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Joseph Roth, «A Lenda do Santo Bebedor seguido de O Leviatã»

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Joseph Roth A LENDA DO SANTO BEBEDOR / O LEVIATÃ

Joseph Roth A LENDA DO SANTO BEBEDOR seguido de O LEVIATÃ

prefácio, tradução e notas de

Álvaro Gonçalves

«Havia nele toda a sabedoria do judaísmo, o seu humor, o seu realismo amargo; toda a tristeza da Galícia, todo o encanto e melancolia da Áustria.» Heinrich Böll

www.sistemasolar.pt

Joseph Roth A LENDA DO SANTO BEBEDOR seguido de O LEVIATÃ


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A LENDA DO SANTO BEBEDOR seguido de O LEVIATÃ

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TÍTULO DO ORIGINAL: DIE LEGENDE VOM HEILIGEN TRINKER / DER LEVIATHAN

© SISTEMA SOLAR, CRL (2018) RUA PASSOS MANUEL, 67B, 1150-258 LISBOA tradução © ÁLVARO GONÇALVES NA CAPA: UMBERTO BOCCIONI, O BEBEDOR, 1914 (PORMENOR) REVISÃO: HELENA ROLDÃO 1.ª EDIÇÃO, OUTUBRO 2018 ISBN 978-989-8833-34-1 DEPÓSITO LEGAL 000000/18 ESTE LIVRO FOI IMPRESSO NA EUROPRESS RUA JOÃO SARAIVA, 10A 1700-249 LISBOA

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prefácio Não dou nenhuma importância às coisas públicas. Adoro o que é o privado. Apenas isso me interessa… A vida privada, a simples humanidade é mais importante, mais grandiosa, mais trágica do que o que é público. Joseph Roth, Confissão de um assassino, contada numa única noite

Em 2019, completam-se 125 anos sobre o nascimento de Joseph Roth. Autor de importantes romances como Hotel Savoy (1924) 1, Fuga Sem Fim (1927) 2 , Marcha de Radetzky (1932) 3, e Die Kapuzinergruft [A Cripta dos Capuchos] (1938), Roth deve, postumamente, a reconstrução minuciosa da sua vida real ao germanista americano de origem galiciana David Bronsen4. Após inúmeras entrevistas, conduzidas em doze países e cinquenta cidades, uma análise pormenorizada de arquivos e documentos, Bronsen conclui estar perante um «mitómano», que, na sua opinião, ao longo de uma vida relativamente curta, foi 1 Joseph Roth, Hotel Savoy, trad. José Sousa Monteiro, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1991. 2 Joseph Roth, Fuga Sem Fim, trad. Álvaro Gonçalves, Sistema Solar, Lisboa, 2018. 3 Joseph Roth, Marcha de Radetzky, trad. Maria Adélia Silva Melo, Vega, Lisboa, 2018. 4 David Bronsen, Eine Biographie (gekürzte Fassung von Katharina Ochse), Kiepenheuer & Witsch, Köln, 1993.

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refundindo permanentemente a história da sua vida em que a fantasia e a realidade se confundem ao ponto de justificar o seu próprio modus vivendi. Joseph Roth nasceu na pequena cidade de Brody (e não na localidade vizinha de Schwabendorf, como por vezes aparece indicada em notas biográficas), situada na região histórica da Galícia Oriental, no limite extremo do Império Austro-Húngaro. A mãe, Maria Grübel, era filha de um negociante judeu, e o pai, Nachum Roth, era oriundo da Galícia Ocidental. Roth não chegou a conhecer o pai. Sabe-se que, durante uma viagem de negócios de Hamburgo a Berlim, foi acometido de uma súbita doença mental, ao ponto de ter de ser internado num hospital psiquiátrico na Alemanha e, posteriormente, entregue aos seus familiares na Galícia Ocidental. Maria Grübel, após ter esperado em vão pelo marido, não teve outro remédio senão regressar a casa do seu pai, em Brody, tendo dado à luz o seu filho Moses Joseph Roth no dia 2 de Setembro de 1894. O trágico desaparecimento do pai, antes mesmo do nascimento de Roth, viria a marcar definitivamente a sua personalidade e a sua escrita. Assim, a figura do pai acompanha-o ao longo da vida, ao ponto de David Bronsen o incluir na geração dos escritores expressionistas que sobrevalorizaram o pai (o «ódio ao pai») 1: Franz Kafka, Georg Trakl e Franz Werfel. Enquanto estes se sentiam oprimidos pelo seu poder omnipotente, Roth sofria obcecadamente com a sua ausência. Ao contrário, por exemplo, de Kafka, Roth teve de incessantemente procurar a figura do pai, encontrando-a, finalmente, «na sua fantasia e nos seus sonhos, 1 Cf. Ludwig Scheidl, «Franz Kafka e o Expressionismo», in Gonçalo Villas-Boas/Zaida Rocha Ferreira (org.), Perspectivas e Leituras do Universo Kafkiano, apáginastantas, Lisboa, 1984, pp. 55-69.

