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TEATRO VILA VELHA FICHA TÉCNICA direção artística MARCIO MEIRELLES coordenação geral JUNIA LEITE curadoria MARCIO MEIRELLES . CRISTINA CASTRO . CHICA CARELLI . ZECA ABREU coord. adm financeiro MARIA ANGÉLICA RIBEIRO auxiliar administrativa VÂNIA SANTOS DA PAIXÃO assistente administrativa LEILA SACRAMENTO bilheteria ELINALVA MARIA grupos residentes COMPANHIA TEATRO DOS NOVOS . BANDO DE TEATRO OLODUM projeto especial universidade LIVRE de teatro vila velha núcleo viladança direção CRISTINA CASTRO programação ZECA DE ABREU núcleo de comunicação EDUARDO COUTINHO . JÚLIA MILEO (ESTAGIÁRIA) núcleo de marketing JOANA FIALHO
equipe técnica DAILSON SANTOS “LÔ” . ELIZEU SANTANA . JOILSON CONCEIÇÃO . MARCOS SILVA . YAN BRITTO serviços gerais FREDSON XAVIER DOS SANTOS . IRACY DUARTE . PAULO GOMES DA SILVA . VALDELINA GRAÇAS DOS SANTOS nós, por exemplo - centro de documentação e memória VICTOR FERNANDES estúdio do vila MAISE XAVIER . RAFAEL GRILO sol movimento da cena – organização gestora do teatro vila velha presidente ALCIDES VALVERDE VALENTE JÚNIOR vice presidente MARIA CRISTINA CARVALHO DA MOTTA LEAL sociedade teatro dos novos – organização fundadora do teatro vila velha presidente SÔNIA ROBATTO vice-presidente ÂNGELA ANDRADE
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A partir da criação, em 2013, da universidade LIVRE - programa de formação de atores que sistematiza os saberes construídos pelo Teatro Vila Velha a partir das experiências desenvolvidas pelos coletivos e artistas residentes ao longo dos seus 50 anos - o Vila começa a produzir seus espetáculos com recursos próprios. Todo o Teatro - sua equipe, espaço e energia - mobiliza-se não apenas para manter a casa funcionando, mas para movimentar a sua programação, assumindo cada uma das etapas necessárias para colocar uma peça em cartaz. Em pouco mais de dois anos, são 15 espetáculos realizados - 14 destes produzidos sem qualquer patrocínio e todos eles feitos a partir da convicção de que algo precisa ser dito. Não é por acaso que, destes 15 espetáculos, nove são obras do dramaturgo Matéi Visniec. Em Matéi, encontramos uma voz que diz muito do que pensamos e construímos ao longo do caminhar do Teatro Vila Velha. Nos inquietamos com a sua poesia lúcida e amarga e nos empenhamos na tarefa de transpor para o palco as suas palavras, coragem, imagens e ousadia. Por acreditar nesta voz, decidimos compartilhá-la com o público para fazê-lo também repensar a sociedade, o cotidiano, as relações, a cidade, a humanidade e o teatro. Em 2013, quando montamos Espelho para Cegos, a nossa primeira peça de Matéi - do livro Teatro Decomposto ou O Homem-Lixo -, tivemos a honra de tê-lo em nossa plateia e em nosso convívio. A partir daí, criou-se uma relação que mantemos com muito carinho. Na mesma ocasião, depois de assistir também à leitura dramática de Por que Hécuba, o autor cedeu ao Teatro Vila Velha os direitos para montar a peça, que no ano seguinte abriu o Amostrão Vila Verão com Chica Carelli no papel principal. Em 2014 montamos ainda O Último Godot, que uniu a LIVRE, através de Vinicius Bustani, e o Bando de Teatro Olodum, na figura de Leno Sacramento, e trouxe reflexões sobre o lugar do ator e do teatro neste mundo contemporâneo. Em seguida, foi a vez de A Mulher como Campo de Batalha provocar em palcos baianos a discussão sobre a violência contra a mulher, tendo como ponto de partida a guerra étnica da Bósnia. A segunda vinda do autor ao Brasil aconteceu em outubro de 2014, à convite da Festa Literária de Cachoeira, que promoveu o debate sobre a dramaturgia teatral numa mesa com Visniec e o encenador Marcio Meirelles. O evento coincidiu com a reapresentação de Por que Hécuba à convite do Festival Internacional de Artes Cênicas da Bahia. Aproveitamos para reapresentar O Último Godot e A Mulher como Campo de Batalha e, na ocasião, lançamos ainda o livro com a tradução de Por que Hécuba feita pelo Vila, através do ator da LIVRE Vinícius Bustani, e publicada pela É Realizações, editora responsável por lançar mais de vinte obras do autor no Brasil. Em 2015, uma nova necessidade de fazer ressoar a poesia de Visniec nos faz reapresentar, de uma só vez, outros cinco de seus textos com encenação de Marcio Meirelles, no Projeto Matéi. Ao lado destAs Palavras de Jó, está A História dos Ursos Pandas - segundo estudo feito pelo encenador depois do primeiro no âmbito do projeto K-Cena em Portugal - e ainda Fronteiras, Agorafobias e Deserto, peças da trilogia Cuidado com as Velhinhas Carentes e Solitárias. Enfrentando todas as crises - econômica, política, financeira, de público e da representação, o Vila ainda acredita que o teatro é necessário, e que, para encontrar a saída, é preciso fazê-lo mais e mais.
