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DO OUTRO LADO DO MAR [2021]

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TEMPO REAL ESPAÇO VIRTUAL a presença do nome Há um tempo que sou conduzido pelo texto e pelo elenco. Quando Edu Coutinho me procurou para montarmos uma peça, entreguei a ele várias latino americanas e espanholas que ainda não tinha lido. Um dia me ligou dizendo que tinha achado o texto que queria fazer. E mais, já sugeria o elenco: além dele, Andréa Elia, de quem gosto muito. Li o texto de Jorgelina e me encantei. Por outras linhas, me conduzia de volta ao “Embarque imediato”, peça que também trata, não de buscar, mas recuperar uma identidade, e na qual Edu também colaborou. Tudo fazia sentido. E a concepção parte daí: um texto que trata de coisas que me interessam falar e um ator e uma atriz que me inspiram a compor juntos essa polifonia que são as peças de teatro. E mais e antes, colaborar na tradução. Edu já tinha feito a base, o primeiro tratamento. E fomos investigando juntos o caminho da palavra, do nome, que é o caminho do personagem que ele vai nomear e fazer, Pescador, por tanto mar que navega, por tanto lugar onde não consegue permanecer porque mareia em terra firme.

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6 Finalmente nos reunimos os três, com a presença luminosa de Clara Trocoli. Ouço as vozes do elenco e a respiração da assistente. O pulso começa a se impor. O estilo de cada um, ao se encaixar no outro, me indica a harmonia possível e as dissonâncias necessárias à narrativa. Compomos juntos essa sinfonia marítima, feita de águas e silêncios e buscas de amizades, de lugares, de memórias de não acontecimentos ao lado dos fatos que passaram. E vão vindo os outros elementos. O cenário é sempre o mar. Mas, às vezes, o céu, as nuvens e o vento também têm algo a acrescentar à água para compor cor e ondas, calma e tumulto que acompanham os momentos, os diálogos, os atritos entre aquelas vozes, somando-se musicalmente à sonoridade da peça. Caio Terra e Ramon Gonçalves chegam para trazer o nosso segundo mar, o primeiro foi o das palavras. Agora é o mar de outros sons, feito também de latidos de Cachorro, o cachorro de Pescador. E de outros vindos de muitos lugares percorridos e nunca dantes.


E a sereia: um canto antigo vem e fica. Vem de outra peça, “O campo de batalha”, onde era também o som da memória, que volta, evocada. A sereia é este som, criado e cedido, por Tato Taborda. Caio, que havia colaborado em “Campo”, recuperou o arquivo, o trouxe, experimentamos e era ele. A sereia e o fim da peça se compuseram sozinhos a partir das memórias de outra peça. E o mar, tem que ser o próprio mar ali presente. O bônus do webteatro é que imagens virtuais podem ser concretas. O mar se fará presente como cenário. E Rafael Grilo entra em cena pra compo-lo junto com Erick Saboya e comigo. Um departamento municipal instalado numa praia, uma busca em vários portos e praias através do mar. O espaço é esse. Um mar de imagens em movimento. Um mar gravado, registrado, editado, projetado num chroma key onde personagens naufragam e ator e atriz os salvam respirando boca a boca, insuflando ar em seus pulmões fictícios para torna-los reais. Um espaço de caminhos, entre lugares onde se aderna, submerge, emerge naufraga num ponto qualquer da América Latina, onde

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8 um homem encontra uma mulher que pode lhe conceder uma identidade. Este homem que procura é escrito por uma mulher. Este é o espaço: um espaço feminino de busca de identidades através de um personagem masculino. E qual o lugar da mulher nesta peça? Que palco vamos construir no universo virtual? Este período, em que estamos vivendo, também precisamos ser construído. Uma identidade ele clama. Já não sabemos quem somos. Que fatia de humanidade nos resta. Todos nos cobram um nome, sobrenome, endereço... E uns e umas não querem identidade representação nome sobrenome domicílio. Outros outras impõem nome sobrenome endereço identidade. Representações. Atritos entre identidade e alteridade. Onde é o lugar do outro? Quem deve nomear quem? Eu ao que vejo? Eu que penso saber quem sou? O outro que me vê e percebe quem sou? Eu, que quero ser o que quero, mesmo que o outro veja que sou o que não quero ser? E me vem o velho Müller: Devo falar de mim EU quem – pela voz de Jasão, em “Paisagem com Argonautas” de “Medeamaterial”, ecoando há muito tempo.


Tantas divisões, tantos fragmentos, tantos barcos, tantos portos, tantos departamentos de registros. O que estamos registrando neste momento? Que Brasil? Que mundo? E como o teatro consegue dar conta disto tudo? O webteatro veio para ficar, estar também, não substituir. Acrescentar outra possibilidade de estarmos juntos para compartilhar discursos, narrativas, espantos, terror e compaixão. Paixões compartilhadas entre telas. O mundo nunca foi tanto um teatro (lugar de onde se vê) quanto agora quando, de todos os lugares, pode ser visto o que fazemos o que dizemos o que queremos o que sonhamos o que propomos. Podemos ser vistos de todas as cidades do mundo, assim como podemos estar em qualquer cidade do mundo e, juntos ao mesmo tempo, na mesma tela, atuar para mostrar um espelho à natureza. No mais é o prazer de continuar, de seguir buscando quem somos, de fazer amigos nessa busca, de encontrar os cachorros que nos esperam e nossas sereias que devem estar onde esperamos estar.

salvador, 08.05.2021 marcio meirelles

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Estávamos ensaiando a peça Embarque Imediato quando eu e Márcio começamos a falar sobre montar algo juntos. Eu fazia sua assistência de direção e há muito tempo queria reencontrá-lo na função de ator. Ele me prometeu uma coleção de peças latinoamericanas que tinha comprado num festival e nunca lido. Peguei os livros muitos meses depois e uma semana antes de a pandemia nos trancar em nossas casas. E foi nesse início de confinamento que se deu o meu encontro com Al otro lado del mar. Conheci Jorgelina Cerritos através de Pescador e Dorotea. Esses dois personagens que esperam. Naquele abril de 2020, era assim que nos encontrávamos quase todos. Esperando algo que nos confirmasse quando poderíamos retomar as vidas. Esse estado ilusório de suspensão era só uma das muitas coincidências. O texto de Jorgelina nos capta pela beleza e, pela beleza, nos leva às contradições que regem esse modelo falido de sociedade. Algumas delas materializadas num simples pedaço de papel: a certidão de nascimento que em poucos caracteres reduz, tipifica, às vezes violenta. Nome, sobrenome, idade, endereço e outro tantos dados que definem quais vidas valem

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12 mais, quais valem menos, quais sequer existem. A poesia de Jorgelina encontra a poética de Márcio e, mesmo antes de que surgissem os caminhos de encenação, encontra o olhar sensível desse encenador que nos conduz a desvelar o texto, e a fazer as escolhas de atuação conscientemente. Uma sorte e tanto para uma atriz e um ator. Dorotea e Pescador são pedaços de cada um de nós. É fácil se reconhecer nos dois. E também perceber onde projetamos o nosso cachorro, a nossa sereia, o nosso amigo – personagem que, na nossa versão para a cena, virou a ausência de um amigo. Enquanto ainda traduzia o texto, e mandava os primeiros pedaços pra Márcio, que depois iria talhar comigo a tradução, Andréa Elia já aparecia pra mim como Dorotea. E que bom que ela topou. Além de estar ao lado de uma atriz que admiro muito, estou ao lado da professora de teatro que em maio de 2011, exatos dez anos atrás, me recebia pela primeira vez na sala do Curso Ato. É


também por isso que Do outro lado do mar é tecida por afetos. E essa teia de afetos chegou ao outro lado do mar. Ontem, no zoom, estávamos nós da equipe com Jorgelina, entrando na sua casa, em El Salvador, conhecendo sua filha, que se chama Mar, e rindo do esquilo que invadiu sua sala e passou a noite escondido entre os livros da estante. Jorgelina foi generosa e acolhedora desde o primeiro e-mail que a enviei, com o título ‘Al otro lado del mar en Brasil’. Ao sim de Jorgelina sucederam-se muitos outros. E de sim em sim construímos o mar. Agradeço profundamente a cada um: Marcio Meirelles, Andréa Elia, Clara Trocoli, Ramon Gonçalves, Caio Terra, Rafael Grilo, Erick Saboya, Moisés Victório. Hoje, a quatro dias da estreia, com a cabeça maluca como é a de todo artista que atua e ao mesmo tempo produz, e com a casa completamente transformada nessa espécie de teatro/estúdio – pano verde nas paredes e chão, refletores sustentados em cadeiras empilhadas, metros e metros de cabos cruzando sala e cozinha – penso em como cada integrante dessa equipe foi brilhante em sua função, e em como cada um trouxe não só a sua contribuição artística, mas também carinho, cuidado, atenção. Parece piegas,

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mas se já considerava isso fundamental em qualquer processo criativo, imagina num processo criativo feito em pandemia. E sustentado por nossos próprios recursos – que somos nós. Registro meu agradecimento a cada instituição que nos apoiou nessa jornada – Instituto Cervantes, Shanti Restaurante, Me Flipa, Bogum Ambiente Criativo, ACESSUU Acessibilidade Universal, Helio Hair Design, TVE, Educadora FM – e às pessoas que, as representando, também nos disseram sim – Daniel Arcas, Jackie Brito, Rita Rocha, Moisés Victório, Iracema Vilaronga, Juniro Almeida, Helio e Ronie Menezes. A Cristina Castro, Adriana Balsanelli e Jordan Dafne, que abriram janelas para a nossa produção e comunicação. À minha família, que se converteu num batalhão de divulgação e venda de ingressos. Ao Teatro Vila Velha e a Companhia Teatro dos Novos, que abraçaram esse projeto, e a Clara, que junto comigo materializa aqui e agora esse espaço de criação chamado Toró Teatro. Por fim, agradeço a cada pessoa que nos assiste, pois é ela a nossa principal financiadora e para quem tudo é construído.

edu coutinho

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Em algum tempo ouvi no Teatro que os personagens é que nos escolhem. Hoje venho conhecendo Dorotea nascida da profunda e sensível escrita de Jorgelina Cerritos que chega até a mim pelas mãos de Edu Coutinho, talentoso ator, obstinado empreendedor desse projeto. O que ele viu de Dorotea em mim para me buscar após um encontro de dez anos atrás, quando em 2011 fui sua professora de Teatro no Curso Ato? Lembro do brilho do seu olhar quando na coxia, antes de adentrar a cena quando eu disse: “Você é desse lugar!” Hoje nos reencontramos nesse lugar com o mesmo olhar de quem se reconhece como gente de Teatro, que não pára de remar. Em 2004 busquei o olhar do diretor Márcio Meireles pra me dirigir num projeto que eu também empreendia, “A Prostituta Respeitosa”. E hoje estamos juntos cruzando memorias nesse “Outro Lado do Mar”. Estou me deixando levar, fortalecendo a confiança na minha remada, na união de uma talentosa equipe e na humana e poderosa condução de Márcio. 17


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Mudei algumas rotas pra adentrar esse mar. Por que? Para que? Não sei e como é bom não saber... Lembro do que ouvi de Márcio nos primeiros ensaios, quando queríamos entender as personagens: “Se explicarmos muito o mistério se perde”.