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no venerado Estado que o protegeu na infância e cuja personificação viva é o Imperador-pai em Viena, Francisco José»1. Segundo o seu mais recente biógrafo, Wilhelm von Sternburg, esta rejeição, no caso dos autores acima citados, ou a busca do pai no caso de Roth, está intimamente associada ao papel central que a figura do pai representa na cultura judaica. Diz Sternburg: «É na autoridade paterna que se reflecte a Lei Divina.»2 A Galícia Oriental, onde Roth passa a infância, constitui um autêntico caldo de povos, culturas, línguas e religiões. Viviam aqui judeus, polacos, austríacos de língua alemã e rutenos (designação atribuída aos ucranianos na Áustria imperial). Neste microcosmo cultural, é confrontado com um mundo cheio de contrastes, e é aqui que virá buscar os temas e as personagens da grande parte dos romances e das novelas escritos sobretudo no seu exílio parisiense a partir dos anos trinta3. Após ter feito os estudos secundários em alemão no liceu K.K. Kronprinz Rudolf-Gymnasium, em Brody, onde absorve a cultura de língua alemã, Roth frequenta a Universidade de Lemberg (a capital da Galícia) durante um semestre, mudando-se, no Outono de 1913, definitivamente, para Viena. O que terá contribuído para esta mudança foi talvez a introdução da língua polaca como língua de ensino na Universidade, para além do ambiente provinciano da «pequena Viena», como era conhecida a cidade de

Cf. Helmuth Nürnberger, Joseph Roth — mit Selbstzeugnissen und Bilddokumenten, Rowohlt Taschenbuch Verlag, Hamburgo, 1995, p. 13. 2 Cf. Wihelm von Sternburg, Joseph Roth — Eine Biographie, Kiepenheuer & Witsch, Köln, pp. 28-31. 3 Cf. Dennis Marks, Wandering Jew, The Search for Joseph Roth, Notting Hill Editions Ltd, London, 2011. 1

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Lemberg1 Enquanto estuda Germanística na Universidade de Viena, contacta directamente com o apogeu tardio do modernismo vienense, que abrange a arquitectura, a pintura, a música e, sobretudo, a literatura. Lê intensivamente Hugo von Hofmannsthal, Arthur Schnitzler, Sigmund Freud e Karl Kraus. De entre os escritores estrangeiros, aprecia Stendhal e Joseph Conrad. Nos anos iniciais da 1.ª Guerra Mundial, faz as primeiras tentativas literárias, publicando poemas, contos e ensaios no jornal Österreichs Illustrierte Zeitung. Apesar do crescente anti-semitismo em Viena e da rejeição dos judeus em geral e dos judeus orientais em particular, ou, talvez, justamente por isso, Roth deixa-se facilmente influenciar pelo estilo de vida vienense, do que resulta uma estranha mistura da frivolidade do austríaco e da melancolia típica do judeu oriental. Em 1916, alista-se voluntariamente no exército. Muitas das experiências vividas neste período encontram eco nos futuros trabalhos jornalísticos e nos romances que viria a escrever. Esta vivência, particularmente dolorosa, constitui uma ruptura na sua criação literária. Após o regresso a Viena, publica poesia na revista Der Friede e, correspondendo ao conselho de um redactor desta revista, faz as primeiras tentativas jornalísticas. Estes trabalhos representam o início da bem-sucedida carreira de cronista literário (Feuilletonist), que, após a publicação do seu primeiro romance, Das Spinnennetz (A Teia de Aranha), em 1923, no jornal vienense Arbeiter-Zeitung, acompanhará a sua carreira literária até ao fim da vida. A gradual melhoria da situação económica, graças sobretudo aos trabalhos jornalísticos, representa uma reviravolta no 1

Helmuth Nürnberger, op. cit., p. 36.

