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Programa de Espetáculo: Nilda, Uma Mulher Retada

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fundaçÃo gregÓrio de mattos e secult salvador apresentam:

texto de marcos uZel encenação de marcio meirelles

2026


teatro gregÓrio de mattos praça castro alves, centro de 08 a 29 de agosto Às 19h

As imagens reproduzidas neste programa e nesta peça que não possuem autoria identificada foram utilizadas de boa-fé. Se você é o autor de alguma delas, por favor, entre em contato com a Via Press para a inclusão dos devidos créditos ou para solicitar a remoção.


Nilda Uma Mulher Retada O espetáculo musical é um mergulho poético na vida e na obra de Nilda Spencer, uma das artistas mais importantes da história do teatro baiano. Longe de uma narrativa biográfica convencional, realidade e imaginação se misturam em uma celebração da memória. A peça é conduzida pela própria Nilda, que revisita sua trajetória em uma dramaturgia que entrelaça referências ao cinema, ao teatro e à música com personagens e acontecimentos históricos que marcaram sua vida. Entre lembranças da infância encantada pelo cinema de Hollywood, a descoberta do teatro ao lado de Martim Gonçalves, a convivência com grandes nomes da cultura brasileira e os desafios enfrentados durante a ditadura militar, emerge o retrato de uma artista inquieta, irreverente e profundamente humana. Atriz, professora, diretora, dubladora, tradutora e formadora de gerações, Nilda enfrentou preconceitos, rompeu convenções e ajudou a construir uma nova cena cultural para a Bahia.


Foto: Susan Spencer.


NILDA, Uma histÓria a ser contada Fazer teatro é também contar histórias. De uma forma peculiar: muitas narrativas se entrelaçam, se ajuntam e se superpõem no teatro. As histórias sempre são fragmentadas em muitos pontos de vista, opiniões, cacos compartilhados e testemunhados; portanto, difícil juntá-los para restaurá-las. Muitas coisas se perderam, muitas se apagaram. Muitas foram reinventadas, criadas, montadas para as histórias existirem como foram. Fazer teatro é contar uma história coletiva com vários pontos de vista a partir de um fato que já passou e não pode mais ser restaurado. Foi-se no tempo. Foi-se para sempre. Os fatos de uma história são ficção. Todos eles em todas elas. Fazer teatro é reencarnar uma história. Teatro é carne física e concreta. É, de fato. É estar presente e partilhar memórias que serão memórias para outros e que vão passar, no tempo de cada um, como fragmentos colecionados ou nada. É necessário contar histórias porque nos encontramos com nós mesmos nelas e pensamos: “foi assim?”, “fui assim?”, “por que não fui diferente?”, “por que não foi de outra forma?”. Daí temos vontade de refazê-las e evitar que as coisas se quebrem, que o equilíbrio e o sentido do humano não se percam, que o “meu” não seja maior que o “de todos”, que possamos caminhar por novos caminhos e estes sejam os mesmos, mas melhores, mais justos, mais felizes para muitos.


Nilda Spencer tem uma história para ser contada: fez parte da primeira turma a se formar na Escola de Teatro da Universidade da Bahia – ponto de mudança na história da cultura brasileira e do teatro baiano, quando o incrível movimento de amadores local construiu um ofício e profissão. Nilda compartilhou a vida com uma geração que transformou uma cidade da província em um parque de diversões: escolas de arte, museus, cinema, crítica, renovação urbana, crescimento econômico, desafios políticos. A cidade da Bahia naquele momento poderia dar um salto, mas a Bahia é a Bahia. E o Brasil – manipulado por muitas vontades de que as províncias continuem províncias, de que os quintais continuem quintais, territórios de exploração de matéria prima, não de processamento e transformação – continuou a ser o mesmo Brasil com sua Bahia balneária. Nilda desafiou o seu tempo resolvendo “ir ali e fazer teatro”. De alguma forma, ela fez revolução sem deixar de ser Nilda. No atrito entre a mulher burguesa e a artista revolucionária, quis fazer daquele “ali”, onde resolveu fazer teatro, a sua Hollywood. E o fez, sabendo que Hollywood é um lugar de manipulação, de “mudar para ser o mesmo”. Em última análise, uma revolução é isso, um movimento em torno de um eixo para se voltar ao mesmo lugar. No entanto, a energia necessária para que o movimento seja feito altera tudo ao redor. Não somos os mesmos depois de darmos a volta completa. Depois de observar ao redor de nosso eixo, questionamos: “é assim? Poderia ser de outra forma?”. Marcos Uzel teceu a biografia de uma atriz; antes, de uma mulher; antes, de um lugar que pode ser Hollywood ou Bahia – tanto faz. Recortou fatos fotos feitos e


montou uma Nilda só dele para ser distribuída. Para nos inspirar a dizer “pode ser diferente” ou “aqui ou ali tanto faz, o importante é dar o giro, fazer a revolução”. Um dia, ele tirou a história do livro e a colocou num espaço entre o papel e a vida, em uma peça para levar Nilda de volta ao seu lugar – o palco. Uzel entendeu que era assim que tinha que ser e descosturou sua história, seu livro, seu texto e o recolocou numa bandeja de prata para ser sacrificado/sacralizado, virar sagrado - Teatro. Uzel me ligou e me convidou para encenar as suas histórias contidas na história de Nilda. Liguei para Andréa Elia e perguntei se ela queria encarnar a que iríamos urdir para o palco. Andréa chamou a Via Press (Elaine Hazin/Andréa Gama) para produzir. E veio Hyago Matos colaborar na encenação. Depois, Rai Gouveia para recriar, no texto, uma playlist montada por Uzel, que narra o tempo por onde as coisas passaram. Zuarte veio fazer as roupas. Pedi que a primeira fosse um clone do vestido que fiz para Nilda encarar Madame Pace, em “Seis Personagens à Procura de um Autor”, na montagem de Harildo Deda. E, a partir daí, ele desenvolveu as outras roupas todas, transformadas em figurino. No meio da estrada veio a vontade de ver a Nilda/Andréa usar o mesmo casaco de Nilda/Maude em “Ensina-me a Viver”, de Possi Neto. O casaco existe. E Mauricio Martins, seu guardião, o devolveu a esta Nilda para ela finalizar a nossa história. Érick Saboya construiu o espaço; Rafael Grilo, as imagens; Irma Vidal iluminou os caminhos. Roberto Montenegro dirigiu os movimentos dos fragmentos de memórias de Nilda evocados por ela/Andréa, para remontar sua história. E mais: fez com que dançassem. E as atrizes e os atores, coração-corpo-cabeça de tudo isso, se entregaram à aventura de falar como música e se mover como dança e, eventualmente, falar em português e em Libras, coisas que não fazem em suas trajetórias. Então temos um musical feito por atrizes e atores que se movem, emitem sons e fazem gestos


e, assim, contam as histórias que precisam ser contadas. Barbara Borgga, Caio Rodrigo, Cristiane Mendonça, Igor Epifânio, Israel Barretto e Lucas Valadares (que faz o papel de Lucas Valadares, muitos anos depois de ter sido o primeiro ator a beijar Nilda em cena) são o coração-corpo-cabeça que constrói Andréa/Nilda. Como parte do elenco, Tato e Pandora refletem todos os personagens em Linguagem Brasileira de Sinais, para quem escuta com os olhos. Há muito, venho pensando e testando a inclusão dessa linguagem na cena. Desde a “Odisseia + Paisagem com Argonautas”, da universidade LIVRE de Teatro Vila Velha, essa experiência de um teatro bilingue efetivamente tem sido um exercício e propósito. Tato e Pandora participaram da LIVRE e fizeram a “Odisseia”, e estão aqui também guiados por Cintia Santos. Agora vem o público, ouvir ou reouvir a história de Nilda, uma mulher retada, e tornar o que fizemos Teatro.

Marcio Meirelles Encenação


Foto: Armin Guthmann - Livro Arte na Bahia.


Tenho me guiado pela convicção de que guardar memórias é um ato de amor. Em mais de vinte anos de atuação como pesquisador memorialista do teatro na Bahia, venho buscando, amorosamente, trilhar caminhos de sedimentação do ontem no hoje. A peça Nilda: uma mulher retada, primeira obra dramatúrgica de minha autoria, é uma reafirmação dessa proposta, levada ao palco pelas mãos habilidosas de Marcio Meirelles, um dos ícones do teatro brasileiro, para que permaneça vivo em nossa memória o legado da inesquecível Nilda Spencer (1923-2008), um patrimônio imaterial. Representada no espetáculo pela experiente e luminosa atriz Andréa Elia, a eterna dama virou personagem de um enredo que tece as suas transgressões, em plenos anos 1950/1960, com imagens, cores e músicas. Nilda vivenciou atritos e contradições em seu caminhar pelo tempo, mas fez da própria existência uma festa ao apostar na leveza e no afeto como alicerces para o bem viver. É disso que o espetáculo trata: de episódios da vida intensa de uma mulher que não sucumbiu ao machismo numa Bahia conservadora, ousou abraçar o teatro sem jamais desistir, deu uma banana para os moralistas de plantão, ressignificou o seu lugar no mundo movida pela alegria de viver e virou uma referência de liberdade. Convido o público a celebrar conosco a vida e a arte de uma personagem danada, porreta, retada. Champanhe no gelo! Um brinde à dama!

Marcos UZel Dramaturgia e Pesquisa


Foto: Adenor Gondim - Acervo TCA.


Já perdi a conta de quantas mulheres fortes levei ao palco. Ser atriz é aceitar, incondicionalmente, a tarefa de ser outra. No caso de Nilda, uma atriz interpreta outra atriz. Através de uma única vida, desfilam muitas vidas. Através da personalidade excêntrica de uma mulher que abarca décadas, reverberam complexidades femininas. A vida da menina Nilda foi guiada pela dimensão de um sonho hollywoodiano que encontrou, ao longo de uma vida, na cultura baiana, o seu lugar de realização. O sonho da atriz me conduziu até Nilda. Olhava suas fotografias e imaginava a menina projetando, em seus grandes olhos, o brilho das estrelas de Hollywood. Com a elegância diplomática de uma verdadeira dama do teatro, Nilda viveu muitos papéis. Respondeu aos ditames de uma sociedade machista com a irreverente liberdade de uma vida bem vivida. Foi com essa mesma liberdade que recebi o convite de Marcio Meirelles. Mais do que interpretá-la, fui convidada a encontrá-la. O caminho não foi o mimetismo. Nilda nasce de uma investigação sensível, construída a partir da palavra. O convite foi para habitar a fala de Nilda, seus sentidos, silêncios, memórias e afetos. E ainda há a fina sintonia com Marcos Uzel, que nos presenteia com uma dramaturgia profundamente humana, onde a palavra guarda a delicadeza da memória e desperta a potência do afeto. Cada frase é uma descoberta de Nilda!


