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Revista Tabu - 6ª edição

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editorial Embora estejamos enfrentando uma pandemia, a vida continua correndo e, muitas vezes, passando por cima de pessoas que não dispõem sequer de recursos para subsistência, quanto mais para emergências desse teor. Somado a isso, a desigualdade aumentou, agravando problemas sociais que já existiam. Em meio ao caos instaurado durante o ano de 2020, cada vez mais nos vemos diante de situações que se direcionam para o apagamento das demandas da população em situação de vulnerabilidade e de grupos minorizados. Mas eles seguem resistindo, da forma que podem, e demonstrando que não dá mais para ficar em silêncio. A Tabu busca abordar essas questões. Mostrar o que a mídia tradicional, muitas vezes, não mostra. Colaborar para que a sociedade, ao conhecer as diversas realidades que a rodeiam, possa saber para, assim, escolher como atuar. Nesta edição, trazemos reportagens nos campos de cultura, meio ambiente, direitos humanos e periferia, situados nesse contexto de pandemia, e voltados a problematizações contemporâneas que nos ajudam a refletir: como os setores culturais tiveram que se reinventar? A quantas anda o plano diretor de Natal e que impactos pode trazer? Você sabia que a violência contra a mulher cresceu durante o isolamento social? E que não está sendo fácil para alunos e professores o ensino remoto? E, mesmo aqueles projetos sociais, que são um respiro e uma esperança para territórios periféricos, sofreram o impacto da realidade sanitária que foi imposta? Convidamos vocês para mergulharem nesta edição, conscientes de que a luta para que todos tenham direito a seus direitos não cessa jamais, enquanto a humanidade não compreender que somos todos um no mesmo planeta e que a alteridade, a solidariedade e o respeito são os valores que devem nortear cada um e a coletividade.


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sumário Cultura

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Meio Ambiente

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Direitos Humanos

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Periferia

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Revista-laboratório do Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, elaborada por alunos do componente curricular Laboratório de Planejamento e Pesquisa em Jornalismo. Periodicidade semestral. Edição 6. Ano 4. Dezembro 2020. Orientação: Janaina Barcelos (Mtb. 6010/MG) Editores: Cultura: Isaac Silva e Ícaro Carvalho Meio Ambiente: Sávio Padilha e Laura Andrade Direitos Humanos: Marielle Souto e Luisa Rebouças Periferia: Michelle Siqueira e Kevin Santos Criação e diagramação: Édipo Oliveira, Higor Nunes e Gustavo Silva


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Performers buscam alternativas durante a pandemia Também conhecidos como micro e nano influenciadores, artistas se empenham na criação de conteúdos para redes sociais

Por Adalberto Júnior, Anthony Medeiros, Carlos Saturnino e Miguel Dantas Sem trabalho presencial nas áreas de cultura e entretenimento por conta da pandemia do novo coronavírus, pessoas que atuam nesse segmento viram as suas rendas afetadas de forma brusca, inclusive aquelas que acumulam as suas atividades de influência digital com produções de eventos e performances artísticas. Assim ocorreu com o potiguar Pedro Monteiro, 24 anos, que faz sucesso há dois anos como criador de conteúdo na internet. Com 21,2 mil seguidores no Instagram e 54 mil no Tik Tok, o micro influenciador sentiu duplamente o baque gerado pelos adiamentos de eventos culturais.

Sobre o novo normal, o digital influencer avalia: “Muitos artistas e espaços culturais em nosso Estado não têm como se manter. Vejo o Governo Federal despreparado para lidar com ações de valorização deles e das minorias. Por isso, a Lei Aldir Blanc é necessária e oportuna, já que a capacidade de público e o nível de produção dos eventos somente voltarão ao normal com vacinação em massa”.

Reinvenção

“É difícil quando se está numa zona de conforto e algo adverso acontece. Tive que voltar a morar com a família em Caicó e buscar atendimento psicológico virtual. Somente após algum tempo, passei a entender que ‘reinventar’ é a palavra mágica”, relata. Ao migrar para o Tik Tok, ele achou o espaço ideal para expor vídeos e tags com potencial de ganhos financeiros e viralização. “O meu processo de reinvenção me devolveu o equilíbrio emocional e a chance de voltar a ter recursos para o próprio sustento”, conta Pedro.

Pedro Monteiro para publicidade da 99Pop (Acervo pessoal)


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Engajamento Outra pessoa que precisou reinventar-se é Brunno Vini, 20 anos, DJ, performer e influencer na capital potiguar. Figura carimbada da noite natalense, Brunno conquistou um importante espaço no mercado de micro e nano influenciadores potiguares por sua autenticidade e carisma. “As pessoas começaram a me acompanhar nas redes sociais de maneira muito natural, pois geralmente estou inserido nos mesmos nichos dos meus seguidores”, relata o artista, destacando que essa inserção é um dos motivos para seu bom engajamento nas mídias. O influencer conta com 19 mil seguidores no Instagram, 46 mil no TikTok e quase 5 mil no Twitter. Adaptação e Luta Como DJ, no entanto, Brunno teve de se adaptar às apresentações remotas. “Foi um processo bastante diferente do que estava acostumado: me descobrir como DJ online”, revela. O artista sempre que se apresentava, ouvia o retorno do som e firmava conexões com seu público, algo que não era possível – de forma direta – pelas apresentações remotas. Apesar dos esforços, o DJ revela queda de 80% na quantidade de shows feitos durante o período. Além da pandemia, a personalidade natalense enfrenta mais uma luta em sua trajetória: o racismo. Jovem negro, Brunno ressalta que as oportunidades são maiores, principalmente entre os influencers, para pessoas brancas e heterossexuais. Mas ele não desanima e continua levantando a bandeira antirracista, além de buscar reconhecimento por seus trabalhos: cômico, no TikTok e Instagram; artístico, nas performances; e DJ sets, nos palcos potiguares.

