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ENTRE(AS)VISTAS DE COIMBRA A LUANDA
FICHA TÉCNICA EDIÇÃO: Vírgula TÍTULO: ENTRE(AS)VISTAS – de Coimbra a Luanda AUTOR: J M Pereira Bastos PAGINAÇÃO: Paulo Resende CAPA: Patrícia Andrade 1.ª EDIÇÃO LISBOA, DEZEMBRO 2012 IMPRESSÃO E ACABAMENTO: Publidisa ISBN: 978‐989‐8413‐77‐2 DEPÓSITO LEGAL: 352066/12 © J M PEREIRA BASTOS PUBLICAÇÃO E COMERCIALIZAÇÃO Sítio do Livro, Lda. Av. de Roma n.º 11 - 1.º dt | 1000-261 Lisboa www.sitiodolivro.pt
ÍNDICE 1. 2. 2.1. 2.1.1. 2.1.2. 2.2. 2.2.1. 2.2.2. 2.3. 2.4. 2.5. 3. 3.1. 3.2. 4. 5. 6. 7.
Introdução Entrevistas Timor-leste Correios Telecomunicações Educação Ensino secundário Ensino superior / investigação científica Agricultura Saúde Justiça Beja A chegada a Beja A partida de Beja China Luanda (anos 40/50) Post-scriptum Dados pessoais
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1. INTRODUÇÃO Esta publicação inclui textos/entrevistas publicadas ao longo de vários anos, sobretudo no “Jornal de Coimbra”, cujo Director, Jorge Castilho, teve a gentileza de me abrir as páginas do seu semanário, pelo que lhe estou reconhecido. Outros são inéditos, nomeadamente os que reportam a Luanda e à China. As entrevistas a terceiros, com excepção de uma delas, foram associadas aos 25 anos do 25 de Abril e pretenderam dar a conhecer pontos de vista de especialistas nas áreas respectivas, pessoas desconhecidas do grande público mas com trabalho muito meritório desenvolvido ao longo de anos de actividade profissional, sobretudo em Coimbra. As entrevistas estão datadas pelo que, em certos casos, achei oportuno acrescentar algumas notas da minha exclusiva responsabilidade, as quais pretendem acompanhar a evolução entretanto verificada nos sectores abordados. Algumas, por razões de ordem técnico formais, contêm pequenas alterações, relativamente aos originais. Os curricula apresentados estão reportados às datas das entrevistas. Agradeço a quem me ajudou, por várias formas, a concretizar este projecto, nomeadamente aos entrevistados e à Augusta Reis que, além de me ter concedido uma das entrevistas, contribuiu para a melhoria 7
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técnica da escrita de alguns dos textos. Também é devida uma palavra de reconhecimento à equipa do Sítio do Livro, pela paciência e persistência colocadas na feitura deste volume. Dedico este livro à memória dos meus pais, desejando que sirva também como um testemunho que, graças à minha esposa, por muitas e variadas razões, posso transmitir aos meus filhos e netos.
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2. ENTREVISTAS 2.1. TIMOR-LESTE 2.1.1. CORREIOS NUNCA MAIS SAIREMOS DA MEMÓRIA E DOS CORAÇÕES TIMORENSES (entrevista com o Eng.º Coelho Pereira, publicada no “Jornal de Coimbra”, 27 de Setembro de 2000) O nosso entrevistado é quadro superior dos CTT, licenciado em Engenharia Mecânica, e foi assistente no departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra. Durante 12 anos exerceu as funções de Director Regional dos Correios da Região Centro; recentemente, foi o responsável pela missão que conseguiu, em tempo recorde, instalar uma estrutura postal em Timor-Leste. Este é o tema central desta interessante conversa.