andrea elia

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DO OUTRO LADO DO MAR ficha técnica 20

espetáculo virtual texto JORGELINA CERRITOS encenação virtual MARCIO MEIRELLES elenco ANDRÉA ELIA . EDU COUTINHO tradução EDU COUTINHO com a colaboração de MARCIO MEIRELLES revisão da tradução RITA ROCHA música CAIO TERRA . RAMON GONÇALVES tema da sereia TATO TABORDA desenho de luz e transmissão ao vivo MOISÉS VICTÓRIO produção audiovisual RAFAEL GRILO assistência de direção CLARA TROCOLI cenografia ERICK SABOYA . MARCIO MEIRELLES arte gráfica RAMON GONÇALVES assessoria de imprensa NÚCLEO DE COMUNICAÇÃO DO TEATRO VILA VELHA . ADRIANA BALSANELLI produção EDU COUTINHO apoio BOGUM AMBIENTE CRIATIVO . SHANTI RESTAURANTE . HELIO HAIR DESIGN . ME FLIPA . ACESSUU ACESSIBILIDADE UNIVERSAL . TVE BAHIA . EDUCADORA FM apoio institucional INSTITUTO CERVANTES realização TORÓ TEATRO, COMPANHIA TEATRO DOS NOVOS & TEATRO VILA VELHA

estreia 30 de maio de 2021 NOVO VILA VIRTUAL / YouTube


DO OUTRO LADO DO MAR ficha técnica espetáculo presencial texto JORGELINA CERRITOS tradução EDU COUTINHO com a colaboração de MARCIO MEIRELLES revisão da tradução RITA ROCHA elenco ANDRÉA ELIA . EDU COUTINHO cenário . figurino . desenho de luz. encenação MARCIO MEIRELLES assistência de direção presencial CAIO TERRA assistência de direção virtual CLARA TROCOLI colaboração no desenho de luz . operação de luz MARCOS DEDE supervisão da execução do cenário ZUARTE JÚNIOR execução do cenário ANANDA IKISHIMA . BEATRIZ TORRES . CLARA TORRES . EDU COUTINHO . GABRIEL CARVALHO . MIGUEL CAMPELO . NALLA . RAPHAEL GOUVEIA música CAIO TERRA . RAMON GONÇALVES tema da sereia TATO TABORDA trilha sonora ao vivo CAIO TERRA transmissão ao vivo MOISÉS VICTÓRIO . MENIKY MARLA produção audiovisual RAFAEL GRILO arte gráfica RAMON GONÇALVES assessoria de imprensa NÚCLEO DE COMUNICAÇÃO DO TEATRO VILA VELHA produção CLARA TORRES . EDU COUTINHO apoio BOGUM AMBIENTE CRIATIVO . HELIO HAIR DESIGN realização TORÓ TEATRO, COMPANHIA TEATRO DOS NOVOS & TEATRO VILA VELHA estreia 29 de janeiro de 2022 TEATRO VILA VELHA

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En la primera lectura que hacemos de Al otro lado del mar sale a flote el tema de la identidad, sin embargo, por sobre la identidad la obra nos ubica en el territorio de la soledad. Una soledad producto de la exclusión creada por los cánones de sociedades que nos aíslan cuando estamos fuera de la oficialidad dictada, que nos despersonaliza y nos reduce a un nombre oficial, un género y un número oficial, para llenar censos con seres solos que sobreviven en una marea de “absurdidez”, y que tienen que luchar por existir, por -verdaderamente- poder ser. Es muy significativo para mí que Al otro lado del mar tenga la capacidad de dialogar con creadores, creadoras y espectadores de la escena internacional pues me reitera la universalidad y la fuerza de la palabra dramática, esa palabra que nos habita y nos fecunda más allá de las fronteras y que debería unirnos en la diversidad cultural. Cuando pienso en la posibilidad que tienen Pescador, Dorotea y Perro para reencontrarse consigo mismos a través de un otro que está allá, al otro lado del mar, comprendo que es la misma posibilidad que nace en mí cuando me reconozco en otras voces, en otros rostros, gestos e idiomas desde ese mágico espacio, también universal, que debería ser el escenario. Y tengo que agregar que cuando he visto las puestas en escena de este texto fuera de mis mares, pienso que este acto de encontrarnos en la otredad a través del teatro también debería ser muy significativo para el teatro de mi país.


Mi primera gran expectativa para el montaje en Brasil es el diálogo, es el encuentro. Nada más satisfactorio para mí que encontrar, en principio, que mi texto y mis personajes están siendo recibidos con afecto, con cercanía, con la decisión de un grupo de artistas de la escena de expresarse a través de ellos. Esa primera expectativa está ganada. Con las conversaciones sostenidas con parte del equipo de creadores sale a la luz la conexión intensa que les ha provocado el texto. Partiendo de lo anterior espero que las y los espectadores hagan junto a nosotres el viaje que el texto propone hacia lo vital, hacia lo humano, hacia aquello que suele ser tan fugaz y efímero como el teatro y como la vida. Quiero descubrir el rostro y la voz de la Dorotea que habita Salvador de Bahía, quiero conocer los viajes al interior más profundo del Pescador brasilero y tener la posibilidad de saber cómo son sus horas de la tarde cuando la vida parece acabarse de verdad a cambio de que ustedes conozcan las mías. En estos duros momentos en que el teatro ha luchado por sobrevivir la pandemia tanto como nosotres, ha encontrado maneras y ha figurado posibilidades. No solo el teatro que se ha hecho durante la pandemia por medio de la virtualidad sino también el que no se ha hecho, ha dado batallas y resistencias. En este momento político latinoamericano y del mundo, en el que vuelve a parecer

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urgente repensarnos, preguntarnos una y otra vez sobre el teatro que hacemos y el que haremos de aquí en adelante, más allá de los medios que usaremos para comunicarlo, es vital tener clara nuestra posición frente al juego mediático que devora al mundo y sus relaciones de poder. Invitémonos pues, como lo hacen Dorotea y Pescador, a navegar en busca del fugaz momento de la tarde donde la esencia del Teatro nos permite reencontrarnos al lado de Perro y de nuestras Sirenas, sin dejarnos apabullar por la ilusión del bullicio y la luz.

jorgelina cerritos


Sobre Jorgelina Cerritos Dramaturga, atriz e professora universitária salvadorenha. Fundadora do Coletivo Teatral Los del Quinto Piso, coeditora da coleção Cuadernos de Dramaturgia Centroamericana e facilitadora do programa de formação em escrita dramática do projeto Didascália. Autora de mais de trinta textos teatrais para públicos infantil e adulto, tem recebido diversos prêmios literários nacionais e internacionais, entre eles o Premio Literario Casa de las Américas (2010), Premio de Teatro Latinoamericano “George Woodyard” (2011), Bienal Internacional de dramaturgia femenina “La escritura de las diferencias” (2012). Em El Salvador recebeu o título Gran Maestre en Dramaturgia Infantil e Gran Maestre en Dramaturgia para adultos (2004 e 2013, respectivamente). Suas obras têm sido publicadas, montadas e traduzidas em diversos países. Além do teatro, dedica-se à escrita de contos e poesias, áreas em que também ministra oficinas voltadas à escrita criativa e ao incentivo à leitura para crianças, jovens e professores da primeira infância e educação básica.

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DO OUTRO LADO DO MAR de jorgelina cerritos tradução edu coutinho colaboração marcio meirelles revisão rita rocha personagens DOROTEA (a mulher) O HOMEM (pescador)

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A ação se desenvolve numa praia deserta que parece

PESCADOR:

muito distante da cidade.

Essa roupa lhe cai bem... Melhor que a de ontem. Com umas perolazinhas, o vestido ficaria ainda melhor. Essa cor fica bem

Em cena, do lado da praia e sobre a areia, uma mesa e uma cadeira

na senhora.

de escritório. À direita, e em frente ao escritório, um cais rústico em evidente estado de abandono.

A MULHER: Devia procurar o que fazer.

Em frente, na plateia, se estende o mar. PESCADOR: Quando começa a ação, ela está de pé, de frente para o mar,

Descansou? Ela não responde. Os mosquitos do litoral

olhando em direção ao horizonte. Ela parece desconfortável. Ele,

chateiam muito, ainda mais se você não estiver acostumado. O

atrás dela, perto do mesa, espera ser atendido.

melhor é não dar bola pra eles. Logo se cansam e também vão dormir, um amigo me contou uma vez...

Depois de um instante, ela se volta para a mesa e percebe o homem. Apressa-se e retoma o trabalho.

A MULHER: Não me interessa. Me deixe em paz.

É a manhã do SEGUNDO DIA. Silêncio. A MULHER: Outra vez o senhor.

PESCADOR tira de uma bolsa algo de comer: Quer? Já tomou café da manhã?

PESCADOR: Bom dia. Ela não responde. Como foi a noite? Dormiu bem?

A MULHER:

Ela não responde. Eu, muito bem, obrigado...

Era o que me faltava.

A MULHER:

PESCADOR:

Por favor, senhor, não insista.

Tome, pode confiar. Pausa. O coco é bom, mas o pão de coco é ainda melhor. Uma pena que não fazem por aqui, senão eu


teria trazido pra senhora. Eu adoro pão de coco, e além de

Mas eu não estou te olhando de forma alguma.

tudo me lembra um amigo. Toma. A MULHER: Ela o ignora, ele coloca a bolsa na mesa e permanece olhando

Claro que está e eu não gosto de como está me olhando.

fixamente para a mulher. PESCADOR: A MULHER:

Perdão... Se afasta e começa a se despir.

Por que me olha assim? A MULHER: PESCADOR:

O que está fazendo?

Assim?... Como? PESCADOR: A MULHER:

Vou dar um mergulho.

Assim… Desde ontem está me olhando assim... A MULHER: PESCADOR:

Se vai dar... um mergulho... deveria fazer isso do outro lado.

Como? PESCADOR: A MULHER:

Aqui estou perto do meu barco.

Assim... A MULHER: PESCADOR:

Não acredito que o levem.

Não, eu não... PESCADOR: A MULHER:

Nunca se sabe.

Não gosto que me olhe assim. A MULHER: PESCADOR:

Então leve seu barco para o outro lado.


PESCADOR:

A MULHER:

Gosto daqui.

Tão?

A MULHER:

PESCADOR:

Mas hoje vá para o outro lado.

...absurdo.

PESCADOR:

A MULHER:

Mas gosto daqui. A água está limpa e estou perto do meu

Pelo menos nisso o senhor tem razão.

barco. PESCADOR: A MULHER:

Já estamos nos entendendo.

Tem bastante praia. A MULHER: PESCADOR:

Deus me livre.

Eu gosto desta praia. PESCADOR: A MULHER:

É totalmente absurdo.

Aqui não é uma praia, senhor, é a minha sala. A MULHER: PESCADOR:

Olha quem fala de absurdez!

Daí pra lá é a sua sala, mas daqui pra cá é minha praia. PESCADOR: A MULHER:

De que?

Isso era antes. A MULHER: PESCADOR: Eu não tenho culpa que a prefeitura tenha decidido colocar “sua sala”, me desculpe, em um lugar tão...

De absurdez. Daquilo que é absurdo.


PESCADOR:

ela ser mais velha. Comprei um coco e só tomei a água pra

Eu não tenho nada de absurdo.

trazer a carne pra senhora, e isso mesmo imaginando que nem iria comer, e mesmo sabendo que eu não comerei muito

A MULHER:

hoje, porque aqui nem tem gente pra vender peixe, se é que

E ainda acha que não?

são peixes o que se encontra nesta praia. E logo, quando disse que iria dar um mergulho na minha praia, evitei dizer que é

PESCADOR:

estúpido que tenham colocado seu escritório em uma praia,

Se você diz por...

e ainda mais numa praia sem ninguém, e em vez disso fiz melhor, para não aborrecê-la, e disse que era absurdo. Acho

A MULHER:

que tudo isso demonstra que sou uma pessoa decente. Não

E ainda duvida?

fiz nada indecente desde que vim aqui e lhe cumprimentei. E normal, porque tudo o que lhe disse e o que fiz eu analisei

PESCADOR:

antes de dize-lo e faze-lo e uma pessoa que não seja normal

Senhora, por favor. Não custaria nada.

não poderia fazer todas essas análises, senhora. Além disso, a palavra absurdez não existe.