Brunno Vini em publicação do seu Instagram (Acervo pessoal)


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Performance e visibilidade Saintt Cllair é uma drag performer e cantora potiguar de 20 anos, também afetada pela pandemia. Além do cachê das apresentações, ela maquiava outras pessoas para garantir sua renda. Investiu muito na carreira antes da pandemia começar e vivia sua melhor fase. Durante o Carnaval de 2020, Saintt foi convidada para ser uma das atrações do Baile das Kengas no Centro Histórico de Natal, abrindo o show de uma das drag queens mais famosas do Brasil, Glória Groove. “É muito importante visibilidade, performances, e uma oportunidade dessas é muito favorecedora”, comenta a cantora. Diante das reviravoltas e necessidades de se conectar com seu público, Saintt Cllair começou a produzir challenges de maquiagens e a gravar covers sugeridos por seguidores, bem como

conseguiu alguns patrocínios que a ajudaram a continuar postando nas redes sociais durante a quarentena. “É difícil para uma pessoa trans ou não-binária ter seu conteúdo consumido e patrocinado por marcas. O meio de divulgação na internet ainda está mais aberto para quem é cis, por ser o mais visualizado, e as marcas trabalham com isso em mente. Logo, são escassos oportunidades e reconhecimento só por sermos quem somos”, desabafa. Sobre auxílios do governo, ela não recebeu ajuda de nenhum órgão público por causa do cancelamento temporário dos eventos. Ao ser questionada sobre a Lei Aldir Blanc, Saintt Cllair diz que não tinha ouvido falar dela. Apesar da saudade dos palcos e de crises de ansiedade devido à incerteza do futuro, Saintt ainda não se sente segura para realizar apresentações, mesmo já tendo recebido propostas para voltar à ativa.

Saintt Cllair posando na praia de Miami, próxima à escadaria de Mãe Luiza (Acervo pessoal)

Conheça a Aldir Blanc (Lei nº 14.017) Por Aline Vitória e Bruno Vital Direcionada a quem? Aos trabalhadores informais do setor da cultura: três parcelas de R$600, mesmo valor do auxílio emergencial. Aos espaços artísticos e culturais: destinado um subsídio mensal, que varia entre R$3 mil e R$10 mil.

Quem distribui os recursos? Estados e municípios após repasse da União. Quem foi Aldir Blanc? Escritor e compositor, que morreu aos 73 anos vítima da Covid-19. Carioca, de Vila Isabel, Blanc deixou composições como “O Bêbado e a Equilibrista” e “Resposta ao Tempo”.


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Por trás das lentes e das telas Enclausurados em casa pela pandemia, fotógrafos se desdobram para se manterem ativos e criam ensaios à distância Por Giovanna Cavalcanti e Gustavo Silva A pandemia do novo coronavírus levou profissões no mundo inteiro a se readaptar a uma sociedade que, em poucos dias, viu-se enclausurada em casa. A fotografia foi uma delas. Profissionais da área, diante do distanciamento social, logo se perguntaram como continuar suas atividades com essas restrições. A tecnologia e a criatividade trouxeram a resposta. Muitos fotógrafos começaram a fazer ensaios à distância, virtualmente. O fotógrafo potiguar, Ian Rassari, no ramo há seis anos, foi um deles. Recém chegado a São Paulo, em busca de novas perspectivas para a carreira, foi pego de surpresa pela quarentena. “Não tive tempo de produzir muito, nem de desbravar a cidade”, lamenta. Suelen Maia, cearense radicada em Natal, na fotografia há três anos, passou por experiência semelhante. Começou a fazer ensaios virtuais a partir da observação de outros profissionais. Suelen Maia se prepara para capturar um momento em sua câmera. (Acervo pessoal)

Ian Rassari teve que se adaptar (Acervo pessoal)

Após conhecer aplicativos e recursos necessários, fez um teste de ensaio remoto e, depois, as oportunidades surgiram. “No começo, fiquei uns dois meses sem fazer nada assim, só em stand-by”, conta. Antes de fotografar, Suelen conversa com a pessoa para conhecê-la um pouco, além de observar os recursos disponíveis no ambiente que será o cenário. O ensaio dura em média 45 minutos. Para a fotógrafa, uma das vantagens é o trabalho ser feito do conforto de casa, sem muitos custos e exigências que um ensaio presencial teria. “Os ensaios remotos se tornam algo mais íntimo e saem mais naturais e espontâneos”, acredita Suelen. Além dessas adaptações, Rassari destaca que os fotógrafos também enfrentam questões técnicas, como conexão da internet e tipo de dispositivo que o fotografado possui, já que as fotos são feitas por videochamada. Mesmo assim, a iniciativa tem obtido adeptos e, tanto para Suelen, quanto para Rassari, ela tende a continuar após a pandemia. A profissional comenta que ficou surpresa com o formato e até se perguntou como a fotografia remota não era comum antes da quarentena. Uma das vantagens que cita é a facilidade de se comunicar e fazer o ensaio com pessoas que moram longe, em outro estado ou país. Além disso, é uma oportunidade de fotografar outras culturas, costumes e rostos.


Ensaio Fotográfico

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AUTOCUIDADO As fotos dos ensaios à distância, tiradas por Ian Rassari via Facetime, captam a essência dos processos de cura e do olhar para si durante esse período turbulento da pandemia. Confira algumas delas:

(Fotos: Ian Rassari)

OLHOS NEGROS Olhares marcantes e retratos únicos. Capturados, via Skype, pelo olhar de Suelen Maia em seus ensaios à distância. Admire, a seguir, alguns desses cliques:

(Fotos: Suelen Maia)


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Plano Diretor de Natal carrega polêmicas Como a pandemia afetou a continuidade da revisão e do desenvolvimento do plano que pode mudar a cara e a vida da cidade

Por Jerusa Vieira, Larissa Araújo e Layssa Beatriz Meio ambiente, economia, vida social, arquitetura, cultura, inclusão social. Todos esses aspectos devem integrar políticas públicas de desenvolvimento sustentável das cidades. A principal iniciativa, nesse sentido, na capital potiguar, é o Plano Diretor de Natal (PDN). Seu objetivo é o desenvolvimento de ações para melhorar a qualidade de vida dos habitantes do município, como, por exemplo, iniciativas que promovam o cuidado com o meio ambiente, a economia sustentável e a proteção do patrimônio histórico e cultural. O Plano Diretor de Natal possui cinco etapas para sua revisão: planejamento, leitura da cidade, sistematização e elaboração da minuta, conferência final e encaminhamento à Câmara Municipal. As três primeiras fases foram concluídas antes da pandemia.