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marcio meirelles salvador 24 de maio de 2015
CARTA ABERTA AOS ATORES C QUEM CONVIVI E CONVIVO E ME PERMITIRAM IMAGINAR Q POSSO ESTAR ENTRE ELES NEM Q SEJA POR UMA VEZ
um encenador sempre está no palco exposto no outro no ator no movimento no som na disposição espacial nas opções nas decisões tomadas a respeito das contribuições de outros no diálogo c o autor da obra original a peça o romance a idéia o tema qdo n é ele próprio o autor e mais ainda qdo o autor é ele próprio um encenador trabalha o tempo todo c o ator e seu segredo sua arte secreta de desvendar o invisível um encenador trabalha para ajudar o ator em seu trabalho exaustivo de ser mais do q ele próprio ser ele inteiro ser ele público coletivo se transfigurar um encenador provoca o ator desde o momento em q o escolhe para um papel seja pq este papel já está nele seja pq pode ser construído c o material q ele detém para isso seja pq numa composição de elenco ele pode jogar numa posição complementar aos outros para formar um bom time seja pq c isso tudo ou cada coisa dessas vai dar suporte às ideias para q ganhem corpo é dizer ganhem presença movimento e sons ganhem visibilidade e continuem invisíveis p poder serem imaginadas e recriadas e sonhadas pelo espectador e n percam a capacidade de instiga-lo para n estarem tão prontas e acabadas e presentes q n se possa mais fazer nada c elas a não ser concordar e deixa-las onde estão
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não é preciso q seja perfeito e para isso construir as falhas é pelas falhas q o espectador entra na ideia e colhe os frutos ali plantados é nas falhas q está o humano um encenador ajuda o ator nesse seu trabalho silencioso e solitário seu difícil trabalho de descer às entranhas de si mesmo p sair de si e sendo ele mesmo descobrir todos os outros q ele pode ser pq já estão ali mas para isso é preciso levantar a máscara cotidiana a máscara q tanto nos agrada usar p mostrar o q pretendemos ser essa máscara q nos ajuda a suportar o olhar estranho q tenta nos despir a alma cabe ao ator ser despudorado e exibir esta alma ou o q está dentro dela quer dizer em sua história em sua memória em sua visão de mundo e no q ela lhe dá como possibilidade de verdade cabe ao encenador servir como espelho para o ator e mostrar sua fragilidade e possibilidades e força e ciladas q monta p si mesmo ajudar a conhecer as minas colocadas pela história pessoal em seu corpo para poder explodi-las qdo preciso sem risco de ser destroçado mas como é esse trabalho secreto do ator como é q ele anda ou corre ou para ou se afunda ou emerge de si mesmo com um personagem capaz de fazer um discurso ou como um discurso vivo capaz de incendiar o mundo isso o encenador n conhece e eu quis conhecer quis n é bem o verbo talvez o certo fosse uma negativa como na capoeira n tinha como n enfrentar e me coloquei à prova a minha memória é de que estava c matéi num carro e ele de repente me disse tenho um monólogo p vc fazer n sou ator vc tem q fazer e me falou de jó pode n ter sido exatamente assim
