A casa de Vammelsuu
Leonid Andreiev
riso vermeLho fragmentos encontrados de um manuscrito
texto português e apresentação
Aníbal Fernandes
TÍTULo Do oriGiNAL: KrAssnyl smieKh
© sisTemA soLAr, CrL (2019) rUA PAssos mANUeL, 67B, 1150-258 LisBoA tradução © ANÍBAL FerNANDes 1.ª eDiÇÃo, DezemBro 2019 isBN 978-989-8833-45-7 NA CAPA: GoYA, TrisTes PressenTimenTOs DO QUe esTÁ PArA CheGAr, 1810 revisÃo: DioGo FerreirA DePÓsiTo LeGAL 465672/19 esTe Livro Foi imPresso NA eUroPress rUA JoÃo sArAivA, 10 A 1700-249 LisBoA PorTUGAL
Oriol, cidade na convergência dos rios Oka e Orlik, fundada por ivan o Terrível, tem por baixo de si uma enorme jazida de petróleo que no século XX a desviou dos seus tempos de inocência, alheios às agitações e às perversidades da riqueza fóssil; citavam-na então como pequena cidade industrial com um clima muito frio e convivência difícil com quase todas as actividades agrícolas. mas Oriol já se orgulhava de muitos dos seus filhos que ficavam célebres em quase todas as áreas da celebridade; tinha nos seus registos cientistas, políticos, filósofos; nas artes os versos do poeta Afanasi Fet, as sinfonias de Vasili Kalinnikov, os romances de ivan serguéievitch Turguéniev. e a 8 de Agosto de 1871 — precisamente nos dias em que os leitores russos se espantavam com a volumosa novidade a que liev Tolstói chamou Guerra e Paz (ou Guerra e Povo) — acrescentava-lhes um leonid nicolaevitch Andreiev, o que viria a ser, numa extensa obra de penumbras e pessimismos, o autor deste riso vermelho. mais velho entre seis filhos de um topógrafo que enfeitava as tabernas de Oriol com demonstrações de uma força hercúlea e o espectáculo de uma turbulenta embriaguez, habituou-se desde cedo a viver num mundo de apertadas economias, mas com defesas de espírito que o afastavam das disciplinas que tinha, por infância e regra social, de respeitar. Dos seus anos de estudante preguiçoso e sonhador há este elucidativo parágrafo na sua Autobiografia: Nunca fui bom aluno; na sétima classe fui sempre o pior, e os
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professores davam-me más notas por não me aplicar. o tempo mais agradável que passei no colégio, e ainda recordo com prazer, foi o dos intervalos entre as aulas, os recreios, ou quando os professores me punham fora da aula — não com muita frequência, é verdade — por falta de atenção ou de respeito. Nos largos corredores desertos reinava um silêncio sonoro que vibrava com o solitário ruído dos meus passos; de um e outro lados, portas fechadas de salas de aula cheias de alunos; um pequeno raio de sol — um pequeno e livre raio de sol — brincava com o pó levantado durante o recreio porque não tinha ainda pousado; era tudo misterioso, fascinante, cheio de um especial e secreto sentido. Andreiev foi também invadido por momentos de uma depressão paralisante. A morte do seu pai tinha agravado os problemas de subsistência na casa onde ele era o filho mais velho; e faziam-lhe sentir a responsabilidade conferida por essa posição dominante na hierarquia familiar. Andreiev pintava (chegou mesmo a imaginar-se com um futuro que não lhe negaria um lugar importante na pintura russa do seu tempo); e o desastre daquela mãe chorosa e sem meios para dar de comer a tão grande família, fê-lo sair de casa para pintar retratos de rua, conquistados pela boa ou má sorte do dia a transeuntes de acaso. mas rapidamente sentiu que isto lhe punha no bolso poucos rublos, e de colheita pobre não passaria; tinha de vencer inércias e rejeições que o afastavam da disciplina dos ensinos oficiais; sujeitar-se à universidade e aos seus rigores, até à conquista de um diploma; enfrentar a vida protegido pelas folgas materiais concedidas por um curso superior. Andreiev, já com irmãos em idade de colaborarem por esforço próprio no orçamento familiar, decidiu formar-se em Direito. sofreu os seus primeiros anos de curso em são Petersburgo, quase a morrer de fome (estive
