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Revista Tabu - 5° edição

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EDITORIAL Falar sobre direitos básicos não é novidade para uma sociedade que descarta o que qualifica não ser necessário. Permanecer alheio a uma realidade que não nos contempla parece ser mais viável do que sensibilizar-se com o drama diário de pessoas que não detêm o protagonismo social. O poder delas está na batalha constante por melhoria de vida. Ouvir essas histórias reais, narradas por pessoas reais, traz a beleza do jornalismo em sua essência, o cuidado em cada página. A sensibilidade humana em abordar cada pauta traz uma imersão nos valores e no cotidiano de pessoas que são invisibilizadas constantemente, como se todos nascessem com uma etiqueta de preço. No entanto, algumas dessas pessoas já usam suas vozes como forma de quebrar a barreira do preconceito e da discriminação. E, quando nos permitimos ouvir, ao fazer uma imersão nessas realidades, percebemos a importância de políticas públicas que acolham e sejam eficazes em cumprir seu papel.

A mídia convencional está empenhada em selecionar quem merece ser notícia ou não, deixando de abordar, muitas vezes, determinados assuntos. Assim, mais uma edição da Revista Tabu busca quebrar paradigmas. Além de a revista ser um espaço de defesa da democracia, ainda há o pensamento nos interesses coletivos, ao termos como objetivo ampliar as vozes de pessoas que foram social e historicamente silenciadas. Buscamos mostrar, dessa forma, que essa parcela da coletividade tem seus pensamentos, suas emoções, suas trajetórias, seu protagonismo, sua relevância social. Sejam feirantes, drags queens, vendedores ambulantes ou indivíduos privados de liberdade, todas essas pessoas são cidadãs e cidadãos de um mesmo Brasil e devem ter, por direito, espaço e reconhecimento em nossa sociedade. Definir alguém por estereótipos limita a sua personalidade, e todos nós somos muito mais do que simples rótulos.


SUMÁRIO Direitos Humanos

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Cultura

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Periferia

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Meio Ambiente

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Ensaio Fotográfico

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Revista-laboratório do Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, elaborada por alunos do componente curricular Laboratório de Planejamento e Pesquisa em Jornalismo. Periodicidade semestral. Ed 5, Ano 3, dezembro de 2019.

Orientação: Janaina Barcelos (MTb 6.010/MG) Editoras-chefes: Bruna Torres e Thainá Trajano Editores e sub-editores setoriais: Direitos Humanos: Gabriel Mascena e Lara Caroline

Cultura: Aryela Valeska e Camila Pinto Periferia: Iris Fernandes e Anayde Cristina Meio Ambiente: Guilherme de Oliveira e Hanna Lorena Criação e diagramação: Vanessa Islany


DIREITOS HUMANOS

Foto: Valcidney Soares


“ESTAMOS REVIVENDO O HOMEM QUE ESTAVA ADORMECIDO DENTRO DE NÓS” Projeto permite que privados de liberdade troquem o ócio das celas pelos estudos e sonhos de um futuro melhor Por Valcidney Soares A chegada a Alcaçuz foi rápida. Do Centro Administrativo, no bairro Lagoa Nova, em Natal, onde embarcamos, até o presídio estadual, são cerca de 25 minutos. Em Nísia Floresta, cidade que abriga a penitenciária, enfrentamos uma estrada de terra e, logo depois, o presídio se mostrou à nossa frente. Ao contrário do que poderíamos imaginar, a entrada foi tranquila, nada de detector ou revista. A facilidade pode ser explicada: para que Educação que supera grades físicas e mentais pudéssemos entrar em AlcaFoto: Líria Paz çuz, saímos da capital potiguar acompanhados por Rosiane Andrade, integrante da Subcoordenadoria de No carro a caminho de Alcaçuz, Rosi Educação de Jovens e Adultos da Secretaria falou de alguns alunos proeminentes. Um dele de Educação. é Genilson Silva, 27 anos. O homem negro, Fomos conhecer o ProJovem Urbano, magro e de alta estatura tem um rosto afável. programa destinado a oferecer formação eduÉ fácil simpatizar-se por ele. Para ingressar no cacional a pessoas privadas de liberdade, de projeto, é feita uma triagem com os detentos 18 a 29 anos, que não concluíram o ensino que demonstram interesse. Genilson foi fundamental. Além do bom comportamento, é esperto: analfabeto, sabia escrever apenas o necessário saber ler e escrever para participróprio nome e enganou a guarda responsável par. Depois de passarmos pela sala do diretor, pela escolha. Alcançou seu objetivo e entrou no adentramos o complexo penitenciário rumo à ProJovem. aula. Dentro de uma cela com carteiras, livros “Quando a gente fez o levantamento de e exposições de trabalho nas paredes, os aluquem iria estudar, eram pessoas que sabiam nos ficam sentados enquanto, do outro lado das ler. Ele veio enganado na turma, mas persevegrades de ferro, é ensinada a estrutura de uma rou e conseguiu”, afirma a agente penitenciária, redação. A rigidez é forte. Eles só podem se leDalvanete Alves, que fez a triagem. A agente, vantar com a autorização da professora e, até mais velha do que os homens que tem em sua mesmo para se abaixar, caso caia algum objeto guarda, adota uma postura de acolhimento e no chão, é preciso que a educadora permita. Do consegue estabelecer uma relação de respeito lado da mesa e do quadro branco da docente, mútuo. Sonha que tenham um futuro melhor. as algemas dos estudantes permanecem em Genilson guarda diversos sonhos para repouso. o futuro e se sente agradecido por participar 6


das aulas: “Através da aprendizagem que estou tendo, posso me sentir um cidadão. Esse projeto está me colocando na sociedade de volta. Além disso, somos muito discriminados. Certo que nós erramos, mas o que importa é agora”, exprime. Pela falta de formação, Genilson diz que já trabalhou anteriormente, mas num ofício “escravo”. Hoje, almeja a carreira que pretende seguir após ganhar a liberdade: “Agora eu tenho um foco, que é ter meus estudos e me formar como chefe de cozinha”. Outro feliz com o novo rumo, Felipe Pinto Cunha, 22 anos, reencontrou nos estudos

uma forma de manter a mente ocupada. “Quando vivia em minha cela trancado, não tinha essa oportunidade de ler, escrever, ganhar um certificado de auxiliar administrativo”, afirma. “Isso nos despertou e incentivou em nós a vontade de, cada vez mais, buscar outros ideais”, conta. Sobre o futuro depois que deixar as grades, Felipe espera transmitir o que aprendeu e retomar um hobby antigo: as lutas. “Eu penso em ser orientador de artes marciais. Futuramente, quero ensinar outras pessoas, porque as artes marciais trazem bem-estar e saúde.”

