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Revista Tabu - 4ª Edição

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Editorial Até quando nos obrigarão a tirar ainda mais do nosso bolso?  Com a Declaração Universal dos Direitos do Homem, em 1948, os direitos sociais, assim como os civis, políticos e humanos, passaram a ser reconhecidos mundialmente, considerados como direitos naturais e essenciais às pessoas. Baseados na dignidade e na liberdade da pessoa humana, os direitos humanos são norteados por princípios morais e universais: o respeito à vida, à liberdade, à justiça, à igualdade, à fraternidade e à paz. Basta nascer humano para poder usufruir desses direitos sem distinção de cor, gênero, raça, religião, língua ou opinião política.   Mesmo após décadas da sua criação, a maioria desses direitos universais ainda não é garantida em sua totalidade, existindo vários tipos de violações. Devido a essa precariedade na garantia da assistência do Estado, os “direitos humanos” se tornaram sinônimo de desorganização para a opinião pública, tendo o significado distorcido de forma negativa.   Desesperançada e cansada de esperar pelas ações do poder público, a sociedade, em sua coletividade, passou a suprir com suas próprias mãos o que deveria ser garantido pelo Estado, criando alternativas e projetos com a ajuda do segundo e do terceiro setores.   Algumas empresas também se favorecem dessas iniciativas por gerar visibilidade ao seu produto, e Organizações Não Governamentais (ONGs) são criadas com o intuito de sanar algumas lacunas sociais, prestando serviços que são de responsabilidade do poder público.   Seja por quem for, o trabalho está sendo feito, ainda que caminhe aos tropeços. Mas não é feito por quem recebe o nosso dinheiro para realizálo. É essa problematização que não pode deixar de ser feita. As iniciativas são boas, sejam privadas, públicas ou pessoais, mas o povo, que já paga altos impostos para receber o devido retorno, está tirando mais ainda do próprio bolso e do próprio tempo para que a sociedade respire. O dever é de quem está acima de nós, sendo sustentado por nós, mas diz estar de igual para igual, numa falsa posição de serventia pública. Que o detentor do poder faça, ou pelo menos aprenda com quem está fazendo. 2 I  REVISTA TABU I 4 EDIÇÃO


sUMÁRIO

PERIFERIA DIREITOS HUMANOS ENSAIO FOTOGRÁFICO MEIO AMBIENTE CULTURA

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Revista-laboratório do Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, elaborada por alunos do componente curricular Laboratório de Planejamento e Pesquisa em Jornalismo. Periodicidade semestral. Ed 4, Ano 3, Junho de 2019.

ORIENTAÇÃO: Janaina Barcelos (MTB 6010- MG)

CULTURA: MEIO AMBIENTE: Editora: Rayane Fernandes Editora: Manuela Lima Sub-editora:Gilvanise Oliveira Sub-editora: Sulla Miranda

EDITORES-CHEFE: DIREITOS HUMANOS: Editora: Yasmin Alves Marcus Arboés Sub-editor: Rangel Pontes Joana Mercedes

PERIFERIA: Editora: Lúcia Oliveira Sub-editora: Isa Caroline

PROJETO GRÁFICO E EDITORAÇÃO: Ana Luiza Vila Nova MÍDIAS SOCIAIS: Hogla Geovanna Isa Caroline Yasmin Alves REVISTA TABU I 4 EDIÇÃO I  3


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REPORTAGEM

Meu Baldo, minha vida A história de quem vive à sombra, no centro de Natal Por Hogla Geovanna e Marcelo Nascimento

O viaduto do Baldo possui ótima localização. No centro de Natal, além de interligar as zonas da capital, assumiu outra função: serve de teto para quem não possui casa. São várias histórias de vida e um só desejo de ter uma moradia digna, direito fundamental de todo ser humano.

Muito residentes chegaram lá em virtude da dependência química. Marcelo Bruno, 26 anos, foi internado 23 vezes em diferentes clínicas para dependentes químicos, mas nunca conseguiu deixar o vício. Há um ano e meio, saiu da casa da sua família. “Eles não merecem sofrer por causa das minhas atitudes, já sou prejudicado, não quero prejudicar outras pessoas”, afirma. Além de receber o Bolsa Família, trabalha com sua esposa na reciclagem. Pai de três crianças – que não moram com ele – e sonhador, Bruno conta que seu maior desejo é se libertar do vício e conseguir um lar para viver com seus filhos.

Pixação na estrutura do viaduto: sonho de todos (Foto: Marcelo Nascimento)

A morada improvisada é equipada por sofás, colchões, cadeiras, mesas, fogão à lenha ou carvão. Quando chove, boa parte dessas coisas, muitas adquiridas por doações, são danificadas ou até perdidas. Os moradores se sustentam como podem, seja recebendo o Bolsa Família, seja trabalhando com reciclagem. Grande parte deles se vê impossibilitada de conseguir uma vaga no mercado de trabalho. Muitos relatam que isso acontece porque, quando vão a uma entrevista de emprego e dizem onde moram, os recrutadores já os descartam, desconsiderando as experiências profissionais que possuem.

Bruno é mais um que sonha todos os dias com uma moradia digna (Foto: Marcelo Nascimento)

A história de Pierre da Silva de Moura, 42 anos, é semelhante. Ele possui ensino médio completo e já trabalhou em várias empresas. Há quatro anos, também devido ao uso de drogas, saiu de casa para não atrapalhar a família e foi viver nas ruas. Hoje, almeja um emprego, mas, segundo ele, apesar de possuir bastante habilidade, ninguém oferece oportunidade. REVISTA TABU I 4 EDIÇÃO I  5


REPORTAGEM

Pierre da Silva, o experiente e habilidoso morador do Baldo (Foto: Hogla Geovanna)

Luciano Duarte Vigar, 40 anos, é graduado em Letras-Inglês e em Psicologia, com especialização em Psicologia Social. Fluente em inglês, espanhol e francês, Luciano chegou às ruas devido ao vício em álcool. Sua família não sabe que ele está nessa situação e ele não consegue fazer contato. Hoje, sente vontade de sair dessa condição, mas ainda falta um direcionamento que o ajude a encontrar uma saída.

Luciano Vigar, paulista e poliglota que se encontra nas ruas de Natal (Foto: Hogla Geovanna)

Para buscar maneiras de tirá-los das ruas e garantir-lhes um emprego, os habitantes do Baldo criaram o Movimento Nacional da População de Rua, comandado por Vanilson Torres, morador do Viaduto, com apoio do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) Cidade Alta. Já por parte do poder público, há o Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua, o Centro POP. Localizado em frente 6 I  REVISTA TABU I 4 EDIÇÃO

ao viaduto, o local oferece acompanhamento especializado, com o objetivo de encontrar meios que viabilizem o processo gradativo de saída da situação de rua.  O Centro POP oferece refeições (café da manhã e almoço) e outros serviços, como lavanderia, material de higiene pessoal, acompanhamento psicossocial, oficinas socioeducativas e acesso à documentação, destinados a moradores em situação de rua acima de 18 anos. Além disso, há o Albergue Municipal, também no centro da cidade, onde os cadastrados podem passar a noite. Todas essas instituições têm dificuldades para se manterem, pois, segundo a assessora de Comunicação da Secretaria Municipal do Trabalho e de Assistência Social (Semtas), Suzana Vieira, esses serviços não são financiados pelo Estado, logo, a região interiorana não consegue dispor de auxílios, ficando uma sobrecarga para a capital em atender todas as demandas.  Bruno, Pierre, Luciano. Três histórias. Três pessoas com sonhos, desejos de uma vida melhor. Destinos que se cruzam numa realidade que contempla mais de 100 mil pessoas no Brasil, segundo dados subestimados e datados de 2015- do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). O estudo do IPEA destaca a necessidade e relevância de se obter dados atualizados sobre pessoas em situação de rua, essenciais para formular e implementar políticas públicas para essa população.  No Rio Grande do Norte, não se sabe quantas pessoas vivem em situação de rua hoje, pois não há uma instituição responsável por esse levantamento. Porém, ao trafegar pelas ruas de Natal, a realidade se mostra, como no caso dos moradores do Baldo.


REPORTAGEM

Jovens como protaGonistas de seu futuro Projeto em Mãe Luiza oferece aulas de música e culinária a moradores da comunidade Por Friedda Santos e Taís Ramos

Os jovens que moram em Mãe Luiza, Zona Leste de Natal, têm diante de si um futuro recheado de novos aprendizados. Música ou Culinária? Pode escolher. Essas são opções oferecidas pelo projeto Protagonismo Juvenil, desenvolvido pelo Centro Sócio-Pastoral Nossa Senhora da Conceição, junto à Ameropa Fundation, organização não governamental da Suíça, financiadora de projetos sociais pelo mundo, ao Serviço de Assistência Rural e Urbana (SAR) e ao instituto Cooperforte, de Brasília.  A iniciativa oferece aulas de música e qualificação profissional na comunidade. A primeira proposta implantada foi a Escola de Música, coordenada pelo professor Leonardo Tomé, maestro da Banda Filarmônica de Mãe Luiza, junto aos professores Paula Francinete e Pedro Augusto. A Escola tem capacidade para atender 65 alunos, que passam por um processo de aprendizagem até chegarem à Banda Filarmônica, que existe há três anos.  Atualmente, 20 alunos aprendem teoria musical e se aperfeiçoam em instrumentos de sopro e percussão. As aulas acontecem duas vezes na semana e os ensaios gerais, três vezes. “O projeto foi muito abraçado pela comunidade. Essa grande participação dos meninos denuncia que essa escola era algo que se desejava muito”, diz o professor Leonardo.