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seu estilo de vida. Roth passa a frequentar com regularidade os cafés de Viena, que, apesar da mudança radical verificada no pós-guerra, tanto ao nível político como social, continuam a representar o que eram no período glorioso da Viena finissecular1. Começa assim a vida de «nómada de cafés e hotéis», onde escreve a quase totalidade dos seus romances e novelas. É também no seu café vienense preferido, Café Herrenhof, na Herrengasse, frequentado por figuras tão importantes da vida intelectual e cultural de Viena como Franz Werfel, Hermann Broch, Milena Jesenská e Alfred Adler, que Roth conhecerá a sua futura mulher, a jovem, bela e delicada «Friedl». Se a relação com Friederike Reichler contribui fortemente para que Roth limite o consumo do álcool, será também ela o motivo do crónico alcoolismo que o conduzirá à morte prematura. Em 1928, declaram-se em Friederike os primeiros sinais de uma grave perturbação mental, que mais tarde será diagnosticada como esquizofrenia. O agravamento progressivo da doença de Friederike, o seu internamento num sanatório perto de Viena e, posteriormente, devido à extrema gravidade do estado mental, o seu isolamento numa cela do hospital psiquiátrico am Steinhof, originam sentimentos de culpa profundos em Roth, passando a ser a escrita o seu único refúgio. É precisamente nesta fase que escreve dois dos seus maiores êxitos literários: Job2 e Marcha de Radetzky. 1 Sobre a importância do Kaffeehaus vienense leia-se a frase de Alfred Polgar: «Das Wiener Kaffeehaus ist kein Kaffeehaus, es ist eine Weltanschauung» [O café vienense não é um café, é uma mundivisão] (David Bronsen, op. cit., p. 110). Sobre a ligação entre o famoso Café Griensteidl, em Viena, e o círculo literário formado pelos escritores impressionistas denominado Jung Wien, veja-se Gotthart Wunberg (org.), Die Wiener Moderne — Literatur, Kunst und Musik zwischen 1890 und 1910, Philipp Reclam, Stuttgart, 1984, pp. 16-19. 2 Joseph Roth, Job, trad. Catarina Pacheco, Ulisseia, 2010.

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Antes da sua partida definitiva para Paris, em 30 de Janeiro de 1933, precisamente no dia em que Adolf Hitler é nomeado chanceler alemão, é importante que se faça referência ao período berlinense. A partida para Berlim, em 1 de Junho de 1920, deve-se sobretudo à «letargia e indiferença cultural»1 que se vivia em Viena do pós-guerra, a que não seria alheia a situação económica e social extremamente difícil da nova Áustria, reduzida à dimensão que tem actualmente. Em Berlim, continua a actividade jornalística, colaborando em jornais como Die Neue Berliner Zeitung, Berliner Tageblatt, Vorwärts, Berliner Börsen-Courier e, finalmente, no prestigiado Frankfurter Zeitung. Os seus Feuilletons (crónicas literárias), a que chama «bolas de sabão» (Seifenblasen), de estilo muito pessoal, em que se entrelaçam o espírito observador, a fantasia e a reflexão, constituem a antecâmara das futuras obras literárias. Avesso à corrente expressionista e mais próximo da Nova Objectividade (sobretudo na fase inicial da sua carreira literária), não obstante a ambiguidade com que se relaciona com este movimento artístico-literário alemão2 , Roth cria um estilo peculiar, influenciado fortemente pela escrita jornalística. Cf. Ludwig Scheidl, op. cit., p. 16. A este propósito, leia-se o capítulo «Joseph Roth e a Nova Objectividade» da tese de doutoramento minuciosa e abrangente de Idalina Aguiar de Melo: Marginalidade e Cânone Literário na Obra de Joseph Roth, Coimbra, 1991, p. 385. A expressão «nova objectividade» foi utilizada pela primeira vez em 1925 por G.F. Hartlaub para designar uma exposição «realista» realizada em Mannheim por jovens pintores. Caracteriza desde então o regresso à visão «objectiva» e neutra da realidade e o rompimento com o irracionalismo romântico. Representa simultaneamente uma violenta reacção ao expressionismo. Contudo, este «regresso» não representava um regresso ao «naturalismo» nu e cru, mas sim a uma «objectividade» idealista que procurava o «verdadeiro sentido das coisas». 1 2

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Referindo-se à perspectiva do narrador na novela O Busto do Imperador, Carlos Guimarães1, na nota de leitura dedicada à tradução, evidencia esta peculiaridade de estilo: […] se ele, por um lado, observa os acontecimentos que narra «de fora», os comenta, se dirige ao leitor numa familiaridade construída, por outro lado, surge como que identificado com a figura do conde Morstin, e através dele exprime opiniões que correspondem às do próprio autor […]. Consegue-se assim a curiosa dialética de distância e identificação […].