P. Como nasceu a missão que o levou até Timor-Leste? R. Recebi um convite do Presidente do Conselho de Administração 9
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dos CTT para coordenar um grupo de missão, constituído com mais dois colegas meus, com o objectivo de criar as condições para o rápido restabelecimento das comunicações postais em Timor-Leste. Aceitei e foi aqui, em Coimbra, que começámos a trabalhar nesse sentido. P. Porquê os Correios Portugueses e não outra qualquer empresa congénere estrangeira? R. Houve uma consulta realizada pela ONU, feita a diversos países, para apresentação de propostas. Através da Direcção de Relações Internacionais, os CTT apresentaram uma candidatura, que foi a seleccionada. P. Qual foi o grau de ambição e a estratégia do grupo de trabalho? R. Considerámos, logo à partida, que fazer diagnósticos e levantamentos seria necessário, mas não suficiente: teríamos que ir com um projecto definido, com propostas concretas, a fim de credibilizar tecnicamente as nossas posições. Partimos do princípio que tudo estaria destruído e que encontraríamos graves limitações a nível de pessoal, pelo que foi definida uma estratégia clara para tentar ultrapassar esta situação. P. Partiram em 1999; as vossas previsões mostraram-se correctas? R. Em absoluto: as infra estruturas físicas estavam destruídas a 100%; os quadros e restante pessoal, ou eram indonésios, ou timorenses pró-integração – e estes haviam desaparecido do território – ou então eram timorenses pró-independência, dispersos pelo território ou ainda refugiados nas montanhas. Além disso, tivemos que contar com a falta de colaboração da Indonésia e com um grande espírito competitivo dos australianos. P. Imagino que foi necessária muita energia e criatividade para se ultrapassarem tantas dificuldades. 10
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R. Sim, tudo isso, mas também alguma imprevisibilidade; por exemplo, encontrar, por acaso, o chefe de estação de Díli foi decisivo para montar uma rede inicial mínima de contactos pessoais e profissionais com o chefe dos carteiros e com um carteiro habilitado a conduzir; na altura, este elemento estava refugiado nas montanhas e, ainda hoje, estou para saber como foi possível, em 24 horas, apresentar-se em Díli para trabalhar connosco. P. Podemos dizer que os Correios em Timor-Leste se constituíram como uma Delegação dos Correios portugueses naquele território? R. Não, a estratégia não era essa, mas sim criar um embrião dos Correios de Timor-Leste. Logo que chegámos, verificámos ser necessário concentrar a nossa atenção em quatro pontos: aeroporto de Díli, criando um entreposto postal aéreo; também na capital, um serviço de atendimento e distribuição; em Baucau e em Aileu, abrindo uma estação; neste último local porque aí se situava o centro político do CNRT (Conselho Nacional de Resistência de Timor) e a residência de Xanana Gusmão; posteriormente, com o CNRT em Díli, deixou de ser prioritário um posto de correios em Aileu. Conseguimos, assim, no dia 1 de Dezembro de 1999, celebrar um acordo com a United Nations Transitional Admnistration in East Timor/UNTAET (o primeiro até então assinado pelo Governo de Transição), em que se definiram prazos, metodologias e responsabilidades. Aí se definiu que em finais de Março, início de Abril de 2000, seriam restabelecidas as comunicações postais de e para Timor. P. E os prazos não deslizaram?... R. A inauguração oficial (e início de funcionamento) dos Serviços Postais em Díli e em Baucau realizou-se a 29 de Abril; se houve algum atraso foi de duas ou três semanas e, mesmo esse, não da responsabilidade directa dos CTT. O projecto de infra-estruturas foi totalmente 11
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elaborado pelos CTT e entregue em Janeiro de 2000; em Fevereiro seguiram por via marítima dois contentores com todo o tipo de equipamento e, posteriormente, mais duas cargas aéreas, num total de oito toneladas de equipamento e mobiliário. Foram, também, elaborados manuais em português, apresentada uma proposta de macroestrutura para os Correios de Timor-Leste, bem como o projecto de Regulamento dos seus Serviços Postais. Foi dada formação ao pessoal entretanto recrutado e contratado. P. E sob o ponto de vista tecnológico, os Correios Timorenses vão ficar actualizados? R. Mais do que isso: a nível de atendimento