DUPLA FORMAÇÃO No ProJovem Urbano, além das aulas comuns à matriz do ensino fundamental, os estudantes têm a chance de fazer uma formação técnica e se preparar para o mercado de trabalho, com as disciplinas de Participação Cidadã e Qualificação Profissional. Esta, inclusive, é a matéria preferida de Franções Mateus, que busca aprender um ofício novo enquanto cumpre sua pena. O jovem de 24 anos tem, assim como seus colegas de turma, aulas de administração uma vez por semana. Antônio Genário, 24 anos, carrega um semblante forte. Entretanto, por trás do rosto sério, branco como as folhas de um caderno, e dos olhos verdes que chamam atenção, mostra-se um homem tímido. Sobre o programa, ele diz que é uma forma de humanizar os apenados. “Nós estamos aprendendo algumas coisas que já tínhamos esquecido no decorrer do tempo. Estamos revivendo o homem que estava adormecido dentro de nós, que faz par-

te da sociedade”, comenta. O dia a dia nas celas, marcado por horários regrados, ordens e segurança constante, não impediu que até a música ganhasse espaço no imaginário das aulas. Foi assim que Antônio, inspirado no aprendizado, escreveu um rap com seus colegas. “Ele fala sobre a forma como eu era, e, quando parei dentro de uma cela, refleti e vi que o crime não compensa. Estava precisando de uma ajuda, de um empurrãozinho e, através do projeto, consegui”, conclui. Em um dos versos da sua primeira música, Genário exclama “contra o preconceito de quem acredita que o ser humano não pode mudar” e conclama a Deus pelo galardão, termo usado na Bíblia para descrever uma recompensa. Ele, talvez, cumpra o sonho da agente Dalvanete, de “ver esses meninos formados de terno e gravata”.

Segundo o Monitor da Violência, ferramenta de dados do G1, o número de privados de liberdade que estudam no Rio Grande do Norte ainda é irrisório. Dos 9848 detentos registrados em 2019, apenas 401 estudam, número que corresponde a apenas 4,1% da população carcerária potiguar. Apesar disso, dos 16 alunos que compõem a turma do ProJovem, todos estão inscritos no Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja), prova do Governo Federal que garante o diploma de ensino fundamental aos aprovados. 7


O PROJETO QUE VEIO PARA DEMARCAR UMA NOVA HISTÓRIA No presídio de Alcaçuz, privados de liberdade encontram oportunidade de mudança Por Livia Souza e Evelyn Ribeiro No maior presídio do Rio Grande do Norte, encontra-se uma equipe de professores preocupada em fazer do acesso à educação uma prioridade. O ambiente, antes palco de rebeliões, hoje serve de espaço para uma sala de aula improvisada. Apesar das dificuldades no transporte e estrutura das salas de aula, os profissionais desfrutam de respeito e carinho por parte dos 21 privados de liberdade participantes do Projovem, programa dos Governo Federal e Estadual, voltado a jovens de 18 a 29 anos. O pré-requisito para participar? Saber ler e escrever. Uma das iniciativas bem sucedidas desenvolvidas com os alunos foi a produção de cordéis, em comemoração

ao mês dedicado à cidadania, setembro, proposta pela Secretaria do Estado da Educação e da Cultura. “Ficamos muito surpresos com os resultados do trabalho”, conta a subcoordenadora do Projovem Urbano, Fabiana Moura. O projeto recebeu o sugestivo nome de Cordel da Liberdade. Uma das abordagens da atividade foram as tarefas em grupos, algo incomum para uma rotina penitenciária, que confronta um dos estigmas envolvendo os detentos: a possibilidade de conviver coletivamente e de forma pacífica. “Não é mérito nosso, a gente só fez nosso dever, que é garantir um direito”, destaca Fabiana. Segundo a subcoordenadora, o fato de estarem reclusos em Alcaçuz não anula a vontade dos alunos de aprender e olhar a vida com esperança em um fu-

Narrativas de um cárcere, a mudança humana através do cordelismo Foto: Jessyanne Bezerra 8


Em Alcaçuz, estudantes se preparam para vida fora das celas: eles têm aulas de participação cidadã e qualificação profissional Foto:Jessyanne Bezerra turo melhor. “A gente vê uma mudança de olhar na escrita deles, de almejar algo novo depois que saírem de lá”, revela. A intenção é dar continuidade à produção de cordéis até a formatura, em abril de 2020, após 18 meses de duração do programa. Nesse período, os jovens participantes também concluirão o ensino fundamental junto à qualificação profissional. Embora contem com apoio da direção de Alcaçuz e da Secretaria Estadual da Justiça e da Cidadania, a equipe do Projovem precisa conviver com medidas de segurança que integram a rotina do lugar e enfrentar desafios próprios de um ambiente não-escolar. Os profissionais envolvidos também trabalham no pavilhão cinco, local onde o rigor é ainda mais evidente. “No começo, como profissionais da educação, muitas coisas nos impactaram. Lá no pavilhão cinco muito mais, porque o formato da sala é muito diferente. É bem difícil. Não há contato nenhum, ao ponto deles

[alunos] não estarem nem no mesmo andar que o professor”, relata a professora de matemática Juliana Albuquerque. Numa crítica àqueles que não apoiam seu ofício, a professora de matemática relata que busca remar contra a maré, aplicando uma máxima que a acompanha: “A educação muda pessoas, e pessoas mudam o mundo”. “Geralmente, eu digo a eles: ‘Olhem, matemática é uma coisa que vocês vão usar em qualquer área em que forem trabalhar’; eu sempre falo sobre as possibilidades de trabalho que existem na vida”, conta Juliana, considerando a perspectiva de que eles vão sair dali e serão profissionais. Mas a tarefa não é fácil. Juliana confessa que já pensou em desistir, diante de tantos desafios. Mas vai adiante, ao encarar esse trabalho para além de uma atividade profissional. É uma causa. “A situação nos enamora de uma forma que, quando a gente vê, está super envolvida. É desafiador”, revela. 9


POR DENTRO DE ALCAÇUZ Nos dias de aula, é permitido não apenas aprender, mas também sonhar Por Líria Paz

Presídio em reforma e de cara nova. As cores são azul e branco. Uma horta em um pequeno quintal, do lado esquerdo da entrada, acessada pela porta de trás da cozinha, onde dois privados de liberdade trabalham, dá um toque de verde, acompanhado pelas três palmeiras grandes que complementam a visão. A Penitenciária Estadual de Alcaçuz abriga 1.236 privados de liberdade atualmente, em uma estrutura dividida em cinco pavilhões, com capaci-

dade para 620 pessoas. Alcaçuz estava quieta naquele 26 de setembro. Era por volta das 14 horas quando chegamos. Na entrada, por trás de um portão de grades e ao lado oposto à horta, um apenado pinta duas araras-azuis. Pintura grandiosa. Os agentes penitenciários destacam que no presídio há grandes artistas. Talentos que eles tentam explorar, para mantê-los ocupados. Alguns constroem, outros pintam e mais alguns cozinham. A intenção é que os próprios detentos façam a manutenção do presídio.

