palmos, mais ou menos, para a rua Amador Bueno, todo cercado a muro de tijolos com água encanada, latrina, esgoto... (SILVA, B. L., 2000, p.99).

O Eldorado Paulista contava com diversos tipos de atrações, inclusive exibição de filmes, mas predominavam os espetáculos ao vivo. Costumava ter sempre a seu serviço uma trupe, contratada para as apresentações por longas temporadas que chegavam a durar meses. Funcionava quase diariamente, inclusive com bailes no final das sessões. Os espetáculos musicais mais frequentes eram de cançonetistas (solo ou em duplas – duettistas, copias) e cantores classificados como líricos. Os primeiros interpretavam canções populares, que divertiam o público;os segundos interpretavam trechos de óperas famosas, por isso seus espetáculos eram mais prestigiados. Havia uma orquestra a serviço do teatro, regida por Domingos Baccaro. A partir da seguinte notícia sobre o seu 2° aniversário, em 1908, podemos ter uma idéia da importância atribuída ao Eldorado, e o número de artistas que ali se apresentaram até então:

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Música e distinção social em Ribeirão Preto Eldorado Festeja hoje o seu II anniversario, o elegante theatroconcerto cujo nome encima estas linhas. O quanto tem elle cooperado para o engrandecimento de Ribeirão Preto, todos nós o sabemos. Si bem examinarmos a sua vida, veremos que elle tem sido uma das alavancas do nosso progresso, um dos poderosos sustentaculos do nosso comercio conseguindo tornar conhecida de todo o Brasil a nossa cidade. Logares há no Estado de S. Paulo que sendo mais velhos do que Ribeirão Preto são quase desconhecidos, si o não são in totum, porque lhes faltam os pontos de attracção que chamem ao seu seio os viajantes ou excursionistas e lhes proporcionem meios de destrairem-se, pois de longas e penosas fornadas. Aqui não. O touriste ou o viajante encontra no Eldorado um meio facil de lhe suavizar as agruras da vida, de lhe amenizar os soffrimentos moraes deixando-o apto a luta pela vida. E elles reconhecem isso pois teem concorrido sempre para que o Eldorado possa hoje completar o respeitavel numero de 3525 espetaculos nos quaes trabalharam 574 artistas de ambos os sexos, sendo alguns de verdadeiro merito e que depois de terem “feito furor” aqui, foram recebidos com freneticos applausos pelas platéas da Europa e da America. A Empreza do Eldorado para festejar condignamente esse seu sucesso deliciará os seus habitués com um

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Thaty Mariana Fernandes espectaculo cujo programma foi escolhido a capricho e offerecer-lhe-há, além de um grande baile, “chops” e charutos. Ao sr. Francisco Cassoulet enviamos d’ estas columnas os nossos emboras, pelo II° anniversario do “gracioso” theatro da rua S. Sebastião. (A CIDADE, 10 out 1908, p. 1)

No entanto, dia 18 de setembro de 1903 anuncia-se, na página 2 do Diario da Manhã “os applaudidos duetistas A. Copia e Lea Alberte” no Eldorado. Este teatro deve ter passado por uma reinauguração em 1906. O número expressivo e a qualificação dos espetáculos demonstram o quanto era prestigiado e ativo: “[...] 3525 espetáculos nos quaes trabalharam 574 artistas de ambos os sexos, sendo alguns de verdadeiro mérito e que depois de terem ’feito furor’ aqui, foram recebidos com frenéticos applausos pelas platéias da Europa e da America” (A CIDADE, 10 out. 1908, p. 1). Em 2 de agosto de 1914 foi inaugurado o Casino Antarctica, construído pela empresa de mesmo nome, “[...] passando a funcionar alli o Eldorado, da Empreza Cassoulet” (A CIDADE, 2 ago. 1914, p. 1). Ao seu lado funcionava a Rotserrie Sportsman, que por vezes também apresentava algum tipo de espetáculo musical ou filme, e funcionava como restaurante e buffet. A orquestra do Casino Antarctica ficou a cargo do maestro Giovanni Gemme. A partir de julho de 1916, o antigo Eldorado se encontrava em funcionamento novamente, sob a direção da Empreza Baccaro (do maestro da banda que se apresentava nesse

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estabelecimento) e a gerência de A. Potenza, com o mesmo perfil de espetáculos. Em 21 de abril de 1917, o Eldorado era gerenciado por Hyppolito Costa.

Figura 7: sem data, entre 1914 e a década de 1920. Cassino Antarctica (à direita) e confeitaria Sportsman (à esquerda). (RIBEIRÃO PRETO: memória fotográfica, 1985, p. 39).

Em agosto de 1908, estava em atividade no Theatro Carlos Gomes o cinematógrafo Richebourg, fornecido pela Empreza Cassoulet, sendo esta a primeira notícia localizada sobre a atividade dos cinemas, e a primeira evidência de que o Carlos Gomes era gerenciado por essa empresa, como seria por vários anos. Existem informações retiradas de outras fontes, de que as primeiras exibições cinematográficas teriam sido anteriores, no entanto, não tinham ainda o propósito comercial e massificado. Em 1908, surgiu a empresa L. Junqueira, que inaugurou o Paris Theatre, em 19 de dezembro de 1908, e a empresa J.

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Penteado & Cia. que inaugurou o Bijou Theatre, em 24 de abril de 1909. As primeiras concorrentes dedicaram-se ao cinematógrafo, forma de divertimento barata e atraente – a abertura desses novos espaços atraiu muitos espectadores. Em 15 de agosto de 1912 a Empreza Cassoulet inaugurou um novo cinema, o Rio Branco, na Rua Duque de Caxias – “Situado em lugar commodo para os moradores da Villa Tiberio e Barracão” (DIARIO DA MANHÃ, 5 jul. 1913, p. 2), ou seja, o estabelecimento era voltado para o público desses bairros. Durante o ano de 1911 acirrou-se a concorrência entre as empresas cinematográficas. Além de exibir os filmes, estas empresas também atuavam como distribuidoras de fitas para outros cinemas, em outras cidades. A partir de então, era comum encontrar-se propagandas com as seguintes: Cinema Iris – Empreza F. Cassoulet Theatro Carlos Gomes Conforme telegramma de S. Paulo, esta empreza mais uma vez participa ao respeitavel publico que as novidades do Radium e Iris de S. Paulo são primeiramente exhibidas neste cinema e depois, por ordem telegraphica da Companhia Cinematographica Brasileira, serão entregues a outra empreza desta cidade. (A CIDADE, 11 out 1911, p. 3) Unica empreza que exhibe os films de maior metragem e novidades da antiga Empreza Serrador hoje incorporada na Companhia Cinematographica Brasileira.

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Música e distinção social em Ribeirão Preto Empreza L. Junqueira & C. (A CIDADE, 4/out/1911, p. 3)

A partir de 1911 passaram a haver mais inaugurações de estabelecimentos de diversão, e uma rotatividade maior entre as empresas administradoras. Em 29 de agosto de 1911, o Bijou Theatre já havia se tornado propriedade da empresa L. Junqueira e, em 16 de novembro de 1911, a mesma se desfez do cinema, que foi transformado em confeitaria. Em 24 de novembro de 1911, o Paris Theatre, (na Rua Álvares Cabral, onde funcionou a matriz provisória), construído pela empresa L. Junqueira, tornou-se propriedade de Paladino Aguiar. Em 2 de dezembro de 1911, o Bijou estava sob a administração da empresa F. Santos. Nesse ano, as empresas passaram a publicar grandes anúncios nos jornais, informando as atrações dos teatros e cinemas, os preços dos ingressos e quem os administrava. Estes salões – Bijou Theatre e Paris Theatre –, em 1911, são descritos pelos jornais como “freqüentados pela elite” e com “numerosa orquestra” (A CIDADE, 29 ago. 1914, p. 1). Em 1º. de março de 1912, Manoel Teixeira aparece nos jornais como administrador do Bijou. Em 4 de março de 1913, Paladino Aguiar vendeu sua empresa à firma Castro & Comp., de José Magalhães de Castro. Em junho de 1914, o Paris Theatre pertencia à Empreza Cassoulet e, em agosto, inaugurou-se o palco cênico para as apresentações ao vivo. Em 12 de julho de 1914, foi inaugurado por Aristides Motta o Cinema Odeon, “cinema de luxo e grande conforto” (A CIDADE, 22 mar. 1914, p. 1), na Rua Amador Bueno, 49A, com 400 lugares na platéia mais galerias, salão de espera

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com cascata, bar, sala de entrada, e funcionamento diário. Em setembro do mesmo ano foi inaugurado o palco cênico para os espetáculos de variedades. No entanto, em novembro, os boatos circulantes sobre a venda ou fechamento do cinema se confirmaram, e foi comunicada publicamente a falência do Odeon (A CIDADE, 14 nov. 1914, p. 2). Depois de um breve período funcionando pela Empreza Cassoulet, em março de 1915, reabriu definitivamente, em 9 de abril de 1915, sob o nome de Cinema Familiar, cujo novo proprietário era Antonio dos Santos. Apesar dessa primeira empreitada malsucedida, a Empreza Aristides Motta dirigiu a reforma do Theatro Carlos Gomes, autorizada por Francisco Schmidt e executada em 1916 – pintura externa e interna, pintura de um pano de boca, renovação do mobiliário, ampliação. A partir de então, esta empresa passou a administrar o Theatro Carlos Gomes. A partir de 3 de março de 1912, apareceram as primeiras notícias sobre os rinks de patinação. Havia o Pavilhão Rink (Empreza Costa & Silva, depois Empreza Evaristo Silva & Comp., na Rua Amador Bueno, em frente ao palácio dos Correios), o Ribeirão Preto Rink (a partir de 1º de maio de 1912, propriedade da empresa Machado & Silveira, na Rua Américo Brasiliense, 33) e o Ideal Rink (1a notícia em 21 de junho de 1913, em atividade na Rua São Sebastião, 52A). Nesses estabelecimentos, além do “sport da moda”, havia exibições de filmes e música. Essa moda foi passageira, e logo os rinks foram se extinguindo. Em 7 de julho de 1912 inaugurou-se o teatro Polytheama, no lugar do Pavilhão Rink, cuja capacidade era de 800 lugares na platéia, 33

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camarotes e 500 lugares nas gerais. A partir de maio de 1913, foram retomadas por pouco tempo as sessões de patinação. O Ideal Rink reapareceu como restaurante em novembro de 1914, ainda com sessões de patinação. Enquanto isso, os anúncios dos demais rinks desapareceram em dezembro de 1914. Nesse ano, a partir de janeiro, o teatro Polytheama passou a ser administrado pela empresa R. de Seabra. Em março de 1915, apareceu sob a administração do ator Hyppolito Costa. A Empreza Cassoulet era a que mais contratava artistas para espetáculos dramáticos (companhias teatrais), líricos (companhias de óperas e operetas) e de variedades (cançonetistas, acrobatas, lutadores, cômicos, etc.). As companhias líricas e dramáticas eram as mais prestigiadas, a ponto de, em 1910 receber da Câmara Municipal uma subvenção para a vinda de “uma boa companhia” (A CIDADE, 14 jan. 1910, p. 2). Porém, os espetáculos de variedades eram os que mais chamavam a atenção do público, ávido por espetáculos humorísticos, curiosidades espantosas, disputas de bilhar ou luta romana. As grandes companhias costumavam fazer temporadas mais breves, com cerca de 4 apresentações. Os artistas menos prestigiados costumavam permanecer na cidade por longas temporadas, apresentando-se junto aos outros, em vários estabelecimentos, às vezes de empresas diferentes. Em 6 de março de 1917, Arthur Tescaro surgiu como administrador dos teatros da Empreza Cassoulet. Em 17 de junho de 1917, foi realizado, no Polytheama, um festival em benefício das orquestras dos teatros da empresa. Estes são

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indícios de que o antigo administrador já tinha se afastado de suas atividades e, talvez, o referido festival fora organizado para cobrir dívidas com os músicos. Em 20 de junho do mesmo ano, a empresa se desfez do Polytheama, que passou a ser administrado por Evaristo Silva. Em 21 de junho de 1917, o Casino Antarctica passou a ser chamado Cinema Casino, dedicando-se à exibição de filmes, além dos costumeiros espetáculos de variedades. As fontes e a bibliografia consultadas pouco revelaram sobre a origem dos empresários citados acima. François, de acordo com Silva (2000), não possuía nenhum familiar na cidade, e em sua pesquisa localizou apenas um documento pessoal pertencente a ele, o seu registro de óbito que afirmava apenas que era viúvo e tinha 60 anos em 1919 (SILVA, 2000, p. 49). Roiz e Santos (2006) apresentaram muitas informações sobre a sua biografia, extraídas do documento Massa Falida de Francisco Cassoulet. Seu nome verdadeiro era François Cassoulet, mas ficou conhecido por Francisco. Nascera em 1864, em Farbe, na França, onde estudou durante alguns anos e trabalhou com o pai. Desembarcou em Santos, no início de 1896, acompanhado de Marie Cassoulet, companheira com quem vivia sem ser casado oficialmente. Depois de uma curta estada em São Paulo, foi para Ribeirão Preto, onde abriu, ainda em 1896, um café-cantante, no qual aplicou seus poucos recursos. Próximo ao seu negócio estava instalado um cabaré dirigido por Fanny Blumenfeldt, austríaca, residente há alguns anos em Ribeirão Preto e que havia acumulado pequeno capital como “dama da noite”.