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mas é como me lembro e qdo ele me disse o que era AS PALAVRAS DE JÓ entendi ter chegado o momento de enfrentar a descida de emergir e encarar os olhos q sempre me viram no q fiz n em mim encarar a possibilidade de entender mais profundamente o q acho q perscrutei ao longo dos 42 anos em q trabalhei quase q diariamente a observar atores a fazerem sua descida para surgirem no palco prontos para a troca para o jogo de ser e n ser e formular questões é como se eu observasse todos os dias um mergulhador colocar os instrumentos de mergulho ajudasse-o a saltar do barco e a subir nele de volta ouvisse a narrativa do q lá ele encontrou mas nunca tivesse mergulhado e sempre quero novos desafios mesmo q seja uma única vez como foi mergulhar no mar de são tomé na áfrica é difícil é estranho é raro engraçado q raro seja estranho em espanhol é raro pq é único é cada vez uma vez e estranho pq precisa ser como se fosse cada vez a mesma como é q se faz para decorar o texto como é o mecanismo para reproduzir uma ideia com o som da voz seguido ou precedido por um movimento do corpo ou de parte dele o q se aciona para q a emoção seja visível sempre da mesma forma para provocar o mesmo efeito e sempre nova como se nunca houvesse sido é complexo ser encenador e ator como encenador sempre me achei um mau ator e por isso desisti há 36 anos atrás voltar agora é descobrir como ator o q faz de mim um mau ator aos olhos do encenador cada vez mais exigente q me tornei e ao encenador descobrir o q esse mau ator tem de bom para n expor demais suas fragilidades
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para q ele possa mostrar o q aprendeu ao longo desse tempo c os atores c q conviveu para q ele seja útil se apresentando ao espectador
foto kau rocha
é uma descoberta diária é uma angústia constante é um trabalho incessante em cada lugar sou o ator tentando encontrar jó e suas palavras em cada momento sou o encenador tentando ajudar o ator a mergulhar e tudo é em mim mas para o outro para sair escancarar a alma minha e de matéi arremessar suas palavras – de jó e matéi – para o mundo nem q seja uma vez dizer o q preciso dizer qdo matéi me disse you have to do it nós soubemos ser necessário não sei pra q não sei por q mas sei q é
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tradução fernanda veiga
matéi visniec paris 2015
QUANDO OS HOMENS MATAM EM NOME DE DEUS
Quando os homens matam em nome de Deus, na verdade, eles matam toda a ideia de transcendência e divindade. Como jornalista e observador do mundo, eu constato a que ponto, hoje, o fato religioso é recolocado no centro da vida, dos combates, das paixões, dos projetos de futuro... E o homem? Eu tenho a impressão terrível de que o homem foi esquecido em nome de Deus. No entanto, isso não é normal. Não é vivível. Não é o que Deus, se é que ele olha por nós, iria querer. É o homem e a humanidade no homem que nós devemos recolocar no centro da vida e da esperança, no centro do sentido da vida e do que está por vir. É assim que nós podemos também glorificar a Deus, se quisermos: recolocando no centro de nossa passagem pela Terra, a humanidade semeada em nós. AS PALAVRAS DE JÓ nasceram dessa reflexão, dessas inquietações. Essa peça é um grito de alerta, um chamado à razão e à lucidez. Caros semelhantes, caros humanos, parem de matar uns aos outros e de brigar em nome de Deus! Não o sujem se vocês o amam. E não sujem também sua palavra! Obrigado a Marcio Meirelles por ter confiado mais e mais em minha palavra. Eu espero vê-lo sozinho em cena, defendendo a minha palavra e os ideais em nome dos quais nós acreditamos no HOMEM.