A MULHER: Eu já te disse que não insista nisso. Procure alguma coisa pra

MULHER:

fazer como uma pessoa decente. Como uma pessoa normal.

Desculpe, não quis ofendê-lo. Creio que o melhor é que se vá e me deixe trabalhar.

PESCADOR: Sou uma pessoa decente e sou uma pessoa normal. Decente

PESCADOR:

e normal, senhora. Não causo mal a ninguém. Vim aqui e

Aqui não vai vir ninguém.

disse “bom dia”. Sorri. Disse que essa roupa fica bem na senhora e disse não para lhe agradar, mas porque percebi

A MULHER:

que hoje não está usando calça, como ontem, mas sim um

Mas, caso venha, tenho que estar a postos.

vestido, que inclusive lhe cai muito bem. Disse porque assim percebo e porque assim penso e porque não acho que seja

PESCADOR:

uma ofensa dizer que algo fica bem em uma pessoa, só por

Aqui não vai acontecer nada.


A MULHER:

A MULHER:

Mas se acontecer tenho que estar preparada.

Vá. Já disse. Vá embora.

PESCADOR:

PESCADOR:

A quem interessa um censo nesse lugar!

Deveria me ajudar.

A MULHER:

A MULHER:

Às pessoas, aos jovens, aos idosos.

Não posso.

PESCADOR:

PESCADOR:

Aos mais velhos, aos jovens... Se aqui não tem ninguém? Já

A senhora está aqui para isso.

passei rondando por aqui à noite e nada, nem uma alma, e menos ainda uma interessada em carnê e coisas assim. Aqui

A MULHER:

a senhora está no lugar errado. Aqui a senhora não serve para

Sim, mas em seu caso não posso fazer nada.

nada. PESCADOR: A MULHER:

É só uma certidão de nascimento.

Vá embora. A MULHER: PESCADOR:

Lá vamos nós, de novo!

Senhora… PESCADOR: A MULHER:

A senhora está aqui para ajudar e ninguém vem. Eu vim e a

Vá. Está me assediando.

senhora não pode me ajudar. Então pra que serve a senhora?

PESCADOR.

A MULHER:

Senhora…

Senhor…


o senhor acha que podem lhe dar uma certidão de nascimento PESCADOR:

assim, porque sim. Ninguém vem aqui tirar uma certidão de

Desculpe.

nascimento.

A MULHER:

PESCADOR:

Se retire, senhor.

Se ninguém vem é porque não passa pela cabeça de ninguém buscar um… balcão da prefeitura… em uma praia.

PESCADOR: Mas é a verdade. Uma certidão de nascimento. Só isso.

A MULHER: O senhor sabe do que estou falando. Se é tão normal como

A MULHER:

diz, o senhor sabe.

Vá embora. PESCADOR: PESCADOR:

Mentira. Ontem, aquela senhora que veio com um santo, a

Por favor.

única que veio e que virá, além de mim, ela disse que tinha vindo tirar uma certidão e a senhora lhe deu.

A MULHER: Acho que já fui bastante clara.

A MULHER: Sim, tirar uma certidão. Uma certidão que já existe. Que tem

PESCADOR:

data, livro, folha. Que alguém veio e registrou alguém quando

É que não entendo o seu problema. O que preciso é apenas

nasceu e a partir desse momento essa pessoa, essa criança,

uma certidão de nascimento, a senhora mesma me disse. Não

existiu. Eu tiro uma cópia, uma segunda via. Não entrego uma

custa nada. Uma certidão de nascimento e vou para o outro

certidão do… dessa que no momento eu invento… E agora vá,

lado do mar.

que assim como veio ela, alguém mais pode chegar.

A MULHER:

PESCADOR:

Se fosse por mim o senhor estaria do outro lado do mar há

A minha a senhora não tem que inventar.

vários dias. É o senhor que não compreende. Só alguém como


A MULHER:

PESCADOR:

Eu não, mas o senhor estava inventando ontem.

A senhora sabe que é verdade.

PESCADOR:

A MULHER:

Não estava inventando. Estava lhe dando meus dados.

Senhor…

A MULHER:

PESCADOR:

Que dados?

Sabe que é verdade.

PESCADOR:

A MULHER:

Meu nome, meu sobrenome.

Ninguém nesta terra se chama Pescador do Mar. Não me faça perder tempo.

A MULHER: Que dados?!

PESCADOR: Pois antes ninguém se chamava Pescador do Mar, mas agora sim

PESCADOR:

tem alguém que se chama Pescador do Mar e esse alguém sou eu.

Esses que a senhora disse. Nome e sobrenome. A MULHER: A MULHER:

Pescador do Mar!

Vá embora, senhor. PESCADOR: PESCADOR:

À sua disposição, muito prazer.

Procure, reveja suas anotações. Era isso que eu estava lhe dando.

A MULHER: E quem lhe colocou esse nome tão…

A MULHER: Sabe que não é certo.

PESCADOR: Tão?


A MULHER:

Ela está em pé tentando identificar algo que vê no mar.

Absurdo. Ele não responde. Quem? Seu pai, que era pescador

Aproxima-se da sua mesa e ajeita-se para trabalhar. Ele aparece

do mar também? Sua mãe, em memória de seu pai? Sua avó,

de repente em frente a ela, como que vindo diretamente da praia,

seu avô, quem, senhor Do Mar? De onde vem um sobrenome

e dirige-se até a mesa. Observam-se com certo embaraço, como

com tanta linhagem? De ninguém!

tratando de entender um a presença do outro.

PESCADOR:

A MULHER:

De mim.

Bom dia.

A MULHER:

O HOMEM:

O próximo.

Bom dia.

PESCADOR:

A MULHER:

Do mar.

Há algo em que eu possa ajudar?

A MULHER:

O HOMEM:

O próximo, por favor.

Preciso de alguma coisa que diga quem sou.

PESCADOR:

A MULHER:

Da vida.

Que diga quem é?

A MULHER:

O HOMEM:

O próximo!

Sim.

PESCADOR:

A MULHER:

De mim.

Alguma coisa como o quê?

A cena se transporta para a manhã do PRIMEIRO DIA


O HOMEM:

A MULHER:

Não sei, alguma coisa.

Da Prefeitura Municipal.

A MULHER:

O HOMEM:

E para que o senhor precisa?

Sorte que está aqui.

O HOMEM:

A MULHER:

Para preencher um formulário.

Sim, verdade…

A MULHER:

Ela tira os papéis para fazer seu trabalho. Ele a observa fixamente.

Ah, o senhor precisa de um documento. A MULHER: O HOMEM:

Alguma coisa?

Sim, um papel. O HOMEM: A MULHER:

Como?

Claro, com muito prazer. A MULHER: O HOMEM:

No meu rosto. Tem alguma coisa?

A senhora pode me ajudar? O HOMEM: A MULHER:

Não, por que?

Sem dúvida, para isso estou aqui. A MULHER: O HOMEM:

Pelo seu olhar.

De verdade? O HOMEM: Não.


Ele permanece em silêncio.

A MULHER: Segunda via, então. Onde o senhor a extraviou?

A MULHER: Que tipo de documento o senhor precisa?

O HOMEM: Não extraviei.

O HOMEM: Não sei…

A MULHER: Roubaram. Onde roubaram?

A MULHER: Para quê o senhor precisa?

O HOMEM: Não, também não me roubaram.

O HOMEM: Eu não preciso.

A MULHER: Outros, então. Diga.

A MULHER: Alguém solicitou ao senhor?

O HOMEM: O quê?

O HOMEM: O homem do canil. Quer saber meu nome, meu sobrenome,

A MULHER:

meu endereço e minha idade.

Sua identidade, como é que o senhor não a tem, o que aconteceu com ela?

A MULHER verifica em uma folha: Cédula de Identidade. O que ele precisa é da sua identidade.

O HOMEM:

O senhor não a tem aí?

Nunca tive uma.

O HOMEM:

A MULHER:

Não.

Isso não é certo, deveria ter tirado quando cumpriu sua maioridade. Se não estivéssemos no setor do censo eu teria


que aplicar uma multa.

O HOMEM: Não. Busca o horizonte. Aponta. Por ali. Ela o olha intrigada.

O HOMEM:

Sim, por ali. Meio longe, né?

Não se pode fazer nada? A MULHER: A MULHER:

Preciso da sua certidão.

Emitimos agora. O que acha? O HOMEM: Ele olha em direção ao horizonte.

Minha certidão?

O HOMEM:

A MULHER:

É demorado?

Sua certidão, de preferência original.

A MULHER:

O HOMEM:

Coisa de uma hora. Como pode ver, nem sequer tem fila.

Original? Como assim?

O HOMEM:

A MULHER:

Tá bem.

Sua certidão. O senhor não tem?

A MULHER:

O HOMEM:

Vai longe?

Não.

O HOMEM:

A MULHER:

Pro outro lado.

Então primeiro precisa de uma certidão.

A MULHER:

O HOMEM.

Pela estrada?

Uma certidão? E vai ser mais demorado…


A MULHER:

O HOMEM:

Não mais de meia hora, mas vale a pena. Para as coisas

Não.

importantes, sempre que precisem dos seus dados, vão lhe pedir uma certidão.

A MULHER: Folha?

O HOMEM: Ah, sim. E onde dão isso?

O HOMEM: Quê?

A MULHER: Aqui.

A MULHER: Não tem nem livro nem folha?

O HOMEM: As estrelas, cachorro, as estrelas! Então me dê uma.

O HOMEM: Não. É um problema?

A MULHER: Com prazer. Uma certidão. De nascimento ou de óbito?

A MULHER: Para algumas pessoas é, mas pra mim não. Não se preocupe.

O HOMEM: De nascimento. Não decidi morrer ainda.

O HOMEM: Que bom que vim e me deparei com a senhora.

A MULHER depois de uma pausa: Número do livro?

A MULHER: Obrigada.

O HOMEM: Como?

O HOMEM: Que bom que a encontrei.

A MULHER: Número do livro? Ele não responde. Não tem?


A MULHER:

O HOMEM:

No mar que eu não deveria estar.

Não tenho.

O HOMEM:

A MULHER:

Mas que bom que está.

Seu nome.

A MULHER:

O HOMEM:

Não gosto de estar aqui.

Não tenho.

O HOMEM:

A MULHER:

Eu também não.

Seu nome, senhor, o seu nome. É sua a certidão ou é de mais alguém?

A MULHER depois de uma pausa incômoda: Seu nome?

O HOMEM: Não, sim, minha.

O HOMEM: Disse algo ruim?

A MULHER: Então me diga o seu nome.

A MULHER: Seu nome?

O HOMEM: É isso, também não tenho.

O HOMEM: Eu disse algo ruim?

A MULHER: Como disse?

A MULHER:

O HOMEM:

Não, só se apresse porque nenhum dos dois gostaria de estar

Que também não tenho!!

aqui. Seu nome.


A MULHER: Não me grite. Estou velha, mas não estou surda.

O HOMEM: Não tenho… Nunca me deram um.

O HOMEM: Perdão… Pensei que… Nada…

A MULHER: Pois se coloque um. Você está me desesperando, eu não posso

A MULHER:

lhe dar uma certidão de nascimento se o senhor não tem

Está bem, não tem problema. Comecemos de novo. Me dê o

nome. O próximo!

seu nome. O HOMEM: O HOMEM:

Bom… Não sei…

É que não tenho. A MULHER: A MULHER:

O próximo!

Como disse? O HOMEM: O HOMEM:

Espere, é que… Não sei…

Que não… tenho…! Desculpe outra vez. É que... não tinha pensado nisso.