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Ela teria se tornado amante de Cassoulet (Marie teria voltado para a França em 1898), e juntos administraram casas teatrais. Teriam vivido juntos até o falecimento de Fanny, em 1918. No entanto, as notícias de jornal e outras fontes não dão conta dela, nem de Marie. Em 20 de novembro de 1917, foi decretada a falência da Empreza Cassoulet. A morte do seu proprietário, em 1919, causou grande comoção. O artigo transcrito a seguir demonstra a importância atribuída a ele, além de citar algumas companhias renomadas trazidas por sua empresa. Apesar de todo o seu prestígio e da sua marcante atividade, Francisco Cassoulet morreu pobre, talvez por causa da “penosa enfermidade que o perseguiu durante longo tempo”, como diz o texto a seguir, que não teria permitido que ele continuasse trabalhando com o mesmo vigor nos últimos anos. Francisco Cassoulet Depois de penosa enfermidade que o perseguiu tenazmente durante longo tempo, falleceu hontem, ás 4 horas da madrugada, no hospital da Beneficencia Portugueza, o antigo e popularissimo empresario theatral Francisco Cassoulet, que residia ha cerca de 30 annos nesta cidade. O finado, pela sua tenacidade e pelo seu extraordinario arrojo, conseguiu contractar para o seu centro de diversões as maiores notabilidades artisticas, taes como Clara Della Guardia, Gastone Monaldi, Ermete Novelli, Zacconi, Nina Sanzi, Fatima Miris, etc.

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Thaty Mariana Fernandes Aqui vieram trabalhar por sua conta importantes companhias lyricas italianas e hespanholas, afamados artistas de variedades inglezes, francezes, italianos, norte-americanos, hespahoes e de outras nacionalidades, além de numeros excentricos de valor que visitavam São Paulo e que o grande empresario, não olhando para prejuizos, não hesitava em contractar para delicia do nosso publico. O arrojo de Francisco Cassoulet, contractando grandes companhias para esta cidade era verdadeiramente extraordinário. Numa curta epocha, Francisco Cassoulet, devido ao seu esforço e á sua dedicação pela arte, conseguiu ser o empresario de todos os theatros locaes, dando grande impulso aos mesmos. A arte theatral em Ribeirão Preto, muito deve a esse empresario que sempre dedicou á mesma toda a sua actividade, vencendo, ás vezes, innumeros obstaculos. Francisco Cassoulet, não obstante a sua tenacidade e o seu devotamento aos negocios theatraes, morreu pobre. O seu sepultamento teve logar hontem, ás 5 horas, com o acompanhamento de numerosos amigos, que assim lhe tributaram essa ultima homenagem (A CIDADE, 18 fev. 1919, p. 2).

Outros casos de investimento na área de entreterimento podem ser citados. É o caso de Aristides Motta que era fotógrafo e operador do cinematógrafo do Paris Theatre. Em 1910, ele montou o Laboratorio Brasileiro de

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Música e distinção social em Ribeirão Preto

Cinematographia, que produzia fitas sobre temas locais, para serem exibidas nos cinemas da cidade. Tornar-se empresário de entretenimentos foi, de certa forma, uma expansão das atividades que já exercia anteriormente. Assim ocorreu também com Domingos Baccaro, que de maestro da orquestra do Eldorado Paulista tornou-se seu gerente/proprietário. Evaristo Silva era comerciante de gêneros alimentícios, proprietário da Casa Mineira, na Rua São Sebastião (A CIDADE, 11 mai. 1911, p. 2). José Magalhães de Castro, que é provável que tivesse algum parentesco com José da Silva Castro, proprietário da Charutaria Castro (inaugurada em 9 de fevereiro de 1909, entre as ruas General Osório e Álvares Cabral – A CIDADE, 14 fev. 1909, p. 1). Esse estabelecimento vendia assinaturas para os espetáculos mais requintados, como era de costume na época. Como mais um exemplo da destinação direta do capital acumulado pelo café para o ramo dos entretenimentos, além do caso da construção do Theatro Carlos Gomes, é possível citar Luiz Junqueira, proprietário da Empreza L. Junqueira, que provavelmente pertencia à família Junqueira, vinda do sul de Minas Gerais no século XIX, e uma das pioneiras da cafeicultura na cidade.

3.1. Frequência dos espetáculos e controle social Os espetáculos de alto nível eram mais caros e tinham um público mais restrito. Dentro do próprio teatro havia uma

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divisão entre as áreas mais “nobres” e a mais “pobres”, onde os ingressos eram mais baratos: a galeria (ou “galinheiro”, como havia sido apelidada). O comportamento dos seus ocupantes, menos adequado à imagem que se queria criar para aquele ambiente, por vezes causava protestos e indignação como demonstra o artigo a seguir: Theatros (á policia) Pedimos ao Sr. Cap. Delegado de Policia pôr em execução uma medida muito simples, facilima, e que, entretanto, vae prestar a todos os frequentadores do Theatro Carlos Gomes um grande serviço, e pôr a termo a um abuso e uma falta que já vão degenerando em desrespeito e desordem naquella casa de espetáculos. Queremos nós referir a prohibição da entrada dos frequentadores das galerias munidos de bengalas, guarda-chuvas e até de cacetes, que só tem servido para augmentar o barulho inconvenientissimo que é feito naquellas altas regiões do Theatro. Ás autoridades que presidem os espetaculos pedimos em nome dos que frequentam o Theatro “Carlos Gomes” providencias nesse sentido, e evitarem que se reproduzam os ditos grosseiros, a vozeria que fazem aquelles senhores das torrinhas que por estarem lá por cima, julgam-se talvez, acima das próprias autoridades que devem chamal-os á ordem. Tem muita gente que já vae fugindo do Theatro porque não podem ouvir os artistas, tal a algazarra dos habitues revolucionarios do galinheiro.

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Música e distinção social em Ribeirão Preto Esperamos ser attendidos, tão pouco pedimos. (A CIDADE, 11 fev 1905, p. 1)

Os teatros mantidos por essas empresas necessitavam de licenças especiais da polícia, que eram concedidas mensalmente para o seu funcionamento. A partir de 1909 foi criada uma regulamentação geral para os divertimentos públicos, que vinham crescendo desde então, com a criação de novos estabelecimentos: Os divertimentos publicos e a policia [...] Capitulo VII Dos espectadores Art 45 – os espectaores deverão: Paragrapho 1º - Occupar as localidades indicadas pelos numeros dos seus bilhetes. Paragrapho 2º - Conservar-se descobertos, excepto nas representações de café concerto, durante os espetaculos; [...]. Paragrapho 4º - permanecer em attitude correcta, durante o espectaculo ou divertimento publico de qualquer natureza. Paragrapho 5º - Não praticar actos que incommodem aos outros.

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Thaty Mariana Fernandes Paragrapho 6º - Abster-se de fumar nos logares onde isso for prohibido. Paragrapho 7º - Não pedir a execusão de peça extrehida ao espectaculo que estiverem assistindo. Paragrapho 8º - Não perturbar os artistas, durante a representação, salvo o direito de applaudir ou de reprovar, fasendo-o porem em termos commedidos. Paragrapho 9º - Não distribuir no recinto manuscriptos, impressos ou gravuras, sem licença da autoridade que estiver presidindo ao espectaculo. Paragrapho 10 – Não recitar discursos nem fazer declarações que perturbem a ordem e o socego publico. Paragrapho 11 – Não fazer motim ou assuada, nem praticar outros quaesquer actos que interrompam a ordem e a segurança publica (A CIDADE, 23 mar. 1909, p. 1).

Em maio de 1910 houve um desentendimento entre policiais que desejavam entrar no Paris Theatre a fim de vigiar o seu interior, e o seu empresário, Luiz Junqueira. Este assunto causou uma discussão entre os colunistas dos dois principais jornais da cidade sobre a real necessidade de tal medida, considerada até ofensiva contra os cidadãos “de bem”. O policiamento dos teatros era constante, com policiais destacados especialmente para essa função.

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Música e distinção social em Ribeirão Preto O caso dos cinematographos [...] o delegado interino entrou com algumas praças no recinto do cinematographo, não porque houvesse necessidade de tal medida, mas exclusivamente para mostrar ao publico que a autoridade policial tinha o direito de assim proceder. Confessa [o Diario da Manhã], portanto, que a autoridade procedeu exclusivamente por prepotencia, vaidade e amor proprio. [...] este devia saber que o individuo investido do cargo de autoridade publica deve fazer abstração da sua pessoa, dos seus interesses pessoaes, do seu amor proprio, para sò encarar o interesse publico, a manutenção da ordem, o bem estar e o socego publico que o sr. delegado interino mandou sempre mal nesta questão [...]. Para que essa insistencia em querer policiar o pequeno recinto dos cinematographos freqüentados aliás pela élite da nossa sociedade? Por que essa paixão de querer impor ao empresario dos cinematographos e aos seus espectadores, sempre pacificos e ordeiros, a presença no recinto de uma ou mais praças de policia para fiscalisalos? A policia do Rio e S. Paulo dispensam esse luxo de policiamento, porque havemos nós de fazer aqui papel de hottentores ou selvicolas?(A CIDADE, 1 jun 1910, p. 1)

A censura aos cinemas foi outro assunto polêmico numa época em que o cinematógrafo se tornava a mais popular forma de diversão pública. Havia uma preocupação das autoridades e da sociedade em “separar o joio do trigo”, destinando às famílias os filmes que combinem com a sua moral e os seus costumes, e a preocupação em fazer do

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cinema um meio de educar a população, ao invés de servir à “degradação da sociedade". Censura aos cinemas Os jornaes noticiam que o novo Secretario da Segurança Publica está resolvido a empregar medidas repressivas da immoralidade cinematographica. [...] As fitas cinematographicas vão collaborando intensamente na obra da dissolução social. Já não ha duvida possivel quanto ao effeito corruptor dos “films” em que se exhibem lances das mais pecaminosas paixões. O epilogo frequente è o adulterio, quando nào é o adulterio é o suicidio. Entristece realmente verem-se creanças, na innocencia provavel dos sete anos, contemplar o desfilar de situações escabrosas, presenciando scenas em que a luxuria dos beijos e dos longos agarramentos é a menos censuravel. E matronas severas, cercadas de donzellinhas casadoiras riem-se ás vezes das deslavadas avenuras que o apparelho vae projectando na tela humedecida! Outras fitas se dedicam á apologia dos Rafles, fazendo propaganda de mil astuciosas manobras do banditismo elegante. Entretanto, que soberba escola de educação popular poderia ser o cinematographo! Reproduzindo boas e sadias obras literarias, concorreria para divulgar a noção da belleza real e pura, formando o gosto pela verdadeira

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Música e distinção social em Ribeirão Preto arte. Reflectindo scenas da vida industrial, daria exemplos nobres do trabalho. Despertaria, em evocações apropriadas, o amor pelo passado e o amor da Patria. Illustraria pelas paisagens, pelas vistas das grandes cidades e dos monumentos historicos, aquelles a que não é dado ter existencia de globe trotter. Tudo isso se conseguirá, escoimando-se de immoralidade as sessões dos cinemas. Haverá quem acoime de illegal a intervenção da policia de costumes. Quem argumente com a depravação do gosto geral, mais inclinado às exhibições tanto ou quanto libertinas do que aos severos “films”, dignos dos nossos rijos Catões. Esses senhores (ou essas senhoras...) se sentirão prejudicados com a censura cinematographica. Mas, ha accomodações, como dizem os francezes. Seja permitido o Cinema licencioso; mas... com a declaração formal de que é desse genero. Estaremos assim livres das surprezas que se dão a miúdo, e que, ha dias, num salão da Capital, chegaram a ponto de obrigar familias a retirarem-se do recinto. Bem haja, pois, o dr. Sampaio Vidal, pelos os correctivos que vae applicar aos Cinemas, Separe-se o trigo do joio... Haja o “familiar” e o... de leitura para homens. (DIARIO DA MANHÃ, 17 maio 1912, p. 1)

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3.2.

Circos

A cidade era constantemente visitada por circos e companhias equestres itinerantes. Tais empresas anunciavam suas atrações nos jornais, e consistiam basicamente em espetáculos de variedades com cançonetistas, pantomimas com clowns, cantores e atores, animais adestrados, prestidigitadores, acrobatas, etc. Também contavam com bandas próprias para acompanhar os espetáculos. Estas companhias costumavam se instalar no Largo 13 de Maio, próximo ao local onde a nova Catedral estava sendo construída. Apesar dos anúncios por vezes serem grandes e suntuosos, as atrações circenses não mereciam maiores comentários nas páginas dos jornais. Os que visitavam a cidade com maior frequência eram o Circo Guarany, o Circo Chileno, o Circo Adelino, o Circo Americano e o Circo Clementino. Não foi possível confirmar através das fontes utilizadas as nacionalidades indicadas pelos nomes ou, de modo geral, a origem de tais circos. O mesmo se pode dizer em relação aos seus itinerários – apenas que, depois de passar por Ribeirão Preto, eles costumavam se dirigir a cidades menores da região.

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Figura 8: propaganda de circo, cuja banda sairá pelas ruas da cidade anunciando sua chegada. (DIARIO DA MANHÃ, 9 set 1913, p. 3)

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4. Profissionais da mĂşsica

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4.1.