A Avenida Engenheiro Roberto Freire é a divisa entre o que foi cedido para o avanço imobiliário e o que ainda é preservado, no bairro de Capim Macio (Rodrigo Maker)

Contudo, a quarta, da conferência final, que começaria em 20 de março, foi adiada, com a publicação do decreto 11.920 de 17 de março de 2020. Assinado pelo prefeito Álvaro Dias, o documento sustentava o estado de emergência na cidade, em combate ao coronavírus. O objetivo da pré-conferência era definir, por meio de votações, os delegados responsáveis pela votação futura da minuta do projeto de lei sobre o PDN. Entretanto, segundo o secretário de Meio Ambiente e Urbanismo de Natal (Semurb), Thiago Mesquita, o planejamento do Plano Diretor não podia ser interrompido, principalmente por não haver previsão para o fim de um período pandêmico. Ele ressalta a importância de dar continuidade à revisão do PDN, sobretudo para a retomada econômica do município, a qual já possuía um histórico de perda antes da pandemia.


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Portanto, a questão agora é judicial: o município pode recorrer, não acatando a decisão do Ministério Público, e tentar reverter a situação para encaminhar os resultados à Câmara Municipal; ou pode acatar e refazer a quarta etapa da Conferência Final. Meio ambiente

Thiago Mesquita, secretário da Semurb (Layssa Beatriz)

O secretário destaca que o Plano Diretor é a principal política pública de uma cidade, pois, além das questões ambientais, envolve a economia, os aspectos sociais, históricos, arquitetônicos, culturais, além de promover acessibilidade e inclusão. Trata-se de temáticas obrigatórias na revisão do documento. As reuniões por videoconferência contribuíram para o andamento da quarta etapa do processo de revisão. Novas medidas foram determinadas e aplicadas pelo Conselho da Cidade (Concidade), com novos prazos e procedimentos para a pré-conferência, a conferência final e as eleições dos delegados. Esse processo resultou na conclusão da quarta etapa durante a pandemia. No entanto, o Ministério Público do Rio Grande do Norte (MP-RN) determinou, no dia 26 de agosto, sua anulação. O MP aponta problemas ligados à participação popular, à representatividade, à publicidade e à legalidade dos atos. “Não houve publicidade prévia e adequada dos atos e até mesmo faltou esclarecimento para a população e para os Delegados sobre a proposta de revisão em si, que deveria ser divulgada em linguagem acessível, conforme exige o Estatuto da Cidade (Lei Federal 10.257/2001) e o Regimento Interno”, destacou o MP, em nota.

Com relação à questão ambiental, o destaque no Plano Diretor é a autorregulamentação das cinco Zonas de Proteção Ambiental que ainda não possuem lei específica: Morro do Careca e dunas fixas contínuas; Forte dos Reis Magos e seu entorno; ecossistema manguezal e Estuário do Potengi/Jundiaí; ecossistema de lagoas e dunas ao longo do Rio Doce; Farol de Mãe Luíza e seu entorno. Sobre a polêmica verticalização na paisagem da orla, o secretário municipal alega serem boatos. “Nunca houve propostas com relação a isso, pelo contrário, a intenção é transformar zonas turísticas numa área especial de interesse, para deixar bem claro que o foco é a preservação do aspecto cênico e paisagístico”. Segundo Mesquita, o grande legado do PDN é o equilíbrio. “Ele trata tanto a questão ambiental, quanto os aspectos socioeconômicos. Sustentabilidade é exatamente isso, ter eficiência econômica, promover equidade social e preservar os recursos naturais”, explica. Controvérsias A professora do departamento de Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e coordenadora do projeto de extensão Fórum Direito à Cidade, Ruth Ataíde, contraria a fala do secretário e diz que há um recuo em relação a essa proposta de verticalização, porém ela sempre existiu nas pautas sobre a revisão do Plano e nas oficinas.


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Ela relata que, em julho de 2019, durante uma palestra na Casa Indústria, a exibição do vídeo “A Natal que queremos”, que mostra diversas construções na orla, foi aplaudida pela gestão pública. Segundo a docente, a expressão usada atualmente é a de “modernizar” a cidade, e isso se daria, na fala dos gestores, pela construção de edifícios. “O papel do gestor público é entender a diversidade e manter isso como a expressão da cidade que gere e não querer imprimir nessa cidade outras formas de ocupação”, avalia Ruth. E acrescenta: “Nossa orla tem uma característica que é referência nacional, que tem a ver com esse respeito à diversidade da sua ocupação e das suas populações, e é por isso que ela não é verticalizada, como outras cidades, que possuem uma história diferente da nossa”.

O Fórum Direito à Cidade esteve presente no processo de revisão do Plano Diretor, assim como nas oficinas realizadas nos bairros, registrando as irregularidades do processo. Ela assegura que não houve participação popular, e que não é verídica a fala dos gestores de que mais de 4 mil pessoas participaram das oficinas, pois, segundo Ruth, sempre estavam presentes as mesmas pessoas e a contagem das assinaturas não levou em consideração as muitas que se repetiam. O PDN só não foi aprovado em 2019, porque o Fórum pressionou o Ministério Público, alegando que a forma como a prefeitura o conduzia prejudicava o conteúdo das oficinas, devido à falta da participação real da comunidade.

Entenda os trâmites do PDN Dia 6 de maio de 2020, o Instagram oficial do Plano Diretor de Natal (@planodiretordenatal) informou que o Conselho da Cidade (Concidade) publicou a resolução n° 03°/2020 no diário oficial do município, a qual tornavam públicos os novos prazos e procedimentos para a retomada do processo de revisão do PDN. A resolução definia os próximos passos para a pré-conferência, o reagendamento da conferência final e as eleições dos delegados. A resolução marcava as eleições para 22 a 24 de maio. Contudo, durante a inscrição dos eleitores habilitados a escolher os delegados, o processo foi interrompido a pedido do Ministério Público, sob alegação da necessidade de uma audiência pública antes da pré-conferência para escolha dos delegados de forma virtual. A Procuradoria Geral do Município (PGM) entrou com recurso no Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte (TJRN), demonstrando que o Regimento de Revisão não exigia a forma presencial da audiência. Então, a Justiça autorizou o prosseguimento da revisão do PDN. As eleições ocorreram, virtualmente, de 8 a 10 de julho. Em 14 de julho, a Comissão Eleitoral divulgou o resultado da Pré-Conferência da Cidade de Natal, o qual foi anulado, devido ao percentual dos delegados presentes na conferência final. Esse processo deverá ser refeito, e as medidas para tal estão sendo consideradas. A Concidade já publicou, no Diário Oficial do município de 24 de novembro, a convocação de uma assembleia geral extraordinária para 10 de dezembro, para redefinir o reagendamento da Conferência do Plano Diretor.


