Refúgio
Edição: Edições Partenon ® Título: Refúgio Autor: Abílio Tavares Design de capa: Jorge Tavares Conceção gráfica: Patrícia Andrade Paginação: Sítio do Livro 1.ª Edição Lisboa, Março de 2015 ISBN: 978-989-99291-5-9 Depósito legal: 389959/15 © Abílio Tavares PUBLICAÇÃO:
Rua da Assunção, n.º 42, 5.º Piso, Sala 35 1100-044 Lisboa www.sitiodolivro.pt
Abílio Tavares
Refúgio
Aos meus dois heróis de Hoje Jorge Vicente e Hugo Emanuel e À Idalina com quem partilho os meus problemas todos os dias
Prefácio Entendo que o convite para prefaciar um livro deveria ser feito a alguém que reunisse um certo número de condições muito próprias que, conscientemente, tenho de admitir que não possuo. Mas não posso deixar de me sentir lisonjeado pelo convite, pois, não possuindo esses requisitos, alguma importância terei na vida ou na opinião do autor para me incumbir de levar a cabo esta tarefa. Reconhecendo, então, que não reúno as condições ideais para prefaciar o livro, porque aceitei fazê-lo? Antes de mais, porque nos une uma relação de amizade e porque, desde há muito, partilhamos não apenas a amizade, mas o gosto comum pela poesia e pela tertúlia poética. Aceitei também, e talvez acima de tudo, pelo facto de sentir que carrego alguma responsabilidade por, em diversas e diferentes alturas, ter incentivado o autor a publicar os poemas que ora constituem este livro e que, pelo menos uma parte deles, guardava ciosamente na gaveta, há anos, se não há décadas. O “Refúgio”, título pelo qual o autor designou esta obra, e que vem agora a público, é-nos apresentado em três partes.As duas primeiras, numa estrutura formal mais clássica, representam a maior parte dos poemas deste livro, alguns dos quais remontam ao tempo em que o autor demandou terras de África, cumprindo o serviço militar obrigatório. Refletem, como não podia deixar de ser, um sentimento de saudade e nostalgia, aqui e ali pontilhados de revolta (veja-se, a exemplo, o poema “Menino do Mundo”). A terceira parte constitui uma incursão no mundo da poesia mais contemporânea, a que o autor intitulou de “Devaneios” e onde o aspeto formal se concretiza em completa rebeldia, irreverência e liberdade. “Refúgio”, como o nome indica, é, em suma, isso mesmo, o lugar solitário onde o autor se encontra consigo próprio e desabafa, de uma forma sentida e poética, por vezes dolorosa, os sentimentos e as emoções que as marcas de
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uma vida, nem sempre fácil, lhe suscitam. Vida marcada por vicissitudes várias que, decididamente, influenciaram a sua poesia. Assim, não espere o leitor encontrar poemas cor-de-rosa onde a vida, o homem e a sua relação com o mundo são vistos pelo prisma caleidoscópico do otimismo. Ao contrário, pulsa, na maioria dos poemas, um sentimento de fatalismo, um ressentimento magoado e uma ideia de revolta pelas injustiças que a vida sempre comporta. (veja-se, a exemplo, os poemas “Casa no Deserto” ou “Inconstância”).Sentimentoscomunsaocomumdosmortaisequeassumem aqui, na primeira pessoa, uma força e um vigor intensos, que não deixarão de constituir um motivo de reflexão sobre o mundo em que vivemos e das vidas que todos, e com todos, partilhamos. Não cabia aqui fazer uma análise exaustiva - nem literária, nem de conteúdo‑a esta obra, mas, apenas, fazer uma apresentação global referindo, de passagem, os seus aspetos gerais mais marcantes, até porque o efeito e as emoções que a leitura de um livro de poesia suscitam, são, evidentemente, diferentes de leitor para leitor e cumpre-lhe a ele, leitor, sentir cada poema em plena liberdade. No entanto, abriria ainda espaço para referir de novo, e em jeito de conclusão, essa característica, esse sentimento dominante que atravessa, de um modo ou de outro, toda a poesia do presente livro e que se consubstancia numa certa ideia de frustração e de sofrimento da condição humana perante a vida. Cada poema reflete, mais ou menos explicitamente, a dor de uma solidão íntima e o sentimento de uma angústia, de contornos mais ou menos indefinidos, de que a sua própria vida é testemunha e intérprete. Deixo ao leitor, no prazer da leitura, a curiosidade da descoberta e a liberdade das interpretações, pois um poema, cada poema, tem sempre múltiplas formas de se interpretar e de se sentir. Eduardo Pereira
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QUEM SOU EU? Quem sou eu? Sou quem não sabe ser. Sonhador de uma música calada, Por ser minha, Que canto sem sentido, com prazer! Sou mártir na sombra… sem Luar, Peregrino da noite que vi morrer Em fogo ardente doutro Sol, só à tardinha! E canto hoje a dor… essa estrela… A minha Vida! A vida que é bela!… Sofrimento magoado bem escondido, Que o sol do meu peito, Com coragem, atropela E se acolhe noutra força, Noutro colo não esquecido. O barco é o meu recanto natural, Rumo ao infinito sem mim… Que também espera Abrigo dum tempo vivido mas irreal, Noutro tempo, sem espaço nem quimera.
