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1 Mobilização em todos os andares Treze anos depois. Bigtoe Square. Londres. Oksa abriu caminho entre as caixas de papelão da mudança, tentando, de um jeito ou de outro, chegar até a janela do seu quarto. Levantou a veneziana e apoiou o nariz no vidro frio. Hesitante, tentou prestar atenção na agitação matinal que reinava na pracinha. Deu um profundo suspiro. — Bigtoe Square... Vou ter que me acostumar... — murmurou, com os olhos acinzentados, cor de ardósia, perdidos no vazio. A família Pollock — primeira, segunda e terceira gerações — tinha trocado Paris por Londres alguns dias antes, por algo que parecia não passar de um capricho de Pavel Pollock, pai de Oksa. Após horas de discussões, das quais Oksa não participou, Pavel oficialmente anunciou a notícia, com sua habitual gravidade: por dez anos ele ocupara o cobiçado cargo de chef de cozinha de um conhecido restaurante parisiense, mas agora, finalmente, surgira a oportunidade de abrir o seu próprio restaurante. Em Londres. Esse pequeno detalhe foi revelado com um tom quase anódino e, na hora, Oksa achou não ter entendido bem. — Você quer dizer... Londres... na Inglaterra? — ela perguntara, após alguns segundos de dúvida. O pai concordou, com visível satisfação, mas completou, ao ver o quanto ela estava surpresa: é claro, se a esposa e a filha rejeitassem completamente a ideia de se mudar, ele respeitaria essa decisão... Mesmo que, com isso, perdesse uma oportunidade tão sonhada. — Uma oportunidade que só se apresenta uma vez na vida de uma pessoa! — insistira, de forma veemente. Marie Pollock não perdeu muito tempo pensando: o marido andava muito tenso e uma mudança radical provavelmente seria boa para toda a família. Quanto a Oksa, o que ela podia dizer? Aos 13 anos de idade, ninguém decide nada. Ela 11


realmente não tinha a menor vontade de sair de Paris e menos ainda de deixar a avó e o melhor amigo, Gus. Nunca podia viver sem eles. Mas, quando os pais contaram que Dragomira e a família Bellanger também iriam para Londres, Oksa pulou de alegria. Todos que ela amava estavam incluídos na aventura! Tendo observado, distraída, o movimento em volta da pracinha, Oksa saiu da janela e se virou para o quarto. Com as mãos na cintura, olhou ao redor e deu um assobio. — Pfffffff... Que bagunça! Vou precisar de meses para abrir tudo isso! Francamente... Em cada cômodo, dezenas de caixas invadiam o pouco espaço que os móveis haviam deixado livre. Os cômodos, justamente, eram menores que os de Paris, mas os Pollock tinham tido a sorte incrível de achar uma casa vitoriana, tipicamente inglesa, de tijolos vermelhos, com a entrada acima do nível da rua, um bow-window e um microscópico pátio, com uma grade de ferro fundido que deixava que se vissem as janelas do subsolo. Oksa e os pais ficaram com os dois primeiros andares e a avó, Dragomira, com o terceiro, pois eles sempre haviam morado juntos, pelo menos até onde chegava a lembrança de Oksa. Ela ergueu os olhos para o teto. — O que será que anda fazendo Baba? Pulando corda ou o quê? Bom, é melhor que eu me arrume, se não quiser chegar atrasada! — lembrou-se, abrindo o armário. Chegar atrasada no primeiro dia de aula, realmente, era só o que faltava! O fim do mun-do... No andar de cima, onde morava Dragomira Pollock, o ambiente parecia bem menos comum. Reinava uma absoluta desordem na sala, entulhada de objetos e com as paredes cobertas por panos em que prevaleciam as tonalidades marrom e dourada. Semeavam a confusão umas criaturinhas mágicas, cada uma mais irrequieta que a outra. Uns minúsculos passarinhos dourados pareciam ser os grandes culpados por toda aquela bagunça... Depois de alegres volteios de aquecimento, em torno dos pingentes do lustre, eles desceram abruptamente, a pique, como aviões de caça, para atacar uma espécie de batatona cheia de ondulações, que caminhava pelo tapete de lã púrpura. — Abaixo a ditadura dos gastrópodes! — foi o grito de guerra dos pássaros minúsculos. — Não podemos mais aceitar viver sob o seu jugo! Lutemos bravamente contra o imperialismo molusco, companheiros! — Hei! Posso até ter as pernas curtas, mas não sou nenhum molusco! Sou um Getórix! Basta ver a formidável cabeleira que eu tenho — retrucou a criatura, estufando o microtórax e lançando de lado a citada cabeleira. 12