Um novo legado: cárceres que reescrevem a história do Presidio Estadual de Alcaçuz Foto: Líria Paz 10


Presídio, que abriga mais de 1200 privados de liberdade, passou por reformas Foto: LíriaPaz Ao fundo, a muitos passos de distância, temos acesso aos pavilhões. É possível imaginar, voltar alguns anos e lembrar a tragédia que acontecera ali. Segundo Jucélio Barbosa, diretor do presídio, medidas foram adotadas para melhorar a segurança de Alcaçuz e evitar que mais tragédias aconteçam. Dentre elas, a capacitação dos servidores, contratação de novos agentes e presença de agentes penitenciários 24 horas nos pavilhões. Essas mudanças, em tese, devem melhorar o convívio dentro do lugar. No fim da caminhada, nos deparamos com uma improvisada sala de aula, localizada em um dos blocos que ainda não passou pela reforma. É uma cela pequena, trancada, e, além das grades, duas mesas de madeira separam os 16 alunos de sua professora. Todos sentados, fardados com calção azul e camisa branca, com os livros guardados logo abaixo de suas cadeiras. Calados, atentos e jovens. Com eles, ficam apenas os materiais

que usam no momento. A sala é decorada com as produções dos alunos. Trabalhos, desenhos e até algumas letras do alfabeto ganham espaço nas paredes, como numa sala de ensino fundamental. Ao lado da mesa, ficam amontoadas as algemas dos privados de liberdade, monitorados durante todas as aulas por dois agentes. Aquele é o espaço que eles têm para aprender, mesmo sob vigilância. De terça a sexta-feira, das 14h às 16h. Esse é o espaço que eles têm para serem apenas alunos. A agonia da superlotação e do ócio – que não está presente apenas em Alcaçuz, mas representa um déficit no sistema carcerário brasileiro – não os assombra. Nesse espaço, eles têm liberdade de sonhar, aprender e planejar. Ali, eles podem ser quem quiserem ser, de chef de cozinha a professor de artes marciais. Felizmente, enquanto alunos, o peso do passado não os representa, porque eles são jovens, e o mundo os espera. 11


COLUNA

A EDUCAÇÃO LIBERTA Por Vitoria Nascimento Pensar que um presídio é um ambiente opressivo e desprovido de educação, onde há disciplina apenas por causa do medo e da força bruta dos agentes, caracteriza um dos muitos preconceitos da sociedade. Entretanto, a realidade pode ser um pouco diferente, quando conhecemos projetos educativos desenvolvidos ali dentro. No Rio Grande do Norte, na penitenciária de Alcaçuz, há o Cordel Educativo, atividade com intuito de formar cidadãos e compartilhar experiências para o desenvolvimento da comunidade. É por meio de projetos como esse que educação e cultura chegam aos privados de liberdade que, considerando o panorama nacional do sistema carcerário, mal possuem os direitos humanos básicos garantidos. Todos os dias, muitas pessoas praticam crimes, seja por vontade própria, ou pressionados por fatores sociais, familiares, econômicos e falta de acesso a direitos, como educação de qualidade. Dessa maneira, tendo negadas as bases de educação, saúde e convívio social, é muito difícil enxergar um futuro promissor. A maioria das pessoas tenta se encaixar na sociedade de forma aceitável, mas também existem aquelas que não conseguem e irão tentar buscar seu prazer de viver de outra maneira. Isso pode acontecer com qualquer um, independentemente da classe socioeconômica, mas afeta muito mais grupos e indivíduos em situação de vulnerabilidade. Partindo desse cenário de desigual12

dade e ausência de direitos, a educação entra como fator fundamental no processo de ressocialização dos privados de liberdade, com o papel de formar e capacitar esses cidadãos, para que voltem a conviver em sociedade. Para tanto, existe a Lei de Execução Penal no Brasil (LEP), n° 7.210 de 11 de julho de 1984, com o objetivo principal de garantir os direitos básicos de um indivíduo dentro de uma unidade prisional. Projetos como o Cordel Educativo surgem devido a essa Lei. Essas ações são de suma importância, pois algumas pessoas entram no presídio sem terem sequer concluído o ensino fundamental, reflexo da realidade em que viviam. Com a inserção da educação no presídio, eles estudam disciplinas basilares, como matemática, português, história, geografia e ciências biológicas, tendo a chance de concluir os estudos e, posteriormente, entrar no mercado de trabalho. Os cordéis, além de significarem produção de conhecimento e expressão de pensamentos, são de profunda riqueza cultural. Assim, é possível que, com a educação, possamos ter um novo cidadão de volta à sociedade. Como dito anteriormente, o indivíduo não buscará seu prazer em viver na ilegalidade, mas sim em tarefas positivas, como escrever um cordel, estudar e trabalhar. Dessa maneira, a sociedade só tem a ganhar se o poder público continuar investindo em mais projetos como estes, que utilizam a educação como ferramenta de liberdade e ressignificação da própria vida.


CULTURA

Foto: Freepik


CENA DRAG QUEEN NATALENSE: POR AMOR, A ARTE RESISTE Artistas locais expressam sua paixão, apesar da desvalorização de seu trabalho Por Beatriz Tito e Gabrielle Borges A arte drag queen consiste em se manifestar artisticamente por meio de personagens femininas. Esse movimento se transformou, mas continua enfrentando muitos obstáculos. Entre eles, a falta de valorização e o preconceito, que, muitas vezes, fazem com que as drags sejam vítimas de discriminação e agres-

são. Na capital potiguar, por amor, a arte drag resiste. Danuza D’Salles foi a responsável por introduzir a arte drag no estado. Kaya Conky e Potyguara Bardo são exemplos de artistas reconhecidas em outras regiões do país. Além delas, há outras artistas talentosas como Lola Bardo, Cristal Jane Pervenche e Lola Von Dolf, que contaram um pouco sobre suas histórias e vidas artísticas.

LOLA BARDO “A questão de gênero não tem nada a ver com a arte drag”, afirma Douglas Barros, 24 anos, de Monte Alegre, interior do estado. Em 2014, sua cidade deixou de realizar apresentações de quadrilhas juninas. Assim, junto com seus amigos, criou a “Atravantour”, quadrilha junina que lhe possibilitou se apresentar como drag queen pela primeira vez. Foi na beleza dessa tradição que, em 2016, surgiu Lola Bardo, quando começou a performar em casas de shows e saraus. A licenciatura em Dança, que faz na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), ajuda a agregar conhecimentos acadêmicos à sua arte. A família o apoia, e ele se sente privilegiado por nunca ter precisado 14

Douglas Barros estuda dança na UFRN Foto: Jordana Vieira


lidar com o preconceito dentro ou fora de casa. “Já andei montada dentro de ônibus e nunca me aconteceu nada”, diz Douglas. Porém, ele destaca que não há valorização da arte drag, pois o cachê que recebe pelas apresentações não cobre todas as despesas com a montagem da personagem. Futuramente, pensa em se dedicar ao trabalho de professor de artes, sua outra paixão.

Lola Bardo em seu camarim no dia da festa que produziu, Lola VIP, na boate Vogue Foto: Sarah Fernandes

Cristal Jane Pervenche Marcos Paulo, 21 anos, começou que a personagem recebeu notoriedade e sua carreira artística como drag queen há passou a performar, também, em estados quatro anos. Sua personagem, Cristal, nas- vizinhos, como Paraíba, Pernambuco e Ceceu da oportunidade de alegrar a festa de ará. aniversário de um amigo. A partir desse dia, “Minha família sempre me aceitou”, começou a trabalhar em eventos como DJ e performer nos fins de semana em sua cidade, no interior do estado. Porém, foi na capital que Marcos encontrou novos caminhos para Cristal, período em que iniciou sua graduação em Engenheira Têxtil, na UFRN. Foi entre 2016 e 2017, no auge da cena “Fui criada como uma princesa”, diz Marcos Paulo sobre apoio familiar Foto: Jordana Vieira drag natalense,

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relata Marcos. A discriminação vinda da sociedade é ignorada por ele, que prefere combatê-la dando suporte a outras pessoas que não encontram apoio familiar. Marcos também precisa lidar com a falta de valorização da arte drag queen. O valor recebido em alguns eventos pode chegar a R$ 150,00. Para Marcos, ser drag é ser resistência. “Drag para mim é uma forma de arte que as pessoas usam hoje como forma de protesto para borrar o que significa gênero na cabeça das pessoas.”