A MULHER: Pedro, Carlos, Arturo, Stanley, sei lá, agora tem tantos nomes

A MULHER:

bonitos por aí. O próximo!

Eu não entendo o senhor. O HOMEM: O HOMEM:

Bem… Não sei…

É que não tenho nome. A MULHER: A MULHER: Como?

O próximo!


O HOMEM:

A MULHER:

Espere! Se não tem mais ninguém na fila…

O senhor não tem pai nem mãe. Nem nome nem sobrenome.

A MULHER:

O HOMEM:

Sim, isso só podia acontecer comigo! Sobrenome, enquanto

Sim. Não que eu saiba.

você pensa… A MULHER: O HOMEM:

Então, sinto muito. Não posso ajudá-lo. Não posso te dar uma

Não sei.

certidão de nascimento.

A MULHER:

O HOMEM:

Como?

Por que, se a senhora me disse que para as coisas importantes…?

O HOMEM: Não sei. Nunca soube.

A MULHER: Porque não.

A MULHER: Então me dê o de seu pai.

O HOMEM: Isso não é razão.

O HOMEM: Não tenho.

A MULHER: Porque não. Porque não. E não me faça perder tempo.

A MULHER: O de sua mãe.

O HOMEM: Mas, por que?

O HOMEM: Também não tenho.

A MULHER: Porque o senhor... Deixa eu lhe dizer... O senhor ainda não nasceu.


O tempo se altera e ele se perde no tempo.

O HOMEM: Pescador.

O HOMEM: Sou uma pessoa decente e sou uma pessoa normal. Decente

A MULHER:

e normal. Não faço mal a ninguém. Navego e canto pro

Desculpe?

mar. Chego aos lugares e dou “bom dia”. Sorrio. Faço e digo não para agradar, mas porque sinto e acredito. (som de

O HOMEM:

máquina de escrever) Nome, sobrenome, endereço, idade.

Pescador.

Pescador, meu nome é Pescador. (som de máquina de escrever) Nome, sobrenome, endereço, idade. Pescador do Mar. (som

A MULHER:

de máquina de escrever) Nome, sobrenome, endereço, idade.

Desculpa. Não estou perguntando a sua profissão.

Ele permanece no cais, mexe a mão e me diz adeus. Adeus, Pescador do Mar. Sereia, sereia minha, adeus. As estrelas, os

O HOMEM:

ventos, as marés. Essa é a hora da tarde... Posso levar? Eu vou

Meu nome. Meu nome é Pescador.

amá-lo. Eu vou cuidá-lo… Tranquilo, eu sou sua mãe. Esta é a hora da tarde. Você vai voltar? Qual é seu nome? A senhora

A MULHER:

ainda não se apresentou. Nome, sobrenome, endereço, idade.

Ah, perdão. Tem cada tipo de nome… Sobrenome?

Vai voltar? Dorotea… Dorotea?... Vai voltar? Essa é a hora da tarde em que a vida parece se acabar de verdade… E não me

O HOMEM:

olhe com olhos de cachorro sem dono que não somos amigos,

Do Mar.

nem sequer nos conhecemos. Sou uma pessoa decente e sou uma pessoa normal. Decente e normal e a palavra absurdez

A MULHER:

não existe. O próximo. Pedro, Carlos, Arturo, Stanley. O

Seu sobrenome?

próximo, por favor. Vladimir, Geovanny, Alfredo, Daniel. Em

O HOMEM:

que posso ajudar?

Do Mar.

A cena volta ao momento anterior.

A MULHER: Do Mar. Pescador do Mar. Seu nome e sobrenome.


O HOMEM:

A MULHER:

Sim.

Outra vez o senhor aqui.

A MULHER:

PESCADOR:

O senhor tá de brincadeira comigo?

E aqui vou estar até que me ajude.

O HOMEM:

A MULHER:

Não.

De verdade?

A MULHER:

PESCADOR:

Ninguém na terra nunca se chamou Pescador do Mar.

De verdade.

O HOMEM:

A MULHER:

Isso era antes, agora sim. A partir de hoje existe alguém na

Anhan…

terra que se chama Pescador do Mar. E esse alguém sou eu. PESCADOR: A MULHER:

De verdade.

Ah, sim? E quem lhe batizou dessa maneira? A MULHER: O HOMEM:

É uma ameaça?

A vida… e eu. PESCADOR: Permanecem se olhando em silêncio.

Não.

Pausa longa. A MULHER: Me pareceu que era. A ação continua na tarde do TERCEIRO DIA. Ela de novo no escritório.


PESCADOR:

trabalhar. Me concentrar. Fazer bem o meu trabalho.

Aí é com a senhora. Receba como quiser. PESCADOR: A MULHER:

Não.

E ainda por cima mal educado. A MULHER: PESCADOR:

Claro que sim!

Vá... PESCADOR: A MULHER:

Não… Digo, não percebi

Está bem, senhor Pescador. Sente aí e espere. A MULHER: PESCADOR:

Não percebeu!

Mas se apresse porque não tenho muito tempo. PESCADOR: A MULHER:

É que não tenho olhos nas costas. Não teria custado nada

Como queira, senhor Do Mar.

vir e me dizer com calma que me calasse, que eu estou lhe incomodando, então eu teria me calado porque o que menos

Pescador se senta no cais e cantarola uma canção. A princípio é

quero é incomodar a senhora.

apenas audível, mas pouco a pouco ele vai se deixando levar muito entusiasmado pela afinação. Ela trata de abstrair e continuar

A MULHER:

suas atividades mas vai ficando visivelmente incomodada. Ela

Pois bem. Digo agora. Está me incomodando.

tosse, para fazer notar o seu incômodo, mas ele não percebe e chega casualmente ao canto. Ela, sem conseguir evitar, explode.

PESCADOR: Canto muito mal?

A MULHER: Cale-se! Ele, desconcertado, deixa de cantar. O que o senhor

A MULHER:

tem? Não percebe que está me incomodando. Preciso

Estou tentando me concentrar.


PESCADOR:

PESCADOR:

E eu canto muito mal…

Também pras sereias. Pena que nunca encontrei uma de verdade… Eu gosto, eu gosto de cantar pro mar… Quer

A MULHER:

experimentar?

Trabalhar. A MULHER: PESCADOR:

Não.

A verdade… Muito, muito mal? PESCADOR: A MULHER:

Não importa se a senhora canta mal. Deveria experimentar.

Fazer bem meu trabalho. A MULHER: PESCADOR:

Não.

Pode me dizer! PESCADOR: A MULHER:

Experimente, não seja tímida.

Ajudar. Ao ver que ela não responde, ele começa a cantar. Sim, muito mal! Mas não só isso. É o meu trabalho!

A MULHER: Não gosto do mar, não vejo porque cantar pra ele.

PESCADOR:

PESCADOR:

Já sabia. Nunca tentei ganhar a vida cantando. Menos mal,

Não diga isso que ele vai se chatear.

não tento por isso. Na verdade, não canto porque canto bem ou mal. Canto porque gosto de cantar. Na maré alta cantar é

A MULHER:

uma virtude. Se canta pro sol, pra água, pras baleias…

Não estou aqui de férias, estou tentando trabalhar.

A MULHER:

PESCADOR:

Sobretudo pras baleias, suponho.

Ah, sím... E vai sair logo?


ouvimos o mar. O mar. Estou há anos o ouvindo. Nunca A MULHER:

aborrece. Uma hora você acaba entendendo o que ele diz,

Senhor?

mas nunca se aborrece. Nunca. Psssss…. Ahhhhh… psssss…. Ahhhhh…. o mar… Escuta? Ahhhh… Como é grande o

PESCADOR:

mar, a senhora não acha? Não? Escuta, escuta. Fala. Pssss…

Do Mar.

ahhhh….. Me fala. Ouça bem, ao menos comigo ele fala. E me chama. Pessssscador…. Do Mar…. Do Mar…. Percebe?

A MULHER:

Me chama. Ele não fala com a senhora? Não? Qual o seu

Isso já sei.

nome? É verdade, a senhora não se apresentou ainda! Qual seu nome?... Ela não responde. Bom, tanto faz, quem sabe a

PESCADOR:

senhora não o ouve porque não gosta dele e por isso ele não a

Então fale claramente.

chama. Porque ele não chama a senhora, né?

A MULHER:

A MULHER:

O quê? O que vai sair logo?

Escuta. O senhor não tem nada pra fazer?

PESCADOR:

PESCADOR:

Minha certidão, o quê mais?

Só uma coisa. Bom, duas. Uma coisa aqui e outra coisa lá. Aponta para o horizonte.

A MULHER:

A MULHER:

Não vamos começar…

E por que não vai fazer o que tem que fazer lá?

Ele volta a cantar, ela o olha fixamente.

PESCADOR: Porque para isso preciso estar aqui esperando minha certidão

PESCADOR: Perdão. Assovia. Ela volta a olhar para ele. Também não? Está bem, já entendi, silêncio. Silêncio total. Melhor. Assim

de nascimento.


A MULHER: Vá embora, senhor, vá embora e me deixe em paz! Que direito

PESCADOR:

você pensa que tem para vir me perturbar aqui, onde eu não

Minha certidão…

pedi para vir, no pior lugar do mundo, no último lugar em que eu queria estar, onde quase quase não tem nada para fazer. Vá

A MULHER:

embora e me deixe trabalhar. Meu deus, por favor, que venha

Você não é ninguém. Você não existe. Me deixe em paz!

alguém e me faça trabalhar! Silêncio. Ele está no cais e se perde no horizonte. PESCADOR: Quem entende a senhora?

PESCADOR: Eu gosto da tarde. Com a brisa que me queima a cara, e o

A MULHER:

sal. Gosto do sal, esse gosto de sal. Esse sol se pondo a esta

Ninguém.

hora está justamente saindo lá, do outro lado. Longe. E este som, zumbido. Zumbe nos ouvidos. Essa é a hora da tarde

PESCADOR:

onde tudo se suspende um momento e a vida parece se acabar

Deve ser porque a senhora não se deixa entender.

para sempre. Meu cachorro deve estar triste. Continuará me esperando ou terá se atirado ao mar? Disse a ele que não

A MULHER:

demoraria e já levo três dias. Essa é a hora da tarde em que a

Ninguém vem a esse lugar maldito. Para que estou aqui,

vida parece se acabar de verdade. Gritando ao horizonte. Já vou,

senhor Do Mar? Para nada, para nada. Nem censo, nem

já vou! Vou voltar. Já vou, já vou!.. Para a mulher. Veja. Veja o

carteira. Nem certidões, nem cédulas, nada. Aqui não sirvo

sol. Se vai, já se vai. Se vai pro outro lado onde oxalá alguém

para nada.

ainda esteja nos esperando. Veja, veja o sol. Oxalá haja alguém que esteja olhando por mim e pela senhora do outro lado! Se

PESCADOR:

vai… Essa é a hora da tarde em que a vida parece se acabar de

Pra mim poderia.

verdade… Uma certidão, me dê uma certidão de nascimento, por favor, tenho que existir e voltar para o meu cachorro. De

A MULHER:

novo ao horizonte. Já vou! Já vou!... Para ela. E para minha

Me deixe em paz.

sereia e para o meu amigo negro. Gritando de novo. Já vou…


já vou!... Silêncio. Para ela. Se foi… Eu gosto da tarde…. E o

PESCADOR:

sal… Essa é a hora da tarde em que a vida parece se acabar de

Adeus.

verdade… Ela vai sair, mas desiste. Ela se levanta e fica de pé diante da sua mesa. Silêncio. A MULHER: A MULHER:

E… Se eu pudesse tirar a sua certidão de nascimento… Qual

Depois do silêncio. É preciso ir descansar.

a data?

PESCADOR:

PESCADOR:

Sim… É preciso ir descansar.

A data?