e da expedição internacional do correio, optou-se por soluções tecnologicamente avançadas, algumas das quais ainda não existentes no nosso país; não há, naquela zona da Ásia, nenhum país cujos Correios tenham introduzido tal tecnologia de ponta. P. Como é que a UNTAET e a liderança timorense viram o vosso trabalho? R. Há que distinguir: sentimos o peso da concorrência dos que ansiavam pelo nosso insucesso e não compreendiam o apoio que nos era dado pelos timorenses.Talvez a parte mais difícil do nosso trabalho tenha sido o acompanhamento das obras do Centro de Serviços de Correios em Díli (a cargo de uma empresa australiana) e, também, uma certa incapacidade na tomada de decisão da própria UNTAET. Por outro lado, o facto da União Postal Internacional (UPI) ter conferido a Timor-Leste, a título excepcional e a solicitação dos CTT, o estatuto de Administração Postal – só atribuído a países independentes – dá ideia do enorme esforço que foi preciso desenvolver. Mas quando, em Abril, foi apresentado o primeiro selo de Timor-Leste, concebido e produzido em Portugal, acho que convencemos tudo e todos; em duas horas venderam-se oito mil selos! Foi o culminar de 12
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um projecto em que os líderes e a população timorense estiveram sempre connosco. P. Foi significativo o esforço financeiro realizado? Que perspectivas de desenvolvimento? R. São cerca de 180 mil contos os custos globais desta intervenção, suportados integral e exclusivamente pelos CTT. Até Outubro, e tal como prevê o acordo atrás referido, os CTT mantêm-se em Timor-Leste para apoiar e acompanhar o funcionamento dos serviços que, neste momento, já têm enorme qualidade e se desenvolvem numa base estável e de rotina. Como curiosidade, de referir que Portugal é o principal destino do correio de Timor-Leste, próximo de 50% de todo o tráfego postal expedido, estando a Austrália e o resto da Europa em 2.º lugar, a grande distância. Para a necessária extensão da prestação dos Serviços Postais ao restante território de Timor-Leste, a UNTAET já manifestou, oficialmente, o desejo de ver Portugal, em detrimento de outros países interessados, incumbir-se desse projecto. Mas é de sublinhar que, em breve, será nomeado um timorense para o cargo de Director Geral dos Correios, cuja formação será ministrada em Portugal, também com custos suportados pelos CTT. P. Isso também quer dizer que os diversos tipos de laços dos Timorenses com Portugal têm potencial de crescimento... R. Certo. São patentes as dificuldades pela enorme distância física, mas é enorme a vontade de as superar; existe muita gente anónima a trabalhar para que assim seja. Por exemplo, os professores portugueses, partilhando incómodos e sacrifícios, com uma intervenção serena e eficaz, integraram-se de forma admirável, dando um enorme contributo para a quebra de resistência que sectores da juventude timorense ofereceram ao ensino e à designação, agora anunciada, do Português como língua oficial de Timor-Leste. A segurança em Díli 13
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melhorou consideravelmente após a chegada da GNR, os próprios Timorenses aceitam muito bem a actuação das nossas forças de segurança, os médicos e os militares portugueses estão a desenvolver acções que marcam o futuro.Temos os problemas da distância geográfica, da dolarização da economia, da concorrência dos Australianos, mas nunca mais sairemos da memória e dos corações dos Timorenses.
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2.1.2. TELECOMUNICAÇÕES ENG.º MORAIS DIZ AJUDA A RESTABELECER TELECOMUNICAÇÕES EM TIMOR-LESTE: “SENTI A ACTUAÇÃO DOS PORTUGUESES COM MUITO ORGULHO” (entrevista publicada no “Jornal de Coimbra”, 31 de Outubro de 2000) O Eng.º Morais Diz nasceu em Bragança, tem 47 anos e licenciou-se em Engenharia Electrotécnica em Coimbra, em 1977. Iniciou a sua actividade profissional como docente do ensino superior, tendo posteriormente trabalhado no Ministério da Indústria. Trabalha no sector das telecomunicações desde 1981, tendo exercido funções nas áreas de projecto, planeamento, conservação e comercial. É actualmente responsável pelos Negócios Pessoais da Portugal Telecom (PT), em Coimbra. Recentemente deslocou-se a Timor-Leste, integrado numa missão de reconstrução das infra-estruturas de telecomunicações, o que motivou esta conversa.