Bandas e músicos locais

Num período em que as gravações sonoras eram uma novidade pouco difundida no meio estudado, os músicos tinham uma importância fundamental na difusão da música. Estavam presentes em muitas atividades festivas, como bailes, comemorações cívicas, festas escolares, retretas domingueiras, espetáculos teatrais, exibições de filmes, recepções de autoridades, etc. Eram trabalhadores praticamente onipresentes. Havia um fértil campo de trabalho para eles, embora a profissionalização ainda fosse incipiente. A abundância de música ao vivo, consequentemente, deve ter levado a um grande consumo de instrumentos musicais e partituras, embora esse comércio não merecesse muito espaço nos jornais, nem por parte de seus vendedores, que publicavam apenas anúncios modestos. As corporações musicais se constituíam em associações de músicos que formavam uma banda, com estatuto e uniforme próprios. Tais formações musicais tiveram seu início a partir de instituições militares, em meados do século XIX, e se expandiram pelo meio civil, que, a exemplo dos militares, utilizavam uniformes semelhantes (TINHORÃO, 1998, p. 177-180). Eram contratadas para as mais diversas ocasiões, principalmente bailes, comemorações cívicas, festas religiosas e a costumeira retreta dominical no Jardim Público. Sem dúvida, constituíam a forma mais comum de acesso à audição musical, e procuravam compor repertórios

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com trechos de óperas e sinfonias, hinos cívicos, música dançante européia (valsas, mazurkas, schottishes), marchas, dobrados, tangos, habaneras. As músicas que saíam desse padrão eram consideradas “exóticas”, e eram executadas eventualmente. A primeira banda de música, a Banda São Sebastião, teria surgido em 1887, organizada pelo negro alfaiate Pedro Xavier de Paula. Em 1893, em notícia sobre a Festa do Divino realizada nesta cidade, “A iluminação e a musica, quer sacra, quer profana, estão a cargo do sr. Pedro Xavier de Paula” (O SETIMO DISTRICTO, 19 abr. 1893, p. 1). Essa banda, no entanto, não apareceu mais nos noticiários. Segundo Rubem Cione (1987, p. 127), a banda Filhos de Euterpe tocou na inauguração do Jardim Público, em 14 de julho de 1901, executando o Hino Nacional e a Marselhesa. Essa banda foi citada pela primeira vez em um anúncio de 1903. Corporação Musical “Filhos de Euterpe” Dispondo de uma pequena orchestra e um bom repertorio, promptifica-se a fazer qualquer serviço concernente a arte, por preços muito razoaveis. A séde da corporação é a rua S. Sebastião n. 74 Director José Delfino Ribeirão Preto (JORNAL DE NOTICIAS, 31 dez 1903, p. 1)

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Figura 9: banda Filhos de Euterpe. (Almanach Illustrado de Ribeirão Preto. Ribeirão Preto: Sá, Manaia e cia., 1913 e 1914. Anual. Não pag.)

Em 1905, a banda apareceu nas retretas domingueiras do Jardim Público, atividade que se tornaria assídua, tocando todos os anos do período estudado, menos em 1908 e 1909. Esta era a banda mais prestigiada e presente nos eventos noticiados. Num concurso promovido pelo jornal A Cidade, em agosto de 1909, para eleger a melhor banda, a Filhos de Euterpe ficou em 2º lugar, com 372 votos, perdendo para a Giacomo Puccini, então responsável pelas retretas dominicais, com 590 votos. Em terceiro lugar ficou a Progressista Mogiana, com 53 votos (A CIDADE, 24 ago 1909, p. 1).

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Numa notícia de 1910, popularidade da banda:

uma

demonstração

da

Ante-hontem, ao regressar de Franca onde fora prestar os seus serviços por occasião das festas alli realizadas pela victoria dos candidatos de maio, a banda de musica regida pelo estimado moço maestro José Delfino Machado, numeroso grupo de amigos e admiradores seus a agruardaram na Estação, fazendo-lhe uma ruidosa manifestação de apreço.(A CIDADE, 22 mar 1910, p. 1)

Em 5 de julho de 1910, foi fundada a Sociedade Dançante Familiar Maestro José Delfino, a fim de promover bailes recreativos. Em 14 de agosto do mesmo ano foi realizado o sarau de inauguração, no Theatro Carlos Gomes. A escolha do nome foi uma homenagem ao maestro, já muito querido entre os ribeirãopretanos. Através da nota sobre a concorrência para a confecção do novo fardamento, podemos ter idéia, além da indumentária da banda, de como a sua organização era primorosa e profissional: A comissão encarregada para a aquisição do fardamento acceittará as propostas até o dia 15 do corrente, mediante as seguintes condições: O fardameto deve ser de casemira de lã preta de 1ª qualidade, conforme amostras apresentadas pelos proponentes e preço de cada uniforme;

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Música e distinção social em Ribeirão Preto Quanto aos ornamentos serão escolhidos pelo director da corporação, á rua Americo Brasiliense n5810; [...] è condição principal o proponente ou proponentes provarem que são portadores de uma ou mais acções do emprestimo lançado para esse fim; as propostas deverão ser feitas em enveloppes fechados, até o dia 15 do corrente, ao meio-dia, e enviados á sede da corporação á rua e n acima mencionados. (A CIDADE, 10 ago 1909, p. 1)

José Delfino Machado compôs várias músicas, frequentemente executadas pela banda, desde os seus primeiros anos de atividade: Festa dos caixeiros Reuniram-se mais uma vez domingo passado na Confeitaria Fraga, os empregados do commercio desta cidade, onde resolveram definitivamente sobre os festejos do dia de hoje. [...] - O maestro José Delfino compôs uma linda marcha offerecida á classe caixeiral e que será executada hoje. (O LUCTADOR, 1 jan 1904, p. 1)

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Em notícia de 21 de abril de 1912 a sede havia mudado para a rua Álvares Cabral, 13.

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Nos programas das músicas a serem executadas nas retretas do jardim aparecem freqüentemente músicas de sua autoria, como nos exemplos a seguir: Os doze contos do vigário – tango – J.D.M. [...] O tango “Os doze contos do vigário” é offerecido a mocidade ribero-pretana. (A CIDADE, 26 mar 1905, p. 1) 8°. Ribeirão Preto – Marcha – J. D. M. Nota: - Marcha – RIBEIRÃO PRETO dedicada a mocidade Ribero-Pretana; [...] (A CIDADE, 18 jun 1905, p. 2)

Em 1916, classificou duas composições no concurso da revista carioca O Malho: O americano (one step, 1º lugar) e A tua trancinha (scottisch, 3º lugar). Suas músicas eram comercializadas em partituras. Não há notícias se José Delfino chegou a gravar músicas em disco11.

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Outras composições suas: Mellancolica (valsa), Recreação (fantasia), Sempre Gelloza (valsa lenta), Denzina (mazurca), Vagaroza (polca), Denzina (mazurka), Capital d’Oeste (passo doppio symphonico), Capadocio (rapisodia), Minas Geraes (marcha), Chateau dos Promptos (habanera), O teu regimento (marcha), O cordão (tango), Odeon (marcha – hino do cinema Odeon, em Ribeirão Preto), Triumphal (passo doppio), Marcha final, O Bandoleiro (tango), Zézinha (mazurka), Morrer de amores (phatasia), Um samba no Bom Retiro, Na floresta (mazurka), Capital d’Oeste (marcha), Invencivel (marcha), Los Pimpolhos (marcha), Amor Filial (mazurka), Canção Árabe (melodia), Concertante (mazurka),

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O Almanach Illustrado de Ribeirão Preto de 1913-1914 menciona como presidente da Sociedade Muzical Filhos de Euterpe Alfredo Porto, Euclides Oliveira como vicepresidente, Deocledio Velloso como 1º secretário, Luiz França como 2º secretário, e Antonio Palpinelli como tesoureiro. Não há indicação se eles seriam músicos, ou se esta sociedade tinha alguma ligação com a corporação musical de mesmo nome. A Banda Bersaglieri teria surgido em 1894, organizada por José Munhai e composta por membros da colônia italiana. Até 1910, quatro bandas se consolidado na cidade: Filhos de Euterpe, Bersaglieri, Banda Progressista (União Progressista da Companhia Mogyana), Giacomo Puccini e Ítalo-Brasileira (TUON, 1997, p. 93). O Almanach Illustrado de Ribeirão Preto de 1913/1914 enumera as corporações musicais existentes naqueles anos, e cita os seus respectivos diretores: Filhos de Euterpe Director José Delphino Machado União Progressista Director Torquato Elias da Silva

Diovolina (polka), Fantastico sonho (valsa). Tais informações sobre estas composiçoes e dos outros dois autores citados a seguir foram encontradas nos jornais, ao longo do periodo pesquisado.

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Thaty Mariana Fernandes Italo-Brazileira Director Marcos Vecchio Santo Antonio Director Sebastião Somma (ALMANACH ILLUSTRADO DE RIBEIRÃO PRETO, 1913-1914, não pag.)

A banda Giacomo Puccini apareceu no jornal A Cidade a partir de 1908, ano em que esteve presente nas apresentações do Jardim Público, até dezembro de 1909, quando seu representante, o maestro Domingos Baccaro dirigiu ao prefeito um ofício pedindo exoneração desta atividade, dizendo: [...] devido só e exclusivamente o accordo reciproco e contracto verbal, tem continuado até a presente data com o serviço do Jardim Publico, o qual só tem dado muito pouco resultado pecuniario até a presente data. [...] sendo ella actualmente composta em quasi na sua totalidade de negociantes estabelecidos, os quaes quasi sempre no fim do anno concorrem com impostos aos cofres municipaes; os exforços empregados são o sacrificio e o fructo do mesmo trabalho; [...] (A CIDADE, 15 dez. 1909, p. 2).

Seus componentes, portanto, eram músicos amadores, que tinham como principal meio de vida outras atividades, pelo menos nesse momento. O maestro Domingos Baccaro, mais tarde, além de maestro da orquestra do Eldorado Paulista, tornar-se-ia empresário de entretenimentos.

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Giovanni Gemme12 e Cunegundes Rangel13, outros regentes da banda Giacomo Puccini, também eram compositores. A bella “Marcha” muzical que o inteligente musicista sr. Cunegundes Rangel dedicou ao nosso representante cap. Antonio E. de Moraes intitulada “A Cidade” será tocada hoje no jardim pela banda Giacomo Puccini.(A CIDADE, 25 out 1908, p. 1)

Outra corporação de atividade destacada foi a Progressista Mogiana, formada por funcionários da E.F. Mogiana, em 1910. Sua estréia pública aconteceu nas comemorações de 1o de maio daquele ano – nos anos seguintes a banda também tocaria durante as comemorações do Dia do Trabalho. Teatros e outros estabelecimentos de lazer e diversão, como circos, rinks de patinação, confeitarias e outros, costumavam manter bandas próprias para animar as suas “funcções” – acompanhar filmes e espetáculos, ou simplesmente alegrar o ambiente. Não há praticamente nenhuma informação sobre os componentes dessas bandas,

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Músicas de sua autoria: La Bella Italia (sinfonia), Marcia [marcha] Villa Bonfim, Polka, Marcha Amor e Patria, Mazurka Fernet Branca. 13 Outras composições suas: Parodia sinfonica, Grande dobrado Rio Branco, Marcha Rio Branco [talvez a mesma composição, em ritmo diferente], Sinfonia Ciume de arte, Tango sem malicia, Mazurka Ore di meditazione, Dobrado Virgem dos Geleiros. Como no caso anterior, as informações sobre as composições do autor foram encontradas nos jornais.

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apenas sobre os seus regentes. A música era fundamental nesse tipo de ambiente, e mesmo os estabelecimentos que não dispunham de banda própria contratavam músicos temporariamente. Em ocasiões especiais as corporações musicais também prestavam serviços para os teatros e outros locais de diversão. O Eldorado Paulista, enquanto pertenceu à Empreza Cassoulet, possuía uma orquestra, dirigida pelo maestro Domingos Baccaro, que mais tarde se tornaria seu diretor, ao mesmo tempo continuando a exercer a função de maestro. Em 1916, o Eldorado foi reaberto, e Domingos Baccaro passou a trabalhar ali na dupla função. Em 1915, Giovane Gemme, que fora regente da banda Giacomo Puccini, voltou a Ribeirão Preto para dirigir a orquestra do Cassino Antarctica, e foi recebido festivamente. A banda do Paris Theatre era regida por Sebastião Pimentel, logo após a sua inauguração. Em fevereiro de 1912, divulgou-se a notícia de que a sua orquestra era regida pela “exma. sra. D. Lilia Mello” (DIÁRIO da Manhã, 1º. mar. 1912, p. 2). Em abril de 1914, noticiou-se que Guaycurú Rangel era o diretor dessa orquestra.

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A regência da orquestra do Bijou Theatre ficou por conta de Ormeno Gomes, sobrinho de Carlos Gomes 14. No Polytheama o maestro era Carlos Nardelli. O diretor da orquestra do Cine Odeon, em sua breve existência, foi José Delfino, que compôs a marcha Odeon em sua homenagem. Esses mesmos músicos que compunham as bandas, e outros mais, também por vezes faziam o papel de professores ou solistas. O mesmo concurso que elegeu a melhor banda pelos leitores, elegeu também os “melhores valsistas” da cidade pelo voto popular. Não está claro se o “valsista” seria o compositor ou intérprete de valsas, ou se a palavra se referia a músico em geral, ou dançarino. [...] Valsistas Votos Ferreira Souza

468

Nhonho Loyola

257

João Lamachia

254

Venancio Faria

207

14

Componentes da orquestra: Maestro Travet, José Cicala, C. Pagnotti e Fioretti (quatro primeiros violinos); Victor Collo (primeira flauta); Antonio Monteiro da Costa e Cassio Nardi (contrabaixos); J. Gugliotti (clarineta). THEATROS E... (A CIDADE, 12 maio 1909, 1909, p. 1).

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Thaty Mariana Fernandes A. Carlos 54; P. Coelho 31; Belmiro Peixeiro 15; Juvenal Guimarães 18; Felicio Moraes 12; Benedicto Vieira 11; Brenno Martins 11, e outros menos votados. (A CIDADE, 24 ago 1909, p. 1)

O apelido de Belmiro Peixeiro indica que pelo menos alguns deles deveriam ser de origem modesta. É possível que o título de “valsista” corresponda ao de músico popular. Os professores particulares de música se ofereciam através de anúncios modestos, mas frequentes, repetidos às vezes por meses, de forma idêntica, ou renovados ano a ano. As aulas eram, principalmente, de piano, canto, solfejo e teoria, e instrumentos de cordas. Havia muitos estrangeiros ou descendentes, pois se apresentavam como tal ou tinham sobrenomes que indicavam a sua origem, principalmente italianos. Professora Uma professora estrangeira, dispondo de duas horas por ia, deseja encontrar uma casa de familia para ensinar francez, inglez e piano. Dirijam-se a Miss Milligton, á rua S. Sebastião, 45 (A CIDADE, 29 abr 1908, p. 2) Prof. do Eldorado José Gugliotti lecciona piano, violino, bandolim e instrumentos para banda.