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matéi visniec paris 2015
LORSQUE LES HOMME TUENT AU NOM DU DIEU
Lorsque les homme tuent au nom du Dieu, ils tuent en effet toute idée de transcendance et de divinité. Je constate, comme journaliste et comme observateur du monde à quel point aujourd’hui le fait religieux est remis au centre de la vie, des combats, des passions, de projets d’avenir... Et l’homme? J’ai cette impression terrible, amère, que l’homme est oublié au nom du Dieu. Or, ce n’est pas normal. Ce n’est pas vivable. Ce n’est pas à l’image de ce que Dieu, si jamais il nous regarde, aurait voulu. C’est l’homme et l’humanité dans l’homme qu’on doit remettre au centre de la vie et de l’espoir, au centre du sens de la vie et de l’avenir. C’est ainsi que nous pouvons aussi glorifier Dieu, si on veut, en remettant au centre de notre passage sur la terre l’humanité semé en nous. “Les paroles de Job” sont nées de cette réflexion, de ces inquiétudes. Cette pièce est un cri d’alarme, un appel à la raison et à la lucidité. Chers semblables, chers humains : arrêtez de vous entretuer et de vous bagarrer au nom du Dieu ! Ne le salissez pas si vous l’aimez. Et ne salissez pas non plus sa parole! Merci à Marcio Meirelles d’avoir eu confiance, encore et encore, dans ma parole. J’attends de te voir seul en scène, défendant ma parole et les idéaux au nom desquels on croit en L’HOMME!
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AS PALAVRAS DE JÓ MATÉI VISNIEC . 2014 tradução chica carelli
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1 Não, essas palavras não existem. Não, elas nunca foram pronunciadas. Não, vocês nunca as ouviram. Ninguém ouve as palavras que nunca são pronunciadas e nunca são escritas. Assim, essas palavras ficarão gravadas apenas na minha cabeça. Nem são palavras, são convulsões do pensamento. Ninguém pode ouvi-las. Elas nunca tocarão nem perturbarão ninguém. Elas ficarão para sempre engolidas pela escuridão. Pelo vazio. Encarceradas. Mortas. Mortas na minha cabeça. Enterradas comigo num poço de lixo. Eu lhes digo: o que vocês ouvem acontece na minha cabeça. No meu cérebro, que é um poço abandonado. Um poço envenenado. Um precipício. Normalmente, vocês não deveriam escutar o que o meu cérebro pensa. Esses pensamentos um tanto sobressaltados. Antes que eu feche sobre mim mesmo a última janela. Antes que eu me feche para sempre... Em mim mesmo... No abismo em que me tornei. Na ferida em que me tornei. Não, não me digam que vocês ouvem essas palavras. Minhas últimas palavras. Meus últimos pensamentos. Eles são perigosos. Trazem má sorte. Podem lhes fazer mal. Podem perturbá-los. Porque eu acredito no homem. Pronto, já disse. Não tinha o direito de dizer, mas acabo de dizer. E repito. E re-repito. Não é bom. Não deveria fazê-lo. Mas não posso não fazê-lo. Eu já estou morto, então, tenho o direito de me contradizer. Não, não é normal. Se por acaso essas palavras chegam até vocês é porque aconteceu algo inacreditável. É que o tempo parou. É que os relógios andaram ao contrário. É que o impossível se tornou possível. É que vocês entraram na minha cabeça. É que agora vocês vivem em meu cérebro. Sejam bem-vindos ao meu cérebro. É que agora vocês vivem em minha cabeça. Vocês visitam a fábrica de minhas palavras. Pronto, agora vocês estão no interior da minha alma. Vocês se alimentam da minha alma. Vocês respiram minha alma. Sou seu alimento. E podem ver que minha alma não esconde nada de vocês. Eu acredito em vocês. Vocês são homens. Seres humanos. Mulheres, homens, crianças, velhos. Vocês são HOMENS e eu acredito em vocês.