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Soube que esteve 10 dias em Timor-Leste, integrado num grupo de três engenheiros da PT; gostaria de nos dar a conhecer os objectivos da missão? R. Com certeza. A missão tinha como objectivo promover a colaboração da PT no processo de assistência que visava reabilitar a rede, restaurar e desenvolver as telecomunicações em Timor-Leste. P. Como encontrou o sistema de telecomunicações e respectivas infra-estruturas? Também aqui se registam diferenças entre Díli e o restante território? R. O sistema estava desactivado. Algum equipamento foi claramente retirado por pessoas que sabiam quais as consequências dessa desmontagem. Grande parte foi vandalizado e destruído. Curiosamente, a rede de cabos (que é exterior) era a que se encontrava em melhores condições. Em Díli, tanto o edifício como os equipamentos eram facilmente recuperáveis. Na generalidade do território seria necessário refazer tudo, em muitos casos desde as fundações aos edifícios. P. A entrada da administração da ONU teve consequências relativamente aos objectivos que definiu? Qual o ponto da situação? R. Deixe-me esclarecer que a nossa intervenção estava enquadrada nas actividades da ONU, tendo nós sido creditados por essa organização para o trabalho que efectuámos. Já em Timor deparámo-nos com o facto de uma empresa australiana estar a explorar o serviço de comunicações móveis. A ONU optou, para o caso das telecomunicações, por fazer um concurso público para escolha do operador. Esta decisão atrasou todo o trabalho. É minha convicção que conseguiríamos repor o serviço em todo o território em cerca de seis meses. Quase um ano depois só existem comunicações em Díli, estando a decorrer o concurso que 16
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referi. Os seis meses de que falei seriam ocupados na recuperação das instalações físicas e na formação de técnicos. Seria necessário prosseguir o trabalho para a formação de quadros que pudessem assegurar o funcionamento autónomo deste sector, já que a gestão era anteriormente assegurada por indonésios. P. Presumo que o papel que traçou para as telecomunicações, em termos de quadros locais, ou seja, grande necessidade de formação e de preparação para o saber fazer, se estenderá a outros sectores de actividade. Quais os que lhe parecem ser merecedores das maiores apostas, tanto no imediato como pensando no desenvolvimento sustentado de Timor-Leste? R. De imediato, parece-me que se deveria dar prioridade aos aspectos de reconstrução. A formação e enquadramento de profissionais de reconstrução (pedreiros, carpinteiros, electricistas e mestres de obras) traria, na minha perspectiva, algumas vantagens: aumentava rapidamente o número de empregados, modificava a paisagem desoladora de destruição e quebrava alguma apatia que senti e observei. Pelo que me apercebi, o desenvolvimento futuro de Timor poderia passar pelo turismo (os Australianos visitavam muitas ilhas indonésias com características semelhantes a Timor), exploração de petróleo e gás natural, café, madeiras, mármore e agricultura, sobretudo o arroz (como ajuda à diminuição da dependência do exterior). Qualquer destas actividades só será verdadeiramente competitiva com profissionais altamente qualificados. P. Atendendo à sua experiência pessoal, acha que os Portugueses são, de facto, bem queridos em Timor-Leste? R. Penso que sim. Tanto pelos dirigentes como pela população em 17
