ed. 10 | ano 6 julho de 2022
a revista que quebra paradigmas
EXPEDIENTE Revista-laboratório do Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, elaborada por alunos do componente curricular Laboratório de Planejamento e Pesquisa em Jornalismo (2022.1). Periodicidade semestral: Edição 10. Julho 2022. Coordenação e revisão: Janaina Barcelos (Mtb. 6010/MG)
EDITORES Cultura: Ana Carla Lobo e Carla Iara da Costa Direitos Humanos: Ana Beatriz Vilar e Wellya Gomes Meio Ambiente: Pamella Menezes e Yara Adryelle Periferia: André Luís e Beatriz Cruz Criação e editoração: Beatriz Cruz Instagram: @taburevista
EDITORIAL Riscos ao meio ambiente, representatividade feminina, questões sociais e educação são alguns dos temas que a 10ª edição da revista Tabu irá abordar. Dentre as temáticas, o principal aspecto em comum é a pluralidade. A iniciativa desta edição é abrir espaço para essas narrativas que não possuem a mesma visibilidade que outras pautas no cotidiano dos potiguares. A revista Tabu tem como intuito dar notoriedade aos discursos das minorias, trazer reflexões sociopolíticas, defender a democracia e apoiar a diversidade. Dessa forma, as editorias de Cultura, Direitos Humanos, Meio Ambiente e Periferia trazem conteúdos que exibem diferentes perspectivas sobre assuntos de interesse popular. A revista que quebra paradigmas vem, mais uma vez, abordando pontos pertinentes sobre a atualidade social de Natal/RN, discutindo tanto o contexto “pós-pandemia”, quanto situações que perduram desde antes desse período. Com debates variados, a 10ª edição explora as diferenças existentes em cada tema para, de forma democrática, expandir a voz de grupos sociais menos valorizados pela mídia tradicional. Portanto, além de ser um espaço para o aprendizado da prática jornalística, a Tabu traz o acolhimento à diversidade, sendo um local inclusivo para contar histórias distintas, ditas por diferentes pessoas, resultando em um conteúdo rico em conhecimento e pluralidade, em que podem ser visualizadas desde a cena cultural natalense a discussões sobre a situação ambiental da capital. Sejam bem-vindos e boa leitura!
SUMÁRIO
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CULTURA DE RUA
UM LITORAL SUBMERSO
TRABALHO ÁRDUO
O VÍRUS QUE AMEAÇOU A EDUCAÇÃO
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FUTEBOL E PAIXÃO NA CIDADE DO SOL
NATAL SEM PONTA NEGRA
ALÉM DO VISUAL
SOB PRESSÃO
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TRADIÇÃO VIVA
DE REDINHA A PONTA NEGRA
SUPORTE QUE FAZ A DIFERENÇA
SEGUIR A MINHA FORMAÇÃO OU ME SENTIR FELIZ?
CULTURA
CULTURA
CULTURA DE RUA
Beco da Lama oferece espaço de convivência diversa e democrática Por Carollyne Medeiros e Vitória Martins
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Todas as cores, gostos e sons de Natal se encontram nas ruas estreitas do centro da cidade. A capital não é só composta de praias, é também rua. O Beco da Lama, espaço carregado de cultura e identidade do povo natalense, é patrimônio cultural da cidade e ganhou destaque por se configurar como espaço de lazer democrático, que sai do tradicional e se encontra em pontos históricos, fazendo essa mistura entre o antigo e o contemporâneo. Lugar que valoriza a gastronomia, a música, o grafite e artistas locais, ali, as pessoas podem expressar sua (r)existência livremente, sem julgamentos. Por definição, uma cidade é um espaço compartilhado pelos cidadãos de diferentes gêneros e classes sociais. Mas, muitas vezes, sua população é frequentemente submetida ao tratamento seletivo, não inclusivo e até discriminatório. E pensar que há um espaço de lazer democrático no coração da cidade de Natal é assegurar a todos, todas e todes o acesso a cultura e entretenimento de qualidade, para que, assim, as mais diversas personalidades possam desfrutar, com ampla liberdade, de ser quem realmente é e curtir o que gosta. A identidade de uma
cidade está diretamente relacionada à forma como seus cidadãos ocupam o espaço público.
Os murais do Beco são um atrativo a mais para os frequentadores e turistas
CULTURA
A professora de química e estudante Clarice Melo começou a frequentar o Beco depois da reabertura, em setembro de 2021. Embora a pandemia não tenha acabado, os estabelecimentos tiveram que recomeçar, seguindo os protocolos sanitários. O espaço assíduo, para ela, é o cruzamento entre as duas vias do Beco, onde há a passagem de pessoas, dá para ouvir um pouco do que acontece no Bar Meladinha - que existe há décadas no local - e um pouco do que se passa na roda de samba. A jovem de 27 anos diz que o Beco é um espaço muito JUSSIER LUCAS
importante, onde todo um coletivo de pessoas se sente acolhido pelas vielas da Cidade Alta. Clarice acredita que não só ela, mas todo um segmento da sociedade que frequenta o Beco, consegue se expressar livremente naquele lugar. “Estamos em uma sociedade que corta muito as pessoas, dependendo de como elas sejam. E no Beco não tem isso, aqui elas existem, como talvez elas não possam existir em outros lugares de lazer. Isso é importante, não só de um jeito pessoal, mas de um jeito coletivo”, comenta a natalense. A produção cultural presente no Beco da Lama é, de fato, “underground”, uma alimentação artística não convencional que expressa uma veia cultural que não se vê em outros lugares da cidade. A estudante conta que algo interessante de se observar é que os artistas do Beco, normalmente, são pessoas que não estão no “mainstream”, na onda do sucesso e trabalham ali construindo seu público todas as quintas e sábados, começando sua fama entre os frequentadores. Natal é uma cidade que possui poucos espaços de lazer para além das praias, e alguns, geralmente, são restritos por conta do investimento necessário, como teatros e cinemas. “Depois do advento dos shopping centers, tudo meio que gira em torno deles, é onde você compra, come, se diverte. Também tem os teatros que são excludentes, porque, muitas vezes, os eventos são pagos”, detalha Clarice. Então, tem o Beco da Lama, um dos poucos lugares completamente aberto e democrático, independentemente da sua classe social.
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LIVRE EXPRESSÃO
CULTURA Para o produtor cultural e DJ Frank Aleixo, o Beco talvez seja o mais atrativo, pois houve investimentos do poder público, geralmente negados em outras regiões do município. “Existe pouquíssimo investimento em outras áreas da cidade, como as Zonas Norte e Oeste. Se no Frank, conhecido como Pajux, é o DJ responsável pelos sets que tocam no Bar da Meladinha
Beco, espaço que chegou a ser visto pela prefeitura, ainda há dificuldade de diálogo entre o poder público e as pessoas que fazem cultura, avalie em outros lugares, ainda mais marginalizados e onde não há investimento”, analisa.
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ONDE OS RITMOS SE ENCONTRAM Para além das paredes coloridas e dos bares, a música talvez seja a principal atração do
Beco da Lama, com um diversificado repertório cultural, ritmos que vão desde o samba de raiz até a música eletrônica. Nas noites de quintas e sábados, quem desce na Avenida Rio Branco e caminha até a rua Coronel Cascudo se depara
CULTURA
com o vermelho do bar da Meladinha, um destino para quem quer se surpreender. Nunca é o mesmo set, cada noite, cada momento é diferente. Quando tocam os sons de disco-music, house e techno, quem ia ao Bar só comprar uma meladinha – tradicional bebida feita com mel, cachaça e limão –, acaba ficando. O DJ Frank conta que esses gêneros musicais passaram a ser uma estratégia para aumentar o tempo de permanência dos jovens no Bar, principalmente alguns grupos sociais como os queers e as clubbers. As palavras de Frank Aleixo descrevem a veemência do Beco: “O incrível daqui é que este espaço tem a capacidade de aglutinar muitas pessoas diferentes para fazer uma coisa que a gente não faz muito em Natal, que é frequentar as ruas da cidade”. Para quem não curte o som do Meladinha, é só atravessar a rua e se encontrar com o
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samba. Aproximando-se do bar da Nazaré, você sente a energia da tradicional roda e já escuta o grupo Batuque de um Povo cantando: “Eu sou o samba, a voz do morro sou eu mesmo, sim senhor, quero mostrar ao mundo que tenho valor, eu sou o rei do terreiro”, de Jair Rodrigues. A educadora Tati Ribeiro frequenta o Beco da Lama desde 2019, quando se mudou de São Paulo para Natal. Ela teve o privilégio de trabalhar perto do Beco e diz que o chamariz para começar a frequentar o lugar foi o samba, que hoje faz parte da rotina para relaxar e encontrar os amigos. Segundo ela, o Beco proporciona possibilidades muito diversas e, em uma cidade onde as programações costumam acabar cedo, no Beco se alongam. A música acaba e a festa continua acontecendo.
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Depois da primeira vez que Clarice foi ao Beco, o local se tornou especial na sua memória pelos encontros que proporciona.
CULTURA O Bar da Meladinha é referência cultural desde a década de 1970
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A roda de samba é um espaço que reúne gente de todas as regiões da cidade e toca desde músicas mais antigas até os sambas atuais
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Mesmo sendo de São Paulo, Tati sente, no Beco, uma identificação com a cidade de Natal
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A pandemia da Covid-19 trouxe muitos desafios. O cuidado com a saúde e o receio de adoecer fizeram com que ficássemos com a pulga atrás da orelha e pensássemos duas vezes antes de sair para um momento de lazer tão necessário. Porém, a partir das perspectivas de retomada com o avanço da vacinação, o Beco da Lama e seus frequentadores puderam voltar a se encontrar e vivenciar o lugar com novos olhos, de saudade e aconchego. Frank Aleixo, DJ há dez anos e que se apresenta no Bar da Meladinha há quatro, ia para o local beber cerveja e se identificou com a coletânea musical que encontrou ali. Ele conta que sempre tocou no centro, e as pessoas não enxergavam essa parte da cidade como um possível destino. Como DJ e produtor cultural, Frank sempre trabalhou na Ribeira e conta que as pessoas costumavam buscar diversão no local. Segundo ele, o crescimento do samba da Nazaré começou a criar esse eixo de interesse em torno da Cidade Alta, o que foi muito significativo para a produção cultural de Natal. Com a pandemia, o DJ observou de perto momentos muito difíceis, como a perda financeira e de estrutura dos estabelecimentos do Beco. “Durante muito tempo, achei que a gente não ia ter o conforto que tem hoje de poder sair”, reflete. Frank notou o afã na reabertura do espaço, uma sede muito grande de reviver a vida do Beco. “Eu ainda sinto que, até agora, meses depois que reabriu, as pessoas enxergam
o Beco como se estivessem visitando um amigo de longa data, que não veem há muito tempo”, relata. Durante o período de quarentena, Frank foi um dos artistas que buscou manter viva a lembrança do Beco na memória do povo potiguar, com ações online, que ajudaram a si, seus colegas de profissão e empresários que tiveram que fechar as portas durante esses longos meses. Durante o período de isolamento social, Francineide Ferreira Dantas, popularmente conhecida como Neide, dona do Bar da Meladinha, um dos mais famosos do Beco da Lama, conseguiu ajuda para se manter através de vaquinhas online. Neide da Meladinha e outros empresários sofreram com a parada das vendas e dizem não terem obtido ajuda do poder público. Para ela, se não fosse o apoio de artistas locais e frequentadores assíduos, os bares e restaurantes do Beco estariam hoje só na lembrança. O Beco da Lama, a partir da reabertura, ficou ainda mais plural em termos de público e estabelecimentos, com várias iniciativas de programações, e as pessoas estão trabalhando muito para recuperar o prejuízo. Agora - ainda que com cuidado -, é possível sentir o calor, as aglomerações, os relacionamentos, o estar junto. A rua tem essa importância, de você encontrar, muitas vezes, gente que não veria e ideias que não ouviria, uma potencialidade de fazer as pessoas enxergarem outros mundos e saírem um pouco do universo restrito de seu círculo de convivência. O Beco da Lama é sair dos nichos, é criatividade, cooperação e resistência cultural.
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A PANDEMIA
Ao entrar no Beco, já é possível identificar o Bar da Meladinha, pelo seu som e suas cores
GALERIA A CÉU ABERTO DEMOCRATIZA A ARTE Com murais de mais de 50 artistas locais, a arte e a cultura se materializam nas paredes antes desbotadas dessa parte da capital potiguar, que ganhou grafites e se estabeleceu como espaço relevante em Natal. No Beco da Lama, há uma galeria a céu aberto que valoriza a cultura e a identidade do povo natalense, onde a experiência visual passa pelo colorido dos painéis indo até as intervenções não solicitadas. Morador de periferia a vida inteira, o multi-artista potiguar Miguel Carcará trabalha profissionalmente com grafite há 17 anos. “Tinha vários caminhos dentro da quebrada, mas me segurava na arte”, conta. Na adolescência, conheceu a cultura hip hop e foi se
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identificando com vários movimentos, indo das rimas à dança de rua, até cruzar com o grafite. Seu intuito sempre foi viver de arte. “A arte urbana e o hip hop me transformaram e, com isso, fizeram com que eu ajudasse a transformar outras pessoas”, revela. Ele foi o responsável por mobilizar os artistas a realizarem o trabalho com grafite no Beco, projeto desejado há muito tempo, que não acontecia por falta de estrutura para sua elaboração, até o Poder Público abraçar a ideia e apoiar a proposta. Apareceram 53 artistas visuais para colaborar, dentre eles o “Coletivo 08”, da Redinha, que desenvolve outros projetos com grafite e também a parte pedagógica de formação em arte urbana na cidade e em outros municípios do estado. A ação foi no estilo mutirão, trazendo uma temática que impactasse. Então, surgiu
Miguel Carcará defende o grafite como manifestação artística diversa e democrática
a ideia de um trabalho baseado na obra de Câmara Cascudo, na tentativa de valorizar a cultura do povo potiguar, mas os artistas ficaram à vontade para colocarem a própria identidade nas paredes. “Quando a gente chegou para fazer os grafites, começamos a pintar, provocando o retorno das pessoas ao Beco, movimentando também a economia do lugar”, diz Carcará. Com as mudanças, o Beco da Lama, historicamente um reduto cultural tradicional de Natal, passou a ser também ponto de encontro entre arte contemporânea, vários estilos musicais, pinturas e pessoas heterogêneas da cidade, trazendo uma identidade cultural múltipla para o espaço. Carcará destaca que a arte visual no Brasil, por muito tempo, manteve-se presa a determinados lugares, e o grafite, como intervenção, veio para democratizar o acesso a manifestações artísticas. Atualmente, o grafite também se desloca para as galerias, mas continua na rua, onde está sua essência, pois o próprio meio urbano é sua expressão. A estudante Clarice Melo conta que sua experiência visual, na primeira vez que viu o Beco, foi além dos painéis. Houve um interesse
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imediato pelo que a galera escreve que não necessariamente foi solicitado: as pichações. “Às vezes, você vê qualquer coisa na parede e aquilo é um diferencial, poemas, protestos, letras de músicas”, aponta. Para Miguel Carcará, a pichação é também uma forma de expressão de identidades, uma escrita que faz parte do vocabulário do grafite. Ambas vêm da mesma fonte e se integram. “É também intervenção urbana, um grito social, que deixa marcas na cidade, trazendo sua identidade à tona.” Os escritos ao longo do Beco têm como principal função transmitir mensagens de reflexão aos frequentadores
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CULTURA
FUTEBOL E PAIXÃO NA CIDADE DO SOL
Como América e ABC fazem parte da identidade do natalense Por Dhimitri Campos e Flávio Monteiro
Para João Victor, torcer pelos times do Nordeste é importante para se reafirmar enquanto torcedor e morador da cidade.
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Identidade e futebol se entrelaçam há tempos, seja na prática amadora ou profissional. É possível encontrar crianças praticando o esporte nas ruas de qualquer cidade do Brasil, tamanha é a paixão do nosso povo pelo esporte. Mas, mais
intensa do que a paixão pelo desporto em si, o amor dos torcedores por seus respectivos clubes e a forma como isso molda e solidifica a sua identidade é um forte aspecto desse fenômeno social chamado futebol.
CULTURA Ambas as equipes possuem uma torcida apaixonada, que, mesmo em momentos ruins, não deixa de se fazer presente e apoiar o time. Em 2019, a Federação Norte-rio-grandense de Futebol (FNF) divulgou que a média de público do campeonato potiguar daquele ano teve o maior índice de pagantes dos últimos 12 anos, contabilizando uma média de 1.800 pessoas por partida e 109 mil no total de jogos do estadual de 2019. Em 2022, o campeonato estadual superou esses números, com média de 2.200 pagantes por jogo e 126 mil no total, tornando-se a maior média de público dos últimos 15 anos. As finais tiveram o melhor público dos últimos 34 anos, sem contar com os recordes de transmissão no Youtube da Band-RN e de rádios, como a 98 FM, e o programa Universidade do Esporte, da Rádio Universitária (FMU).
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Desde agremiações relativamente distantes da nossa realidade, como o Athletic Bilbao e o Barcelona, na Espanha - ambos símbolos da resistência de suas regiões -, até os recentes movimentos pela valorização do futebol nordestino perante o futebol do Sul-Sudeste, os clubes são elementos culturais da localidade à qual pertencem e, dependendo da situação, podem se transformar em expressões de orgulho e resistência de sua terra natal. Os maiores clubes da cidade de Natal, América e ABC, são equipes tradicionais, ainda que o seu momento presente esteja distante da glória. O América, carinhosamente chamado de Mecão, clube que já foi campeão da Copa do Nordeste, atualmente joga na Série D, a quarta divisão nacional de futebol. Já o ABC, que atende pela alcunha de “Mais Querido”, disputa a Série C, terceira divisão nacional. Além da influência da família na escolha pelo Cruzeiro, Antônio Matheus simpatizou com o time pelo azul intenso do uniforme
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CULTURA
TIMES REGIONAIS E NACIONAIS
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Mas, será que as equipes refletem, de alguma forma, a identidade da população de Natal? João Marcelo Matos de Azevedo, estudante torcedor do América, acredita que sim: “Ser torcedor do América contribui muito para a minha formação, para minha identidade, justamente no sentido de ser e defender o potiguar, de querer sempre que as nossas coisas sejam valorizadas, de defender que o camarão é daqui, que temos Ponta Negra, que temos tudo. Da mesma forma, temos o América, que é um clube grande que deve ser valorizado”. Ele, que é alvirrubro desde a infância, é um forte defensor da ideia de que o clube tem que ser apoiado pela torcida local, já que representa a população. Nessa noção, o América e a cidade de Natal se entrelaçam, já que torcer para o América gera um enaltecimento da cidade onde a agremiação está. E se identificar e se orgulhar de ser natalense leva à compreensão da importância de todos os elementos culturais que compõem a cidade. Esse movimento de valorização das equipes regionais, principalmente no Nordeste, tem crescido bastante nos últimos anos. A frase “Nordestino tem time para torcer” é bastante utilizada nas redes sociais, principalmente para criticar aqueles que optaram por apoiar equipes do eixo Sul-Sudeste, os chamados torcedores mistos, que torcem para dois times, um da sua região e outro do eixo.