Marcos Paulo dando vida à sua personagem Cristal Foto: Luana Tayze

LOLA VON DOLF “Eu tinha muita vontade de participar e estar ali ”, conta Jerlyanne Chagas, 24 anos, mulher drag, sobre o movimento. Ela pesquisou sobre mulheres drags e encontrou várias meninas que trabalhavam com isso no Brasil. Descobriu, também, que existe um coletivo de meninas que se montam em São Paulo, o “Wild Queens”. Em 2017, começou a atuar como drag queen. “É uma questão de se apoderar do feminino e fazer o que quiser a partir disso”, afirma Jerlyanne. Ela conta que, dentro da arte drag, as mulheres, muitas vezes, enfrentam cer16

Jerlyanne Chagas teve que lutar pelo seu espaço na cena drag Foto: Sarah Fernandes


to preconceito, como se não fossem capazes de chegar ao mesmo patamar alcançado pelos homens. Para enfrentar essa realidade, ela recebe apoio de sua mãe e de parte de sua família. Estudante de Audiovisual na UFRN, Jerlyanne, futuramente, pretende unir a personagem drag, Lola Van Dolf, ao audiovisual, pois acredita que “a arte é o único lugar em que você pode tudo”. Lola Von Dolf abraçando a arte que proporciona a sua existência Foto: Luana Tayze

O PROTAGONISMO DE ARRUDA SALES Por Francisco Morais Não era um homem. Não era uma mulher. Não era um homem vestido de mulher. Era a arte hibridizando gêneros, carnavalizando o que a sociedade ainda encarava com preconceito. Durante 30 anos, Natal conviveu com a drag queen Danuzza D´Salles, criada pelo artista Arruda Sales, numa época em que falar da arte drag ainda era um tabu quase intransponível. Nascido em São José do Mipibu – RN, em 1955, Arruda Sales chegou a Natal ainda nos anos 1960, onde conheceu artistas e carnavalescos locais, inserindo-se na vida cultural natalense. No final dos anos 1970, criou a personagem Danuzza D´Salles, que se tornou sucesso nas décadas de 1980 e 1990, primeiro nas rádios da capital, através das quais ficou conhecida, deixando-se maquiar pela imaginação fértil dos ouvintes. Dali, saiu para a TV e

para as ruas da capital potiguar, destronando a sisudez noturna dos ambientes com brilho e cor, competindo com as estrelas no salto mais alto, mais chique do que muitas damas socialites natalenses. Marcelo Veni, produtor cultural da Drag durante vários anos, diz que a personagem se caracterizava como “caricata e debochada”, sempre recebida de forma livre e festiva, como destaque na recepção de festas e eventos. “O público assimilava e se identificava com ela que, com o seu bordão ‘Oiiiiii, amor!’, conquistou muitos admiradores no rádio, na TV, nos trios e blocos carnavalescos”, recorda o produtor. Marcelo narra as participações da drag no Baile das Kengas, anualmente realizado no Clube América de Natal, como uma das principais atrações do evento pela ousadia das suas fantasias, chamando a atenção pela irreverência e alegria, expressa pelo artista que lhe dava 17


Produção Baile das Kengas 1999 - com Danuza e Virgínia Novick Arquivo pessoal de Marcelo Veni

vida perante o público. Arruda Sales era artista visual. Talvez, por isso, tenha feito do seu próprio corpo o suporte mais expressivo para configurar sua linguagem criativa. Por meio de Danuzza D´Salles, extrapolou as fronteiras potiguares, tornando-se conhecido também noutros estados. Na montagem da drag queen, Arruda dizia trazer muitas referências profanas e religiosas, inclusive, a influência das bailarinas e do circo, os quais o encantavam, quando criança, na cidade onde nasceu.

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Danuzza D´Salles é considerada a primeira drag queen de Natal. Com ela, abriram-se as portas para que outras drags entrassem nos palcos e avenidas da cidade. No dia 14 de junho de 2019, Danuzza D´Salles saiu de cena, levada por quem a criou. Arruda Sales faleceu aos 64 anos de idade. “Sua partida deixou um vazio inenarrável. Ele tem uma importância artística muito grande para a arte potiguar”, conclui Marcelo Veni.


COLUNA

A ARTE QUE RESISTE Por Bárbara Rossato É provável que você já tenha ouvido falar de Drag Queens, Lady Gaga, Madonna e RuPaul’s Drag Race, certo? Se não, em que mundo você estava? Cada vez mais, a arte drag vem conquistando o espaço na cultura pop nacional e internacional. Já chegou até ao Rock in Rio e ganha prêmios Brasil afora todos os anos. A conversa que essa expressão artística tem com o pop é de longa data, e ambos parecem se dar bem nos palcos. Mas nem sempre foi assim. Demorou um tempo até chegarmos nesse relationship goals. Tudo começou na Grécia Antiga, quando homens passaram a interpretar mulheres no teatro grego, já que elas eram proibidas de atuar. Com o passar do tempo, essa prática passou por inúmeras variações, até que, no decorrer do século XX, grupos LGBTQI+ dos EUA e da Europa ressignificaram-na e a transformaram em um símbolo de resistência. Paralelo a isso, na segunda metade do século XX, o pop ganha força e, junto com ele, nascem artistas como Michael Jackson e Madonna. Esses ícones do pop surgem com roupas extravagantes, clipes provocativos, danças excêntricas, e seus discursos, constantemente, abordam temas que eram silenciados até então na sociedade, como racismo e machismo. Depois desse “boom” artístico nos EUA e na Europa, a globalização se intensifica, e a internet e a televisão fazem com que grupos LGBTQI+ se identifiquem com a arte e a abracem. Um agente importantíssimo que influenciou e continua influenciando toda uma geração de jovens na década de 2000 é o icô-

nico RuPaul’s Drag Race, que surge no início de 2009 e até hoje faz sucesso, colecionando prêmios, como o Emmy 2019 de melhor reality show. Durante a década de 2010, vemos também a ascensão do pop brasileiro. Os lugares das paradas de sucesso — em que o sertanejo predominava — agora são designados ao pop e ao funk. E a arte drag, que muito conversa com o pop, também ganha seu lugar de destaque, e cresce, mesmo que aos poucos, pois o preconceito ainda é um grande desafio. Em decorrência disso, surgem várias drag queens na cena pop brasileira, mas uma delas se destaca por seu grande talento musical: Pabllo Vittar. Segundo a Billboard americana, é uma “cantora feroz” e a drag queen mais seguida do mundo nas redes sociais. Vittar é a interseção do pop com a arte drag e, com sua influência e representatividade, colabora para alavancar a carreira de outras drags, como Gloria Groove, Lia Clark e Kaya Conky. Assim, o movimento começa a ganhar espaço no meio artístico hegemônico, cuja produção artística passa a ser muito consumida pelo público. Infelizmente, mesmo em constante crescimento, ainda não é possível dizer que essa arte é respeitada como deveria. Muitas drags de baixa renda e sem grande fama passam por dificuldade para sustentar sua paixão, que, muitas vezes, é vista como inferior, pelo fato de ser símbolo de uma minoria. Até aquelas que têm mais prestígio, como Pabllo Vittar, encontram dificuldades para crescer artisticamente, diferentemente dos artistas heteronormativos. Por isso, é necessário valorizar mais a arte drag. 19