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muitas vezes dois dias sem comer, lê-se nas suas confissões autobiográficas) e depois em moscovo. mas os seus estudos de Direito já se complicavam com a irrecusável ideia de que havia dentro de si, e a ocupar-lhe o lugar das grandes convicções, um escritor: eu nem sequer tinha chegado aos vinte anos, e só tinha feito dissertações escolares. e tudo isto talvez não passasse de mera bravata de um colegial provinciano, alimentado por leituras de hartmann, se não chegasse a ter consequências. Como é que um jovem, apesar de ingénuo, pôde tão solidamente formar-se e traçar para si um tão claro caminho? em são Petersburgo, uma fracassada tentativa de suicídio marcou-o para toda a vida. sentiu-se atraído pela morte e percebeu que a sua maior tragédia seria suportar as invencíveis visões que ela lhe impunha. numa carta à sua primeira mulher tentou descrever-se psicologicamente transtornado, tarefa que generosamente repetiu com personagens das futuras obras da sua literatura: A minha vida era um deserto, parecia uma taberna onde eu me via sozinho, sem um amigo que me amasse. Tinha dias claros mas vazios, dias que só outros teriam sabido festejar, noites escuras e aterrorizadoras, noites que me faziam pensar na vida, na morte, vida e morte que eu temia mas desejava, sem saber qual delas devia preferir. Tinha dentro de mim um mundo imenso, mas estava sozinho — com um coração doente e angustiado, um espírito enevoado, uma má e impotente vontade. era visitado por espectros. Uma serpente negra surgia a deslizar sem ruído entre paredes brancas, e baixava a cabeça para me atormentar com o seu dardo. Quando eu estava na cama, via por cima de mim rostos absurdos, monstruosos, uns assustadores e outros cómicos, e sem eu saber
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porquê riam-se em silêncio e aproximavam-se com grossos lábios de um vermelho de sangue. homens reais, nenhum; estavam por certo a dormir e não me apareciam. era triste, a minha vida, e vivê-la fazia-me sofrer. sempre amei o sol, embora a sua luz aterrorize os solitários como uma lanterna acesa por cima do abismo; e quanto mais brilha, mais profundo é o abismo. era terrível, a minha solidão perante o resplendor solar. este amado e implacável sol nenhuma alegria me dava. eu tinha a morte perto de mim. e sei isto: que todo o meu corpo agitado por memórias e com esta mão a agarrar a pena, estaria no túmulo se o teu amor não tivesse aparecido; esse amor que tanto me fazia sonhar quando eu derramava lágrimas amargas no fechado espaço da minha solidão. esta carta a Aleksandra Veligorskaia, a mulher com quem irá casar-se cinco anos depois de terminar o curso de Direito, faz um claro anúncio da sua literatura, a que dividiria leitores ao sabor de entusiasmos e violentas rejeições. Andreiev fez em moscovo os três anos finais da sua universidade; e se nos chega a notícia do jovem advogado a defender causas com discursos sobressaltados por uma bem trabalhada ênfase literária, maior marca nos deixa com as reportagens criminais que durante cinco anos surgiram no Correio de moscovo. e aí mesmo, nesse jornal que só o conhecia como repórter, também conseguiu o Andreiev ficcionista que lhe publicassem uma primeira novela: e era, na literatura russa, uma notável diferença de tom; era um esquisito temperamento a pressentir-se atrás de palavras molestadas por uma desconhecida perturbação interior. Gorki, leitor atento, leitor fascinado por estradas laterais, por contracorrentes, surpreendeu-se. De quem era aquele forte
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domínio do estranho e do mórbido? A amizade foi inevitável, e com decisiva importância para o jovem Andreiev. Gorki fez «o seu trabalho»: acrescentou àquele jovem receptivo uma «consciência social», imprescindível ao escritor russo a viver sob violências e discriminações da ditadura czarista. em 1899, esta empenhada amizade abriu-lhe caminho até ao mais conceituado Jornal para Todos; e Andreiev, que se destinava com deletérias imaginações a libertar energias de pólos opostos, teve rasgados elogios de maikhailovski — celebridade nacional como crítico literário — e uma paradoxal ajuda à venda dos seus textos quando a condessa Tólstoi (ou seja, sophia Tolstaia, mulher de liev Tolstói — a dedicada copista que rescreveu sete vezes o monumental manuscrito de Guerra e Paz) se expandiu numa ira de leitora ultrajada, acusando de obscenidade as suas novelas o Abismo e No Nevoeiro. mas Andreiev já tinha nessa altura um definido programa e vastas ambições e metas para a sua carreira de escritor; mais palavras venenosas de condessas Tólstoi era o que ele desejava, compreendemo-lo pelas palavras que já tinha deixado no seu Diário a 1 de Agosto de 1891: escrever qualquer coisa que dê forma a estas imprecisas inspirações, estes pensamentos e estes sentimentos apenas conscientes e que são o fardo desta geração. […] Quero mostrar que não há neste mundo verdade, não há felicidade baseada na verdade, não há liberdade, igualdade — não há nem alguma vez haverá. […] Quero denunciar a inconsciência de todas essas ficções que têm impedido a humanidade de colapsar: Deus, a moral, o Além, a imortalidade da alma, a felicidade colectiva, etc. […] Quero ser o apóstolo da autodestruição. Quero actuar sobre a razão, os sentimentos, os nervos do homem, sobre toda a sua natureza animal. Gostaria que o homem empalidecesse de terror ao ler-me, que os meus escritos funcionassem