Aluna ensaia no espaço onde funciona a escola de música (Foto: Friedda Santos)

Em março de 2019, o SAR e o instituto Cooperforte decidiram ampliar o projeto com a inclusão social através de um curso na área da culinária, voltado a jovens de 16 a 29 anos, em situação de vulnerabilidade social.  O curso de qualificação profissional é dividido em quatro módulos: Educação Alimentar, Visão Empreendedora, Formação Cidadã e Culinária. As aulas acontecem nas instalações do Centro Sócio-Pastoral, três vezes por semana, e contam com a participação de cerca de 20 jovens da comunidade, dando-lhes possibilidades de inserção no mercado de trabalho. “O que me motiva é ver a evolução deles e que finalmente podem contar com uma oportunidade que vai realmente abrir portas”, comenta Suzan Hilario, assistente social responsável pelo projeto. REVISTA TABU I 4 EDIÇÃO I  7


REPORTAGEM

Aluno e professora praticam culinária nas aulas (Foto: Friedda Santos)

De acordo com Edilza Gadelha, coordenadora pedagógica do Centro SócioPastoral, tanto os instrumentos musicais quanto os materiais usados no curso de culinária são doações de amigos e parceiros que ajudam na manutenção do projeto, assim como as contribuições vindas da Suíça e da Alemanha. Todas as atividades são decididas em conjunto com a comunidade.  Johnatan Firmino do Nascimento, 26 anos, é um dos jovens que integram o projeto. Aos 18, conheceu seu pai, herdou seu negócio – uma marcenaria – e hoje sonha ir além. O projeto tornou seu sonho possível, pois lhe ensinou a realizar investimentos, além de diversas técnicas e aspectos essenciais do empreendedorismo. “Sou marceneiro e comecei o projeto no intuito de entrar no ramo da gastronomia. Porém, com o pouco que já aprendi sobre empreendedorismo, decidi investir no setor de marketing digital para aumentar as vendas na minha marcenaria”, revela.  O marceneiro empreendedor vê com excelentes olhos o que é feito, na iniciativa social, com o jovem, que pode desenvolver novas perspectivas de vida. “O projeto levanta bastante discussões, o que não tinha 8 I  REVISTA TABU I 4 EDIÇÃO

aqui na Mãe Luiza. Discute assuntos como empreendedorismo, política e sobre nossos direitos previstos na Constituição. Tem muita gente aqui que não sabia sobre esses direitos”, diz, satisfeito.  Natália Lucas de Souza, 27 anos, assim como Johnatan, faz parte do projeto. Empreendedora nata, Natália possui um pequeno negócio de aluguel de brinquedos para festas infantis. Entre a jornada dupla de ser mãe e a de microempreendedora, ainda encontra tempo para estudar e expandir seus conhecimentos. A moça conta que entrou no curso para ampliar sua fonte de renda: “O projeto me ajudou a ter uma visão mais empreendedora, de ter soluções rápidas para ganhar dinheiro de uma forma mais prática”. Disposta a unir seu gosto pela culinária a seu trabalho, Natália tem se dedicado bastante ao curso. “Ao mesmo tempo que os professores ensinam a prática, existe a teoria de como investir”, diz, animada com o futuro.

Johnatan, concentrado, em uma das aulas do projeto (Foto: Taís Ramos)


REPORTAGEM

Vale dos sonhos (perdidos) Quando a falta de estrutura e de projetos nas periferias vira falta de perspectiva de vida Por Felipe Mateus

O bairro Nossa Senhora da Apresentação, comunidade periférica da Zona Norte de Natal, é formado por diversos loteamentos, e um deles é o Vale Dourado. Muitos de seus moradores são crianças e jovens que só pensam em uma palavra: diversão. Entretanto, o loteamento não lhes oferece muitos recursos. Faltam opções de esporte e lazer, como uma quadra esportiva e até mesmo praças públicas. Essa carência de estrutura altera o entendimento do que é lazer para essas crianças e esses jovens.  Natural de Guarujá, São Paulo, Roseane da Silva Pires tem 20 anos e vive em Natal há quase dez. Desde que chegou, ela mora no Vale Dourado. Cresceu ali, onde a menina daquele tempo não via muitas opções de lazer. As amizades que conquistou na comunidade a apresentaram que diversão se resumia a festas, bebidas e drogas. Aos 13 anos, Roseane foi pela primeira vez a uma festa. “Eu achava que diversão era isso: sair, usar drogas, beber”, conta. Sua adolescência caminhou assim, entre garrafas vazias e festas lotadas.  Suas amigas sempre se reuniam para festas e, no São João de 2013, não foi diferente, mas sua mãe não a deixou ir. No dia seguinte, soube que uma amiga havia sido esfaqueada durante a festa, e nenhuma das colegas teria ajudado a moça. Foi o alerta para Roseane começar a repensar suas escolhas. No entanto, mesmo

após o nascimento de sua filha Sophia, aos 17 anos, continuava a sair. “Deixava minha filha largada”, conta. Aos 19, engravidou novamente do filho Heitor. Não recebeu apoio do pai da criança, nem da própria família. Nem financeiro, nem psicológico.  A segunda gravidez a motivou a mudar de vida. Afastou-se de festas, drogas e bebidas. Hoje, com 20 anos e dois filhos para criar, mora com a mãe Zulene e tem receio em relação ao futuro dos filhos. “Do jeito que as pessoas estão, eu tenho medo do futuro dele e dela. Tenho muito medo do que o mundo oferece”, diz. Roseane lamenta a falta de opções de esporte ou lazer para seus filhos no Vale Dourado, pois acredita que isso é uma porta aberta para que as crianças se envolvam com algo ilícito. Ela afirma que sempre questiona a filha sobre o que aprendeu na escola, para entender o que a menina vem absorvendo de lá, pois não quer que seus filhos vivam tudo o que ela passou na sua adolescência.  A história de Roseane é também a realidade de muitas outras pessoas. A menina que nunca viu serem concretizadas as propostas de cultura, esporte e lazer as quais deveriam existir em seu bairro, cresceu e se tornou a mulher que quer ver esses projetos acontecerem na prática, para que seus filhos e todas as outras crianças que moram no Vale Dourado possam ter um futuro melhor. REVISTA TABU I 4 EDIÇÃO I  9


COLUNA

A periferia bem como ela é Por Cleciane Silva  Dias atrás, fui à comunidade de Mãe Luíza, bairro periférico da Zona Leste de Natal, para visitar um projeto social. Ao chegar lá, me deparei com o Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) já na calçada. Os policiais estavam armados e usavam máscaras. Perguntei à assistente social do projeto o porquê da presença deles ali, já que tudo parecia tão calmo. Ela apenas respondeu: “É assim mesmo”.  Ainda por lá, ouvi fogos de artifícios. Uma moça se aproximou e falou que eram os traficantes comunicando-se entre si. Dessa forma, ficam cientes da movimentação dos policiais. Entre eles, isso funciona como estratégia comunicativa.  Aos poucos, percebi que o muro que nos separa não é feito de tijolos e pedras, mas de desigualdade social. Sabemos bem o que separa o joio do trigo. Até a morte, que vem para todos, é tratada de forma diferente, dependendo de quem aperta o gatilho.

MODOs DE VER  Ao olhar para uma periferia, somos “ensinados” a enxergar por trás de uma arma de fogo. Pode haver uma tendência em ver policiais como heróis e a acreditar que qualquer um que more em uma comunidade é jurado de morte desde o nascimento, como se essas pessoas não tivessem direito à vida.  As periferias ficam à margem de uma 10 I  REVISTA TABU I 4 EDIÇÃO

sociedade. Estão ao redor de uma área urbana, como se fosse uma linha que delimita uma cidade. Dentro dela, situam-se várias comunidades constituídas por barracos e casas, onde predominam dificuldades sociais e financeiras. Por anos, os habitantes desses bairros eram vistos como problema e continua sendo assim. Muitos não veem moradores de periferias como cidadãos, mas como “marginais”, termo que os caracteriza por morar, literalmente, na margem de uma cidade.