O estudante João Victor Medeiros Cândido, torcedor misto de Santos e ABC, enxerga que a escolha é válida, mas com algumas ressalvas. “Eu concordo cem por cento com a opinião dos torcedores do Nordeste. Realmente, aqui tem time para torcer. Mas, ninguém é obrigado a torcer para um único time e vai de cada pessoa, do seu gosto. Eu, por exemplo, sou sócio de um time do Nordeste e simpatizo pelo Santos”, defende. Já Antônio Matheus Bezerra Costa, torcedor misto de América e Cruzeiro, é mais enfático ao criticar esse tipo de postura. Para ele, cada time conta um pouco a história do torcedor, mesmo sendo uma equipe de fora, e entende que estabelecer uma postura hostil aos torcedores que optaram por torcer para times de outras regiões não é o correto, é somente uma deturpação que não tem muito a acrescentar para os movimentos de identidade regional.
DAQUI OU DE FORA Mas, o que leva um natalense, nascido e criado em Natal, a torcer para equipes de regiões distantes como Minas Gerais e São Paulo? João Victor e Antônio Matheus relatam terem começado a torcer em momentos bons de Santos e Cruzeiro, respectivamente. O primeiro se afeiçoou pelo alvinegro praiano em 2010, em um período no qual o Santos era protagonista no cenário nacional, liderado por um jovem Neymar, com uma equipe que se sagraria campeã da Copa do Brasil e da Libertadores da América. Situação semelhante à de Antônio
CULTURA Matheus, que passou a torcer pelo Cruzeiro entre 2013 e 2014, época na qual a equipe celeste foi bicampeã do Campeonato Brasileiro e contava com jogadores do cacife de Everton Ribeiro e Ricardo Goulart. Além do aspecto cultural, futebol também é entretenimento. E pode ser mais divertido acompanhar equipes fortes, que disputam as principais competições do esporte, do que assistir a partidas de divisões de acesso, que entregam um nível de desempenho menor. A ausência das equipes natalenses das divisões de alto nível pode ser um indicador da razão do surgimento de torcedores mistos, ou até mesmo daqueles que não torcem para nenhum clube da cidade. Marcelo Petrovich, estudante torcedor do ABC, compartilha dessa ideia. “A gente acaba vendo os campeonatos de maior grife do futebol, como Premier League, Champions, e também uma Libertadores e Série A do Brasileirão, e adquirindo simpatia por algum time”, confessa. Ele acredita que várias pessoas escolhem torcer por times de fora do estado pelo fato de as equipes regionais não estarem no primeiro nível de competitividade, longe da primeira divisão e militando em divisões de acesso. Marcelo, que é influenciador nas redes sociais, faz um apelo para que os torcedores locais comprem a ideia do time, que ajudem as equipes natalenses a crescerem, já que, acima de tudo, elas são um expoente da cidade. “Apoie o teu time, já que você quer futebol na elite, porque o apoio dos torcedores é um um ciclo, necessário para o time crescer”, comenta.
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Para João Marcelo, ser torcedor do América contribui muito para a formação de sua identidade
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AMPLIAÇÃO DO ACESSO As transmissões de jogos na TV aberta no Rio Grande do Norte sempre foram de times do eixo Rio-São Paulo, com raras exceções para os clubes daqui, geralmente, quando há equipes do eixo envolvidas. Com o advento da Internet e das redes sociais, ao longo dos anos, transmissões na internet em aplicativos como Youtube e MyCujoo, com baixo custo ou gratuitas, tornaram mais simples e acessível assistir a um jogo, tanto de ABC, quanto de América.
CULTURA Esse cenário pode contribuir para o crescimento da torcida. É o que pensa o torcedor do ABC, Marcelo Petrovich, que costumava acompanhar as partidas de seu time pelo rádio. “Toda vez que o ABC jogava fora de casa, era rádio! O garganta de ouro fez parte da minha infância, o ‘Redeeee’! Fico até arrepiado quando lembro!”, conta, revelando a paixão pelo clube e se referindo ao grito de gol do narrador Jorge Aldir, Torcedores comparecem em peso à partida entre ABC e América, para vibrar por seus times de coração
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conhecido como “Garganta de Ouro”. Para aqueles que não são tão dedicados ao ponto de acompanhar por rádio, o crescimento de transmissões nos meios digitais pode ser um canal para novos torcedores se apaixonarem, acredita Marcelo. “Precisa melhorar, essas plataformas são inconstantes, mas as transmissões estão crescendo e fico muito satisfeito, pois tende a mudar esse cenário”, avalia.
PEDRO VITORINO
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REDES SOCIAIS Marcelo Petrovich é o maior influencer digital do ABC, soma mais de 8.500 seguidores no Instagram e 50 mil no TikTok. Ele usa suas redes sociais para noticiar sobre o ABC, Marcelo Petrovich tem cerca de 8.500 seguidores e usa seu alcance para divulgar o ABC
fazer vídeos comemorando vitória do time e zoando quando o América perde, com carisma e irreverência. O sucesso o levou, no final de maio deste ano, a participar de uma campanha publicitária do clube.
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O apaixonado pelo ABC busca usar sua influência para atrair torcedores e para que o natalense, que já é torcedor, sinta-se representado e valorize o seu time. Seu público é bastante heterogêneo em relação à faixa etária, de crianças a adultos. “Em proporção, posso impactar, mas muito pouco. Assim, com toda humildade do mundo, busco, com a transmissão de emoção, influenciar para um cara compactuar o meu sentimento”, diz. Ele conta que recebe retornos positivos,
como, por exemplo, de alguém que decidiu ir ao jogo a partir de um conteúdo que produziu em suas redes sociais. Com os recordes de transmissão do campeonato potiguar em 2022, o torcedor começa a matar as saudades que se formaram diante das condições impostas pela pandemia do novo coronavírus. “A média vai se manter e aumentar, se Deus quiser”, espera Marcelo, que sempre frequentou os estádios. “Meu ABC é gigante, e a saudade só agigantou essa paixão”, declara.
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TRADIÇÃO VIVA
Após dois anos sem comemorações presenciais, natalenses festejam o retorno dos eventos juninos Por Luan Alves e Vitor Sousa
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Os amantes das festas juninas não se aguentam de felicidade com a volta dos festejos, depois de dois anos sem essa alegria. Em Natal e Região Metropolitana, o Festival de Quadrilhas Juninas, tradição há mais de três décadas, atrai centenas de espectadores, num espetáculo que colabora para manter a cultura viva. Após dois anos de paralisação, devido à pandemia da Covid-19, as quadrilhas juninas renascem. De acordo com Eduardo França, coordenador da Balão Dourado, única quadrilha estilizada de Natal atualmente, a expectativa e a ansiedade marcaram esse retorno. Em 2022, a Balão Dourado trouxe o resgate cultural, com o tema “São João redondo, a festa dos mamulengueiros”, introduzindo o teatro de bonecos típico do Nordeste brasileiro, os Mamulengos, na apresentação. O personagem principal é João Redondo, criação do mamulengueiro potiguar Chico Daniel. A intenção foi promover uma identificação do público com o tema escolhido e oferecer uma quadrilha mais “junina”, colorida, que valoriza a cultura, as raízes.
Para 2022, a Balão Dourado se dedicou, com a realização de seus ensaios quatro vezes por semana na reta final. “As quadrilhas estão acabando, hoje em dia, só tem a Balão Dourado em Natal. Antigamente, quando as quadrilhas eram mais popularizadas, o povo se identificava mais”, lamenta Eduardo. Para ele, o fato de passarem a se esconder, para manter o sigilo nos grandes festivais, pode ter colaborado para afastar o público. Apesar desse contexto, a quadrilha ainda desperta paixão. A forte identificação com a cultura junina faz com que pessoas viajem quilômetros, semanalmente, para se dedicar aos ensaios, como é o caso da Ádla Katiana, uma das componentes do grupo, que percorre 276 km de Mossoró até Natal. “A Balão é uma quadrilha que me acolheu muito bem, então é uma experiência nova, uma grande responsabilidade. Procuramos dar o melhor de nós. Quando entramos em quadra, esquecemos tudo. É sobre o amor ao São João”, declara Ádla. A última apresentação da Balão Dourado tinha sido em 2018. “Vínhamos numa fase
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Além de atual coordenador da quadrilha, Eduardo também é responsável por auxiliar na coreografia do espetáculo, que é planejada desde o ano anterior
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poder público e de projetos de apoio à cultura. Durante os festejos, o grupo se apresentou em diversos festivais do interior do Estado e no estádio Arena das Dunas, na capital potiguar.
Eduardo participa da Balão Dourado desde seu início e percorreu um longo caminho até ocupar o posto de coordenador
Ádla é fã da Balão Dourado antes mesmo de entrar para o grupo, lá conheceu o seu esposo, com quem tem uma filha
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muito boa, mas passamos a não ganhar tantos festivais. Então, a quadrilha precisou parar por um ano para se organizar e retomar em 2020, mas a volta não aconteceu devido à pandemia. Este ano, foi possível retomar, com apoio do
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DIFICULDADES
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Em dez anos, o número de grupos de quadrilhas juninas caiu mais da metade na cidade de Natal, devido a vários fatores, como falta de incentivo financeiro, burocracia para ser aprovado nos editais, falta de categoria infantil e extinção dos antigos festivais, como é o caso do festival de quadrilhas da Inter TV Cabugi, que não houve este ano. Somente agora, em 2022, foi que a Prefeitura da capital, juntamente com a Fundação Capitania das Artes (Funcarte), disponibilizou um edital com maior incentivo para as quadrilhas juninas, incluindo a categoria de quadrilhas infantis, que era uma reivindicação dos quadrilheiros há anos. De acordo com o diretor da Liga Independente de Quadrilhas Juninas do Rio Grande do Norte (Liquajutern), Alex Melo, o edital foi discutido pela Funcarte com a Liga, os presidentes de grupos e quadrilheiros, de modo a atender à necessidade do movimento junino. “Foram incluídas as categorias cômica e infantil e o recurso foi ampliado”, informa Alex. Para Felipe Fesoukky, amante e espectador de festivais juninos na cidade, foi muito triste esse tempo sem São João e sem festejos. “Jamais imaginaria passar por isso. O que salvou esse período e não deixou a chama da fogueira apagar foram as lives juninas realizadas por cada grupo junino em parceria com as federações do RN”, avalia. Outra salvação para os quadrilheiros, segundo ele, foram as redes sociais. Páginas no Instagram, como a “Meu Mundo Junino”, chegaram à marca de 40 mil
seguidores durante o período pandêmico. Além disso, surgiram perfis destinados apenas a essa categoria, como Abraão Morais, que se tornou conhecido no estado e no Nordeste pelos vídeos humorísticos durante essa época também. “Foi algo não esperado, apenas me diverti com as coisas que acontecem conosco, quadrilheiros, e o resto aconteceu”, diz Abraão. Felipe, admirador há anos das quadrilhas, usa a moda como forma de representar a cultura junina
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APOIO Um dos apoiadores dos festejos juninos em Natal é o vereador Heberth Sena (PL). No dia 20 de abril de 2022, a Câmara Municipal de Natal realizou uma audiência pública, proposta pelo político, com o tema “Cultura: Como Será o São João de Natal, Abertura de Editais e incentivo às Quadrilhas Juninas”. O debate envolveu Prefeitura do Natal, Governo do Estado, Secretarias Municipais e Estaduais de Cultura e Turismo,
CULTURA
AMOR DE INFÂNCIA O interesse do vereador Heberth Sena vem desde a infância. Amante do São João, sua última entrada em quadra como personagem, direção e produção foi em 2018, com a quadrilha Arraiá Coração Nordestino. Ele se recorda, com saudade, de momentos que marcaram a sua época de quadrilheiro: “Quando eu dançava quadrilha, os ônibus que nos levavam para as apresentações saíam da minha casa. A minha mãe acolhia, fazia comida para todos os componentes”. O vereador reforça a importância das quadrilhas juninas, tanto na construção da
identidade cultural natalense, como também na formação como cidadãos. “A quadrilha é uma formação do ser humano! Não é só vestir uma camisa de chita e entrar em quadra como muitos pensam. Você passa o ano todo trabalhando, aprendendo a conviver em grupo, limpando e organizando os locais de ensaio. Sem falar que é uma atividade de lazer”, destaca. Para ele, o incentivo financeiro do poder público aos festejos juninos é de extrema importância. Sena pontua que ainda é uma tradição muito forte do cidadão natalense sair de casa para assistir aos festivais juninos. “O povo ama assistir às apresentações das quadrilhas. As pessoas chegam cedo, formam filas imensas, levam lanche, levam janta. Até sobem no teto para conseguir um lugar e assistir às quadrilhas”, brinca o vereador. A função pública na política municipal desde 2020 afastou Sena da vida de quadrilheiro, mas ele segue atuando no incentivo ao movimento. E, se pudesse, voltaria: “Se eu tivesse tempo para ensaiar, estaria em quadra novamente este ano, mas o cargo que ocupo atualmente não me permite, pois fazer parte de um grupo junino requer bastante tempo de dedicação”, diz. Herberth Sena é o primeiro quadrilheiro a se tornar vereador
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Fundação José Augusto, Liquajutern e União de Quadrilhas Juninas do RN (Uquajurn). O propósito da audiência foi encontrar formas de apoio e incentivo para o festejo, mantendo viva a tradição cultural. Em 13 de maio, a Prefeitura publicou, no Diário Oficial do Município, as seleções públicas voltadas para as quadrilhas juninas e arraiás de rua, com investimento de R$ 517 mil, a fim de apoiar 40 arraiás de rua e 18 quadrilhas juninas, sendo seis grupos de Natal, dez da região metropolitana, uma quadrilha cômica de Natal e uma quadrilha junina infantil. A Seleção Pública nº 007/2022 regulamentou o processo de inscrição e seleção para apoio e premiação de quadrilhas juninas para participação no 31º Festival de Quadrilhas Juninas da Cidade do Natal e Região Metropolitana, realizado entre os dias 22 e 26 de junho, na área externa da Arena das Dunas.
Mesmo a rotina de apresentações e ensaios sendo complicada, o prazer em realizar os espetáculos motiva os quadrilheiros ano após ano
SONHEI QUE ERA UM BALÃO DOURADO O grupo de quadrilha Balão Dourado nasceu em 1992, no bairro Pajuçara, Zona Norte de Natal. Inicialmente, chamava-se Arraiá do Pantanal, nome recebido em homenagem à novela Pantanal. A quadrilha tradicional tinha poucos componentes, e suas roupas e movimentos eram mais simples. Com o passar do tempo, o grupo junino cresceu e se tornou Balão Dourado, em 1997, mudando também o seu estilo para uma
CECÍLIA MELO
quadrilha estilizada, passando a ter passos coreografados e figurinos cheios de brilho e glamour. A alteração do nome foi para começar do zero, uma nova fase, de acordo com o seu coordenador, Eduardo França. Há 25 anos à frente da quadrilha, o coordenador observa mudanças na relação entre o público e a quadrilha. “Antigamente, ensaiávamos na rua, o que chamava atenção da população e atraía novos componentes. Inclusive, estamos estudando a possibilidade de fazer essa retomada, para termos o contato junto à comunidade”, diz.
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UM LITORAL SUBMERSO
Aumento do nível do mar pode afetar vida da população de Natal no futuro, caso não haja medidas ambientais de contenção e atenção às políticas públicas Por Pamella Menezes e Yara Adryelle
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Muito se ouve sobre os riscos do avanço do mar: enchentes em cidades costeiras, desaparecimento de ilhas e regiões submersas. Mas, qual é a razão do aumento dos mares? A ação humana tem provocado o aquecimento do planeta, através da queima de combustíveis fósseis, do desmatamento de florestas e da liberação de gases do efeito estufa. Tais ocorrências corroboram para um cenário em que o nível do mar se eleve e favoreça mudanças climáticas potencialmente perigosas que comprometem o futuro do planeta. Funciona assim: o efeito estufa é um fenômeno natural, em que gases retém calor na atmosfera. O aquecimento global é a consequência do aumento desenfreado desses gases, gerando a elevação da temperatura do planeta. As ondas de calor afetam as geleiras, as quais derretem ao ponto de elevar o nível dos oceanos, comprometendo ecossistemas naturais e a vida humana, podendo ocasionar, inclusive, extinção de espécies. Uma pesquisa sobre as ameaças sem precedentes para as cidades pelo aumento do nível
do mar, realizada em 2021 pela ONG Climate Central, aponta que a elevação das águas marítimas pode causar graves mudanças nos cenários de grandes cidades costeiras do Brasil e do mundo nos próximos 200 a 2000 anos. O Brasil, Aumento do nível do mar impactará a vida cotidiana dos natalenses.
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RENATO REIS
naturais, moradias e até localidades inteiras, convertendo seus moradores em refugiados climáticos. A previsão é de que aproximadamente 745 milhões de pessoas viverão, nas próximas décadas, expostas a inundações, marés ciclônicas e outros fenômenos extremos cada vez mais frequentes e devastadores para a vida humana e o meio ambiente. As mais recentes pesquisas do IPCC advertem que o nível do mar pode aumentar em até um metro em todo o mundo até o final do século.