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Sim, é por isso que eu não posso escrever: porque cortaram meus dedos. Sim, é por isso que eu não posso mais falar: porque me arrancaram a língua. Sim, é por isso que eu não vejo mais: porque mandaram furar meus olhos. Sim, é por isso que eu não os ouço mais: porque mandaram perfurar meus tímpanos. Eu sou um buraco negro. É meu castigo. Por ter acreditado no homem. Sim, houve um tempo em que fui rico e belo, jovem e forte, livre e feliz. E eu sempre amei a vida. Eu cruzei a Terra, atravessei desertos e mares, subi montanhas. Quis ver a Terra dos homens. E sempre tive em mim essa forma de amor: eu acreditava no homem. Sim, é por isso que me cortaram os dedos: porque escrevi que o homem é belo. Sim, é por isso que me furaram os olhos: porque vi que o homem é um verdadeiro milagre. Sim, é por isso que me arrancaram a língua: porque disse que o homem tem o direito de ser feliz. Sim, é por isso que me perfuraram os tímpanos: porque ouvi a música da beleza da alma humana. Não, eu nunca quis ser profeta. Não, também nunca fui poeta. Nunca fui cantor nem contador de histórias nem pintor. Eu fui mais filho, marido e pai. Eu amei a vida. É tudo. Eu amei a paz. É tudo. Eu amei minha família e amei meus rebanhos. É tudo. Eu amei meus cachorros e meus cavalos. É tudo. Eu amei as manhãs e as tardes, o nascer e o pôr do sol, o vento e a chuva, o dia e a noite, as estações e as festas. É tudo. E eu amei os seres humanos. É tudo. Eu amei os humanos que eram diferentes de mim, que falavam diferente de mim, que se vestiam diferente de mim, que se amavam de outra maneira. Eu gostei de receber, em minha casa, visitas, viajantes, estrangeiros, curiosos... Minha casa sempre teve os braços abertos. Era uma casa de mil braços. Venham, venham, eu dizia a todo mundo, vocês são como as estrelas, vocês brilham pela sua diversidade, mas, ao mesmo tempo, vocês habitam um infinito único. Juntos, escrevemos a história da vida. Mas, um dia, três homens vieram do Norte. Eles me disseram: “Vamos matar seus animais e vamos queimar sua casa, para que você pare de dizer que acredita no homem”. E eu, eu não disse nada, mas no meu coração tinha uma voz que gritava mais forte que eu SIM EU ACREDITO NO HOMEM. E então, os três homens do Norte mataram meus rebanhos e queimaram a minha casa. “E então, ainda acredita no homem?”, perguntavam-me.
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E eu, eu não dizia nada, mas meu coração, meu coração, esse precioso traidor, gritava sempre através do meu sangue SIM ACREDITO QUE O HOMEM É APESAR DE TUDO UM MILAGRE NA TERRA. “Cale-se, tentava dizer a meu coração; “cale-se, por favor; cale-se um só segundo para que eu possa salvar ao menos o meu cachorro”. Que nada, não consegui salvar nenhuma das minhas riquezas, e ouvi meu coração dizer: “Foi seu trabalho de homem que lhe deu tudo, e agora são os homens que tomam tudo de você”. E um dia, três homens vieram do Sul e decapitaram meus filhos e violentaram minha mulher e minhas filhas e em seguida me perguntaram: “Então, você ainda acredita no homem?” E eu mal conseguia sufocar o meu coração e gritar: “Não, eu não acredito mais no homem”, mas foram meus olhos que me traíram. Pois nos meus olhos havia alguma coisa, meus olhos contavam o contrário do que diziam minhas palavras... E, depois, eu acho que meus olhos começaram a se multiplicar; eu tinha olhos em todo lugar: nas palmas das minhas mãos e na minha boca, no tremor da minha voz e nos gritos das minhas lágrimas... E todos esses olhos, que se multiplicavam mais e mais, diziam É O HOMEM, APESAR DE TUDO, QUEM DÁ SENTIDO AO UNIVERSO, EU NÃO POSSO NÃO ACREDITAR NELE. E os três homens vindos do Sul cuspiam sobre as minhas lágrimas e sobre as lágrimas de minhas filhas e de minha esposa, assim como sobre o sangue dos meus filhos decapitados. E os três homens do Sul diziam: “Está vendo, não é bom acreditar no homem, é isso que o homem faz ao homem. Então, você ainda acredita no homem?” E eu arranhei meu rosto e rasguei minhas roupas e enfiei minha cabeça no pó, pois queria voltar a ser pó. E gritei: “chega, chega, não acredito mais no homem, juro, não acredito mais nesse lixo que é o homem”. Mas, ao mesmo tempo, os meus soluços me traíam, pois havia uma segunda voz nos meus soluços que dizia O HOMEM É, APESAR DE TUDO, O FRUTO DA RAZÃO, SÓ ELE, NO UNIVERSO, SABE O QUE É A POESIA, SOMENTE ELE PODE SE EMOCIONAR FRENTE AO PÔR DO SOL OU ESCUTANDO O CANTO DE UM PÁSSARO. Eu não sei por que os meus gritos, os meus soluços, as minhas lágrimas e o meu próprio sangue me traíram de novo e de novo... como também o ar que eu respirava e o vento que levava minhas palavras. É, foi o vento, talvez, que espalhou de novo e de novo o eco da minha segunda voz... E, muito rápido, três homens vindos do Oeste se jogaram sobre mim, dizendo: “É realmente insuportável, chega até a nossa casa, até os nossos pensamentos que você ainda acredita no homem; realmente, carniça, não se pode viver sabendo que você ainda acredita no homem, então, vamos