PERIFERIA Foto: Victor Galvão


HISTÓRIAS DE VIDA NO COTIDIANO DOS COLETIVOS URBANOS Vendedores ambulantes correm atrás da sobrevivência, mas também de seus sonhos Por Larissa Duarte, Daniel Guimarães e Gustavo Henrique

celulares até chocolates, montando estratégias, conforme a situação do mercado: “Quando é começo do mês, tento coisas um pouco mais caras, porque todo mundo recebeu o salário; depois vou baixando”. O desafio diário é grande, principalmente agora que está prestes a ser pai. A previsão da chegada do bebê é

Estratégias calculadas e muita fé. Essa é a receita de Erick Venâncio, 23 anos, para conquistar clientes dentro dos ônibus coletivos na capital potiguar. Contando seu exemplo de superação, o ambulante busca vender seus produtos diariamente. “Deus salva, Deus cura e Deus liberta. Por que eu estou falando isso? Porque eu sou prova viva. Faz 7 meses e 16 dias que eu saí da penitenciária de Ceará-Mirim, mas precisou acontecer isso para eu saber que Deus é Deus na minha vida. Se não tivesse acontecido isso, hoje eu poderia estar morto.” A jornada de entra e sai nos ônibus da capital começa às 8h e vai até 18h, para que Erick consiga o dinheiro que sustenta sua família. Ele conta que depender da boa vontade de um passageiro em conceder uma passagem pode ser humilhante, principalmente quando nenhum se dispõe a fazê-lo. Nesses casos, a única opção é descer e esperar que, no próximo, as pessoas tenham mais empatia. Erick oferece seus produtos para os passageiros dos ônibus Erick vende Foto: Victor Galvão desde acessórios para 21


onde mora de aluguel, o casal decidiu montar uma lojinha com artigos variados. O investimento nos produtos veio das economias das vendas do ambulante. A maior parte da renda familiar mensal, R$1.500,00, vem do trabalho de Erick, já que a loja ainda está em fase de consolidação. Com formação apenas no ensino fundamental, Erick pretende voltar a estudar. O sonho é se qualificar como técnico em Enfermagem. Mayse, que possui ensino médio incompleto, tamErick e Mayse na frente de sua casa no Pajuçara bém quer voltar à escola Foto: Larissa Duarte após dar à luz. O foco: um dezembro de 2019. curso de Radiologia. E nas trilhas desse cami A esposa, Mayse da Silva, 25 anos, nho, o casal corre atrás para transformar seus também tenta encontrar uma fonte de renda para desejos em realidade. colaborar no sustento da família. Na residência

UMA SURPRESA A CADA DIA Há dois anos no ramo de vendedor ambulante, Emerson Varela, 22 anos, já se tornou grande conhecedor das linhas de ônibus na região metropolitana de Natal. Todos os dias, ele acorda às 6h30 para iniciar seu trabalho, terminando por volta das 18h30. Com o incentivo do irmão, há mais de 15 anos como trabalhador informal, Emerson decidiu entrar na atividade, pois entendia que, se ficasse em casa, não conseguiria dinheiro. “Meti a cara e fui mesmo. No meu primeiro carro, eu me tremia mais do que vara verde. Meu irmão me contou o que falar, mas ele disse 100 e eu captei 20”, conta ele, sobre a sua primeira experiência como vendedor ambulante nos coletivos. Nesse dia, seu lucro foi ótimo para a média: R$ 68,00. 22

Morador do bairro das Rocas considerado periferia da cidade - o trabalhador caminha cerca de 5 km até o local onde pega seu primeiro ônibus, no Alecrim. “No meu primeiro dia, eu não me aguentava em pé. Minhas canelas são finas, achava que eu ia cair”, diz. Agora, já acostumado à rotina, ele revela que os motoristas são uma surpresa: uns fazem que não o vêem, outros chamam para entrar e tentar fazer o seu dinheiro. Apesar disso, conta que nunca passou por situação de constrangimento enquanto trabalhava. Emerson vende sempre o mesmo produto. “Eu sou destacado no chocolate, o pessoal já me conhece”, explica. E, mesmo com anos de prática como ambulante, ele diz que a venda é um mistério: “Às vezes, a pessoa que nem olha na sua cara é quem compra. Eu nunca esque-


ço desse carro [um interbairros de Parnamirim]. Só tinha três mulheres dentro, o cobrador e o motorista. Todos compraram três chocolates por R$5,00”, relembra. Segundo ele, os ônibus que circulam em regiões periféricas, como Mãe Luiza e Felipe Camarão, são os que mais possuem compradores. “Têm pessoas que super ajudam a gente, mas tem gente que menospreza. Eu não tive pior dia de venda. Se você entra em um carro e faz 25 centavos de gorjeta, já agradece a Deus”, comenta o jovem. Por Emerson com seu produto em frente à casa onde mora, nas Rocas enquanto, a atiFoto: Larissa Duarte vidade informal tem compensado para ele, que não deseja um emprego é se adoecer e não tiver um caixa rede car teira assinada no momento. “Você gistrado”, avalia. O desejo de Emerson faz seu horário. Começa a hora que quer é outro: voltar a estudar e finalizar, no e sai a hora que quer. O único problema mínimo, o ensino médio.

O MELHOR UM DIA CHEGA Com apenas 9 anos de idade, Carlos Magnos Alves Jota, 36 anos, começou a vender pirulito e picolé nas ruas do bairro do Alecrim e nos ônibus de Natal, depois de deixar a pequena Angicos, cidade de quase 12 mil habitantes, no central potiguar, devido à escassez de emprego. Na época, enfrentando a timidez, saía às 8h da casa de sua tia, no Pajuçara, com seu

primo mais velho, de 14 anos, para vender produtos feitos em casa. A jornada ia até às 17h. Contrariando seus pais, que preferiam que ele estudasse, Carlos optou pelo trabalho. “Desde novo, eu queria ter meu dinheiro, para comprar roupas e ajudar minha família”, conta o ambulante. Como muitos brasileiros, Carlos viveu quase toda sua vida trabalhando na informali23


dade para “conquistar seu suado dinheiro”. Além de ambulante, ele chegou a trabalhar como cortador de cana-de-açúcar, vendedor de peixe, mototáxi e empacotador em um mercadinho. Além disso, acabou enveredando pela ilegalidade durante um período, chegando a ser detido, porém liberado por ser menor. “Não era por safadeza, queria dinheiro apenas para comer”, justifica. Depois do episódio, desistiu de vez dessa ideia. Diferentemente de Erick e Emerson, Carlos já não atua mais como ambulante ou na informalidade. Trabalha de carteira assinada numa loja de material de construção e dedica seu tempo à esposa e filha. Sonhos: conquistar a casa própria e voltar a estudar, pois permanece analfabeto.