Falta de inclusão  “Estamos nos referindo a uma grande parte de espaço urbano que é construído, apropriado e vivido pela parcela da população que está incluída de forma precária, instável e marginal na cidade”, explica Hugo Arruda de Morais, professor doutor do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).  O professor Hugo nos ajuda a compreender melhor o que é a periferia, afinal, como diz o sociólogo espanhol Manuel Castells: “não há ninguém fora da sociedade”. A periferia seria a representação da segregação urbana e ambiental da população pobre, que ocupa exatamente as áreas que não interessam aos grandes agentes urbanos.  Dessa forma, o que sobra para a camada social mais baixa são áreas sujeitas a riscos ambientais, como encostas de morros, áreas


COLUNA

de mangue, locais sujeitos a inundações deve ser não só um direito legal, mas uma e dotados de pouca infraestrutura e condição de existência de todos que vivem e equipamentos urbanos. “Ou seja, as áreas fazem da cidade seu espaço de vida”. social e ambientalmente frágeis para permitir uma moradia digna”, explica ele.  É dentro da periferia que estão os indivíduos, pessoas de todas as cores, tipos e estilos, parte de uma coletividade que atua na realidade na qual se insere. Hugo esclarece que, muitas vezes, os moradores da periferia podem ser identificados pelo termo “pessoa periférica”, porém, não existem pessoas excluídas na cidade, mas precariamente incluídas.

Desigualdade social  As periferias tornaram-se a única opção para a população de baixa renda. É nesse contexto que a desigualdade social resulta em ocupação do solo urbano. O doutor em Geografia lembra que não basta formular leis, projetos, se as normativas dessas ações não possibilitarem uma participação cidadã dos mais pobres.  As ciências nos ajudam a compreender nossa sociedade. E, para viver em coletividade e resolver nossos problemas coletivamente, precisamos de conhecimento. A Geografia é uma dessas áreas que podem nos ajudar nesse entendimento, porque trata a cidadania como tema central, segundo o professor Hugo.  “As desigualdades territoriais devem ser tratadas como centrais, não só pela Academia, mas também pelo Estado e pelos moradores da cidade”, defende. E, assim como ele, acreditamos que “a cidadania REVISTA TABU I 4 EDIÇÃO I  11


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REPORTAGEM

Quem tem direito aos Direitos Humanos? Princípios essenciais para que qualquer indivíduo viva com dignidade, direitos humanos são ainda desconhecidos por muitas pessoas Por Ana Flávia Amorim e Victória Alves

Neto luta por seus direitos (Foto: Ana Flávia Amorim)

neto Alves, 20 anos, dançarino, estudante e coordenador de um cursinho preparatório para entrada na universidade, sabe que os direitos humanos são princípios essenciais garantidos a todos os cidadãos pela Constituição. Contudo, não se sente protegido por esses direitos, segundo ele, por causa da arbitrariedade na conduta da população.  Com apenas 16 anos, sentiu na pele o que essa falta de respeito significa. Neto foi alvo de violência simbólica e agressão verbal, cometidas por um servidor na biblioteca em que era bolsista, no Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) de Pau dos Ferros. “Ele não gostava de mim pelo simples fato de eu estar lá, sentia-se incomodado. Um dia, chegou alcoolizado ao trabalho, trancou a porta comigo dentro e começou a gritar, chamando-me de ‘viadinho’, ‘gayzinho incompetente’, que eu era uma aberração”. O estudante denunciou o funcionário e, no mesmo ano, foi aberta sindicância dentro da

Instituição, da qual o servidor foi exonerado.  Os Direitos Humanos são imprescindíveis. Para todos. Isso significa que a população deve ter garantidos seus direitos fundamentais básicos, como reprodução da própria vida, direito à saúde, à habitação, à educação de qualidade, ao trabalho digno e decente, conforme explicam a psicóloga Luana Cabral e a assistente social Hellen Almeida, do Centro de Referência em Direitos Humanos Marcos Dionísio, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (CRDH-UFRN).  A distorção dessa noção leva à não efetivação desses direitos. “É o que ocorre com as pessoas em situação de rua, pessoas no sistema carcerário, população LGBT, mulheres, negras e negros. Essas populações são as mais propensas a tais vulnerabilidades”, destaca Luana. As profissionais alertam que é equivocada a ideia de que direitos humanos significam defender pessoas em conflito com a lei, noção que deve ser desconstruída do imaginário da sociedade.

Luana Cabral e Hellen Almeida (Foto: Victória Alves) REVISTA TABU I 4 EDIÇÃO I  13


REPORTAGEM

Por isso, a educação sobre o que são os Direitos Humanos para a sociedade se torna imprescindível, já que violações como assédio, violência simbólica e agressão verbal, a exemplo daquelas vividas por Neto, são algumas das situações que muitos indivíduos, assim como ele, enfrentam durante sua vida.  Se tem alguém que entende dessa questão, na teoria e na prática, é Janaína Lima, mulher transsexual, jornalista, mestranda da UFRN e coordenadora da Diversidade Sexual e de Gênero da Secretaria de Estado das Mulheres, Juventude, Igualdade Racial e Direitos Humanos do RN (SEMJIDH). “Os direitos humanos são um conjunto de políticas públicas, de direitos e de valores, que reúne o direito de garantir a vida com dignidade ao cidadão”, explica. Apesar de se sentir protegida pelos movimentos sociais e por Organizações Não Governamentais (ONGs), defende que o Estado ainda precisa melhorar nessa perspectiva de direitos humanos. “Não me sinto protegida pelo Estado e, consequentemente, não me sinto protegida pelos direitos humanos, no sentido da política como estrutura da sociedade”, desabafa.  Como exemplo, Janaína cita o acesso ao nome social, o qual deveria ser simples. Entretanto, existe uma grande barreira. “Na universidade, foi assim, bem como no mercado de trabalho e nos documentos. No início, tive que travar uma luta para conquistar esse nome. Algo que deveria ser mínimo, se torna um grande gargalo”, conta.  “Sempre tentei resolver as coisas no 14 I  REVISTA TABU I 4 EDIÇÃO

diálogo, apresentando as leis e os decretos que me permitem acessar os meus direitos, como o nome social, utilização do banheiro feminino e demais questões”, revela. Por isso, Janaína sempre militou. “Foi através dos movimentos e das lutas sociais que consegui me fortalecer coletivamente para enfrentar os desafios cotidianos, e isso me ajudou a compreender quem é o inimigo de verdade”, diz.

Janaína Lima milita pelos Direitos Humanos (Foto: Ana Luiza Vila Nova)

As histórias de Neto e de Janaína fazem refletir e perceber que direitos, principalmente os fundamentais, aqueles que são essenciais para a existência humana, precisam ser renovados e assegurados, pois muitos como eles ainda sofrem humilhações e são alvo de atitudes e comentários preconceituosos constantemente, em meio à uma sociedade que ainda desconhece o que são e quais são os direitos humanos. Para saber mais: www.nacoesunidas.org/direitoshumanos


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Comunidade do Jacó luta pela Garantia do direito à moradia Moradores de área com risco de desabamento consideram que plano inicial do município desrespeita história e pertencimento ao local Por Luiz Henrique Gomes e Ylanna Pires

Pinturas nas paredes das casas abandonadas demonstram que moradores se atém a fé (Foto: Luiz Henrique)

Moradia no Brasil não é para todos. Apesar de ser um direito previsto na Declaração Universal dos Direitos humanos e no artigo 6º da Constituição Federal. A crise habitacional, que assola grande parte das regiões metropolitanas do país, também se faz presente em Natal. A Comunidade do Jacó, localizada na Zona Leste da cidade, tem mais de 40 anos e se encontra em um dos bairros de maior avanço da mancha urbana predatória, Rocas, considerada Área de Preservação Permanente. Jacó, tida como vulnerável pelo Plano Municipal de Redução de Riscos desde 2007, apresenta todos os problemas urbanos e de infraestrutura enfrentados pela maioria das comunidades brasileiras: precarização dos imóveis, urbanização inexistente e riscos relacionados a desastres físicos e socioambientais.  Dos 70 anos de vida de Maria das Neves, a Nevinha, 36 foram como moradora do Jacó. Sua casa faz parte dos 76 imóveis interditados por conta do risco de desabarem. Embora conformada, não lhe

agradou a ideia de sair do lugar, construído por ela, para um apartamento distante 14 quilômetros dali, no condomínio residencial Village da Prata, no bairro do Planalto. “Eu me senti ameaçada”, conta Nevinha, sentada no banco da casa que conseguiu alugar, com auxílio do Município, depois de uma disputa judicial. “A Prefeitura chegou dizendo que a gente tinha de sair da nossa casa e ir para o Planalto. Chegaram da noite para o dia. Nunca vieram aqui para resolver os problemas com esgoto ou lixo. Tudo foi a gente que fez e agora eles querem tirar a gente daqui”, desabafa. A indignação da aposentada é direcionada ao processo de desapropriação das casas do Jacó com risco de desabamento.  O que está no centro da discussão da comunidade do Jacó é a garantia do direito à moradia, que é um dos Direitos Humanos Fundamentais garantido pelo Estado e pela Organização das Nações Unidas (ONU). “O direito não está sendo cumprido porque é necessário respeito aos sentimentos de pertencimento ao território onde estabeleceram laços sociais e afetivos. Podemos falar, ainda, no direito ao trabalho e à renda, pois muitos dos moradores do Jacó trabalham na praia, próxima à comunidade, de onde tiram o sustento de sua família”, esclarece a presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal do Natal, vereadora e socióloga REVISTA TABU I 4 EDIÇÃO I  15


REPORTAGEM

Divaneide Basílio. Ela auxilia os moradores nesse processo, junto com o projeto de extensão Motyrum, da UFRN  O secretário municipal de Habitação, Carlson Gomes, defende as ações da Prefeitura do Natal como as mais adequadas para a realidade fiscal da administração. “Revitalizar uma área de risco é muito caro. Hoje, o município passa por uma crise”, afirma. Gomes justifica que o Village de Prata, condomínio social construído em 2015 que a Prefeitura apresentou como solução para os moradores do Jacó, foi pensado porque era o único conjunto habitacional com vagas na cidade. O São Pedro 1, outro condomínio habitacional e localizado no centro das Rocas, mesmo território do Jacó, estaria sem vagas. A maioria dos moradores do local é da comunidade do Maruim, demolida para expansão do Porto de Natal.