Esta análise aplica-se também à Lenda do Santo Bebedor que aqui se apresenta: veja-se, a título de exemplo, a forma neutra e objectiva como o narrador inicia a história: «Numa tarde de Primavera do ano de 1934, um senhor de certa idade descia as escadas de pedra que conduzem uma das pontes sobre o Sena às suas margens.» No parágrafo que se segue, as frases: «Este vagabundo […] parecia merecer uma atenção muito especial do senhor de certa idade bem-vestido. Não sabemos bem porquê.», expressam a familiaridade com que se dirige ao leitor. Por outro lado, o narrador adopta a perspectiva «enevoada pelo álcool», pondo-se claramente na pele do protagonista, para deste modo, como afirma Bronsen2, poder contar a história como quem conta um conto de fadas, isto é, sem ter de justificar os acontecimentos extraordinários que se sucedem ao longo da novela. 1 Carlos Guimarães, «Joseph Roth (Nota de Leitura)», in Ludwig Scheidl (org.), op. cit., p. 295. 2 David Bronsen, op. cit., p. 328.

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A Lenda do Santo Bebedor — a que Ilse Josepha Lazaroms, no seu estudo dedicado a Roth e aos anos de exílio em França, chama uma «autonarração»1 —, escrita nos últimos quatro meses da sua vida e dada por terminada em Abril de 1939, constitui um autêntico canto de cisne de Joseph Roth. A novela narra as últimas três semanas da vida de Andreas, um vagabundo alcoólico, a quem acontecem estranhos milagres. A história desenrola-se em Paris e foi baseada num relato dum amigo que ouviu no Café Tournon2 . É sintomático como Roth se apodera da personagem principal para, duma forma premonitória, antecipar literariamente a sua própria morte, trágica como ela foi no exílio parisiense. Porque, ao contrário do desejo expresso no último parágrafo da novela, Deus não lhe deu a ele, o bebedor, uma morte tão suave e bela como a que teve a personagem Andreas. Tal como em A Lenda do Santo Bebedor, também na novela O Leviatã, escrita igualmente no exílio francês e publicada um ano após a sua morte, em 1940, pelo editor holandês de origem judaico-portuguesa, Emanuel Querido, Roth conta, no tom legendário3, a história do judeu Nissen Piczenik, tão singular como Andreas, que, na «Schtetl» de Progrody, perdida e isolada na imensidão da Rússia, entre Kursk e Voronej, leva uma vida simples e honesta de negociante de corais. Apesar de conviver diariamente com os corais — a sua verdadeira razão de ser —, Nissen Piczenik anseia pelas profundezas do mar, onde supõe Cf. Ilse Josepha Lazaroms, The Grace of Misery. Joseph Roth and the Politics of Exile (1919-1939), Brill, Leiden, p. 125. 2 «Daraus werde ich eine Geschichte machen. Sie wird meine letzte sein.» [Farei dela uma história e ela será a minha última.], David Bronsen, op. cit., p. 326. 3 Cf. Ilse Pollack, «Joseph Roth: Entre o Império e a “Schtetl”», in Mundos de Fronteira, trad. João Barrento, Cotovia, Lisboa, 2000, p. 71. 1

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crescerem os corais, guardados pelo incomensurável e poderoso monstro bíblico Leviatã. O aparecimento súbito do «diabo Jenö Lakatos», um húngaro coxo, (figura que perpassa várias narrativas de Roth), que introduz corais falsos na região, representa uma reviravolta na pacata vida de Piczenik. Desprotegido das leis religiosas, que vai infringindo gradualmente, e deixando-se levar pelas tentações do «diabo» Lakatos, Nissen Piczenik cai definitivamente na desgraça1. O recurso sistemático ao estilo do conto maravilhoso constitui, por parte de Joseph Roth, uma tentativa de dar vida, embora de uma forma utópica, ao microcosmo da sua terra natal, a Galícia Oriental, que então se encontrava em desmoronamento irreversível. Conforme afirma Ilse Pollack, a partir da fusão do reino dos Habsburgos, da imperial-régia monarquia, e do mundo cultural da cidadezinha judaica do Leste («Schtetl, em iídiche), Roth «constrói uma utopia na qual procura refugiar-se das iniquidades da História»2 . Esta e outras histórias de Roth são, por um lado, uma homenagem à velha monarquia austríaca dos Habsburgos, que, na sua opinião, era a pátria de todos, e, por outro, a toda uma região histórica — agora desaparecida, onde, segundo o grande poeta de língua alemã, originário de famílias judaicas de Bucovina, Paul Celan, viviam pessoas e livros. Álvaro Gonçalves Agosto de 2018

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Cf. idem, ibidem, p. 72. Cf. idem, ibidem, p. 57.

