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CARCAÇA SENTADA NO ABISMO

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O personagem baconeano grita, expande-se, espreme-se, dissolve-se, experimenta intensamente a passagem de uma sensação a outra. É agudo, cortante, espasmódico, extremo. É assim que ele existe. Que existiu antes. Que existirá depois do curto momento em que nos é permitido estar diante de sua existência. O espectador em Carcaça sentada no abismo é um “voyeur, um passante, um que espreita”.

Pesquisa

Para chegar à construção do personagem baconeano em Carcaça sentada no abismo, o diretor e coreógrafo Édi Oliveira e o bailarino Leandro Menezes propuseram-se mergulhar em um intenso processo de pesquisa, para descobrir a composição física justa de uma representação do corpo humano na obra de Francis Bacon.

A pesquisa iniciou-se teoricamente na leitura de obras críticas sobre o trabalho do pintor e da observação, análise e estudo das reproduções fotográficas de suas obras em livros e na internet, bem como em documentários biográficos sobre o artista. “Trabalhamos sobre o texto A lógica da sensação do filósofo francês Gilles Deleuze, sob a orientação da filósofa Gigliola Mendes.” Conta Édi.

“O objetivo da pesquisa foi, assim, o de encontrar a respiração, a voz, a maneira de se locomover, de se mover, de olhar, de se fazer presente de um corpo que manifestasse as mesmas características encontradas nos corpos que habitam as telas do pintor irlandês. No entanto, logo de início percebemos que todo material e vocabulário de movimentação com que estávamos habituados a trabalhar não seriam suficientesnem adequados para tal objetivo.” Revela o diretor.

Para o bailarino e para o coreógrafo, o personagem baconeano exigia movimentos específicos, próprios de um corpo em estado sempre extremo, e mais, exigia uma nova compreensão do tempo, da colocação no espaço e uma abertura estética que não se encontravam em códigos já tão trabalhados pela dança contemporânea. “Ele necessitava ser encontrado, inventado, e não simplesmente reproduzido por movimentos já desgastados pelo uso.”

Para que o produto físico resultante da pesquisa fosse sincero e coerente com a carne e aos satura que Bacon propõe em seus quadros, bailarino e diretor decidiram abandonar suas maneiras de trabalhar o movimento, já tão assimilada pela experiência. “Era preciso colocar o corpo em outros estados – em estado de risco –em situações inabituais, movendo-se a partir de estímulos inusitados. Deste modo trabalhamos a possibilidade do corpo com partes amputadas ou paralisadas, do corpo retorcido, deformado, derretido. Buscamos exaustivamente as possibilidades vocais e sonoras desse corpo; o seu olhar ensimesmado, perdido no universo interior; sua psicologia abstrata e irracional.” Revela Leonardo Menezes, interprete que assina a coreografia com Édi Oliveira.

Experimentaram a dilatação do tempo do movimento, interrompida por espamos violentos e contrações duradouras. Colocando o corpo em situações extremas e opostas: da violência à languidez, da letargiaà excitação, da neutralidade ao excesso, do abismo interior ao descontrole externo dos membros. Criando um homem que manifesta sua animalidade e sua monstruosidade, que aceita existir sem fatalidade, apenas experimentando sensações, com a simplicidade que tem um animal para apenas ser, apenas“estar-no-mundo”.

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CARCAÇA SENTADA NO ABISMO by Território Comunicação - Issuu