A MULHER:

A MULHER:

Hoje vai fazer frio, parece.

Sim, a data.

PESCADOR:

PESCADOR:

De noite sempre faz frio no mar.

Domingo, 30 de maio de 2021. Diz a data real.

A MULHER:

A MULHER:

Está ficando aqui?

Essa é a data de hoje.

PESCADOR:

PESCADOR:

No meu barco, ali.

Por isso.

A MULHER:

A MULHER:

Boa noite.

Me refiro à data de nascimento.


PESCADOR:

Ela faz outra tentativa de sair, mas de novo desiste.

Repete a data. Domingo, 30 de maio de 2021. Hoje. Se a senhora tirasse a minha certidão de nascimento eu teria

A MULHER:

nascido hoje… E a senhora seria a minha mãe.

Dorotea… Dorotea é meu nome.

Ela canta com uma voz como se chegasse de outro tempo.

Ela vai saindo.

A MULHER canta:

PESCADOR:

Brinca mi tablita que ya la brinqué.

Ouve. Outra vez lhe chama.

Brinca la tablita que ya me cansé… A MULHER: Silêncio

Não acredito… Nunca ninguém me chamou… Quanto mais o mar…

PESCADOR: Teria sido uma tarde bonita pra nascer.

PESCADOR: Psss….ahhhh….psss….ahhhh….

A MULHER: Teria sido uma tarde bonita pra nascer.

Ela sai.

PESCADOR:

PESCADOR:

Boa noite.

Doroteaaa… pssss…. aaaaaa…. Doroteaaaaa…. pssss…. aaaaa….

A MULHER: Adeus.

A luz se dissolve pouco a pouco, enquanto se ouve o Pescador.

PESCADOR:

A cena se reinicia ao meio dia do QUARTO DIA. Ela volta a

Que descanse.

aparecer no seu escritório.


DOROTEA:

PESCADOR:

Se pudesse. Foi isso que eu disse.

Vá, um compromisso.

PESCADOR:

DOROTEA:

Vá.

Como se nota, não estudou Gramática da Língua Portuguesa. Se eu pudesse, se pudesse, isso foi o que eu disse. Se pudesse

DOROTEA:

tirar a sua certidão, foi literalmente o que eu disse.

Não é o mesmo. PESCADOR: PESCADOR:

E o que estou dizendo?

Foi sua palavra. Um compromisso comigo. DOROTEA: DOROTEA:

Que tenho um compromisso com o senhor.

Um compromisso! PESCADOR: PESCADOR:

Pois bem.

Pois. DOROTEA: “Pudesse”, modo condicional do verbo “poder” conjugado em DOROTEA:

primeira pessoa do singular que indica uma condição provável

Nunca lhe disse que faria.

ou possível. Indica um futuro hipotético, uma ação que pode ou não suceder. E se a isso agregamos a conjunção “se”, que é

PESCADOR:

condicional, escute bem, condicional, formamos a oração “Se

Então pra que me perguntou a data?

pudesse”, o que não significa nada além de uma possibilidade. Se pudesse, se quisesse, se tivesse. Possibilidade. Não há nada

DOROTEA:

nessas frases que indique um fato que vai se suceder com

Caso eu pudesse tirar.

segurança, ou seja, em modo algum uma certeza e muito menos um compromisso com o senhor. Se eu pudesse tirar a


sua certidão. Uma possibilidade. Compreende agora?

DOROTEA: Poderia ser.

PESCADOR: A metade.

PESCADOR: Vá.

DOROTEA: Que metade?

DOROTEA: Mas isso é diferente.

PESCADOR: A da possibilidade.

PESCADOR: Como se vê, a senhora não sabe nada de gramática popular

DOROTEA:

onde muito sabiamente se diz que querer é poder.

Suficiente, é a parte que me interessava que compreendesse. DOROTEA: PESCADOR:

Então não quero.

Então, me diga qual é a minha possibilidade. PESCADOR: DOROTEA:

Esse é o problema. Que a senhora não quer nada.

Nenhuma. PESCADOR:

DOROTEA:

Nenhuma?

Como disse?

DOROTEA:

PESCADOR:

Nenhuma.

O que escutou. Já tem idade pra ouvir isso. A senhora não quer nada.

PESCADOR: E se a senhora quisesse, teria alguma?

DOROTEA: Olhe, senhor, eu não permito que o senhor…


PESCADOR. Sim, é a verdade. Está aí sentada atrás dessa

aí, me chafurdando como uma idiota na areia, em contato

mesano escritório fazendo o ridículo onde ninguém vem e

com essa água podre, virá alguém precisando de mim. Uma

onde nada acontece. Reclamando sobre o seu destino comigo.

certidão, uma carteira, um documento. Acha que estou aqui porque quero? É o pior lugar em que poderiam me mandar.

DOROTEA:

Não gosto do mar e, ainda assim, devo estar aqui. Esperando

Reclamando com você?

aqui a essa pessoa que precisa de mim, do meu trabalho, do meu ofício, da minha atenção. Eu me importo, ainda que

PESCADOR:

depois volte a minha casa vazia na capital onde não me espera

Reclamando do seu destino e sem se atrever a nada. Aí está o

nem sequer o cachorro do vizinho para me abanar o rabo...

mar. Pelo menos tire a roupa e dê um mergulho. Aposto que

Eles acham que ela é tonta, que não se dá conta. Não que

vai voltar para a sua casa na capital onde ninguém a espera,

eu me sinta velha, mas percebi que estão mandando as mais

nem sequer um rato, e muito menos um cachorro que te abane

velhas para fora do escritório. Lá ficam as jovenzinhas, as

o rabo, e não vai ter dado nem um mergulho sequer nesse mar

que têm energia de sobra. A nós estão mandando pra longe,

que tem na sua frente e que com certeza tinha anos sem ver.

pras margens, pra que a gente vá se acostumando a não fazer

Deixe esses papéis. Ninguém se importa com isso aqui.

nada. Outras são felizes, mas eu não, eu não, eu gosto do trabalho, da atividade, me sobra energia. Lá, até lá onde não

DOROTEA:

chega ninguém e não importa que o serviço seja mais lento.

Eu sim.

Pois não, senhor, não estou velha, estou mais velha, mas não estou velha. Estou velha para certas coisas que não fiz quando

PESCADOR:

pude, mas já quis uma fila enorme de pessoas que eu pudesse

Eu sim o quê?

mandar satisfeitas a suas casas, olhando como ficou a sua cédula de identidade, ou com sua certidão original na mão.

DOROTEA:

Bem feito. Muito bem feito, Dorotea, me diziam… E, agora

Eu sim me importo. Me importo de estar aqui sentada atrás

com o censo, às montanhas, aos povoados e nas praias. E, além

dessa mesa fazendo o ridículo onde ninguém vem e onde nada

disso, Dorotea na praia. Havendo montanhas, vales, cantões,

acontece, reclamando sobre o meu destino e sem me atrever a

ravinas, não, além de tudo tive que ficar com a praia. E por

nada. E não, não vou a esse mar sujo, tirar minha roupa e dar

isso o senhor me aborrece, me aborrece a sua presença, porque

um mergulho, porque vai acontecer que enquanto eu estiver

estou no pior lugar, me aguentando desde que vim para não


sair correndo, e o senhor tão fresco, por um lado, não me deixa

olhos ela estava lá, e me olhava. Calma, me disse, eu sou sua

trabalhar, concentrar, estar pronta para se alguém chegar, e

mãe. Calma, eu sou sua mãe. Calma, eu sou sua mãe; e talvez

além disso me pedindo algo em que não posso ajudar. Por

ela fosse, porque me acalmei, voltei a deitar e dormi. Dormi

mais que me diga o que quer eu não posso ajudar. Não posso

tão profundamente que quando despertei ela já não estava

ajudar com essa certidão que não existe em lugar nenhum. De

e eu já não era um menino, havia crescido. Dormi tempo

onde o senhor quer que eu a tire? Não posso fazer nada pelo

demais, por isso agora não durmo muito, sereia, prefiro ver o

senhor quando nem sua mãe fez o que tinha que fazer quando

céu, as estrelas, o mar. Saber que tudo isso que veio à luz da

o senhor nasceu. Quem sabe de onde o senhor apareceu.

lua é de verdade. Te amo, sereia, de verdade. Na penumbra, a

Quem sabe se nem nasceu aqui. Vai saber se o sequestraram,

silhueta de uma mulher se levanda da areia e lhe dá um beijo.

ou quem sabe que ato maldoso o senhor quer efetuar. Não, não vou ajudá-lo, escutou? Não vou ajudá-lo. Não vou arriscar

A cena retorna ao mesmo momento anterior.

o meu trabalho por alguém que nem nome tem, para que depois me mandem embora, sem trabalho, despedida, sem

PESCADOR:

poder servir de algo à humanidade, com minha vida inútil e

Só tem eu aqui.

acabada de uma vez e de volta ao mesmo lugar onde começou. Não. Não é não, e se acabou. Suficiente?... Então adeus…

DOROTEA:

E pare de me olhar com esses olhos de cachorro sem dono,

Eu já sei. Já vi.

porque não somos amigos e nem sequer nos conhecemos. O próximo. O próximo, por favor!

PESCADOR: Eu sou essa pessoa que precisa da senhora, do seu trabalho, da

A cena se remonta a uma noite de lua na praia.

sua atenção. Me ajude.

PESCADOR:

DOROTEA:

Das minhas lembranças de criança tenho apenas uma. Uma. E

Isso é outra coisa.

é estranha, turva, e não a entendo. Era muito pequeno. Estava dormindo e sonhava que tinha medo. Era um desses pesadelos

PESCADOR:

que você esquece pela manhã. Suava e me agitava. Na parte

Por que?

mais feia do sonho gritei e me sentei na cama. Quando abri os


DOROTEA:

PESCADOR:

Porque não se pode.

Assim entendeu a senhora.

PESCADOR:

DOROTEA:

Quem lhe disse?

Pior assim.

DOROTEA:

PESCADOR:

Todos. Todos dizem. A lei, a lógica, a vida, as regras, as

Eu só vim parar aqui e aqui estava a senhora.

instituições, o senso comum, até a matemática seguramente o diria, ela que é tã exata. Tudo. Vá, pergunte por aí pra ver se

DOROTEA:

encontra uma alma do seu lado. Eu, Pescador do Mar, decidi

Por desgraça.

nascer, por meus próprios meios, hoje, domingo, 30 de maio de 2021... Repete a data real... e aqui, nesse fim de mundo que

PESCADOR:

nem sequer está nos mapas. E, como se não bastasse, Dorotea

O mar nos uniu.

me deu a luz. DOROTEA. O mar nos uniu! O mar não une nada, que sabe PESCADOR:

disso o mar. Eu estou aqui por casualidade.

Isso por último se a senhora quiser podemos tirar. PESCADOR: DOROTEA:

Eu a única coisa que preciso é da minha certidão. Uma

Claro.

certidão de nascimento para embarcar de novo e voltar pelo meu cachorro. Se quiser, eu volto logo e continuamos

PESCADOR:

discutindo para que se convença de que não fez nada de

E eu nunca disse que nasci aqui.

errado ao me ajudar, mas, senão, o pobre vai se desesperar e se lançar ao mar em travessia para me encontrar e me fazer

DOROTEA:

cumprir. Já volto, disse a ele, já volto, e vi que ele alegre me

Eu supunha que sim.

abanava o rabo. Ao horizonte. Já vou… Já vou…. Vou voltar… Vou voltar… Gritando mais forte. Já vou, já vou, cachorro, não


vou te abandonar!... A ela. O encontrei, sabe. O encontrei no

DOROTEA:

canil municipal e ao mesmo tempo ele me encontrou. Com

Depois de um silêncio. Por que não pôde ser normal?

certeza na sua língua canina ele pensa o mesmo que eu. Que agora ele é um cachorro com homem e eu sou um homem

PESCADOR:

com cachorro. Eram quase seis da tarde. Lá, olhe, por ali,

Quê?

ali onde o sol se põe. Ele estava sozinho, e eu também, sem ninguém e sem nada. Os dois nas mesmas circunstâncias.