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Música e distinção social em Ribeirão Preto Rua S. Sebastião, 79 (A CIDADE, 11 out 1908, p. 2) J. Boemler Professor de pianno Rua General Ozorio 107 – Ribeirão Preto (A CIDADE, 28 maio 1909, p. 1) Professor de musica José Cicala aviza as exmas. Familias e a quem possa interessar, que ensina violino e qualquer instrumento de corda nesta cidade e visinhanças a 10$000 por mez com direito a 2 licções por semana. Pode ser procurado no Bijou Theatre em Ribeirão Preto. (A CIDADE, 2 nov 1909, p. 2) Canto e piano A professora Martina Kieffer, formada pela Real Academia de Munich, pedagoga altamente recommendada, acceita lições particulares em casa dos discipullos. Carta a M. Kieffer, Collegio Methodista. (A CIDADE, 8 maio 1913, p. 2) Sabino de Souza Professor de musica

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Thaty Mariana Fernandes Lecciona theoria musical e qualquer instrumento orchestral, bandisticou ou popular. – Aulas diurnas, nocturnas e particulares para ambos os sexos Rua Saldanha Marinho n. 166 (A CIDADE, 11 jun 1915, p. 3)

Figura 10: anúncio de professora. (A CIDADE, 21 nov 1911, p. 3)

Em 1911, alguns músicos tomaram a iniciativa de buscar apoio para a fundação de um conservatório musical na cidade, a fim de profissionalizar a educação musical, mas essa idéia não chegou a ser concretizada no período estudado. À frente dessa empreitada estavam dois maestros de destaque na cidade, Provesi e José Delfino, sendo que o primeiro já tinha uma experiência na direção de um conservatório em Buenos Aires tida como um grande centro cultural na época.

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Música e distinção social em Ribeirão Preto Conservatório musical Está se agitando e tomando grande vulto a fundação de um conservatório musical nesta cidade. Á frente deste emprehendimento grandioso estão os maestros Provesi e Delfino, cujos conhecimentos artisticos são sobejamente conhecidos. Sabemos que estão sendo organizados os planos para a execução dessa idéia, sob os moldes mais modernos, pois o maestro Provesi vem de Buenos Ayres, onde proficientemente dirigiu, durante muito tempo, o conservatorio musical de Santa Cecilia. Dadas as vantagens que para a educação artistica da nossa terra, dahi advirão, nós louvamos essa nobre e altamente sympatica iniciativa e da nossa modesta tenda de trabalho, feccundaremos a obra grandiosa dos maestros Provesi e Delfino. (A CIDADE, 27 jan 1911, p. 2)

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5. ComĂŠrcio de instrumentos, partituras, discos e gramofones

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Nos jornais era comum encontrar anúncios de venda e manutenção de instrumentos, partituras, gramofones e discos. Como já foi mencionado, pelo fato de a música ao vivo ser a sua forma de difusão mais comum, a venda de instrumentos e partituras, possivelmente, deve ter sido bastante expressiva, bem mais que a modesta presença dos anúncios dos vendedores nos jornais, e a quase completa ausência de comentários a esse respeito. Quanto aos gramofones e discos, os anúncios eram fartos e detalhados. Os vendedores facilitavam a compra de gramofones dividindo em parcelas e formando clubes (consórcios). O que mais se destacava era o comércio de pianos. Tais anúncios eram repetidos diariamente por longos períodos que chegavam a meses, sem reformulação, ou anos, de forma alternada e com algumas modificações. Isso indica que o comércio de pianos deveria ser bastante expressivo, e esses instrumentos tinham a sua venda facilitada em diversas prestações ou clubes. Também eram vendidas pianolas que tocavam sozinhas. Tantos pianos demandavam manutenção, que era realizada pelos afinadores e consertadores que passavam temporadas pela cidade, até se fixarem devido à frequência dos serviços. Essa foi a maior evidência encontrada sobre a “pianolatria” – “detestável” mania por pianos que imperava no país desde o século XIX, tão criticada por Mário de Andrade (s.d., p. 157). Ter um piano em casa representava status, e mesmo quem não sabia tocar poderia ter uma pianola em casa para animar as reuniões e decorar a sala de estar.

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Algumas livrarias comercializavam partituras de “modinhas” (canções populares), como a Verissimo dos Santos, a Salles e a Internacional. A Livraria Verissimo dos Santos = Rua Alvares CAbral, 21, possue enorme sortimento de romances, livros escolares, modinhas, cadernos, lapis, tintas e papel em elegantes caixinhas a preços reduzidos. Ribeirão Preto.( A CIDADE, 11 out 1908, p. 3) Livros A Livraria Salles, rua A. Bueno 41, vae passar por uma grande reforma, e para isso, estabeleceu preço de occasião em alguns livros, cujos preços serão mantidos até o dia 25 do corente mes. [...] Modinhas: Lyra do Capadocio de 1.500 por 800. Trovador da Malandragem, de 1.500 por 800. Lyra de Apollo de 2.500 por 1$600. Trovador de Esquina de 2$ por 1$700, Serenatas de 1.500 por 800. O cantor de Modinhas Brasileiras de 1.500 por800. Trovador Maritimo de 1.500 por 800. Trovador Moderno de 1.500 por 800. Choros ao violão, de 1.500 por 800. Cancioneiro popular de 2.500 por 1.600. Lyra infantil de 2$ por 1.600. Molongos canções e Cançonetas de 2,500 por 1.600. Molongos Canções e cançonetas de 2,500 por 1.600. [...] (A CIDADE, 18 out 1910, p. 4)

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Música e distinção social em Ribeirão Preto Figorinos, livros e musicas novas. A livraria Internacional á rua Álvares Cabral, [...], acaba de receber grande stock de novidades. (A CIDADE, 16 jul 1916, p. 1)

Quanto ao comércio de instrumentos na cidade, quase não havia anúncios, mas, devido à grande presença da música ao vivo, a venda de instrumentos deveria ser numerosa. O primeiro anúncio encontrado era de 1910, de um particular vendendo um violino “novo com caixa” (A CIDADE, 21 abr 1910, p. 1). Depois desse, foram localizados outros anúncios de particulares a fim de comercializar instrumentos usados (órgãos, violinos, instrumentos para bandas, entre outros). O primeiro anúncio de loja de instrumentos localizado foi publicado em 1911. Casa Baruffi de Baruffi & D’allopio Grande officina de concertos de instrumentos [...] de metal e de madeira. Tem sempre á venda qualquer instrumento para bandas de musica por preços modicos. [...] Compra e venda de instrumentos usados. Rua Saldanha Marinho n. 40 – Caixa Postal, 24. Telephone Casa Baruffi. (A CIDADE, 9 maio 1911, p. 4)

A Casa Baruffi foi o único estabelecimento comercial anunciante de instrumentos. No Almanach Illustrado de Ribeirão Preto (1913-1914) apareceram como fabricantes

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Thaty Mariana Fernandes

de instrumentos musicais Santiago G. Soares e Antonio Berlim (ALMANACH ILLUSTRADO DE RIBEIRÃO PRETO, 19131914. Não pag.)

A Casa Bacarato, principal comerciante de discos e gramofones da cidade, também comercializava roupas, armarinhos e produtos de higiene pessoal. A partir de 1908 frequentemente anunciava seus produtos nos jornais – as “grandes novidades” vindas de São Paulo e Rio de Janeiro, e os seus respectivos preços. Seus anúncios traziam imagens de gramofones e também costumavam ocupar uma grande parte das páginas (metade ou ¼). Além destes, a partir de 1911, havia os anúncios do Bazar Modelo, que também comercializava gramofones e discos, a Casa Brancato e a livraria Verissimo dos Santos. Os gramofones comercializados eram da Columbia, e sobre os discos há poucas informações. Em um anúncio de 1912 há o seguinte texto: Casa Bacarato Acaba de receber 50 gramophones e 5.000 discos: Columbia, Jumbo Record, Odeon e Victor – cantados pelos artistas mais celebres do mundo. Escolhido repertorio para bailes, sólos e rondolas, sólos de accordeon executados pelos afamados Guido Doiro. Tendo de dar logar a outra remessa de discos, pedimos ao publico de aproveitar o bello e grande sortimento (A CIDADE, 15 mai. 1912, p. 4).

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Música e distinção social em Ribeirão Preto

Apesar de relativamente recente, esse comércio tornarase bastante expressivo, como sugerem os números desse e outros anúncios semelhantes.

5.1.

Comércio de pianos

Casas de São Paulo e Campinas anunciavam compra e venda de pianos, dando a entender que em Ribeirão Preto havia demanda para esse comércio, mas não havia fornecimento local, ou este não era suficiente, abrindo uma brecha para a atividade dessas casas, que também trabalhavam com outros produtos. Os anúncios têm o aspecto visual bem cuidado e ocupam um espaço significativo na página do jornal. O primeiro anunciante foi a Casa Azul, de Campinas, em abril de 1905. Pianos vendas de occasião A Casa Livro Azul, de Campinas, em vista da alta do cambio, resolveu vender o bom stock de pianos que possue, por preços extremamente reduzidos; cerca de 500$000 menos do que os preços do anno passado. Quem precisar de um bom piano, instrumento perfeito e de inteira confiança, não deve perder esta occasião de o comprar com enorme reducção de preços. Pianos de fabricantes afamados até por 1:400$! garantidos.

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Thaty Mariana Fernandes pianos usados porém em bom estado, tem para todos os preços. compram-se pianos usados (A CIDADE, 12 abr 1905, p. 3)

Ao lado da parte escrita deste anúncio há a ilustração de um piano e, embaixo, a inscrição “A. B. de Castro Mendes – Campinas”. A partir de outubro de 1908, surgiram os anúncios da Casa Standard (atuava no Rio de Janeiro e em São Paulo, mas mantinha representantes na cidade) que se repetem por todo o período pesquisado, comercializando também armas e máquinas de escrever. Seus anúncios se repetiam quase diariamente, até 1916. A partir de 1911 a Domingos Innechi & Filho, fabricante de móveis, também anunciva a venda e o aluguel de pianos novos e usados. Pianos Armoiums e musicas Todos os instrumentos de fabricantes de primeira ordem especialmente para o clima do Brasil, [...] com garantia de 5 a 10 annos. Remessas directamente das alfandegas de Santos ou Rio de Janeiro para evitar despesas inuteis [...]. Venda annual de 200 pianos. Remessas para o interior, sinceramente escolhidas conforme indicações sobre timbre e sonoridade, baseadas na pratica profissional de 28 annos no Brasil como afinador, concertador e concertador de pianos. [...] Únicos agentes

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Música e distinção social em Ribeirão Preto [...] Rua Amador Bueno numero 30 – telephone 132 – caixa 24 (A CIDADE, 21 nov 1911, p. 3)

Em 1913, aumentou a quantidade de vendedores de pianos, como a casa Abilio Murce & Cia., do Rio de Janeiro, com representante na cidade e a Casa Allemã de Pianos, de São Paulo. J. Gonçalves Lagosta, antes representante da Casa Standard, esse ano revendia pianos direto da fábrica. Em novembro, anunciou-se a casa Pianos Bernardo Klauning: Importação directa. Estabelecido em Santos desde 1886. [...] Ribeirão Preto, rua Alvares Cabral, 10. deposito e officinas. Vendas á dinheiro e em prestações. [...] encommenda mediante catalogo criteriosamente escolhidos na matriz, aonde sempre existe um stock de 100 pianos novos, expressamente fabricados para o nosso clima segundo indicações baseadas na pratica profissional de 30 annos no Brasil como professor, afinador e concertador de pianos em Santos e S. Paulo. Para concerto tenho auxiliares de 1ª ordem experimentados e affiançados por fabricantes de pianos allemães. [...] A casa é vantajosamente conhecida nesta zona ha annos jà vendeu pianos novos de rs. 1:400$000 até 3:500$000 (cel. Francisco Schimidt) tem sempre diversos pianos de aluguel por preços commodos, aluga, afina, concerta,

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Thaty Mariana Fernandes troca, compra e vende. (DIARIO DA MANHÃ, 19 nov 1913, p. 2)

Em 1916, abriu-se uma nova casa, a primeira filial da fábrica nacional de pianos Isidoro Nardelli, de São Paulo. Seu gerente era o maestro Nardelli, que, devido à coincidência do sobrenome, possivelmente teria algum parentesco com o fundador da fábrica. Como era de costume, a casa também dispunha de uma oficina para consertos e reformas, e também comercializava partituras.