BAIRROS MAIS AFETADOS EM NATAL A engenheira sanitarista Flávia Janiny, ao analisar a vulnerabilidade de Natal frente às mudanças climáticas, em sua pesquisa de mestrado na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), identificou que 28 municípios do estado podem ser afetados pela elevação dos mares, uma vez que as regiões litorâneas são intensamente ocupadas pela população local, e, do ponto de vista socioeconômico, abriga atividades industriais de carcinicultura (produção de camarão), agricultura, salinas, exploração petrolífera e turismo. De acordo com as projeções, em Natal, os primeiros a sentirem os efeitos da invasão do mar seriam os bairros de Areia Preta, Ribeira, Ponta Negra e regiões próximas ao Rio Potengi. Conforme levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a Zona Leste de Natal, que abriga bairros como Santos Reis, Rocas e Ribeira, seria a região mais
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por ser um país de grande extensão de faixas litorâneas, e ter várias cidades com alta densidade demográfica nessas áreas, é um dos países mais suscetíveis a ser afetado pelo aumento das águas. Os efeitos já são evidentes em diversas praias que sofrem inundações todos os anos e têm suas faixas de areia diminuídas. Desde 2019, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) - entidade criada pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) e pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) - adverte sobre as consequências da subida do nível do mar: agrava a erosão dos litorais, piora a qualidade da água potável e de rega, causa danos ao patrimônio histórico e artístico, contamina solos de campos de cultivo, afeta o transporte e a atividade econômica das cidades, paisagens
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afetada pelo avanço do nível do mar, devido à sua topografia pouco privilegiada, que expõe 26,89% da sua população ao risco de inundação, resultando em maiores perdas estruturais e patrimoniais. Na Zona Norte, o bairro da Redinha é o de maior vulnerabilidade social, econômica e ambiental. Dentre a população total do município exposta ao risco de inundação, tem uma representatividade de 1,64% e apresenta o menor rendimento econômico, de 0,84 salários mínimos por pessoa em média. Na Zona Sul, somente Ponta Negra encontra-se dentro da área de inundação. Mesmo que a população exposta seja pouco expressiva em relação ao número total do município (0,09%), ainda haveria grandes transtornos econômicos, em razão de o bairro possuir desempenho significativo no comércio, serviços e turismo.
RISCOS PARA A POPULAÇÃO Flávia Janiny afirma que a região Nordeste do Brasil é muito sensível à erosão costeira, devido ao baixo volume de sedimentos trazidos pelos rios que deságuam na costa. “Há pontos de fragilidade nesse ambiente, como resultado das alterações do meio causadas pelas mudanças climáticas”, explica. Porém, o pior de todos é o fator antropogênico, isto é, tanto a participação do homem no decorrer dos séculos na proliferação de gases do efeito estufa na atmosfera, quanto, atualmente, a forma como vem ocupando as regiões costeiras.
De acordo com o professor de Engenharia Civil e Ambiental da UFRN, Venerando Amaro, a ocupação inadequada dessas áreas interfere na dinâmica natural nas praias, pois destrói fontes de sedimentos, potencializando a erosão nessas regiões. Isso é muito sério, pois o efeito da erosão somada ao aumento do nível do mar acarreta a contaminação do lençol freático. “A gente tem uma carência hídrica enorme, o RN é um estado que depende muito da chuva”, ressalta o professor. Ele explica que, nessas condições, a população que reside nas regiões litorâneas e vive de água do lençol freático das zonas costeiras, precisará dessalinizar a água.
REDINHA, A MAIS AFETADA Além da vulnerabilidade da Redinha frente ao aumento do nível do mar, outros fatores preocupam quanto ao futuro da praia e do bairro, como a erosão do solo e as projeções do novo plano diretor para a região, que pretende liberar construções empresariais no local, delimitado como Área de Interesse Turístico e Paisagístico (AEITP), que permite edificações de até 30 metros. “O novo plano diretor pretende transformar a praia da Redinha em quase uma Barra da Tijuca”, diz Amaro, numa analogia ao bairro do Rio de Janeiro. Para o professor, essas medidas são inconsistentes, pois não se pode planejar algo para uma área, sem considerar problemas que possam surgir futuramente, já que toda a costa está em processo erosivo. E, embora Redinha esteja em situação de equilíbrio, é um equilíbrio sutil, conforme Amaro. “Essa proposta do
Amaro explica as projeções da invasão do mar
JOSÉ CHACON
novo plano diretor para a Redinha faz com que a população adore, porque surge a ideia de que a praia será restaurada, já que a população da Redinha é esquecida há décadas”, analisa. O professor destaca que a Redinha possui, porém, outros fatores que configuram maior vulnerabilidade à praia e questiona o novo plano: “Deveria haver um planejamento mais equilibrado, em que a fragilidade do ambiente seja respeitada. Além da erosão, a Redinha tem outros elementos geológicos que trazem maior fragilidade para a área”. Um deles é o fato de a região ser cheia de lagoas e dunas. “As dunas têm o solo extremamente poroso, o nível do lençol freático é muito alto, então tem uma série de fatores que caracterizam Redinha como uma zona de atenção”, esclarece. Segundo ele, uma construção feita sobre um solo poroso é prejudicial a esse solo, pois impede a absorção de água e intensifica o processo de erosão. Ou seja, essas construções que o plano diretor prevê para a praia podem colaborar para afundar o solo. Atualmente, a praia da Redinha passa por obras de drenagem e de reestruturação. Segundo placas instaladas pela Prefeitura de Natal no local, a reforma pretende colocar o
enrocamento (parede de pedras, que geralmente é usada para reforçar a estrutura do calçadão e diminuir a erosão) em toda a praia, refazer o calçadão, o mirante, reformar o mercado do peixe e transformar o antigo Redinha Clube em um local para feira de artesanato. Essas construções serão feitas no mesmo lugar das antigas. O antigo mercado do peixe, que já ficava praticamente dentro da água, de acordo com o projeto da obra, continuará situado no mesmo local. De acordo com Paulo Correia, assessor de imprensa da Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seinfra), foram feitos estudos quanto aos locais das obras e ele assegura que não haverá complicações devido à erosão e ao avanço do mar. Sobre o atraso na execução das obras apontado por moradores, Paulo Correia explica que isso ocorreu porque, devido à parceria entre o Governo Federal e a Prefeitura, a verba vem de Brasília, o que costuma levar certo tempo. Segundo ele, o recurso já está em Natal, e a obra deve estender-se durante os próximos 18 meses.
POLÍTICAS AMBIENTAIS E URBANAS DE ADAPTAÇÃO De acordo com o Relatório do IPCC de 2022, sobre mitigação de mudanças climáticas, em três anos, o mundo atinge o pico de emissões de gases do efeito estufa. Portanto, o foco atual é minimizar a expansão desses gases e remover o dióxido de carbono (CO2) na atmosfera, já que não há tempo para reverter o aquecimento global, mas sim atrasá-lo. O estudo alerta que não há espaço para novas
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infraestruturas baseadas em combustíveis fósseis e que todos os setores devem ser transformados através de medidas ecológicas, como uso de energia limpa, descarbonização da indústria, conservação de ecossistemas ambientais, entre outras ações. Como deixa claro o IPCC, manter o aumento da temperatura global em 1,5°C ainda é possível, mas apenas adotando estratégias de mitigação partindo de agora. O mundo precisa atingir o pico das emissões de gases do efeito estufa até 2025, reduzir essas emissões quase pela metade até 2030 e atingir o zero líquido até meados do século. Com riscos crescentes de mudanças climáticas, a exemplo do avanço do nível do mar, como resultado do derretimento de geleiras em razão do aquecimento desproporcional do planeta, esses prazos, se adaptados, garantem mais tempo ao mundo como o conhecemos. Em relação às adaptações das moradias frente às mudanças climáticas e ao avanço do nível do mar, há possibilidades. Venerando Amaro vê duas soluções para quando o mar já tiver invadido os bairros litorâneos: a retirada da população ou a construção de moradias sobre a água como as casas de taipa de Malibu, na Califórnia (EUA). Já a professora de Geografia do Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN) - Campus Zona Norte, Vaneska Tatiana Silva Santos, acredita no potencial das cidades sustentáveis. Elas funcionam à base de energias limpas e renováveis (tanto para a energia elétrica da cidade e moradias quanto para os automóveis), como a
eólica e a solar. A urbanização da cidade é planejada para que haja áreas verdes e o ar circule. Cidades assim ajudariam a reduzir a emissão de gases de efeito estufa. Elas podem parecer utópicas, mas é tudo questão de planejamento urbano, ambiental e arquitetônico. Além disso, cidades assim já existem no mundo, como “A Cidade Sustentável” que, na verdade, é um
Obras paralisadas na Redinha passam imagem de abandono, afastando banhistas e prejudicando o comércio
MEIO AMBIENTE e acolher, inicialmente, a população mais afetada pelo avanço do nível do mar. Mas, enquanto tais cidades não são realidade no Brasil, a única saída é diminuir as emissões de gases de efeito estufa, evitar queimadas das matas e o uso de combustíveis fósseis. Não há milagres, mas muito trabalho a ser feito.
YARA ADRYELLE
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bairro, construído em Dubai onde antes era um deserto, e a “Fujisawa SST”, que também é um bairro, edificado no Japão. Ambos funcionam como um experimento que combina tecnologia e sustentabilidade e já influenciam na construção de outras cidades sustentáveis no mundo. Esses bairros sustentáveis poderiam ser construídos na região metropolitana de Natal
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NATAL SEM PONTA NEGRA
Avanço do mar pode causar inundações e destruir urbanização, inviabilizando economia, turismo e lazer na praia Por José Chacon
O aumento do nível do mar, decorrente das mudanças climáticas, pode ser uma ameaça para a principal zona turística urbana de Natal, a praia de Ponta Negra, onde fica o famoso Morro do Careca, cartão postal da cidade.
Com um dos melhores desempenhos no setor de comércio e serviços voltados para o turismo, o local é uma das principais zonas de inundações no município.
32 Enrocamento que foi colocado após a destruição do calçadão não impede que mar avance e atinja construções próximas à faixa de areia
JOSÉ CHACON
MEIO AMBIENTE da região Nordeste nos últimos 50 anos. O projeto prevê um aumento da faixa de areia de 50 metros, quando a maré estiver alta. Com a maré baixa, chegará a 100 ou 120 metros. Para o secretário, será um ótimo resultado. “Vai ser espetacular do ponto de vista de aproveitamento da faixa de areia”, avalia.
EM DISCUSSÃO Sob a perspectiva do professor Amaro, talvez esse seja um trabalho em vão. “Vemos todo um esforço de conscientizar a população de que, engordando a praia, colocando um monte de sedimentos, o problema será resolvido. Vai! Desde que sejam resolvidas as erosões causadas pelos bueiros, porque, se colocar areia e deixar essa quantidade de erosão acontecer, aí sim, toda areia será jogada para dentro do mar. Portanto, a gente está pagando milhões para buscar areia dentro do mar, colocar de volta na praia e, de repente, com a chuva, voltamos à estaca zero”, sinaliza. Segundo o secretário Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo, há um projeto para drenagem das águas da chuva em andamento, obra que será iniciada após o licenciamento e etapa de enrocamento. “O enrocamento será complementado para dar estabilidade à linha de costa. Já estamos com a licença prévia e prestes a obter a licença de instalação para essa obra”, declara. Em seguida, entra a drenagem e, por fim, o engordamento. Mesquita informa que o estudo para refazer o sistema de drenagem de água da chuva já
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Desde os anos 1990, a praia de Ponta Negra tem recebido investimentos imobiliários, como hotéis, bares e restaurantes, cada vez mais próximos da faixa de areia. Nesse cenário de elevação do nível do mar, a longo prazo, as construções humanas poderão ser inundadas e, consequentemente, destruídas. Uma prévia dessa perspectiva foi vista em 2012, quando um forte avanço do mar destruiu boa parte do calçadão da praia, deixando um segmento da orla danificado e cheio de erosões. De acordo com Venerando Amaro, professor de Engenharia Civil e Ambiental da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), o mesmo fenômeno pode voltar a acontecer, porém, com maior intensidade, indo além do calçadão da praia. Em Ponta Negra, conforme o professor, as energias oceânicas são os principais fatores que chegam e promovem o processo erosivo naturalmente. No entanto, a estrutura atual da praia intensifica ainda mais esse processo. “Por exemplo, se tem uma chuva intensa, a água desce pelas ruas e vai fluir por bueiros. Com isso, a tendência da água é ir para baixo, por causa da declividade de Ponta Negra. As águas que chegam às bocas de bueiros carregam tudo para dentro do mar, ou seja, isso é uma erosão enorme, que não deveria estar acontecendo”, explica Amaro. Pensando nessa situação, a proposta da gestão atual de Natal é engordar a praia com sedimentos, como outros estados do Nordeste já fizeram. De acordo com Thiago Mesquita, Secretário Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo, o projeto de engordamento da praia de Ponta Negra é o maior projeto de infraestrutura
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está sendo apresentado ao Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente (Idema). “É o estudo mais completo que se tem, vai nortear a tomada de decisão do órgão estadual, no sentido de liberar a licença prévia, tanto para a drenagem quanto para o enrocamento, e, consequentemente, para futura instalação”, detalha. Sobre o avanço do nível do mar, o secretário diz ainda não encontrar tantas evidências para esse fenômeno. “É muito cedo para afirmar essa questão das mudanças climáticas e se isso afetou o nível do mar”, pontua. Ele comenta que a estabilidade marítima vai de acordo com cada via costeira. “Toda área costeira tem uma dinâmica e, muitas vezes, são coisas imprevisíveis e outras, previsíveis. Nós já tínhamos apontamentos que a dinâmica costeira de Ponta Negra iria, em algum momento, bater de frente com aquela urbanização”, diz, referindo-se ao acontecimento de 2012.
ALERTAS Para Brisa Bracchi, vereadora de Natal, as sucessivas gestões da cidade têm ignorado os alertas que especialistas da área da geologia e da dinâmica oceânica têm emitido a respeito das mudanças provocadas pelo avanço do aquecimento global e pelos processos de intensificação do uso do solo na área costeira. “É preciso pensar em quem depende da praia para o seu sustento, seja através da pesca, seja através da atividade turística, e não há como pensar em alternativas a longo prazo ignorando o fato de que temos perdido nossas praias para a ambição
do mercado especulativo-imobiliário”, avalia a vereadora. Para ela, os anúncios de obras de contenção e de engorda das praias não são garantias de que esses problemas serão resolvidos. “Tratam-se de paliativos que precisam estar relacionados a outras iniciativas de longo prazo para que sejam efetivos”, explica. Brisa Bracchi acredita que a engorda é a resposta que o prefeito de Natal, Álvaro Dias, vem insistindo para o problema da perda da faixa de areia da praia. A vereadora encara os resultados desse projeto com incerteza, já que, para ele ser executado, irá interferir diretamente na dinâmica econômica da praia. “O que Vereadora Brisa está envolvida em pautas que envolvem o direito à cidade
@BRISABRACCHI13
MEIO AMBIENTE seu anterior, porque autoriza que se verticalize bairros da orla, assim como a construção de espigões no mangue e nas dunas, além dos gastos previstos com grandes obras. “Está se destinando dinheiro público para obras faraônicas, sem garantia de retorno positivo para a sociedade. Estamos indo na contramão do mundo e potencializando os efeitos negativos do aquecimento global no nosso território”, pontua.
DIVERGÊNCIAS Quanto mais verticalizada e densa é a ocupação da faixa costeira, menor é a reposição natural dos detritos que formam a areia da praia, que vêm rolando por gravidade dos pontos mais altos ou são repostos pelos ventos. A densa ocupação se transforma em obstáculos e essa areia não consegue ser reposta. “Para frear esse fenômeno, precisamos de uma ocupação menos agressiva com a natureza das praias, e o plano diretor é o instrumento que disciplina isso”, destaca a vereadora. O plano anterior previa uma ocupação mais branda, com maior controle da altura dos prédios e potencial construtivo menor, para que as edificações fossem menos intensas. “Nossa luta foi para que essas prescrições se mantivessem e pudéssemos amenizar os efeitos negativos que já temos.” Entretanto, Bracchi enfatiza que Álvaro Dias e sua base impuseram um aumento na verticalização de toda a cidade e conferiram potenciais construtivos até quatro vezes maiores que o plano anterior para essas áreas. “É uma tragédia anunciada. Nossas gerações futuras
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sabemos é que se trata de uma obra de mais de 50 milhões de reais que precisará, a cada cinco anos, de obras de manutenção avaliadas em mais de 5 milhões, e que impactarão toda a dinâmica dos trabalhadores e pessoas que dependem da praia para o sustento de suas famílias, assim como afetará a vida marinha pelos anos que a obra durar”, destaca. Ela destaca ainda que os efeitos da obra são muito incertos e que há uma grande preocupação social a respeito da renda das famílias que trabalham na praia. “Acreditamos que esse processo precisa ser amplamente debatido em audiências públicas, nas comunidades afetadas, e ouvindo o que os pesquisadores têm a contribuir”, analisa. Técnica em Meio Ambiente e estudante de História, a vereadora participa ativamente dos debates sobre o urbanismo de Natal. No processo do plano diretor, sua atuação esteve voltada à ampliação dos direitos e das proteções conquistados pela luta daqueles que antecederam a geração atual. “Estivemos de forma conjunta com o Fórum Direito à Cidade, o coletivo Salve Natal e o conjunto dos movimentos sociais, construindo propostas alternativas ao interesse do capital especulativo-imobiliário e sensibilizando os vereadores e vereadoras para essas pautas sociais e ambientais.” Para Brisa, o plano traduz quase exclusivamente os interesses do mercado especulativo-imobiliário, assim como traz retrocessos sociais e ambientais para a capital, que podem ter sérios impactos negativos para as gerações futuras. De acordo com a vereadora, o novo plano diretor é muito pior na pauta ambiental que o
MEIO AMBIENTE poderão nunca conhecer a Praia de Ponta Negra que nós já tivemos um dia e que políticas públicas que ignoram a ciência como essa estão destruindo”, declara. Quanto a isso, o secretário Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo, responsável pelo Thiago Mesquita acredita que a verticalização da cidade tornará solo de Natal mais democrático
ANA LÚCIA - SEMURB
planejamento do novo plano diretor, afirma que a maioria dos posicionamentos contrários ao projeto contém equívocos derivados de desconhecimento sobre o texto. Para ele, o plano diretor é de propriedade coletiva, sendo discutido por todos os segmentos envolvidos nele. “O plano diretor não é do secretário Thiago, ou do prefeito Álvaro Dias, ou simplesmente do município de Natal, da gestão do executivo. O plano diretor é da cidade”, salienta. Verticalização da orla irá formar paredões e impedir o ar de circular pela cidade
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MEIO AMBIENTE que houve e das contribuições apresentadas. De acordo com Brisa, durante o debate do plano, ela orientou a bancada de oposição na elaboração de propostas positivas ao meio ambiente. Entretanto, apesar disso, foram derrotados pelo conjunto dos vereadores ligados ao prefeito Álvaro Dias, que, para ela, está alinhado ao mercado especulativo-imobiliário no projeto de transformar Natal numa cidade cada vez menos verde e exclusiva.