Carlos Magno e sua família em sua casa em Parnamirim Foto: Gustavo Henrique

LUTA POR SOBREVIVÊNCIA Trabalho informal cresce, e trabalhadores vivem sem garantias básicas Por Victor Galvão e Luiz Henrique Gomes “Trabalho informal é uma forma de subsistência de vida. O trabalhador informal não tem carteira assinada, nem horário fixo. Esse trabalho é considerado precarizado, pois não tem qualquer garantia de rendimentos”, informa Elaine Cristina Alves, doutora em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). A professora explica que as pessoas que trabalham no setor informal possuem um perfil geral: desempregados, baixa escolaridade e baixa renda. Sem garantia de plano de saúde, décimo terceiro, férias, auxílios e muitos outros direitos básicos do cidadão trabalhador. Vivem em uma espécie de subemprego. 24

Telma Maria Galvão de Morais, 44 anos, dona de uma cafeteria informal na zona leste de Natal, encaixa-se no perfil. Trabalha 12 horas diárias. É atendente, vendedora, caixa, cozinheira e faxineira. “Me sinto exausta!”, afirma, em relação à sua rotina. “Mas me sinto feliz também, sou realizada”, diz. No entanto, sua saúde a preocupa: “Meu maior problema é que o trabalho ocupa todo o meu dia e, com isso, não consigo me cuidar, nem ter um lazer. O trabalho não me dá chance de respirar”. Subemprego e auto-emprego são realidades no Brasil. Em entrevista coletiva, concedida a vários veículos de comunicação brasileiros, no terceiro trimestre deste ano, Cimar Azeredo, coordenador


do IBGE, explicou que o trabalho informal serviu, em 2003 e 2008, para reaquecer o mercado. Com o tempo, as carteiras foram sendo assinadas novamente, mas destacou que nunca viu, desde 2012, uma crise tão absurda como a atual. A solução, segundo a doutora Elaine Cristina, é a criação e o desenvolvimento de políticas públicas, pois o Estado deve assumir seu papel de garantir o bem estar da sociedade brasileira. De acordo com a subsecretária do Sistema Nacional de Emprego do Rio Grande do Norte (Sine/RN), Karla Verusca, o aumento do emprego informal é reflexo da diminuição dos empregos formais e da crise econômica do Brasil, “A questão do desemprego é nacional e, aqui no estado, enfrentamos o mesmo”, afirma. O Sine atua no cadastro de cida-

dãos desempregados e de empresas com vagas abertas para cruzar as duas pontas, de acordo com o perfil da vaga e do candidato. Entretanto, com a diminuição de empregos formais e a crise econômica, o mecanismo não é eficaz. Do início de 2019 até outubro, foram abertas 1.300 vagas para 17,5 mil candidatos cadastrados em todo território estadual, segundo Verusca. Outra dificuldade é que, cada vez mais, o perfil das vagas diverge do candidato. “As vagas exigem cada vez mais qualificações, e os candidatos, muitas vezes, não têm o perfil necessário”, afirma a subsecretária. As razões estão ligadas ao abandono escolar por parte dos mais jovens, falta de programas de incentivo ao emprego e mudança do mundo do emprego com o surgimento da tecnologia.

A tabela mostra, em porcentagem, os trabalhos informais, do menor ao maior 25


“Hoje há vagas no Sine direcionadas para a área de nutrição, tecnologia. Muitos acham que só surgem vagas para limpeza, vigilantes. Não é assim”, explica. Ainda de acordo com a subcoordenadora do Sine, o abandono escolar dos mais jovens, com consequências para sua qualificação, alimenta um ciclo de emprego precário: da escola, eles saem para os sinais ou para os ônibus, quando não partem para a criminalidade. A política do Estado para esse público é praticamente inexistente, sem programas voltados para incentivar e qualificar. No início desta década, o programa Jovem Aprendiz foi criado com o foco nesse público, mas está desativado há mais de cinco anos. No entanto, há intenção de retomá-lo. “Estamos, desde junho, em contato com empresas para dar incentivos fiscais a quem contratar Trabalhadores do setor informal vivem espécie de subemprego Foto: Daniel Guimarães mais jovens. É algo que perpassa várias esferas do Estado, mas estamos em diálogo”, de- do mercado exige experiência? Fica difíclara. “Este ano, o maior número de va- cil ele conseguir uma vaga”, questiona. gas foi com uma empresa voltada para Paralelo a isso, o governo estadual os mais jovens, com 300 vagas abertas”, também se mobiliza para ofertar cursos acrescenta Verusca. técnicos de qualificação. Mas tudo, ain Karla Verusca defende o Jovem da, no campo dos planos. “Estamos em Aprendiz como o programa que oferece diálogo com o Instituto Federal do Rio experiência de mercado de trabalho para Grande do Norte (IFRN), Senac e outras quebrar uma barreira imposta pelas em- instituições para conseguir ofertar cursos presas: a exigência de experiência. “Como técnicos a esses jovens, acabando com a um jovem vai ter experiência, se toda vaga barreira da qualificação”, informa.

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COLUNA

SEM TRABALHO FORMAL, SEM APOSENTADORIA Por Vitória Medeiros Após o golpe no governo da ex-presidenta Dilma Rousseff, as pautas tratadas pelo novo governo do MDB (até então PMDB) defendiam os interesses privados e capitalistas, colocando o povo em segundo plano. Se, durante o governo PT, o discurso era social, agora, é totalmente econômico. Porém, a forma pela qual anseiam resolver a crise financeira que o Brasil vive, como sempre, é atacando os direitos dos mais pobres. A partir do Governo Temer, muito tem se discutido a respeito da Reforma da Previdência e seus impactos na vida dos brasileiros. A mídia faz esforço para apresentar uma imagem positiva da mudança, e tanto a elite do país quanto o presidente Jair Bolsonaro a defendem. Porém, a maior vítima da aprovação da Reforma é o povo, principalmente o periférico, que teme que seu direito a aposentar-se seja um sonho distante. O Brasil é um país que sofre com desemprego, analfabetismo, desigualdade social e crises sucessivas na economia. Mas, no pensamento minimamente curioso do atual governo, o Brasil é uma potência máxima sem problema social, e tudo se resolverá milagrosamente com a aprovação da Reforma. A proposta da PEC 6/2019 significa retrocesso nos direitos fundamentais do cidadão. De acordo com levantamento realizado em 2018 pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), 34,3 milhões de trabalhadores que estão no mercado de trabalho não têm carteira assinada, logo não contribuem com o INSS. Ou seja, a aposentadoria torna-se