Figura 12: propaganda de casa de pianos. (A CIDADE, 30 jun 1909, p. 4)

Além desses grandes vendedores, era comum que os particulares anunciassem a venda de pianos usados, como também era comum a realização de leilões, nos quais os pianos eram incluídos entre os bens. Piano Vende-se um piano de bom autor e em perfeito estado. Trata-se à Rua Tibiriçá, 83 (A CIDADE, 1 jan 1914, p. 3) Bom leilão de moveis Sabbado, 11 de Março de 1911

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Música e distinção social em Ribeirão Preto Ao meio dia Praça Barão do Rio Branco, 5 (em frente á Camara Municipal) Caetano Fabrini, leiloeiro matriclado [...] e auxiliado pelo Sr. Ananias Barbosa, devidamente autorisado por uma distincta familia que se retira desta cidade venderá em franco e publico leilão, ao maior lance offerecido todos os moveis abaixo descriptos: 1 rico e novo piano com 3 pedaes abafadores, dos autores Zeitter & Wintesmam (A CIDADE, 9 mar 1911, p. 3)

Anúncios de consertadores e afinadores de pianos eram muito frequentes. Esses profissionais, na maioria das vezes, não residiam na cidade, apenas permaneciam por, no máximo, alguns meses. Os pianos necessitavam de apenas uma afinação por ano, por isso, os afinadores precisavam viajar de cidade em cidade em busca de trabalho. Alguns desses profissionais também se diziam músicos e até maestros. Afinador de piano J. Ferreira Gastão, afinador e concertador de Pianos das casas Bevilaqua e Levy da Capital acha-se nesta cidad a disposição das exmas. Familias. Recados Rua Barão do Amazonas n. 4 Fabrica de Gelo (A CIDADE, 31 jan 1905, p. 2)

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Thaty Mariana Fernandes Afinador e concertador de piano Acha-se de passagem por esta cidade o sr. Raphael Morgani afinador e concertador de pianos da casa Angelo Amoroso sito a rua de S. Bento n. 79, São Paulo. [...] Nota: o sr. Morgani é recommendado da casa, e possuidor de grande quantidade de attestados de professores de pianos diplomados, com as respectivas firmas reconhecidas [...]. O sr. Morgani representa as seguintes melhores casas de pianos de S. Paulo: Bevilacqua, Chiafforolli, Lucchesi e Casa Standard para vendas de pianos das melhores marcas, a dinheiro ou em prestações ou clubs. Pede-se o especial favor aos interessados aproveitarem a occasião, sendo curtissima a demora do sr. Morgani nesta cidade. [...] Hotel do Martino = Telephone 74 – Ribeirão Preto (A CIDADE, 12 ago 1908, p. 4) Afinador e concertador de piano O abaixo assignado concertadoe e afinador de pianos, já conhecido nesta cidade, a chamado, acha-se novamente nesta cidade para exercer os serviços de sua profissão, garantindo o seu trabalho e modicidade nos preços, para as exmas familias que precisarem. Pode ser procurado no Hotel Bonini e Digrazia Annibal Pistelli (A CIDADE, 15 abr 1909, p. 2)

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Música e distinção social em Ribeirão Preto Maestro Varella Em companhia do nosso amigo sr. Simões, proprietario do Hotel Central, visitou-nos hontem o maestro F. Varella que se propõe a concertar pianos e harmonius, offerecendo os seus prestimos as exmas. familias e cavalheiros. O maestro Varella está hospedado no Hotel Central.(A CIDADE, 26 jun 1910, p. 2)

Em 1915, já existia uma casa especializada em conserto e afinação de pianos e outros instrumentos fixa na cidade: Afinadores e concertadores de pianos, pianolas, autopianos, violinos, orgams, etc. – 112, Rua Duque de Caxias – Telephone 239 – Ribeirão Preto. Attendem a chamados para o interior e fazendas. (A CIDADE, 15 ago. 1915, p. 2).

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6. Música e entretenimento como meios de culto e educação

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Música e distinção social em Ribeirão Preto

Muitos eventos cívicos e religiosos envolviam a música. Tais eventos tinham um papel “edificante” na vida dos cidadãos, de solidificar valores e prestar homenagens aos santos, aos heróis da pátria e às instituições. As suas regras disciplinares já estavam implícitas no caráter ritualístico desses eventos, embora quase sempre houvesse um certo caráter “profano” ou de simples lazer.

6.1.

A música nas escolas

A educação musical constituía parte importante da formação geral dos educandos. Disciplinas de música e atividades musicais faziam parte dos currículos, como matérias obrigatórias ou facultativas, da maioria das escolas identificadas nas notícias e anúncios. As escolas se mobilizavam para fazer festas em homenagem às datas cívicas e nos finais de ano letivo. Os eventos escolares, tanto as festas como outros mais corriqueiros, como listas de alunos aprovados e reprovados, mudanças de professores, abertura de matrícula, mudança no horário das aulas, etc., eram fartamente noticiados. Anúncios de escolas particulares também eram muito presentes. A educação musical constituía parte importante da formação geral dos educandos. Disciplinas de música e atividades musicais faziam parte dos currículos, como matérias obrigatórias ou facultativas, da maioria das escolas identificadas nas notícias e anúncios, desde 1905, como nos exemplos a seguir:

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Thaty Mariana Fernandes Externato dos P P. Agostinianos Rua Florencio de Abreu n.58 Gratuito Só tem lugar nesta escola o ensino primario, segundo os programmas officiaes, e visa especialemnte dar á juventude uma boa educação civica e uma solida instrucção scientifica. [...] 5. Só os alumnos de francez desenho e musica deverão pagar uma modica joia. (A CIDADE, 10 jan 1905, p. 2) Collegio Progresso Internato e externato para meninas Elegante e confortavel installação á Rua S. Sebastião 56 Ribeirão Preto [...] Materias do curso [...] Gymnastica Solphejo Bordados Costura

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Música e distinção social em Ribeirão Preto Materias facultativas Piano, bandolin, violino, canto, pintura, pirogravura – 20$000 (A CIDADE, 31 jan 1909, p. 3)

No Grupo Escolar, o envio de um harmonium (órgão) foi festejado e até noticiado: Grupo Escolar Presente valioso O dr. José Alves Guimarães Junior em amistosa carta dirigida ao sr. Orestes Guimarães, Director daquelle estabelecimento, enviou o conhecimento de despacho de um bom harmonium para o Grupo Escolar desta cidade, instrumento que será de grande utilidade para os alumnos, os quaes podem, desde agora, dedicar-se aos exercícios de musica e canto, incontestavelmente um complemento á educação que recebem. (A CIDADE, 29 abr 1905, p. 1)

No Grupo Escolar as festas de encerramento do ano letivo eram suntuosas e mobilizavam empresas de entretenimento na sua organização. Contavam com a presença da imprensa e de autoridades municipais. Os alunos apresentavam diversos números como teatro, declamação de poemas, música e dança, e um dia dedicado apenas aos esportes (festa gymnastica). Como dissemos hontem, tiveram extraordinario brilho as festas do encerramento do anno letivo no Grupo Escolar desta cidade no dia de ante-hontem.

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Thaty Mariana Fernandes Ás 2 horas da tarde o grande pavilhão destinado ao recreio e exercícios dos alumnos, na secção feminina, achava-se repleto, completamente occupados todas as cadeiras e bancos [...]. Desde logo feriu-nos a vista, muito agradavelmente, o lindo palco elegantemente construido e bem decorado [...]. O trabalho dessa allegoria, bem como todo o serviço de scenarios foram feitos pelo sr. Aristides Motta. Antes de subir o panno, a excellente orchestra da Empreza Cassoulet tocou a bella symphonia “Norma” de Bellini. Começaram então as representações de comedias, recitativos e exhibições de dramas e cantos que obedeceram ao programma anteriormente destribuido, impresso com as cores nacionaes. [...] Os meninos Pedro [...] e Domingos Negrão abriram a parte theatral recitando o dialogo “Carlos Gomes”. Seguiram: cançoneta, “Doutrina” pela galante menina Felicita Sant’Anna; [...] Terminou a primeira parte do programma com a comedia “Felicidade das Nações” e com o bello duetto “Torna a Sorriento” interpretado pelas meninas Antonietta de Souza e Joanna Peduto sendo muito applaudidas. A segunda parte começou pela execução de um morceau da “Gioconda” pela orchestra.

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Música e distinção social em Ribeirão Preto Seguiram-se lhe: [...] “Crianças”, canto e dansa, muito bem ensaiado e muito interessante; [...] “O Sole Mio”, cançoneta muito bem cantada pelo intelligente menino Abel Brandão e as meninas Thereza Ervorina, Amelia e Esther Petrarchi; [...] A ultima parte do programma constou de execução pela orchestra da bella sinfonia “Poeta e Contadinho”; serenata por diversas meninas vestidas a marinheiros, tocando bandolins e cantando a “Santa Lucia” com acompanhamento pela orchestra; [...] Cesira, canto; e finalmente as engraçadas e sempre queridas “Dansas portuguezas” com canto e acompanhamento pela orchestra, tomando parte nesse final da bella festa as meninas Anna Ribeiro, Laura de Sá, Odilia Fraga, Nazareth Rodrigues, Victoria Nader e Elisa dos Santos. (A CIDADE, 28 nov 1908, p. 1)

Nos estabelecimentos particulares, o ano letivo também costumava ser encerrado com suntuosas festas e um longo programa de apresentações de alunos e professores, além da exposição de trabalhos manuais ali executados, e outras atividades. Havia outras festas realizadas nas escolas, como a Festa das Aves (em abril, no Grupo Escolar) e a Festa das Árvores (em setembro, no Grupo Escolar), e as comemorações cívicas do calendário. Tais festas cumpriam um ritual solene, com a participação dos diretores e do corpo docente, cantavam-se hinos pátrios e, em alguns casos, havia também orações.

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Thaty Mariana Fernandes

6.2.

Comemorações cívicas

As comemorações cívicas aconteciam nas ruas, principalmente no Jardim Público, nas escolas ou com a participação das mesmas, nas associações, estabelecimentos públicos e nos teatros. Havia, nesses locais, desfiles e carreatas, com a presença das corporações musicais, sessões solenes com conferências e discursos sobre a importância de tais datas, espetáculos, bailes, etc. As datas comemoradas anualmente eram os dias 21 de abril (feriado instituído em 1911), 3 de maio (antiga data estabelecida para a chegada dos portugueses ao Brasil), 14 de julho (Revolução Francesa), 7 de setembro (Independência), 15 de novembro (Proclamação da República) e 19 de novembro (Dia da Bandeira). O Dia do Trabalho era comemorado de forma festiva pelas associações de trabalhadores, que lideravam passeatas, promoviam solenidades, alvoradas, retretas e bailes. A banda União Progressista, dos operários da Companhia Mogiana fez sua primeira apresentação no Jardim Público, em 1º de maio de 1909. Em 1910 a banda repetiu a apresentação do ano anterior. Em 1912 as comemorações foram mais amplas: A banda “Italo-Brasileira” iniciou os festejos com uma alvorada ás 5 horas da manhã. Ás 8 horas realisou-se na Cathedral a missa mandada dizer pelo Centro operario S. Benedicto, á qual compareceram, alem de quasi todos os associados do

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Música e distinção social em Ribeirão Preto Centro, grande numero de operarios e commissões representando varias outras sociedades. A Liga Operaria effectuou às 3 horas uma reunião no Theatro Carlos Gomes [...] Á noite, ás 8 horas, reuniram-se na séde da Legião Brasileira innumeros membros de todas as classes sociaes, para assistir á sessão civica annunciada. [...] (DIARIO DA MANHÃ, 2 maio 1912, p. 2)

Por vezes também eram promovidos nos teatros espetáculos de gala e sessões especiais de cinema em homenagem aos trabalhadores. A comemoração do dia 3 de maio era mais sóbria e modesta, com o hasteamento da Bandeira Nacional nos estabelecimentos e solenidades formais. A abolição da escravidão, no dia 13 de maio, era comemorada de forma mais festiva. Havia bailes e espetáculos nos teatros. Os exescravos e seus descendentes faziam suas próprias comemorações, que por vezes apareciam nos jornais. As festas de hontem As ruas da cidade mostravam-se de um aspecto festivo tendo sido percorridas pos desusado numero de passeiantes. Pela madrugada houve salvas de 21 tiros, tocando diversas bandas. No Theatro

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Thaty Mariana Fernandes A “Associação Civica” e a “Legião Brasileira” auxiliadas pela Camara Municipal concorreram brilhantemente para que fosse festejada com solemnidade a data de 13 de Maio. Presidindo a sessão o sr. Dr. Eliseu Guilherme Christiano, Juiz de Direito da Comarca abriu a sessão solemne de commemoração da grande data, dizendo que a “Associação Civica” e a “Legião Brasileira” commemoravam naquelle dia a data mais gloriosa da História do Brazil; [...]. A passeiata Organizado numerozo prestito pelas associações referidas, Gupo Escolar, outras escolas, e povo dirigiramse em passeiata pelas principaes ruas da Cidade cumprimentando as autoridades e á imprensa. [...] Á noite tocou no Jardim Publio a banda musical “Filhos de Euterpe”. A ordem manteve-se inalteravel. (A CIDADE, 14 maio 1905, p. 1)

Os ex-escravos e seus descendentes faziam suas próprias comemorações, que por vezes apareciam nos jornais. Algumas seguiam os padrões “cultos” e “civilizados”. As que fugiam a este padrão nem sempre eram bem aceitas, como demonstram os dois artigos a seguir:

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Música e distinção social em Ribeirão Preto Conversas alheias Ante-hontem, pelas oito e meia da noute, estava eu a ler, todo repimpado n’uma cadeira de balanço de palhinha estragada, quando me chegaram aos ouvidos os sons roucos e confusos de um samba. Enverguei um sobretudo, meu companheiro de quinze annos, bati o chapeo molle no alto da testa, passei a mão n’uma salutar peroba e sahi a espiar aquillo. De longe, avistei em frente ao Theatro, um grupo de pretos que descompassadamente pulavam, como pulam as almas condemnadas, nas chammas do Inferno, segundo oleographias de propaganda catholica. Ao chegar á esquina da rua Visconde de Inhauma encontrei-me com um amigo que pelos modos estava gostando d’aquella algazarra: - Como dançam bem, não? - Ora sahe d’ahi!... - Não senhor, estão dançando no compasso, repare no rytmo: Purum pum! Purum Pum! Aquella é a verdadeira musica nacional; cada cantiga d’aquellas é um thema para esplendidas e soberbas composições musicaes.