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introdução cronológica à vida e obra de joseph roth «… pelo menos na literatura, viveu até ao fim em estado de graça.» Pietro Citati

1894 Moses Joseph Roth nasce a 2 de Setembro em casa do seu avô materno, Jechiel Grübel, em Brody, uma pequena cidade situada na Galícia Oriental, no limite extremo do Império Austro-Húngaro. O pai, Nachum Roth, oriundo da Galícia Ocidental, era comerciante com negócios em Hamburgo, e a mãe, Maria Grübel, nascera e vivera toda a vida em Brody. De acordo com os depoimentos dos seus futuros amigos e companheiros, Roth altera o local de nascimento de forma sistemática. Todos os documentos emitidos nas várias cidades onde esteve indicam Schwaby ou Schwabendorf (uma localidade vizinha de Brody) como o local de nascimento. Numa carta escrita à redacção de um jornal vienense, diz ter nascido em «Schwabendorf, numa colónia alemã de Volínia», e na nota biográfica redigida para a sua tradutora francesa, Blanche Gidon, relata «… né… à Svaby, colonie allemande…». Quanto mais ocidental for a origem do judeu, mais judeus há para os quais ele olha com desdém. O judeu de Frankfurt olha com desdém para o judeu de Berlim; o judeu de Berlim olha com desdém para o judeu de Viena; o judeu de Viena olha com desdém para o judeu de Varsóvia. Depois, vêm ainda os judeus da longínqua Galícia, que são desdenhados por todos eles, e eu sou de lá, o último de todos os judeus.

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1901 Começa a frequentar a escola primária Baron-Hirsch, na Pfarrgasse, em Brody, aí se mantendo até 1905. As escolas primárias Baron-Hirsch, frequentadas predominantemente pelas crianças judias, substituem as velhas Cheder, sendo reconhecidas e subsidiadas pelo Estado. Além do iídiche e do alemão, aprende o polaco e o hebraico. É aqui que assimila os ritos e os costumes judaicos. Vejo que não se é judeu em vão há quatro mil anos, nada mais do que um judeu. Tem-se um destino antigo, um sangue antigo e igualmente experiente. 1910 Morte do pai, Nachum Roth, algures na Galícia Ocidental, após o seu estranho desaparecimento enquanto fazia uma viagem de negócios a Berlim, durante a qual foi acometido de uma súbita doença mental. Nunca chegará a conhecer o filho, cuja existência, aliás, ignorava. … meu pai… deixou-a (a mãe) só, em Katowice, e desapareceu para nunca mais ser visto. 1905/13 Frequenta o liceu K.K. Kronprinz Rudolf-Gymnasium. O ambiente multiétnico da instituição, com alunos e professores oriundos das várias nações limítrofes pertencentes ao Império, abre-lhe novas perspectivas, permitindo-lhe desligar-se do ambiente estritamente judeo-eslavo em que vivia. É também a este liceu que deve a formação cultural fortemente alemã que virá, aliás, a moldar a sua personalidade literária.

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Para o judeu oriental, a Alemanha… é a terra de Goethe e Schiller, dos poetas alemães, que todo o judeu ávido do saber… conhece… Durante todo este período, leva uma vida recatada e isolada, sem nenhum contacto com nenhuma das duas comunidades que frequentavam o liceu: a católica e a judaica. O professor de alemão considera-o o seu melhor aluno. Lê e escreve intensamente. Descobre Heinrich Heine. É capaz de recitar poesias inteiras deste poeta e prosador alemão, de origem também judia, e autor dos celebrados Buch der Lieder (Livro de Canções) e Die Harzreise (Viagem ao Harz). Heinrich Heine e Ludwig Börne, os precursores do feuilleton (crónica literária) alemão, constituirão o modelo da sua futura actividade jornalística e de cronista literário. Expressa ao seu antigo professor de alemão, Max Landau, o desejo secreto de ser escritor. — A vontade é o meu Deus — E com dedicação e perseverança atinge-se o maior dos objectivos. 1913 No Verão de 1913, viaja para Lemberg (actualmente Lviv), a capital da Galícia, conhecida na altura como a «pequena Viena». Matricula-se na universidade local. O facto de o polaco ser a língua oficial da universidade leva Roth a desinteressar-se dos estudos. Viaja para Viena com o intuito de participar no XI Congresso Sionista, em que está presente também Franz Kafka. Aproveita a estada na cidade para conhecer o ambiente universitário vienense. A sua posição perante o movimento sio-