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como uma droga, um pesadelo aterrorizador que busca a razão; que ele me amaldiçoasse e odiasse; mas que ele me lesse, ainda assim, antes de se matar. Tenho vontade de zombar da humanidade, de rir-me a bandeiras despregadas da sua estupidez, do seu egoísmo, da sua credulidade. o esforço de levar a cabo este singular propósito revelou-se com mais e menos felicidade em sucessivas novelas; Andreiev conduziu-o com uma persistência que lhe valeu o rótulo de escritor «de excessos», concedeu-lhe aplausos e repúdios numa corte que misturava aduladores e opositores; foi também suspeito de expandir por caminhos transversos uma indesejável mensagem política que merecia atenções da polícia secreta do czar nicolau ii. e a liev Tolstói, já com uma velhice fervorosamente cristã e pacifista que o fazia escrever livros como o reino de Deus está em Nós, saiu-lhe um dia esta frase: «Andreiev quer assustar-me, mas não tenho medo.» em 1902 casou-se com Aleksandra Veligorskaia (um casamento que durou cinco anos e terminou com a morte súbita que dava um inesperado fim ao seu único grande amor). e já viúvo e ainda mais amargurado, publicou em 1904 A vida de vassili Fireiski, a sua primeira obra-prima; e em 1905 o riso vermelho, a sua surpreendente e transtornada visão da guerra russo-japonesa que tinha ensanguentado os dois países no ano anterior. o riso vermelho surge como sucessão de fragmentos de um manuscrito; saído, na aparência, da pena de dois autores irmãos, mas que acabamos por perceber que se trata apenas de um deles, com uma primeira parte que imagina a experiência de guerra do irmão já morto, a partir das memórias que as suas emocionadas descrições lhe deixaram, com uma segunda que relata a sua própria experiência perante as consequências apocalípticas da guerra — em si e em tudo aquilo que o rodeia.
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O tom também nos mostra uma mudança fundamental. A primeira parte é realista, de um negro realismo estendido até à terrível grandeza dos textos sagrados que associam a guerra a uma vingança de demónios ou deuses. Os que nela combatem ignoram ou são indiferentes à sua motivação fundamental, de um absurdo que rasga sobre o mundo um cósmico riso vermelho. A segunda parte abandona este tom realista e mergulha a fundo na alucinação. Já não há nela directas cenas de guerra, mas sobretudo o simbólico vermelho de um riso que se ri da dor humana. O irmão do guerreiro morto é contagiado pelas suas obsessões; a sua razão soçobra, e apenas vê a ameaça desse riso invasor que destruirá implacavelmente o mundo, e no mundo as suas relações humanas. Andreiev afirmou que esta novela lhe foi inspirada por gravuras de Goya. Chegou a imaginar uma edição ilustrada por essas gravuras; pintou com grande dimensão algumas delas, que tinha expostas nas paredes do seu escritório. mas os seus excessos visionários desviam-se do humor sarcástico de Goya; Andreiev é amargo e militantemente austero, sempre afastado do horror satírico que o pintor espanhol nunca abandonou nos mais negros momentos da sua imaginação. no ano em que o riso vermelho surgiu nas livrarias, Andreiev foi preso por ter dado acolhimento na sua casa a uma reunião clandestina de sociais-democratas. nicolau ii começava a assustar-se com a oposição muito visível às durezas do seu czarismo; resolveu mostrar contra ela uma acrescida severidade, e todos os seus contraditores sentiam-se inseguros. Andreiev e a sua mulher fugiram para Berlim; passearam as suas dificuldades materiais por munique e pela suíça. mas foi a Finlândia, que embora grão-ducado sob domínio russo oferecia alguma segurança a revolucionários russos exilados, que mais abertamente os acolheu em maio de 1906.