RENATO REIS
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Segundo Mesquita, ocorreram 14 oficinas, seis audiências públicas, quatro seminários técnicos e dezenas de reuniões com grupos de trabalho. Além de quase cinco mil contribuições obtidas da sociedade. “Tudo isso foi deferido pelos nossos representantes parlamentares, que é a Câmara Municipal, onde se define qualquer tipo de lei”, conclui. Na visão do secretário, os posicionamentos contrários ao texto vão contra o aspecto democrático da discussão pública
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DE REDINHA A PONTA NEGRA
Moradores e comerciantes dizem o que pensam sobre o avanço do mar e perspectivas para essas regiões da cidade Por Everton Lopes e Renato Reis
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Praia tradicional da região urbana de Natal, a Redinha vem passando por diversas mudanças desde a década de 1980. Falta de investimentos pelo poder público, crescimento desordenado, abandono de imóveis, entre outros fatores, causam prejuízos a uma das mais belas praias do litoral potiguar. Em novembro de 2007,
a então governadora do Rio Grande do Norte, Wilma de Faria, inaugurou uma ponte ligando a Zona Norte às demais zonas da cidade. A Redinha ganhara, naquele ano, uma oportunidade de reorganização do seu desenvolvimento urbano, porém sem sucesso.
Praia da Redinha, localizada na Zona Norte de Natal, ponto turístico notório da região
PÂMELLA MENEZES
MEIO AMBIENTE e como afetariam quem mora, trabalha ou frequenta a Redinha. Ela credita qualquer tipo de mudança climática à vontade divina. “Não funciona assim. Na minha mente, eu acho que o domínio não é do homem, é de Deus”, explica. A descrença segue em outros setores. Camila não guarda muitas esperanças em relação às atuais obras do mercado da Redinha, recentemente demolido, cujo novo prédio fará parte de um complexo de urbanização da praia, projeto desenvolvido por Prefeitura de Natal e Governo Federal, através do Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR). “Não soubemos de previsão, acredito que só estão tentando mesmo. A gente que está aqui todos os dias vê que não tem andamento da parte deles, parece que abandonaram. O comerciante é quem sofre, a tendência é piorar”, afirma. Segundo a placa instalada no canteiro da obra, a conclusão da requalificação seria feita até setembro de 2022.
Mercado de peixe, antes fonte de renda dos comerciantes da praia da Redinha, agora demolido e com atraso no prazo de entrega
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Passados 15 anos da última grande obra estruturante destinada à Zona Norte de Natal, a Tabu foi à Redinha ouvir comerciantes locais sobre o que tem sido feito para melhorar a região, além de buscar saber quais são as suas maiores preocupações. Será que as pessoas que vivem e trabalham na Redinha sabem dos riscos do aumento do nível do mar por causa do aquecimento global? Conversamos com Camila Andreza de Souza. Ela reside no bairro da Redinha, trabalha como vendedora de peixes há 12 anos junto com o marido, que é pescador. Segundo ela, desde o tempo em que frequenta a Redinha, nunca conseguiu observar nenhuma mudança no nível do mar. Apenas as variações de maré, normais na região. Quando perguntada sobre a presença do poder público, ela é enfática: “Não tem higienização, nem manutenção. A Redinha é esquecida!”. A vendedora diz desconhecer as mudanças que o aquecimento poderia provocar
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ESPERANÇAS Diferentemente de Camila, Julio Merege, natural de Manaus/AM, que mora em Natal há 30 anos e trabalha na Redinha como ambulante há 15, já é possível perceber a mudança do nível do mar na praia. “Se não fosse esse quebra-mar que fizeram aqui por causa dos navios, com certeza, o mar teria avançado, já tinha levado esses Além de comerciante, Júlio Merege também trabalha com um projeto de educação ambiental na praia da Redinha
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quiosques, seria bem pior, mas que está avançado, está sim.” Ele acredita que as obras desenvolvidas na praia irão melhorar a percepção de quem visita a Redinha. Julio espera também que a urbanização possa neutralizar os efeitos do avanço da água sobre a praia e proteger os quiosques instalados na faixa de areia e no calçadão da Redinha.
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MEIO AMBIENTE Outra atividade comercial tradicional da Redinha são os bares e restaurantes. Para Lindemberg Noccerino, que mora na Redinha há cinco anos e trabalha como garçom há quase duas décadas em Natal, a construção do novo mercado deve atrair grandes restaurantes, já famosos na cidade. Ele acredita que condições como acessibilidade, encanamento de gás, conforto e segurança serão proporcionadas pela construção do novo mercado público, tornando a Redinha um ambiente mais agradável para ser frequentado. Para ele, a obra pode até demorar, mas será entregue “bem-feita”. Sobre mudanças climáticas, em especial se existe o risco do aumento do nível do mar, o garçom cita argumentos que são tema de debates intensos na comunidade acadêmica. “Creio que sim, porque a tendência é o planeta ficar mais quente, e o gelo derrete. Mas, talvez não, porque a gente mora longe da Antártida, então, não faz muita diferença. Já quem mora na Argentina, Patagônia, América do Norte, deve sentir mais o efeito, mas aqui não. Acho que cem anos é muito tempo, e o mar não sobe tão rápido assim”, reflete. E, como não dá para visitar a Redinha sem falar em ginga com tapioca, aproveitamos nosso tour para conversar com a herdeira dos criadores dessa iguaria potiguar: Vanise Januário, filha de comadre Delila e seu Geraldo, criadores desse prato tradicional. Ela permanece até hoje no ramo de pescados. Sobre o aumento do nível do mar, de forma simples e rápida, explica o funcionamento da maré na praia e diz que, até o momento, não tem visto qualquer alteração que possa preocupar. No entanto, sobre o futuro,
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Sandra e sua mãe Vanise, seguem em frente apesar da reforma no mercado ter prejudicado as vendas.
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acredita que boa parte do comércio na praia pode ser inviabilizada se o nível do mar aumentar, em especial o mercado da Redinha, maior centro comercial da área. “Se tiver esse tanto de aumento como dizem aí, vai prejudicar, né? Porque aí é o mercado, é na beira do mar bem dizer.”
DO OUTRO LADO DA PONTE Em Ponta Negra, a realidade não é diferente. A praia mais notória da capital potiguar, que abriga o famoso Morro do Careca, cartão
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postal da cidade, vem, há anos, sendo pauta de discussão sobre mudanças estruturais pelo poder público e alvo frequente de críticas de frequentadores e comerciantes quanto à falta de infraestruturas básicas para turistas, moradores e trabalhadores locais. Após a erosão da orla da praia em 2012, causada pelo avanço do mar, resultando na queda de seu calçadão, assim como o estado de calamidade, na época decretada pela então prefeita de Natal, Micarla de Sousa, a sociedade enfrentou longos debates acerca de possibilidades de mudanças para melhorias da conservação, do ordenamento, da acessibilidade e da organização da orla de Ponta Negra, bem como estudos sobre a dinâmica costeira e sua progradação, que passou a ser notória à população, e logo, um problema a ser enfrentado pelo poder público. Para o quiosqueiro e vice-presidente da Associação dos Quiosqueiros da Praia de Ponta Negra, João Batista de Lima, comerciante desde 2003 na orla de Ponta Negra, bairro onde nasceu e cresceu, o aumento do nível do mar devido às mudanças climáticas não naturais se tornou nítido ao longo desses anos na região, visto que, desde o século passado, as construções próximas à praia vêm sofrendo com a iminente possibilidade de destruição pelas fortes ondas e marés que sobem ano a ano. “Mas, somente em 2012, houve um grande prejuízo que causou alerta a todos”, destaca. João atribui os avanços do mar aos fatores climáticos mundiais, que reverberam em todo planeta, afetando Natal e sua região costeira. “É possível notar, sim, esse avanço. O mar cresceu mais,
João Batista espera que o Poder Público ampare e dê assistência aos comerciantes de Ponta Negra
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devido ao derretimento do gelo na Antártica e pela ação do homem”, avalia. Após o episódio de destruição da orla de Ponta Negra, medidas paliativas foram tomadas com frequência para restabelecer a segurança das sustentações físicas de seu calçadão. Um deles foi o enrocamento construído ao longo de cerca de dois quilômetros na praia, na tentativa de reduzir os danos causados pela constante progressão do mar sobre a área pavimentada. Porém, o maior projeto até então discutido e
MEIO AMBIENTE preparação. Quando foi feito o enrocamento, por exemplo,, houve ajuda financeira de acordo com o tempo parado”, pondera.
REDE HOTELEIRA Para além da praia, o bairro de Ponta Negra também é responsável por abrigar muitos hotéis e pousadas que vivem do turismo. De acordo com dados do site de viagens TripAdvisor, em janeiro de 2022, Natal era a sétima cidade mais em alta no mundo como destino turístico, o que credencia a capital do Rio Grande do Norte como palco de um aquecimento econômico animador para os donos desses negócios. Entretanto, além da engorda da praia, outro fator preocupa a população e empresários do setor hoteleiro: a liberação da verticalização da cidade com a possibilidade da construção de prédios mais altos nos principais corredores e na orla do município, inserida no plano diretor de Natal. A medida é encarada com cautela por Ivan Perazoli, proprietário, há dois anos e meio, da Pousada Nossa Senhora Aparecida, em Ponta Negra. Para ele, o plano traz sentimentos antagônicos: de um lado, vê com animação a engorda da praia, mas, do outro, preocupa-se com as grandes construções que podem chegar à orla, trazendo consigo um sombreamento da praia, afastando turistas e reduzindo a procura por Natal como destino. “Sou contra a construção de prédios muito altos próximo à faixa litorânea, principalmente
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apresentado pelos governos como solução para conter o problema, a engorda da praia - obra que, quando colocada em prática deverá durar meses -, vem causando expectativas e dúvidas para trabalhadores e moradores da localidade, tanto em relação a sua eficácia para conter o aumento do nível do mar sobre a orla, quanto ao seu tempo de duração. Uma das grandes preocupações de João Batista passa pela manutenção daqueles que vivem do dinheiro gerado na praia, que ficarão um longo período sem poder trabalhar devido à obra de engorda. “Quando se fala em fazer a engorda, nós temos uma expectativa muito grande sim. Do que essas pessoas vão viver? A prefeitura fala que vai durar um ano e meio, já imaginou esse um ano e meio se passando? Um diligenciamento social, em que o pessoal venha fazer um trabalho social conosco, dar um salário, uma ajuda de qualquer forma, é o que se espera da prefeitura”, argumenta. João Batista ainda recorda que a maioria dos trabalhadores da praia de Ponta Negra também são moradores locais, onde fazem compras, pagam aluguéis, geram renda e ajudam o comércio varejista do bairro. Uma possível falta de apoio da prefeitura pode reverberar em um caos econômico tanto para quem vive diretamente do comércio na praia, quanto indiretamente. “Quando isso aqui para, e paramos seis meses na pandemia, o comércio de cima para também, porque o dinheiro gera aqui, se trabalha aqui para gastar lá em cima. E há outros fornecedores, é o peixe, a cerveja, o refrigerante, o gelo. Quando isso para, o que acontece? Mexe na parte social, porque precisa de uma
MEIO AMBIENTE porque aqui é uma praia que pega a manhã toda de sol, mas o sol se põe a oeste, fazendo com que grande parte da praia pegue sombra à tarde. Já temos um ou dois prédios na avenida Engenheiro Roberto Freire que, a partir de uma determinada hora da tarde, fazem sombra. Se tiver prédios aqui para baixo, com toda certeza, irá diminuir muito a faixa de sol. Como essa área vive do turismo, isso nos impactará. Já a engorda, eu vejo com bons olhos, pois muitos turistas reclamam que, quando vão à praia, não encontram faixa de areia, tendo que procurar outras coisas para fazer”, analisa.
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Ivan Perazoli: entre a engorda e a verticalização, sentimentos de preocupação com sua filha e as futuras gerações.
RENATO REIS
O fato é que todo esse debate tem como ponto de partida fatores associados à ação do ser humano no planeta, acelerando as mudanças relacionadas ao clima no mundo e agilizando negativamente algumas atividades da natureza, que deveriam ocorrer de forma natural. Porém, afetadas pelo homem, tais alterações aceleram também a busca de soluções para a continuidade da produção comercial, da exploração dos recursos naturais e da redução dos problemas. Estudo realizado por pesquisadores de Harvard, publicado em 2021 na revista científica Science Advances, indica que o degelo da região da Antártica Ocidental, em um mundo em aquecimento, poderá contribuir para uma alta 30% maior do que o estimado em estudos anteriores. De Redinha a Ponta Negra, a discussão que envolve o aumento do nível do mar e suas consequências para o comércio e moradores locais é um prato cheio para compreender que população, empresários e turistas anseiam por melhorias, mas sem transformar a cidade do sol em cidade da sombra.
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TRABALHO ÁRDUO
Escola da periferia de Natal decide encarar desafios da pandemia para que alunos não fossem prejudicados Por Giovanna Benfica e Hadassa Miquelino
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Em um cenário em que a educação facilmente fica em segundo plano e o papel da escola vai muito além de ensinar regras de gramática e contas de matemática, a pandemia do novo coronavírus e o isolamento social levaram a quase zero a esperança de muitas famílias periféricas que dependem da educação pública. O ensino remoto escancarou desigualdades. Com os alunos em casa e as escolas sem previsão de retorno às suas atividades, foi necessário que pais, gestores, educadores e poder público procurassem maneiras de fazer com que os encontros dos estudantes com o conhecimento acontecessem de alguma forma. Trabalho longo e árduo, quando se leva em consideração as diferenças sociais presentes em uma só cidade. Em Natal, na comunidade Passo da Pátria, a Escola Municipal Professora Mareci Gomes dos Santos foi uma das primeiras da rede pública do município a tentar dar continuidade às atividades acadêmicas, mesmo sem um parecer da Secretaria Municipal de Educação (SME). Embora situada em uma área de vulnerabilidade social, onde nem metade dos alunos tinha acesso
a tecnologias como celular e rede de internet, a diretora decidiu que não esperaria mais. Ao ver que a maioria das escolas particulares de Natal retomavam suas atividades com logística adequada para a transmissão de aulas, atividades e encontros com os professores de forma remota, Janaina Félix, diretora pedagógica e professora da escola Mareci Gomes, iniciou, em meados de abril de 2020, o contato com os alunos para dar continuidade ao cumprimento da grade escolar, a fim de que eles não fossem prejudicados, mais do que já são, diante da precarização da educação pública. No primeiro momento, o contato se deu através de um grupo de WhatsApp que reunia os responsáveis pelos alunos de várias turmas e servia para entregar, para aqueles que tinham acesso, os comunicados da escola. Janaina, então, começou a alimentar o grupo com revistas infantis em PDF para que os alunos realizassem a leitura. Pouco tempo depois, começou a receber a devolutiva de alguns pais, mostrando o aluno realizando a proposta de leitura. Satisfeita com a resposta da ação, juntamente com as
PERIFERIA Janaina Félix: preocupada com a formação dos alunos em meio à pademia
Sala de aula vazia da Escola Municipal Mareci Gomes dos Santos
HADASSA MIQUELINO
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coordenadoras, passou a enviar pequenos vídeos e atividades de fácil realização diariamente, de modo que cada dia da semana fosse utilizado para uma matéria. Ainda sem orientação dos órgãos competentes, a diretora decidiu convidar os professores a participarem da ação. Mesmo claro que não havia intenção do órgão municipal de contabilizar as atividades feitas como hora-aula, os professores abraçaram a causa. A partir desse momento, cada turma teria seu próprio grupo e receberia atividades e videoaulas direcionadas ao seu nível escolar.
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RECURSOS LIMITADOS
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Dado o pontapé inicial para o retorno das atividades escolares de forma remota, os docentes precisaram encarar um novo desafio, o acesso e o domínio da tecnologia. A professora Débora Pereira de Araújo, 59 anos, conta que viu muitos colegas de profissão com dificuldades no processo. Ela mesma precisou se endividar para comprar um notebook, além de ter gastado recursos com itens que, segundo a professora, deveriam ser disponibilizados pela Secretaria Municipal de Educação, mas não foram, como papel, canetas e assistência para a produção e impressão das atividades. Além do suporte técnico, a docente ainda precisou investir em sua própria saúde física e mental, devido ao trabalho redobrado nesse período. Dadas as circunstâncias, os professores tinham que ser solícitos com as crianças as quais, para esclarecer dúvidas, usavam o aparelho celular dos pais que, muitas vezes, só chegavam à noite em casa. “Eu trabalho em sala de aula há 32 anos e nunca estive tão cansada quanto agora. Minha imunidade estava baixíssima e eu trabalhava o dobro. Foi um caos”, relata a professora. A professora Débora Araújo precisou enfrentar muitos desafios
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DIFERENÇA NA VIDA DE CADA ALUNO Para os alunos que não tinham acesso à tecnologia, foi organizado um esquema semanal, em que um roteiro era entregue na escola, seguindo um protocolo de biossegurança. No roteiro semanal, o aluno encontrava o assunto e a atividade de cada matéria que seus colegas realizavam online. Área de recreação infantil não é a mesma sem presença das crianças
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um bom trabalho, mas lógico que tiveram os que ficaram à margem, pois não conseguimos atingir a totalidade. É como eu sempre digo, se fizermos a diferença na vida de um aluno por vez, já estaremos satisfeitos, principalmente dentro da comunidade onde estamos inseridos”, pondera a diretora.