DOROTEA:

Então nos vimos, com esses olhos com que se olha quando

Você.

se encontra alguém que se procura faz tempo, ainda que esse alguém seja um cachorro. Havia um homem gordo e mal

PESCADOR:

encarado. Era ele do canil. Se notava que não gostava dos

Já vai me maltratar de novo.

cachorros. Disse a ele que me desse o cachorro, mas me disse que teria que acompanhá-lo até o canil para preencher um

DOROTEA:

formulário. Fui. Nome, sobrenome, endereço, idade. Tudo isso

Não… Me refiro a sua situação. Você teria vindo aqui, a

para levar um cachorro sem dono? Apenas me dê. Eu vou

minha sala, eu teria pedido que fizesse fila para atendê-lo

amar, vou cuidar dele. Nome, sobrenome, endereço, idade. Vai

melhor. Você teria sido o primeiro e o último da fila de uma

ser meu cachorro, disse a ele… Nome, sobrenome, endereço,

só vez e não teria tido que brigar com ninguém por estar

idade. Não vamos ficar sozinhos nunca mais, disse a ele…

tentando passar na sua frente. E eu teria te dado a sua certidão

Nome, sobrenome, endereço, idade… E comecei a navegar,

de nascimento em um instante e nós teríamos ido felizes e

a navegar aonde fosse, ao primeiro lugar que encontrasse no

contentes. Hoje você iria lá, longe, ao outro lado do mar, onde

caminho para nascer ali, para existir e poder voltar por meu

ao menos te espera um cachorro, e eu já não estaria aqui, teria

cachorro... Quando me cansei, me deixei levar pela maré, o

arrumado meus papéis e teria viajado de volta para a minha

vento e as estrelas, a algum porto teria que chegar… Disse a

casa, onde estaria neste momento a ponto de abrir a porta

ele que voltaria e ele acreditou em mim. Latiu. Latiu forte e

com a sensação de ter cumprido minha missão…. Por que?....

me abanou o rabo. Depois me disse que se eu não voltasse se

Por que não pode ser normal?...

lançaria ao mar para me fazer cumprir. PESCADOR: Sinto muito.


DOROTEA:

Já sei disso. Por isso estou aqui.

Eu também… Silêncio. E esse cachorro? Como é? DOROTEA: PESCADOR:

Não me refiro ao senhor, ou seja, sim, ao senhor também. Mas

Como é?

falava do cachorro.

DOROTEA:

PESCADOR:

Sim, como é? Bonito, grande, peludo?

Do cachorro?

PESCADOR:

DOROTEA:

Não.

Sim, quando for seu precisará de um nome. Todos os cachorros de alguém têm um nome. Só os que vagabundeiam

DOROTEA:

sós pelo mundo não têm nome.

Então? PESCADOR: PESCADOR:

Não tinha pensado nisso.

Não sei…. Só é… só. DOROTEA:

DOROTEA:

Ah… Só.

Pois pense. Você pode escolher. Agora há tantos nomes bonitos por aí. Firulais, Kaiser, Chispa, se bem que esse ficaria

PESCADOR:

melhor se fosse fêmea, Rintintín, Popi….

Sim. Só. PESCADOR: DOROTEA:

Não. Cachorro. Meu cachorro se chamará Cachorro.

Precisará de um nome. PESCADOR:

Chega a tarde do mesmo Quarto dia. Ele está na doca, ela moveu a


cadeira para diante do escritório e revisa seus livros.

Mamãe… Mamãe? Por que essa cara de tristeza? Mamãe?... Minha mãe não quis ser avó….

PESCADOR: Me conte da senhora.

A cena volta ao presente.

DOROTEA:

DOROTEA:

Já não tenho nada pra contar.

Quanto mais?

PESCADOR:

PESCADOR:

Me conte. Todos temos algo pra contar.

Quanto mais o quê?

DOROTEA:

DOROTEA:

Eu não.

Quanto mais vai esperar?

PESCADOR:

PESCADOR:

Como quiser.

Não sei, depende da senhora. Cachorro também deve estar se perguntando.

A cena se remonta ao passado de Dorotea.

DOROTEA: Pobre Cachorro.

DOROTEA: Mamãe, mamãe… Quando eu for grande vou ser astronauta.

PESCADOR:

Vou chegar à lua e de lá vou te jogar flores de geada. Mamãe,

Me dá medo que ele se vá, que alguém o leve, ou que ele

mamãe, quando eu for grande vou ser bombeiro. Vou ter uma

morra.

mangueira comprida, comprida, para apagar esse fogo que te queima por dentro. Mamãe, mamãe, quando eu for grande

DOROTEA:

vou ser professora para ensinar suas canções aos meninos na

Não acredito.

escola. Mamãe, mamãe, quando for grande vou ser mamãe, pra ensinar a meus filhos a brincar de ciranda com a vovó.


PESCADOR:

fazê-lo, tem que fazê-lo. Eu permanecerei nesta praia,

Não?

esperando a sua volta. Vai, cruze os mares, conheça o mundo, cresça, percorra os caminhos, defenda suas causas, conheça

DOROTEA. Não vai sair do canil porque não tem nenhum

mulheres, segure uma arma, persiga seus sonhos, conquiste o

lugar para onde ir. Não sei se alguém o levará porque ele está

planeta, junte dinheiro, corra, escape, escreva poemas, cruze

muito… só.... Não é grande, nem bonito, nem peludo, não

com cuidado a fronteira, estude. O que for, invente o paraíso

creio que alguém vai gostar dele. E não morrerá… Porque

que tem na cabeça. Faça o que for, o que quiser fazer, mas

você deu a ele esperança. E ninguém morre com esperança.

volte. Não esqueça as ondas que te trarão de volta, e volte.

PESCADOR: A senhora acredita?

Volta-se ao presente.

DOROTEA:

DOROTEA:

Sim.

Quanta gente.

PESCADOR:

PESCADOR:

Obrigado.

Onde?

DOROTEA:

DOROTEA:

Apenas acredito.

Aqui. Nessas páginas. Cada página é um nome. Cada nome é uma história.

PESCADOR: Por isso, obrigado.

PESCADOR: Todos, menos eu.

Volta-se ao passado de Dorotea. DOROTEA: DOROTEA: Vou te esperar. Não importa o tempo que for. Se tem que

Você não tem nome mas tem história.


PESCADOR:

forte e charmoso se for um menino. E um doce e melancólico

E de que me serve?

se for uma menina. Chuva. Chuva seria perfeito. Doce e melancólico. E se for um menino? Raio, Trovão, Furacão.

DOROTEA:

Esses não são nomes de gente, não se pode colocar. Zeus,

De algo.

Apolo, Dionísio… Esses são gregos demais, estão fora de moda…. Mar… Talvez devesse te chamar Mar, ainda que não

PESCADOR:

soe nome de pessoa… Chuva… Mar… Talvez assim o seu pai

De que?

se embarca logo e te fazemos nascer.

DOROTEA:

Presente.

Não sei, de algo. Por outro lado, eu… PESCADOR: PESCADOR:

Já é tarde.

A senhora tem um nome e uma história. Que não queira contar é outra coisa. Em todo caso à senhora ninguém negaria

DOROTEA:

um cachorro, nem uma casa, nem uma família. E tudo isso

Outra vez.

por que? Porque tem um pedaço de papel com seu nome e seu sobrenome que diz que a senhora é, sim, uma pessoa.

PESCADOR:

DOROTEA:

Essa é a hora da tarde em que a vida parece se acabar de

Pescador… Pescador… Poderia ser um bonito nome.

verdade.

PESCADOR:

DOROTEA:

E daí…..

Outra vez.

Passado.

PESCADOR: Cachorro deve estar triste. Aflito, me esperando. Oxalá não se

DOROTEA. Quando nascer vou te colocar um nome bonito. Agora há tantos nomes bonitos por aí. Um nome

atire ao mar.


DOROTEA: Gosto da tarde. Com a brisa que me queima a cara, e o sal.

Qualquer momento do QUINTO DIA. Dorotea está sentada em sua cadeira, que agora está quase de frente para o mar. Ele sobre a

PESCADOR:

areia.

Disse a ele que não demoraria e já levo mais de três dias. PESCADOR: DOROTEA:

É que na vida de uma pessoa acontece de tudo. De tudo. A

Gosto do sal, este gosto de sal.

uns mais, a outros menos, mas de tudo. Esse dia encontrei assim, do nada, um barco. Velho, parecia abandonado. Velho

PESCADOR:

e tudo, mas se mexia, meio que me seduzindo. Se mexia e

O sol que se põe a essa hora está justamente saindo lá, do

me olhava. Sim, me olhava. Então eu entendi que ele queria

outro lado.

alguma coisa comigo e que me chamava. “Eu?”. Perguntei ao barco. A Dorotea, após a reação esboçada por ela. Sim,

DOROTEA:

perguntei ao barco. Perguntei ao barco se a dança dele era

Essa é a hora da tarde em que a vida parece se acabar de

comigo e ele me disse que sim. Me aproximei e me dei

verdade.

conta que ele tinha um par de remos, uma rede e um botijão pra água. Tudo. Pronto. Ali estava o barco pronto pra mim.

PESCADOR:

Suspeitei que alguém tivesse atracado, então só me aproximei

E esse som zumbido. Zumbe nos ouvidos.

pra conversar com ele. Eu era bem jovenzinho, subi nele, me imaginei dono daquele barco sem nome, meio pintado,

DOROTEA:

meio descascado, dono e senhor de todo o oceano. Depois

Outra vez.

fui embora e esperei. Cada vez que passava por lá eu parava e esperava. Esperei mais de uma semana. Um dia, uma noite,

PESCADOR:

um dia, uma noite, outro dia, outra noite, e ninguém aparecia,

Depois de um silêncio. Não se vá ainda.

ninguém o levava. Era um lugar como aqui, onde ninguém chegava e nada acontecia, só que lá não havia nenhum posto

DOROTEA: Não… Não vou.

da prefeitura, nem estavam fazendo nenhum censo, nem nada… Bom, a coisa era que ele continuava lá, dançando e me


olhando. Me esperando. Ele se sentia velho e queria fazer sua

para pagar um bom banho com sabão, estoque de água e

última viagem comigo. E eu, eu na verdade não tinha nada,

alguma outra coisa que no mar não se encontrasse. Depois de

nem ninguém, nem sequer sabia como tinha nascido, como

uns dias a terra me dava uma sensação estranha. Me faltava o

tinha chegado até ali. Então nesse dia, logo que o sol bateu

ar, a brisa, a água, o sal, o vai e vem das ondas, e o movimento.

sobre a cabeça, decidi pegá-lo e partir. Então vamos, disse a

A terra me afogava. Sim, me afogava. Então corria até o barco

ele, e assim fomos. Até hoje ele segue comigo. Ele me trouxe

e me afastava, remava e remava até encontrar a paz… Tinha

até aqui. Rejuvenesceu.

me convertido em um pedaço de mar.