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segurança? Tolerância? Teria sido preciso, ainda assim, alguma contenção. num comício popular, um inflamado discurso de Andreiev contra o regime de nicolau forçou-o a uma nova fuga, desta vez para a suécia e para a noruega. e foi em Dezembro de 1906 que Aleksandra morreu, devido a uma infecção após o seu segundo parto, e que o deixou solitário e viúvo, pai de dois filhos. Dois anos depois estava novamente casado, desta vez com Anna Denissevith, e disposto a uma vida social que lhe enchia a casa de convidados, que aproveitava o abrandamento cansado dos últimos dias de nicolau ii. O seu êxito como escritor fazia-o agora viver confortavelmente; tinha uma bela casa de madeira em território russo-finlandês, perto de um istmo onde o seu iate deslizava com ele completamente nu; escrevia com um ímpeto quase convulsivo novelas, contos, peças de teatro consideradas inconvenientes ou blasfemas mas de grande êxito nos palcos; e era, para esta imparável criação, durante noites inteiras apoiado por um consumo imoderado de chá forte, caramelos e cigarros que lhe expulsavam o sono. Gorki, em Capri, convida-o, e as suas relações deterioram-se; Gorki já está próximo dos ventos socialistas que fermentam as suas próximas explosões na rússia, Andreiev sonha para o seu país uma democracia «à Ocidente», e até vê nos estados Unidos da América o seu ideal. A sua condenação comum da tirania czarista não chega para os unir, embora a novela os sete enforcados de 1908, violentíssima na sua denúncia contra a pena de morte, tenha merecido rasgados elogios de Gorki. Anna, a sua segunda mulher, não o faz esquecer-se de Aleksandra e do que ela representou na estabilidade emocional da sua vida; e consegue inspirar-lhe sentimentos perturbadores da estabilidade que sentiu durante todo o tempo do seu primeiro casamento.
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em 18 de Dezembro de 1818 virá a escrever no seu Diário: As minhas relações com Anna constituem um tema de tal importância e gravidade, que só com muitas hesitações consigo abordá-lo. É quase uma tentativa de eu querer definir a minha atitude perante a vida ou o conjunto das minhas relações com a vida — ou ainda, e tal como uma leitora um dia me pediu — de em poucas palavras poder explicar todo o sentido da minha obra. […] mas sinto-me agora tão confuso, que vou tentar responder com rigor e a maior sinceridade possível ao que é o fundo dessa questão: Terei amado a Anna? sim. Amei-a muito, de uma forma muito profunda e sólida; parece-me impensável e assustador perdê-la, e só conseguiria separar-me dela desde que o meu amor desaparecesse. mas enquanto pessoa no mundo provoca-me uma atitude negativa que confina por vezes com uma espécie de ódio no seu plano mais básico. mas o mundo só é um aspecto da sua pessoa e, de resto, o menos importante; ela penetra por outro lado na minha alma, e constitui com isso a sua parte essencial e inalienável. […] mas não estou apaixonado; o que seria impossível, aliás, como é impossível um mesmo ramo dar ao mesmo tempo flores e frutos. só o mero pensamento de que ela possa trair-me ou possa o seu amor desaparecer, consegue expulsar-me instantaneamente do espírito todos os outros sentimentos e levar-me a um estado de demência. A única pessoa que sou capaz de matar mentalmente, e já matei mentalmente, é ela. e só ela! Andreiev começa, neste auge de ficções onde a realidade e o sonho se confundem numa estranha atmosfera mística até então desconhecida na literatura russa, a sofrer graves nevralgias que o abrandam no seu poder criativo; volta-se essencialmente para o jornalismo, um jornalismo feroz que tem como um dos seus alvos preferidos