Nesse encontro entre grandiosos colegas de cena, artistas e técnicos, a palavra se transforma em canto, imagem, dança e luz. Habita o silêncio cúmplice de um grupo que vem aprendendo a amar Nilda. A presença dessa mulher retada irradia pelo suor do ofício de uma gente de teatro igualmente retada. O afeto também atravessa o encontro com a Via Press, que se une a nós para produzir sonhos no palco. Sempre gosto de pensar a frase “cada um tem a Nilda que merece” como um atributo de ser feliz! Somos todos Nilda quando escolhemos dizer sim ao teatro. Somos todos Nilda quando escolhemos a liberdade de sonhar. Somos todos Nilda quando insistimos em fazer do teatro uma forma de resistência e de celebração da vida. No palco, o instante passa, mas o encontro permanece. Talvez esse seja o verdadeiro milagre do teatro: transformar o efêmero em memória. É nesse lugar que Nilda continua viva. Que o sonho de Nilda continue iluminando as nossas realidades, celebrando o afeto e nos lembrando que o melhor da vida é ser feliz!

Andréa Elia Protagonista


Foto: Acervo Escola de Teatro da UFBA.


Cada espetáculo nasce do desejo de compartilhar uma história capaz de atravessar o tempo. Com Nilda: Uma Mulher Retada, a Via Press Comunicação e Eventos celebra a trajetória de uma artista que fez da coragem um gesto permanente de criação e liberdade. Muito mais do que uma biografia de Nilda Spencer, esta montagem presta homenagem a uma mulher que ajudou a transformar o teatro baiano e a ampliar os horizontes culturais de uma sociedade marcada pelo conservadorismo. Seu percurso se confunde com a própria evolução das artes na Bahia, revelando uma personagem que ousou romper convenções, afirmar sua autonomia e inspirar novas formas de pensar, criar e existir. Com direção de Marcio Meirelles, dramaturgia de Marcos Uzel e interpretação principal de Andrea Elia, o espetáculo constitui um retrato profundamente humano de uma figura que jamais abriu mão nem de sua vocação nem de seus outros papéis sociais. Produzi-lo é reafirmar nossa confiança na arte como patrimônio vivo, capaz de preservar memórias, provocar encontros e iluminar o presente. Que a travessia de Nilda, para além de despertar a memória da dama do teatro baiano, inspire cada espectador a reconhecer que a liberdade nunca é uma conquista definitiva: ela se reinventa todos os dias, no palco e fora dele. E talvez seja esse o maior legado dessa mulher retada: lembrar-nos de que viver, quando guiado pela paixão e pela coragem, também pode ser uma extraordinária obra de arte. Porque celebrar Nilda Spencer é celebrar a força transformadora da arte e sua inigualável capacidade de reinventar pessoas, lugares e tempos.

Via Press Realização


Foto: Cedoc A TARDE.


Nilda: uma mulher retada Texto: Marcos Uzel O texto foi montado pela primeira vez com encenação de Marcio Meirelles. Estreou no Teatro Gregório de Mattos, em Salvador (BA) no dia 7 de agosto de 2026. Com o seguinte elenco e distribuição de personagens:

Andréa Elia: Nilda Spencer Barbara Borgga: coro, mãe de nilda, noemia, margô, cantora no bar, amiga foragida caio rodrigo: coro, pai de nilda, nonato freyre, amigo boemia (nonato), aluno 1, josé possi neto cristiane mendonça: coro, cantora, nilcinha, janete, aluna 4 igor epifânio: coro, genaro de carvalho, pixoxó, paulo henrique alcântara, aluno 3 israel barretto: coro, othon bastos, amigo boemia (othon), delegado, aluno 5

lucas valadares: coro, martim gonçalves, amigo boemia (zezé), lucas valadares, aluno 2 pandora, em libras: coro, nilda, mãe de nilda, janete, margo, cantora no bar, nilcinha, noemia tato seixas, em libras: coro, cantora, pai de nilda, genaro de carvalho, nonato freyre, martim gonçalves, othon bastos, noemia, nilcinha, pixoxó, paulo henrique alcântara, delegado, amigo e amiga boêmia, possi neto, lucas valadares


CENA 01 MUSICA: THE LADY IS A TRAMP Fotos de Nilda fazendo Madame Pace e outras imagens de “6 Personagens à Procura de um Autor” na montagem de Harildo Deda. NILDA/MADAME PACE: Pero, ¿dónde estoy? ¿Qué estoy haciendo aquí sola en este escenario? No puedo quedarme aquí. Necesito volver a mi sustento en lo fondo de mi tienda dando la bienvenida a las niñas a mi salón. Sem sotaque. Pirandello, quero ir pra casa já! Volta o sotaque. Yo soy Madame Pace! Ah, me voi, me voi seguramente…

MÚSICA: HI LILI NILDA aproxima-se da tela e vira tela também para a projeção de muitas fotos dela que vão retrocedendo no tempo até aparecer Nilda adolescente, sua idade na próxima cena. As fotos de Nilda são intercaladas com fotos de atrizes hollywoodianas. A foto de Nilda adolescente é fixada na tela.

CENA 02 Na projeção, foto de Nilda adolescente. CORO: Eu levo a vida cantando Hi, Lili, hi Lili, hi lo Por isso sempre contente estou O que passou, passou NILDA olha a plateia: Ah, o tempo! Passou e eu nem percebi.

MÚSICA: OVER THE RAINBOW MÃE: Ainda com esse figurino, menina? Vamos, se apresse! Vamos pra casa de veraneio.

MARY KATIE: Minha mãe! Me chame pelo meu nome. Eu me chamo Mary Katie! MÃE: Sim, pequena diva. Está bem, senhorita Mary Katie! MARY KATIE: Gostou do penteado? E esse vestido apertado na cintura, a senhora acha que combinou com o sapato? A maquiagem ficou linda, não ficou? MÃE: Está uma princesa! Mas ande logo que daqui a pouco seu pai chega. Eu quero estar em Itapagipe antes da hora da Ave Maria. Olhe ele aí! Não morre mais. PAI: Boa tarde, Senhorita Mary Katie! MARY KATIE:Good afternoon! How am I, dad? MÃE: Como é que pode! Essa menina viu tanto filme americano que aprendeu a falar inglês por conta própria! É demais! PAI: Deixa apreciar a minha movie star! Que belezura! Está muito mais bonita do que Greta Garbo em Grande Hotel... MARY KATIE (dá uma gargalhada): Olhe o que eu tenho para o senhor! PAI: Ai meu Deus, senhorita Mary Katie... Cartas e mais cartas! Para Judy Garland... Susan Hayward... Gregory Peck… MÃE: Cuidado com os ídolos viu, senhorita Mary Katie? Mas vamos, vamos que já está ficando tarde. Shirley Temple surge na tela dançando como Ginger Rogers. MARY KATIE: Quando eu chegar em Itapagipe, vou mostrar pra vocês os passos que aprendi com Ginger Rogers e Fred Astaire. PAI: Ah, esse espetáculo eu não posso perder! E pode deixar que no caminho eu ponho as cartas no correio. A imagem de Shirley Temple dançando se transforma em seu rosto sério/triste, que se funde com a foto de Nilda criança.


NILDA, falando para a tela: Vou te confessar uma coisa, Mary Kate: passei a vida sendo a mesma menina querendo brincar.

Vinheta de abertura da Twenty Century Fox (imagem e música)

CENA 03 NILDA: Vem, Genaro! Foto de Genaro de Carvalho, artista plástico. NILDA: Vamos rápido que a fila pra Juventude Transviada deve estar enorme!

MÚSICA: SINGING IN THE RAIN. GENARO: Nilda.

sorveteria. Meu Deus! Serei a nova estrela de Hollywood! GENARO: Hollywood ainda não. Bahia, Nilda, Bahia… Quero que você conheça um grande artista que está aqui em Salvador: meu amigo Martim Gonçalves. Imagens de Martim Gonçalves, da Escola de Teatro da Ufba, de peças e materiais da época. NILDA: Quem é? GENARO: Aquele que vai fundar uma escola de teatro na Universidade da Bahia. Ele mesmo! Vou oferecer um coquetel pra ele em minha casa e quero que você vá.

NILDA: Vamos!

NILDA: E ele, lá, vai reparar em mim no meio de tanta gente...

CENA 04

GENARO: Vamos ver. Eu duvido que ele não te note. É bom você começar a treinar. Seu lugar é no palco!

GENARO: Nilda! Você precisa ser revelada, minha amiga. NILDA: Não estamos em Hollywood, Genaro de Carvalho! Eu gosto, eu brinco, mas eu sei: aqui é a Bahia. GENARO: Mas você é a estrela das nossas reuniões. Quem é que brilha nas festas imitando Judy Garland em “O Mágico de Oz”? NILDA: Bahia, Genaro... GENARO: Hein? Me diga! E quando alguém pede: “Nilda, imite Gene Kelly!” Quem é que entra em cena toda desinibida cantando. Genaro canta: I’m Singin’In the Rain / Jus’t Singin’In the Rain... NILDA: Bahia, Genaro... GENARO: Você é uma atriz! E por isso tenho um convite pra te fazer. NILDA: Já sei. Vai me levar pros Estados Unidos. Eu vou ser descoberta numa

CENA 05 NILDA: Mas não era um coquetel? Não tem ninguém! GENARO: É somente pra você, minha estrela! E pra ele que acaba de chegar.

MÚSICA: THE LADY IS A TRAMP Entra Martim Gonçalves. Foto dele é ampliada e fixada na tela. GENARO: Seja bem-vindo, meu amigo! Quero que conheça Nilda Spencer, uma atriz. MARTIM: Então você é a famosa Nilda, a Judy Garland da Bahia! NILDA: Ah, quem me dera! MARTIM: Genaro me falou da sua paixão pelo cinema. GENARO: Paixão arrebatadora!


Nilda ri de novo. MARTIM: Com a experiência que eu tenho, posso lhe assegurar que, com essa risada, você coloca uma plateia inteira na palma da sua mão. Nilda ri de novo. MARTIM: Amanhã eu vou dirigir uma leitura dramática. O Auto da Cananéia. Tenho um papel pra você. NILDA: Sério? Meu Deus! Não sei nem o que dizer!

