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fotografias de andrĂŠ nazareth


Vida em Fluxo Em tempo de imagens produzidas via mídia eletrônica, o binômio analógico-digital é colocado em questão de forma interdisciplinar. Sistemas e códigos visuais vigentes devem ser observados sob a mira de uma nova leitura. Não obstante, os melhores ensaios documentais realizados na história da fotografia analógica se mantiveram imunes às influências estéticas de segunda ordem. Grande parte dessa produção documental foi impulsionada em caráter autoral, pela revelação de realidades desconhecidas, ou pela ideação de se opor, a um mundo frequentemente subjugado, por perversos poderes constituídos. Vale a lembrança que algumas dessas imagens mudaram para sempre a nossa visão da impermanente condição humana. E pela ótica crítica e plástica de grandes fotógrafos como Eugene Smith, nos tornamos conscientes do catastrófico envenenamento por chumbo da baía de Minamata no Japão em 1972. Ou ainda, a realidade mágica revelada pelas contundentes fotografias de Claudia Andujar da cultura dos Yanomamis, ameaçados por sórdidos interesses nacionais. Porém, já há algum tempo, o mundo-imagem fotográfico parece ter desviado efetivamente a sua atenção quanto ao desafio do olhar subjetivo diante da realidade que o cerca.

André Nazareth opera o ato fotográfico pela instigante ação da reciprocidade. Separando pontualmente o essencial do acessório para revelar ao espectador a simplicidade de uma dada comunidade. As imagens do fotógrafo, realizadas em filme, documentam ao longo de seis anos diferentes aspectos da vida dos sitiantes, que transcorre em efêmero fluxo através dos 110 km de extensão do rio Macaé. Dialogando diretamente com a tradição documental do preto e branco, o fotógrafo valora a informação contando a sua estória em sentido lírico e tornando simples o que jamais deveria ser estetizado. Sinuosamente, o desenho e a textura de suas fotos afirmam um sentido de deslocamento através das sombras movediças que acompanham o rio Macaé da nascente à foz. André apresenta sua pesquisa visual através do traço marcante de registros precisos em retratos, paisagens e instantâneos da comunidade local, captados pelo lúdico prazer de fotografar sem um fim específico. O resultado deste conjunto de imagens é um trabalho em andamento que se realiza pelo exercício do olhar e ver, marcado pelo signo da afetividade do fotógrafo em relação ao seu tema.


Atualmente, observa-se a manifestação plural de linguagens visuais e enunciados fotográficos. A maioria dos fotógrafos lida e registra as coisas que estão continuamente desaparecendo, na crença Bressoniana de que nenhum artifício na face da terra pode reconstituí-las. Talvez, mas André Nazareth parece desviar-se dessa noção, apostando na idéia de que algumas fotografias se tornam memoráveis porque nos apresentam de forma distinta àquilo que já pensávamos conhecer: crianças mergulhando no rio em um dia ensolarado, um fragmento da densa vegetação local, ou um sitiante que dirige um estranho veículo sem sair do lugar. O fotógrafo molda a matéria-memória refletindo não o desaparecimento de coisas e seres no devir, mas a evidência única de situações no agora representadas por sucessivos instantes líquidos captados no tempo. Em síntese, o procedimento fotográfico de Nazareth investe na potencialidade das imagens, utilizando a linguagem como elemento de articulação com o cotidiano, assim, afirmando a vida em fluxo e nos projetando em tangência ao célebre aforismo proclamado por Heráclito no século VI a.c, de que, “Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio”.

Marcos Bonisson


O ensaio Rio Macaé é um documento visual sobre os habitantes e as paisagens deste rio inteiramente fluminense. A responsabilidade na conservação de suas águas tem se tornado cada vez mais importante à sobrevivência econômica de suas comunidades que hoje já começam a perceber os benefícios em defender o ecossistema beira-rio. Este trabalho aposta nesta conscientização, assim como no fortalecimento da identidade cultural desses habitantes ribeirinhos como forma primordial para a preservação do rio Macaé. Este ensaio vem sendo realizado desde 2001 e documenta o rio Macaé da nascente à foz com ênfase nas seguintes regiões: Reserva Ecológica de Macaé de Cima; Lumiar e Estrada Parque Serra-Mar; Bacia do rio Macaé e cidade de Macaé.


Fundação Macaé de Cultura Galeria de Arte Hindemburgo Olive Av. Rui Barbosa, 780 - Centro 15 a 31 de Julho Segunda a sexta-feira das 9h às 18h.

catalogo de exposiçao  

catalogo de exposiçao de fotos do Rio Macae do fotografo Andre Nazareth