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Tapando o sol com a peneira População em situação de vulnerabilidade teme remoção, caso propostas de “modernização” sejam aprovadas, e demanda atenção para problemas já existentes

Por Dayane Cibelle e Jerusa Vieira Natal está parada no tempo quanto ao seu desenvolvimento. O Plano Diretor (PDN) deveria ser reavaliado a cada dez anos, porém sua última revisão foi em 2007. A cidade e a população cresceram, novas construções foram realizadas, e os problemas de mobilidade, urbanização, saneamento básico, incluindo abastecimento de água, rede de esgoto, entre outras questões, só se agravaram ao passar do tempo. Deslizamento de terra, poluição dos mares e das praias (principal fonte de turismo da cidade), prédios abandonados com risco de desabamento, acúmulo de entulho em terrenos abandonados, esgoto a céu aberto são só alguns dos problemas enfrentados pela população. Exemplo de esquecimento do poder público para com a população foi o deslizamento de terra em Mãe Luiza, em junho de 2014, que destruiu 30 casas, prejudicando mais de 78 famílias. Estudo sobre essa tragédia, realizado pelo professor do departamento de Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Pedro Henrique Godeiro Lima, mostra que, “apesar dos fatores de adensamento populacional e impermeabilização do solo, bem como do grande volume pluviométrico em um intervalo de poucas horas, que ocasionou, a princípio, o deslizamento da encosta – houve falha dos órgãos em solucionar rapidamente o problema de vazamento

das redes de esgoto e drenagem e do buraco aberto na Rua Guanabara”. Ou seja, se houvesse preocupação dos órgãos públicos com a questão sanitária do bairro, provavelmente a história de Mãe Luiza seria diferente. Deslizamento de terra no bairro Mãe Luiza, em junho de 2014 (Cedida por moradores)

Com propostas de modernização, verticalização da orla da praia, construção de prédios nos lugares mais vulneráveis da cidade, que são as comunidades, onde muitas famílias sequer possuem escrituras das casas onde habitam e correm o risco de serem removidas sob alegação de ocupação ilegal, poucas propostas para reais melhorias dos problemas sanitários, de mobilidade urbana já existentes, o Plano Diretor deixa questionamentos e preocupações na população que não se sente amparada pelos órgãos públicos.


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A gestora de Políticas Públicas e presidenta da União Estadual dos Estudantes (UNE) do RN, Yara Costa, moradora da comunidade Brasília Teimosa, no bairro Rocas, onde nasceu e foi criada, acredita que o maior problema do Plano Diretor é a remoção das pessoas que moram nas comunidades para outro local. Segundo ela, a visão de muitos residentes do bairro para essa proposta é negativa, até mesmo porque a fonte de renda dos trabalhadores desse lugar está na praia e no centro da cidade, próximo de suas casas. Ela explica que, para deslocar as pessoas de onde vivem, não poderia ser por menos de 150 a 200 mil reais de indenização, como exigem alguns moradores. Sobre a situação de Rocas, Yara relata que a pauta da remoção é complicada e falta informação massiva para a população sobre o que está acontecendo. Segundo ela, as discussões acabam restritas aos grupos que participaram das oficinas do Plano Diretor, além de envolverem uma linguagem muito técnica, que dificulta a comunicação. Para Yara, há sugestões para que o Plano Diretor possa beneficiar de fato a comunidade e o turismo da cidade, numa perspectiva cultural e comunitária. Uma delas é melhorar a infraestrutura, como o saneamento, que envolve drenagem e combate aos alagamentos. “O PDN não tem que ser só sobre a perspectiva de modernização, de como a cidade vai estar daqui há anos, mas sobre melhorar os problemas que ela já tem”, avalia. Mais que falar, a comunidade age. Durante a pandemia, no período em que seria votado o PDN e as pessoas não tinham conhecimento sobre ele, Yara e outros moradores de Brasília Teimosa idealizaram o BTFlix, projeto de exibição de filmes nas ruas do bairro, que abordam questões de preservação das moradias e o Plano Diretor.

Yara Costa, moradora da comunidade Brasília Teimosa, no bairro Rocas (Acervo pessoal)

Um deles foi o documentário “Tire as construções da minha praia”, dirigido pelo professor Ruy Rocha e realizado por alunos de Audiovisual da UFRN, que traz uma reflexão sobre os impactos da facilitação da verticalização dos prédios na orla da capital potiguar e a especulação imobiliária com construção de prédios residenciais voltados para um público com maior poder aquisitivo, removendo os habitantes das comunidades. Morador da Vila de Ponta Negra desde os 4 anos de idade, Elton Eduardo Xavier relembra a tentativa, há 15 anos, de construção de um prédio num terreno, pertencente a uma construtora, onde a população da Vila praticava esportes. A obra acabou sendo embargada devido ao tipo arenoso do terreno. Elton acredita que, com a aprovação do novo Plano Diretor, a chance de esse tipo de obra ser aprovada será maior. Ele reclama da falta de espaços de convivência, praças, quadras, que proporcionem momentos de lazer e práticas esportivas à população da Vila.


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A professora do departamento de Arquitetura da UFRN e coordenadora do projeto de extensão Fórum Direito à Cidade, Ruth Ataíde, destaca a importância do Plano Diretor pensar nas especificidades de cada comunidade, vendo-as como um “lugar de realização da vida”. São territórios ocupados pelos moradores há muitos anos, onde vivem, trabalham, estudam, convivem. Segundo ela, o PDN não deveria olhar uma suposta cidade moderna sem considerar essa população e seu direito de permanecer em seus locais. E aí é onde mora o perigo da remoção e da especulação imobiliária.