CANTORA: but doesn’t come late NILDA: pelas minhas costas CANTORA: She’d never bother NILDA: Mundana CANTORA: with people she’d hate NILDA: pelas minhas costas, uma vagabunda! CANTORA: That’s why the lady is a tramp NILDA: O que é que eu faço? Quem sou eu, afinal? A mulher de vida confortável CANTORA: Doesn’t like crap games

MARTIM: No casarão da residência universitária. Estarei te esperando.

NILDA: Bem casada

NILDA: Olha que eu tomo coragem e apareço mesmo.

NILDA: mãe de duas meninas

MARTIM: Vá sim! Mas sou impaciente e rígido com quem não cumpre os horários. No meu trabalho, quem atrasa fica do lado de fora. GENARO: Vamos brindar o grande encontro. NILDA: Um brinde aos dois cavalheiros! MARTIM E GENARO: Um brinde à dama! NILDA: Dama? The Lady is a tramp!

CENA 06 MÚSICA: THE LADY IS A TRAMP NILDA: Uma mulher em cima de um palco. Exposta! Todo mundo olhando! Ousadia demais! CANTORA: She gets too hungry, for dinner at eight NILDA: Vão dizer pelas minhas costas CANTORA: She loves the theater NILDA: que virei uma perdida

CANTORA: with barons or earls CANTORA: Won’t go to Harlem NILDA: Um mulher da sociedade CANTORA: in ermine and pearls NILDA: A grã-fina certinha CANTORA: Won’t dish the dirt NILDA: Da elite baiana CANTORA: with the rest of those girls NILDA: e essa inquietação aqui dentro? CANTORA: That’s why the lady is a tramp NILDA: E esse meu encanto pelas estrelas de Hollywood CANTORA: She loves the free, fresh wind in her hair NILDA: Que me fazem sonhar CANTORA: Life without care NILDA: sim, os sonhos! CANTORA: She’s broke NILDA: Essa convivência CANTORA: but it’s ok


NILDA: desde criança

NILDA: Martim!

CANTORA: She hates California

MÚSICA: AS TIME GOES BY

NILDA: com uma atriz dentro de mim CANTORA: it’s cold and it’s damp NILDA: Querendo voar CANTORA: That’s why the lady is a tramp NILDA: Eu preciso pedir permissão pra ser feliz? CANTORA: She gets too hungry NILDA: pra ter os prazeres do mundo CANTORA: for dinner at eight NILDA: permissão a quem? CANTORA: She loves the theater NILDA: Ao meu pai? Meu marido?

MARTIM: Nilda, meus parabéns! Li os elogios na crítica de Senhorita Júlia! NILDA: A primeira! Pra não esquecer nunca mais! MARTIM: Não esqueça também: um dia eles nos endeusam. No outro, tentam nos destruir. Na tela, surge a imagem desfocada de Othon Bastos desfocado. Foco. Foto de Othon. OTHON: Nilda, adorei a crítica à senhorita Júlia, mas guarde só os elogios! NILDA: Othon Bastos! Vamos rápido que a gente já está em cima da hora! OTHON: Cheguei!

NILDA: guardiões da moral

NILDA: Ainda bem que Martim não te viu chegar esbaforido desse jeito. Ele é rígido com os horários.

CANTORA: She’d never bother,

OTHON: Vumbora!

NILDA: Da sociedade baiana?

NILDA: Trouxe o texto?

CANTORA: with people she’d hate

OTHON: Tá aqui, tá aqui.

CANTORA: but doesn’t come late

NILDA: Quero comunicar

NILDA: Então vamos.

CANTORA: That’s why the lady

MÚSICA: CHORINHO DAS IRMÃS

NILDA: A vocês

Entram num ônibus para uma leitura dramática itinerante.

CANTORA: That’s why the lady NILDA: Que eu vou… CANTORA: That’s why the lady NILDA: vou fazer teatro! CANTORA: is a tramp

CENA 07 Imagens do início da carreira de Nilda, a partir do “Auto da Cananéia”

CENA 08 NILDA: Boa tarde, senhores passageiros da linha Canela-Praça da Sé! OTHON: Boa tarde, senhor motorista e senhor cobrador! NILDA: Hoje nós apresentamos um trecho da peça A Almanjarra, uma comédia brasileira que em breve estará em cartaz no Teatro Santo Antônio, logo ali, na esquina da


Rua Araújo Pinho. Se gostaram, senhoras e senhores, apareçam lá pra nos prestigiar. Imagens da montagem de “A Almanjarra”. OTHON: Obrigado! Tenham todos uma boa viagem! NILDA: E viva o teatro baiano! PASSAGEIROS/CORO: Viva! NILCINHA: Noemia, nosso ponto! NOEMIA: Fiquei curiosa pra ver o que tinha na almanjarra. NILCINHA: E o que é uma almanjarra? NOEMIA: Guarda-roupas, Nilcinha OTHON, ao ouvido de Noemia: Vá nos ver no teatro que você descobrirá. NOEMIA: Irei sim, eu e minha irmã. Na matinê! Parabéns, parabéns! Adorei o teatro! NILDA: Obrigada, meu amor! Vá ver nosso espetáculo! Leve sua irmã! NOEMIA: Ah, muito obrigada! Iremos sim, na matinê. NILCINHA: Noemia

NILDA: Imagina se eu ia deixar de viver uma experiência dessas! Não devo nada a ninguém! OTHON: Assim é que se fala. Você e seu marido estão anos-luz à frente desta província. NILDA: Minhas filhas, Susan e Judy estão ótimas, bem educadas, amadas. Quem quiser censurar, que censure! OTHON: O teatro te chamou pra vida! NILDA: Eu renasci!... OTHON: E virou a presença mais aguardada pelos boêmios! NILDA: Ah, sair à noite me faz um bem enorme. Não é só pra estar na boêmia, não. Eu adoro ensaiar até às quatro da manhã e depois voltar pra casa na companhia de um grupo de artistas, a pé pela rua, sentindo o vento bater no meu rosto, saboreando a madrugada… Mas vamos! Vamos ali na Cubana tomar um Dusty Miller que eu tô morrendo de calor. Ô cidade quente, meu Deus! Os dois saem de cena.

MOTORISTA: Praça da Sé! NILCINHA: você vai descer desse ônibus ou não vai?

CENA 10

NOEMIA: Me deixe, viu Nilcinha! O Elevador Lacerda acabou de subir.

CORO aplaude.

Todos saem do ônibus.

Fotos de “A Almanjarra” na montagem de Antônio Patiño, na Escola de Teatro (1958).

CENA 09 MÚSICA: THE LADY IS A TRAMP OTHON, andando na rua com Nilda: Você não abre mão da sua liberdade, hein Nilda? Entra e sai desses ônibus dando uma banana pros moralistas desta cidade.

MÚSICA: CHORINHO DAS IRMÃS NILCINHA: Noemia, pra todos os efeitos eu fui à missa das seis, viu? Valdir não pode desconfiar dessa minha vinda com você à matinê do teatro. NOEMIA: Deixe de ser frouxa, Nilcinha! Pare de ficar abaixando a cabeça pra homem


controlador! Você tem que sair de casa, sim, se divertir um pouquinho, parar de ficar na lavanderia lavando cueca de marido! Não foi bom ter ido comigo ao teatro? Eu adorei! Ai que sonho ter visto o meu ator de novo, bem de pertinho! NILCINHA: Já vi que hoje você vai dormir com os anjos! NOEMIA: E sonhar com Othon... NILCINHA: Aquela moça do ônibus, como é mesmo o nome dela? NOEMIA: Tá aqui, Nilcinha: Nilda Spencer. NILCINHA: Uma descarada. Escondeu o amante no guarda-roupa. NOEMIA: Ela não, sua abestalhada, a personagem. Eu sou fã de Nilda. Livre como eu! Um exemplo pra todas nós. E vamos pegar um táxi! NILCINHA: Nós duas com um homem dentro de um táxi? E se ele seduzir a gente? NOEMIA: Tem que ter merecimento, Nilcinha!

CENA 11 MÚSICA: “I WANNA HOLD YOUR HAND”. Imagens de Nonato Freire. NILDA: Nonato Freire! Pensei que não vinha mais... NONATO: Cheguei, cheguei! Ainda dá tempo de abraçar a minha Ginger Rogers? NILDA: Ah meu Fred Astaire! Vou sentir saudades. Torça por mim! NONATO: Viajar sozinha para estudar fora do país! Você vai gerar um bafafá nessa Bahia! NILDA: Eu não podia perder essa chance. Imagine! Uma pós-graduação na Inglaterra!

Eu quero mais do mundo, meu amigo amado! NONATO: Essa viagem promete grandes emoções... Imagens das fãs nas platéias dos shows dos Beatles e dos artistas, no filme “A hard Day’s Night” NILDA: E pode anotar que eu vou realizar um sonho de arrepiar o coração. Siiiiim! Eles! Eu não volto pra Bahia sem ter visto um show dos Beatles. CORO: Oh, yeah, I’ll tell you somethin’ I think you’ll understand When I say that somethin’ I want to hold your hand I want to hold your hand I want to hold your hand NONATO: Mas cadê seu marido, as meninas? NILDA: As meninas já foram pra escola. Melhor assim que é pro meu coração não apertar. Julius se despediu de mim ontem. Foi trabalhar no interior, mas volta no domingo. Sempre que você puder, dá uma passadinha aqui em casa pra mim? NONATO: Pode deixar que eu venho ver marido, cachorro, filhas... NILDA: Lembre a Judy pra molhar as minhas plantas! NONATO: Deixa comigo. NILDA: Cuide-se viu, seu descarado! NONATO: E você mande brasa! Aproveite! Boa viagem, meu amor!

MÚSICA: CHEGA DE SAUDADE

CENA 12 Imagens da casa de Nilda, no Corredor da Vitória - bairro da elite baiana. Entra Nonato Freire.


NILDA: Nonato descarado! NONATO: Fim de tarde na casa da mangueira ao som de Chega de Saudade! Já vou providenciar meu uísque calibrado pra me deliciar. Isso é o que se pode chamar de sofisticação. NILDA: Não consigo tirar essa música da cabeça. NONATO: Adoro João Gilberto. NILDA: E ele cantou ao vivo pra gente, semana passada, bem no meio desta sala! NONATO: Mentira! Com violão e tudo?

a gente incendeia a pista do Hotel da Bahia. Hoje eu quero dançar, dançar muito! ZEZÉ: Então combinado! NILDA: E depois da farra, a gente passa no Dois de Julho, na barraca de Felismina, e toma um mingau. A essa altura o dia já vai ter amanhecido, os feirantes começam a chegar e eu já aproveito pra fazer minha feira. NONATO: E volta pra casa cheia de disposição pra fazer o almoço. NILDA: Meio-dia em ponto meu escaldado de peru estará sendo servido.