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Thaty Mariana Fernandes Listz, Collaço, Alexandre Levy e Itiberé da Cunha têm bordado as suas com essas canções populares: Listz na Hungria, Collaço com Portugal, Levy e Itiberê no Brasil. - Bem, bem, concordo comtigo. E’s um maniaco, e para esta especie de malucos não há musica que não seja bella, sublime e adoravel. Vamos ver e ouvir de perto. Aproximamo-nos do grupo. No centro uma crioula rachitica, trazendo no collo um pretinho que tiritava de frio, saltava, repetindo o final de um estribilho: Para aturá os capricho de nhônhô! Aiuê! Aiuê! Repizou isso por muito tempo, emquanto os parceiros batucavam umas latas de kerosene. Fez-se um pequeno intervallo em quanto a garrafa de pinga era passada de bocca em bocca. Depois recomeçou o samba, indo para o centro um latagão retinto: Agora nós já tá forro, Trabaiamo si quizé, Negro não panha de côro Negro num panha café. Em roda repetiam: Negro não panha de côro

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Música e distinção social em Ribeirão Preto Negro não panha café. Aiué! aiué! - Assim minha gente, bradava, sapateando, o mestre-sala. Mano Jeromo, passa adiante. E o Jeronymo: Fiz uma cuié de junco, Páo que eu mémo cortou Mas essa cuié de junco A cuia de leite estragou. Sinhô-moço me ralhou, Mas porém não tem razão: - Que culpa que tenho Sinhô - Si o junco o leite talhou? E o leite talhou! (A CIDADE, 14 maio 1905, p. 1)

O autor da crônica coloca lado a lado dois personagens num antagonismo interessante, demonstrando a visão do narrador, que não aceita como legítima ou bela a música e a dança dos ex-escravos, enquanto o seu interlocutor tem uma outra compreensão sobre a música, considerando que

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os “grandes compositores” se inspiram na criação popular para elaborar suas “grandes obras”. Aqui, uma forma menos “exótica” de comemorar a data da abolição da escravidão, por parte dos ex-escravos e seus descendentes, de acordo com padrões socialmente mais aceitáveis: 13 de Maio Programma organisado por um grupo de homens de côr desta cidade, em regozijo a data acima: Alvorada com salvas de vinte e um tiros, no largo da matriz. Missa solemne por alma dos distinctos paladinos do abolicionismo, que tanto luctaram para a lei aurea de 1888. Sessão literaria no salão do predio n. 4 da rua Duque de Caxias, procedida pelo sr. Benedicto Cavalcanti de Mello e outros. O thema será – “Descendencia africana ou a separação da raça preta no Brasil”. Á noite terminará os festejos com uma animada “soirée” dansante. Pela Comissão Benedicto C. De Mello (A CIDADE, 12 maio 1911, p. 2)

As comemorações da Revolução Francesa eram feitas com retretas, solenidades em várias instituições (escolas,

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Música e distinção social em Ribeirão Preto

associações, etc.) e bailes. O maior entusiasta das comemorações dessa data era François 14 de Julho O sr. Francisco Cassoulet prestando a devida homenagem à data memorável de 14 de Julho, em companhia do maestro Baccaro e seguidos da Banda de musica ItaloBrasileira, percorreram hontem as ruas principaes da cidade, indo cumprimentar as auctoridades, os consulados e a imprensa. De tarde houve concerto no jardim publico e à noite em todas as casas de diversões da empresa Cassoulet realizaram-se espectaculos de gala, sendo cantada a Marselheza no Eldorado. (A CIDADE, 15 jul 1914, p. 1)

O dia da Independência era comemorado, habitualmente, de forma mais comedida e formal, com solenidades nas escolas e associações, com exceção dos anos 1913 e 1914. Em 1913 houve uma partida de futebol entre os times Associação Athletica Gymnasial, de Ribeirão Preto, e Sport Club Pitangueiras. Os visitantes foram recebidos pelos donos da casa e pela banda Filhos de Euterpe, e trouxeram consigo a corporação musical Puccini Pitangueirense. A partida reuniu cerca de 2.000 pessoas. Em seguida, houve sessão solene e jantar. Em 1914 a Sociedade Legião Brasileira organizou um sarau literário e musical nesta data em benefício da Santa Casa de Misericórdia: Ás 20 horas, no saguão do edificio da Legião Brasileira será executado o seguinte

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Thaty Mariana Fernandes Programma Pela banda de musica “Amore al’Arte”, sob a direcção do mestro Carlos Volani Nardelli: [...] A regencia da orchestra e os acompanhamentos ao piano, estão confiados ao maestro Carlos Volani Nardelli. Os professores da orchestra, [...] e todos os que tomam parte neste beneficio, prestam gratuitamente o seu valioso concurso. Ingresso 2$000 (A CIDADE, 4 set 1914,. 1)

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Música e distinção social em Ribeirão Preto Figura 13: sessão cinematográfica em homenagem à data da unificação da Itália. (A CIDADE, 19 set 1909, p. 3).

Em 20 de setembro era comemorada a unificação da Itália pela numerosa população de italianos e descendentes. As associações de imigrantes, como a Patria i Lavoro, tomavam a frente na organização dos festejos, que se constituíam de quermesses, retretas, alvoradas, passeatas, solenidades, bailes. Os cinemas também exibiam fitas especiais em comemoração à data. Em 1914, as comemorações foram suspensas devido à conflagração da Primeira Guerra Mundial. A partir de então não há mais registro da comemoração de 20 de setembro.

6.3.

Comemorações religiosas

Os festejos religiosos consistiam de missas e procissões, que algumas vezes eram cantadas ou acompanhadas por bandas. Além dos rituais propriamente religiosos, havia a parte profana, constituída por quermesses, retretas, bailes, leilões de prendas para arrecadar fundos para as igrejas, e outros divertimentos. As principais datas comemoradas anualmente eram as festas de São Sebastião, de São José, a Semana Santa, as festas juninas e da Consolação. As festas dedicadas a São Sebastião aconteciam no dia 20 de janeiro, ou por volta dessa data, e as suas comemorações envolviam sermão, missa, procissão e leilão de prendas. Em Villa Bonfim (atual Bonfim Paulista) aconteciam as maiores festas dedicadas ao santo.

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Thaty Mariana Fernandes Festa de S. Sebastião em Villa Bonfim Nos dias 24, 25 e 26 do corrente realizar-se-á em Villa Bonfim a tradiccional festa de S. Sebastião. [...] haverá dia 24 importante leilão de ricas prendas ás horas de costume, estreando pela primeira vez nesta localidade a bem organisada corporação Italo Brasileira de Campinas. Dia 25 – Ao estrondo de baterias e vinte e um tiros de canhão Tripoli, ao repique do “Angelus” e harmonias musicaes da banda Italo Brasileira, será o desta localidade, despertado pela primeira alvorada da festa. Ao meio dia haverá retreta em artistico coreto [...]. Dia 26 – [...] Ás onze horas missa cantada pelo exmo. sr. monsenhor Joaquim Antonio de Siqueira, acompanhada pela orchestra, “quarteto” da filarmonica Santo Antonio de Ribeirão Preto; [...]. Ás 5 horas da tarde percorrerá as principaes ruas imponente procissão [...]. Á noite será exhibido magestoso fogo de artificio pelo habil pyrothechnico Antonio Mastrobiso, de S. Paulo. - Diversões: - Haverá também divertimentos como Cavalinhos, Tombola, Cinematographo, Quebra póte, Páu de sebo, etc. - Domingo, 26 do corrente, correrão trens especiais de Ribeirão Preto e Cravinhos [...]. (DIARIO DA MANHÃ, 14 jan 1913, p. 1)

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Música e distinção social em Ribeirão Preto

Na Semana Santa não havia festejos profanos, ou eram muito reduzidos. As solenidades religiosas eram promovidas pela igreja de São José, dos padres agostinianos, ou pela Catedral. Havia cerimônia de lava pés, ofício de trevas cantado, missa e procissão. Os teatros apresentavam programação diferenciada, com filmes inspirados em temas sacros. [...] As missas sacras para os actos da Semana Santa estão a cargo da orchestra dos padres Agostinianos, da egreja São José, sendo organista a sra. D. Joaquina Gomes [irmã de Carlos Gomes], que occupa na Cathedral esse cargo. A regência do côro está confiada ao ar. Cap. Francisco Moreira. (A CIDADE, 1 abr 1914, p. 1)

A Festa de São José era comemorada entre abril e maio, na igreja de mesmo nome, e era antecedida por uma novena. No colégio dos padres agostinianos, a quem pertecia a igreja, havia uma escola de música, cujos professores e alunos participavam dos festejos. Os actos effectuar-se-ão na egreja de S. José e terão maximo brilhantismo. As novenas constarão de canticos, ladainha cantada, serão e bençam do Santissimo. Funccionará no côro a “schola cantorum” do mesmo templo. (A CIDADE, 21 abr 1914, p. 1)

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A Festa da Consolação era comemorada entre agosto e setembro, com novenas, solenidades e missa cantada, na Igreja São José. “As ladainhas serão acompanhadas com canticos, ficando a parte musical confiada a orchestra daquelle templo” (A CIDADE, 19 ago. 1911, p. 1). Na primeira página do jornal O setimo districto, de 19 de abril de 1893, temos a notícia de uma Festa do Divino, a única encontrada nas fontes estudadas. Festa do divino É este o programma da festa do Divino Espirito Santo, que promette ser brilhantissima: No dia 22, se cantará missa solemne, fazendo-se ouvir ao Evangelho, um distincto orador sagrado. A’ tarde, ás 5 horas, percorrerá as ruas da cidade, a imponente procissão do Divino, acompanhada de imagens em andores ricamente preparados. A’ noite, depois do leilão, se queimará um lindo fogo de artificio preparado pelo habil artista José Gomes do Amorim. Na vespera do dia festivo, subirão ao ar inumeros foguetes, havendo musica no largo, convenientemente enfeitado. A illuminação e a musica, quer sacra, quer profana, estão a cargo do sr. Pedro Xavier de Paula.

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Música e distinção social em Ribeirão Preto O digno festeiro, o sr. Virgilio Nogueira, tem empregado todos os esforços para que se faça uma festa attrahente. (O SETIMO DISTRICTO, 19 abr 1893, p. 1)

O mês de maio era dedicado à Virgem Maria, e esse período era chamado de Mês Mariano, durante o qual havia vários cultos, algumas vezes acompanhados por música. Havia o coroamento da Virgem, missas e outros rituais sacros. No relatório dos festejos marianos, de 1914, estão relacionadas despesas com músicas: Gratificação á Organista Idem ás cantoras (A CIDADE, 11 ago 1914, p. 3)

[...] 20$000

As festas juninas, dedicadas a São João, São Pedro e Santo Antônio, constituem uma das mais fortes tradições religiosas nacionais, e costumam ser comemoradas com quermesses e divertimentos profanos, além da parte religiosa. As festas juninas de maior destaque aconteciam na Villa Bonfim. Grandes festas De S. Antonio e S. Sebastião – em Villa Bonfim De 4 a 12 de Junho – Solennes novenas ás 6 horas da tarde cuja [...] no dia 4 annunciado ao povo com grande numero de gyrandolas, foguetes e leilões de prendas – Orchestra todos os dias sob regencia do sr. Leão dos Santos.

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Thaty Mariana Fernandes Dia 12 de Junho – Pelo [...] das 8 horas chegará a esta Villa, o exmo. Bispo Diocesano, ao qual prepara-se festiva recepção [...]. Ao meio dia será queimada uma bateria de 21 tiros, foguetes, e diversas bandas de musica percorrerão as ruas desta Villa; de uma hora em diante haverá diversos brinquedos a gosto do publico: como sejam: Cantos populares, Palhaços e mais divertimentos que agradarão o distincto publico desta Villa. Dia 13 de Junho – [...] De 1 ás 5 da tarde grande Match de Foot Ball entre um Club desta Villa e outro de Ribeirão Preto. Ás 5 horas da tarde: pomposa e imponente procissão que percorrerá as ruas principaes da Villa, com acompanhamento de confrarias, anjos e virgens, bandas de musica [...]. O desempenho da parte musical durante as funcções religiosas do dia será confiado á mesma orchestra dos dias antecedentes e uma boa orchestra de Batataes. [...] Durante os dias de festa darão espectaculos uma boa Companhia de Cavallinhos e outra Dramatica. Depois de finalisarem todos os festejos haverá trens especiaes para Cravinhos e Ribeirão Preto. (A CIDADE, 25 maio 1909, p. 2)

É interessante notar como a Villa Bonfim, um povoado menor e certamente mais ligado as tradições rurais, concentrava as festas mais expressivas de caráter religioso.

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Música e distinção social em Ribeirão Preto

Ali, pelo que se pode notar pelas notícias e anúncios dos jornais, a presença de espetáculos e cinematógrafos itinerantes era eventual, e a ausência do lazer mercantilizado pode ser uma explicação para a importância das festas religiosas.

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7. O carnaval

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Música e distinção social em Ribeirão Preto [O Carnaval] Foi introduzido no Brasil pelos portugueses, com o nome de entrudo (de introitus, “começo, “entrada”, nome com que a Igreja católica designava as solenidades litúrgicas da Quaresma, quando se exige retirada da carne, base mórfica admitida para carnaval e formas afins de várias línguas modernas). Brincadeira de rua suja e violenta, muito praticada pelos negros escravos desde o séc. XVIII, o entrudo passou a coexistir com o Carnaval moderno, inspirado em modelo europeu, a partir dos bailes de máscaras, principalmente em teatros (o primeiro foi realizado no Rio de Janeiro RJ em 1840), e dos desfiles de carros alegóricos, iniciados em 1854, ainda no Rio de Janeiro, sob o patrocínio do escritor José de Alencar. Durante o entrudo dos negros e das camadas populares, e assim no Carnaval das novas camadas da classe média da segunda metade do século XIX, foliões dançavam cantavam nas ruas quadrinhas de autores anônimos, ao ritmo de percussão, dançando nos salões ao som geralmente de bandas, que tocavam os gêneros europeus da época, principalmente a polca, o xótis [schottish], a valsa e a mazurca (ENCICLOPÉDIA DA MÚSICA BRASILEIRA, 1998, p. 162).

De acordo com a mesma Enciclopédia (1998), músicas brasileiras compostas especialmente para o Carnaval surgiram a partir da década de 1880. As notícias colocam os comerciantes do centro da cidade como os maiores entusiastas na organização do carnaval. Muitas lojas anunciavam nos jornais produtos de época como fantasias, confetes, serpentinas e lança-perfume.