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o imperialismo alemão (que lhe parece necessário derrotar antes de ser possível destruir por dentro a autocracia czarista). na rússia, a revolução de Fevereiro de 1917 faz-lhe nascer a esperança de uma república democrática, mas é bem depressa desiludido com a ascensão dos bolchevistas. Andreiev mostra-se violento contra as pretensões comunistas de lénine, e apoia a moderação de Kerenski. O poder dos bolchevistas, sanguinário e totalizador, afasta-o de são Petersburgo (crismado agora com o nome de Petrogrado, para expurgá-lo do «são» que soa excessivamente a cristianismo) e fá-lo refugiar-se na sua casa de Vammelssuu, na Finlândia russa. Os seus tempos de largueza material acabaram-se. Andreiev vive com fome e frio, a ser aqui entendidos no seu sentido mais cruel e mais directo. Tem sucessivos ataques cardíacos, mas força mental para publicar em 1919 o seu s.o.s., um panfleto antibolchevista com versões espalhadas por toda a europa. em dias de grande desespero perante a crescente bolchevização da rússia, escreve ao editor americano herman Bernstein pedindo-lhe ajuda monetária para uma viagem à América, onde pretende fazer conferências que alertem o povo americano «contra o perigo mundial que estaria numa vitória bolchevista». Bernstein tinha-o visitado uma vez na rússia, e Andreiev pusera-o a par da sua distante paixão pela América. na sua memória sobre o escritor há estas palavras: «eu tinha visto muitas fotografias suas, mas não se parecia com nenhuma delas. […] eu tinha à minha frente um homem robusto e bem constituído, com um olhar magnífico. Vestia uma blusa de um cinzento claro e umas calças largas, negras, arregaçadas até aos joelhos. estava descalço. […] “na minha infância”, disse Andreiev, “eu adorava a América. sentia uma permanente vontade de fugir para lá. Ainda hoje sinto que me atraso a realizar esse desejo, mas tenho medo… Posso ser tão mal recebido como o meu amigo Gorki.»
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não chegará a fazê-lo. Teve a sua casa parcialmente destruída por uma bomba, e em 12 de setembro de 1919 um ataque cardíaco fatal. Kornei Tchukovski, poeta mas também um dos mais admirados escritores de histórias infantis da rússia, deixou-nos dele um singular retrato: «O seu belo rosto finamente cinzelado, a sua silhueta de uma elegância um pouco pesada, o seu andar leve e aristocrático — tudo estava em harmonia neste papel de duque solene que ele, nos seus últimos tempos, tão bem soube interpretar. era este o seu supremo espectáculo; entre esta personagem e ele construía-se uma fusão orgânica. Fazia parte dessa gente talentosa, vaidosa, que gosta de fazer de si um espectáculo, que quer ser o capitão de todos os navios, bispo de todas as igrejas. não suportava um segundo papel em nada, até no jogo dos gorodki, essa espécie de jogo da bola russo; queria ser primeiro e único. Poderíamos imaginá-lo a caminhar à frente de uma qualquer procissão sumptuosa, iluminado por archotes e ao som de sinos. «Tudo o que rodeava Andreiev, tudo aquilo que o reflectia tinha qualquer coisa de decorativo e teatral. Os interiores das suas casas por vezes lembravam um cenário; e a própria casa — em estilo norueguês, ladeada por uma torre — parecia saída da imaginação de um brilhante encenador. Os seus trajos assentavam-lhe como os trajos de um tenor de ópera — trajos de pintor, de desportista, de marinheiro. «Apropriava-se da voz, das manias, da vida interior das suas personagens, entrava dentro delas como um actor. isto explica o grande número de juízos contraditórios que foram feitos sobre a sua pessoa. Alguns diziam: é altivo; outros: tem o coração nas mãos. Um visitante via-o no papel de savva; outro confrontava-se com o estudante da comédia os Dias da Nossa vida; outro ainda encontrava