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Introdução Cronológica

nista é crítica. Defende antes a profunda religiosidade do judeu oriental. Este judeu não é um judeu «nacional», no sentido europeu da palavra. É um judeu de Deus… Um hassidim e um judeu ortodoxo oriental sentem-se mais próximos de um cristão do que de um sionista. É o ambiente crepuscular e, simultaneamente, florescente da Viena dos anos dez que acolhe Roth no ano de 1913. A vida cultural em Viena vive um apogeu tardio nas mais variadas artes que representam o modernismo vienense. Grande parte do contributo para esta prosperidade é dada pela comunidade de intelectuais judeus. Enquanto os pais se dedicam ao pequeno comércio, os filhos estudam, especulam, filosofam, escrevem, pintam e praticam a ciência. Roth inicia os seus estudos de Germanística na Universidade de Viena. Vive, com a mãe e uma tia, enfrentando grandes dificuldades financeiras, num apartamento humilde do distrito operário de Brigittenau. Mal tenho dinheiro para comprar sapatos, e os sapateiros são extremamente caros. O coração dum sapateiro destes é mais duro que a sola de sapato. Lê intensamente obras de Hugo von Hofmannsthal, Arthur Schnitzler, Karl Kraus, Sigmund Freud e Eduard Mörike. De entre os estrangeiros, prefere Stendhal e Joseph Conrad. Os livros de Conrad são turbulentos como o mar, serenos como o mar e profundos como o mar. 1915 Inicia a colaboração no jornal Österreichs Illustriete Zeitung, em que publica poemas, contos e ensaios. Começa a

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i. Numa tarde de Primavera do ano de 1934, um senhor de certa idade descia as escadas de pedra que conduzem uma das pontes sobre o Sena às suas margens. Como é do conhecimento de toda a gente, e que, não obstante, merece ser relembrado nesta ocasião, os vagabundos de Paris costumam dormir, ou melhor, acampar neste sítio. Pois bem, um destes vagabundos veio ao encontro do senhor de certa idade, que, aliás, estava bem-vestido, dando a impressão de ser um viajante que tinha a intenção de visitar os locais de importância turística das cidades estrangeiras. Este vagabundo tinha um aspecto tão desamparado e miserável como todos os outros com quem compartilhava a sua vida. Contudo, parecia merecer uma atenção muito especial do senhor de certa idade bem-vestido. Não sabemos bem porquê. Como já se disse, era já tarde, e, debaixo das pontes, nas margens do rio, escurecia mais do que lá em cima, no cais e nas pontes. O vagabundo, visivelmente desamparado, cambaleava um pouco. Parecia não reparar no senhor idoso bem-vestido. No entanto, este, que não cambaleava, mas caminhava seguro e direito, pelos vistos, reparara de longe naquele que cambaleava. O senhor de certa idade foi directamente ao encontro do homem desamparado. Ambos ficaram parados frente a frente.

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«Para onde vai, irmão?», perguntou o senhor idoso bem-vestido. O outro olhou para ele durante um instante e disse: «Que eu saiba, não tenho nenhum irmão, e não sei para onde me conduz o caminho.» «Tentarei indicar-lhe o caminho», disse o senhor. «Mas não deve ficar aborrecido comigo, se lhe pedir um favor invulgar.» «Estou pronto para qualquer serviço», respondeu o desamparado. «Vejo, de facto, que comete alguns erros. Mas Deus pô-lo no meu caminho. Certamente, precisa de dinheiro, não me leve a mal esta frase! Eu tenho dinheiro a mais. É capaz de me dizer com sinceridade quanto precisa? Pelo menos, por agora?» O outro pensou durante uns segundos e depois disse: «Vinte francos.» «Essa quantia é, com certeza, demasiado pequena», replicou o senhor. «O senhor precisa seguramente de duzentos.» O desamparado recuou, dando a impressão de que ia cair. No entanto, continuou em pé, embora cambaleante. Depois, disse: «Claro que prefiro duzentos francos aos vinte, mas sou um homem honrado. O senhor parece interpretar-me mal. Não posso aceitar o dinheiro que me oferece pelas seguintes razões: primeiro, não tenho o prazer de o conhecer; segundo, porque não sei como e quando lho poderei devolver; terceiro, porque o senhor também não tem a possibilidade de reclamar, pois não tenho nenhuma morada. Moro quase todos os dias debaixo de uma ponte diferente deste rio. Apesar disso,

