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“Propriedade é Roubo!” Pierre-Joseph Proudhon


Sumรกrio


Sobre a historia e prática da pichação A pichação é uma manifestação ruidosa de palavras e imagens que tomam a arquitetura urbana como suporte. Assim como a maioria dos movimentos estilísticos considerados de vanguarda, sua origem permanece imprecisa e incógnita, e sua definição transita entre os limiares da arte expressiva, da caligrafia, do desenho e da mistura constante entre tipos, sinais, símbolos e representações que se mostram muitas vezes de maneira codificada, criptografada e inacessível ao receptor leigo, ou não iniciado em seus meandros e códigos internos. Pode-se considerar a pintura rupestre, os hieróglifos e inscrições similares presentes em inúmeros períodos e culturas orientais e ocidentais como uma forma tradicional e ancestral da pichação em muros ou paredes do cenário urbano, sendo assim os antigos habitantes da Serra da Capivara os primeiros pichadores brasileiros de que se teve notícia, afinal lá se encontram as evidências arqueológicas primordiais do registro de civilização em continente americano, comprovados por técnicas de datação precisas, e o uso de pigmentos naturais, com o intuito de preservar uma memória, datados de dezessete mil anos atrás. O curioso é que uma prática que expressada em desenhos de poucos traços cavados em paredes de arenito é tratada com aura transcendental, preservada como patrimônio histórico e uma forma de expressão urbana tão similar em inúmeros aspectos é absolutamente desprezada, coibida e tratada como ação criminosa se feita em propriedade alheia.Vale lembrar que a grande

maioria dos processos criminais relativos a prática são arquivados e absolvidos mesmo em caso de reincidência e é de praxe que a condenação só aconteça eventualmente, com certa exclusividade aos praticantes que picham paredes de instituições e órgãos públicos, ou empresas estatais. As reações a pichação diferem, sendo o sentimento de ódio e repulsa uma constante para as pessoas que não a praticam. Recorrentemente adjetivada de grotesca, suja, agressiva e fruto da falta de educação e ignorância, é inegável que na pichação paulistana, atualmente reconhecida como movimento regional, singular e raramente mimetizado com competência fora de São Paulo, haja uma estética de valorização ao que é agressivo, obtuso e pareça uma mancha de sujeira na irregular arquitetura urbana paulistana. Recentemente isso se evidenciou ainda mais, principalmente após a implementação do projeto “Cidade Limpa” que está regulamentado desde o dia primeiro de janeiro de 2007, de acordo com a lei número 14.223. A nova legislação obrigou a remoção de outdoors, proibiu locações de muros e terrenos para os adventos publicitários, penalizou proprietários que infringem as normas de concessão do espaço mobiliário urbano, especificou dimensões proporcionais as placas de sinalização comerciais e passou tons de tinta cinza por gigantescos muros públicos nas áreas centrais da cidade de São Paulo. Diante desta tentativa de instaurar práticas comuns do “estado de bem-estar social”, a reação dos pichadores foi de comemoração


e desdém, visto que isso criou maior possibilidade de espaços para eles encaixarem seus grafismos, e as extensões de túneis e grandes avenidas, antes já preenchidas e tomadas de pichações e grafites, se transformaram num suporte vazio, como uma tela em branco para o pintor, ou uma nova folha para o escritor. Muitos praticantes da pichação inclusive adicionaram frases de ironia e agradecimento a atual prefeitura da cidade, como: “Valeu Kassab” e “Passa o cinza que eu volto!”. De certa forma essa disputa se exacerbou de tal forma, que hoje os muros que rodeiam os grandes centros financeiros da cidade são alvo de uma disputa de poder entre a força monetária das subprefeituras e seu desespero de manter as paredes limpas e o desafiador e incontrolável impulso do pichador em quebrar a ordem e a limpeza urbana. No processo criativo do pichador, mesmo que de forma inconsciente e intuitiva estão embutidas práticas, processos e modos de operação semelhantes aos das criações de desenhistas, poetas, artistas gráficos e profissionais publicitários, como a criação de slogans, acrósticos, logomarcas e a disseminação viral e epidêmica de sinais e símbolos com o intuito de demarcar e obter reconhecimento no território local e posteriormente expandir e estender o público espectador. Isto se realiza de forma deliberada e extremamente competitiva, em suportes variados como muros, paredes, fachadas, beirais, laterais e topos de prédios, sejam eles comerciais ou residenciais, pontes, viadutos, túneis, muros extensos de contenção de grandes avenidas e rodovias, portões de aço, ferro, portas de vidro, madeira,