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o pirata horra. e todos pensavam: Andreiev é isto. esqueciam-se de que tinham à sua frente um artista com centenas de máscaras; e que ele, sinceramente, com absoluta convicção, considerava cada uma dessas máscaras o seu próprio rosto.» A rússia soviética ignorou-o, escondeu-o até ao degelo de nikita Khrushchov. Antes disso o nome de Andreiev conformou-se com muitos anos de apagamento, com uma fama de escritor para burgueses do Ocidente, sussurrado e muito raramente referido no seu país natal. em anos estalinistas, com a sibéria presente como nunca à distância de uma frase, e a imagem dos «incómodos» quimicamente apagada dos retratos, era lido às escondidas e em velhas edições saídas da segunda fila, em estantes de russos mais velhos que as resguardavam da ceifa comunista. Os seus restos físicos estão hoje em são Petersburgo, assinalado com um singelo pilar prismático no cemitério de Volkovo; perto dele Blok, Kuprin, leskov e Pavlov; a dois passos de Turguéniev. * «Queria ser imenso», disse Andrei Biéli três anos depois da sua morte, «mas não à sua própria custa; no seu percurso efémero de escritor queria reflectir a marcha do século. Atravessava a história da literatura do século XX com um andar que parecia às vezes teatral. Kornei Tchukovski via nele um actor desinteressado. era um D. Quixote no mais magnífico dos sentidos. A grandeza daquilo que criou reside no seu vistoso inquérito do grande. A vida dos seus livros é uma epopeia. Atrás da sua máscara respirava o “eu” do mundo inteiro, e ele nunca reparou nisso.» A.F.
AUTO-RETRATOS
Andreiev foi durante a sua vida um apaixonado pela fotografia, atento aos maiores avanços técnicos que houve no seu tempo neste domínio. há no seu espólio centenas de chapas e máquinas fotográficas de fabrico alemão e francês, e foi pioneiro na fotografia a cores. Gostando, como gostava, fisicamente de si, prolongou no tempo a sua imagem deixando à posteridade um grande número de auto-retratos. são todos de um rosto mais ou menos melancólico e sobrecarregado na expressão por um qualquer martírio interior; reflecte em quase todos, assumindo como seu, o que imaginamos para muitas das atormentadas personagens dos seus livros.
existe uma versĂŁo pintada deste auto-retrato, num artigo que em 1912 a revista solntsie rossii (sol da rĂşssia) consagrou Ă s suas pinturas.
Junto de uma das ampliações que fez de uma das gravuras de Goya, e que estaria destinada a ilustrar uma edição de o riso vermelho.
num auto-retrato de humor (sacrílego?), expondo-se em posição dominante sobre um crucifixo que tinha pendurado no seu escritório.
numa das salas da sua casa de Vammelsuu.
no jardim em Vammelsuu.
no ÂŤbanco redondoÂť de Vammelsuu.
Com Anna Denissevith no jardim de Vammelsuu.
em maio de 1910, Ă sua mesa de trabalho. (esta cadeira estĂĄ hoje no museu de Oriel, terra natal de Andreiev.)
Vestido como um indiano, na casa alugada no VerĂŁo de 1913, na ilha de KoĂŻvisto.
Acabado de sair do seu iate. (eu viajava no meu barco completamente nu. Nos primeiros tempos senti vergonha de mim próprio, mas não tardou que me habituasse; deixei de notar a minha nudez e, com toda a alegria de uma vida renascente, entregava-me ao sol, ao vento e à água.)