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cortar seus dedos, para que nunca mais possa escrever que você acredita no homem; e vamos também furar seus olhos, para que você não possa mais ver esse pôr do sol que faz você acreditar no homem. E vamos perfurar seus tímpanos, para que você não possa nunca mais ouvir o canto dos pássaros que faz você acreditar no homem. E vamos também arrancar a sua língua, para que nunca mais possa falar com os homens que você tanto ama.” Ah, como me fez bem! Saber que estava mutilado por toda a vida, e quase morto, me fez um bem incrível porque eu não queria outra coisa além de aplacar as feridas do meu filho morto com as minhas próprias feridas, e secar as lágrimas de minha mulher e minhas filhas, que enlouqueceram com as minhas próprias lágrimas. E, então, três homens vindos do Leste se curvaram sobre mim e me disseram: “É isso... É isso, é isso que acontece com aqueles que acreditam no homem. Reconheça que o homem não merece o respeito do homem e lavaremos suas feridas... Reconheça que o homem não passa de uma barata nojenta e lhe daremos um pouco de água para beber... Vamos, reconheça que a alma do homem é uma ilusão, que seu desejo de liberdade é uma quimera, que ele nasceu para sujar a Terra... Reconheça tudo isso e vamos matá-lo imediatamente para abreviar o seu sofrimento...” Mas não, eu não queria que esses homens vindos do Leste abreviassem meu sofrimento. Não, agora que eu havia me tornado o próprio sofrimento, a própria dor, eu queria lhes dizer: “Vocês são belos, meus irmãos, porque podem, a qualquer momento, mudar de opinião; porque podem, a qualquer momento, acordar; porque podem, a qualquer momento, entender que o homem que mais odeiam é seu espelho”. Era isso que eu queria dizer a esses três homens vindos do Leste, mas eu não podia lhes dizer tudo isso, pois eu estava murado atrás das minhas feridas. No entanto, algo surpreendente aconteceu: minhas feridas começaram a falar em meu lugar, ou melhor, a enviar diretamente ao cérebro dos meus torturadores palavras que atormentaram o meu próprio cérebro. E isso os deixou loucos. O fato de que minhas feridas pudessem se tornar porta-vozes de meus pensamentos os deixou loucos. Então, me disseram: “Coitado de você, Jó! Você vai conhecer o último grau do sofrimento. Você vai morrer a morte mais lenta possível. Vamos jogá-lo num buraco de lixo, profundo e nauseabundo. Assim, você vai desaparecer da superfície da Terra e jamais ninguém encontrará seus restos mortais. Mas, antes, vamos limpar e abrir ainda mais suas narinas... Para que o cheiro de podridão possa penetrar em você e torturá-lo plenamente. É isso, seu carniça que acredita no homem, os vermes que fervilham nesse poço de lixo adoram a carne humana. Vá refletir nessa cloaca sobre a grandeza do homem e seu dom original para a poesia!
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2 Olá. Olá? Estão me dizendo olá? Quem está falando comigo? Tenho visitas? Sim, Jó, viemos visitá-lo. Mas quem são vocês? E como chegaram aqui? Vocês bem sabem o que está acontecendo comigo... Estou sendo sugado por um túnel sem fim... Somos suas palavras, Jó. Minhas palavras? Minhas próprias palavras? Sim, suas palavras. Estamos todas aqui. Todas as palavras que você pensou e que você pronunciou. Olá, Jó. Olá, Jó. Olá, Jó. Olá, Jó. Olá, Jó. Olá, Jó. Olá, Jó. Olá, Jó. Olá, Jó. Olá, Jó. Minhas palavras? Verdade? Que bom terem pensado em mim. Venham, sentem-se a minha volta! Eu sou a palavra ódio e gostaria de lhe pedir perdão. Pedir meu perdão? Mas você não é culpada de nada, minha querida palavra ódio. Eu sou a palavra estupidez e vim, eu também, pedir o seu perdão. E eu sou a palavra vergonha e estou realmente envergonhada, Mestre Jó. Mestre Jó? Você me chamou de Mestre Jó? Mas eu nunca fiz nada para merecer tal honra. Claro que sim. Sou a palavra honra e posso lhe dizer que você honra a raça humana. E eu sou a palavra homem e agradeço por você ter me defendido contra tudo e contra todos. E eu sou a palavra sentido e agradeço por você ter confiado em mim. E eu sou a palavra amor e posso dizer, Mestre Jó, que eu o amo. E eu sou a palavra morte e realmente preciso me aconchegar contra o seu coração para chorar um pouco, vai me aliviar. E eu sou a palavra vida e gostaria de lhe oferecer uma última refeição, Jó. Aqui está uma travessa, toda sua, cheia de palavras bonitas: esperança, celebração, partilha, confiança, sonho, nascimento...