NILDA: Noite inesquecível! E eu ainda nem me refiz da viagem a Londres. Eita que eu preciso de um Red Label

OTHON: À francesa!

Imagens da elite baiana dos anos 1970’s. Entram os amigos da boêmia.

OTHON: : Tudo arrumado e decorado, como manda a boa etiqueta, sem faltar nenhum detalhe.

NONATO: Olha o povo da boemia chegando! NILDA: Zezé! Othon! OTHON: Salve o casal Ginger Rogers e Fred Astaire! ZEZÉ: Nilda meu amor, e Mr. Spencer, como vai nosso geólogo? NILDA: Viajou a trabalho. Julius e seus poços artesianos pelo interior afora...

ZEZÉ: E com talheres nas posições certas, guardanapos, água, suco, sobremesa, arranjo de flores...

NONATO: Nilda, você é muito fresca! NILDA: Sou? Me leve pra comer um mocotó no Porto do Moreira ou uma buchada no Mercado das Sete Portas e você vai ver quem é a fresca... Vamos pra night! ZEZÉ: E seu irmão, como vai? Nilda fica em silêncio.

NONATO: Esse americano não para quieto! NILDA: Aqui em casa é assim. Ele com os poços dele, eu com o meu teatro. Casados e livres! OTHON: Gente, hoje tem festa na boate do Hotel da Bahia! NONATO: Eita que a noite promete! Vai ter puteiro nessa rota? Quero fazer um “dois pra lá, dois pra cá” no meio das putas. NILDA: Claro, seu descarado! Rota de hoje do Bahia by Night: vamos na Ladeira da Montanha dançar uns boleros no Meia-Três, depois seguimos pro Tabaris e na madrugada

CENA 13 NILDA: Pixoxó

MÚSICA: “NATURE BOY” Entra Pixoxó. NILDA: Chega, Pixoxó! Você já foi longe demais. Esse vício vai te destruir, meu irmão! PIXOXÓ: Ah, Senhorita Marie Katie! Você não sonhou em ser uma estrela de Hollywood?


Pois toda estrela tem os seus dramas pessoais, minha irmã. Eu sou um bom enredo da sua tragédia pessoal na vida privada. O irmão bêbado, pinguço, cachaceiro... Mas você é uma mulher forte! Nada te derruba, Nilda! NILDA: Engano seu. E o sofredor aqui é você! Quanto a mim, o que eu sinto não é só vergonha, não. O que eu sinto é dor, tristeza, pena de te ver assim. Um jornalista brilhante! Um prodígio, um talento assombroso! Almoçou com governadores, jantou com presidentes da República! E está enterrando a saúde num buraco! PIXOXÓ: Está bem, está bem. Podem me internar no Sanatório Bahia. Mas com uma condição: eu vou beber em todos os bares do caminho, da Vitória até a Lapinha, como uma festa de despedida. NILDA: Olha o seu estado! Cabeça ferida, amarrada por ataduras. Briga com oficiais do Exército num bar de hotel, Pixoxó? Você enlouqueceu? PIXOXÓ: Lá vem a boa irmã do irmãozinho caçula que tentou ser o Filho Pródigo. Quer saber? No fundo, eu sempre quis te superar. Queria ser melhor do que você diante da nossa família, da parentada toda... NILDA: Pois saiba que eu não tô nada bem. É muito duro. Eu me sinto muito angustiada de te ver assim.

SOLISTA: Siempre que te pregunto Que cuándo, cómo y donde Tu siempre me respondes Quizás, quizás, quizás Y así pasan los días Y yo desesperando Y tu, tu contestando Quizás, quizás, quizás Estas perdiendo el tempo Pensando, pensando Por lo que mas tu quieras Hasta cuándo, hasta cuándo Y así pasan los días Y yo desesperando Y tu, tu contestando Quizás, quizás, quizás Casais dançam de rosto colado. NILDA: Olhe pra essa vista! A Baía de Todos os Santos, uma maravilha! JANETE: Já chorei muito vendo o pôr do sol daqui da janela. O sol baixando e a saudade das pessoas que eu deixei pra trás aumentando. NILDA: E essa voz desanimada, Janete? Você é a alegria do Meia-Três! Levanta, mulher. MARGÔ: Fossa, Nilda! Caiu na besteira de se envolver com homem casado.

PIXOXÓ: Vai pra night?

NILDA: Aliança no dedo? Aí complica…

NILDA: Vou sim. Vou dispersar os pensamentos, me divertir um pouco. Ou pelo menos tentar.

JANETE: Ele subiu a ladeira ontem de tarde na maior pose, dirigindo um Chevette todo derrubado. Viu que eu tava na calçada e nem olhou pra minha cara. Filho da puta!

CENA 14 MÚSICA: “QUIZÁS, QUIZÁS, QUIZÁS” Imagens do Meia-Três, bordel na Ladeira da Montanha. Somam-se às da elite baiana dos anos 1970’s

MARGÔ: Filho meu não, que eu não ia parir aquela desgraça! RIEM. NILDA: Ah, você merece coisa muito melhor! Né não, Margô? MARGÔ: Ah, merece! Aquilo ali é um atraso de vida! NILDA: Não vai faltar quem te console!


JANETE: Aquele escroto me pegou de jeito. Que homem gostoso! MARGÔ: Nilda, olhe pra cá. Não vale nada, mas ó... NILDA: Tá explicada a saudade! Janete, não se ofenda não. Bota um dinheiro dentro do sutiã de Janete. Vá amanhã num salão de beleza, arrume o cabelo e pinte as unhas. MARGÔ: Vai te ajudar a tirar esse homem da cabeça, minha comadre. JANETE: Vou fazer isso mesmo. Amanhã eu desço no Taboão, bato na porta do salão de Didi e me arrumo toda. NILDA: É assim que se fala! JANETE: Qual é o filme que você tá fazendo agora? NILDA: Agora tô fazendo uma peça de teatro: Calígula! JANETE: Ah, peça de teatro. Zezé me mostrou um cartaz com você e seu marido nessa peça de teatro. NILDA: Meu marido não, marido da minha personagem.

De ti o menor gesto adorei Esquecido da própria vida Perfídia Mandaste em troca, não esqueci Das rosas, das orquídeas e das violetas Que eu dava a ti A imprensa não deixa Martim Gonçalves em paz! É pedrada em cima de pedrada. Que perseguição dos infernos! CORO 2: Todo mundo sabe que esse diretor metido a besta não desce do pedestal. Ele é uma comédia de erros! CORO 1: Todo mundo quem? Esses jornalistas ferozes que se recusam a apurar os fatos? Essa elite baiana provinciana? Uma cambada de hipócritas! CORO 3: No começo batiam palmas, mas agora rejeitam porque perceberam que Martim não ia se submeter aos interesses dessa gente! CORO 4: Um colonizador que despreza a cultura local! De patriota ele não tem nada.

NILDA: Calígula. O ator é Sérgio Cardoso.

CORO 1: Pois eu vou desmontar esse seu comentário cretino com dados reais. Martim Gonçalves contribuiu para a criação do Museu de Arte Moderna da Bahia!

MARGÔ: Lindo! Sérgio com S de sonho!

CORO 5: E o Museu de Arte Sacra.

JANETE: Qual o nome dele?

JANETE: Mas a minha realidade se chama Sivonei com S de sacana!

CENA 15 MÚSICA: “PERFÍDIA” Imagens de Martin Gonçalves e recortes de jornais sobre ele e sua saída da Escola de Teatro. CORO 1, canta: Amei como ninguém te amou querida

CORO 3: E o Centro de Estudos AfroOrientais. CORO 2: Eu nunca ouvi falar de nada disso. Colonizador, sim! Temperamental, vaidoso! CORO 3: Colonizador porra nenhuma! Martim deu ajuda financeira para a gravação do xirê completo de um candomblé, caramba! No palco do Teatro Santo Antônio, dentro da Escola de Teatro! CORO 5: Vocês são desinformados. Acusam por pura ignorância! É uma gente que se contenta com fofocas, com o disse me disse. CORO

2:

Martim

Gonçalves

é

um


deslumbrado, uma estrela, se acha o rei da Bahia. E nem baiano ele é.

são canalizadas verbas volumosas...

CORO 5: Nossa, que mentalidade atrasada!

É isso, meu caro… Sempre me falaram sobre a Bahia isso: Aqui é uma lata de caranguejos. Ninguém pode sair porque os outros puxam para baixo. Um dia nos endeusam. No outro, querem nos destruir.

CORO 4: Adiantado é Martim Gonçalves, o Calígula do Canela... CORO 3: É só isso que vocês sabem fazer. Repetir bobagens, como esse apelido idiota dado pela imprensa.

MARTIM: Chega. Já ouvi o suficiente.

CORO 4: Podem apostar. Esse aí não fica muito tempo na Bahia não.

CENA 17

CORO 1: A Bahia é que vai perder sem ele.

MÚSICA: “PRIMAVERA NOS DENTES”

CORO: E agora que adoras a quem te magoa Perdoa pelo bem que eu te quis CORO 1: Perdoa e serás feliz

CORO 2: Já soube né? CORO 3: Li agora a manchete... Que bomba! Diretor da Escola de Teatro pede demissão do cargo e viaja para o Rio de Janeiro…

CENA 16 Entra MARTIM GONÇALVES.

CORO 5: Acabei de passar pela frente da Escola de Teatro. A pichação continua lá no muro: ‘Fora, viado!’

CORO 3: Leu o jornal?

CORO 1: Tem jeito não, isso aqui vai ser sempre uma província... E quem vai assumir o cargo?

MÚSICA: PRIMAVERA NOS DENTES MARTIM: A crítica de Calígula? CORO 3: Um pouco pior. MARTIM: Pior do que ser chamado de superficial, vazio e sem lucidez? CORO 3: Acusam você de ter brigado com Sérgio Cardoso nos bastidores de Calígula. Chamam você de destemperado. MARTIM: Pode ler, eu quero ouvir. Uma pedrada a mais, uma a menos... CORO: O Sr. temperamental

CORO 3: Caramba, ele não aguentou a pressão!

Martim

Gonçalves

é

(Pausa. Olha pra Martim que permanece em silêncio) E ninguém teria nada com isso se os seus destemperos não comprometesse um setor importante da Universidade, para onde, aliás,

CORO 3: É, escolheram a mulher mais diplomática do mundo... Mas ela foi corajosa. CORO 5: Rapaz, vou te dizer… Com a situação política deste país agora… essa vai ser a experiência mais espinhosa da vida dela. CORO: Quem tem consciência para ter coragem Quem tem a força de saber que existe E no centro da própria engrenagem Inventa contra a mola que resiste

CENA 18 Sentado numa cadeira, de frente pra uma mesa, o Delegado aguarda a chegada de NILDA.