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primeira parte
1.° fragmento … absurdo e horrível. Já a caminho de ensk senti que seria assim, dez horas a fio, sem pausas nem paragens, sem afrouxar a marcha nem ajudar os que caíam e ficavam à mercê do inimigo que andava afastado três ou quatro horas e cujos passos não tardariam a apagar os nossos. o sol era uma brasa. Não posso imaginar que temperatura os termómetros marcavam, quarenta, cinquenta, talvez mais; o que eu sentia era um calor contínuo, igual e forte, que até desesperava — uma fornalha — o enorme sol a brilhar, a arder como se a terra corresse em direcção a ele e ficasse calcinado na sua labareda implacável. os olhos não viam. As pupilas, pequenas sementes de papoila, tinham-se contraído e procuravam, aflitas, a sombra das pálpebras baixas que o sol trespassava como uma membrana fina, para vir cravar as suas garras no nosso cérebro em sangue. Apesar de tudo ia-se melhor assim, e durante muito tempo andei com os olhos fechados — horas, talvez — ouvindo à minha volta a surda pateada que homens e cavalos faziam a descompasso, o ranger das rodas de ferro que esmigalhavam pedras, respirações ritmadas mas difíceis, línguas que humedeciam lábios. Palavras, nenhuma. Todos em silêncio, um verdadeiro exército de mudos. se alguém caía, caía sem ruído, e os outros tropeçavam nele e por sua vez caíam, para se levantar sem nenhuma
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queixa e a olhar para a frente, acrescentando à ausência das palavras cegueira e surdez. Também caí, e muitas vezes escorreguei. só nessas alturas abria os olhos e enfrentava aquele cenário digno de uma ficção cruel, aquele tresvario de uma terra que tinha, ao que parecia, enlouquecido. o ar incandescente tremulava e as pedras latejavam, prestes a explodir. silenciosas filas de homens armados e cavalos surgiam desligados do solo e até muito longe estremeciam como geleia, perdiam o rigor dos seres terrenos e transformavam-se em fantasmas. o enorme sol incendiava-se nos canos das espingardas, nas placas de metal, multiplicava-se por milhares de cintilantes sóis que atacavam de flanco, por baixo, de todos os lados, ferindo os olhos que a incandescência embranquecia nas suas pontas de baioneta aquecidas ao rubro. Desgastante, o calor conseguia que uma brasa se esgueirasse até às mais secretas circunvoluções do cérebro e, o que não era raro, transformava a cabeça numa bola a badalar, leve e pesada, alheia, inacreditável. De repente dei comigo a pensar na minha casa, num recanto do meu quarto forrado a papel azul, na garrafa da mesa — da minha mesa de cabeceira — cheia de água e com o copo invertido no gargalo, pousado num maço de papéis. A minha mulher e o meu filho estavam no quarto ao lado, julgo eu, mas não tenho a certeza porque não os vi. Tão nítida e agradável foi essa imagem do papel azul e da garrafa cheia de água, que só não gritei por ser fisicamente impossível o esforço de um grito. Lembro-me, porém, de estacar com os braços erguidos, de ter sido empurrado pelo homem que seguia atrás de mim e eu próprio ter empurrado quem me precedia naquela marcha para um destino ignorado, já indiferente ao calor e à
últimos livros
O caso Kurílov, irène Némirowsky A costa de Falesá, robert Louis stevenson nova safo — tragédia estranha, visconde de vila-moura Gaspar da noite — fantasias à maneira de rembrandt e Callot, Aloysius Bertrand rimbaud-Verlaine, o estranho casal O rato da América, Jacques Lanzmann As amantes de Dom João V, Alberto Pimentel Os cavalos de Abdera e mais forças estranhas, Leopoldo Lugones Preceptores – Gabrielle de Bergerac seguido de O discípulo, henry James O Cântico dos Cânticos – traduzido do hebreu com um estudo sobre o plano a idade e o carácter do poema, ernest renan Derborence, Charles Ferdinand ramuz O farol de amor, rachilde Diário de um fuzilado, precedido de Palavras de um fumador de ópio, Jules Boissière A minha vida, isadora Duncan rakhil, isabelle eberhardt Fuga sem fim, Joseph roth O castelo do homem ancorado, Joris-Karl huysmans Tufão, Joseph Conrad heliogábalo ou o anarquista coroado, Antonin Artaud Van Gogh o suicidado da sociedade, Antonin Artaud eu, Antonin Artaud A morte difícil, rené Crevel A lenda do santo bebedor seguido de O leviatã, Joseph roth O Chancellor (Diário do passageiro J.r. Kazallon), Jules verne Orunoko ou o escravo real (uma história verídica), Aphra Behn As portas do paraíso, Jerzy Andrzejewski Tirano Banderas (novela de Terra Quente), ramón del valle-inclán Cáustico lunar seguido de Ghostkeeper, malcolm Lowry Balkis (A lenda num café), Gérard de Nerval Diálogos das carmelitas, Georges Bernanos O estranho animal do Vaccarès, Joseph d’Arbaud A morte da terra, J.-h. rosny Aîné