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Quem sou eu afinal? Sou a voz que não soou, Sussurro dum gesto que se perdeu, Que a manhã sem aurora perverteu!… Sou actor de uma ópera, que há muito se calou! E morro por sonhar!… E morro, por morrer. E canto, por cantar, E mato por sofrer E ando, por andar, E vivo por viver!… Sou EU!!! Sou aquele que não sabe ser!
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NOITE O sol hoje brilhou mais! Eu vi-o pela janela do meu quarto, Canteiro de sombras tristes. Sombras tristes… Pedaços de espuma negra!… Raios de luz que não aparto Do passado de sonhos leais, Na saudade do mundo, em que vivo. É noite!… A noite traz-me sempre outra vida Celebrada, nos palanques da aventura, E venerada, em cenas de ilusão, No bosque de boémia foragida. É Noite… A noite é muralha, sem sentido de prisão. É delírio agonizante da candura, Ternamente inimiga da paixão. É caminho duvidoso de ternura, E algemas de amores despedaçados Que se perdem, na poeira da amargura, E mentem a coragem de erros consertados. O sol foi fugindo em rebeldia, Agora, que a noite entardeceu.
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É ledo o cantar da cotovia, Que encanta a verdade que morreu, Na penumbra do riso, por medida. Chora então a soez melancolia De um fútil sonho que não cresceu. A noite é vida, mas é cansaço Que afoga a luz do meu abraço!…
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uma voz na noite À Cálida Melodia de Uma Voz Rádio Clube de Angola Lenta e magoada a voz cintila Nos campos anémicos da hora! É hora morta, tardia, isolada… Miragem de paixão desafogada De loucura impertinente que, senti-la É cântico azulado, em madrugada, Ao colo ternurento de senhora! Sedentos sentimentos deprimidos… São fortes vendavais embalsamados, Pela majestade inquietante da magia… À revolta avessamente, vinculados. Sinais que se perdem com sentido Na espuma humedecida bela e fria Da noite africana quente e florida, Pela voz da sedução, em fantasia. Ouço uma voz sensual colorida, Ao som sedutor da telefonia!…
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Fluentes candelabros alumiam As trevas dessa hora indigente, E aquecem as almas que confiam No sonoro encantar da voz ardente Que namora corações entristecidos, Pela onda revoltante do presente. Escuta!… é a voz de quem, ausente Afaga o silêncio tenebroso, Em ondas vaporosas, num instante Ledo, brilhante, mago e glorioso! Calou-se… Ouve-se apenas o canto No silêncio inquieto da hora… E o eco das palavras faladas Que, da noite, são a calma, o encanto, Ao som musical das baladas, Nas noites sossegadas do meu quarto. O sonoro encanto enamora O segredo de almas enjeitadas!… Obrigado… Obrigado!… Angola, 1968
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ACASO CRU A noite caiu! Um véu escuro, Triste, fatal, Iludiu… Magoou!… Baixou o manto inclemente, E pariu a revolta igual Ao cadáver vivo e doente, Revolvendo a espuma infiel, P’la sádica sombra que viu! O acaso, num tempo de luz, Gerou a flor pintada de negro, Bolorenta, torpe, macabra… Ao roxo sol da tardinha, De ar tropical, doentio!… E o verso cordial que tinha O gesto soberano de abraço, Foi grito inquietante que mata! Flagelaste, ó sombra, o amor; Mentiste à pureza que te envolve. Cravaste, sem temor, Um espinho, No luar prateado que dissolve A frescura de um carinho!… E afinal… Ganhaste apenas a minha dor!
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Sombra! Esquecida lança no mar, Não te inquietes a pensar!… Deixa o tempo correr, Deixa o sol morrer, Deixa a noite cair, A morte sorrir! Outro dia nascerá no teu olhar!… Confessarás, do pecado, o teu sentir. A arma que usaste vai salvar O estudo e o sonho do porvir. Julho de 1972
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ALTER EGO Eu vejo além, atrás da porta, Meu espectro que se ri da minha vida! Vida morta… Restos dum sol que não brilhou, Nem parou, Ao ver os meus olhos abertos, O meu sorrir… Desconcertado, sem cor nem vida. Vejo minha alma presa, Na porta abandonada, mas ninguém vê A presa… O meu Ser. Levanta-te, meu corpo! Olha essa Alma solta. Repara o que fez a luz acesa Que parece brilhar, Sem fim nem volta. Morreu ao nascer, Antes mesmo do luar Ter nascido ou brilhado, com certeza. Não me vejo a mim!… Desalentado e triste, O passarinho que voava no céu Caiu na lama.
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Entristece por cair, Perder seu rumo, o tempo que o levava Ao porvir… Radioso, quente como a chama!… Espectro meu, Nada fazes que erga a vida que ideava? Repare o tempo que passou! A vida linda!… O mundo… Eterno fim, mesmo incerto!… Esconde-te ao menos! Foge desse sol que não é teu, nem meu. É doutro Alguém! A vida que tu ansiavas Morreu. Foge dessa porta, onde tua sombra pairava, Sem uma voz que te dissesse: Sou eu!… Sou eu que tenho a vida que tu amavas, Querias até mesmo morta, Como morto te parece Tudo o que além, Nessa porta, Chora, soluça, suspira, anseia pela Vitória.
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