MÚSICA: TEMA DO DELEGACIA DELEGADO: Sente-se, Sra. Spencer. NILDA senta-se sorrindo em silêncio. DELEGADO: Dona Nilda, a senhora está à frente de uma instituição na universidade FEDERAL que está virando um reduto de subversivos promotores da desordem. Uma gente que não respeita nem o general Castelo Branco. NILDA: Por que o senhor me chamou aqui, Sr. Delegado? DELEGADO: Porque a senhora é a maior autoridade de um lugar que precisamos olhar com muita atenção, dona Nilda. Essa gente jovem, barulhenta, de esquerda, é uma ameaça pro nosso país. Eu tenho aqui uma lista com nomes de vários comunistas ligados ao Centro Popular de Cultura, esse tal de CPC. Dona Nilda, esses comunistas estão na sua Escola. NILDA: E o senhor quer me dizer exatamente o que? DELEGADO: Pois bem, eu vou direto ao assunto. Se a senhora quer que a Escola de Teatro continue existindo, a senhora precisa, como diretora, compreender o perigo e escolher o melhor caminho. E o melhor caminho é tirar esses comunistas de cena. Compreendeu Dona Nilda? Sai.

CENA 19 MÚSICA: DEUS LHE PAGUE ALUNO 1: Entramos nesta Escola de Teatro só pra aprimorar o que a gente fazia no CPC: teatro político. ALUNO 2: E a senhora nos expulsou. NILDA: Acreditem, era a expulsão de vocês

ou o fechamento da Escola. ALUNO 2: A senhora poderia ter considerado a alternativa de se demitir do cargo. Isso lhe pouparia de se submeter aos desmandos do regime militar. NILDA: Eles me deixaram acuada! ALUNO 2: E a senhora cedeu. Tem conseguido dormir tranquila ou já começou a sentir remorso? NILDA: Vocês pensam que é fácil? Vocês acham o quê? Como vocês imaginam que essa gente olha pra uma mulher que faz teatro de que jeito? ALUNO 1: A senhora está se vitimizando. NILDA: Vocês acham que eles me respeitam? Que entendem minha profissão é profissão? Claro que não! ALUNO 1: Mas a senhora está dentro de uma universidade! Tem que saber enfrentar conflitos e se impor. A situação exige pulso firme! NILDA: Falar é fácil! Pois saibam vocês que eu já tive que me defender de muito moleque covarde filho de colarinho branco que invadiu a Escola de Teatro pra brincar de agredir as alunas. Não é justo me acusarem de covardia. Ser mulher e fazer teatro nessa província machista é pra quem tem coragem! Coragem de se submeter ao crivo da polícia pra poder trabalhar! ALUNO 2: Ora diretora, use outro argumento pra se defender! Esse aí não cola, não. NILDA: Vocês pensam que sabem tudo, mas vocês não sabem nada! Continuamos sendo vistas por muita gente como mulheres depravadas! Não é só um delegado que nos julga. É um sistema inteiro! A sentença também está nos olhares, nas entrelinhas, no que não é dito... Eu tenho 40 anos de idade, rapaz! Não sou uma mocinha, não. E se você quer saber, me orgulho muito de ter sido uma das primeiras mulheres a fazer teatro


profissional nesta cidade! ALUNO 1: Mas na hora de ceder aos militares, a senhora abaixou a cabeça e cedeu. A senhora não estava presa à chantagem por um prego. Era uma posição que permitia escolhas. NILDA: Eu sei disso. Se eu me demitisse, talvez o meu substituto fosse um tenente, um capitão do Exército... Quem há de saber? Compreendam. A situação poderia ter ficado muito pior do que já está. ALUNO 1: Eu não vou mais discutir com a senhora. Sua consciência é seu guia. ALUNO 2: Vamos embora.

preocupe! Eu te garanto que ela vai, nem que eu vá junto! Pausa NILDA: Ligo, ligo! Pode aguardar! Você não imagina como estou emocionada com essa incumbência. Esse telefonema foi de rasgar o coração. Dá um beijo em Nara! Desliga NILDA: Corre Nilda, que ela não pode perder essa chance por nada nesse mundo! NILDA: Alô! É da casa de seu Zeca? Aqui quem fala é Nilda Spencer. Eu preciso falar urgentemente com Maria Bethânia...

Sirenes de viaturas policiais ecoam. Coro entra em cena. Todos estão tensos e correm pelo palco. O som das sirenes se transforma no som de um telefone tocando.

MÚSICA: CARCARÁ

CENA 20 NILDA: Sim, pois não, é ela!

NILDA: Ah, Bethânia? Ave Maria, que bom que você atendeu! Bethânia! Pare tudo agora! Você vai pro Rio! Lembra que Nara Leão viu o seu ensaio no Teatro Vila Velha?

Pausa

Pausa

NILDA: Vianinha! A que devo a honra?

NILDA: Pois Nara não vai poder continuar a fazer o Opinião, teve um problema na voz. E o show tá o maior sucesso no Rio, uma loucura! E você vai substituir Nara, menina

Pausa NILDA: Sim, sim, conheço. Eu conheço essa Bahia inteira, meu querido! Dizem que eu sou bem relacionada com o governador, o prefeito, os artistas, o cardeal, as mães de santo… Nós duas fazemos aniversário no mesmo dia. Conheço muito! Mas me conte! O que houve?

Pausa

Pausa. Porque ela mesma te indicou pra isso. Eu acabei de receber um telefonema de Vianinha me pedindo pra te achar. Pausa

Pausa

NILDA: Eu sei, eu sei que isso é um susto...

NILDA: Não diga! Que pena!

Pausa

Pausa

NILDA: Eu convenço seu pai, pode deixar comigo. Caetano pode ir junto. Ou Nicinha ou Mabel… Contanto que você vá. O Brasil precisa começar a te conhecer, menina! É a hora e a vez de Maria Bethânia!

NILDA: Fique tranquilo. Vou ligar pra ela agora. Transmito o recado e já me adianto e compro a passagem de avião. Nem se


Pausa NILDA: Fique feliz, fique muito feliz! E quer saber? Vou comprar minha passagem pra ir também. Vamos comemorar! Champagne no gelo! BETHÂNIA, em imagem, no show “Opinião”: Carcará Pega, mata e come..

CENA 20 NONATO: Você hein? Ajudou Maria Bethânia voar pro sucesso. NILDA: Eu também voei! Comprei minha passagem a prazo e me mandei pro Rio de Janeiro. NONATO: Eita mulher poderosa da porra! É por isso que as pessoas querem frequentar o grande salão das recepções de Nilda Spencer no Corredor da Vitória. A famosa casa da mangueira. A senhora é muito pé quente, Dona Nilda. Todo mundo quer chupar sua manga! Uma verdadeira constelação já passou pela casa da mangueira e sentou no seu sofá. Até ela, a lenda! Aparece imagens do filme “Janis” e ela canta “Cry, Baby” NILDA: Até hoje eu não acredito que isso aconteceu. Ela esteve aqui e bebeu meu Red Label!

CENA 21 NILDA: As minhas filhas vão achar que eu tive uma alucinação. Eu estou espantada! Janis Joplin na casa da mangueira! Nem eu mesma estou acreditando nisso. Vou servir um uísque. Vamos de Red Label, o meu preferido! Quem diria que um dia eu estaria sentada no meu sofá, bebendo uísque com

a musa de Woodstok! Tome mais um gole! Você precisa conhecer Arembepe! Vamos de moto? Já pensou? Eu montada na garupa da moto de Janis Joplin! Que desbunde! Vamos brindar, vamos brindar! Imagens da Bahia na década de 1970 e imagens da ditadura militar. MÚSICA: SATISFACTION CORO 4: Fecharam a Bienal de Artes Plásticas da Bahia CORO3: Jogaram o diretor da Bienal em uma cela CORO 5: Censuraram uma peça em que as personagens eram travestis CORO 1: Invadiram o metralhadoras em punho

teatro

com

CORO 6: Protestei e fui encurralado dentro de uma viatura na base da porrada CORO 2: Fui expulso do teatro com socos e pontapés CORO 6: Fui revistado, fotografado, fichado, humilhado CORO 4: Passei a noite preso na Secretaria de Segurança Pública CORO 5: A tropa de choque atacou os estudantes na Rua Chile CORO 1: O meu amor morreu levando pauladas no chão da Praça Castro Alves CORO 3: Gil e Caetano estão no exílio CORO 5: Que despedida emocionante! O TCA estava superlotado CORO 2: A plateia inteira chorou NILDA: Eu chorei. CORO 6: Eu também chorei CORO 1: Gil e Caetano choraram! CORO 2: Atiraram bombas juninas no Teatro


Vila Velha

NILDA: Vamos dar uma voltinha em Aracaju?

CORO 4: No meio do espetáculo

CORO e NONATO: Aracaju?

CORO 3: O público ficou apavorado!

NILDA: Por que não?

NILDA: Eu estava no elenco do espetáculo. No palco.

CORO 3: Mas Nilda! Já passa das duas horas da madrugada!

CENA 23

NILDA: Não estão sentindo não? A noite está chamando a gente pra comer caranguejo em Atalaia! CORO, canta: Aracaju Cajueiro arara cor de sangue

MÚSICA: “DEUS LHE PAGUE” NILDA, entra no carro com uma amiga: Vamos, rápido! AMIGA: Você acha que vai dar certo? NILDA: Vai sim, confie em mim. Já ajudei outros amigos nessa travessia e deu certo. Vai dar certo com você também.

NILDA: É só pegar o volante e seguir viagem. CORO, canta: Nordeste-Sul Centro da cidade bangue-bangue NILDA: Estou sóbria! CORO, canta: Aracaju

AMIGA: A repressão tá barra pesada demais. Se eu não conseguir fugir, eles vão me pegar.

CORO 6: Você está sempre sóbria, é impressionante! Nunca vi ninguém beber com tanta categoria.

NILDA: Vou dirigindo meu Dauphine até a Avenida Contorno com você na carona.

CORO 1: Sempre numa classe absurda! Eu jamais te vi fora do tom.

AMIGA: E se eles desconfiarem?

NONATO: Seja qual for o lugar, Nilda será sempre uma lady!