Vila de Ponta Negra é onde se concentra a maior parte dos ambulantes que trabalham na praia de Ponta Negra (Dayane Cibelle)

É possível crescer de modo sustentável? Plano Diretor de Natal exacerba debate sobre a possibilidade de harmonia entre desenvolvimento e sustentabilidade

Orla verticalizada na praia de Miami em Petrópolis (Dayane Cibelle)

Por Bruno Vinnicius e Thiago Andrade Natal é uma cidade cuja estrutura não envolve planejamento, de acordo com Klaus Araújo, vereador (SD) reeleito na cidade e um dos relatores do Plano Diretor de Natal (PDN). O último plano a ser implementado no município natalense foi em 1970 e, mesmo assim, ainda trazia muitos problemas.

A cidade em si, em termos de gestão, apresenta enormes dificuldades ligadas ao planejamento urbano, em relação a tráfego de pessoas, prestação de serviços que melhorem a qualidade de vida da população e, principalmente, em manter o cidadão na cidade, o que influencia no deslocamento das pessoas para


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cidades satélites e na ocupação de áreas periféricas, muitas vezes sem infraestrutura básica, o que geralmente afeta o meio ambiente. A maior preocupação quando se fala em Plano Diretor, principalmente em uma cidade como Natal, rodeada pela natureza, com mangues, dunas e praias, é a questão ambiental. Segundo Klaus, o desenvolvimento ecológico da cidade esbarra em antigas burocracias ambientais, que não atendem mais às demandas atuais. Ele defende a atualização desses processos para que haja flexibilidade para o desenvolvimento necessário ao município e, ao mesmo tempo, preservação ambiental. O vereador critica certas posturas de ambientalistas e defende a construção de prédios na Zona Norte e na orla, locais que muitos consideram inapropriados para essa visão de desenvolvimento. Isso, segundo ele, é necessário e não afetaria o meio ambiente. Klaus Araújo considera que Natal está atrasada em comparação a outras capitais nordestinas, como Fortaleza, João Pessoa e Recife. Para ele o

projeto impactaria a quantidade de turistas que entra na cidade, levando em conta que o turismo é a atividade que mais movimenta a economia de Natal. Essa não é a visão do Coletivo Salve Natal, grupo que luta por um Plano Diretor mais justo e ambientalmente responsável. O grupo critica o posicionamento do vereador e afirma que a fala do político privilegia um determinado grupo social e a sua visão de cidade. Para o Coletivo, a afirmação de que a legislação urbanística entravaria o crescimento da cidade mostra desconhecimento dos limites do PDN para o aquecimento da economia e da função das Zonas de Proteção Ambiental para o conforto urbano de Natal. O Salve Natal alerta para o fato de as atuais propostas de revisão do Plano Diretor estarem encaminhando para uma cidade mais vertical, quente, cinza e menos convidativa, o que pode refletir negativamente no turismo, já que grande parte das pessoas vem a Natal por suas belezas naturais.

Orla de Ponta Negra vista da Vila de Ponta Negra (Dayane Cibelle)


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Vivendo com o inimigo Paralelo ao crescimento da Covid-19, os números da violência contra a mulher aumentaram durante a pandemia no RN Por Brenda Moura, Eliza Rosa, Leonardo Pereira, Nathália Mendonça e Hyasmim Brasil Este ano, a violência doméstica cresceu 258% em comparação ao mesmo período do ano passado. As tentativas de homicídio tiveram alta de 36%, entre 12 de março e 18 de maio, em relação a 2019, conforme dados do Observatório da Violência Letal Intencional no Rio Grande do Norte (Obvio RN). A razão para esses dados terem se agravado seria a convivência com o agressor e o medo de sair de casa, durante a pandemia do novo coronavírus. Por trás dessas estatísticas estão vidas, como a de Joana D’Arc Vieira, 50 anos, lactarista da Maternidade da Secretaria de Saúde de Natal. “A gente entrega a vida na mão de uma pessoa, confia. Acredita que a promessa feita em um altar vai ser para vida toda”, diz Joana, que se casou, aos 28, com o pai de suas duas filhas, com quem viveu por 13 anos.

Os primeiros três anos de matrimônio foram, segundo ela, “mil maravilhas”. Mas, tudo mudou. Quem deveria ser seu companheiro, virou tormento. A dor emocional de descobrir uma traição do marido virou dor corporal. Uma dupla violência. O que acontece com Joana, assim como outras violências contra a mulher, viola os Direitos Humanos. Sobretudo, o direito à vida. Isolamento e agressão Para prevenir e controlar a disseminação do novo coronavírus, vários estados brasileiros instituíram o isolamento social, a partir de março de 2020. Porém, a ideia de que estar em casa é o mais seguro para todos neste momento não representa a realidade de muitas mulheres que compartilham o mesmo teto com seus agressores. O fato de se manterem isoladas do mundo exterior alimenta ainda mais o medo e a tensão de, a todo momento, estarem nas mãos de quem as agride, ameaça e tortura. Durante o período de isolamento social, o número de registro de boletins de ocorrência (BO) diminuiu, mas isso não retrata a realidade. A violência cresceu, porém os órgãos competentes não foram notificados, como aponta o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Joana diz que sua vida começou após fim de relacionamento abusivo (Acervo pessoal)


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De acordo com dados do Comitê Parlamentar de Violência Contra as Mulheres, houve queda de 43% no registro da agressão de gênero depois de março. O art. 7º, da Lei Maria da Penha elenca cinco tipos de violência doméstica e familiar contra a mulher: física, psicológica, moral, sexual e patrimonial. A juíza da Comarca de Arez/RN, Maria Cristina Menezes, explica que, para denunciar, a mulher pode se dirigir a uma delegacia e dizer que sofreu algum tipo de violência. Porém, sair dessa espiral violenta no lar não é tão simples assim. Principalmente em um contexto de isolamento social.

Casa nem sempre é sinônimo de conforto Os primeiros sinais de quem era seu parceiro foram notados por Joana a partir do nascimento da segunda filha do casal. “De resguardo, chegou a me agredir. Minhas duas filhas têm diferença de um ano e oito meses. Houve um dia em que a mais velha chorava, querendo mamar. Ele se irritou por eu estar dando de mamar somente para uma quando tinha ‘dois peitos’”, relata. Joana sente que a violência doméstica é um ciclo em que, primeiro, vem a agressão, que pode ser de diversas formas. Depois, o agressor retoma a amizade por um período de paz, de “lua de mel”. Então, começa tudo novamente. Novas agressões.

