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Não são tiros... São tiradas

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Luísa Amorim-Braun

Precisaste e não tiveste. C

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Agora que não precisas daquilo que não tiveste - trivial ou precioso tens demais o que é inútil.

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Só a desoras se tem aquilo que foi preciso?

Uma salva de tiradas, munições floreadas: comentários arriscados, riscos vermelhos pisados. Ecos de telenovelas e notícias retocadas. Dito por outras palavras, são emoções reflectidas ou reflexões ruminadas. Quais novelas enredadas: tiradas redondilhadas.

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Não são tiros...São tiradas

O QUE É PRECISO?

Luísa Amorim-Braun

Não são tiros... São tiradas Poesia

Maria Luísa Lobo Lopes Amorim-Braun nasceu em 1933 no Porto. Entre 1950-1957, frequentou o Curso de Filologia Germânica, rematado pela Licenciatura e defesa de tese na Universidade de Coimbra. Foi elemento do TEUC (Teatro Académico de Coimbra). Subsequentemente, foi contratada como Assistente da Faculdade de Letras da mesma Universidade. Leitora de Português e Espanhol na Universidade de Giessen (Alemanha), entre 1965-1973, a partir de 1973 passou a residir em Bielefeld (Alemanha), tendo assumido contratos intervalados de professora de Língua e Cultura Portuguesas na Universidade e na “Volkshochschule” da mesma cidade. Desenvolveu actividade ocasional de tradutora e intérprete.


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NĀO SĀO TIROS...

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SĀO TIRADAS

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FICHA TÉCNICA

grafismo de capa: Ângela Espinha paginação: Alda Teixeira

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1.ª Edição Lisboa, agosto, 2026

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título: Não São Tiros… São Tiradas autora: Luísa Amorim-Braun edição: edições Vírgula ® (Chancela Sítio do Livro)

isbn: 978-989-9284-21-0 depósito legal: 568211/26

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© Luísa Amorim Braun

Todos os direitos de propriedade reservados, em conformidade com a legislação vigente. A reprodução, a digitalização ou a divulgação, por qualquer meio, não autorizadas, de partes do conteúdo desta obra ou do seu todo constituem delito penal e estão sujeitas às sanções previstas na Lei.

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Declinação de Responsabilidade: a titularidade plena dos Direitos Autorais desta obra pertence apenas ao(s) seu(s) autor(es), a quem incumbe exclusivamente toda a responsabilidade pelo seu conteúdo substantivo, textual ou gráfico, não podendo ser imputada, a qualquer título, ao Sítio do Livro, a sua autoria parcial ou total. Assim mesmo, quaisquer afirmações, declarações, conjeturas, relatos, eventuais inexatidões, conotações, interpretações, associações ou implicações constantes ou inerentes àquele conteúdo ou dele decorrentes são da exclusiva responsabilidade do(s) seu(s) autor(es).

publicação e comercialização:

www.sitiodolivro.pt publicar@sitiodolivro.pt (+351) 211 932 500

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DEDICATÓRIA

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Ao meu Tio Manuel, que me deu amor e mel.

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INTROMISSĀO TIRADAS

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Não são tiros: são tiradas com o vento de feição e as mangas arregaçadas. Com pancadas e rajadas: cutiladas afiadas.

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Dito por outras palavras, são emoções reflectidas ou reflexões ruminadas. Quais novelas enredadas: tiradas redondilhadas. Só monólogos ou diálogos? Em voz alta saberás, no conjunto: entenderás.

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A ALA DOS NAMORADOS

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Há namoros arranjados e paixões assolapadas, amoretos espontâneos, centelhas incendiantes.

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Há relâmpagos instantâneos e raios encandeantes, coriscos electrizantes, sentimentos escaldantes.

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Se repentes passageiros ou ligações duradoiras, há de tudo o que se sente na gama dos sentimentos.

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Na paleta de emoções: variações, variantes: sensações enebriantes.

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ABSURDO

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No hemisfério absurdo o dia prolonga a noite, porque os dias são deveras noite densa, noite escura. Só promessas são só trevas: impotentes, não concordam nem relógio nem natura.

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No hemisfério absurdo: desencontros programados, planos gozozos gorados. Faltando luz no espaço, não vigora o que é preciso: nem potência, nem esforço.

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No reino do Absurdo: o obtuso mundo é surdo, o austero mundo é mudo.