DOROTEA:

DOROTEA:

As esperanças sempre rejuvenescem… Até a um barco,

...um pedaço de mar… quem sabe é assim que acontece com

parece…

todos que embarcam…

PESCADOR:

PESCADOR:

Assim parece. E ainda não parece que seja hora de sua última

Pode ser…. Isso bem que pode ser…

viagem…. Pois lá ia eu todo um bom moço, de pelo no peito e em outros lugares que você deve imaginar, pois criança já não

DOROTEA:

era, ainda que para homem ainda me faltasse um pouco…de

Um pedaço de mar…

tempo, não de outra coisa, de tempo. Lá ia eu, como capitão

PESCADOR:

de barco, com meu barco, minha rede e meus remos. Quando

Tentei ficar duas vezes, e não deu certo. Uma vez cheguei a

tinha fome, pescava. Quando tinha sede me aguentava, porque

um porto. Pequeno. Ou melhor, um cais….

na emoção da aventura me esqueci de encher o botijão de água. Quando me cansava, viajava à deriva e pelas tardes

Dorotea se perde em seus pensamentos.

perseguia o por do sol. Analisei as marés, as estrelas e os ventos. Descobri que sempre têm algo a dizer. Agora sou

DOROTEA:

um especialista. Assim andei dias, noites, semanas, meses,

Chuva, Mar, me perdoem. É que eu sempre pensei que vocês

anos. Não sei quantos. Os media pelo crescimento das unhas,

viriam pelo mar. Que o pai de meus filhos voltaria pelo mar.

da barba e do cabelo. De vez em quando ia a algum porto.

Faça o que quiser, lhe disse, mas não se esqueça das ondas que

Atracava. Via a gente, as ruas, as casas. Vendia peixe e ganhava

te trarão de volta, e volte. Eu o esperei, o esperei de verdade.


Esse foi o problema, talvez o tenha esperado tempo demais.

DOROTEA:

Um dia, de repente, chegou um homem por terra. Por terra,

Sim.

não pelo mar. Vinha em um ônibus caindo aos pedaços, que parou para passar a noite na capital. Vinha cheio de gente e de

PESCADOR:

poeira. No escritório, acomodamos aquelas pessoas para passar

Quer que continue?

a noite e descansar. E ali, entre a poeira e a gente, estava ele, de pé, cansado mas sorridente. Eu não sabia nem de estrelas

DOROTEA:

nem de mares, só sabia que ele havia chegado por terra, não

Se você quiser.

por mar. Estava ali, com seus olhos e seu sorriso malicioso, se aproximando de mim com uma ingenuidade doce. Eu só

PESCADOR:

sentia o medo e o pudor. Agora penso que talvez o medo e o

Por que não me conta da senhora?

pudor tenham impedido que vocês nascessem. Ele estava ali, quem sabe mandado pelas estrelas. Não soube seu nome, nem

DOROTEA:

sua idade, não nos perguntamos isso, só sei que não deixei que

Já te disse que não tenho nada para contar.

suas mãos se perdessem no meu corpo, e agora me arrependo. Chuva, Mar, me perdoem, é que eu sempre pensei que o pai

PESCADOR:

dos meus filhos voltaria pelo mar.

Deve ter.

Pescador continua.

DOROTEA: Algo interessante, não.

PESCADOR: Te incomodo?

PESCADOR: Não importa se não é sobre mares e estrelas, se anime, conte

DOROTEA:

algo.

Não. DOROTEA: PESCADOR: De verdade?

Então deixemos para outro dia.


PESCADOR:

uma igreja. Entrei. Me meti ali pra descansar, era uma igreja

Lhe aborreci.

velhinha, com um ar entre solene e de medo, mas que dava muita paz. Estando ali me senti acolhido pela fé, me disse

DOROTEA:

depois o pastor. Pensei, de alguma forma, que havia chegado,

Não. Mas se você não quer contar, ninguém pode obrigar.

que esse era o lugar onde devia permanecer e fazer um amigo. O negro era uma boa pessoa, sorte para os outros, porque

PESCADOR:

se não fosse, de um tapa poderia matar qualquer um. Ele

E se vier alguém?

estava também contente comigo, quase ninguém falava com ele, então eu lhe caia muito bem. Me conseguiria trabalho

DOROTEA:

carregando bagagens, você os pequenos e eu os pesados, me

Ninguém veio nem virá.

disse, e que podia alugar um quarto no casarão onde ele vivia e que até poderia ir com ele pra noturna, e me explicou que

PESCADOR:

isso era uma escola da noite, que a senhora deve saber melhor

E se vier?

que eu, suponho, onde vão os estudantes que já estão muito velhos, e que se põem em dia de noite porque o dia Deus fez

DOROTEA:

para trabalhar, me disse. Gostei da ideia, a terra não estava

Pois que espere.

me mareando, e eu pensei que era hora de dar um descanso a meu barco. Mas, acredite a senhora. Pedi trabalho: nome,

PESCADOR:

sobrenome, idade, endereço. Tentei alugar um quarto: nome,

Olhe, eu tentei ficar duas vezes. A primeira vez cheguei a

sobrenome, idade, endereço. Como que endereço, se é isso

esse porto, um cais simples, bem movimentado àquela hora

que estou buscando? Ah, sim… Mas não posso fazer nada, é

da tarde. Havia um homem grande, corpulento, negro. Com

o único dado que pode nos dar, me disseram. Fui à escola e

uns pés grandes e uns olhos pequenos. Nos olhamos como

o mesmo: nome, idade etc etc etc… A senhora sabe melhor

se fossemos velhos conhecidos. Pagavam para ele levar

que eu… O negro, meu amigo, falou com o pastor, falou de

bagagens até as lojas e as pousadas. Ele sorriu pra mim e

mim, do rapaz acolhido pela fé, que ele mesmo havia sido

seguiu carregando. Havia muito tempo que ninguém me

testemunha, mas ele o convenceu de que se eu não podia dizer

sorria. Segui ele, para que pudesse devolver o sorriso, mas

meu nome, sobrenome, nem idade, nada bom poderia ser. Esse

ele se perdeu. Ou melhor, eu me perdi, até que encontrei

dia até o negro desconfiou um pouco. Foi aí que me afastei


do cais remando e com uma grande vontade de chorar. Só o

manhãs. De tarde brincávamos, de noite nos amávamos e ao

negro se despediu de mim. Chegou ao cais, nessa hora em que

amanhecer cantávamos como sereias. Mas um dia aconteceu.

não havia nada pra carregar. Estava parado, olhando pra mim,

Tínhamos ficado juntos essa noite, iluminados pela lua.

com vontade de me dizer adeus com a mão. Quem sabe se eu

Eu estava contando as minhas lembranças. Ela estava nua,

o tivesse convidado a vir, teria vindo comigo… A segunda vez

encostada na areia, ao meu lado e a sentia bem pertinho de

foi pior. Já tinha entendido que não podia ter casa, trabalho,

mim. Quando terminei de contar, ela se levantou e me deu um

escola nem amigos, mas de alguma forma eu não precisava.

beijo. Nos casemos, me disse, e vivamos assim para sempre.

Mas dessa vez, dessa vez pensei que morreria, que morreria

Viver assim para sempre, pensei, e minha mente se atordoou.

de verdade. O coração me saia pela boca, as mãos gelavam,

A vi, ali, nua, na areia, à luz da lua, recostada para sempre,

não conseguia respirar e sentia… sentia… que em um lugar…

para sempre, a meu lado. Nos casemos, eu disse de um salto

não me interprete mal… que em um lugar, de lá de baixo…

sem me dar conta de nada mais. Falou com sua tia, para pedir

tinha uma espécie de inchaço como se a qualquer momento

consentimento, e resultou que eu era um pobre homem sem

isso fosse explodir. Era a mulher mais bonita do mundo. A

nome nem sobrenome para ela. Enfim, me disse, você vai

mais bonita. E não é que eu tivesse visto muitas mulheres na

casar comigo não com ela, e fomos à igreja. Ela tinha me dito

minha vida porque andando no mar, daqui para lá, só se vê

que para casar tínhamos que estar bonitos como Deus manda,

baleias, medusas e arraias. Mas eu lhe digo. Essa mulher era

aí que com a venda da pesca comprei uma camisa branca e

uma sereia. Acho que depois de tantos anos e tantos mitos

sabão para lavar a calça, porque para uma nova eu não tinha

as sereias se extinguiram e só ficou uma, ela, minha sereia.

o suficiente. Ela estava preciosa. Com um vestido branquinho

A encontrei na praia, quando eu encalhava para conseguir

com pérolas e flores para que eu o tirasse no meu barco.

água. Nos olhamos com olhos de velhos amores e sem dizer

O padre estava na nossa frente, com uma cara não muito

nada me disse ama-me. E eu a amei. Nos amamos como

boa, e então começou. Nome… sobrenome… endereço…

crianças e como amantes, brincando entre as ondas e nos

idade… disse o padre… Minha sereia pensou que eu não os

perdendo na areia. Descobri o amor entre suas pernas e essa

dava porque estava escondendo algo, porque não a amava o

explosão, te digo, não se acabava com nada se não a deixasse

suficiente para casar com ela e passou toda a tarde chorando

sair. Nos encontrávamos cada tarde na praia e me especializei

na areia… Eu não entendo… não entendo nada….Eu sou eu

em outro tipo de marés, de ventos e de estrelas. Eu estava

ainda que tenha 20 ou 30 ou 40 anos. Assim me chame Pedro

feliz. Vivia no meu barco, pescava meu alimento, vendia o

ou Árvore ou Estrela, eu não deixaria de ser eu….

que me sobrava e me banhava com sabão cheiroso todas as


DOROTEA:

caso eu não volte, ainda que não saiba de bússolas ou marés.

Isso Shakespeare já disse…

O vento e as estrelas me trouxeram aqui, eu não fiz nada, com tanto cansaço nem sequer remei. Eu não sei onde nem

PESCADOR:

como nasci, estava muito pequeno e já não me lembro, minha

Quem?

única lembrança de criança é uma noite em que acordei chorando. Não sei quem foram meus pais, nem porque me

DOROTEA:

abandonaram, mas estou seguro que sou eu quem tem um

William Shakespeare, um poeta.

amigo negro em um cais pequeno, quem ama uma sereia que chora na praia e quem prometeu a Cachorro que voltaria no

PESCADOR:

meu barco para buscá-lo. Sei que eu sou eu e que estou aqui,

Pois também estaria apaixonado por alguma sereia.

agora, neste lugar, e neste momento, (ao horizonte) e por isso te digo, Cachorro, que eu, Pescador, Pescador do Mar, nasci

DOROTEA:

hoje (repete a data do dia), domingo, 30 de maio de 2021,

Suponho que sim.

neste canto do mundo onde ninguém vem e nada acontece, ao lado de Dorotea, mulher maior de idade que me acompanhou

PESCADOR:

no meu nascimento e que portanto é minha mãe.

É que é a verdade…. Não entendo… Eu sou eu e era eu quem a amava… Depois remei até onde me alcançaram a raiva e

DOROTEA:

as lágrimas. Quando me cansei estava lá onde o sol se põe e,

Após uma pausa. Não se vá… por favor…

quando atraquei para relaxar os ossos, encontrei Cachorro. O resto a senhora já sabe. Nos olhamos com os mesmos olhos

PESCADOR: Não... .não irei.

com que vi meu amigo o negro e a minha sereia. Com esses olhos que dizem que há muito andávamos nos procurando.

Faz-se um silêncio.

O vi e o prometi voltar e ele me ameaçou que se não voltasse

O tempo parece ter parado.

se atiraria ao mar para me procurar, e isso sim me preocupa porque não o vi muito paciente nem com vontade de ficar

DOROTEA:

só, como o negro ou minha sereia. Cachorro está lá, lá onde

Por que me olha assim?

o sol se põe, esperando, mas com vontade de se atirar ao mar


PESCADOR:

DOROTEA:

Assim? Como?

O negro, a sereia e o cachorro.

DOROTEA:

PESCADOR:

Assim… como no primeiro dia.

Não. Você é Dorotea.

PESCADOR:

Dorotea se ausenta no tempo.