Juíza ressalta necessidade de discurso de encorajamento, observação e denúncia, para que mulheres sobreviventes da violência não se sintam sozinhas (Hyasmim Brasil)

“Fiz várias denúncias”

A primeira denúncia de Joana foi para uma assistente social. “Sequer falei com um policial”, conta. A segunda ocorreu após seu marido quebrar sua mão com uma vassoura e um rodo. “Fui à Delegacia da Mulher e fiz uma denúncia. A delegada, dessa vez, me atendeu”, desabafa a sobrevivente. A terceira foi após uma discussão, quando confrontou seu marido sobre uma suposta amante. Com uma cadeira de madeira, da mesa de jantar, o agressor acertou a testa da esposa. “Eu colocava o braço na frente. Ele me arranhou inteira, mas teve uma hora que o ‘pé’ da cadeira atingiu a minha testa. Tenho uma cicatriz desse dia, vocês conseguem ver?”, revela, apontando para a marca em sua testa. A delegada, após perguntar se ela estava certa da separação, encaminhou-a para a Secretaria Municipal de Trabalho e Assistência Social (Semtas).


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Na Casa Abrigo, Joana viveu com suas duas filhas por dois meses, onde havia assistência psicológica, professores para as crianças e outros amparos, como maneiras para “desocupar a mente”. Entretanto, nunca houve medida protetiva contra o agressor. Após a terceira denúncia, ele foi sentenciado a prestar serviços comunitários em uma escola, o que potencializou sua raiva, mas diminuiu as agressões físicas, pelo medo de sofrer uma pena maior depois. Pelo menos, é nisso que acredita Joana.

CANAIS PARA DENÚNCIA Disque-denúncia : 180. Patrulha Maria da Penha: 190. Defensoria Pública do Estado do Rio Grande do Norte: (84) 9 9695-8936 (WhatsApp).

Local onde funciona a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM/Zona Sul), em Natal (Luisa Rebouças)

Acolhimento e proteção A casa abrigo Clara Camarão, localizada em Natal, é um espaço para amparar mulheres vítimas de violência doméstica e familiar sob risco de morte e mantê-las em segurança junto de seus filhos. A vítima deve realizar o BO na Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam), ou em qualquer delegacia. A Secretaria Municipal de Políticas Públicas para as Mulheres (Semul) é responsável pelo abrigo e pela rede de atenção às mulheres vítimas de agressão na cidade. Além do acolhimento de mulheres sobreviventes, é essencial que haja a renovação do pensamento patriarcal enraizado na sociedade brasileira. Uma iniciativa nessa direção é o Grupo Reflexivo de Homens, desenvolvido pelo 3° Juizado de Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher, coordenado pelo Juiz Rosivaldo Toscano, em Natal. A psicóloga Kelly Viana conta que aqueles agressores que participam do Grupo podem ter o processo suspenso por dois anos. Caso cumpram as exigências feitas pela Justiça, têm o processo extinto ou pena reduzida. O agressor só pode participar se autorizado pela mulher agredida. “Nesses encontros, trabalha-se para que haja a reconfiguração de um hábito cultural, para que não haja a reincidência”, relata a psicóloga.


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Pandemia escancara desigualdade social na educação

Diferenças entre escolas públicas e privadas marcam realidade do ensino remoto Por Andréa Fortuna, Antunes Moisés, Rodolfo Lamarck, Yasmim Lima, Zidney Marinho Com a suspensão das aulas presenciais, estudantes e professores precisaram se adaptar a uma nova realidade, que se provou difícil, especialmente para o sistema público de ensino. De acordo com a Secretaria de Estado de Educação e Cultura do Rio Grande do Norte (Seec), 20% dos 216 mil alunos da rede estadual não haviam tido qualquer tipo de acompanhamento remoto até agosto, quase cinco meses após a paralisação das aulas presenciais. Para a Secretaria, esse grupo representa a parcela que terá maior prejuízo quando as aulas retornarem.

da Educação de Jovens e Adultos (EJA), apenas 161 mantiveram contato com a escola até o mês de novembro. No ensino regular, esse índice é menor, mas também preocupante: dos 68 alunos matriculados no turno vespertino, 46 mantiveram contato com o corpo docente até o fim do ano. Não foi fácil conduzir as atividades remotas: “A gente não tinha o total de alunos para ter efetividade”, avalia Jucilene. A professora aponta que a baixa adesão tem raízes sociais e está intimamente relacionada ao ambiente de estudo dos estudantes. Segundo ela, muitos deles estavam ingressando no mercado de trabalho, a fim de contribuir para a renda do núcleo familiar, que, devido à pandemia, ficou comprometida. Jucilene de Souza, socióloga e professora, avalia as dificuldades de conduzir o ensino remoto (Acervo pessoal)

Diferenças entre escolas públicas e privadas marcam realidade do ensino remoto (Leonardo Pereira)

A Escola Estadual Raimundo Soares (EERS) fez um levantamento para analisar o acesso dos matriculados ao WhatsApp, principal meio de comunicação entre alunos e professores. Conforme a mestre em Sociologia e professora da EERS, Jucilene de Souza, dos 300 alunos


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Ele avalia que o ensino remoto em decorrência da pandemia prejudicou a vida de muita gente: “Muitos começaram a trabalhar por necessidade, outros não têm esse costume de aprender algum conteúdo em casa”. Edson menciona que alguns professores ofereceram aulas gravadas voltadas à preparação para o Enem, mas sem o mesmo direcionamento que existia em sala de aula.

Levantamento feito pela EERS (Acervo pessoal)

Essa prática influenciou fortemente a evasão escolar, devido ao cansaço e à rotina pesada a que esses alunos eram expostos. Outro agravante exposto pela pandemia é a diferença entre o ensino público e o particular. Pesquisa realizada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br) mostra que 39% dos alunos do Ensino Fundamental e Médio de escolas públicas não possuem aparelhos que possibilitem o acesso às aulas remotas em casa. Em contrapartida, esse índice é de apenas 9% em escolas particulares. Essa desigualdade não se encontra somente na falta de aparelhos eletrônicos e recursos, mas também na oferta do ensino para preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). “Na verdade, eu desisti do Enem”, comenta Edson Maciel, estudante da Escola Estadual Desembargador Floriano Cavalcante.