NILDA: Não se preocupe. Eu faço pose de dama da sociedade ao volante, daquelas bem burguesas que batem palmas para os militares. É só vestir a personagem que ninguém vai desconfiar de nada. Vumbora. AMIGA: E vai ter alguém lá pra me ajudar? NILDA: Quando a gente chegar, já vai ter um barco à espera pra fazer sua travessia até a Ilha de Itaparica. Agora vamos que a gente não tem tempo a perder. Você vai pelo mar.

NILDA: The lady is a tramp… E então, vamos ou não vamos tomar a saideira em Aracaju? NONATO e CORO: Vamos! NILDA: Avante amigos do copo! CORO, canta: Ser feliz O melhor lugar é ser feliz O melhor é ser feliz Onde estou Não importa tanto aonde vou O melhor é ter amor

CENA 24 MÚSICA “ARACAJU” CORO 1: E agora, vamos pra onde? Anjo Azul, Varandá ou Casa de China?

CENA 25 MÚSICA: THE LADY IS A TRAMP Fotos de Nilda em muitas peças.


NILDA: Eu sou uma mulher de muitas máscaras, de muitas cenas, de muitos papéis. Essa gente careta distribui sorrisos na minha frente e pelas minhas costas diz que eu vivo na esbórnia, que eu não presto, que eu sou uma irresponsável, uma louca. Tenho as minhas contradições, sim. Pra ser considerada mulher direita nesta cidade, é preciso cumprir regras rígidas. Mas eu estou pouco me lixando pra essas regras. Eu sou dona de mim mesma. Dona dos meus fantasmas, das minhas condutas. Dona das minhas farras, das minhas transgressões, da minha arte, da minha vida.

CENA 26 MÚSICA: DEUS LHE PAGUE NILDA, para os ALUNOS: Eu não sou obrigada a aturar aluno que cheira mal, que não usa desodorante. Não sou! Eu não aceito isso! ALUNO 3: Falou a mulher de fino trato, sempre maquiada, cheirosa, bem penteada, com seu tailleur impecável. ALUNA 4: A senhora não aceita porque sempre foi elitista! NILDA: Elitista? Como se higiene fosse um produto só de elite, um palavrão. ALUNO 3: A nobre diretora esperava o que? Que a gente batesse palmas pra sua aparência? Pra sua gestão? Pro seu teatrinho clássico? NILDA: A Escola deveria montar só peças engajadas! ALUNA 4: Nós estamos numa ditadura, diretora! A gente precisa usar o teatro pra falar dos problemas do povo brasileiro! NILDA: Mas uma escola de teatro tem que produzir teatro! Peças políticas, comédias regionais…

ALUNO 3: A senhora não compreende isso porque é alienada! Mas se prepare... Se prepare porque vai ter greve! Vai ter greve! CORO: vai ter greve! Vai ter greve!

CENA 27 MÚSICA: DEUS LHE PAGUE Fotos de “Pobre Assassino” na montagem de Harildo Deda. NILDA, para um aluno furioso: Jogaram uma lata de tinta branca em cima dos figurinos! Às vésperas da estreia do espetáculo! Danificaram tudo! Vocês não têm limites! ALUNO 5: Se não aguenta, peça demissão. NILDA: Por que tanta agressão, rapaz? ALUNO 5: Porque você está no poder. Isso já é suficiente pra gente desconfiar e lutar contra. NILDA: É assim que você negocia? Acabando com o figurino criado por um colega? ALUNO 5: Essas pecinhas que a senhora gosta tanto não servem pra nada! Odeio o teatro americano! Odeio Tennessee Williams! Odeio o cinema americano! Hollywood é um lixo! NILDA: Meu filho, calma, não precisa de nada disso! ALUNO 5: Sempre tentando escapar das polêmicas... Mas eu estou aqui pra te afrontar! NILDA: Pra que essa agressividade toda? Não precisa ser na base do grito, do dedo na cara... Vamos conversar! ALUNO 5: Vá à merda com sua diplomacia, sua burguesa! Vá se fuder!

Cospe na cara de Nilda.


CENA 28 Fotos de Nilda em muitas peças diferentes. NILDA: Eu sou uma mulher de muitas máscaras, de muitas cenas, de muitos papéis. Tenho os meus demônios. Existe uma complexidade em mim que é só minha. Que eu guardo comigo muito bem guardada. Que não pertence a ninguém. É só minha. Porque só eu sei o que enfrento. As muitas cusparadas que quiseram dar na minha cara. Olhem pra mim! Eu estou aqui, pronta pra me atirar de cabeça no risco! O AI-5 está tocando o terror, e eu vim pro palco debaixo de uma ditadura. Não cedi. Não abaixei a cabeça. E sabem por que? Porque eu quero mais vida. Ou mais da vida. Parem de me cuspir. Eu estou aqui. RESISTO!

CENA 29 Ouve-se um som de telefone.

MÚSICA: HARE KRISHNA Imagens do filme “Meteorango Kid” NILDA: Eu topo, meu amor! (Pausa) Cinema marginal? Cinema underground! Ai meu Deus! Eu vou fazer cinema! Claro que eu topo! Imagina se eu vou perder essa chance! Nunca! Não é Hollywood, mas é a Bahia! É tudo a mesma coisa! Coincidindo e reproduzindo sua atuação na cena no filme, levanta aos gritos e sai correndo dando voltas pelo palco, sem saber se coloca as mãos tapando o ouvido ou apertando a cabeça: Água! Água! Água!

CENA 30 Nilda anda de um lado para o outro. Está muito aflita.

CORO 4: Acabou de dar no Jornal Nacional. NILDA: Presa! Minha filha está presa! CORO 5: O que houve? NILDA: Prenderam Rita Lee em São Paulo. minha filha faz a luz dos shows dela. São grandes amigas! Levaram as duas pra delegacia. Prenderam Judy também, ai meu Deus do céu! E agora? O que é que eu faço? Eu tenho que entrar em cena daqui a pouco! CORO 1: Rita Lee está grávida! NILDA: Uma artista formidável! Como é que fazem uma coisa dessa? CORO 4: Encontraram apartamento dela

maconha

no

CORO 6: Rita Lee disse pro policial que isso foi armação, que ela tinha parado de fumar por causa da gravidez. CORO 2: Plantaram a droga dentro da casa dela! NILDA: Eu não duvido nada! Os militares odeiam a gente. CORO 3: Já estamos em 1976 e a ditadura continua fazendo seus estragos. CORO 2: O primeiro ato está acabando. Você entra agora, no segundo ato... NILDA: Ai meu Deus, eu preciso manter a calma, preciso respirar, respirar fundo... Calma, Nilda, tenha calma... Eu vou entrar. CORO 4: Você acha que consegue? NILDA: Não sei, mas vamos seguir com o espetáculo. CORO 3: Respire! Pense no público que está te esperando. NILDA: Vamos seguir, vamos seguir. Eu vou entrar em cena. Não sei como, mas vou entrar. Preocupada, desnorteada, apavorada, mas vou entrar. Eu consigo. Vamos continuar o espetáculo! CORO: Vamos continuar o espetáculo!


CENA 31 MÚSICA: “CHUVA SUOR E CERVEJA”. Funde-se a música com a voz original de Nilda Spencer num CD recitando versos do poema “Define a sua Cidade”, de Gregório de Mattos VOZ DE NILDA SPENCER: De dois ff se compõe esta cidade a meu ver: um furtar, outro foder. CORO 6: Abram alas que ela está chegando! CORO 5: A primeira e única presidente da Obús - Organização das Bichas Unidas de Salvador! CORO 4: A musa dos boêmios! CORO 1: A madrinha das travestis! CORO 3: Grã soteropolitana!

fina

da

high

society

CORO 2: Pé de valsa nos inferninhos do centro da cidade! CORO 6: A primeira mulher a beber CocaCola na Bahia!

Em off, a voz original de Nilda Spencer recitando uma estrofe de “Sal, Cal e Alho”, de Gregório de Mattos. VOZ DE NILDA SPENCER: Sal, cal e alho Caiam no teu maldito caralho. Amém. O fogo de Sodoma e Gomorra Em cinzas te reduzam essa porra. Amém

CENA 32 MÚSICA: “LÁBIOS QUE BEIJEI” As imagens de Nilda que surgiram no início, ressurgem no sentido inverso: da infância à velhice com 75 anos. CORO, canta: Lábios que beijei Mãos que eu afaguei Numa noite de luar, assim... O mar na solidão bramia E o vento a soluçar, pedia

CORO 5: E veio pra festa no meio da fechação!

Que fosses sincera para mim...

Nilda entra.

PAULINHO: Nilda eu tô muito nervoso! Errei o endereço, fiquei dando voltas pra encontrar sua casa... Vir aqui pela primeira vez pra conversar com você, falar da minha peça. Eu tô me tremendo todo!

CORO 2: Lá vem ela! CORO 1: A que gosta dos prazeres e delírios da Praça Castro Alves! CORO 2: Ela é um trio elétrico! CORO 4: A primeira rainha dos artistas da Bahia! CORO 3: Coroada no primeiro Baile das Atrizes do Teatro Vila Velha! CORO 6: A dama do teatro baiano! CORO 4: A que nunca desistiu! CORO: Nilda, uma mulher retada!

NILDA: Paulinho, meu querido!

Imagens de “Lábios que Beijei” na encenação de Paulo Henrique Alcântara. NILDA: Que bobagem é essa, Paulo Henrique Alcântara? Venha, sente aqui, fique à vontade! Vumbora falar da peça. Eu quero saber por que um rapaz tão jovem como você está querendo dirigir dois velhos! PAULINHO: Pra aprender. Aprender muito! Eu tô começando, Nilda! Quero usufruir da


sua experiência, da sua voz apurada, da sua disciplina férrea...

NOEMIA: Noemia. Essa é Nilcinha, minha irmã mais nova.

NILDA: E escolheu logo Wilson Mello pra ser meu marido?

NILCINHA: Parabéns pela peça, Dona Nilda.

PAULINHO: Vai ser lindo ver vocês dois no palco. NILDA: Você sabe que Wilson, naquela idade, ainda passa muitas madrugadas fazendo farra no Mercado do Rio Vermelho, não sabe? Se enchendo de Cuba Libre. Se a gente for ensaiar de manhã como eu gosto, o corpo dele chega, mas o espírito vai continuar dormindo.

NILDA: Oxente Nilcinha! Pra que esse “dona”? Dá cá um abraço também! NILCINHA: A gente acompanha seu trabalho desde a década de 50! Eu saía de casa escondida do meu marido só pra te ver em cena. NOEMIA: Menina, a gente viu você fazendo teatro dentro do buzu! NILDA: Jura? Nossa, isso faz muito tempo!