praticamente impossível. Quem está na informalidade, geralmente, são trabalhadores de baixa renda que lutam por seu sustento, já que o mercado não oferece vagas suficientes. A expectativa de vida da periferia brasileira é extremamente baixa. No estado brasileiro com maior Produto Interno Bruto (PIB), São Paulo, o Mapa da Desigualdade constatou que a expectativa de vida de quem mora na periferia é até 23 anos inferior a dos que vivem em áreas nobres. Poucos chegam aos 60 anos. Então, Bolsonaro e seus seguidores, como acham que essas pessoas terão paz, sendo que trabalharão até a morte? É, notoriamente, uma situação de escravidão moderna legitimada pelo Estado. A marginalização do trabalho informal no Brasil coloca o indivíduo como alguém que não terá acesso a seus direitos básicos por parte do Estado. Sem contar que a média de salário gerada por um trabalhador informal é cerca de R$ 1.300,00, bem inferior ao que ganham trabalhadores de carteira assinada e do setor privado, em torno de R$ 2.170,00. Enquanto isso, grandes empresários, militares e políticos “lutam” para manter seus privilégios com a Reforma da Previdência. A economia do país é extremamente importante e precisa, urgentemente, de mudanças. Por que o lado mais frágil da sociedade pagará por isso? Se o Estado realmente estivesse preocupado em defender o interesse da população, a redistribuição de renda deveria começar com a cobrança de tributos dos mais ricos. O Brasil é o país em que o lado mais fraco sempre paga pelos erros políticos para que a elite continue intocável. 27


Foto: Luanna Karen

MEIO AMBIENTE


VAI TER MULHER NO CAMPO SIM! E NA GESTÃO TAMBÉM Cresce participação da mulher em empreendimentos rurais, porém luta contra o machismo e por direitos ainda é necessária 60% eram provenientes da agricultura familiar. Nesse cenário, o papel e a participação Você tem ideia da importância da agricultura da mulher têm sido cada vez mais significatifamiliar na vida dos brasileiros? Segundo o últi- vos. De acordo com pesquisa realizada pela mo Censo Agropecuário (2018), realizado pelo Associação Brasileira de Marketing Rural e Ministério da Agricultura, a atividade é res- Agronegócio (ABMRA), a presença da mulher ponsável por sustentar 90% da economia dos em funções de decisão nos empreendimentos municípios do Brasil com até 20 mil habitan- rurais apresentou salto impressionante nos tes. Conforme dados do Instituto Brasileiro de últimos quatro anos, triplicando sua importânGeografia e Estatística (IBGE), em 2016, dos cia na gestão da atividade rural, de 10% para alimentos consumidos no Rio Grande do Norte, 31%. Atuando desde os primeiros processos do cultivo até a ocupação de cargos de comando, essas mulheres realçam sua força e lutam contra o preconceito. Seja na horta, na feira ou na administração, elas contribuem para o crescimento da agricultura familiar, atuando na obtenção da renda da família e no avanço desse mercado. Uma dessas mulheres é Fátima Torres, coordenadora da Central de Comercialização da Agricultura Familiar e Economia Solidária (Cecafes), que já contabiliza mais de 15 anos de trabalho. Segundo ela, nos últimos dez anos, as mulheres alcançaram muitas conquistas e saíram do papel de subordinadas, para ocuparem cargos de gestão de espaços e comercialização, participando diretamente da administração da renda. No entanto, Fátima acredita que há muito a melhorar, pois o desrespeito e os salários desiguais são ainda desafios a serem combatidos num ambiente altamente machista. As marcas desse preconceito ficam mais evidentes quando a mulher ocupa cargos que antes eram de preFátima Torres hoje ocupa o cargo de Coordenado- dominância masculina, como funções ra do Cecafe de administração e negociações. Para a Foto: Guilherme Oliveira pesquisadora da questão agrária brasi29 Por Guilherme Oliveira e Samuel Domingos


leira, professora doutora Ilena Felipe Barros, do Departamento de Serviço Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), é preciso entender que esses valores estão enraizados na cultura, por isso é tão difícil desconstruí-los. “Essa é a realidade de mulheres do campo e da cidade. Todas elas sofrem com algum tipo de preconceito, de prática de violência, que estão arraigados na formação do povo brasileiro”, explica. Além disso, segundo a pesquisadora, existem outros problemas que cercam as agricultoras. Um deles é o não reconhecimento das mulheres como trabalhadoras rurais. Mesmo executando uma maior jornada de trabalho, elas são vistas, muitas vezes, apenas como ajudantes do marido. Para garantir o cumprimento de seus direitos, muitos movimentos e organizações foram criados, culminando numa grande conquista: o direito à documentação. Iniciada pela

Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), a Campanha de Documentação para a Trabalhadora Rural promove a emissão de Identidades e CPFs. Ilena Felipe acredita que o motivo de algumas agricultoras não falarem sobre violência ou preconceito, é pelo fato de essas mulheres não estarem articuladas politicamente em grupos que discutem o assunto. A docente acredita que, para reverter esses obstáculos, é necessário haver muita luta. “O acesso a políticas públicas para as mulheres agricultoras só vem através da luta. Inclusive, para qualquer segmento da classe trabalhadora, só se alcançam políticas públicas e direitos sociais através das lutas sociais. Se não estiver organizado politicamente, se ficar em casa de braços cruzados, só reclamando, não alcança direito. E muita gente morreu para que nós tivéssemos direitos”, argumenta.

O SUSTENTO QUE VEM DA TERRA Junto com as seis filhas, Maria José produz alimentos orgânicos comercializados em Natal Por Nathalia Karen

dução orgânica entre as famílias produtoras. Apesar de fazer parte do projeto, dona Maria conta que é difícil fazer os consumidores acreditarem que os produtos são orgânicos.

Quem pensa que, no trabalho no campo, só tem homens, não conhece a luta de mulheres como Maria José Rocha do Nascimento, 61 anos. De uma terra cheia de hortaliças, com produção inteiramente orgânica, ela tira quase todo o sustento da sua família. Família esta, totalmente inserida na rotina dos afazeres do campo. Os conhecimentos sobre a terra partem de toda uma vida, convivendo e observando o comportamento da plantação, de geração em geração. A experiência em lidar com as hortaliças foi passada para a família, que participa do projeto “Amigo Verde”, o qual visa a promover a alimentação Maria José sustenta a família com a produção sustentável e sua comercialização na de orgânicos cidade de Natal, incentivando a proFoto: Nathalia Nunes 30


“Na feira em que a gente vende, as pessoas não acreditam que a gente não usa produtos agrotóxicos na plantação. É difícil, porque dá muito trabalho manter o cultivo sem esses produtos”, comenta. As dificuldades enfrentadas não desanimam Maria José, que não pretende deixar de produzir orgânicos. Ela entende a importância de uma alimentação sem agrotóxicos. “Antigamente, a gente não adoecia, porque tudo que a gente comia vinha da nossa terra. Hoje em dia, tudo é comprado nos supermercados grandes. As comidas de lá já vêm cheias de veneno”, argumenta, com sua sabedoria popular. Maria José não tem marido. Ela e as filhas dividem as tarefas, desde a plantação até os afazeres domésticos. Estar junto com

um homem não é prioridade para Maria. A separação do pai de seus filhos veio há pouco mais de dez anos, quando, segundo ela, percebeu que aquele casamento não lhe traria mais satisfação. Dos sete filhos, seis são mulheres, e o único homem não mora com Maria. Lúcio escolheu estudar e seguir outro caminho, que nada tem a ver com o negócio da família. As outras seis estudaram até o terceiro ano do Ensino Médio e, logo depois, dedicaram-se às hortaliças da família. Maria diz que nunca se sentiu amedrontada ou ameaçada por homens no campo. Ela é uma mulher forte. E, com o trabalho na agricultura familiar, junto às filhas, garante tanto o sustento da família, quanto oferta de alimentos saudáveis à mesa do consumidor.