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como já sublinhei uma vez, sou um homem honrado, mesmo que não tenha uma morada.» «Também eu não tenho nenhuma morada», respondeu o senhor de certa idade, «também eu moro todos os dias debaixo de uma ponte diferente e, ainda assim, peço-lhe que aceite os duzentos francos amigavelmente, quantia ridícula, aliás, para um homem como o senhor. Agora, no que respeita ao reembolso, tenho de aprofundar mais o assunto para lhe explicar por que razão não lhe posso indicar nenhum banco onde possa depositar o dinheiro. Pois eu converti-me ao cristianismo ao ler a história da Santa Teresinha de Lisieux. E agora venero muito especialmente a estátua da Santa que se encontra na capela de Ste Marie des Batignolles, e que o senhor facilmente identificará. Logo que disponha, portanto, dos míseros duzentos francos, e se a sua consciência o obrigar a não ficar a dever esta ridícula quantia, dirija-se à capela de Ste Marie des Batignolles e deposite o dinheiro aos cuidados do padre que acabar de rezar a missa. Se deve dinheiro a alguém, é à Santa Teresinha. Não se esqueça: na capela de Ste Marie des Batignolles.» «Vejo», disse o desamparado, «que compreendeu perfeitamente o que eu disse em relação a mim e em relação à minha dignidade. Garanto-lhe que cumprirei a minha palavra. Mas só posso ir à missa aos domingos.» «Está bem, aos domingos», disse o senhor idoso. Tirou duzentos francos da carteira, entregou-os ao senhor cambaleante e disse: «Agradeço-lhe!» «Com todo o prazer», respondeu este, desaparecendo logo a seguir na escuridão profunda.

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Pois jรก tinha escurecido lรก em baixo, enquanto em cima, nas pontes e no cais, se acendiam os candeeiros para anunciar a alegre noite de Paris.

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ii. Também o senhor bem-vestido desapareceu na escuridão. Coubera-lhe em sorte o milagre da conversão e decidira levar a vida dos mais pobres. E, por isso, vivia debaixo das pontes. Quanto ao outro, era um bebedor, um autêntico borrachão. Chamava-se Andreas e vivia ao deus-dará como muitos bebedores. Há muito que não tinha em sua posse duzentos francos. E talvez por isso, porque já foi há tanto tempo, tirou do bolso um bocadinho de papel à luz mortiça de um dos raros candeeiros existentes debaixo de uma das pontes e, com aquilo que restava de um lápis, escreveu o endereço da Santa Teresinha e a quantia de duzentos francos que a partir de agora lhe ficaria a dever. Subiu uma das escadas que vão das margens do Sena ao cais. Aqui, sabia ele, havia um restaurante. Entrou, e comeu, e bebeu bem, e gastou muito dinheiro, e levou ainda uma garrafa inteira consigo para a noite que tencionava passar debaixo da ponte, como era habitual. Tirou até um jornal de um cesto de papéis, não para o ler, mas sim para se cobrir com ele. Como é do conhecimento de todos os vagabundos, os jornais aquecem.

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iii. Na manhã seguinte, Andreas levantou-se mais cedo do que era habitual, pois dormira excepcionalmente bem. Após uma longa reflexão, lembrou-se de que na véspera vivera um milagre, sim, um milagre. E já que pensava que dormira bastante bem nesta última noite amena, coberto com jornais, como não acontecia há muito tempo, decidiu também lavar-se, o que não fazia há meses, sobretudo na estação mais fria. Antes de se despir, pôs novamente a mão no bolso interior esquerdo do casaco, onde, se a memória não lhe falhava, devia estar o resto do milagre. Procurou então um sítio suficientemente isolado no declive do Sena para ao menos poder lavar a cara e o pescoço. Mas como receava ser observado pelas pessoas em redor, pessoas miseráveis como ele (arruinados, como lhes chamava de si para si), desistiu finalmente da sua intenção, limitando-se a mergulhar as mãos na água. A seguir, vestiu de novo o casaco, pegou outra vez na nota do bolso interior esquerdo do casaco e sentiu-se completamente limpo e francamente transformado. Começou o dia despreocupadamente, mais um dos seus dias que ele, desde tempos imemoriais, estava habituado a malgastar, decidido, também hoje, a dirigir-se à habitual rue des Quatre Vents, onde ficava o restaurante russo-arménio, Tari-Bari, e onde gastava em bebidas baratas o escasso dinheiro que o acaso diário lhe concedia.