Gomes explica projeto de retirada dos moradores que estavam em risco (Foto: Luiz Henrique)

A declaração de Gomes entra em conflito com a versão de moradores. Carla Eloise saiu da sua casa, na comunidade do Jacó, com os três filhos, em 2014, para morar na casa da mãe, localizada na mesma comunidade, diante do risco de ser soterrada. A sua casa fica em um beco espremido por um muro curvo, dando a impressão de que pode desabar a qualquer instante. A data da mudança coincidiu com a época em que 16 I  REVISTA TABU I 4 EDIÇÃO

o São Pedro 1 foi concluído. Ela ficou na expectativa de ser chamada para o local. “Disseram que o São Pedro ia ter moradores do Jacó e eu fui chamada. Por problemas com a documentação, não consegui ir. Hoje, tem pouca gente do Jacó e tem apartamento desocupado. Eles dizem que vão chamar a gente daqui e nunca chamam”, relata.

Carla Eloíse deseja permanecer na região (Foto: Luiz Henrique)

Participando da conversa com Carla Eloise, Nevinha afirma que os moradores aceitariam a mudança se fosse para o São Pedro. “É aqui perto, perto das escolas, da praia. É que todo mundo trabalha na praia”, explica. Carla concorda: “Eu iria na hora. Meus filhos estudam por aqui, eu trabalho na praia. O que não dá é ir para o Planalto e ficar longe de tudo”.  As histórias de embates judiciais e socioambientais não se resumem à desapropriação da comunidade do Jacó. A cidade do Natal ainda conta com diversos pontos críticos, resultantes da crise fundiária e habitacional que não apenas compromete a urbanização e o projeto de desenvolvimento da metrópole, como também são sintomas claros da falha e do desrespeito aos direitos humanos e à dignidade, enquanto condição social básica.


REPORTAGEM

semente Cidadã produz frutos Programa de inclusão social e segurança preventiva beneficia crianças e adolescentes residentes na Zona Norte de Natal Por Sebastião Monteiro e Walber Gomes  Pensando na garantia dos Direitos Humanos, o Programa Semente Cidadã (Prosemc), criado em 2008, pelo guarda municipal e professor de Educação Física Cláudio Paiva, busca promover ações e conscientizar a comunidade jovem sobre a importância da inclusão, da paz social e da cidadania. Realizado pela Prefeitura Municipal do Natal, com o apoio da Secretaria Municipal de Segurança Pública e Defesa Social (Semdes) e executado pela Guarda Municipal do Natal (GMN), beneficia cerca de 300 pessoas, entre crianças e adolescentes de 8 a 16 anos, familiares e comunidade, no Ginásio Nélio Dias, bairro Lagoa Azul, Zona Norte da capital.  “O esporte é o carro chefe do programa. Acreditamos que ele tem uma linguagem universal, influencia hábitos e contribui para o desenvolvimento físico, intelectual e psicológico”, conta o professor. As atividades promovidas são voleibol, futsal, jiu-jitsu, momento cívico e ordem unida, aulas de reforço, momento de fé (reflexão), palestras educativas, aulas de campo e dança circular.  Segundo Cláudio, sua família sempre enfrentou dificuldades financeiras, mas ele nunca perdeu a esperança de ter uma graduação e, através da educação, prometeu a si mesmo que, quando se formasse, investiria na sua comunidade. E assim, em meio à realidade vivenciada por

ele, decidiu criar o Programa. “O Semente Cidadã foi embasado nas dificuldades que tive na minha adolescência, já que nasci e cresci na Zona Norte, sempre marginalizada e esquecida”, conta o mentor. Emocionado, fala da oportunidade de executar um projeto, arquitetado na sua infância, sonho que se tornou realidade, contribuindo para a formação de jovens sonhadores, como ele um dia foi.

Cláudio, Vera e Valéria: dedicação ao Semente Cidadã (Foto: Sebastião Monteiro)

Quem está satisfeita com a iniciativa de Cláudio é Ilza Solângia, dona de casa, mãe e avó de meninos que fazem parte do projeto. Para ela, a evolução deles é visível, de crianças tímidas para comunicativas, expansivas, alegres e sociáveis.  “Agradeço ao Projeto por possibilitar as transformações sociais nas vidas dessas crianças e adolescentes, com a interação das boas práticas de cidadania e paz para as famílias humildes deste bairro”, diz, feliz REVISTA TABU I 4 EDIÇÃO I  17


REPORTAGEM

com a concretização do sonho de seu filho e de seu neto: jogar futebol. Sonho que virou realidade no Semente Cidadã.  O envolvimento familiar é fundamental, segundo Cláudio, pois resulta em uma relação de confiança e parceria, o que possibilita o desenvolvimento físico, intelectual e emocional dos jovens. Além de permitir a compreensão das características e demandas individuais.  O adolescente D. F., de 13 anos, faz parte do projeto há seis anos. “Aprendi a respeitar os colegas, como também melhorei o desempenho na escola e no relacionamento com meus pais, professores, irmãos e amigos”, conta, enaltecendo sempre a prática das diversas atividades esportivas, educativas e sociais. “Pretendo ficar aqui até os 16 anos de idade”, frisa o jovem.  Segundo a secretária municipal de

Segurança e Defesa Social, Sheila Freitas, a Prefeitura do Natal têm projetos de ampliação de dois núcleos do programa para as Regiões Leste e Oeste da capital. Ela ainda enfatiza a importância da Guarda Municipal, como ferramenta na formação do cidadão, citando o Semente Cidadã como exemplo dessa atuação social.  Na visita ao projeto, é possível perceber que existe um cuidado e uma abordagem pedagógica no programa, com a quebra de paradigmas, fazendo com que os jovens e as famílias compreendam que a segurança pública não é somente repressiva e ostensiva ao crime, mas também pode ser preventiva, inclusiva e socializadora no desenvolvimento do cidadão. “Assim, contribuímos para a formação dos futuros adultos, dignos e conhecedores dos seus direitos e deveres, respeitados como seres humanos na sociedade”, acredita Cláudio.

Princípios seguidos pelo Projeto Semente Cidadã (Foto: Sebastião Monteiro)

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COLUNA

Violações dos Direitos Humanos pela mídia brasileira Por Josué Cruz  Os Direitos Humanos, ligados à dignidade do homem, são as garantias universais que asseguram a integridade das pessoas para que haja o pleno desenvolvimento da personalidade humana. Dessa forma, os direitos humanos fundamentais são aqueles direitos mínimos para que o homem viva em sociedade. Eles incluem o direito à vida, à liberdade, ao trabalho, à saúde, ao lazer e à educação, entre vários outros.  Muitas vezes, vimos esses direitos serem violados pela mídia brasileira, o que traz à tona a necessidade de refletir e avaliar a ética no uso de tal ferramenta de comunicação. As transgressões à Declaração Universal dos Direitos Humanos são mais frequentes nos denominados programas “policialescos”, ou seja, telejornais de conteúdo policial. Para garantir audiência, tais programas lançam mão de estratégias muitas vezes desprovidas de ética, que acabam violando os direitos humanos.  Um caso de mau jornalismo, que exemplifica alguns tipos de violações de direitos, pela mídia, aconteceu durante a exibição do programa ‘Brasil Urgente’ da Band da Bahia, em que a jornalista Mirella Cunha, ao entrevistar um jovem suspeito de assalto, acusa-o de estuprar a vítima, sem base em prova alguma.  A jornalista aponta o microfone de forma ríspida, e, mesmo depois de o suspeito ter negado cometer o estupro, ela dispara: “Não estuprou, mas queria estuprar!”. De imediato, o jovem suspeito se desespera, pois é sabido que, dentro das prisões, o código de conduta dos detentos é condenar à morte aqueles que praticam crimes contra a dignidade sexual.