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E eu sou a palavra verdade, e saiba que eu sempre acreditei em você, Jó. Oh, como eu sou rico! Sou um milionário em palavras! E eu sou uma colmeia para as palavras mais gentis, mais profundas, mais envolventes. Cuidem do homem, minhas queridas palavras. Vocês eram os clarões da beleza da alma humana. Ah, eu sabia, eu sabia que podia confiar em vocês, que vocês eram minha última tábua de salvação, que vocês eram o mundo de acordo com a vida, que vocês eram a vida de acordo com os homens, que vocês eram eternas como o espírito, que vocês eram e que vocês são o futuro do homem. Então, posso contar com vocês. O homem nunca estará só, ajudem-no a se entender, tratem suas feridas e suas dúvidas, contem-lhe fábulas, façam-no rir, o riso cura a maldade... Sim, o homem ainda é uma criança nesta Terra. Em relação ao universo, é o último nascido; prometam-me acompanhá-lo em direção a ele mesmo, em direção à beleza que se esconde nele. Eu sou a palavra beleza e prometo que vamos cuidar do homem. Eu sou a palavra futuro e prometo que vamos cuidar do homem. Eu sou a palavra promessa e prometo que vamos cuidar do homem. Eu sou a palavra palavra e prometo, Jó, que vamos cuidar do homem. Eu sou a palavra fim, Jó, e prometo que suas palavras vão viver infinitamente.
FIM
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AS PALAVRAS DE JÓ FICHA TÉCNICA texto MATÉI VISNIEC tradução as palavras de Jó CHICA CARELLI tradução quando os homens matam em nome de deus FERNANDA VEIGA encenação . figurino . espaço cênico/cenário . desenho de luz . produção MARCIO MEIRELLES composição . direção musical . desenho e operação de som . fotografia JOÃO MILET MEIRELLES assistência de direção musical CAIO TERRA assessoria no desenho de som GABRIEL FRANCO assessoria de comunicação EDUARDO COUTINHO projeto gráfico . ilustrações . direção de arte . fotografia LIA CUNHA assistente de desenho gráfico JÚLIA MILEO animação . projeto audiovisual RAFAEL GRILO confecção do figurino SARAÍ REIS
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montagem de luz e som EQUIPE TÉCNICA DO TEATRO VILA VELHA operação de luz: MARCOS DEDÊ . VADO SOUZA . YAN BRITTO . ZEUZ LUZ elenco MARCIO MEIRELLES (JÓ) palavras (vozes gravadas): aderbal freire filho (português) . anna reti (húngaro) . christina medina (inglês) . clara fong (português) . colby damon (inglês) . fernando philbert (português) . giacomo scalise (italiano) . graeme pouleyn (português . inglês) . hemabharathy palani (kannada . tâmil) . maya roest (holandês) . marko fonseca (castelhano) . matéi visniec (francês . romeno) . pal kormendy (húngaro) . paula garcia (português) . paulo ribeiro (francês . português) . raul martinez (castelhano) . tadashi endo (japonês) . tom weinberger (hebraico) . vilde broen (dinamarquês) realização TEATRO VILA VELHA estreia 12 DE JULHO DE 2015 TEATRO VILA VELHA . SALVADOR . BA
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Salvador, Bahia, 2015. Este catálogo foi impresso nos papéis Sulfite 80 g/m2 e Offset 120 g/m2. Capa impressa artesanalmente em serigrafia. A fonte do texto é a PF Sans Pro, família tipográfica projetada por Panos Vassiliou em 2007.
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APOIO
REALIZAÇÃO
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