PREJUÍZOS Nas atividades diagnósticas implantadas pela Secretaria Municipal de Educação na retomada do ensino presencial, no ano letivo de 2022, já é possível ver as consequências do ensino remoto nos alunos. As professoras, que tanto se esforçaram para atender a todas as necessidades acadêmicas, estão tendo que revisar os conteúdos antes de partir para os próximos, mesclando-os para, com muito jogo de cintura, atender toda a grade. “As crianças aprenderam muito pouco, e o nosso trabalho parece em vão”, desabafa a professora Débora. Os prejuízos aos alunos vão muito além do déficit de aprendizagem significativo que ocorreu, mas também dizem respeito à vida cotidiana de muitas crianças que utilizavam da escola para garantir a refeição do dia, bem como fugir da realidade que habitava para lá dos muros altos do colégio. Débora relata que, muitas vezes, o aluno nem se preocupa em estudar, pois só quer estar na escola para brincar, comer e conviver com outras crianças num ambiente seguro e saudável. José de Arimateia, 53 anos, líder comunitário e avô de um aluno da escola Mareci Gomes,
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O problema era o que já se imaginava: nem todos compareciam para buscar os roteiros e os que não tinham acesso online acabavam ficando para trás. O maior contraste era entre algumas crianças do primeiro ano, que conseguiam ser alfabetizadas, enquanto alguns alunos do quinto ano ainda mal sabiam ler. Mas nada impediu que a equipe da escola Mareci Gomes continuasse seu trabalho. “Mesmo com toda dificuldade, conseguimos fazer
PERIFERIA conta que as aulas online não funcionaram para sua família. Ele acredita que as crianças da comunidade terão dificuldades para recuperar a perda que tiveram durante os dois anos de pandemia e demonstra preocupação com a mescla de conteúdos na retomada do ensino presencial, feita para fixar os assuntos dados remotamente. Ele conta que as crianças o procuravam para perguntar quando as aulas iam voltar, pois sentiam muita falta da escola. “Isso dava uma tristeza tão grande, pois nossas crianças e adolescentes querem estudar, mas o governo não dá as condições necessárias”, lamenta o avô. De acordo com José, o retorno ao formato presencial também não está funcionando como deveria, pois os alunos não têm aula em boa parte dos dias da semana.
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NECESSIDADE DE QUALIFICAÇÃO No fim das contas, o ano de 2020 não foi contabilizado como período letivo efetivo. Por orientação da Secretaria de Educação de Natal a todas as escolas do município, o primeiro semestre de 2021 foi utilizado para suprir o ano anterior, e o segundo semestre, para preencher a carga horária referente a 2021. O retorno ao formato presencial ocorreu no primeiro semestre de 2022, respeitando as orientações do Ministério da Saúde. Segundo Noélia Barbosa Costa de Queiroz, diretora do Departamento de Ensino Fundamental (DEF) da Secretaria Municipal de Educação, o setor tinha conhecimento de que
algumas escolas da cidade haviam dado início às suas atividades de forma remota e reconhece o valor da iniciativa. Porém, como não era uma orientação oficial, não podiam levar em consideração o período dado só por algumas instituições. A diretora explica que, para instruir satisfatoriamente as escolas, precisou qualificar seus próprios profissionais, visto que todas as medidas tomadas em decorrência da pandemia de Covid-19 tinham caráter emergencial. Depois dessa qualificação, foi possível, a partir de junho de 2020, iniciar a criação de documentos orientadores para as instituições de ensino. A primeira necessidade era retomar o contato com os gestores escolares para, juntos, elaborarem um plano de aulas remotas. Após instrução de todos os diretores da rede, que as repassaram aos professores remotamente, a comunicação e os planejamentos começaram a acontecer. Noélia explica como tudo funcionou em virtude da pandemia
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ALÉM DO VISUAL
Conheça Cinthia, moradora de Mãe Luiza, que encontrou no trançado uma forma de resistir e empreender Por Brenda Michelle, Ramylle Maria e Sabrina Caroline
amigas mais próximas, porém a atividade nunca era vista como forma de ganhar dinheiro. Pelo menos até que seu filho mais velho nascesse. Em 2011, decidiu abraçar as oportunidades que surgiram nessa área. As tranças, agora, não eram somente sobre autoestima. Precisava pensar em como contribuir na renda familiar. Buscou aprofundar seus conhecimentos e técnicas, como também passou a enxergar o trançado para além da estética. Assim, nasce o Studio da Preta, salão especializado em penteado afro do qual Cinthia é dona. Hoje, aos 28 anos, ela reconhece a importância do processo de autoafirmação identitária que as tranças possibilitaram e pontua como a valorização da cultura afro é necessária para a autoaceitação das mulheres negras. “O trançado é resistência, são suas raízes. Você coloca uma trança numa mulher negra, e o empoderamento ressurge. É muito além do visual, é o poder do trançado”, afirma.
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Foram duas gestações: a do seu primeiro filho e daquilo que hoje faz com maestria. Em busca de se reconhecer como mulher negra, após o processo de transição capilar, Cinthia Maria do Nascimento, moradora do bairro Mãe Luiza, iniciou, há 11 anos, sua trajetória com o trançado. A forma de penteado era ainda pouco conhecida em Natal, parecia excêntrica. As tranças, que tanto ajudaram no seu processo identitário, faziam com que ela fosse questionada. Aquilo era ruim, era “negócio de negro”. Com uma leveza genuína, Cinthia fazia com que refletissem: “E eu não sou negra?”, dizia, desafiando o preconceito com que esbarrava na própria periferia. A cada dia, ela contrariava um ambiente cheio de pessoas racializadas, que não se viam dessa forma. “Eu sou negra”, afirmava. As respostas negavam. Era clara demais para ser negra. No trançado, Cinthia encontrou um modo de autoafirmar-se como mulher negra e trabalhar sua autoestima. Passou a praticar o método de tranças feitas com tecidos de lã nas suas
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Cinthia Nascimento Referência no empreendedorismo feminino em Natal
ESTIGMAS
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Manifestar a cultura afro é uma forma de resistência. Em um país como o Brasil, no qual o racismo é uma questão estrutural, é comum ver pessoas de pele preta não se aceitarem, em negação de suas origens. O processo de branqueamento da população, fomentado durante décadas devido o eugenismo, certamente contribuiu bastante na dificuldade que muitos sentem de se autodeclarar racialmente. A política eugênica, incentivada pelo estado, pretendia fazer com que os negros do país fossem, aos poucos, absorvidos e extintos, a partir da miscigenação, com o branqueamento dessa população. O resultado disso são séculos de perda da identidade cultural, pois muitos mestiços do Brasil sentem dificuldade em se reconhecer como pessoas racializadas, pois não têm a pele escura como parte de sua família, tampouco pele alva como a outra. Cinthia demonstra ver com clareza os aspectos de sua identidade e,
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com imponência, através do trançado, o Studio da Preta busca trabalhar a autoestima e auto aceitação de pessoas negras. “Quando comecei a trançar, foi mais por autoafirmação. Depois, para afirmar outras pessoas, dar um fortalecimento, de resistência mesmo”, explica. O trançado, que soa popular atualmente, ainda sofre com críticas preconceituosas. Muitas pessoas relacionam as tranças, de maneira equivocada, com falta de higiene ou marginalização. Com viés muito didático, a partir dos seus conhecimentos, a trancista mostra, em suas redes sociais, os processos que envolvem a produção das tranças, desde os cuidados até a manutenção. Por muitas vezes, a empreendedora demonstra ter um poder de percepção que faria qualquer negócio dar certo. Ela sabe o que é necessário para que as pessoas enxerguem a credibilidade que garante ao seu trabalho, e sua sagacidade consegue derrubar os mitos que geram tantos estigmas.
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Cinthia nasceu em São Paulo. Ao acaso, sua mãe decidiu embarcar em uma aventura, saindo de Natal ainda grávida, mas logo retornaram. Com dois anos de idade, passou a viver em Mãe Luiza. Cidade polarizada, Natal é claramente dividida se falarmos de contexto econômico. Entre riqueza e pobreza, existe uma percepção muito bem definida sobre o lugar de cada pessoa. O morro de Mãe Luiza repousa com vista para o mar, assim como os prédios luxuosos que estão à sua volta, e apesar disso, pouco há em comum entre eles. Pelo contrário, é difícil
Vista para o mar através do morro de Mãe Luiza
não questionar a linha que separa bruscamente aqueles dois mundos, existindo numa só cidade. Dentro desse contexto, é possível imaginar que a localização do estúdio também foi alvo de estereótipos negativos. Cinthia diz que o processo de mudança da concepção das pessoas quanto ao local foi bastante lento. “No início, eu sofria muito, pois alguns clientes marcavam e não vinham, ou vinham com medo, não traziam celular. Era surreal”, relata. Hoje em dia, a empreendedora conseguiu conquistar a confiabilidade do seu público quanto a isso. No entanto, a situação vivenciada por ela durante esse período retrata o preconceito atrelado às pessoas que vivem na periferia. SABRINA CAROLINE
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AVENTURA
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Arte em outras formas na escadaria do morro Mãe Luiza
DUPLA JORNADA Ser mãe e empreendedora são tarefas complexas. Além de todas as questões que envolvem maternidade e empreendedorismo, ser uma mulher negra periférica faz com que as vivências da trancista soem ainda mais desafiadoras. Entretanto, a dupla jornada de trabalho não foi impedimento para ela, que consegue gerir seu tempo e separar bem a vida pessoal do trabalho. Mãe de dois meninos, Cinthia conta que a criação das crianças em meio a sua rotina de trabalho nunca foi problema. Seu maior desafio na maternidade não foi a dupla jornada, mas ser uma mulher negra mãe de uma criança branca, incômodo reflexo do racismo. “Ele nasceu
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muito branquinho. Minha mãe, meus tios são todos de pele bem mais retinta, eu sou a única pessoa que tem a pele mais clara, e meu menino nasceu muito branco de olho azul”, conta. Na visão de alguns, ela não poderia ser mãe daquela criança, pois não havia semelhanças físicas. As experiências de Cinthia são retrato do que muitas mulheres sofrem no Brasil. Além dos questionamentos, atribuíam a ela a função de babá da criança, juízo relacionado à sua cor, o que reforça ainda mais o preconceito existente na sociedade. “Uma mãe negra não pode ter um filho de pele mais clara, como se fosse proibido, sabe? Ter um filho de cor diferente da sua é como se fosse um pecado. Eu até nem saía com ele, por medo de falarem alguma coisa”, revela.
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Entre erros e acertos, 2019 foi o ano em que o Studio da Preta realmente começou a tomar forma. O percurso vivido pela empreendedora não foi nada fácil. Precisava de renda para a sua família e ainda não via no trançado uma possibilidade de crescimento, mas arriscou. Vivendo um momento quando ninguém imaginava que uma doença iria acometer todo o mundo, no final de 2019, Cinthia decidiu mudar os atendimentos, antes feitos na sala da sua casa, para um espaço alugado. A tentativa de crescimento que traria mais conforto para o seu trabalho teve que ser interrompida, quando, em março de 2020 a pandemia de Covid-19 foi decretada no Brasil. A empreendedora precisou devolver o espaço, mesmo após reformá-lo, e voltar a atender em casa. O investimento havia sido também em um curso para aprimorar seus conhecimentos. Sem retorno, esses custos tornaram-se motivo da quase falência do seu negócio. No meio disso, no final de 2020, Cinthia perdeu sua avó em decorrência de Covid-19. Foram momentos muito delicados, mas não houve desistência. Durante o período pandêmico, a trancista foi se reerguendo gradualmente. Manteve seus atendimentos em casa, seguindo os protocolos de biossegurança contra o coronavírus. Com a flexibilização das medidas restritivas e reabertura dos estabelecimentos, ela viu uma oportunidade de arriscar novamente. Mesmo com tanta perseverança, Cinthia sempre foi pé no chão, não tomava decisões mal
pensadas. “Não foi do nada. Comecei a trançar meu cabelo, depois o de outras pessoas, mas, ao mesmo tempo que eu fazia trança, fazia tapioca, trufa, bombom, doce, e meu esposo saía para vender”, relata. Ela sentia que, se as tranças não dessem certo, outra coisa daria. Sabendo dos riscos, nunca focou unicamente em algo, até que houvesse de fato confiança para isso. Durante o ápice da pandemia, ela conseguiu se manter tanto com a renda das tranças, quanto com os ganhos extras. Isso porque, certamente, uma das consequências da pandemia, devido ao isolamento social, foi a diminuição da procura de serviços estéticos. Segundo a trancista, além de afastar muitos clientes, a pandemia fez com que muita gente ficasse com receio de fazer as tranças. “Tenho muito cliente que trabalha na área hospitalar, então todos eles passaram dois anos sem fazer cabelo”, diz.
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EMPREENDEDORISMO
O poder do trançado vai além do visual
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PERIFERIA O Studio da Preta é referência no empreendedorismo feminino em Natal. Cinthia gosta de esclarecer como funciona sua logística, desde limpar o ambiente a gerar e autenticar as notas fiscais. Esse trabalho é feito por uma contadora, mas a trancista brinca e assume que, se pudesse fazer sozinha, faria. “Ela só gera e autentica porque tem que ter um contador para isso”, esclarece. Crescer está nos seus planos. “A gente tem que ter meta, foco. Hoje, com minha casinha comprada, sinto segurança. Já quero ter um anexo do estúdio, uma loja de cabelo, expandir, entendeu?”, informa.
EXPANSÃO PELAS REDES
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Curiosidade e sede por conhecimento é um traço muito marcante em Cinthia, como se vê por sua trajetória. Mas, em janeiro de 2021,
ela teve um insight que alavancou seu trabalho. Ainda em meio à pandemia, passou a investir em sua própria pesquisa de mercado e se perguntou: “o que o meu cliente quer?”. Com o retorno ainda lento das atividades comerciais, começou a se dedicar a suas redes sociais para mostrar como era feito o atendimento em seu estúdio: medidas de segurança, organização, limpeza, que, além de ter qualidade, seu serviço era seguro. Tudo isso, em um momento pandêmico, agregava valor ao seu trabalho. “Na pandemia, aprendi que a gente tem que mostrar o que faz”, comenta, ao compreender que o boca a boca nem sempre é suficiente. O Instagram virou ferramenta de trabalho. Com a divulgação do estúdio nas redes sociais, foi possível expandir seu público. “Eu tenho muito mais clientes de Parnamirim agora, até de cidades vizinhas. Uma cliente da Paraíba vem a cada três meses”, conta. Para ela, que administra
“A gente tem que mostrar o que faz para ser visto”, acredita Cinthia
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DENTRO DA LEI Mesmo sem saber se seu empreendimento daria certo, Cinthia fez questão de organizar toda a parte burocrática do estúdio com antecedência. “Eu passei uma semana organizando como ia funcionar. O CNPJ foi criado bem antes da pandemia, porque eu sabia que, se desse certo, teria que estar com tudo organizado. O CNPJ tem todas as taxas tributárias, não é só close, como costumam falar, tem as despesas”, descreve, pontuando a importância de formalizar seu negócio. Além da formalização, o crescimento do estúdio refletiu em outras áreas, como a mudança da percepção de muitas pessoas quanto ao bairro Mãe Luiza. A empreendedora fala, com orgulho, sobre como notou essa transição: “Muita gente começou a relacionar o bairro Mãe Luiza ao Studio da Preta, pensavam que ‘não é uma coisa tão ruim, lá tem o estúdio, tem a menina que faz as tranças’. Essa associação traz um benefício tanto para mim quanto para o bairro”. Esse aspecto beneficia, inclusive, comércios próximos ao estúdio, devido ao fluxo de pessoas que a trancista recebe em seu estabelecimento. “Outros comércios ao redor se beneficiam, uma pessoa que vende lanche ou até uma lojinha de
roupa ao lado. Lembrando que o público do estúdio, basicamente 95%, não é de Mãe Luiza”, ressalta. Em adição, Cinthia decidiu criar um curso para trancistas, motivada pela percepção de que os profissionais da área necessitavam de qualificação. Além disso, Cinthia também aborda empreendedorismo, marketing e como conseguir seus primeiros clientes.
TODOS IGUAIS Recebendo pessoas de diferentes lugares e classes sociais, Cinthia faz questão de manter seu atendimento de forma igualitária. “Independentemente, se você mora num bairro nobre ou em qualquer comunidade, o valor cobrado é o mesmo, a sua recepção vai ser a mesma, não tem um diferencial”, esclarece. Ela ainda presta acolhimento a meninas que passam pelo processo de transição capilar e vão fazer tranças pela primeira vez. Cinthia conta que, na maioria dos atendimentos, as meninas chegam com a autoestima baixa e sequer conseguem olhar-se no espelho. Todavia, depois de fazer o trançado, instantaneamente, já sentem a diferença, saindo com a autoestima recuperada. “É maravilhoso poder dar aquele pontapé inicial para que o cliente possa se autoafirmar, se fortalecer”, declara. Atualmente, Cinthia colhe os frutos de seu esforço. A dedicação para gerir seu negócio traz retorno para que ela mantenha sua família e tenha uma vida confortável. “O estúdio é a minha base financeira, do meu esposo, dos meus filhos,
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diretamente o perfil Studio da Preta, o Instagram se tornou uma ferramenta indispensável, tanto para tirar dúvidas dos clientes, quanto para interagir com seus seguidores. Hoje em dia, o estúdio também conta com o auxílio de uma pessoa para responder os atendimentos via Whatsapp.
PERIFERIA Manifestar a cultura afro é uma forma de resistência para Cinthia
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da minha família”, explica. Foi um processo. Inicialmente, ela passou dois anos retendo os lucros para reinvestimento no negócio, priorizando o trabalho no lugar da vida pessoal. “Meu ponto forte de investimento é minha empresa, que vai gerar meus lucros. Então, eu tenho o meu salário fixo, independentemente de quanto
o salão fizer por mês”, diz. Além disso, o fluxo de caixa precisa considerar pagamento dos funcionários, compra de materiais de uso diário, manutenção do espaço, além de ajudar a realizar as novas metas pensadas para sua carreira. Com pé no chão, Cinthia vai longe.