Acusá-lo de tal delito poderia implicar uma sentença de morte, baseada tão somente na opinião inconsequente da jornalista.  O acusado nega ter cometido o estupro e se prontifica a fazer o exame de “corpo de delito” para provar sua inocência. No entanto, somando seu desespero à falta de conhecimento sobre o exame, ele profere uma palavra parecida com “próstata”, dessa forma, ainda não satisfeita, a profissional de comunicação aproveita a oportunidade para debochar do suspeito. O referido caso fere o Direito Humano à integridade física e moral, também previsto no artigo 5º da Constituição Federal, além de configurar desrespeito à presunção de inocência, violação do direito ao silêncio e prática de tortura psicológica.  É importante notar que situações como essas são legitimadas por uma cultura desprovida de conhecimento sobre os Direitos Humanos, uma crença falsa em que tais direitos existem para proteger criminosos.   O código de ética dos jornalistas trata, justamente, das relações desses profissionais com comunidade, fontes de informações e colegas de profissão. Objetivando o respeito, é dever dos jornalistas lutar pela liberdade de expressão, opor-se ao autoritarismo, à opressão e respeitar o direito do cidadão à privacidade.  Porém, infelizmente, não é o que acontece muitas vezes nesses programas “policialescos”. É preciso a desconstrução da crença errônea de que os Direitos Humanos não protegem todos, conscientizando a população de que todos têm direito à dignidade e à preservação do bem mais precioso: a vida. REVISTA TABU I 4 EDIÇÃO I  19


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Alecrim Ambulante Por Winny Castell

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REPORTAGEM

O LIXO É sEU, O PROBLEMA É DE TODOs Reduzir a geração de resíduos sólidos e dar destinação correta aos materiais recicláveis são ações concretas de respeito ao meio ambiente Por Aécio Oliveira e Odair Júnior

Material reciclável separado e pronto para a comercialização (Foto: Odair Júnior)

Desde seu aparecimento no mundo, o ser humano produz resíduos. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), atualmente somos 208,4 milhões de brasileiros e, quanto maior o crescimento populacional, maior a produção de lixo. As cidades já não encontram lugar onde colocálo, nem conseguem dar destino adequado a esse material, visando à preservação ambiental. Talvez este seja um dos maiores desafios da administração pública. E o problema é mundial.  Uma das saídas para essa situação foi a criação de cooperativas que coletam, selecionam e comercializam materiais com potencial reciclável. A ação colabora para reduzir os danos decorrentes da produção e do acúmulo de materiais residuais e para gerar empregos. Em Natal, a Cooperativa de Catadores de Materiais Recicláveis (Coocamar), fundada por Severino Lima Júnior, no bairro Cidade Nova, em 17 de abril de 1999, tem a finalidade de congregar os catadores para difundirem a

sua importância e auxiliá-los no resgate da cidadania. Atualmente, a Coocamar recebe, seleciona e comercializa embalagens longa vida, metais, papel, plástico e vidro, dando novo destino a esses materiais e diminuindo o impacto na natureza.  Inicialmente, a Coocamar contava com mais de 600 catadores cadastrados, advindos do lixão desativado na época. Hoje, apenas 10% deles continuam trabalhando em parceria com a Cooperativa. Segundo Rosileide Manço, diretora executiva da Cooperativa, essa queda se deu porque os cooperados consideraram obter maior retorno financeiro com o trabalho por conta própria. Além disso, muitos deles não se adaptaram às regras e aos horários de trabalho da Cooperativa.  Em 2010, após anos de atuação, a Cooperativa firmou contrato com a Prefeitura do Natal. Esse contrato auxilia na manutenção dos equipamentos da Cooperativa, e a venda dos materiais ajuda no custo de vida dos cooperados.   REVISTA TABU I 4 EDIÇÃO I  23


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No entanto, Rosileide relata que, antes do contrato com a Prefeitura, a relação com o poder público municipal era melhor. Segundo ela, representantes da gerência do Meio Ambiente do município sempre os visitavam e dialogavam com os cooperados, orientando, incentivando e informando a comunidade sobre a importância da coleta seletiva e os impactos ambientais. Porém, hoje em dia, existem dificuldades para esse diálogo acontecer. A cooperada diz que a ausência do poder público local é tão grande que é mais fácil conseguir convênios com empresas privadas e representantes políticos de fora de Natal do que com os da própria cidade.  Até o fechamento da edição, não conseguimos contato com os órgãos responsáveis da Prefeitura Municipal do Natal para esclarecer as informações citadas pela entrevistada.

participem dessa empreitada. A parcela da população consciente da importância de separar o lixo ainda é pequena, segundo Rosileide, e faltam políticas públicas que incentivem os cidadãos a fazerem a separação adequadamente. Ela também ressalta que os próprios catadores podem atuar, em seu trabalho diário, como agentes de transformação e sensibilização, explicando à população que a doação do material reciclável diminui os prejuízos ao meio ambiente, já que algumas pessoas ainda veem as cooperativas como instituições que querem apenas garantir lucros e argumentam não repassar o lixo para elas, porque consideram que os catadores já ganham para fazer a coleta.  Para colaborar com o trabalho desenvolvido pelas cooperativas de Natal e possibilitar ao cidadão mais uma maneira de contribuir com o meio ambiente, foi lançado, recentemente, o App Recicle Já, produto do Sindicato das Indústrias de Reciclagem e Descartáveis do Rio Grande do Norte, o SindRecicla-RN. Por meio desse aplicativo, é possível conectar os grandes geradores de resíduos recicláveis, como por exemplo, escolas, associações, condomínios, comércios, indústrias, com as Catadores trabalham na área de separação dos empresas da Grande Natal ligadas ao setor materiais recicláveis (Foto: Odair Júnior) de reciclagem, diminuindo os impactos  Além de garantir empregabilidade, a na natureza e a quantidade de resíduos Coocamar realiza capacitações para os enviada ao aterro sanitário. O Recicle Já seus membros com a finalidade de deixá- está disponível para download por meio do los aptos às respectivas atividades e assim Google Play (Android) e App Store (IOS). contribuir com as questões ambientais. Apesar de sozinha não poder modificar A hierarquia dos 3R’s práticas prejudiciais ao meio ambiente, Rosileide acredita que a Cooperativa tem  Reduzir, reutilizar e reciclar. Essa deveria feito seu papel na sociedade, cada vez mais ser a escala de ordem na busca por uma gestão eficiente de resíduos. No entanto, consumidora.  Mas é preciso que os moradores da cidade atualmente, a última ação dessa escala foi a 24 I  REVISTA TABU I 4 EDIÇÃO


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que se tornou mais aplicada. Quem explica por que esse caminho deveria ser seguido é o professor do Departamento de Políticas Públicas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Fábio Figueiredo: qualquer plano de gestão que ressalte a reciclagem em detrimento da redução da geração de resíduos, não resolverá a problemática enfrentada mundialmente. “Devido às características da atividade, as administrações públicas e as empresas ressaltam a reciclagem como a principal estratégia para a gestão dos resíduos. Só que essa é uma atividade econômica altamente concentradora de riqueza e que explora veementemente o trabalho dos catadores. Isso é o ambientalismo econômico, a sutileza do discurso econômico revestido de ambiental”, esclarece.

Gerenciar o ciclo de vida do produto é uma maneira de minimizar a geração de novos resíduos (Foto: Odair Júnior)

De acordo com o professor, estudos mostram que, dos lucros obtidos pela indústria da reciclagem, entre os catadores, que estão na ponta de baixo, e as indústrias, há uma diferença de rendimentos de 300% em favor das indústrias. Ele ressalta que as administrações públicas precisam criar estratégias de minimização da geração desenfreada de resíduos, atacando o problema na fonte.  O professor alerta para o fato de o município de Natal ainda não cumprir a Política

Nacional de Resíduos Sólidos e não ter um plano municipal de diminuição na origem ou uma política de logística reversa em curso que dê resultados efetivos. Segundo ele, o diálogo entre Prefeitura e os grandes geradores também inexiste e ressalta que tanto o poder público como as empresas geradoras precisam ser responsabilizadas pelos resíduos produzidos. Procurados para esclarecer essa declaração, os órgãos responsáveis do município não atenderam às ligações, nem retornaram os contatos feitos via e-mail por nossa editoria.  Para Fábio Figueiredo, se não houver uma gestão de resíduos em que os atores sociais estejam efetivamente envolvidos, nada irá funcionar.NocasodascooperativasemNatal, o professor considera que elas funcionam precariamente. “Existe um esforço muito grande por parte dos catadores e, mesmo assim, eles não são protagonistas da gestão de resíduos, como preconiza a Política Nacional. Essa situação só terá uma melhora quando todos deixarem de lado a visão de que o catador é um coitadinho. O catador é um profissional como qualquer outro e deve ter direitos, deveres e renda digna. Por mais que eles tentem melhorar seus trabalhos, não avançam muito. Pergunte a um catador cooperado de Natal se ele deixaria a Cooperativa, caso tivesse outra possibilidade de trabalho. Ele deixaria!”, reflete.  O professor defende que se deve trabalhar a gestão pública numa perspectiva de precaução e não de controle. Segundo ele, optar por uma gestão de interesse socioambiental é mais perspicaz, pois somente assim é possível pensar em estratégias de gestão mais condizentes com as demandas socioambientais. REVISTA TABU I 4 EDIÇÃO I  25