PAULINHO: Tô doido pra te ver em cena morrendo de ciúmes dele com Ava Gardner. E ele fazendo cara feia pra Gregory Peck.

NILCINHA: Pois eu lembro como se fosse ontem! Noemia não queria mais sair do ônibus. Ficou apaixonada por Othon Bastos.

NILDA: Lá vou eu sonhar com Hollywood!

NOEMIA: Nilcinha! E Othon, como vai?

PAULINHO: De braço dado com Wilson na matinê de Bonequinha de Luxo! NILDA: Ai como eu queria ter nascido com a cara de Audrey Hepburn! Queria ter nascido mesmo, não vou mentir! Mas tem Rita Hayworth também, né? Aquela deusa! Não canso de repetir: nunca houve uma mulher como Gilda! PAULINHO: Como Gilda? Não senhora! Nunca houve uma mulher como Nilda!

CENA 33 Continuam as imagens de “Lábios que Beijei” na encenação de Paulo Henrique Alcântara.

MÚSICA: CHORINHO DA IRMÃS VERSÃO II NOEMIA: Nilda! Ah, eu preciso te dar um abraço. Sou sua fã há décadas! NILDA: Oh meu Deus, que coisa mais linda! (As duas se abraçam) Qual o seu nome?

NILDA: Ah, muito bem. Mora no Rio de Janeiro, continua bem casado com Marta Overbeck. A gente se fala de vez em quando pelo telefone. NOEMIA: Meu eterno ídolo! NILDA: Que lindo! NILCINHA: A gente viu muita coisa que a senhora fez. NILDA: Então é amor antigo mesmo! Vão me ver no cinema! Eu vou estrear um novo filme. NOEMIA: Eu sei. O da mulher que tinha três maridos. NILCINHA: Mas não já teve a outra que tinha dois? Um vivo e um morto? NOEMIA: Não esqueceu, hein Nilcinha? Você bem que gostou de ver o morto bem vivo desfilando no Pelourinho com a bunda de fora. Mas a mulher dos três maridos é outra... É Regina Casé! NILCINHA: Mas essa Regina Casé é muito descarada! Três maridos! NILDA: É muita gulodice, né Nilcinha? NOEMIA: Ela não sabe que um é pouco, dois


é bom… Mas três deve ser melhor ainda!

MAUD: Com a vida!

NILCINHA: Lá vem você com suas ousadias.

HAROLD: Você acha que Deus existe?

NOEMIA: Me deixe, viu Nilcinha!

MAUD: Bom, pelo menos dois: um dentro de nós, pra lembrar de onde viemos. E um fora, pra mostrar pra onde vamos.

NILDA: O tempo! NOEMIA e NILCINHA: Passou e a gente nem percebeu!

CENA 34 MÚSICA: THE LADY IS A TRAMP LUCAS: Nilda. Cuidado pra não se cansar tanto. A gente tem tido seis, sete horas de ensaio... NILDA: Relaxe, Lucas. Meu corpo aprendeu a lidar com a musculatura, as articulações, as reações da coluna vertebral. Vocês tão pensando o quê? Meu corpo tem longevidade artística! Não é, Possi? Entram fotos de José Possi Neto POSSI: Essa aí é ligada nos 220 volts. Mas vamos lá! Lembrem que essa é uma história atípica. A história de amor entre um rapaz de 19 anos fascinado pela morte e uma senhora de 79 anos fascinada pela vida. Lucas vem cá! Eu quero muita verdade em cena.

MÚSICA: “BLUE MOON”. Entram fotos de LUCAS VALADARES Imagens da peça “Ensina-me a Viver” na montagem de José Possi Neto. O personagem Haroldo (LUCAS) se aproxima e tira Maúde (NILDA) para dançar. CORO dança com eles. HAROLD: Maud, você reza? MAUD: Eu me comunico. HAROLD: Com Deus?

LUCAS: Ah Nilda! Você não pediu permissão a ninguém pra ser feliz. Que vida! A vida de quem achou graça do mundo com uma gargalhada irresistível. POSSI: Ainda vão fazer uma peça sobre ela. Mas vamos lá... Agora a gente vai ensaiar a cena do beijo entre vocês dois. NILDA: Finalmente o meu primeiro beijo no palco! Não tinha cabimento eu me aposentar sem ter tirado uma lasquinha de ninguém. E logo em Lucas Valadares, um gato desses! LUCAS: É mesmo, Nilda? Você nunca beijou um ator em cena? NILDA: Nunca! Mas bem que eu queria ter beijado! POSSI: Lucas, eu quero que você fique muito à vontade com ela.

MÚSICA: “MOON RIVER” NILDA: Isso mesmo, Lucas. Nada de me tratar como se eu fosse a sua avó. Não esqueça que esse espetáculo é a minha declaração de amor à vida. O importante pra mim é estar viva! Abram-se as cortinas para o meu último sonho. Harold (LUCAS) e Maude (NILDA) se abraçam e se beijam. Imagens de muitos beijos de Hollywood. CANTORA: Moon River, wider than a mile I’m crossing you in style Someday Oh, dream maker You heartbreaker Wherever you’re going I’m going your way


Two drifters off to see the world There’s such a lot of world To see We’re after The same rainbow’s end Waiting round the bend My huckleberry friend Moon River And me Two drifters off to see the world There’s such a lot of world To see We’re after The same rainbow’s end Waiting round the bend My huckleberry friend Moon River And me

CENA 35 NILDA: Quantas pessoas eu vou emocionar esta noite? Quantas noites ainda me restam? Eu não sei. O que eu sei é que o teatro não morre. O teatro permanece. E me guarda… Na projeção, aparece a foto de NILDA Luzes vão se apagando. Foco em Nilda. Ela, aos poucos, fica só no centro do palco. Na tela aparece o público do teatro aplaudindo. O elenco de costas para a platéia agradece à plateia projetada. Saem todos


Foto: Acervo Escola de Teatro da UFBA.


1923

Casa-se com o geólogo americano Julius Spencer, aos 19 anos

1943

1947

Nasce Susan Spencer (Suzy), a segunda filha. A homenageada é a atriz americana Susan Hayward.

Nasce Judy Spencer, a primeira filha. O nome escolhido é uma homenagem à atriz americana Judy Garland.

1949

1956

Atua em espetáculos como Senhorita Júlia (direção de Martim Gonçalves) e A Almanjarra (encenação de Antonio Patiño, sob a supervisão geral de Martim Gonçalves). Recebe o primeiro elogio como atriz na imprensa ao interpretar a criada Cristina, em Senhorita Júlia.

Nilda de Oliva Cesar nasce no dia 18 de junho, em Salvador, Bahia. Na infância, apaixona-se pelo cinema hollywoodiano e cria um alter ego: Mary Katie.

1958

É apresentada ao diretor Martim Gonçalves por um grande amigo, o artista plástico Genaro de Carvalho. Ingressa na turma pioneira da Escola de Teatro da Universidade da Bahia, fundada por Martim. Pelas mãos do diretor, estreia como atriz na peça Auto da Cananéia.


1959

Está no elenco da peça Calígula, ao lado do ator Sergio Cardoso, sob a direção de Martim Gonçalves. Substitui Martim na direção da Escola de Teatro da Universidade da Bahia, tornando-se a primeira mulher a dirigir um curso de artes cênicas de nível superior no Brasil.

1961

1963

Protagoniza a montagem A FALECIDA, encenada por Carlos Murtinho, em meio às tensões do golpe militar e ainda à frente da direção da Escola de Teatro.

Ganha uma bolsa de estudos para fazer pós-graduação na Royal Central School of Speech and Drama, em Londres. Na capital inglesa, participa de radionovelas na BBC.

É reeleita e cumpre mais uma gestão como diretora da Escola de Teatro até o ano de 1965.

1964

1965

Na plateia do Teatro de Arena, no Rio de Janeiro, assiste à estreia oficial de Maria Bethânia, sua afilhada artística, no show Opinião, dirigido por Augusto Boal e com roteiro escrito por Oduvaldo Vianna Filho, Paulo Pontes e Armando Costa.


1968

Atua no filme Meteorango Kid – Herói Intergalático, de André Luiz Oliveira, um marco do cinema underground brasileiro. É coroada a primeira Rainha dos Artistas da Bahia, no Baile das Atrizes do Teatro Vila Velha.

1969

1970

Atua ao lado da estrela Sonia Braga em Dona Flor e seus Dois Maridos, de Bruno Barreto, uma das maiores bilheterias da história do cinema brasileiro. No palco, vive uma das protagonistas da peça O Assassinato da Irmã Geórgia, dirigida por Eduardo Cabús.

Sob os chumbos do AI-5, ousa interpretar um papel masculino em A Companhia das Índias, dirigida por Orlando Senna, que fica em cartaz por apenas dez dias. Sai de cena vetada pela censura.

1976

Dois anos após a implantação do AI5, participa da montagem GRRRrrrr!, com direção de João Augusto. Bombas juninas são atiradas numa das apresentações da peça no Teatro Vila Velha. Está no elenco do filme Caveira my Friend, de Álvaro Guimarães, outra referência do cinema marginal no Brasil.


1980

Interpreta a cafetina Madame Pace em Seis Personagens à Procura de um Autor, a primeira montagem da Companhia de Teatro da UFBA, dirigida por Harildo Déda.

1981

1985

Interpreta uma Madame no filme Superoutro, de Edgard Navarro, inspirada na sua personagem em Meteorango Kid.

Aposenta-se da Escola de Teatro, onde trabalhou como professora de expressão vocal e dicção, diretora e tradutora.

1989

1996

Contracena com o ator Wilson Mello na peça Lábios que Beijei, escrita e dirigida por Paulo Henrique Alcântara.

Assume, na universidade, o cargo de Chefe do Departamento de Teatro, vinculado à Escola de Música e Artes Cênicas. Ajuda a fundar a Companhia de Teatro da UFBA.

1998

Grava o CD Boca do Inferno, no qual declama poemas de Gregório de Mattos.


2000

Celebra 45 anos de trajetória artística protagonizando Ensiname a Viver, erguida pelo encenador José Possi Neto, a última peça teatral na carreira da dama.

2001

2008

Projeto de Lei n° 8.018, da vereadora Vânia Galvão, institui a data do aniversário de Nilda Spencer (18 de junho) como o Dia Municipal do Teatro.

Está no elenco do filme Eu Tu Eles, de Andrucha Waddington, protagonizado pela atriz Regina Casé.

A Galeria Nilda Spencer é inaugurada, no dia 1° de outubro, no foyer do Teatro Martim Gonçalves (Escola de Teatro). Nove dias depois, a atriz morre, aos 85 anos.

