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Histórias de Meninas MENINAS DE SINHÁ

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Agradecemos a todas as Meninas de Sinhá que, generosamente, compartilharam conosco as suas memórias. A Célia Oliveira Fidelis que, com muita gentileza, nos recebeu e nos acolheu durante todo o período da pesquisa. Integrantes do Grupo Cultural Meninas de Sinhá, da esquerda para direita: Ephigênia, Nilva, Maria Gonçalves, Diva, Valdete, Judite, Maria das Mercês, Neide, Romancina, Joana, Maria das Graças, Bernardina, Maria Geralda, Geralda, Eva, Terezinha, Rosária, Dorvalina, Maria do Socorro, Noêmia, Domingas, Bárbara, Regina, Maria Conceição Tiago, Maria das Dores, Vanda e Maria Isabel.


Ana Maria de Oliveira Galvão Eliane Marta Teixeira Lopes Mônica Yumi Jinzenji Kelly Aparecida de Sousa Queiroz Simone Alves da Silva

Escrever a Apresentação e participar da organização de um livro sobre as Meninas de Sinhá certamente não é tarefa fácil. Afinal, as Meninas, nos últimos anos, ganharam projeção nacional, e têm seu trabalho divulgado constantemente na intensa agenda de apresentações que fazem em cidades de Minas Gerais e de outros estados por meio de turnês (em escolas públicas, em espaços comunitários, em desfiles de moda, em shows de grupos e cantores que têm visibilidade nacional e internacional), na execução do CD “Tá caindo fulô”, gravado e premiado1, na participação em shows e CDs de outros grupos, nas reportagens veiculadas em jornais de circulação local e nacional2, nos programas de rádio e de televisão em que se apresentam e dão entrevistas e na participação de suas componentes em teses, dissertações3 e em livros publicados por editoras de circulação nacional4. O grupo tem, ainda, participado de pesquisas sobre terceira idade, sobre mulheres e comunidades periféricas. As suas componentes, grande parte moradoras do Alto Vera Cruz, bairro da zona leste de Belo Horizonte5, têm sido convidadas a conceder entrevistas, fazer apresentações em diversos espaços e a participar de projetos comunitários em parceria com entidades governamentais e não governamentais. Mas, talvez, o que torne ainda mais difícil essa tarefa seja o fato de este livro ter surgido do próprio desejo de suas componentes, durante uma pesquisa realizada com elas, no período de agosto de 2007 a dezembro de 2009, por uma equipe da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais6. Ao elaborá-lo, com a participação ativa do grupo, questionávamo-nos a todo momento: será que o livro conseguirá, de fato, expressar o que foi, pelo menos em suas memórias, a vida de cada uma delas? Será que, ao verem e lerem o que foi dito e gravado e fotografado, se sentirão felizes? O desafio que se colocava para o grupo de pesquisadoras era compreender que espaços de socialização foram mais significativos, ao longo das trajetórias de vida (principalmente na infância) dessas mulheres, hoje componentes do grupo, em seus processos de formação. Afinal, muitas delas não frequentaram a escola e, se na atualidade, a relação entre socialização, formação e instituição escolar parece óbvia e direta, certamente não o foi para essas mulheres – de meios populares, moradoras da peri-


Valdete da Silva Cordeiro (Fundadora do Grupo Meninas de Sinhá e Líder Comunitária do Alto Vera Cruz)

O grupo Meninas de Sinhá foi fundado há quase 15 anos. Eu passava todo dia, quando ia trabalhar, em frente ao posto de saúde do Alto Vera Cruz. As mulheres saíam do posto cheias de sacolas. Sacolas de remédios, de antidepressivos. Isso me entristecia muito e me fazia pensar: como uma pessoa toma tanto remédio? Então, comecei a observar e a conversar com essas mulheres, que me diziam: “Eu tomo esses remédios porque eu sinto uma dor aqui dentro, eu sinto uma angústia, uma tristeza.” Comecei a notar, assim, que as mulheres não eram doentes. Elas precisavam melhorar a autoestima, elas precisavam cuidar mais delas mesmas. Eu voltava para casa preocupada: eu tenho que fazer alguma coisa por essas mulheres, mas não sabia o quê. Fiquei pensando e, então, comecei a convidar realmente as mulheres para bater papo, porque eu pensava que, quando uma contasse a vida dela para a outra, ia pensar: “ih, a vida dela é pior do que a minha”. Houve muita resistência, elas me diziam: “sentar pra bater papo? Eu tenho tanta coisa pra fazer em casa, estou com um tanque de roupa pra lavar, tenho um tanto de roupa pra passar... Eu não tenho tempo pra isso”. No início, foram somente três: nós sentamos à tarde e ficamos batendo papo. Aos poucos, outras começaram a vir. Depois, eu resolvi fazer trabalhos manuais com elas. Uma passava para a outra o que sabia fazer: tapetes, fuxico, bichinhos, bonecas. Era uma distração e elas ganhavam um dinheirinho com a venda do que faziam. Nessa época, há 22 anos, o grupo se chamava Lar Feliz. Mas as mulheres continuavam a tomar os remédios: “eu tenho que ir embora porque estou atrasada pra tomar o meu remédio”. Eu pensava: quero que essas mulheres parem de tomar esses remédios, porque elas chegavam lá tão dopadas, meio abobadas de tanto remédio que tomavam. Pensei: ainda não descobri o que elas têm, mas sei que não é de trabalho manual que elas precisam. Eu estava tirando essas mulheres de casa, elas já trabalhavam o dia inteiro e iam aos encontros para trabalhar de novo. Não era isso que resolveria os problemas. E fiquei novamente sem saber o que fazer. Então, teve o projeto Ação Global no bairro, na Escola Municipal Israel Pinheiro. Eram várias atividades ao mesmo tempo: dentista, cabeleireiro... Tinha também uma sala