Edson Maciel desistiu de prestar o Enem em 2021 (Acervo pessoal)

Segundo ele, essa prática, apesar de válida, não provoca o mesmo efeito em despertar o interesse dos alunos, por haver uma significativa ausência de cobrança, aliada às condições inapropriadas nos ambientes caseiros de estudo. “Este ano, o Enem vai ser uma demonstração da desigualdade social do acesso ao ensino público superior”, acredita Jucilene. Para a professora, há uma urgência dos alunos para ingressar no mercado de trabalho por meio da formação acadêmica, mas isso está cada vez mais difícil principalmente em um contexto que não oferta as mesmas oportunidades a todos.


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Kairos, o momento oportuno Projeto social transforma vida de jovens em Extremoz, no Rio Grande do Norte

Por Henrique Monte Futebol se joga no estádio, na praia, na rua, na alma. Assim está nos versos do poema Futebol, de Carlos Drummond de Andrade. Mas está também na alma de quem idealiza iniciativas de inclusão social, usando o futebol como instrumento. Essa é a realidade de Júlio Lima, 30 anos, criador do Kairos, projeto de futsal para jovens e adultos, na periferia do município de Extremoz, região metropolitana de Natal. Há três anos, o Kairos utiliza espaços do próprio bairro Moinhos, como o da rua Rio Mudo, para suas atividades. Diante da falta de lazer para essa população, é muito bem bem-vinda uma iniciativa capaz de atrair e envolver os jovens da comunidade. O projeto também está aberto a crianças de 7 anos e adultos a partir dos 18 anos, sem idade limite, desde que obedeçam às normas do projeto. “Não pode ter falta de respeito, falta de disciplina, mau exemplo para as crianças, para as categorias que vêm antes”, afirma o fundador. Ocupar uma quadra para jogar bola, com treinamento adequado e organização, acaba tornando-se uma alternativa para lidar com o aliciamento de pequenos grupos, que usam e traficam drogas ilícitas no local, e de combater a violência e a exclusão social. Júlio Lima, fundador do projeto, em entrevista on-line (Michelle Siqueira)

Aliás, esse é um dos objetivos do Kairos, que tenta não só colaborar para mudar a realidade dos participantes, como também revelar nomes de atletas para competições diversas. Júlio Lima relembra o início do sonho, quando chegou de Guarulhos (SP) a Extremoz. Na cidade paulista, era morador da favela Tupinambá, bairro dos Pimentas, região periférica. Desde então, já tinha o desejo de construir um projeto social, mas sua região era dominada por uma facção criminosa. “Os meninos na faixa etária de 14 anos eram convocados para trabalhar para eles, seja nas ‘biqueiras’, seja carregando drogas, como for”, conta Júlio. Junto com amigos, conseguiu um treinador e, como não havia espaço para montar um projeto social, criou um time de futebol.


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De uma reunião, surgiu o nome Kairos, que significa “tudo no tempo certo, tudo no tempo oportuno”. Já em Extremoz, deu ao projeto que fundou o mesmo nome, resgatando sua história pessoal. A sinergia entre o fundador e a diretoria, formada por voluntários convidados por Júlio, garante o revezamento nos trei-

nos entre meninos, meninas, goleiros e os dias de treino livre, o que permite ofertar atividades de segunda a sábado. “O pessoal foi vendo que o projeto é sério e que dá incentivo. E tem muita gente, como eu, com vontade de ajudar o próximo. Eles foram ‘chegando’ em mim e eu vendo. Os quesitos são ter bom coração e ser presente”, explica o fundador do Kairos.

Direito à cidade

Por Ítalo Bruno e William Danilo Pesquisar o projeto Kairos no site da prefeitura de Extremoz (RN) gera zero resultados. Não há sequer uma menção de sua existência. Tampouco existem dados nas páginas das Secretarias. Tantas vidas jovens afetadas pelo projeto e nenhum vestígio de sua existência oficial. O papel incrível desempenhado pelo fundador Júlio Lima e voluntários para a cidade, apenas com doações, carece de auxílio do poder público. Com reconhecimento e apoio, mais jovens seriam retirados do ócio, e a cidade seria beneficiada com mais qualidade de vida. Como em muitos municípios do Brasil, a população extremozense sofre com a ausência de políticas públicas que integrem o uso do espaço com os anseios da comunidade. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população da cidade quase dobrou de 1991 a 2010, saindo de 14.941 habitantes para 24.569. Esse aumento não foi acompanhado de projetos integrativos que permitissem melhor aproveitamento dos ambientes comunitários. É justamente nesse vácuo que projetos sociais costumam se desenvolver, numa tentativa das pessoas de quebrar a

inércia e o ciclo de abandono. O Kairos é exemplo disso. Quem visita Extremoz percebe como a especulação imobiliária afetou o modo de vida do lugar. Pela cidade, anúncios de corretoras oferecem terrenos e casas a preços acessíveis. Por estar a apenas 23 km da capital, o município atraiu investidores e interessados em moradia mais barata. Essa demanda trouxe vários problemas enfrentados em metrópoles. O Kairos atua numa faceta do crescimento que é uma dos mais cruéis para quem vive na comunidade: a violência. O secretário interino de Esporte e Lazer de Extremoz, Ricardo Barros, conhece o projeto dirigido por Júlio Lima. “Eles têm feito um grande trabalho lá na quadra do Central Parque 3, mas a gente não tem verba para ajudá-los diretamente. Quando podemos, damos uma bola, uma rede, mas eles se mantêm com doação da comunidade”, diz. Ele esclarece que a quadra foi feita pela empreiteira que construiu o conjunto habitacional, e a Prefeitura faz manutenção no local. Já a secretária de Assistência Social de Extremoz, Andressa Kerley, ouviu falar do projeto, mas informa que ele não está cadastrado no Conselho de Assistência Social, o que impede o acompanhamento.