Não estou te olhando de forma alguma. DOROTEA: DOROTEA:

Meu nome é Dorotea e não sei quem sou. Vivo na rua do

Como não… assim… como se…

Parque Central na cidade capital deste país e ninguém me visita. Minha idade preferi esquecer e meu sobrenome o

PESCADOR:

tempo levou, não sei se a reboque em um ônibus empoeirado

...como se estivéssemos nos procurando há muito tempo?

ou se lhe surgiram barbatanas e se perdeu no mar. Meus filhos nunca nasceram e nunca ninguém me chamou de mãe.

DOROTEA:

Ninguém me espera quando chego em casa, nem um homem,

Não sei… assim… como no primeiro dia.

nem uma criança, nem um cachorro. Nem sequer um rato,

PESCADOR.

ainda que suspeite que tem um que fareja quando não estou.

Não estou te olhando de forma alguma e se estou te olhando

Gosto de fazer o meu trabalho e me esforço para fazê-lo bem.

de alguma forma é porque sim, ainda que porque sim não seja

Quando o faço vou dormir à noite com a grata sensação de

razão.

ter cumprido um propósito e de ter cumprido bem. De ter sido gentil com alguém, a alguém mais que a mim. Tenho

DOROTEA:

um nome, idade, sobrenome e endereço, mas ninguém os

Quem é você?

divide comigo, nem Chuva, nem Mar, os filhos perdidos do esquecimento… Essa é a hora da tarde em que a vida parece

PESCADOR:

se acabar de verdade.

Pescador. E você? Dorotea e Pescador no cais. Sexto dia.


PESCADOR: DOROTEA:

Não sei… Nada, talvez…

O que tem lá? DOROTEA: PESCADOR:

Terá que dar algo a Cachorro.

Onde? PESCADOR: DOROTEA:

Algo? Não tinha pensado nisso…

Lá. Do outro lado. DOROTEA. PESCADOR:

Mais ondas, mais água, mais movimento?

Nada. PESCADOR. DOROTEA:

Talvez.

Nada?… Então por que quer voltar? DOROTEA. PESCADOR:

Quando estiver com Cachorro nada será como antes.

Só por Cachorro. PESCADOR. DOROTEA:

Não tinha pensado nisso.

E depois? Silêncio. PESCADOR: Depois?… Não tinha pensado nisso…

DOROTEA: Como é?

DOROTEA: Pois terá que pensar…

PESCADOR: Quê?


DOROTEA:

PESCADOR:

Cachorro.

Não necessariamente… Olhe pra mim... Pausa. Acho que com um pouco de esforço poderia até deixar crescer cabelo.

PESCADOR: Cachorro?

Silêncio

DOROTEA:

DOROTEA:

Sim, como é?

E a vila?

PESCADOR:

PESCADOR:

Só.

Quê?

DOROTEA:

DOROTEA:

Fraco, velho e triste.

Como é?

PESCADOR: E bem pequeno. Pequeno, fraco e triste.

PESCADOR: A vila?

DOROTEA: Só.

DOROTEA: Sim, a vila, o lugar. Como é?

PESCADOR: Sim, só…

PESCADOR: Gente que vem e vai. Ruas íngremes, cais. Barcos de pesca.

DOROTEA:

Igual.

Então velho. DOROTEA: Igual?


PESCADOR:

já derrubaram, e levantaram uma nova que não dá medo nem

Igual. Como todos os cais de todas as vilas fracas, tristes e

paz. Os quartos de aluguel estão todos caros e minha sereia

pequenas. Com a ilusão do burburinho e a luz.

tem quatro filhos de dois homens diferentes que só a levaram a praia para se deitar com ela.

DOROTEA: O burburinho e a luz… As vezes as ilusões ajudam.

DOROTEA: Quem lhe disse tudo isso?

PESCADOR: Bastante.

PESCADOR: Ninguém.

DOROTEA: Com uma certidão, Pescador, poderia voltar ao cais de seu

DOROTEA:

amigo o negro, alugar um quarto, procurar um trabalho,

Então?

estudar na escola noturna. Poderia voltar ao cais de sua sereia e casar com ela com seu vestido de pérolas e flores. Poderia ir à igreja, encher-se de filhos e cuidar de Cachorro.

PESCADOR: Apenas sei.

PESCADOR: Não sei.

DOROTEA: Como?… Ele não responde. Como sabe?

DOROTE: Por que?

PESCADOR: Não sei… Apenas sei… Assim como também sei que foi o sol

PESCADOR:

e a água salgada de tanto tempo que me secaram o cérebro e

Porque a essa altura o negro tropeçou num tronco carregando

me fizeram inventar todas essas besteiras.

um saco grande de frutas, machucou a coluna e já não pode caminhar nem carregar. A noturna fecharam por falta de estudantes que quisessem se colocar em dia de noite, e a igreja

Silêncio.


DOROTEA:

PESCADOR:

Amanhã vou embora.

Mas ninguém te espera.

PESCADOR:

DOROTEA:

Quê?

É.

DOROTEA:

PESCADOR:

Que amanhã vou embora.

Pensei que iria ficar…

PESCADOR:

DOROTEA:

Como vai? Para onde? Por que?

É minha casa… Lá estão meus mares e minhas estrelas.

DOROTEA:

PESCADOR:

Para minha casa, onde mais?

Mas nunca veio ninguém aqui. Não fez o seu trabalho e vão te despedir.

PESCADOR:

DOROTEA:

Por que?

O próximo! O próximo, por favor! É sua vez, Pescador, Pescador do Mar. Pescador do Mar, livro 9-A, folha 404,

DOROTEA:

menino, que nasceu em Cais Escondido, um lugar onde

Como por que?

parecia que ninguém chegava e nada acontecia. Nasceu hoje, (repete a mesma data, sem mencionar o ano), um domingo, 30

PESCADOR:

de maio de um ano qualquer de Nosso Senhor no canto mais

Sim, por que?

perdido do mundo onde mandam as marés, os ventos e as estrelas. Havendo registrado os seus dados a senhora Dorotea

DOROTEA:

do Mar, que manifesta ser mãe e parteira…. Silêncio. Guarde,

Porque já encerrei meus dias de trabalho aqui e agora tenho

Pescador, vai te servir.

que voltar.


PESCADOR: Ao horizonte. Cachorro, Cachorro… Agora volto e te levo

PESCADOR:

pra casa!… Não se atire ao mar, não se atire… Fica aí… Me

A senhora também… A senhora acredita que ele ainda está

espera!

me esperando?

DOROTEA:

DOROTEA:

E, aliás, eu acredito que não. Eu acredito que seu amigo o

Acredito que sim.

negro segue no cais tentando lhe dizer adeus com a mão e sua sereia cantora segue na praia com seu vestido de pérolas e

PESCADOR:

flores. Deveria voltar, Pescador. Pescador do Mar…. Deveria

Foram muitos dias. E se atirou-se ao mar?

voltar…E cuidado com os palavrões que você não escutou um só durante toda a semana …

DOROTEA: Não acredito.

PESCADOR: O que está fazendo?

PESCADOR: E se sim?

DOROTEA:

DOROTEA:

Tiro a roupa. Vou dar um mergulho.

Nesse caso ele te encontrará. PESCADOR:

Logo antes do entardecer do mesmo SEXTO DIA.

A senhora acredita?

Os dois encharcados. DOROTEA: PESCADOR:

Sim.

Obrigado. PESCADOR: DOROTEA:

Sabe de uma coisa… o dia que a encontrei a senhora se

Tenha cuidado.

chateou comigo pelo jeito que eu a olhava, se lembra?


DOROTEA:

DOROTEA:

Sim.

Vá embora, já.

PESCADOR:

PESCADOR:

Por que?

E sabe de uma coisa?

DOROTEA:

DOROTEA:

Por que, o que?

Vá embora já, te digo.

PESCADOR:

PESCADOR:

Por que se chateou por isso?

Você também me olhava da mesma forma.

DOROTEA. Não sei.

DOROTEA: Não é verdade.

PESCADOR: Dorotea… DOROTEA: Porque me olhava… de uma forma… como

PESCADOR:

se… Com os mesmos olhos que viu o seu cachorro.

Sim, me olhava.

PESCADOR:

DOROTEA:

E o meu amigo negro e a minha sereia.

Você pra mim só foi um aparecido que veio sabe-se là de onde do outro lado do mar.

DOROTEA: Pois eu não era nem seu cachorro, nem seu amigo, nem sua

PESCADOR:

sereia.

Por isso.

PESCADOR:

DOROTEA:

Não, você era você, Dorotea.

Por isso, o quê?


PESCADOR:

DOROTEA:

Porque você passou a vida esperando algo de lá.

Sim… aqui.

DOROTEA:

PESCADOR:

Não.

Aqui nasci.

PESCADOR:

DOROTEA:

Sim.

Mas há os que se vão e nunca voltam.

DOROTEA:

PESCADOR:

Não.

Você gostaria?

PESCADOR:

DOROTEA:

Eu sei… E um dia me contará a história.

E eu que tenho a ver com isso. Nem sequer vivo aqui. PESCADOR:

Silêncio.

Não, mas…

DOROTE:

DOROTEA:

Você volta?

Esqueça.

PESCADOR:

PESCADOR:

Como?

Você gostaria?

DOROTEA:

DOROTEA:

Nada.

Esqueça… Temos que ir.

PESCADOR:

PESCADOR:

Aqui?

Sim, voltarei. E você poderia me levar à capital. Nunca estive


em uma capital. Como é? PESCADOR: DOROTEA:

E com os ventos.

Igual. Com a ilusão do burburinho e da luz, só que maior. DOROTEA: PESCADOR:

E com as estrelas.

As ilusões ajudam. PESCADOR: DOROTEA:

Adeus.

E muito. DOROTEA: PESCADOR:

Adeus.

Voltarei. Vou por Cachorro, cumprimento o meu amigo, encontro minha sereia, volto pra casa e te faço avó.

Pescador sai. Em cena permanece Dorotea, dizendo adeus com a

DOROTEA:

mão enquando a luz vai se dissipando.

Impossível com você.

Ela sai. Antes da escuridão total, um cachorro molhado atravessa o palco.

PESCADOR:

Se sacode. Correndo e latindo, sai.

Não gostaria? APAGÃO DOROTEA: Adeus. PESCADOR: Eu sei que você gostaria. DOROTEA: Adeus. E cuidado com as marés.


FICHA TÉCNICA TEATRO VILA VELHA direção artistica: MARCIO MEIRELLES coordenação administrativa: RAFAEL MATOS coordenação de projetos:76CRISTINA CASTRO coordenação financeira: THAIZE OLIVEIRA assistente administrativa: V NIA PAIXÃO gerência de programação: MARCIO MEIRELLES coordenação de formação: CHICA CARELLI núcleo de comunicação: JORDAN DAFNÉ (coordenação) RAMON GONÇALVES . MAYARA FERNANDES . DOUGLAS RANGELLY chefia de palco: MARCOS (DEDÊ) SILVA gerência de transmissão on line: LUCAS LIMA coordenação do estúdio vila: RAFAEL GRILO direção do núcleo viladança: CRISTINA CASTRO grupo residente: BANDO DE TEATRO OLODUM programa de formação: universidade LIVRE do teatro vila velha produção de conteúdos: COMPANHIA TEATRO DOS NOVOS conselho de gestão: ALCIDES VALENTE . CHICA CARELLI . CRISTINA CASTRO . JORDAN DAFNÉ . MARCIO MEIRELLES . RAFAEL MATOS . TIAGO BASTOS o teatro vila velha foi construído e é mantido pela SOCIEDADE TEATRO DOS NOVOS. é gerido pela SOL – MOVIMENTO DA CENA


a poi o

a poi o i n s t itu ci o n a l

re al ização

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DO OUTRO LADO DO MAR [2021] by Teatro Vila Velha - Issuu