— Soooooltem as bombas! Viva a libertação do povo oprimido! — foi a resposta dos passarinhos. E com esses brados de guerra, despejaram seus perigosos obuses, ou seja, uma dezena de grãos de girassol que se abateram nas costas do assim denominado Getórix. — Se isso for um povo oprimido... — resmungou ele, catando os grãos para comê-los. As plantas, muito sensíveis a esse tipo de agitação, tremelicavam freneticamente nos vasos, soltando gemidos. Dependurada numa mesinha de canto, com douraduras escuras, uma delas, a mais nervosa de todas, tinha as folhas murchadas ao longo das hastes e parecia estar com frio. — VAMOS PARAR COM ISSO! — berrou Dragomira. — Olhem em que estado vocês deixaram a Goranov! A velha senhora prendeu entre as pernas o amplo penhoar roxo de veludo e se ajoelhou no chão. Cantarolando uma melodia suave, massageou as folhas da planta aterrorizada, que lançava patéticos suspiros. — A continuar assim — acrescentou, olhando severamente para os semeadores de desordem —, vou ser obrigada a enviá-los para o meu irmão. E vocês sabem o que isso significa: uma LONGUÍSSIMA viagem! Ouvindo a ameaça, criaturas e plantas imediatamente se calaram. Todas guardavam a mais dolorosa recordação da última delas, quando Dragomira resolvera aquela mudança precipitada — e que a todas parecera totalmente absurda. Pois era geral o pavor que inspiravam os meios de transporte. Trem, navio, avião, carro: invenções demoníacas destinadas a revirar o coração e o estômago... Os passarinhos tinham vomitado quase o tempo todo e a clorofila das plantas azedara, como se fosse leite estragado: por pouco não as envenenara. — Todos para o ateliê! — ordenou Dragomira. — Vou ter que sair, hoje é o primeiro dia de aula da minha neta. Meus Foldingodos, por favor, me ajudem! Duas criaturas extravagantes, vestidas com macacões azuis, vieram rápido, saltitando. Uma era gorducha, com o alto da cabeça coberto por uma penugem, e a outra esguia, ostentando um topete amarelo-limão. Mas tinham em comum algumas singularidades: pequena estatura — 80 centímetros —, rosto arredondado e imensos olhos azuis em que se podia perceber a mais absoluta solicitude. — As ordens de nossa Graciosa são um eterno prazer, que ela esteja certa de nosso apoio e de nossa constância — disseram as duas, com toda a seriedade. 13


Dragomira se dirigiu a um enorme estojo de contrabaixo colado à parede de fundo da sala. Puxou a tampa: estava vazio. Espalmou a mão no fundo de madeira. A parte de trás do estojo imediatamente se abriu como se fosse uma porta. Dragomira se encolheu e entrou, chegando à escada de caracol que levava ao sótão-ateliê. Os dois Foldingodos a seguiram docilmente e pegaram, cada um, uma planta, empurrando também as demais criaturas, e o grupo inteiro atravessou a estranha passagem. Depois de toda essa gente já estar no ateliê, Dragomira fechou o estojo de contrabaixo atrás dela.

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Oksa Pollock - Livro Um  

Primeiro livro da saga Oksa Pollock

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