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geral. Nos meus apontamentos tenho frase ditas por dirigentes que o comprovam. Prefiro, no entanto, transcrever a que o Sr. Florêncio (um dos nossos guias) disse no decorrer das nossas viagens: “Nunca confiámos nos professores indonésios como segundos pais. Com os Portugueses sim.” Devo acrescentar que, apesar da língua (muitos Timorenses não falam português), senti-me em casa. P. Então, posso deduzir que, se os Portugueses quiserem e souberem, daqui a vinte anos a nossa presença fraterna continuará a ser bem vista pelos Timorenses? R. Não tenho dúvidas acerca disso. Somos claramente encarados como irmãos. Não me apercebi de que houvesse algum receio de neocolonialismo relacionado com os Portugueses. P. O poder da ONU – “aquela máquina burocrática” – está a deixar-nos alguma margem de manobra face ao poder e à presença próxima dos australianos? R. Pelo que me apercebi, a maior parte das pessoas da ONU no terreno têm ascendência anglo-saxónica. Esta característica facilita claramente o relacionamento com países e organizações de expressão inglesa. Acresce o facto de os Australianos serem de uma organização extrema. Por outro lado, a burocracia (que existe) favorece o aparecimento de “lobbies”. Atendendo ao que acabei de dizer, parece-me que a nossa margem de manobra não é grande. No entanto existem alguns “trunfos” que favorecem a actuação dos Portugueses: um é a confiança e vontade dos Timorenses em terem uma presença portuguesa. Outro é a nossa capacidade de improvisação. P. Quando os Timorenses foram a votos notou-se simultaneamente uma coragem muito firme, uma grande 18
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dignidade e um certo saber lidar com o inimigo. Notou, no terreno, que estas são características daquele povo? Haverá, agora, o mesmo empenho na construção do futuro? R. Houve dois aspectos no comportamento dos Timorenses que me impressionaram fortemente: a capacidade de sorrir e a serenidade com que reagiam à falta de bens. Não vi ninguém de mão estendida, apesar de serem visíveis as dificuldades com que viviam. Quando se lhes oferecia algo aceitavam educadamente. No que diz respeito ao empenho para a construção do futuro, gostaria de acreditar que existe a mesma tenacidade. No entanto, também fiquei impressionado pelo facto de ver tanta gente sentada nos muros e “à porta” do que restava das suas habitações, sem sequer removerem os escombros. Um enquadramento efectuado pelos mestres-de-obras que referi anteriormente conduziria, certamente, à quebra de apatia que verifiquei. O que vi em Manaruto é o exemplo claro do que acabo de referir. Os marinheiros da fragata “Vasco da Gama” estavam a limpar e a fazer pequenas reparações numa escola, com a ajuda de alguns habitantes. Havia uma clara satisfação por irem ter uma escola “nova”. P. Teve oportunidade de contactar com algumas figuras proeminentes de Timor. Sentiu-os conscientes das limitações, das dificuldades existentes e sabendo como poderão ser superadas? R. Daquilo que me foi dado observar, penso que a generalidade dos dirigentes de Timor tem um grande pragmatismo e percebe quais são as dificuldades que esperam o povo deste território, incluindo algumas vontades de reconhecimento público. P. Como viu a actuação dos Portugueses no terreno? 19
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Há as diversas missões, há militares, há os civis, mas os diversos esforços estarão a ser potenciados através de uma coordenação e conjugação articulada de esforços? R. Senti a actuação dos Portugueses com muito orgulho. Havia um pensamento comum: ajudar. Era este pensamento que levava as pessoas a trocar informações e tentar criar sinergias que potenciassem as acções de cada grupo. O facto de estarmos todos no mesmo edifício ajudou. Quanto à coordenação, no sentido de haver reuniões formais e troca de opiniões para actuação concertada, ou no mínimo, a definição clara e explícita de objectivos conjuntos para as diferentes equipas portuguesas e da forma de os atingir, não me apercebi da sua existência. P. Pelo que viu e ouviu, sente que a nossa comunicação social, nomeadamente a RTP e a TSF, continua a ser importante par o futuro timorense? R. A nossa comunicação social continua a ser importante em dois aspectos. Primeiro, não deixar cair Timor no esquecimento a nível nacional e internacional. Segundo, manter no próprio território a língua e cultura portuguesas. A RTPi é vista com muito interesse, sobretudo em dias em que há futebol.
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