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Protagonismo feminino Projeto valoriza participação das mulheres no esporte Por Gabriel Gomes, Henrique Monte e Kelen Gladson

O futebol de quadra ainda é uma modalidade esportiva predominantemente masculina no Brasil. Mesmo assim, o projeto Kairos conta com participação expressiva do público feminino. No primeiro treino, apenas duas meninas compareceram. Com o incentivo dos jogadores, o fundador do projeto, Júlio Lima, investiu em treinos para acolher as meninas. Este ano, 35 jogadoras participam ativamente do projeto, nas mais diversas funções em quadra. “O acolhimento foi muito importante. Júlio e os outros diretores souberam receber todas as meninas com igualdade, sempre dando apoio para absolutamente tudo nos treinos”, conta a goleira Denyse de Oliveira Rodrigues, de 18 anos, uma das integrantes e diretora do projeto.

Denyse Rodrigues exibe, feliz, camiseta do projeto (Acervo pessoal)

Kamilly Varela não tem dúvida, mulher pode e deve jogar bola (Acervo pessoal)

Aos 16 anos, Denyse foi diagnosticada com Linfoma de Hodgkin. Sentia fortes dores na coluna após os treinos. A doença foi confirmada e este ano, em setembro, a jovem venceu o câncer. O Kairos teve papel importante nessa luta, pois o desejo de voltar para a quadra e de retomar seu lugar no gol, foi uma de suas motivações. Outro exemplo é a jogadora participante do projeto, Kamilly Varela, que vê no esporte um fio de esperança para a consolidação do protagonismo feminino na modalidade. “Como mulher, e por querer jogar bola, fui sim criticada inúmeras vezes, mas nunca me deixei intimidar por comentários aleatórios e que não iriam, nem vão favorecer nada na minha vida. Jogo por diversão e amor”, argumenta.


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Transformando realidades Comprometimento, suporte e empenho estão por todo o projeto Por Habyner Lima e Henrique Monte Centenas de jovens e adultos já passaram pelo Kairos, e as transformações que o projeto promove são visíveis. “O Kairos mudou a vida de muitos ‘boy’, tirou muitos da ‘maldade”, conta o rapper Júnior Jackson, 18 anos. O jovem está no Kairos desde seu início. “Este projeto é muito importante, antes não tinha nada. Júlio chegou e botou para frente. Ele foi o único que realmente acreditou”, diz Júnior. Lucas Batista, 15 anos, foi acolhido logo no começo do projeto: “Começou com seis ‘boy’. Antes não tinha nada. Aí a gente veio no primeiro dia e gostou. O projeto é muito bom e também tem acompanhamento da gente na escola. Sem o projeto, eu estaria perdido”, conta o ala que sonha ser um atleta profissional do esporte. Disciplina e respeito se mantêm como bases do projeto, ajudando a oferecer aos jovens participantes uma orientação para sua conduta na vida diária. “Nenhum aluno entra na quadra antes do seu horário. Isso é disciplina. E o respeito você não compra, você conquista”, reforça o fundador Júlio Lima, que se transformou em exemplo, uma figura “paterna” para os jovens. Tudo que sai da sua boca tem a atenção dos alunos. A admiração dos atletas pela figura do líder vem sendo construída desde o início do projeto e lapidada a cada dia. A questão comportamental também é observada pelo preparador de goleiros, George de Oliveira. “O comprometimento deles é demais, o respeito que têm por mim é fora de série. Recentemente, o pai de um aluno me agradeceu pelos anos que

Diálogo após treino para pontuar melhoras na performance e aconselhar os jovens (Diego Augusto)

venho trabalhando com o filho dele, dizendo que boa parte da evolução do filho era mérito do projeto”, conta. Algumas das quadras onde são realizados os treinos são áreas de atuação e influência de facções criminosas. O projeto busca reverter esse quadro, apresentando outros horizontes para a juventude, como ocorreu com Júnior, 21 anos. “Certo dia ele disse assim: ‘professor, eu quero focar no projeto, fazer o certo, andar corretamente. Tenho minha filhinha de um ano e dois meses”, relembra Júlio. Depois que o projeto entrou na sua vida, ele conseguiu emprego e estruturou-se para se dedicar à família. Aí veio a pandemia, e os treinos foram suspensos. Infelizmente, a falta do projeto afetou o jovem. “Ele acabou fazendo uma coisa errada, que custou sua vida. Isso para mim foi muito impactante”, confessa, emocionado, o idealizador do projeto.


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Impacto da pandemia no projeto Projeto caminha com dificuldade sim, mas mantém persistência Por Antonio Oliveira e Renan Rodrigues Em um ano marcado pela pandemia do novo coronavírus, o Kairos não saiu ileso. As atividades foram interrompidas e logo instaurou-se uma ociosidade perturbadora, que trouxe preocupação à diretoria: “O que mais me deixou chateado é que muita gente ficou com a mente vazia; minha preocupação é saúde mental deles. Porque a gente não os vê apenas como alunos”, desabafa o fundador do projeto, Júlio Lima. O impacto da pandemia não foi tão negativo porque deu respiro para planejar e divulgar melhor o projeto. No entanto, a precariedade de recursos sempre foi uma realidade. Mas esses desafios não prejudicam a força do projeto, o qual gera muita procura por parte dos jovens da comunidade. Houve ocasião em que um evento interno estava programado em quadra com previsão de cerca de 50 participantes. Apareceram quase 400 pessoas, entre interessados, alunos, familiares e moradores locais. O impacto na vida dos alunos é evidente. São jovens que enfrentam transtornos como ansiedade, depressão, além de problemas familiares ou financeiros. Em meio a tudo isso, o Kairos ajuda. É para todos e todas. Júlio Lima confessa que a impossibilidade de realização do projeto por causa da pandemia gera um sentimento de insuficiência. E comemora a diminuição dos casos da doença, na expectativa de poder voltar às atividades.

Infelizmente, o município de Extremoz não está livre de uma segunda onda de contágio, assim como o resto do país. Conforme dados de acompanhamento do Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde (LAIS), atualizados com frequência mais que diária pela internet, para Extremoz foram registrados quase mil casos e 41 óbitos. Em outubro, a curva dos contágios teve a maior baixa, mas já inclina subida em novembro. A agitação das eleições para prefeito pode ter motivado o quadro que se desenha. Mas desistir não é uma opção para o Kairos. “Suportamos, oferecemos, exigimos”: estampa em camiseta do projeto (Michelle Siqueira)


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