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Antes do carnaval, ainda no mês de janeiro, havia o desfile de Zés-Pereira abrindo os festejos. Bandas percorriam as ruas tocando e acompanhando os desfiles e os corsos ao redor do Jardim Público, onde também aconteciam as batalhas de confete e o entrudo – brincadeira criminalizada pelos Códigos de Posturas de 1889 e 1902, considerada ofensiva e de mau gosto. Nos teatros havia bailes, e os festejos costumavam ser promovidos por iniciativa de clubs carnavalescos, constituídos para essa finalidade, que muitas vezes tinham duração efêmera. Os jornais reservavam um amplo espaço para o carnaval. Além da programação e dos editais da polícia que saíam por vários dias, também eram publicados comentários e crônicas sobre os festejos. A polícia publicava nos jornais e afixava em cartazes pela cidade uma série de regras a fim de manter a ordem e evitar abusos. A polícia publicava nos jornais e afixava em cartazes pela cidade uma série de regras que deveriam ser seguidas por aqueles que desejavam se divertir nas ruas: Delegacia Policial Carnaval O Capitão Alberto Seixas, Delegado de Policia, em exercicio, do Districto de Ribeirão Preto, na forma da Lei e etc. Faço publico que, sem previa licença n’enhum prestito, phantasiado ou não, poderá sahir a rua; devendo outrossim a commissão encarregada apresentar quanto

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Música e distinção social em Ribeirão Preto antes, para o respectivo exame, o plano dos carros allegoricos ou criticos e o itinerario pelas ruas da cidade. Nenhuma pessoa poder-se-à phantasiar sem previa licença; e si o deceparem, deverão comparecer a Repartição policial, afim de munirem-se da competente licença. Os infractores soffrerão a multa de 50$000 rs. E a pena de serem detidos por 24 horas, de conformidade com o art.346 do codigo de Posturas municipaes. R. Preto, 4 de – 3 – de 1905. Eu, Raul Portugal, escrivão, subscrevi. Alberto Seixas. Delegacia Policial Entrudo [...] Faço publico que de conformidade com o art. 245 do Codigo de Posturas Municipaes è absolutamente prohibido o jogo de entrudo com laranjinhas de cera ou borracha, com água, polvilho, farinha de trigo, ou qualquer outra substância que possa danificar ou incommodar os transeuntes, taes como carrapichos, espanadores, pós e graxas. Taes objectos encontrados a venda ou expostos em lugares publicos, serão apprehendidos e inutilizados, e osinfractores, de accordo com a citada postura, soffrerão a multa de 50$000 rs. Assim como sel-o-ão em 20$000 os vendedores destes objectos. (A CIDADE, 2 mar 1905, p. 2)

Essas determinações eram publicadas todos os anos, sem serem obedecidas à risca. Isto fica evidente nos comentários do cronista Silenio, que inclusive se divertia

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com o fato, numa demonstração de apreço pela brincadeira por parte de um provável membro da classe média: Pela Cidade (com ares de chronica) [...] A policia botou edital. Mas quem é que pode com o raio (olhem que é raio de luz!) destas moças, destas endiabradas meninas? O melhor é a gente metter-se na folia armado de um bisnagão deste tamanho e atacar... Porto-Arthur. (Porto Arthur é o tanque do Jardim em poder das pequenas.) (A CIDADE, 5 mar 1905, p. 1)

Apesar da demonstração de satisfação do cronista, o jogo do entrudo era amplamente condenado nos artigos do jornal A Cidade e por uma parcela da população, como demonstração de atraso e incivilidade: O jardim publico foi no Domingo ultimo o teatro destas scenas pouco edificantes. Muitas familias viram-se obrigadas a sahir daquelle centro de diversões porque, mesmo a contra gosto, eram molhadas por individuos desconhecidos que, armados de grandes bisnagas, aggrediam-nas insolenemente, de nada servindo os protestos levantados. Por diversas vezes vimos que se iam dar scenas de pugilato felizmente contidas por espiritos ordeiros que intervinham na occasião.

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Música e distinção social em Ribeirão Preto O facto ficou para exemplo de futuras repetições. E estamos no nosso direito, agora, de pedir as dignas autoridades que evitem a reproducção destes factos que, certamente, sem a criteriosa repressão da Policia, tomarão vulto nos 3 dias do carnaval. As scenas poco edificantes a que assistimos Domingo ultimo no Jardim, depõem muito contra o nosso progresso: demonstram que estamos caminhando para trás. (A CIDADE, 28 fev 1905, p. 1)

Em 1905 o carnaval era festejado nas principais ruas da cidade: Carnaval Os srs. Cel. Ovidio de Campos e Mauricio Alonso, membros da Commissão dos festejos carnavalescos, tiveram a gentileza de nos enviar hontem a noite o itinerario do prestito que é o seguinte: Partindo da Rua do Comercio esquina da Amador Bueno percorrerá as seguintes ruas: Rua do Commercio, S. João, A. Brasiliense, A. Bueno, S. Sebastião, Liberdade, D. Caxias, Largo da Estação, Rua G. Ozorio, B. Amazonas, D. de Caxias, V. De Inhauma, G. Ozorio e A. Bueno. Os carros allegoricos que foram executados a capricho terão os seguintes nomes: “Telegrapho Marconi”; “Vaccina obrigatoria”; “O Commercio” e um para musica. Alem destes carros, existem outros muitos, quado não de tanto gosto e de tal importancia pelo menos que

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Thaty Mariana Fernandes merecem a attenção do publico. (A CIDADE, 5 mar 1905, p. 2)

Os jornais reservavam um amplo espaço o carnaval. Além da programação e os editais da polícia que saíam por vários dias, também eram publicados comentários e crônicas sobre os festejos. Os carros allegoricos Ás 5 horas da tarde partiu o prestito carnavalesco organisado pelo Commercio local. A frente, quatro clowns de branco, montando pacificos ginetes, e o incansavel sr. Folena, um dos organisadores da festa que mais se enthusiasmou por ella, montando um lindo cavallo branco, fardado a couraceiro italiano, dava ordens, fazia piruêtas e injectava na população, pouco disposta a sahir do serio, uma dose forte de bomhumor arrancando-a da pasmaceira e da tristesa. [...] Fechava o prestito um carro conduzindo a banda de musica “Verdi Gomes”. O movimento de mascarados foi relativamente pequeno [...]. Bailes Haverá baile no Eldorado. No predio onde funccionou o Hotel Central realisar-se-á hoje um baile a fantasia, promovido pelos viajantes e representantes de casas do

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Música e distinção social em Ribeirão Preto Rio, S. Paulo e Santos [Grupo dos simples]. (A CIDADE, 7 mar 1905, p. 1)

Figura 14: sem data, décadas de 1910 ou 1920. Carro de corso enfeitado, com passageiras fantasiadas. (RIBEIRÃO PRETO: memória fotográfica, 1985, pág. 68)

Em 1909, uma grande quermesse promovida pela Sociedade União dos Viajantes tomou o Jardim Público e o seu entorno, lugar onde habitualmente ocorria o carnaval de rua. Por esse motivo, e possivelmente devido aos excessos do entrudo em anos anteriores, o carnaval de rua suspenso, causando frustração aos foliões. Ninguém o aborda; o publico estaciona ás esquinas, olhando sem saber bem o que, esperando pelos carros alegoricos que não virão, pelas batalhas em que apenas

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Thaty Mariana Fernandes se fala, pelo carnaval, em summa de que temos arremedo e nada mais. E assim caminha e se escoa o carnaval de 1909 na nova, leal, progressista e bella cidade de Ribeirão Preto, que parece também ressentir-se um pouquinho do grande mal economico que por ahi tudo vae abatendo, destruindo, na faina devastadora de empobrecimento e semeiando desalento... (A CIDADE, 23 fev 1909, p. 1)

Os bailes continuaram acontecendo. Pelo Carnaval Tratam os rapazes do commercio de organizar bailes carnavalescos nos salões do Carlos Gomes para os 4 dias 20, 21, 22 e 23 do corrente, dedicados a Momo e á Folia. (A CIDADE, 18 fev 1909, p. 1)

Aqui uma indicação de que o maxixe animava os carnavais de salão, e da existência de concursos de fantasias: Commeçam amanhã com os abracadabrantes bailes no theatro Carlos Gomes e no Eldorado [...]. [...] a mocidade folgazã de ambos os sexos se exhibirá nua de preconceitos á luz das gambiarras nas contorções elegantes e communicativas do maxixe. [...] Água! Água!... O delegado não consente nem... o cheiro. O empresario do Eldorado premiará com uma bonita medalha de ouro á portadora da mais artistica phantasia

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Música e distinção social em Ribeirão Preto á juizo de uma commissão respeitabilissimos cavalheiros.

composta

de

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Pierrot (A CIDADE, 20 fev 1909, p. 2)

Em 1910, o carnaval de rua estava de volta, com a devida organização: Carnaval Club dos Lords Conforma promettemos hontem, damos abaixo o programma dos festejos carnavalescos a realizarem-se nos dias 5,6,7 e 8 de Fevereiro pelo Club dos Lords, antehontem fundado nesta cidade. Nestes tres dias as ruas Genedal Ozorio e Duque de Caxias, na parte que circula o Jardim Publico, serão feericamente illuminadas e enfeitadas, comprehendendo tambem a parte central do Jardim onde tocarão diversas bandas de musica em corectos que alli serão construidos. No dia 5 ás 6 horas da tarde terá logar uma grande “marche an flambeaux”constando o prestito d cavalheiros garbosamente vestidos a cavallo, a carro, e a bycicleta. Romperá o prestito um esquadrão de clarins, e um carro de honra com o estandarte do club, que cumprimentará as autoridades e imprensa. No dia 6 as 5 horas da tarde grande batalha de confetis e serpentinas no Jardim Publico e ruas latteraes.

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Thaty Mariana Fernandes Nessa occazião serão distribuidos dois ricos premios sendo um ano carro e outro ao cyclista que se apresentarem mais ricamente enfeitados; á moite no theatro Carlos Gomes grande baile a phantasia. No dia 7: grande passeata a cavallo, da commissão e socios do club, e a noite grande baile no Carlos Gomes. No dia 8: ás 5 horas da tarde – sahida do importantissimo prestito do club dos Lords que constará de carros allegóricos, criticas, reclames, guarda de honra, etc, as 8 horas da noite no Jardim Publico – grande surpreza seguindo-se no theatro um estrondozo baile a phantasia, sendo offerecido pelo sr. Cassoulet uma rica medalha de ouro ao mascara que mais ricamente vestido se apresentar. - Pede-nos a directoria dos Lords avizarmos as pessoas que quizerem tomar parte nos festejos apresentarem-se com antecedencia a mesma directoria. (A CIDADE, 15 jan 1910, p. 1)15

Ainda no mês de janeiro de 1910, o Club dos Lords (organizado e mantido principalmente por comerciantes da cidade) já saia pelas ruas em seu Zé Pereira (A CIDADE, 15 jan. 1910, p. 2). Além deste, o Club do 7o Ceu também

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O Zé Pereira era uma brincadeira carnavalesca de origem portuguesa introduzida no Rio de Janeiro a partir do século XIX, caracterizada pelo trânsito de foliões pelas ruas a bater bumbos e zabumbas, de forma atordoadora. (Enciclopédia da Música Brasileira. São Paulo: Art Editora/ Publifolha, 1998, pág. 848)

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desfilou seu Zé Pereira em janeiro. Deste carnaval participou também o Club dos Criticos Luso-Brasileiros, fundado no final de janeiro desse ano, formado também por comerciantes. Do cortejo carnavalesco fizeram parte 12 carros do Club dos Lords, mais 15 do Club dos Criticos. Em 1911, o Zé Pereira do Club das Sapas abriu os festejos carnavalescos em 22 de janeiro. Nesse ano não houve a publicação de uma programação do carnaval, mas é possível saber que houve carnaval de rua, com batalha de confetes no Jardim Público. Nenhum clube se destacou na organização do carnaval, como o Club dos Lords, no anterior. Em 1913, o Club dos Democraticos Carnavalescos organizou e abriu os festejos com bailes no teatro Polytheama, em 25 e 26 de janeiro. As notícias daquele ano relatavam os festejos dos dias de carnaval como nos anos anteriores, com préstitos, cortejos e bailes, centralizados no Jardim Público. Carnaval Embora não tenha sido cousa que se possa dizer extraordinárias, o Carnaval este anno tem corrido animadissimo e muito superior ao dos annos anteriores. A Concurrencia de povo á noite no jardim hontem e sobretudo ante-hontem foi enorme. Animadissimos os brinquedos de lança-perfumes, cuja quantidade vendida deve ter sido superior a toda a expetativa.