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SUPORTE QUE FAZ A DIFERENÇA Projetos sociais colaboram para melhorar a vida de quem vive em situação de vulnerabilidade socioeconômica Por Henrique Neiva e Yann Brito
piores consequências da pandemia. Em Natal, nas suas regiões mais pobres, as zonas Norte e Oeste, a taxa de mortalidade por Covid-19 é três vezes maior que nas áreas mais ricas da cidade. Essa é a conclusão de pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e da Universidade Federal do Ceará (UFC), que analisaram os dados epidemiológicos públicos e a letalidade da doença, baseados em informações de geoprocessamento dos casos e óbitos. As pessoas mais pobres são as mais afetadas pelos impactos que a pandemia trouxe às nossas vidas. Além disso, houve um crescimento de pessoas mais vulneráveis durante a pandemia. Entre o primeiro trimestre de 2019 e janeiro de 2021, o índice de extrema pobreza em Natal passou de 13,1% para 17%, um crescimento de 3,9 pontos percentuais. Para exemplificar, de março a dezembro de 2020, o número saltou de 400 para 3 mil pessoas. Nesse contexto, muitas vezes, o que salva são projetos sociais, ao oferecerem algum tipo de suporte. Porém, eles também enfrentaram dificuldades na capital
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Em 31 de dezembro de 2019, o mundo não tinha ideia do que estava por vir. No entanto, nesse dia, autoridades chinesas enviaram um alerta à Organização Mundial de Saúde (OMS): casos de pneumonia aguda não identificada estavam crescendo na cidade de Wuhan. Esse caso demandava atenção da Organização. Meses depois, no dia 11 de março de 2020, a OMS declarou que havia elevado o estado de contaminação à pandemia de Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus (Sars-Cov-2). No Brasil, os primeiros casos surgiram entre fevereiro e março, que já vinham acompanhados de medidas e orientações por meio do Ministério da Saúde e das secretarias estaduais de saúde. A Prefeitura do Natal decretou situação de emergência para enfrentamento do coronavírus no dia 18 de março de 2020. O primeiro decreto estadual de calamidade na pandemia é de 20 de março de 2020. Nesse momento, a cidade parou. A pandemia trouxe impactos devastadores para a vida dos brasileiros. Muitas famílias enfrentam um contexto desafiador e sofrem as
PERIFERIA potiguar. Colaborar para diminuir os impactos sofridos pela população periférica, que se encontra em condição de vulnerabilidade social, ficou bem mais complicado. Conheça os esforços de três importantes iniciativas na cidade.
SURF E CIDADANIA À BEIRA-MAR
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Manhã de sábado, 21 de maio de 2022. De frente para o mar da Praia de Ponta Negra, cerca de dez crianças aguardam o início das atividades da Escola de Surf Morro do Careca. Uniformizadas para se protegerem do sol e aparentemente ansiosas para entrarem no mar, esperam instruções do professor e idealizador do projeto, Jorge Henrique dos Prazeres, para iniciar as atividades. Como de costume, às quintas e sábados pela manhã, todos os alunos, instrutores e amigos da escolinha se reúnem para uma oração seguida de alongamento antes de entrarem na água. Formado, atualmente, por cerca de 20 crianças e adolescentes moradores da Vila de Ponta Negra, com idade entre 6 e 19 anos, a escolinha de surf está localizada na avenida Erivan França, próximo ao Hotel Aquaria, vizinho ao Morro do Careca, conta com uma mini biblioteca e decorações que remetem à prática do surf. Criado em 1997, o projeto oferece aulas sobre cidadania, meio ambiente e leituras guiadas, além, é claro, da prática do surf. De acordo com Jorge, hoje o projeto atende exclusivamente crianças da Vila de Ponta Negra, porém estuda
Alunos da Escola de Surf Morro do Careca se alongam para mais um dia de atividades
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Não foi fácil Após vencer um campeonato de surf, Jorge utilizou o valor da premiação para aquisição das primeiras pranchas e acessórios do projeto e manteve seu financiamento oferecendo aulas HADASSA MIQUELINO
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convênios com outros projetos de Natal, a fim de integrá-los, como, por exemplo, o Balé Ralé, que fica no Passo da Pátria. Há contatos ainda com projetos na Cidade da Esperança. Um dos principais objetivos do projeto social socioeducativo e recreativo é transmitir valores humanos essenciais para a formação de cidadãos, buscando, principalmente, aqueles que se encontram em situação de vulnerabilidade social, com o intuito de afastar jovens da criminalidade e diminuir a evasão escolar. A escolinha não busca apenas por atletas, como pontua Jorge: “Antes de mais nada, a criança tem que ir para as aulas na escola e passar de ano para se manter no projeto”. Com a situação escolar regularizada, bom desempenho e comportamento adequado dentro e fora da instituição de ensino, o aluno tem sua permanência garantida na Escola de Surf. “Participar da escolinha é muito importante para mim, é transferir conhecimento, somos muito bem tratados, temos ensinamentos não só do esporte, mas também de cidadania, da vida, de respeito com o próximo”, conta João Daniel Prazeres, 19 anos, aluno do projeto há quase sete anos.
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particulares de surf. Com mais dois colegas que se voluntariaram como instrutores, o projeto chegou, em 1997, a contar com cerca de 60 crianças, muitas delas hoje expoentes do surf potiguar, como Emanoel Tobias e Lucas Pires. Em 2002, após dificuldades financeiras, o trabalho foi descontinuado, deixando de beneficiar crianças da Vila. Em 2009, Jorge conheceu Sônia Sales de Melo, sua atual companheira e coordenadora da escolinha, que incentivou o esposo a retomar o projeto em 2015. Dessa vez, combinado ao Flores do Mar, microempresa ligada à venda de artesanato em Ponta Negra, idealizada por Sônia, e à continuidade das aulas particulares de surf oferecidas por Jorge, foi possível financiar a retomada das atividades. Somando nas atividades do projeto, a pernambucana Sônia, mãe, artesã, com profundo conhecimento sobre ecologia e carregando diversas experiências em projetos sociais de Sônia Sales de Melo e Jorge Henrique dos Prazeres, idealizadores do projeto Escola de Surf Morro do Careca
Recife voltados para a conscientização sobre o meio ambiente, contribui com a formação dos alunos sobre educação ambiental, repassando às crianças a importância de preservar, não só a praia, mas o ecossistema em sua totalidade.
Desafios da pandemia No auge da pandemia, ainda em junho de 2020, as atividades foram interrompidas devido às medidas de segurança sanitária para combater a disseminação do vírus da Covid-19. O trânsito de pessoas na Praia de Ponta Negra foi bloqueado, e a escolinha precisou se adaptar àquele cenário desafiador. As aulas de educação ambiental, teorias do surf e de cidadania foram mantidas de forma remota. Por meio de um grupo no Whatsapp, eram organizados encontros com alunos e seus familiares.
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PERIFERIA permitir a participação em editais e das leis de incentivo a projetos sociais. O retorno das atividades, no início de 2022, foi com festa: a Etapa Papai Noel, campeonato de surf com diversas premiações e a presença do próprio Noel surfista na cerimônia.
SOLIDARIEDADE FEMININA NAS RUAS Dia 28 de março de 2022, manhã chuvosa em Natal. O Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) alerta para chuvas intensas na cidade, com alto grau de severidade. Chegamos às 8h40 para conhecer o trabalho do coletivo Manas na Rua. Elas formam um grupo composto por cinco mulheres sem fins partidários nem religiosos, atuando dentro de uma filosofia humanista e adepta do veganismo. Em novembro de 2020, decidiram criar um coletivo composto apenas por mulheres, que distribui alimentos 100% vegetais para pessoas que vivem em condições de insegurança alimentar e em vulnerabilidade social, no Viaduto do Baldo, na Cidade Alta, e próximo ao antigo prédio do INSS, na Ribeira, em Natal. São 120 pessoas atendidas em média, semanalmente. Quando chegamos ao Baldo, nos deparamos com o muro que as meninas haviam mencionado, o qual está sendo construído pela Prefeitura da cidade, que afasta as pessoas em situação de rua daquela localidade. Segundo Maria Regina Diniz, uma das organizadoras do projeto, mesmo com essas ações por parte do
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Como diversas famílias foram impactadas financeiramente, seja por diminuição do rendimento mensal ou por conta do bloqueio de acesso à praia, fonte de renda de muitos moradores, a escolinha adotou ações para auxiliar financeiramente no sustento alimentar dessas famílias, com apoio dos Amigos da Escolinha, simpatizantes do projeto que auxiliam com doações. Joelma Prazeres, nativa da Vila de Ponta Negra, irmã do idealizador do projeto, é mãe dos alunos Daniel e Jonas. “Durante a pandemia, tiveram reuniões para não deixar os alunos ociosos demais. Os auxílios foram primordiais, com cestas básicas, cartão alimentação e kits de máscara e álcool”, comenta. Joelma ressalta a importância das aulas de surf para seus filhos: “O surf na vida dos meus filhos foi um diferencial, principalmente para Jonas, com deficiência motora, que começou na escolinha aos seis anos e nunca mais parou”. Para Jonas Silva, agora com 17 anos, a realidade durante a pandemia foi um baque: “Passamos a fazer muitas atividades online. Eu e meus colegas do projeto continuamos nos falando pelo grupo do Whatsapp, para saber como estava cada um e quando iríamos voltar. Foi muito difícil”. Durante o tempo parado, os idealizadores aproveitaram para melhorar a estruturação do projeto, com criação do estatuto, registro em cartório, conta bancária e CNPJ, e caminham em direção ao certificado de reconhecimento do município, que lhes garante a permanência das atividades na praia, além de servir como alicerce de ramificações futuras do projeto e
PERIFERIA poder público, as pessoas continuam lá ou em regiões próximas. Durante a ação das Manas na Rua, observamos a Guarda Municipal, fazendo policiamento no local. Segundo ela, a presença não é constante, mas, às vezes, aparecem. Desde que o coletivo passou a fazer esse trabalho voluntário, em 2020, durante a pandemia, a demanda foi crescendo. O número de pessoas em situação de rua e em condição de vulnerabilidade social aumenta a cada dia. Essa é a percepção do grupo e também das pessoas impactadas pelas ações, que pode ser confirmada pelas estatísticas: o número de pessoas que Manas distribuem café da manhã semanalmente a pessoas em situação de vulnerabilidade socioeconômica
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vivem nas ruas de Natal cresceu 650% durante a pandemia, segundo a Prefeitura do Natal. Inicialmente, a distribuição de café da manhã acontecia apenas no Viaduto do Baldo. Entretanto, a demanda subiu e foi necessário expandir para outra região, perto do antigo INSS, conforme Mariana Thaís Farias Misael, que atua na organização do coletivo. “Inclusive, não atendemos apenas pessoas em situação de rua, mas também pessoas de ocupações, como próximo do INSS, que possuem um lugar para morar, mas estão em situação de vulnerabilidade fortíssima”, informa Maria Regina.
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Durante a ação, conhecemos Lourival Ferreira da Cruz, com idade estimada entre 40 e 50 anos, nas ruas há muitos anos. Ele não sabe dizer exatamente há quanto tempo. Assim como ele, há muitos nessa situação. “É um bocado, bem mais que 50 pessoas”, diz. Lourival, que vive entre vários locais das ruas de Natal, sempre muda de ponto. Uma de suas mudanças recentes aconteceu em decorrência do aumento de chuvas e da falta de cobertura na cidade para se proteger. No entanto, a região onde ele se localiza atualmente não possui proteção contra as chuvas, mas existe o trabalho voluntário do coletivo. “A situação de rua é muito complicada, a gente dorme com um olho aberto e outro fechado”, revela. Joab, 27 anos de idade, dá alguns detalhes de como é sua realidade. Ele faz parte da ocupação Emmanuel Bezerra, localizada no antigo prédio da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, no bairro da Ribeira. Joab busca participar de todos os cafés da manhã que acontecem. “As meninas ajudam muito a gente, trazendo comida”, afirma. Naquele dia, confirmou que o número de pessoas que estava ali era menor que o comum: “Tá chovendo muito, tem gente que não veio por isso”. Dentre várias pessoas presentes na ação, há também crianças. Uma delas é Edson Matheus, de 12 anos, morador da comunidade do Maruim, no bairro das Rocas. Edson estava com familiares e conhecidos do bairro. Ele diz que o trabalho do coletivo é muito bom. Assim como
Edson, Andryelle, de 11 anos, diz achar muito legal o trabalho do Manas na Rua.
União e acolhimento O trabalho que hoje atende Lourival, Joab, Edson, Andryelle e muitos outros surgiu com poucas manas, conforme conta Maria Regina. Inicialmente, eram Luciana Carvalho e Marina Pinheiro de Brito, que faziam parte do Sopa Vegan, organização semelhante ao Manas, que distribuía almoço e jantar. Elas decidiram, observando a demanda do café da manhã, criar o projeto. Atualmente, o grupo conta com 36 manas voluntárias. Diferentemente de outros coletivos, o Manas na Rua é composto apenas por mulheres, para criar um ambiente de segurança para o público-alvo, por causa do acolhimento. No grupo, não há hierarquia. A organização é horizontal, conforme relata Franciana Borges, que também colabora com o coletivo. Cristina Felipe, que faz parte do grupo há mais de um ano, diz que as decisões não são tomadas de cima para baixo, mas sempre na horizontalidade. “É bem democrático”, informa. Um dos pilares do coletivo, segundo Cristina, é “fomentar e estimular o voluntariado feminista, combater a fome, divulgar e difundir o veganismo popular”. Cristiana conta que, por causa da pegada vegana, sempre aparece a dúvida: será que as pessoas gostam da comida? “É uma delícia! Ninguém chega dizendo: ‘é comida vegetal? A gente não quer’. Na verdade, uma coisa engraçada é que eles perguntam se o mungunzá tem
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Comida no prato
PERIFERIA açúcar. Eles preferem doce. Ninguém questiona se é soja ou não é soja, isso é bem aceito”, conta,
descontraída. “O importante é que é comida, não é Cris?”, complementa Franciana.
Voluntárias do coletivo Manas na Rua: Alessandra Macêdo, Shirley Souza, Mariana Thais, Luiza Cavalcante, Rosanya Azevedo e Marina Pinheiro
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Pandemia As medidas sanitárias contra a Covid-19 já foram flexibilizadas em todo o Rio Grande do Norte. Por essa razão, muitas atividades que aconteciam de forma remota passaram a ser presenciais. A pandemia já afetava o projeto desde que ele foi criado, pela razão de que ele foi idealizado e criado durante a crise sanitária, mas os impactos mudaram ao longo do tempo. Antes, eram apenas duas manas que colaboraram com o projeto, número que cresceu para 36. Mesmo com esse aumento, o grupo ainda precisa de mais pessoas engajadas. Recentemente,
o coletivo passou a ser reconhecido como uma Organização da Sociedade Civil (OSC), legalmente registrado. Com o reconhecimento, as obrigações também aumentam. O grupo abriu uma vaga para contadora, mas ainda não foi preenchida por ser muito específica; para atender a legislação, utilizam uma prestação de serviço em contabilidade. Cristina relata que muitas voluntárias voltaram aos seus locais de trabalho, à faculdade de forma presencial, o que impactou as atividades do coletivo. “Existe um pouco de sobrecarga agora que as pessoas voltaram às suas atividades normais. Mas, a gente não deixa de fazer”, revela.
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Levar informação, formação, atividades educativas e culturais para as periferias de Natal. Essa foi a inspiração para criar o Cine de Quebrada, projeto social organizado por jovens das periferias de Natal, com origem das Zonas Norte, Leste e Oeste. Vitor Souza, Matheus Morais, Aline Gazzaroli, Felipe Silva, Yara Costa, Levi Gomes, Pedro Venâncio e Geilson Queiroz buscam promover o cinema como forma de atuação dentro das suas comunidades. A ideia surgiu em 2020, quando os organizadores criaram o projeto chamado BTFlix, que visava a orientar a população de Brasília Teimosa, do bairro Praia do Meio, e comunidades do entorno, sobre o Plano Diretor de Natal, discutido e votado naquele período. “A gente pegou um projetor emprestado, uma mesa, puxou energia da casa de alguém que eu conhecia lá, fez um slide e passou um filme. Foram poucas João Vitor é um dos idealizadores do projeto Cine de Quebrada
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pessoas, a própria população não se interessa, é um fato”, conta João Victor Cavalcante, 21 anos, que atua na organização geral do Cine de Quebrada, planejando a atuação nas periferias. Quando o Ministério Público suspendeu o processo de revisão do plano diretor, o BTFlix, que focava nessa demanda pública, também foi suspenso. Porém, os idealizadores não queriam parar. Nasceu, então, o Cine de Quebrada. “Depois que pararam a votação, a gente pensou: por que não atuar em Natal? Por que não atuar de outra maneira, buscando sempre levar a juventude a um patamar melhor que esse?”, explica João Victor.
Próximas gerações Com o novo nome, o Cine de Quebrada passou a rodar Natal inteira, em quase todas as comunidades periféricas, sempre exibindo filmes educativos, incentivando crianças e adolescentes, buscando desenvolver as habilidades comunicativas desse público-alvo. “Elas são a próxima geração. Mostrar que elas podem ter outra perspectiva e sair dessa bolha do sistema, desse ciclo vicioso em que a gente vive. Se a gente não buscar quebrar isso, vamos sempre viver isso”, defende João Victor. O objetivo do projeto, segundo Yara Costa, 26 anos, é levar cinema ao ar livre para as comunidades de Natal. “Nossa proposta é levar informação, através de curtas — às vezes colocamos curtas potiguares e curtas de fora —, mas sempre em um contexto em que mostramos a realidade social. É também instigar o debate sobre a desigualdade, a importância da educação
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CINEMA NAS QUEBRADAS DE NATAL
PERIFERIA e da cultura. Mostrar outra perspectiva que não seja apenas a violência, a criminalização que a gente vê dentro das comunidades. Queremos frutificar sonhos e construir outras realidades para essas crianças”, esclarece a jovem. Yara Costa e Joel Lisboa, artista que inspirou o filme Made in Maruim
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Dificuldades iniciais No início do projeto, ainda em 2020, tudo era improvisado. Diversas pessoas colaboraram, emprestando projetor, mesa, cadeiras e até energia para realizar o projeto. Atualmente, o Cine de Quebrada está mais estruturado, com alguns apoios e recursos próprios para atingir seu objetivo nas comunidades periféricas onde atuam. Yara relata que sofreu críticas por causa da atuação na pandemia, sob alegação de que não era o momento, porque o projeto poderia causar aglomeração nas comunidades. Ela justifica: “Existe uma população que estava dentro
das comunidades, sem nada para fazer. Por isso, entendemos que aquele era o momento de levar consciência e informação. Mesmo com as críticas, a gente meteu a nossa cara, sempre respeitando as normas”. Em algumas atuações, distribuíram máscaras, álcool em gel, kits de higiene pessoal, brindes para crianças, adolescentes e adultos que participassem das ações. Na ação realizada no dia 27 de maio de 2022, na comunidade do Maruim, no bairro das Rocas, foi exibido o curta “Mais um João”, roteirizado e dirigido por Athos Muniz, e o documentário “Made in Maruim”, do repórter Felipe Dantas, que conta a história do artista de grafite Joel Lisboa, que estava presente na exibição. “Conheci a Yara, que mora na Brasília Teimosa, pelas redes sociais, vi que era uma pessoa da comunidade e, como curioso, comecei a acompanhar o projeto. A primeira edição aconteceu aqui, na comunidade do Maruim. Assisti ao filme naquele dia. Depois, acompanhei por rede social, sempre vi a atuação nas periferias”, conta Joel. A experiência, para o artista, de ter um documentário sobre sua arte, vida e trajetória exibido naquele dia, foi inesquecível. “Achei incrível!”, diz. Joel possui grafites nos muros onde hoje está localizada a população do Maruim.