2011

2019

Na Fundação Gregório de Mattos, Centro Histórico de Salvador, é inaugurado o Café-Teatro Nilda Spencer.


2021

A obra dramatúrgica Nilda, de Marcos Uzel, é publicada pela editora Caramurê, para celebrar o centenário de nascimento da atriz.

É lançada a biografia Nilda: a dama e o tempo, de Marcos Uzel, publicada pela editora da Universidade Federal da Bahia (EDUFBA).

2023

2026

Estreia o espetáculo Nilda: uma mulher retada, com direção de Marcio Meirelles e tendo a atriz Andréa Elia no papel principal.


Foto Cedoc A TARDE.


VÍdeos produZidos a partir das seguintes fontes: GRANDE HOTEL (1932) Direção: Edmund Goulding ACONTECEU NAQUELA NOITE (1934) Direção: Frank Capra

Elia Kazan AS NEVES DO KILIMANJARO (1952) Direção: Henry King e Roy Ward Baker

O PICOLINO (1935) Direção: Mark Sandrich

A PRINCESA E O PLEBEU (1953) Direção: William Wyler

PEQUENA CLANDESTINA (1936) Direção: William A. Seiter

A UM PASSO DA ETERNIDADE (1953) Direção: Fred Zinnemann

TEMPOS MODERNOS (1936) Direção: Charlie Chaplin

JANELA INDISCRETA (1954) Direção: Alfred Hitchcock

AS AVENTURAS DE ROBIN HOOD (1938) Direção: Michael Curtiz e William Keighley

SINDICATO DE LADRÕES (1954) Direção:v Elia Kazan

LEVADA DA BRECA (1938) Direção: Howard Hawks E O VENTO LEVOU (1939) Direção: Victor Fleming O MÁGICO DE OZ (1939) Direção: Victor Fleming AS VINHAS DA IRA (1940) Direção: John Ford ( Logo da 20th Century Fox)

JUVENTUDE TRANSVIADA (1955) Direção: Nicholas Ray O PECADO MORA AO LADO (1955) Direção: Billy Wilder CINDERELA EM PARIS (1957) Direção: Stanley Donen GATA EM TETO DE ZINCO QUENTE (1958) Direção: Richard Brooks

CASABLANCA (1942) Direção: Michael Curtiz

O MERCADOR DE ALMAS (1958) Direção: Martin Ritt

AGORA SEREMOS FELIZES (1944) Direção: Vincente Minnellli

CONFISSÕES À MEIA-NOITE (1959) Direção: Michael Gordon

O PONTEIRO DA SAUDADE (1945) Direção: Vincente Minnelli e Fred Zinnemann

BONEQUINHA DE LUXO (1961) Direção: Blake Edward

FARRAPO HUMANO (1945) Direção: Billy Wilder

O LEOPARDO (1963) Direção: Luchino Visconti

GILDA (1946) Direção: Charles Vidor

OS REIS DO IÊ, IÊ, IÊ (1964) Direção: Richard Lester

INTERLÚDIO (1946) Direção: Alfred Hitchcock MEU MAIOR AMOR (1949) Direção: Mark Robson UMA RUA CHAMADA PECADO (1951) Direção:

O DESAFIO (1966) Direção: Paulo César Saraceni PROGRAMA “MONSIEUR 100.000 VOLT”(1967) de Gilbert Bécaud – Imagens de João


Gilberto

1964: 50 ANOS DEPOIS (2014) Univesp TV

CINE JORNAL – INAUGURAÇÃO DO TEATRO CASTRO ALVES (1967) Imagens de Leão Rozemberg

TOPONÍMIA DA CIDADE DO SALVADOR (2018) Direção: Carolina Canguçu

CAVEIRA MY FRIEND (1970) Direção: Álvaro Guimarães GENARO DE CARVALHO – O ARTISTA TAPECEIRO (1970) Direção: Nair de Carvalho e Roque Araújo METEORANGO KID – O HERÓI INTERGALÁTICO (1970) Direção: André Luiz Oliveira BAHIA CAETANAVE 72 (1972) Direção: Oscar Santana JANIS (1974) Direção: Howard Alk

MEU NOME É GAL (2023) Direção: Dandara Ferreira e Lô Politi Vídeo: A prisão de Rita Lee – Histórias do Acervo – Jornal O Globo (2025) Fotografias de Flávio Damm (Ladeira da Montanha) Fotografias de Evandro Teixeira (Ditadura Militar no Brasil) Vintage Driving Plate POV: Rural Road, Railroad Crossing & Utility Lines (1940s-50s Archival) – Canal TYMO(Youtube)

Trecho da entrevista “Até que ponto vale a pena um festival de rock no Brasil?”, concedida por Rita Lee ao canal 4 no ano de 1975.

Acervo do site Wikimedia Commons

Material preservado pelo Museu da Imagem e do Som do Paraná.

Acervo de fotos da Escola de Teatro da UFBA

DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS (1976) Direção: Bruno Barreto

Acervo de Fotos do Teatro Castro Alves

TENDA DOS MILAFRES (1977) Direção: Nelson Pereira dos Santos

Fotos de Célia Aguiar

Acervo de fotos da família Spencer Fotos de Julius Spencer

Acervo de fotos do Jornal A Tarde

A IDADE DA TERRA (1980) Direção: Glauber Rocha

Fotos de Elyseu Cesar

JANGO (1986) Direção: Silvio Tendler

Fotos de Susan Spencer

SUPEROUTRO (1989) Direção: Edgard Navarro

Acervo de fotos de Silvio Robatto

CINEMA PARADISO (1990) Direção: Giuseppe Tornatore

Fotos de Armin Guthmann

EU, TU, ELES (2000) Direção: Andrucha Waddington MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS (2001) Direção: André Klotzel ESPECIAL NILDA SPENCER (2003) Direção: Doris Pinheiro

Fotos de Vera Millotti

Imagens do Livro Arte na Bahia Fotos de Adenor Gondim Fotos de Henrique Andrade Fotos do arquivo pessoal de Nonato Freire Fotos de Alice Ramos


Foto: Silvio Robatto


Ficha Técnica Texto, dramaturgia e pesquisa de acervo: Marcos UZel Encenação e dramaturgia: Marcio Meirelles Assistência de Direção: HYago Matos

Elenco Andréa Elia: Nilda Spencer Barbara Borgga: Coro, Mãe de Nilda, Noemia, Margô, Cantora no Bar, Amiga Foragida Caio Rodrigo: Coro, Pai de Nilda, Nonato Freyre, Amigo Boemia (Nonato), Aluno 1, José Possi Neto Cristiane Mendonça: Coro, Cantora, Nilcinha, Janete, Aluna 4 Igor Epifânio: Coro, Genaro de Carvalho, Pixoxó, Paulo Henrique Alcântara, Aluno 3 Israel Barretto: Coro, Othon Bastos, Amigo Boemia (Othon), Delegado, Aluno 5 Lucas Valadares: Coro, Martim Gonçalves, Amigo Boemia (Zezé), Lucas Valadares, Aluno 2 Pandora, em LIBRAS: Coro, Nilda, Mãe de Nilda, Janete, Margo, Cantora no bar, Nilcinha, Noemia Tato Seixas, em LIBRAS: Coro, Cantora, Pai de Nilda, Genaro de Carvalho, Nonato Freyre, Martim Gonçalves, Othon Bastos, Noemia, Nilcinha, Pixoxó, Paulo Henrique Alcântara, Delegado, Amigo e Amiga boêmia, Possi Neto, Lucas Valadares Felipe Pires e Gabriel Caldas: MÚsicos


Criação Marcos UZel: Texto, dramaturgia e pesquisa de acervo Marcio Meirelles: Encenação e dramaturgia HYago Matos: Assistência de direção RaY Gouveia: Direção e trilha musical Felipe Pires: Trilha musical Manuela Rodrigues: Preparação vocal Marcos UZel e Marcio Meirelles: Seleção de repertório musical Thiago Vinicius: Desenho e operação de som Paulo Tiano: Operação de som Lua Fonseca: AssistÊncia de ProduçÃo Roberto Montenegro: Direção de movimento e coreografia Irma Vidal: Desenho de Luz TainÁ de Sousa: Assistência e Operação de luz JoÃo GusmÃo e Yasmin da C. ConceiçÃo: Montagem de luz Rafael Grilo: VÍdeo (roteiro, captação de imagens, edição e operação) Zuarte: Figurino Dora Moreira: Modelista Leonardo Teles: Visagismo EricK SaboYa: CenÁrio Agnaldo Barbosa e Claudio CariJÓ: Montagem de cenÁrio CÍntia Santos e DaisY SouZa (DÊ um Sinal Acessibilidade): Consultoria de Acessibilidade Acessu (Acessibilidade Universal): Audiodescrição DeYse Ramos e Nicoli Barbosa: Bilheteria


Comunicação Ramon Gonçalves: Identidade visual Eduarda Dellamagna: Design grÁfico Ed Silva: EstÁgio em design grÁfico Maria JoÃo Amado, Stéfane MercÊs, Nicoli Barbosa, VitÓria Fortes e Koala: MÍdias sociais Gabriel Monteiro: Assessoria de imprensa e revisão de textos DineY AraÚJo: Fotografia

Produção e Projetos Elaine HaZin: Direção geral Laura Gurgel: Coordenação geral Andrea Amado: Coordenação de produção Melissa Carvalho: Produção executiva Andreia AnJos: Produção Italo Guerra, Lua Fonseca e Lucas MoZini: Assistência de produção Roberta Mutti: Desenvolvimento de projetos Giulia Ventura: Estágio em projetos

Equipe Via Press Reginaldo Pereira: Coordenação financeira TainÁ Ladislau: Assistência financeira Jasmine Abdala: Estágio administrativo Valéria Oliveira (Advocacia Corporativa): Assessoria jurídica


Referências Bibliográficas Marcos UZel: “Nilda: a dama e o tempo” Jussilene Santana: “Martim Gonçalves: uma Escola de Teatro contra a província”

Via Press ComunicaçÃo: Realização Teatro Vila Velha e Teatro GregÓrio de Mattos: Apoio Institucional FundaçÃo GregÓrio de Mattos: Patrocínio através do Edital Chamadão das Artes 2025

Agradecimentos Agradecimentos ao Teatro Gregório de Mattos, especialmente a Ticiana Guaranys e sua equipe e ao historiador Gualberto Conceição.


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Programa de Espetáculo: Nilda, Uma Mulher Retada by Teatro Vila Velha - Issuu