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POR UM MUnDO MAIs LIMPO, sUsTEnTÁVEL E InCLUsIVO Grupo de mulheres trabalha em prol da preservação do meio ambiente e, de quebra, ajuda pessoas com deficiência Por Júlio Castro e Paulo André  Você já pensou para onde vai todo o seu lixo? Consegue imaginar o quanto sua cidade produz de lixo diariamente? No cenário atual da sociedade, uma maior preocupação com a preservação do meio ambiente já é perceptível por parte da população.  O descarte inadequado do lixo resulta em sérios prejuízos e pode ser considerado um dos principais causadores de alagamentos e enchentes, principalmente nas grandes cidades, pois impede o fluxo de escoamento da água. Além disso, os resíduos descartados em vias públicas contaminam o solo e a água e favorecem a proliferação de insetos, ratos e animais peçonhentos, ocasionando o aumento dos casos de doenças decorrentes desses fatores.  O meio ambiente sofre com as novas necessidades humanas e uma parcela da sociedade começa a se preocupar com as questões referentes à quantidade de resíduos produzidos e às formas adequadas de descarte.  Um dado importante sobre o descarte de resíduos é que, de acordo com Kara Lavender Law – porta-voz da Associação Educacional do Mar de Woods Hole, no Estado americano de Massachusetts –, cerca de 8 milhões de toneladas de resíduos sólidos são despejados por ano em nossos oceanos. Segundo dados do “Projeto Tartarugas no Mar”, patrocinado pela Petrobrás, 85% das tartarugas encontradas mortas no litoral apresentam lixo descartado por seres humanos no estômago. 26 I  REVISTA TABU I 4 EDIÇÃO

Idealizadoras do Soul Ativismo: Roeva Diógenes, Raquel Maia, Larissa Barbosa e Carolina de Sá (Foto: Arquivo pessoal)

Foi pensando em todas essas questões que quatro mulheres, incomodadas com a quantidade de lixo que observavam no ambiente onde vivem, decidiram tomar uma atitude que promovesse a reflexão, a sensibilização e a conscientização da população. Começaram a desenvolver atividades para tratar de forma correta os resíduos sólidos e idealizaram o Soul Ativismo.  O Soul Ativismo, então, tornou-se um movimento socioambiental, desenvolvido por essas mulheres, que pararam de apenas se perguntarem para onde vai todo o resíduo produzido e resolveram arregaçar as mangas e fazer a parte delas na preservação do habitat. Com o lema “Mude você, mude o mundo”, Roeva Diógenes, uma das integrantes, destaca o foco do ativismo pregado por elas, que parte do exemplo para atingir seus objetivos.


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Para entender melhor a proposta do movimento, é preciso compreender que existe uma diferença entre lixo e resíduos sólidos: estes possuem um caráter econômico, enquanto o lixo não possui valor econômico agregado. Partindo dessa diferença, o Soul Ativismo viu que poderia impactar, positivamente, o maior número de pessoas possível, levando o tema “sustentabilidade” para diversas instituições públicas, privadas, bairros e comunidades, atuando como agente de transformação.  O movimento tem como valor central o respeito imensurável pela natureza, enxergando-a como parte do ser humano e, por isso, devendo ser tratada com a mesma dedicação que se imprime aos cuidados com o corpo.  Depois da criação em 2018, a primeira grande ação foi a participação no Clean Up Day, o dia mundial da limpeza, realizado em Natal em setembro do mesmo ano. Logo após, preocupado com os resíduos que vão parar nos oceanos, o movimento desenvolveu ações de limpeza e preservação de praias do RN. Tais ações passaram a ser praticadas em ambientes que as idealizadoras costumavam frequentar, como as praias da Pipa, de São Miguel do Gostoso e de Ponta Negra.

Ação de limpeza na Praia de Miami (Foto: Júlio Castro)

Resíduos sólidos coletados durante a ação de limpeza da Praia de Miami (Foto: Júlio Castro)

Desde sua origem, o Soul Ativismo cresceu em atividades e parcerias. Atualmente, o trabalho conta com a participação do Projeto Cetáceos da Costa Branca, da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (PCCB-UERN), que tem como missão promover a pesquisa e a conservação de espécies e ecossistemas marinhos, costeiros e estuarinos, e do Museu de Biodiversidade da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), que sempre o apoia, explanando sobre os impactos ambientais e abrindo espaço para que biólogos ajudem a promover a conscientização da população sobre a importância da preservação do ecossistema marítimo.  Outra significativa colaboração se firmou com a participação da ONG Million Waves Project, que desenvolve um trabalho de transformação do material plástico recolhido do mar em próteses e órteses produzidas em impressoras 3D, feitas sob medida para pessoas com algum tipo de deficiência. O surfista mirim Davi Lima, de 7 anos, foi um dos beneficiados por essa parceria. Em uma ação de limpeza da Praia de Miami, em 2018, o Soul Ativismo conheceu o pequeno REVISTA TABU I 4 EDIÇÃO I  27


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surfista, que possui apenas parte do braço esquerdo. Davi participa do Projeto “Filhos de Mãe Luiza”, que ensina a prática do surf para crianças e adolescentes do bairro que nomeia o projeto, e sempre frequenta a praia. Naquela ocasião, as idealizadoras do Soul Ativismo articularam com a ONG a possibilidade de ele receber uma prótese que o ajudasse nas atividades diárias. No dia 19 de maio, Davi recebeu sua prótese biodegradável. Com um sorriso no rosto, ele a testou e a aprovou, muito feliz com a nova aquisição. Essa foi a segunda entrega feita pela Million Waves Project ocorrida no Brasil e a primeira em Natal.

Davi Lima recebe a prótese biodegradável (Foto: Manuela Lima)

Os pontos de maior interesse do Soul Ativismo são: sensibilizar a população sobre a importância da separação dos resíduos sólidos e garantir a dignidade dos trabalhadores que vivem dessa coleta. Esses pontos são trabalhados pela equipe por meio de palestras realizadas durante as atividades de limpeza nas áreas marítimas. Para o movimento, é primordial que as 28 I  REVISTA TABU I 4 EDIÇÃO

pessoas tenham a responsabilidade sobre o consumo e o descarte dos materiais.  Recentemente, o Soul Ativismo passou a representar o Instituto Lixo Zero Brasil, sediado em Florianópolis, originado de uma preocupação da indústria farmacêutica, em meados da década de 1970, na Califórnia, que começou a questionar a quantidade de resíduos sólidos gerados por ela.  O Instituto foi criado para melhor gerenciar os rejeitos, não só da indústria farmacêutica, mas de qualquer empresa ou instituição que quisesse ter um sistema de gerenciamento de resíduos, visando à diminuição do impacto ambiental. Hoje, o Lixo Zero possui filiais em mais de 170 países, com a missão de articular, mobilizar e provocar novas atitudes nas comunidades nacionais e internacionais, promovendo a prática do Lixo Zero nos diversos segmentos da sociedade. Além disso, o grupo visa a promover a sustentabilidade da cadeia de resíduos para uma sociedade livre de descartes.  Atitudes como as desenvolvidas pelo Soul Ativismo, por seus parceiros e voluntários são essenciais para a mudança de comportamento da sociedade. É por meio do exemplo que se observa o crescimento e o amadurecimento da coletividade para a melhoria tanto do homem, como ser responsável pelo meio em que vive, quanto da qualidade do planeta que deixaremos para as próximas gerações. Mais informações sobre o movimento Soul Ativismo! Curta e compartilhe esta ideia!


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não adianta culpar são pedro Por Manuela Torres

Desde o ano passado, tem sido comum a população de Natal se perguntar o motivo de tanta chuva entre os meses de janeiro e maio. O que vai certamente contra a fama da cidade do Sol, com seus 300 dias ensolarados por ano. Alguns pesquisadores insistem em dizer que a precipitação excessiva é resultado do fenômeno “El Nino”, que superaquece as águas do Pacífico e altera o clima global, modificando o regime de chuvas em países tropicais de latitude média. Contudo, para muita gente, o mistério de tanta água em Natal ainda é piada boba de São Pedro.  Fato é que, mesmo se as chuvas fossem brincadeira de alguém, no Nordeste, isso deveria ser motivo de festejo. Digo isso porque o Nordeste é a única região brasileira na qual 27 milhões de pessoas (82% da região) sofrem diariamente com secas e estiagens, que impossibilitam o cultivo da agricultura, o desenvolvimento da pecuária e tornam a vida insustentável. A água, para essas pessoas, seria o melhor presente que o céu poderia oferecer.  Mas, nas capitais, esse cenário é bem diferente. Natal, Fortaleza, Recife, Maceió e demais capitais da região (exceto Teresina) têm em comum uma posição privilegiada próxima ao litoral, o que faz com que a ausência de chuvas seja improvável, visto que os ventos marítimos, quando somados ao calor do continente, resultam

em chuvas torrenciais até 100 km a partir da costa. No entanto, na maior parte dessas cidades, o sistema de drenagem é insuficiente diante de tempestades, o que resulta em alagamentos e inundações, prejudicando a vida dos moradores. E não só! O lixo urbano, que entope os bueiros, também é um grande vilão quando o assunto é drenar a água das vias.  Em suma, alagamentos em cidades grandes, apesar de ser um tema comum, é muito preocupante, diante dos prejuízos que acarretam. Em Natal, onde as divisões das zonas Sul e Norte estão a cargo de uma ponte, basta uma tempestade para que a vida estagne. Com quintais, vias e o que mais se imaginar repleto de asfalto, a única alternativa a se pensar são em cálculos mais precisos, croquis de engenharia mais eficientes, cimentos que absorvem água – estudados em todo o mundo – e atitudes mais conscientes por parte das populações.  Com certeza, as inundações são um problema da vida moderna, da vida urbana, mas é um problema estritamente humano. Não dá para culpar a chuva, quando se sabe que ela pode salvar milhares de famílias a poucos quilômetros de distância. A solução mesmo é estudar alternativas e projetar um novo futuro. Um futuro no qual o El Nino não tenha culpa de nada, e muito menos São Pedro. REVISTA TABU I 4 EDIÇÃO I  29