Interação Após a exibição dos curtas, os organizadores fazem interações com os participantes, com premiações e brindes. Nesse dia, a distribuição foi de camisetas do Cine de Quebrada para crianças que participassem da dinâmica de perguntas e respostas. “Hoje, foi a camisa, mas,
PERIFERIA Moradores do residencial São Pedro, Maruim, assistem ao filme “Mais um João”
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geralmente, a gente faz um kit com caderno de caligrafia, tabuada, lápis de cor, material escolar em geral”, explica Yara. Levi, de 8 anos, estava ajudando na organização e deu sua opinião: — Eu acho muito legal! Pela primeira vez eu vim aqui!!! — Como você ajuda aqui, Levi? — Eu ajudo dando roupas para as crianças, para as pessoas e gosto de ajudar as pessoas… Eu tenho que ajudar em alguma coisa, senão eu vim aqui para quê?
Além dos jovens organizadores e dos ajudantes, existe uma pessoa fundamental nas exibições do Cine de Quebrada: Maria Luciara de Lima, moradora das Rocas, conhecida como Dona Preta. É ela a responsável pela alimentação de quem está presente no trabalho do Cine de Quebrada. “Acho muito importante, principalmente para as crianças. O que tem de criança nesse mundo que não tem oportunidade… Você sabe bem. É uma nova perspectiva”, avalia Dona Preta.
PERIFERIA
COMO AJUDAR OS PROJETOS SOCIAIS? Todos os projetos desta reportagem precisam de ajuda para continuar fazendo o seu trabalho. Há diversas formas de colaborar, escolha a que mais se adequa a você.
Escola de Surf Morro do Careca
Instagram: @surfnomorrodocareca Doações: entrar em contato pelo Instagram e doar qualquer valor. Projeto aberto para voluntariado.
Coletivo Manas na Rua
Instagram: @manasnarua Doações: doe@manasnarua.org (Chave pix) Ser voluntária: www.atados.com.br/ong/manas-na-rua
Cine de Quebrada
Instagram: @cinedequebrada Doações: entrar em contato pelo Instagram e doar qualquer valor. Ser voluntário: é necessário entrar em contato pelo Instagram, ser de periferia e desenvolver algum trabalho social na sua comunidade.
DIREITOS HUMANOS
DIREITOS HUMANOS
O VÍRUS QUE AMEAÇOU A EDUCAÇÃO
Pandemia agrava dificuldades enfrentadas para manter estudantes na escola Por Diogo Bertolin, Kayllane Sayonara, Rebeca Oliveira e Samuel Ferreira
Entrar na Universidade é um desafio, mas manter-se nela pode não ser fácil
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DIREITOS HUMANOS formando o grupo de maior risco à evasão escolar nos ensinos médio e superior, de acordo com estudo realizado por Reynaldo Fernandes, ex-presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e professor de Economia, a partir de dados do IBGE e do Ministério da Educação (MEC). Em Natal, o cenário é preocupante. A cidade foi apontada, no quarto trimestre de 2021, como a terceira capital mais desigual do país, perdendo apenas para João Pessoa e Recife, segundo o boletim Desigualdade nas Metrópoles, elaborado em parceria por pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), do Observatório das Metrópoles e da Rede de Observatórios da Dívida Social na América Latina (RedODSAL), a partir dos dados da PNAD Contínua trimestral, do IBGE.
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Todos sabemos que o acesso à educação é um direito, certo? Porém, a realidade mostra que, muitas vezes, esse direito está somente no papel. O artigo 205 da Constituição Brasileira diz que “a educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando o pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”. Entretanto, muitos problemas afastam o que apresenta o texto de 1988 da vida cotidiana dos brasileiros. Uma dessas questões é a evasão escolar. Em 2018, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou dados alarmantes sobre o abandono escolar no Brasil. Segundo o levantamento, 11,8% dos jovens entre 15 e 17 anos estavam fora da escola, representando 1,2 milhões das pessoas que se encontram fora do âmbito educacional. A pandemia agravou o problema. De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), 99% dos brasileiros entre 6 e 14 anos estavam matriculados em 2019. Esse índice caiu para 96,2% em 2021, menor porcentagem desde 2012. Além da Covid-19, outros fatores ocasionam esse abandono escolar, desde gravidez e perda de interesse nos conteúdos estudados até a necessidade financeira imposta pela realidade socioeconômica do estudante. A educação não pensada para grupos minorizados também é um destaque negativo. Jovens de baixa renda, em sua maioria negros, são forçados a entrar precocemente no mercado de trabalho ou engravidam na adolescência,
DIFICULDADES NO ENSINO UNIVERSITÁRIO Com tantas barreiras, que passam pela evasão escolar, pelo preconceito e pelas desigualdades sociais, chegar à Universidade é uma conquista. Porém, as dificuldades continuam, inclusive para manter-se no curso. Para Henrique Monte, estudante de Jornalismo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), as universidades públicas não são pensadas para a população menos assistida. Segundo ele, a permanência na instituição é difícil até para aqueles que recebem auxílio de apoio técnico, no valor de 400 reais, destinado
DIREITOS HUMANOS a estudantes de baixa renda e que não possuem carteira assinada. “Hoje, temos milhões de pessoas desempregadas. Quando você compra um botijão de gás, já vão embora 125 reais da sua bolsa e ainda falta pagar transporte e alimentação”, expõe o estudante.
Para Henrique, as universidades públicas não são pensadas para a população menos assistida
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Henrique está correto. Conforme informações divulgadas pelo reitor da UFRN, José Daniel Diniz Melo, para a 39ª edição do seminário Motores do Desenvolvimento do Rio Grande do Norte, no semestre letivo 2019.1, houve 2.447 alunos evadidos. A situação melhorou nos semestres seguintes, mas os números ainda preocupam. No período 2021.1, o registro foi de 740 alunos que desistiram de algum curso na Universidade.
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Para Sávio Padilha, também estudante de Jornalismo, a distância até a universidade é o maior desafio. Ele reside no interior do estado, na cidade de Passa e Fica. Para chegar no horário das aulas à noite, tem de sair de casa às 15 horas. Sávio diz que pretende morar em Natal para conseguir uma bolsa ou até mesmo um estágio. Para ele, a Universidade é um ambiente que precisa acolher mais os alunos, principalmente os que vêm de longe, pois eles encontram mais dificuldade em deslocamento, já que sua disponibilidade é afetada pelo tempo de locomoção. Outra questão desafiadora é a alimentação. Devido à rotina, o jovem não consegue se alimentar corretamente. Ele diz que ainda tem sorte, pois não trabalha, mas imagina que, para alguém que trabalhe, a situação seja ainda pior. É o caso de Myrian Larissa Brilhante, estudante de Letras na UFRN, estagiária em uma escola municipal de Natal e bolsista de apoio técnico na Agência de Comunicação da UFRN (Agecom). A estudante mora na Zona Norte da
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cidade, no bairro Lagoa Azul, bem distante da Universidade, com opções de ônibus reduzidas. Myrian conta com a ajuda de um de seus tios para buscá-la no ponto de ônibus mais próximo, porém, nos dias em que ele trabalha, a estudante fica impossibilitada de ir para a faculdade. A rotina de trabalho e estudo é cansativa e acaba afetando o seu rendimento acadêmico. “Essa rotina de locomoção é exaustiva”, Myrian Larissa precisa conciliar estudo e trabalho
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comenta. Myrian sai de casa às 6 horas para o estágio, de onde segue para a UFRN, onde é bolsista à tarde. À noite, assiste às aulas e chega em casa às 23h30. São entre quatro e cinco ônibus por dia, fora o circular, para entrar e sair do campus. “Isso tudo me deixa bastante cansada. Na maioria das vezes, fico em pé, então o cansaço físico e, consequentemente, o emocional pesam muito. Há dias em que não é possível assistir ou compreender a aula, já que estou exausta e caindo de sono”, revela. Henrique também reside na Zona Norte de Natal, no bairro Nossa Senhora da Apresentação, e precisa sair de casa duas horas antes para chegar no horário da aula. “Olha, nós, da Zona Norte, sofremos muito com isso, já que Natal só funciona da ponte para cá. Então, se algo acontecer na Ponte de Igapó, você já sabe que vai se atrasar”, aponta. Henrique, que é pai, era a principal fonte de renda da sua casa e, atualmente, encontra-se desempregado. Apesar das dificuldades enfrentadas, não pensa em desistir da sua graduação, pois enxerga a educação como principal meio de mudança de vida, principalmente para os que vieram da periferia. Ele é a primeira pessoa da sua família a entrar no nível superior e espera que seu sobrinho e seu filho se espelhem nele de alguma forma. Sávio, mesmo morando longe da instituição, também nunca pensou em desistir da graduação. “Na verdade, esse dilema me fez criar ainda mais força de vontade”, diz. Ele quer trabalhar como jornalista na capital potiguar, então enfrenta as dificuldades, porque acredita que futuramente vai valer a pena. Para
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Sávio percorre 107 km todos os dias para chegar à universidade
DIREITOS HUMANOS ele, uma pessoa não pode ser resumida a um diploma, mas a todo um trabalho árduo em torno dessa conquista.
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Para oferecer mais suporte a estudantes universitários, são fundamentais políticas públicas, principalmente no que diz respeito a auxílios, que são limitados e não atendem toda a demanda necessária, e à estrutura, a qual se encontra cada vez mais sucateada. Para garantir a permanência de seus alunos na instituição, algumas universidades públicas, como é o caso da UFRN, semestralmente, publicam editais para conceder auxílios aos seus estudantes. Podem participar dos processos seletivos para o recebimento das assistências, alunos inscritos no Cadastro Único da UFRN, que se enquadram em situação de vulnerabilidade social. Com o retorno das aulas presenciais, suspensas desde março de 2020 por causa da pandemia da Covid-19, a dinâmica de solicitação e concessão de auxílios também foi afetada. Houve mais de 13 mil inscritos nos campi Natal, Caicó, Santa Cruz e Macaíba. “Foi muito assustador quando a gente se deparou com esses números, porque normalmente, eram cinco mil inscritos em média”, relembra a assistente social da Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (Proae) da UFRN, Brunilla Thais de Melo. “Tivemos três semestres remotos e os auxílios não estavam sendo disponibilizados, porque o pessoal estava de forma remota. Mas,
Brunilla se surpreendeu com o aumento da demanda por auxílios estudantis
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com o retorno presencial, o pessoal precisou desses auxílios e a gente teve esse boom de inscritos”, comenta. Entretanto, o tempo entre a inscrição para um auxílio e o recebimento dele é muito grande e gera dificuldade no processo de permanência do aluno na universidade, de acordo com a assistente social. A situação é mais desgastante para os ingressantes. “Esse estudante entra e tem que participar de um processo seletivo para se inserir em algum tipo de auxílio para permanência na universidade, que não vai vir de imediato. Existe um edital, um processo que demora um tempo para análise”, explica. Todos esses desafios acontecem em um momento de readequação orçamentária para a manutenção da universidade. Segundo dados da Proae, para o custeio em 2022, o governo federal liberou 102 milhões de reais, valor 11,3% menor do que a UFRN dispunha em
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UNIVERSIDADES PRIVADAS Até 2019, as universidades privadas representavam 88,4% das instituições de ensino superior no Brasil. Os dados são da 11ª edição do Mapa do Ensino Superior, produzido pelo Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo (Semesp). O estudo mostra que o país vem acompanhando um grande crescimento do setor nos últimos anos. De 2000 até 2019, por exemplo, o número de universidades privadas subiu de 1.004 para 2.306, o que representa um aumento de 129,68%. Por outro lado, as universidades públicas foram de 176 a apenas 302 em todo o Brasil, o que equivale a um aumento de 71,59%. Apesar dos bons números em relação ao crescimento de universidades privadas, a renda média do brasileiro segue em caminho oposto. Segundo o boletim Desigualdade nas Metrópoles, a renda dos moradores das regiões metropolitanas alcançou, no quarto trimestre de 2021, o pior nível de toda a série histórica, iniciada em 2012: R$ 1.378,35. Com a flexibilização das medidas de isolamento social, aos poucos, os mais pobres estão recuperando parte da renda, comprometida com o início da pandemia da Covid-19, porém tal avanço se dá com a retomada dos trabalhos informais, principal fonte de renda dessa parcela da população.
Em meio à crise sanitária e econômica, a vida não parou. Muitos estudantes beneficiários de programas, como o Programa Universidade para Todos (Prouni), por exemplo, não queriam perder a oportunidade de fazer o curso dos sonhos, mesmo em meio à situação pandêmica. Foi o caso de Pablo Basilio, de 21 anos, que cursa Direito, na Universidade Potiguar (UnP). Natural do Alto Oeste Potiguar, Pablo soube ter ganho a bolsa integral em março de 2020, poucas semanas após a chegada da Covid-19 ao país. “Eu comecei o curso logo no
Pablo sempre quis cursar Direito e ganhou uma bolsa integral no início da pandemia
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2019, quando o montante era de 115 milhões. Em 2020 e 2021, a verba de custeio também foi de 115 milhões.
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início da pandemia, em março de 2020. Quando fui beneficiado, já tinham acontecido duas semanas de aulas presenciais. Quando consegui de fato me matricular na universidade, já estava na modalidade EAD, e eu não queria perder a bolsa, né?”, diz. Pablo é uma feliz exceção. Por contar com o suporte da família, conseguiu se manter focado na faculdade durante os piores momentos proporcionados pela Covid-19 no país, que, em pouco mais de dois anos, já matou mais de 670 mil brasileiros, segundo o Painel Coronavírus, do Ministério da Saúde. Embora afirme não sentir ainda os impactos da inflação no seu dia a dia, o estudante demonstra preocupação com o que vem por aí. “A inflação afeta todo mundo, prejudica toda a população, a alimentação fica mais cara, o combustível também. A gente tira de onde não tem para tentar se manter. Às vezes, complementa
uma coisa para faltar em outra. Graças a Deus, não precisei cortar nada, por enquanto. Não vou dizer que está sendo fácil, mas a gente dá nosso jeito, né?”, diz. Apesar de ser uma preocupação mundial ultimamente, o aumento da inflação no Brasil vem se destacando. Segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o país é o terceiro entre as maiores economias do mundo que mais sofrem com a alta dos preços, perdendo apenas para Turquia e Argentina. Em abril de 2022, a economia nacional viu mais um número pessimista: o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), considerado uma prévia da inflação oficial do país, ficou em 1,73% - pior número registrado para o mês desde 1995, quando foi de 1,95% - contra 0,95% registrado em março, de acordo com dados divulgados pelo IBGE.
Reflexos da pandemia ainda impactam o dia a dia dos estudantes brasileiros
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ENTENDA OS AUXÍLIOS FIXOS DA UFRN • O Auxílio Residência destina-se a assegurar moradia, por meio de concessão de vaga em uma das Residências Universitárias. • O Auxílio Moradia é o pagamento em espécie a estudantes que não tenham sido contemplados com vaga na Residência Universitária, mas que atendem aos critérios para receber o benefício. • O Auxílio Alimentação tem por objetivo suprir necessidades alimentares dos estudantes de graduação em condição de vulnerabilidade socioeconômica. No caso dos campi que não possuem restaurante universitário, é oferecido um auxílio financeiro, e no Campus Natal, o auxílio será ofertado em espécie até a reabertura do Restaurante Universitário (RU). • O Auxílio Transporte é voltado para assegurar a frequência do estudante em
vulnerabilidade socioeconômica às atividades curriculares, mediante o fornecimento de passagens ou seu equivalente em moeda corrente. • O Auxílio Creche busca atender aos estudantes dos cursos de graduação presenciais da UFRN, em primeira graduação, que necessitem de subsídio para custear despesas referentes à manutenção de creche e/ ou similar para seus filhos, ou menores, de zero a seis anos incompletos, que estejam legalmente sob sua guarda. • O Auxílio Óculos visa a atender os estudantes da UFRN, em primeira graduação, que necessitem de subsídio nas despesas para aquisição de óculos com lentes corretivas. • A Bolsa Atleta tem o objetivo de apoiar os estudantes que frequentam treinamento esportivo regular no âmbito da UFRN e que participam das seleções esportivas.
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Apesar de se sentirem pressionadas por família e sociedade, estudantes defendem que educação é um direito e não um martírio Por Hildo Nogueira e Robeson Dantas
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A educação básica no Brasil, segundo o artigo 4° da Lei de Diretrizes e Bases (LDB), é um direito de todo cidadão e um dever do estado, porém o que acontece quando esse direito torna-se uma angústia na vida do estudante? Aprender a lidar com a pressão por resultados, com ansiedade e fracasso fez parte da trajetória de muitos jovens, como Malena Palmieri e Karen Ramos, ex-alunas do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN). Durante a vida estudantil, a sociedade, a família, as instituições de ensino e as pressões internas influenciam nas decisões e frustrações de muitos jovens. Malena, 21 anos, conta que, entre 2011 a 2014, durante o Ensino Fundamental, considerava-se uma aluna mediana, atingia resultados suficientes para ser aprovada, mas nunca foi uma estudante de destaque e sentia ficar sempre um pouco atrás. Sua irmã mais velha, por outro lado, era destacada e premiada e, mesmo sendo uma inspiração, eram inevitáveis as comparações.
O ápice da frustração de Malena ocorreu em 2014, quando ela estava no nono ano do Ensino Fundamental e não conseguiu ser aprovada no IFRN. Em contraponto, sua irmã havia conquistado a aprovação na primeira tentativa. “Aquilo foi muito impactante para mim, eu quebrei a cara mesmo, porque a minha irmã passou no IFRN na primeira tentativa e num curso bastante concorrido, que era Edificações, e ficou aquele peso sobre mim, se minha irmã passou, eu também tenho de passar”, relata. A estudante relembra que, na época, seus pais se mostraram decepcionados, mas a apoiaram. Após uma conversa com seus familiares, a frustração de não ser aprovada e o desejo em dar resultados, ela viu que era momento de se reerguer e focar na organização dos estudos. “Eu não queria me limitar a isso, não queria ser aquela aluna medíocre, queria dar a volta por cima. Então, esses fatores me fizeram mudar minhas atitudes e, de fato, começar a desenvolver essa habilidade de aprender a estudar do jeito certo e me planejar para isso”, avalia.