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Thaty Mariana Fernandes Em grande parte tem concorrido para isso a sociedade carnavalesca aqui fundada ha pouco tempo, á qual está reservado um brilhante futuro. O Club dos Democraticos Carnavalescos deu a nota este anno e merece francamente os nossos elogios. Foi um bello prestito e por elle organizado domingo, uqe percorreu as principaes ruas da cidade, pela tarde. Precedendo um carro artisticamente imaginado e executado seguia no prestito uma guarda de honra composta de alguns cavalleiros todos montados em animaes, de alguns cyclistas, uns o outros trajando o uniforme do club, branco e preto. Seguiram dois ou tres carros, num dos quaes, uma nympha trazia o pavilhão do club. Uma fila de carros e automoveis cheios de alegres foliões phantasiados ou não, acompanhava o prestito, em que ao classico Zé-pereira se unia, para ser maior a algazarra, as troças de toda ordem. Á noite nas principaes casas de divertimentos publicos realisaram-se bailes a phantasia, sendo todas muito concorridas. (DIARIO DA MANHÃ, 4 fev 1913, p. 1)

Nesse ano temos também uma indicação dos gêneros de músicas presentes no Carnaval: Triste contraste! Após a alegria a folia, as ligeiras polkas e deliciosas valsas, eis o memento homo, a soar monotono e triste aos suvidos [sic] da humanidade. Quantas lindas tranças a tresandarem suaves perfumes, horas antes,

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Música e distinção social em Ribeirão Preto encobriam tradicional cinza dos tempos de tristeza e amarguras. (DIARIO DA MANHÃ, 6 fev 1913, p. 1)

Em 1914 os festejos de Carnaval começam em 13 de janeiro, com a saída do Zé-Pereira em frente ao Eldorado, na rua São Sebastião. Dessa vez nenhum clube se destacou – e nem mesmo é citado – na organização dos mesmos. [...] nos ultimos tres dias, principalmente de tarde, as ruas e praças publicas regorgitavam de povo, que folgava e ria com aquella satisfação de quem não precisa pensar no dia de amanhã, no mesmo tempo que uma boa centena de automoveis e outros vehiculos circulavam por todas as ruas enfeitados a capricho e condusindo muitas das mais distinctas familias desta cidade. O movimento de ante-hontem, como era de prever, excedeu o dos dias anteriores. Ao prestito carnavalesco com oito guapos amazonas à frente, reuniu- se grande numero de automovaies, que lhe deram grande realce, porque em todos elles, porassim dizer, predominava a graça e a belleza feminina. Alguns desses automoveis estavam enfeitados com luxo e outros eram verdadeiramente de luxo. Entre estes devemos destacar um da exma. Sra. D. Iria Alves Fereira, a rainha do café, ou de seu filho o sr. Zeca Junqueira, que julgamos ser o mais luxuoso nesta cidade. Dos caros propriamente carnavalescos destacava se um offerecido pela casa Barretto e outro offerecida pela Cervejaria Paulista e encimado pela figura irrequieta do Braguinha, que annunciava ás massas em discursos retumbantes a proxima inundação de cerveja daquella nova fabrica. (DIARIO DA MANHÃ, 27 fev 1914, p. 1)

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No ano de 1915, houve os mesmos festejos dos anos anteriores, com préstitos, cortejos e bailes. Embora as notícias afirmem o contrário, pelas informações trazidas pelas mesmas podemos constatar que ano a ano os carnavais têm sido mais modestos. Neste, é citado o Club Vae ou Racha, do bairro Santa Cruz de José Jacques, porém mais uma vez nenhum se destacou. Em 1916, houve bailes organizados pelo Club dos Casacas Vermelhas no teatro Carlos Gomes, cortejo e batalha de confetes no Jardim. Em 1917, as notícias sobre o carnaval foram ainda mais escassas, dando a entender que a data se passou sem grande destaque e com poucos festejos. Houve bailes no Polytheama, no Casino Antarctica e cortejo pelas ruas. Como pudemos observar, apesar das tentativas de ordenação, os carnavais eram comemorados com alguma extravagância devido às transgressões à proibição do entrudo. O Carnaval começava praticamente em janeiro, com a saída dos Zés-Pereira, e era comemorado com bastante entusiasmo, que com o passar dos anos foi se arrefecendo. Era uma oportunidade para as classes mais abastadas exibirem carros enfeitados, fantasias suntuosas e frequentar bailes que o povo certamente não tinha acesso – mais uma vez vemos a dinâmica palco-platéia se manifestar, em que uns se exibem fazendo o papel de “atores” do teatro urbano e outros fazendo o papel de “platéia”, servindo de assistência para tais exibições. Percebemos também que as referências às músicas executadas no carnaval são escassas. Pelas fontes podemos saber apenas que a presença de bandas animando os bailes, préstitos e corsos era constante, e repertório foi pouco mencionado,

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mas pelas poucas referências pareciam repetir os gêneros musicais de costume.

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8. Outras formas de socialização pela música: bailes e saraus, festas e serenatas

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Os bailes (festas dançantes realizadas em salões) eram uma forma de entretenimento muito comum entre toda a população. Existiam associações constituídas com a finalidade exclusiva de promover festas dançantes, como a Flor da Mocidade, a Sociedade Cosmopolita, Sociedade Internacional Dansante Familiar, Sociedade Dansante Familiar Maestro José Delfino Machado, entre outras. Outras associações promoviam bailes a fim de se comemorar uma data especial, homenagear pessoas ou arrecadar fundos para diversas causas. Eram realizados nos salões de associações e teatros. Para se promover bailes públicos era preciso ter autorização especial da polícia. Tais autorizações apareciam publicadas, a partir de 1910. Bailes publicos O dr. Mamede da Silva [chefe da polícia] concedeu as licenças requeridas pelo sr. Antonio da Costa Braga e pelos empresarios do Ideal Rink, para darem bailes publicos hoje, o primeiro em sua residencia, á rua Saldanha Marinho n.44, e os segundos naquella casa de diversões. (A CIDADE, 2 fev 1913, p. 2)

Os mais suntuosos e que envolviam pessoas da alta sociedade costumavam ser noticiados detalhadamente, inclusive citando os nomes dos convidados e organizadores, como forma de ostentação de seu status social e de conferir prestígio ao evento.

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Thaty Mariana Fernandes O baile de sabbado Ha muitos annos, não vemos um baile com tanta animação. Está esplendido. Esta era a phrase obrigada de sabbado á noite nos soberbos salões do nosso “Carlos Gomes”. Desde as 9 horas da noite começou a affluir aquelle theatro o que a nossa sociedade tem de mais selecto. A commissão de recepção composta dos srs.: major Durval Vieira, Oscar Faria, Academicos Odorico mendes e Nelson Vieira e Horacio Machado conduziram gentilmente os convidados dispensando-lhes todas as amabilidades. As 10 horas começaram as danças qu sempre animadissimas se prolongaram até as 5 horas da manhã, quando se retiraram todos satisfeitssimos pela boa ordem que reinou. O serviço de buffet e buvette foi organisado e servido como perfeição e esmero, pela Rottisserie Cassoulet. Dentre as pessoas presentes podemos colher os nomes dos seguintes: Cel. Joaquim da Cunha, senhora e filhos, cel. José Augusto Porto senhora e filhos, cel. Joaquim Alves senhora e filhos, cel. Augusto Maciel e senhora, major Arthur Penteado e senhora, dr. Macedo Bittencourt, dr. Fabio Barreto, dr. Enéas da Silva e senhora, major Antonio Pereira da Silva, senhora e filhas, dr. Fernando Faria,

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Música e distinção social em Ribeirão Preto senora e filhas, cap. Joaquim Vieira Filho, Professor José de Olivar e senhora, cap. Mario Pinto, José Barbosa Torres Felicio de Castro Pinto, Herculano Mendes, José de Oliveira, Adhemar Gonçalves, Heraclito La Sierra, Clovis Gusmão, Antonio Salviano, Filintho Carvalho, Academicos Manoel de Carvalho e suas gentis irmãs, Ildefonso Nogueira, Plinio dos Santos, Augusto Gonçalves, Jeronymo Faria, João Frota, João de Mello, senhora e filhas, Alberto, Renato e Alexandre Leite, Balduino dos Santos, senhora e senhorita Müller, senhorita Roldan, senhorita Adelaide Junqueira, senhora e senhorita Bezerra, senhorita Elvira Veiga, senhoritas Carvalho Miranda, senhorita Evangrlina de Almeida, senhorita França, senhorita Salviano, A. A. da Costa Ferreira e senhora e muitas outras pessoas cujos nomes nos foi impossivel tomar. (A CIDADE, 2 fev 1913, p. 2)

Os saraus eram outra forma de entretenimento estimada naquele período – quando era utilizado o termo em francês, soireé. Consistiam em encontros mais ou menos numerosos, em ambientes fechados (como os teatros e salões de associações), regados a apresentações musicais consideradas “cultas” e “de bom gosto”, e conferências literárias. Havia também os chamados saraus dançantes, que se identificavam com os bailes. Concerto e conferencia A poetisa Julia Cesar, fará quinta-feira proxma, outra conferencia, cujo thema será “O amor” ou “O homem julgado pela mulher”.

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Thaty Mariana Fernandes Nessa occasião far-se-á ouvir o jovem barytono sr. Ernesto de Marco, já conhecido da platéa de S. Paulo, onde causou sucesso. Vimos os attestados que recebeu em Milão, onde estudou com o maestro Bellini, e a julgar por elles e pela critica feita pelos jornaes de S. Paulo, é de suppor que iremos ouvir bellissimos trechos de musica cantada com arte. O barytono de Marco que seá acompanhado ao piano pelo eximio pianista maestro Provesi, cantará trechos de Carlos Gomes (Lo Schiavo), Verdi, Bizet, Gounod, Puccini, Leoncavallo (Prologo dei Pagliacci) e a grande aria do Rigoletto [...]. (A CIDADE, 28 fev 1911, p. 2)

Os concertos costumavam ser organizados pelas associações atuantes na cidade, em suas próprias sedes ou nos teatros. Tinham um caráter parecido com o dos saraus musicais, onde os músicos, em sua maioria, eram cantores ou pianistas. O primeiro concerto noticiado como tal aparece em 18 de junho de 1909, promovido pela Sociedade Cosmopolita e realizado em seu próprio salão. O músico convidado era o violonista cego Benedicto Barbosa, que executou algumas modinhas. A partir de então, vários artistas profissionais e amadores, locais e forasteiros, promoveram concertos na cidade. Nem sempre tinham um caráter estritamente “erudito”, como no exemplo citado, mas eram cercados por uma atmosfera solene e familiar. Havia outras formas de atividades que mal apareciam nos noticiários, a não ser de forma depreciativa. A comunidade negra local procurava criar e recriar os seus

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espaços a fim de não perder o direito pelas suas manifestações culturais, em meio a tantas restrições: Por volta das décadas de 20 e 30, na cidade, era freqüente, entre muitas famílias negras, dançar Caninha Verde e fazer festa para São Gonçalo e São João, como faziam aquelas que moravam nos Campos Elíseos, na altura da rua Goiás, de frente à rua Silveira Martins [...] (SOUZA, 2007, p. 132).

Tais festejos populares chegaram até a cidade em anos anteriores, e vieram de tradições rurais mais antigas. As serenatas empreendidas pelos boêmios, além de mal vistas como sinal de vadiagem, eram perseguidas pela polícia por perturbarem o sossego público: Prisão de “Pierrots” A policia effectuou hontem a prisão de varios individuos, que encantados pela belleza da noite e á cata de alguma Columbina faziam barulhenta serenata sem a devida licença. Foram também aprehendidos os instrumentos (DIÁRIO DA MANHÃ, 21 fev. 1913, p. 2).

Assim, vemos que os cidadãos procuravam criar seu o próprio mundo dentro dos espaços que lhes eram reservados, ou em lugares de destaque, com ampla cobertura jornalística, a fim de se fazerem de “exemplo” para os demais, ou escondidos em ambientes reclusos e privados, fugindo às restrições imposta pela lei, pelos “bons costumes” ou pelo senso estético conservador das elites

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europeizadas. Os mais ousados – como os seresteiros boêmios ou adeptos do entrudo – expunham-se perigosamente.

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Considerações finais

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A partir das últimas décadas do século XIX passaram a circular em Ribeirão Preto os primeiros jornais, que com frequência praticamente diária publicavam notícias sobre eventos e anúncios ligados à música. Embora tais anúncios e notícias muitas vezes omitissem informações importantes, através deles foi possível fazer uma sondagem dos lugares e dos momentos nos quais a música esteve presente, e como ela era utilizada. Havia uma certa hierarquia entre os gêneros musicais, onde a arte erudita européia era colocada no topo, e a música popular tradicional era colocada na escala mais baixa. Os modelos elitizados perpassavam as camadas mais baixas da população, pois o seu objetivo era mesmo o de servir de modelo civilizador para os demais. Da mesma forma, alguns comportamentos, valores e bens culturais populares eram apropriados e passavam a ser até admirados pelas classes médias e altas. Ribeirão Preto foi uma cidade que surgiu em meados do século XIX e no início do século XX, já havia se constituído em centro regional. Esse rápido crescimento demandou várias medidas no sentido de tornar o ambiente adequado física e esteticamente, no entanto nem sempre as autoridades municipais conseguiram concretizar as obras necessárias num ritmo adequado, nem mesmo com o auxílio de empréstimos e de investimentos particulares. O resultado foi uma modernização desequilibrada, que não atendia a todos, e os principais beneficiados foram os membros da elite, que podiam habitar o centro da cidade, local escolhido para se tornar o exemplo das virtudes que mais se prezava em termos de urbanismo: a higiene, a disciplina, a beleza, o progresso. Tais modelos de virtudes

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também eram estendidos para a vida social e os entretenimentos, como demonstram os Códigos de Posturas da Câmara Municipal, de 1889 e 1902, em vigor no período estudado. As transformações urbanas e sociais verificadas em Ribeirão Preto, entre o final do século XIX e as duas primeiras décadas do século XX, foram acompanhadas pela dinamização das atividades musicais, especialmente no sentido comercial, com o surgimento de várias empresas de entretenimento na cidade. Esse fenômeno é justificável em função dos capitais acumulados pela cafeicultura e que contribuíram, no médio prazo, para o surgimento e desenvolvimento de atividades econômicas tipicamente urbanas. Os mesmos ditames modernizadores e normatizadores, e paradoxalmente o senso estético conservador e europeizado, aplicados ao espaço físico, também influenciavam nos gestos dos cidadãos, nas atividades ligadas à música, e no próprio repertório utilizado e executado, porém havia margem para uma certa mobilidade. Existiam os espaços e os repertórios destinados à elite, que se faziam de exemplo a ser apropriado pelas camadas inferiores da população, a fim de se identificarem com os valores culturais considerados “superiores”. No entanto, os costumes arraigados na população, considerados “inferiores” e “arcaicos” dificilmente eram banidos, e permaneciam de forma oculta, em ambientes privados, esquivando-se das proibições e dos preconceitos, ausentes das páginas dos jornais, a não ser de forma

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condenatória, com raras exceções. Esse convívio segmentado, porém estreito, entre o moderno e o arcaico, seria responsável pela criação de gêneros híbridos, como as cançonetas, de inspiração francesa, mas baseadas em gêneros musicais nacionais e letras voltadas para o cotidiano.

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