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Um Beco cheio de cores e vida Revitalização do Beco da Lama, na Cidade Alta, pretende ir além do grafite em suas paredes Por Ederson Levi, Marcos Vinicius e Anayde Góis

Beco da Lama passou por mudanças recentes (Foto: Lúcia Oliveira)

Cores, desenhos, comércios, residências e bares. Assim é o Beco da Lama, localizado na rua Coronel Cascudo, na parte alta do centro histórico da cidade de Natal. Naquela ruela, centenas de pessoas frequentam diariamente o espaço recém-revitalizado. Os objetivos de cada um que chega ao local são os mais diversos: lazer, trabalho, pesquisa. Ali, encontram-se histórias que fazem pulsar a vida boêmia de Natal e, muito mais do que isso, o sustento de dezenas de famílias que utilizam a notoriedade do Beco para sobreviver por meio do comércio.  Muito do que acontece ali, atualmente, perpassaumdosambientesmaisconhecidos de Natal, o Bar da Meladinha. Fundado há mais de 60 anos, ele representa um resgate histórico da cidade. Quem inaugurou o estabelecimento foi o descendente de turco Nazir Canã, um dos principais propagadores da bebida homônima do bar por todo o estado, principalmente na capital, sempre utilizando a mesma marca de cachaça.

O lugar teve apenas três proprietários. Nazir, o idealizador e fundador; o filho de Nazir, Nasi Adorinan, que assumiu a propriedade após falecimento do pai em 2001; seguido por Francineide Ferreira Dantas, a Neide, proprietária atual. “Todos queriam o Bar da Meladinha, por sua tradição. Eu sempre frequentei o estabelecimento, até que um dia meu marido e eu perguntamos ao antigo dono se ele tinha interesse em passar o ponto. Foi o melhor dia para nós dois, porque nós havíamos conseguido!”, conta a proprietária.  Antes da nova gestão, o barzinho era frequentado por pessoas com grande influência na cidade, como políticos, secretários e artistas. Maurílio Pinto, Manoel de Brito, Pixinguinha e até mesmo George Orwell, todos tiveram a oportunidade de tomar a bebida feita com mel, cachaça e limão em suas horas de repouso no centro da boemia natalense. Era comum figuras tradicionais frequentarem o Beco. REVISTA TABU I 4 EDIÇÃO I  31


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Hoje em dia, não é diferente. Nomes como o do artista plástico Marcelus Bob, o compositor Mirabor, a cantora Potyguara Bardo e o artista independente Mr. Vap são personalidades que frequentam o Beco para aproveitar as atrações culturais que o espaço voltou a oferecer.  Frequentador desse pedacinho da cidade há mais de dez anos, Mr. Vap comenta que o Beco da Lama é um espaço igualitário, onde todos podem ter voz. Um ambiente que pode ser frequentado sem a preocupação de sofrer algum tipo de preconceito, seja de qualquer natureza, racial, de gênero, de religião ou até mesmo político. “O Beco da Lama é uma coisa pública. Tem gente de Ponta Negra que vem para cá; tem gente sem um real no bolso. Você é gay? Fica aqui. Você é sapatão? Fica aqui. Você pensa ao contrário de mim? Fica aqui. Se você tentar afastar alguém daqui, está corrompendo um espaço democrático”, explica Vap.  Entretanto, aquele espaço que antes fazia parte de uma intensa animação em Natal perdeu um pouco do seu brilho com o tempo. Uma decisão judicial, emitida em 2012 pela Promotora de Justiça Rossana Sudário, havia proibido a realização de eventos após as 22 horas. Somou-se a isso a falta de iluminação e de estrutura, para tornar o ambiente cada vez menos frequentado. “Morto, apagado, não vinha ninguém, não vinha nada”, afirma Neide sobre o espaço antes da revitalização.

a comunidade que frequentava o samba. Pessoas que não tinham necessariamente relação com o espaço vinham para saber o que é, e isso enche de uma energia de curiosidade também”, comenta.  O processo de revitalização teve início muito antes do grafite nas paredes do Beco, um dos seus maiores atrativos ultimamente. O prefeito, Álvaro Dias, em conjunto com a Fundação Cultural Capitania das Artes (Funcarte), visitou o Beco para avaliar as condições em que o espaço se encontrava, assim como as necessidades de cada estabelecimento. Frank informou ao prefeito o que considerava necessário para recuperar o glamour histórico do Beco. A primeira medida foi interditar a via, para garantir que carros não transitassem no ambiente, e iluminação para garantir a segurança dos frequentadores. Além disso, os estabelecimentos voltaram a realizar eventos após as 22 horas.

Revitalização do Beco  Com a revitalização, o Beco da Lama mudou muito, virou ponto turístico. Quem conta é Frank Aleixo, produtor cultural do Bar da Meladinha e frequentador assíduo do ambiente. “Antes, era mais voltado para 32 I  REVISTA TABU I 4 EDIÇÃO

Desenho nas paredes do Beco(Foto: Lúcia Oliveira)


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Após implantação das primeiras medidas, a Prefeitura entrou em processo de discussão com os artistas Dicesarlove (Cesar de Almeida) e Miguel Carcará para dar nova cara ao espaço. Carcará foi o responsável pela negociação entre o órgão municipal e os outros artistas, processo que não levou mais que um mês e meio.  Antes de começar, os comerciantes locais foram informados sobre o que ocorreria. “Falei que seria interessante entender o lado de cada um, inclusive o dos artistas, né? O que eu pedi foi compreensão para entender cada artista que aparecesse”, conta Carcará.  O acordo entre o artista natalense e o órgão executivo municipal solicitava ao Prefeito a disponibilização de todo material necessário para a elaboração do projeto, bem como a alimentação dos artistas. Em contrapartida, todos eles realizariam o trabalho voluntariamente. Foram investidos R$ 17 mil.  A revitalização, realizada por 52 artistas, liderados por Carcará, teve como inspiração a obra de Câmara Cascudo e seu legado para a cultura brasileira. “Quando chegamos com o grafite, não imaginávamos que teríamos tanta força. Comprovamos, mais uma vez, que o grafite é uma ferramenta de transformação social. A partir do momento que entramos aqui e começamos a pintar, já mudou todo o aspecto do Beco. Não o cultural, pois ele já existia, mas sim o aspecto moral, de autoestima. Por conta dessa mudança, as pessoas passaram a vir para cá”, afirma Carcará.  Além da revitalização, a Funcarte deu início a uma política de valorização do centro histórico de Natal através de editais de financiamento para eventos que preencherão o calendário de maio a dezembro deste ano

com eventos culturais, preferencialmente a serem realizados no Beco da Lama e suas adjacências. Os editais contemplam 23 proponentes, que auxiliarão financeiramente até 81 iniciativas.