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Após organização e esforço, Malena conseguiu conquistar seus objetivos
A estudante recorda que, após a reprovação, mudou os hábitos de estudos, tentou novamente o IFRN e foi aprovada no curso de Mineração em 2016. Na época, não fazia ideia do que era a formação, sabia haver muitas viagens, o que despertou interesse, mas seu intuito principal era se inscrever em um curso com baixa concorrência e ser aprovada.
PASSAR NO ENEM As pressões pela aprovação no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) também recaíram sobre Karen, 21 anos, hoje matriculada no
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curso de Medicina na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). O processo para chegar a esse objetivo não foi fácil. Ela destaca as pressões internas e da sociedade. “Eu não só tinha que terminar o Ensino Médio, como também estudar para o Enem e, em simultâneo, apresentar um artigo de conclusão de curso”, relata. A estudante enxergava, nas pessoas ao redor, mais uma forma de pressão. Estar inserida nesse contexto de muitas tarefas para realizar e olhar para o lado e imaginar todos os concorrentes aparentando estabilidade emocional eram motivo de preocupação para Karen. Muitas pressões e responsabilidades ao
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mesmo tempo, algo vivenciado por muitos estudantes que sonham com um lugar ao sol. De acordo com pesquisa realizada em 2021, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que listou os cursos mais disputados entre os estudantes, Medicina aparece no topo como o mais concorrido nas universidades, com 122,2 candidatos por vaga. No Sistema de Seleção Unificada (Sisu) 2021.1, a nota de corte para essa graduação foi de 796,3 para ampla concorrência e 744,8 em cota pública, configurando-se como a maior nota de corte entre todos os cursos. A nota de corte, conforme o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), “é a menor pontuação exigida para que o candidato fique entre os selecionados sendo calculada com base no número de inscritos e de vagas”. O interesse de Karen pelo curso surgiu numa Mostra de Profissões na UFRN. “Foi lá que comecei a descobrir mais sobre a Medicina, as diferentes áreas. Depois de um tempo, eu me apaixonei e me vi fazendo isso para a vida”, revela. A pressão interna foi a principal barreira que Karen enfrentou
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Após a aprovação em 2021, a expectativa para o início da vida universitária e o suporte familiar tem sido fundamental, bem como poder se dedicar integralmente aos estudos. A nova etapa na vida da estudante trará pressões e desafios desconhecidos, mas ela parece estar mais forte e preparada, depois de passar pelo processo de aprovação. “Sei que vai ser uma jornada muito difícil, cansativa, mas, no final, vai valer muito a pena, porque vou realizar um sonho. Com o apoio da minha família e dos meus amigos, vai dar tudo certo”, acredita.
MENOS PRESSÃO, MAIS COMPREENSÃO Malena enfatiza a importância de uma educação voltada para a formação do cidadão. Ela relata que, no IFRN, não havia pressão para aprovação em vestibulares ou no Enem, e isso era muito interessante, pois é muito mais do que uma preparação para que o aluno dê resultados. O foco principal é formar cidadãos. “Isso, para mim, foi o maior impacto, eu me tornei uma pessoa totalmente diferente, uma nova Malena, depois que entrei e saí do IF”, diz. Ela enfatiza, ainda, a importância da escolha pelo curso que vai seguir, sem pressão por aqueles com maior retorno financeiro. Karen, que cursou Controle Ambiental no IFRN entre 2015 e 2018, reitera que o foco da instituição não é o Enem, mas o ensino técnico. Ela destaca as condições oferecidas pela escola para quem quer estudar além das aulas, como uma biblioteca estruturada, com bom acervo de
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FOCO NO QUE GOSTA Para a professora e psicóloga educacional Patrícia Modesto, os alunos não estão sabendo lidar com a exigência por aprovação, principalmente quando chegam ao terceiro ano do Ensino Médio. A psicóloga relata que a cobrança é sobretudo externa, por parte da família ou por status de cursos financeiramente prestigiados. “Essa pressão é tanto interna quanto externa, mas fica claro que a externa é muito maior. Existe a pressão por parte da família e também de algumas instituições escolares, assim como dos professores, de tudo ser voltado para o Enem”, comenta. Patrícia aponta a importância de mostrar aos estudantes que o Enem é relevante, mas
não o único motivo de estarem na escola. Já a questão financeira será consequência de ser um bom profissional. “Trabalhando com aquilo de que gosta, a pessoa estará sempre buscando renovação, aperfeiçoamento e especialização, o que fará com que se destaque de alguma forma frente a outras pessoas”, avalia. As pressões impactaram Malena, no entanto ela soube como se posicionar. A jovem relembra que estava com muita dúvida sobre o que cursar, mas nunca pensou em dinheiro ou no mercado de trabalho, o foco sempre foi no que ela gostava. “Se a minha vida vai girar em torno disso, tem que ser alguma coisa de que eu goste, que me dê prazer, que eu queira estar lá todos os dias empolgada, trabalhando e estudando sobre aquilo”, pondera. Patrícia reforça o pensamento de Malena em relação à escolha do curso. A psicóloga comenta que, em seus atendimentos, sempre relaciona essa escolha à realidade escolar. “Se a escola é considerada maçante, estressante, para muitos estudantes, imagina todos os dias acordar para realizar um trabalho de que não goste, com que não se identifique”, assinala. Ela ressalta que o respeito pelas escolhas dos estudantes é fundamental para que eles se sintam à vontade para optar pelo que sonham, para trilharem seu próprio caminho, sem pressão para passar no Enem. Malena comenta que organizou sua rotina de estudos, baseada na aprovação no curso de Farmácia, mas, após uma viagem à Argentina para visitar o pai, percebeu que era a Geologia que a encantava, curso no qual foi aprovada em 2020 na UFRN. “Eu me imaginava muito
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livros. “Eu também não acho que os professores exigem muito desse lado, eles não cobram muito conteúdo só de Enem”, complementa. O caminho para Malena escolher o curso universitário foi uma consequência desse contexto. Ela percebeu, desde que entrou no IF para cursar Mineração, que Geologia seria uma opção, pois ambas são ciências bastante conectadas. Mas, nos quatro anos de estudos, vez por outra, surgiam dúvidas. “No último ano do Ensino Médio, a gente tem uma crise existencial. Meu Deus, o que é que eu vou fazer? Acredito que todo estudante passa por isso. É uma escolha muito importante, porque vai impactar o resto de nossa vida. E a gente passa um ano inteiro estudando sem parar, para depois escolher o curso errado... Isso seria muito frustrante também”, declara.
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Para Malena, a escolha do curso não deve focar em retorno financeiro
mais viajando, explorando, me aventurando. Percebi que era a Geologia que ia me permitir isso. Analisei e comparei a grade curricular dos cursos, e, conversando com minha família, eles me diziam que eu combinava muito mais com Geologia. Nunca me senti pressionada pela minha família, mas eles me conhecem, acredito que a opinião deles também é importante, e eu sabia que iriam me apoiar para fazer aquilo que me alegra, não por retorno financeiro”, conta.
ADAPTAÇÕES NECESSÁRIAS Com a pandemia, a UFRN ficou sem aulas por um período, momento em que Malena buscou se reinventar. Desde criança, ela gostava de
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assistir a vídeos no YouTube e sonhava em ser digital influencer. Então, viu, naquele momento, a oportunidade de produzir conteúdo, unindo o sonho engavetado a uma nova forma de se motivar nos estudos. A universitária relata que, quando entrou na Universidade, sentiu que um ciclo inteiro de sua vida tinha se encerrado, e agora uma nova fase começava em todas as áreas de sua vida. Iniciou com postagens de resumos nas redes sociais, vídeos no YouTube, com dicas de estudos para o Enem, ainda timidamente, com um pouco de vergonha e pouquíssimos seguidores. Hoje, Malena tem mais de 90 mil seguidores em sua conta do Instagram e percebe que seu conteúdo influencia e motiva as pessoas a
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Aprender a estudar sozinha tornou-se a realidade de muitos jovens, como Karen
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confortável, onde têm aquilo de que gostam, a casa, o quarto - provavelmente os ambientes onde assistiram às aulas -, isso tudo pode ter deixado o ato de estudar mais maçante e desinteressante”, avalia a psicóloga. Segundo ela, a pandemia da Covid-19 trouxe marcas muito significativas em relação ao aprendizado e ao emocional dos jovens. Ela relata que recebe diversos alunos com crise de pânico, de ansiedade, e problemas em relação ao retorno à convivência social, dentro do ambiente escolar. “A questão emocional e psicológica desses alunos precisa de um olhar significativo, porque percebo situações que poderiam ser vistas, trabalhadas e analisadas de outro modo, mas que são encaradas por esses alunos de forma catastrófica, como se não houvesse solução, como se fosse o fim do mundo”, aponta. A psicóloga diz que esses problemas estão diretamente relacionados à questão emocional de não saber lidar com frustrações, o que pode ser abordado com cuidado por um profissional apto a auxiliar o estudante nessa jornada.
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melhorarem nos estudos e aprenderem a organizar uma rotina. Atualmente, Malena é estudante de Geologia em período integral, diretora de marketing da empresa Júnior, participa de projetos de iniciação científica e trabalha como digital influencer. Além disso, busca manter uma rotina de atividades físicas, ama surfar e sempre prioriza o lazer com amigos e a família. Porém, essa rotina não aconteceu do dia para noite. Para ela, levaram anos até que chegasse a esse ritmo. Foi conquista e aprendizado. “Eu sempre falo isso aos meus seguidores, não é tudo 100% perfeito, vai ter dias que eu vou ficar desesperada para uma prova. Tento ser transparente com meus seguidores”, diz. Para Karen, a adaptação às mudanças no ensino durante a pandemia foram encaradas com tranquilidade, apesar do baque inicial e dos desafios. “Eu frequentei cursos presenciais e estava ambientada com aquele ritmo e, quando começou, tive que estudar pelo celular, procurar fontes novas. Foi muito complicado porque eu mesma tinha que me motivar, criar meus horários, de um jeito que eu nunca tinha feito antes”, conta. Porém, o fato de estar em casa a levou a usar todo esse tempo para estudar e a se cobrar muito, chegando a dez horas diárias de estudo. A sobrecarga teve um preço no seu psicológico que, após um período de adaptação, conseguiu se equilibrar. Para Patrícia Modesto, o fato de os jovens não estarem no ambiente escolar durante o período pandêmico pode ter causado alterações na forma como eles sentem a rotina de estudos. “Dentro de suas casas, de um ambiente
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SEGUIR A MINHA FORMAÇÃO OU ME SENTIR FELIZ? Estudantes enfrentam dúvidas na busca por uma carreira
Por Diogo Bertolin, Luiz Lourenço e Pedro Neto
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“Ser ou não ser, eis a questão”. Uma das frases mais famosas das obras de William Shakespeare, além de uma dúvida melancólica do jovem Hamlet, é uma interrogação que acompanha o recém-formado ao começar sua vida profissional. Seguir em sua formação acadêmica pode ser fácil ou não. Parte dos novos profissionais não consegue entrar em seus segmentos. Os motivos são vários. Alguns querem, mas não encontram oportunidades; outros até acham respostas positivas, porém não querem sair de sua zona de conforto e de perto da família; e ainda há quem, embora não tenha se encontrado no curso que escolheu, prefere finalizar a graduação, mas a carreira na área de formação se encerra ali. Um estudo feito para o Grupo Santander pelo Instituto Ipsos, terceira maior empresa de pesquisa e de inteligência de mercado do mundo, ouviu mais de 9 mil estudantes e professores em 19 países, cerca de 850 no Brasil. Para 54% dos entrevistados, é preciso melhorar a inserção dos recém-formados no mercado de trabalho, e 63% acreditam que as universidades não
conseguem munir os alunos das competências exigidas pelas empresas. O levantamento mostra os números dessa realidade e como isso afeta a vida de quem acabou de se formar. Essa é a história de Pedro Paiva, graduado em Turismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), que abandonou sua carreira de turismólogo e se propôs a descobrir novos ares. “Preciso de um plano B”, pensou, logo que concluiu o curso em meados de 2015. O novo caminho passou pela conclusão de uma pós-graduação em Gestão de Pessoas pela Faculdade de Ciências Educacionais e Empresariais de Natal (Facen), em meados de 2017. Atualmente, Pedro, que começou como especialista em interação, é supervisor de atendimento numa empresa especializada em relacionamento multicanal, onde se encontrou como profissional. “Além de ter reconhecimento pelas pessoas que constroem a empresa e pelos feedbacks que recebo, também me sinto reconhecido pelo salário que ganho. Além disso, estou muito confortável, trabalhando em formato Home Office”, conta.
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QUAL MINHA VOCAÇÃO? Quando começamos uma jornada acadêmica para a busca do “ser profissional”, temos sonhos, uma ideia do que queremos e criamos, na nossa cabeça, o ideal da nossa vontade, espelhado nas noções de mundo que conhecemos e entendemos. Mas, na prática, nem tudo caminha como se espera. A falta de orientação vocacional é um dos principais motivos pelo qual a maioria dos jovens se dispersa de seus cursos acadêmicos. Segundo o ex-ministro da Educação José Mendonça Filho, em entrevista para a TV MEC, o Brasil tem apenas 8% dos alunos do Ensino Médio em programas vocacionais, e a falta de direcionamento nesse sentido seria o principal motivo pelo qual os jovens desistem de suas formações, muitas vezes por se
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decepcionarem com carreiras, salários ou falta de reconhecimento. Entretanto, não seguir a carreira, muitas vezes, não é uma escolha. Pesquisa feita pelo Núcleo Brasileiro de Estágios (Nube), com profissionais nos primeiros cinco anos após a formação, aponta que, em dois anos, apenas 33% deles conseguiram trabalho na área de formação; 58% dizem que não passam nas entrevistas de emprego porque não têm experiência; e só 25% entraram na área em menos de três meses. “Queria ser comissário de bordo, viajar pelo mundo, conhecer lugares. Acreditava que um curso como esse facilitaria muito o meu desejo”, revela Pedro Paiva, em relação à escolha do curso de Turismo, porém, decepcionou-se quando viu a realidade que encontraria pela frente “As pessoas trabalham muito para ter um retorno e reconhecimento na área e ganham pouco”, informa.
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Pedro pensou que se realizaria no campo do Turismo, mas se decepcionou e mudou os planos profissionais
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CUIDAR DE SI
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Os jovens da atualidade estão imersos em um turbilhão de informações que circulam de maneira intensa na era digital, o que gera impactos. Pesquisa feita pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) indica que sete em cada dez alunos de instituições federais no Brasil sofrem de alguma categoria de dificuldade mental ou emocional, como estresse, ansiedade ou depressão. O levantamento incluiu dados de quase 940 mil graduandos, de 62 instituições, com idade média de 24 anos. Essas condições refletem no comportamento do estudante diante de suas obrigações acadêmicas e na vida em geral, principalmente quando se exige dele, socialmente, “ser alguém”, ganhar dinheiro, formar-se jovem e, embora a Universidade seja um ambiente essencial para formação do cidadão, apresenta desafios, que a professora Raissa Mikaelly Souza da Silva, 23 anos, conhece bem. Graduada em Pedagogia pela Uninassau, sua história com a educação começou na infância, brincando de escolinha, onde era sempre a professora. Quando chegou o momento de escolher o curso, tinha certeza do que queria. Apesar de encarar a faculdade como espaço de aprendizagem, encontrou desafios, sendo o maior deles o desenvolvimento de seu Trabalho de Conclusão de Curso. Embora enfrente dificuldades, a graduação, para ela, reflete no aumento de oportunidades profissionais, na possibilidade de ganhar melhores salários e no crescimento pessoal.
Raissa ama educação infantil e se realizou na profissão escolhida
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Inserida no mercado de trabalho, Raissa diz ter uma rotina bastante cansativa, mas que ama o que faz. “Trabalho, estou em duas especializações, desenvolvi dois projetos para apresentar em congresso, tenho as obrigações de casa para cumprir, estudo para concurso, estou à frente de um grupo de jovens da Igreja, e ainda tenho tempo de sair com meus amigos”, conta.
DIREITOS HUMANOS Para quem se sente pressionado, ela aconselha a cada um tirar sempre um tempo para si. “Cuide de você, saia com amigos e familiares, nunca guarde o que sente e saiba administrar o seu tempo. Nunca desista de acreditar no seu potencial, pois você consegue ir além do que imagina, tenha sempre isso em mente”, recomenda.
Anderson alerta para marcas deixadas pela pandemia na saúde mental de todos
SAMUEL FERREIRA
CUIDADO ESPECIALIZADO
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Para quem busca acompanhamento especializado, a Universidade Potiguar (UNP) oferece à população do Rio Grande do Norte o Serviço Integrado de Psicologia (SIP), com plantão psicológico, aconselhamento, psicoterapia individual e outros serviços na área da saúde mental. Segundo o coordenador de Psicologia da instituição, Anderson Andrade, a demanda é muito grande. No primeiro semestre de 2022, o SIP já realizou mais de 2 mil atendimentos, os quais ocorrem pela manhã, tarde e noite, de segunda a sexta-feira. “Atendemos crianças, adolescentes e adultos, sobre todo tipo de demanda do campo da saúde mental”, informa ele, que destaca o aumento da busca por atendimento durante a pandemia. “Nosso serviço também funcionou com modelo remoto e ficaram claras as experiências de sofrimento pelas perdas dos vínculos sociais e pelo adoecimento”, informa. O retorno às aulas presenciais gerou dúvidas e receios para estudantes e seus familiares pelo medo de contágio, levando a UNP
a realizar uma estratégia de acolhimento dos alunos. “Realizamos um plantão psicológico, que acolhe demandas espontâneas pontuais. Além disso, temos um projeto embrionário para trabalhar com grupos de alunos que estão nessa experiência de atendimento”, diz Anderson. Essa iniciativa, que acontece às sextas-feiras, ainda não atende grupos maiores, mas a expectativa é ampliá-la, para não sobrecarregar o plantão.