telhados, galerias subterrâneas, trens, ônibus e seus respectivos espaços internos, caçambas de entulho e automóveis abandonados em via pública. As ferramentas vão desde as mais variadas formas de tintas e pigmentos que tenham boa resistência e durabilidade, não importando a cor, com preferência óbvia as latas de spray. Outra característica constantemente associada ao grafite brasileiro e que faz parte do arsenal do pichador é a tinta látex, mais acessível e maleável para mistura de cores e adição de reagentes químicos que dificultem sua remoção, que são aplicadas com rolos de diversos tamanhos, muitas vezes acoplados a cabos extensores para alcançar espaços menos acessíveis através de escaladas e invasões. Alguns ainda usam métodos modernos e ousados como a instalação de cabos de aço nas mesmas estruturas de ganchos e cadeiras de rapel, normalmente usados para limpeza e pintura de fachadas. Até o uso de pedras e metais para riscar vidros de ônibus e trens é aceito e bem propagado entre os praticantes. A pichação como conhecemos hoje, difere muito da praticada antigamente, marcada por frases de protesto político, ironias e escárnio com figuras públicas e celebridades, divulgações comerciais, e até de candidatura a cargos no governo. Sua tipografia se consolidou de forma verticalizada, mutante e versátil. Com e sem uso de serifas, acoplando diferentes signos e símbolos, e códigos que abrigam várias pichações em um só grupo, definidos como grifes. Esses são alguns dos pequenos detalhes de linguagem que passam despercebidos ao espectador que a enxerga de forma leviana, e as-


sim ela se torna uma forma de comunicação que se retro-alimenta, e de características extremamente fechadas, pois muito além de comunicar aos que nela se inserem o importante é o reconhecimento, a aprovação social dos que se abrigam e se agregam nessa manifestação em comum. Existem diversos tipos de pichadores, e da mesma forma inúmeros gêneros de substantivos e alcunhas são utilizados para nomeá-los. A forma mais freqüente são os grupos, normalmente não muito abrangentes. A um título de pichação, tenta-se restringir uma estrutura quase genealógica, e seus membros são geralmente recrutados pelos fundadores do grupo. Há códigos de ética, normas de conduta a seguir, e isso se estende a cada nova grife que os pichadores aderem ou abandonam. Os que infringem essas leis internas são dispensados e proibidos de assinar novamente, e se persistem nos erros, ou atropelarem deliberadamente outras pichações podem começar brigas e até guerras entre grifes rivais. Os conflitos são como de grupos criminosos existentes nas metrópoles urbanas ao redor do mundo, mas o fato que chama a atenção é que difere dos grafites de gangue da cidade de Los Angeles por exemplo, onde os clãs usam letras góticas para demarcar território e impor respeito. Aqui a estrutura é de competição e sobretudo de lazer, porém o desrespeito ao espaço comum de informação é a causa das intrigas e brigas. As conseqüências desse estilo de vida são inúmeras, existem diversos pichadores que foram presos roubando tintas, ou ferramentas para pichar, que ganharam fama e notoriedade por agredir, roubar