Uma tarde de samba no Beco da Lama (Foto: Marcos Vinicius)

O próximo passo da revitalização prevê a retirada de postes, implantação de um calçadão único, sem desníveis, ao longo do Beco, além da continuação da pintura com grafite.  De acordo com Frank, um receio que paira na cabeça dos comerciantes locais é a elitização do espaço após a revitalização. “Minha maior preocupação é a gourmetização. É a galera aqui não conseguir mais pagar aluguel com o crescimento do local, sendo que isso aqui é o sustento deles. Se o processo for respeitoso e se espalhar pela cidade, vai ser ótimo. Se for pra deixar isso aqui bonitinho para certos setores da cidade virem e usarem de playground, não é legal”, alerta.  Independentemente dos processos sociais que atuam sobre o beco, ele sempre representará o elo histórico da cultura e da boemia de natalenses. Sua importância deve ser valorizada. Venha para o Beco você também! REVISTA TABU I 4 EDIÇÃO I  33


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A Ribeira é história e precisa ser valorizada O bairro da Zona Leste guarda grande parte histórica da Cidade do Natal, mesmo assim, encontra-se abandonado Por Andre Samora e Lucas Costa

Fachada da antiga loja de tecidos e aviamentos, A Samaritana, hoje, em ruínas (Foto: Lucas Costa)

A Ribeira é o segundo bairro mais antigo de Natal e guarda grandes acontecimentos históricos, principalmente no que diz respeito à Segunda Guerra Mundial. Entretanto, a área foi abandonada, após a saída dos militares americanos, e sua importância, praticamente esquecida. Atualmente, o seu patrimônio histórico e cultural está em ruínas, demandando resgate urgente de sua memória. Por esse motivo, o projeto “Ribeira Minha Ribeira” busca relembrar, aos natalenses, as lembranças desse lugar. Ele tem a proposta de divulgar a Ribeira nas redes sociais e promove visitas guiadas ao local, incentivando o conhecimento histórico sobre o bairro e aproximando a população de sua própria cultura. É um projeto de extensão da faculdade Estácio de Sá.  Segundo a professora de Arquitetura e Urbanismo da Estácio de Sá, Cíntia Camila, 34 I  REVISTA TABU I 4 EDIÇÃO

o crescimento da Ribeira começou com o comércio na primeira rua comercial da capital, a Chile, em 1810. A partir daí, a região teve um desenvolvimento populacional e econômico intenso.  Embora fosse o maior polo de produção de Natal, a exportação dos produtos locais não ocorria diretamente com o exterior. O que era produzido aqui, antes de exportado, era enviado à Recife, somente depois distribuído pelo mundo. Para sanar esse problema, foi construído, no bairro, o Porto de Natal, à margem direita do Rio Potengi, a 3 km de sua foz. Também foi construída a estação ferroviária da Ribeira.  Na Segunda Guerra Mundial, o Brasil fez uma aliança com Estados Unidos e, como consequência, os americanos instalaram uma base aérea, conhecida como “Trampolim da Vitória”, em Parnamirim,


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que, naquele tempo, era distrito de Natal, só se tornando emancipada em 1958. Na época, como a entrada dos militares para Natal era pela Fundação Rampa, a Ribeira se tornou parada obrigatória. Assim, o comércio e os serviços se desenvolveram intensamente naquele local.  Foi nesse período também que a região ganhou vida noturna, com bares, restaurantes e cabarés. Com tantos entretenimentos, tornou-se o bairro mais movimentado da capital potiguar. Contudo, apesar de tamanhas transformações, ao fim da guerra, a área passou por descuidos e, aos poucos, os comércios foram fechados. Gradativamente, a Ribeira foi deixando de ser o principal e mais importante bairro de Natal para se tornar um local de abandono e descaso.  Para a ex-moradora da região, Antônia Furtunato, o principal problema foi a expansão na Segunda Guerra: “Os cidadãos foram expulsos, a tranquilidade do bairro acabou. Só tinha espaço para o comércio e para as festas”. O cineasta Rômulo Sckaff compartilha do mesmo pensamento da ex-moradora. “A Ribeira se tornou um lugar de americanos que queriam se divertir, a população local não se sentia bem em morar naquele lugar. Por isso, se transferiram para o Alecrim. Com o fim da guerra, só sobraram as moscas”, conta. Prova disso são as estatísticas, representadas no censo: a população do bairro da Ribeira era maior no século XIX do que no século atual. Segundo o jornal “A República”, de 5 de fevereiro 1897, havia 2.800 habitantes naquela época. Número superior ao do Instituto Brasileiro

de Geografia e Estatística (IBGE) de 2016, que constatou uma população de 2.269 moradores.  A professora Ilanna Revorêdo criou o “Ribeira Minha Ribeira”, ao perceber a necessidade de mostrar a importância do bairro para outras gerações: “Muitos dos meus alunos chegam à idade adulta sem conhecer nada da Ribeira, só descobrem a importância histórica do local por conta do projeto”. Como Ilanna leciona no curso de Arquitetura e Urbanismo, os alunos aproveitam para ganhar não só a experiência cultural e histórica, mas também arquitetônica, pela grande variedade de prédios antigos e da arquitetura diferenciada.  O projeto surgiu no ano passado e já rendeu bons frutos. Na página do Instagram, são apresentadas as entrevistas realizadas com personalidades do bairro; informações sobre monumentos; dicas de eventos e exibições de fotos do passado. Armazenam, em um só lugar, tudo que alguém precisa saber sobre a Ribeira, tornando o resgate da história mais acessível.

Página do Instagram “Ribeira Minha Ribeira” REVISTA TABU I 4 EDIÇÃO I  35


REPORTAGEM

Além do trabalho nas redes sociais, o projeto promove visitas por esses patrimônios, como o evento realizado em 4 de maio de 2019, que proporcionou para mais de 70 pessoas a experiência de conhecer de perto o Teatro Alberto Maranhão, a Casa da Ribeira, os prédios mais importantes e as ruas mais famosas. O guia de turismo Maurício Centauro esteve presente na caminhada. “Ideias como essa incitam o interesse das pessoas por ver essa região revitalizada. A Ribeira tem que se sentir viva, tem que ter ocupação. Por isso, é sempre positivo um projeto que aumenta o interesse pela história do bairro”, avalia. A visita foi guiada pela professora Cíntia, da Estácio, que contou as histórias e apresentou fotos do passado para compará-las com a situação atual do patrimônio histórico-

cultural.  Quando o assunto é o futuro, a idealizadora do projeto revela seu desejo de expandi-lo para o mundo infantil: “Criamos o personagem Riba, pensando em desenvolver atividades pedagógicas voltadas para as crianças. Ou seja, pretendemos visitar as escolas para mostrar a história do local com uma linguagem infantil, para que elas saibam valorizar o bairro desde o berço”, explica Ilanna. Assim, a importância histórica da Ribeira, aos poucos, é resgatada e a memória da região preservada, para que nunca seja perdida ou abandonada como as ruínas dos casarões históricos do bairro.  A Fundação Cultural Capitania das Artes (Funcarte) foi procurada para responder se existe algum projeto de revitalização da Ribeira, mas não tivemos retorno.

Casa da Ribeira, parada principal do passeio (Foto: Lucas Costa)

História é resgatada em cada parte da caminhada (Foto: Lucas Costa) 36 I  REVISTA TABU I 4 EDIÇÃO


COLUNA

A vida na dança que quebra barreiras Por Cristiane Modesto  no labirinto cultural da Ribeira, não é difícil ficar perdido observando a arte escancarada nas paredes. O bairro já teve um grande movimento comercial, entretanto, com o passar do tempo, seus moradores presenciaram grandes lojas e bancos fecharem, dando lugar a uma fachada oclusa e cinza, repleta de placas de “vende-se” ou “aluga-se”. Entre o cinza e os vestígios de cor, a Ribeira exala arte concreta, abstrata e figurativa. Como se a cultura estivesse diluída no asfalto destruído, mas também no sorriso de quem encontrou ali um motivo para viver.  Encontrei quem fizesse arte por prazer, quebrando barreiras sociais dançando e girando na própria margem social. Grupo sem fins lucrativos, o Gira Dança abraça deficientes físicos, compartilhando o princípio de que expressão e dança devem ser sempre plurais, em que acessibilidade e aceitabilidade são integrantes-chave. Um dos fundadores, Roberto Morais, sentado em seu instrumento de dança, sua cadeira de rodas, com olhar entre os óculos e de fala firme e comedida, exprime: “Gira Dança é minha vida, minha história”.  O grupo é composto por cerca de dez participantes. Cada rosto estava sério e concentrado durante o ensaio, cada um tinha um tipo de deficiência, alguns estavam descalços, porém o que tinham em comum era a postura, um olhar que se perdia, mas rapidamente se concentrava novamente. Um olhar fixo, para frente, como se tivesse a habilidade de ver mais,

de sentir mais e de respirar dança. Todo respeito exigido é jogado com um passo certeiro, um olhar, um giro calculado, um movimento que contagia.  Antes de entrar no local de ensaio, passando no que parecia ser mais uma rua cheia, do cotidiano da Ribeira, vi na fachada o nome do grupo e o integrante Roberto Morais na calçada. Foi uma troca imediata. O ambiente é tranquilo, organizado, com papéis de parede que alegram aquele celeiro de dança.  Quando entrei na primeira ala do local, onde acontece o ensaio, percebi como as paredes dali não eram tão diferentes das do exterior: tinham formas e cor, era a Ribeira, por dentro e por fora, permitindonos respirar arte constantemente.  Sentei e conversei com Roberto. Nele, percebi o recorte do grupo, seu foco, sua essência, seu riso e sua maneira de deixar claro que não querem nada além de respeito.  Esses detalhes, não vemos em todos os lugares, nem em todas as pessoas. Naquele homem que só exige respeito, vi a imagem que tinha visto lá fora, na Ribeira: uma parede cinza fala muito; sua cor grita. Roberto Morais, com seu jeito de dançar, consegue inspirar quem sempre acreditou que ter uma deficiência era ser incapaz. Pelo contrário, a cada Giro e sorriso, Roberto jorra cor, arte e faz renascer vida no cinza, no olhar baixo, em quem pensava ser margem, mas girou, ergueu a cabeça e dançou. REVISTA TABU I 4 EDIÇÃO I  37


REVIsTA TABU Edição 4 l Ano 3 l 2019

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