Valdete da Silva Cordeiro nasceu em Barra, oeste da Bahia, em 1940. Quando ainda era muito nova, seus pais faleceram de tuberculose. Foi, então, criada por aquela que viria a ser sua madrinha de crisma, que era costureira, e por seu marido, que era contador. Aos cinco anos, mudou-se, com a família adotiva, para Pirapora, norte de Minas Gerais. Dessa época, Valdete guarda poucas lembranças. a mais viva é a de que gostava de brincar na praia do rio São Francisco. Alguns anos depois, a família mudou-se para Belo Horizonte. Valdete passou toda a sua infância no bairro Funcionários, região central da cidade. Fazia as compras da família e ajudava no serviço de casa. Nessa época, brincava com as crianças da vizinhança, muitas delas filhas de pessoas influentes na sociedade: de casinha, de carrinhos de lata, de teatro, de recitar, de roda, de escolinha, de esconde-esconde, de pegador, de índio, de fazer o testamento do Judas, de fazenda, de patins, de boneca e de Papai Noel – feito por ela mesma com retalhos de pano e com caroço de manga. Gostava também de ouvir histórias contadas pelas empregadas dos vizinhos, de ir ao Parque Municipal, de ir a festas de aniversário e de assistir a um programa de auditório para crianças na Rádio Inconfidência. Ia à missa aos domingos e participava das festas católicas, como as de coroação no mês de Maio. Lembra-se dos bondes que, na época, circulavam em Belo Horizonte. Sem o apoio da família, por iniciativa própria, pois era “doida para entrar na escola”, frequentou, até o segundo ano primário, o Grupo Escolar D. Pedro II. Dos tempos da escola, recorda-se da professora, dos personagens do livro que iam “visitar” os alunos, do recreio, da merenda e da facilidade que tinha para aprender. Lembra-se de que era uma menina muito levada, vivia fugindo de casa, pois se sentia um pouco rejeitada. Quando tinha nove ou 10 anos, depois de uma dessas fugas, acabou ficando na casa onde foi encontrada, para tomar conta de uma criança, mas não se adaptou. A família adotiva, então, resolveu colocá-la em um internato feminino situado em outro bairro, dirigido por freiras, mas nunca foi visitá-la. Lá, aprendeu a bordar e a costurar, ia à missa, participava das procissões e fazia muitas “molecagens”. Quando atingiu a idade limite para continuar no internato, Valdete voltou à casa da família


Bárbara Severina da Mata nasceu em Raul Soares, na Zona da Mata de Minas Gerais, em 1954. De sua infância, vivida no povoado de Santa Fé, lembra-se do trabalho na roça, das brincadeiras de roda e de pique, da boneca de pano que a mãe fazia, do boneco de papelão que se desmanchou na água, das coroações de Nossa Senhora e das distâncias que tinha que percorrer para assistir às missas aos domingos na cidade. Sua mãe gostava de contar histórias na beirada do fogão à lenha. Sua avó era rezadeira e muitas vezes reunia as pessoas para subir até o alto do morro, onde havia um cruzeiro. Ela, com suas amigas, gostava de brincar de cantar versos, inventados na hora. Da escola que frequentou durante três anos, recorda-se da merenda, das brincadeiras no caminho, da tabuada, da cartilha do ABC, do compêndio, dos deveres de casa, do embornal, da braveza da professora – que dava beliscões, puxava a orelha, gritava e usava a régua para bater nos alunos – e das dificuldades que enfrentava para ter o material escolar. Mudou-se com a família para Belo Horizonte com cerca de 10 anos e foi trabalhar em casa de família. Ainda muito jovem, casou-se; teve oito filhos. Entrou no grupo Meninas de Sinhá convidada por uma vizinha quando enfrentava uma depressão. Atualmente, não mora mais no Alto Vera Cruz, o que tem dificultado a sua participação nos ensaios e nas apresentações. Bárbara diz sentir-se muito sozinha por não poder frequentar o grupo como antes.