e inclusive matar rivais, apesar do assassinato ser condenado e evitado ao máximo pelos próprios pichadores caso o motivo seja apenas uma rinha motivada por competição interna referente a pichação. No entanto, a prática indiscriminada de tentar estereotipar o pichador é equivocada. Inoportunamente tacha-se o pichador como um elemento à margem da sociedade, ignorante político ou artístico, vândalo ou rebelde; tais adjetivos nem sempre dão conta de definir o conceito do pichador, muito menos suas ambições e motivações que o posicionam em tal prática. Os pichadores não se reúnem por conta de um gênero musical, são das mais diversas classes sociais, alguns são usuários e traficantes de drogas, outros não. É comum perceber nos points de pichação um clima de união, fraternidade e principalmente respeito. Há o intercâmbio de folhas de papel, nas quais uns colecionam inscrições dos outros, dessa forma disseminando seus nomes e distribuindo e divulgando seus próprios grupos. Alguns deles saem para pichar após cheirar cocaína, fumar maconha, crack, haxixe ou baforar cola e outros inalantes, outros ingerem álcool, e fazem diversas misturas explosivas de bebidas baratas, como refrigerantes, combinados a pinga, rum, conhaques e vodka de baixa qualidade. Uns escolhem uma das drogas, consumem mais de uma, todas combinadas e é recorrente a total comunhão delas. É ingênuo e preconceituoso crer que todos eles agem dessa forma a todo tempo, muitos picham totalmente sóbrios através das madrugadas, picham aos domingos, depois de almoçar em família, sozinhos, antes ou depois de ir ao trabalho. Apesar da intenção de agredir e violentar os muros da cidade, o clima entre eles,


usualmente, é de diversão e a ação funciona como passatempo que proporciona aventura, adrenalina, fama e até um tipo de poder local. Muitas garotas que frequentam as festas de pichação querem estar com grandes pichadores pelo simples fato de reconhecerem nele um gênero de artista expressivo e incompreendido por alguns, porém muito admirado em seu gueto. Diversos atributos da pichação contemporânea lhe tornam uma manifestação genuinamente paulistana e a difere das outras formas que levam a mesma alcunha no resto do Brasil e ao redor do mundo. As antigas frases de protesto político, jogos poéticos e lúdicos agora apenas adornam os rodapés dos grandes títulos locais. Os tipos, que reproduzem a verticalização dominante das grandes metrópoles aparecem com ou sem serifas e os sinais, símbolos e representações gráficas usados nas mais diversas culturas globais ganham novos significados e utilidades, o que a configura como uma linguagem inovadora e ininteligível aos que dela não participam. As origens dessas letras remetem a profusão de bandas de rock and roll que influenciaram e permeavam o imaginário da juventude da cidade entre os anos 60 e 80. Capas de álbum de bandas como Slayer, Led Zeppelin, Iron Maiden, Pink Floyd e Motorhead foram a inspiração inicial, para os pichadores que transpuseram tais referencias no estilo caligráfico que caracteriza o movimento desde então. No caso dos adornos e informações adicionais que rodeiam as letras, usam-se cruzes, símbolos de paz, anarquia, figuras animais, números, asteriscos e pontos combinados, que podem signifi-

car grifes que reúnem grupos de picho em outros nichos e assinaturas individuais. Muito se contou sobre o espírito revolucionário e contestador dos pichadores espalhados por São Paulo durante essas décadas, e o tema é recorrentemente abordado de forma superficial, o que acaba atribuindo aos pichadores a centelha maligna de gangues de marginais desprovidos de senso estético e educação, que não deviam merecer respeito nem ser considerados artistas incompreendidos. Outro aspecto freqüentemente associado e atribuído a pichação é seu caráter de vandalismo. Acusa-se os pichadores de depredar o patrimônio alheio de forma gratuita, ou por rebeldia sem motivo, e já é impossível falar de pichação sem anexar esse termo a ela. Não se pode negar que há o aspecto agressivo, destruidor e extremamente violento nessa prática, e que essas ações valorizam e prejudicam o valor monetário e estético das construções, seja qual for seu estilo arquitetônico. O picho invariavelmente provoca imenso repúdio e reprovação da sociedade que não apenas não tem nenhuma receptividade com a prática, como se sente ultrajada e incomodada com tal excesso de informação agrupado caoticamente nos suportes que a cidade proporciona. Ainda assim, se a intenção fosse apenas depredar ou destruir, sem dúvida postes de sinalização, iluminação, lixeiras, e outros objetos que fazem parte do cenário urbano seriam depredados com mais afinco. O princípio básico da pichação é o registro momentâneo de um acontecimento. A ação é rápida e pensar em picho permite um jogo poético com verbos de ligação, no qual ser é permanecer e pertencer e per-