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A CHUVA (tanta)

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////////////////////// A chuva é tanta, há tanto tempo, é tão cerrada e tão cinzenta! A chuva escorre, cortina espessa, e nada há que a impeça. ////////////////////// Tanta que afoga e amordaça prece ao inverso, canto maior, que cai imerso e não dá flor. //////////////////// Uma toada teimosa e densa: a chuva é tanta, a chuva cansa! /////////// A chuva dança, chove-que-chove; é tão intensa, não tem parança. //// A chuva chora, chora-que-chora: e eu, coitado, já encharcado, morro afogado nesta enchorada. ïïï 13

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À DESAMĀO

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À desamão não facilita, só dá trabalho e confusão. Também implica os maus-azares da contra-mão. Desencontrados por mau sucesso de qualquer mão e, sobretudo, por um excesso algo travesso de imaginação. Vou procurar o que me pede sem mais demora. mas vai levar, muito me pese, mais de uma hora.

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AEROPORTO INTERNACIONAL

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Antes da minha partida e com medo da chegada, quem me dá novas do céu: quem lá foi e quem o viu?

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Quantos foram não se sabe os tantos que já partiram: retornados não voltaram.

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E quem há com mais ciência em questões de frequência: mais partidas ou chegadas até hoje registadas?

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Nem saídas, nem entradas são fiáveis com certeza: é incerta a natureza.

Em partidas e chegadas: Adeuses na mão dos deuses.

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ALMOCREVE

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A besta do almocreve vai pesada com a carga de trabalhos que acarreta. Os trabalhos não são dela, nem do homem que a carrega, a cargo do escritor que seus pesos descarrega: as tantas penas que teve e trabalhos que descreve.

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De mim, besta, tenho pena, farta já de sustentar o meu fardo tão pesado. Mas sei que breve se acaba, pela idade que já tenho, tanto trabalho forçado.

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E por mais que dê ao rabo não entendo como alguém queira enfados carregar de sua livre vontade e pagar ao almocreve para deles se aliviar.

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Nã o Sã o Ti r o s … Sã o T i r a d a s

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(A)celerado escritor, que tanto escreve e descreve, é a causa, o causador do peso que carregamos ambos: besta e almocreve. Melhor era ser mais breve.

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ALTERNATIVAS

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Depois de tanta labuta esquece a pressa e descansa as pernas e a cabeça.

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Sempre na rede deitado, estiveste no descanso, na paródia, no ripanço.

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Eu, porém, mais deligente, passei tempo sem descanso na luta, no escrivanço.

Mais fútil ou mais subtil: cada qual com o seu gosto, cada qual com seu desgosto.

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Para todos há cantares alegres ou plenos de ais; mais amargos e soturnos os de Anteros e Quentais.

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A LUTA ENTRE O DIA E A NOITE

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Reduz o teu tamanho, noite escura, chegou o tempo de reinar o dia, de consolar a pobre humanidade de tua deprimente escravidão.

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– Não penses que me vou, dia insolente, contém tua crescente impaciência, até que chegue o tempo que te assiste de tua gloriosa intervenção.

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– Não podes prolongar tua cegueira, e quero eu cumprir minha missão: salvar a esforçada e vã canseira de uma raça humana em progressão.

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– Não me submeto à tua insolência, não vais levar a palma da vitória, sou eu quem dá repouso à humanidade, de tanta iluminada e falsa glória. – Mantenho -me fiel à lua-cheia, senhora minha e astro que venero e a suas quatro fases dou relevo.

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Nã o Sã o Ti r o s … Sã o T i r a d a s

– Pois meu senhor, o sol por que eu anseio, vencer-te-á - e já é Primavera: chegou a minha hora de alvorar.

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E acabou o dia por ganhar!

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AMANHĀ EM CONTRASTE (20 amanhãs para 20 temperamentos) O que eu vou gozar amanhã! Qual amanhã, nem meio-amanhã!

O sempre-alegre: O tristão:

Amanhã vou morrer a rir! Não me resta lágrima para amanhã.

O activista: O preguiçoso:

Amanhã ponho o mundo a marchar! Que o amanhã me deixe em paz!

Amanhã nem sonhas do que sou capaz! Deus me livre de amanhã! Vou inventar um novo ardor por ti. Amanhã vais pagar-mas!

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O meigo: O zangão:

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O fanfarrão: O cobardola:

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O folgazão: O desmancha-prazeres:

O colérico: Amanhã ponho o mundo em fanicos! O melancólico: Amanhã como ontem: um triste dia cinzento. O filósofo: O crente:

Estou a pensar se amanhã será pensável. Creio a pés firmes no amanhã.

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O ingénuo: Amanhã é amanhã – que mais havia de ser? O céptico: Nunca se sabe se haverá um amanhã. O paciente: O impaciente:

Espero a vida inteira por amanhã… Quem me dera que amanhã fosse ontem!

O pessimista: Isso do amanhã é utopia. O optimista: Amanhã é mais um dia – com muitos mais amanhãs pela frente! 25

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