Geralda Rosa da Silva nasceu em 1919, na comunidade rural de Piedade Geral, em Ponte Nova, Zona da Mata de Minas Gerais. Foi criada pelo pai e, ainda muito cedo, trabalhou na casa dos tios e, depois, da avó: tratava dos porcos, cuidava da lavoura, cortava e moía cana, torrava café e cozinhava. Aos nove anos, começou a trabalhar em uma fazenda, onde plantava horta, roçava a terra para plantar arroz, quebrava milho, colhia e batia feijão, cozinhava para os trabalhadores, lavava a roupa e fazia outros serviços de casa. Enquanto trabalhava na roça, cantava e inventava versos. O pai não quis que ela frequentasse a escola, pois poderia atrapalhar o serviço na roça e aprender a escrever carta para o namorado. Nessa época, um dos poucos lugares que frequentava era a Igreja que ficava a cerca de cinco léguas do lugar onde morava. Geraldina pertencia à irmandade do Sagrado Coração de Maria e gostava das coroações do mês de maio. Na fazenda, lembra-se das festas da igreja e das danças do batuque. Com 16 anos, casou-se e teve duas filhas. Depois se separou, migrou e para Belo Horizonte, para o Alto Vera Cruz, onde começou a trabalhar em casas de família. Casou-se novamente e teve uma filha. Entrou no grupo Meninas de Sinhá porque se identificou com as saias rodadas, com as músicas, com a alegria. D. Geraldinha participa do grupo ativamente e é conhecida por sua vitalidade, pelas histórias engraçadas e “assanhadas” que conta e inventa sobre o amor.


Joana d’Arc Coutinho nasceu em 1961, no Alto Vera Cruz, em Belo Horizonte, em uma família de 12 filhos. Da infância, lembra-se de buscar lenha e água de madrugada, em uma época em que o bairro era conhecido como Alto do Minério e não tinha nenhuma infraestrutura, como eletricidade, por exemplo. Aos sábados ia com os irmãos ao Mercado Central para tentar conseguir algo para comer que não fosse angu, canjiquinha e feijão. Estudou até a 7ª série na Escola Estadual Necésio Tavares, mas teve muitas dificuldades, principalmente, porque sofria de glaucoma e porque precisava trabalhar. Em casa, brincava de pular corda, de queimada e de rouba-bandeira; na escola, de roda. Durante esse período, foi apadrinhada por norte-americanos de uma entidade que promovia diversas atividades com crianças pobres brasileiras. Nessa época, gostava de ouvir rádio, principalmente músicas e novelas, já que a família não tinha condições de comprar televisão. Gostava de ir aos bailes, ao som dos sanfoneiros ou das vitrolas a pilha e à luz das lamparinas, que aconteciam nas casas do bairro. Com 14 anos, começou a trabalhar em casa de família. Trabalhou também para políticos em época de eleição; como vendedora e caixa, no comércio; como faxineira e gari. Gostava de sair para dançar nos clubes, de ir ao cinema e de viajar com o namorado. Saiu de casa com 22 anos. Ficou noiva duas vezes, casou-se e tem uma filha e quatro netos. Hoje, gosta muito de cozinhar e de escrever – versos e cartas. Depois que se separou do marido, sentindo-se muito sozinha, começou a participar do grupo Meninas de Sinhá com 42 anos. Apesar de não ser da “terceira idade”, sente-se muito bem entre as colegas mais velhas e tem muito orgulho quando seus sobrinhos e netos assistem às apresentações.


Barra - BA G nuária - M mparo / Ja A o d jo re B ros - MG ontes Cla M / la e b a Patis / Mir G Ataléia - M o Norte / d z ru C ta MG San aladares ernador V v o G / i m Itanho lis - MG Virginópo / s a in M dia de Divinolân MG Peçanha lis - MG Virginópo erro - MG Minas / S e d a d ra Alvo uim - MG Dom Joaq uita - MG íso / Mesq ra a P o d Santana G Itabira - M nte - MG Belo Horizo ei - MG João Del R o ã S / a ost Rezende C - MG Ouro Preto G Canavial / riana - M riana / Ma a M e d Furquim MG Mariana oncelos / sc a V o g io D ova - MG l / Ponte N ra e G e d a Pied eiras - MG Ubá / Teix Divino de eiras - MG Anta / Teix Pedra do MG / Jequeri Piscamba s - MG Raul Soare - MG anhuaçu onésia / M im S e d a Barr MG Mutum us - ES São Mate


Este livro tem origem no sonho de várias Meninas de terem suas histórias registradas, para que elas pudessem mostrar, principalmente a seus filhos, netos e bisnetos, de onde se originaram e como se tornaram Meninas de Sinhá. Ao registrar histórias de infância que tradicionalmente somente circulam na oralidade, este livro certamente trará contribuições para a preservação da memória do nosso patrimônio imaterial e dará visibilidade para a importância de processos e instâncias de formação cultural não escolares nas trajetórias de vida de mulheres negras, de meios populares e, em sua maioria, originárias “da roça”. O que está contado neste livro é apenas uma versão, entre tantas possíveis, do que foi a vida de cada uma delas.

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Histórias de Meninas MENINAS DE SINHÁ by Sylvia Vartuli - Issuu