manecer num espaço é o preciso para ficar e continuar. Algo parecido com o registro fotográfico, ou com as ferramentas cibernéticas de livre acesso que disseminam rumores, notícias e pensamentos em alta velocidade e empestearam a rede mundial de computadores nos últimos anos. Pichar é uma forma de escrita urbana ininteligível para o cidadão comum, e beira a unanimidade de reprovação, alguns praticantes afirmam que estão no movimento apenas por diversão, outros consideram o que fazem uma boa forma de cobrar o que a sociedade não lhes oferece, transporte, saúde, educação. Dessa forma podem protestar as oportunidades, chances e facilidades que pra uns são abundantes, e para o jovem da periferia parecem fora de alcance. Assim podem se apropriar do espaço público e da propriedade privada aos quais não tem acesso. A sensação de necessidade de urgência de soluções repentinas, presença de habitantes aflitos, suscetibilidade as invasões de privacidade e propriedade, estresse cotidiano e a poluição visual são aspectos das metrópoles subdesenvolvidas as quais o paulistano está acostumado e que é transposta violentamente ao mobiliário urbano e ainda que haja uma imunidade a certas convicções ideológicas que para eles justificam essas atitudes, é inegável que pichar é efetivo e impactante. Num centro urbano a beira do colapso com seu tráfego caótico, saúde, educação e segurança pública em frangalhos, corrupção recorrente em todos órgãos políticos, operações e negociações fraudulentas, sindicatos trabalhistas envolvidos com organizações criminosas e construções irregulares a pichação pode até contribuir para o mal-estar social, mas está distante de ser prioritária para a manutenção de uma melhor organização e convivência urbana.

Fazer sujeira, ser considerado grotesco, e imundo traz orgulho a quem picha, acomete relevância a uma postura ilegal e imoral, afinal incomodar é sem dúvida a principal intenção. A pichação é extremamente suscetível a ação do tempo, e pode sumir com facilidade mas já não é possível de ser apagada da memória da cidade a curto prazo, pois sua velocidade e capacidade de se renovar parece superar a freqüente limpeza e remoção das marcas nos muros em que elas aparecem, além dessas inscrições já fazerem parte do inconsciente coletivo urbano e do acervo de profusão de cultura marginal da cidade. Ultimamente, com tanta exposição na televisão, revistas e jornais a pichação está sendo absorvida gradualmente pela indústria cultural, apesar de ainda ser vista como contracultura. Só o fato de haver teóricos, fotógrafos, jornalistas, grafiteiros, especialmente artistas plásticos e designers gráficos de diversas nacionalidades, que a admiram, já a faz perder boa parte de sua autenticidade e tradição como prática subversiva e regionalista. Essa exploração e evidência sobre o tema nos meios de comunicação pretende revelar os infortúnios dos praticantes, meandros de seus grupos, e o peculiar estilo caligráfico. Esses fatores lhe atribuem o valor cultural que ela refuta em aceitar e o lançamento de um documentário específico sobre o tema na trigésima terceira Mostra Internacional de Cinema em São Paulo contribuiu para a divulgação e debate internacional. Este livro propõe uma jornada fotográfica pela pichação onipresente na região central e nos quatro pontos cardeais da cidade de São Paulo, e assim pretende revelar a sensação de quem é espectador de um fenômeno tão aparente na rotina paulistana, ao qual basta estar na rua e olhar em qualquer direção que não ao chão para não se sentir indiferente.


Zona Sul


Zona Norte


Zona Oeste


Zona Leste


Centro


SPIXO  

spixo, é um trabalho de conclusão de curso do ano de 2009 de Comunicação e Multimeios da PUC-SP; documenta a pixação.

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