Uma das filhas de Maria José trabalhando na plantação Foto: Nathalia Karen 31


TRÊS MULHERES, TRÊS HISTÓRIAS DE LUTA Agricultoras que vendem seus produtos na feira livre de Macaíba compartilham suas experiências

Por Luanna Karen e Marcella Vitória As feiras livres são um dos principais locais de comercialização de produtos da agricultura familiar. Na cidade de Macaíba, nas manhãs de sábado, a feira municipal reúne pessoas de outros municípios, fortalecendo a produção familiar regional. Grande parte das mulheres aprenderam a cultivar por causa de seus pais e, até hoje, colocam isso em prática nos seus lares. Francisca Rosa Lima, 62 anos, é uma delas. Nasceu em Ceará Mirim e, por vir de família de agricultores, aprendeu a cultivar aos 6 anos de idade. Hoje, trabalha como feirante e é moradora do distrito de Canabrava, em Macaíba.

Segundo Rosa, as dificuldades sempre estiveram presentes, seja na profissão ou em grandes momentos da sua vida, como sua infância, quando havia dias em que ela não tinha o que comer. Além disso, conta que a não conclusão do ensino fundamental e a necessidade de cuidar dos filhos foram outros obstáculos enfrentados. “Quando minhas duas filhas eram pequenas, meu marido foi para Goiás trabalhar, a gente andava 8 km a pé com enxadas, uma com 7 anos e outra com 8, passava em uma mata morrendo de medo”, revela Rosa, hoje mãe de oito filhos. Os obstáculo não a impediram de seguir a profissão. “Meu sonho é muitos anos de vida como agricultora”, diz Rosa. Mas, sua filha, Maria Dalva Lima de Paiva, 40 anos, também feirante e residente de Canabrava, tem uma perspectiva distinta: “Já pensei em desistir”. Uma das principais dificuldades é a jornada dupla de trabalho,

As marcas de anos de trabalho nas mãos de Francisca Rosa Foto: Marcella Vitória 32


Maria Dalva já passou por dificuldades, mas não desistiu e as enfrentou Foto: Luanna Karen em que ela precisa cuidar da casa e da plantação. Por isso, não deseja a mesma profissão para os filhos. “Meu sonho é que meus filhos se formem e tenham um emprego diferente.” Aline Paula, também vende na feira de Macaíba. A agricultora é de Guanduba, região rural do município de São Gonçalo do Amarante. Ela começou a plantar e comercializar por causa da dificuldade para arrumar emprego. O marido, por ter experiência na área, ensinou-a a cultivar. A maior dificuldade é quando as plantações são infectadas por pragas. A dupla jornada de trabalho, para Aline, não pesa tanto. “Tenho uma filha com 15 anos que cuida dos outros meninos enquanto estou na horta”, comenta a feirante. A agricultura consegue suprir as necessidades da família, porém o sonho de Paula é conseguir um emprego estável e ter uma renda fixa para fugir da instabilidade. Três mulheres com histó-

rias que se cruzam por meio da agricultura. Mesmo exercendo papel fundamental nessa área, não é sempre que elas conseguem o merecido reconhecimento. As perspectivas e lutas diárias são diferentes, mas todas possuem força, inspiração, desejos e sonhos de que um futuro melhor as aguarda.

O contraste de cores da banca de Paula Foto: Luanna Karen 33


COLUNA

VENENO SEM EUFEMISMOS Por Ingrid Torres Produtos fitossanitários ou defensivos agrícolas. Essa seria a nova nomenclatura na legislação brasileira para os tão polêmicos agrotóxicos, proposta pelo deputado Álvaro Dias (PV-PR), em 2016, e, em 2018, pelo então ministro da Agricultura, Blario Maggi (PP). Felizmente, o primeiro projeto foi engavetado uma semana depois, após grande repercussão na internet. O segundo está em tramitação no Congresso Nacional. Os agrotóxicos são produtos químicos usados no cultivo para combater pragas e aumentar a produtividade, a qual realmente é alcançada, visto que o Brasil é um dos maiores exportadores de alimentos do mundo. As pragas também estão sendo combatidas, é verdade. Mas, há riscos. Trabalhadores que fazem as aplicações dos agrotóxicos estão sujeitos a diversas complicações à saúde, assim como quem consome o produto. Os efeitos podem surgir rapidamente, dependendo das formas de exposição, fazendo com que doenças se desenvolvam, como irritação na pele, náuseas, fraqueza, danos ao fígado, depressão, infertilidade, problemas no desenvolvimento intelectual e físico de crianças, câncer e até alzheimer. A agricultura familiar aparece como alternativa, com a produção de alimentos livres de agrotóxicos. O consumo dessa produção no Brasil aumentou 4% nos últimos dois anos, segundo pesquisa feita pelo Conselho Brasileiro da Produção Orgânica e Sustentável (Organis). Os chamados alimentos orgânicos, além de mais saudáveis, trazem dignidade ao trabalhador do campo, a qual, muitas vezes, não é encontrada no agronegócio. No entanto, ainda há empecilhos para o desenvolvimento pleno 34

da agricultura familiar: tornar conhecidos os seus produtos; manter contato direto com o consumidor, sem necessidade de intermediários; políticas públicas de incentivo, principalmente, crédito agrícola viável, entre outros. O agronegócio – também conhecido por agrobusiness – contém a maior quantidade de terra produtiva do país e as usa para movimentar a indústria agroexportadora e pecuária. Representados pela bancada ruralista no governo, os latifundiários não abrem mão de suas plantações e criações gigantescas movidas, em alguns casos, a péssimas condições de trabalho, sofrimento de animais e desmatamento, nem tomam atitudes para diminuir o emprego de produtos danosos nos alimentos produzidos. Para eles, o lucro é o mais importante. Então, sugerir modificar o nome agrotóxicos para produtos fitossanitários ou defensivos agrícolas, não diminuirá seus efeitos. O eufemismo sugerido em 2016 e 2018 é apenas uma forma de alienar a população em relação ao que ela consome diariamente. De acordo com a revista Época, o atual governo chegou a liberar 290 agrotóxicos em menos de um ano. Esse aumento desenfreado mostra o alinhamento do presidente à bancada ruralista. Enquanto a agricultura familiar quer crescer, os que estão no poder pretendem adotar nomenclaturas brandas para fazer o povo parar de reclamar. Não é bobagem. É saúde. É política. É um direito básico. Essa problemática não pode ser maquiada com uma artimanha de linguagem distorcida dos descarados “representantes do povo”.


LIVE, WORK, POSE! Uma ode à transgressão de gênero e à quebra da masculinidade negra

Por Rachel Oliveira e Richardson Alexandre


Modelos: Jefferson Turibio (Melano Guidรก) e Murilo Carvalho


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