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O LEVIATÃ

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i. Na pequena cidade de Progrody, vivia, há muito tempo, um negociante de corais que, graças à sua seriedade, graças à qualidade e à autenticidade da sua mercadoria, era conhecido em toda a região. Das longínquas aldeias, as camponesas procuravam-no quando precisavam de um adorno para ocasiões especiais. Facilmente teriam encontrado outros negociantes de corais nas redondezas, mas elas sabiam que ali apenas encontrariam futilidades e bijutaria barata. Por isso, percorriam por vezes quilómetros e quilómetros nos seus carrinhos ruidosos até chegarem a Progrody, ao famoso negociante de corais, Nissen Piczenik. Normalmente, chegavam nos dias em que se realizavam as feiras. À segunda-feira, era a feira de cavalos, à quinta, a feira de porcos. Os homens observavam e examinavam os animais, as mulheres, caminhando em grupos irregulares, descalças e com as botas penduradas por sobre os ombros, com lenços de cabeça coloridos e brilhantes mesmo nos dias sombrios, dirigiam-se a casa de Nissen Piczenik. Os pés descalços, calejados, produziam rufos abafados e alegres nas tábuas ocas do estrado de madeira e no corredor vasto e frio da velha casa onde o negociante vivia. O corredor abobadado conduzia a um átrio recatado, onde, entre as pedras da calçada irregulares, vicejava musgo suave e, nas estações mais quentes, crescia erva espontânea. Aqui, as galinhas de

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Piczenik, encabeçadas pelos galos, de garbosas cristas vermelhas, como os corais mais vermelhos, iam amigavelmente ao encontro das camponesas. Era necessário bater três vezes na porta de ferro em que pendia uma aldraba. Então, Piczenik abria um pequeno postigo, entalhado na porta, olhava para as pessoas que solicitavam entrada, abria o ferrolho e deixava entrar as camponesas. Aos mendigos, cantores ambulantes, ciganos e homens com ursos dançarinos costumava dar esmola através do postigo. Tinha de ser bastante cuidadoso, pois, em cima de todas as mesas da sua espaçosa cozinha e da sala de estar, havia montinhos grandes, pequenos e médios de preciosos corais, vários povos e raças de corais mesclados ou já ordenados de acordo com a sua especificidade e cor. Todo o cuidado era pouco com os mendigos, e Piczenik sabia que a pobreza atraía irresistivelmente o pecado. Sem dúvida que, por vezes, até camponesas ricas roubavam; pois as mulheres dificilmente conseguem resistir à tentação de se apropriar, de uma forma furtiva e numa situação de perigo, de um adorno que facilmente poderiam comprar. Mas, quando se tratava de clientes, o negociante fazia vista grossa e, de qualquer modo, os preços da sua mercadoria cobriam alguns roubos. Empregava nada mais nada menos que dez enfiadeiras1, mulheres jovens e bonitas, com uma visão precisa e mãos fiNo original Fädlerinnen, palavra derivada do verbo fädeln [enfiar]. O autor utiliza a expressão para designar a actividade que consiste em fazer passar por um fio corais trabalhados. Por falta de uma expressão em português que traduza adequadamente o termo original, optou-se por utilizar a expressão «enfiadeira», que, embora possa ser utilizada noutros contextos, tem aqui a mesma derivação etimológica que a palavra alemã. 1

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nas. As jovens sentavam-se em duas filas em redor de uma mesa comprida e apanhavam os corais com agulhas delgadas. Assim, surgiam os cordões, belos e regulares, em cujas extremidades ficavam os corais mais pequenos e, no meio, os corais maiores e mais brilhantes. Enquanto faziam este trabalho, as jovens cantavam em coro. E no Verão, nos dias quentes, soalheiros e de céu azul, era no átrio que se colocava a mesa comprida, em redor da qual se sentavam as enfiadeiras, e o seu canto estival ouvia-se em toda a vila e sobrepunha-se ao canto estridente das cotovias voando no céu e ao estridular dos grilos nos jardins. Há uma variedade muito maior de corais do que as pessoas vulgares sabem, que conhecem apenas das vitrinas ou lojas. Há, sobretudo, corais facetados e não facetados; depois, corais de extremidades planas e corais esféricos; corais espinhosos e outros com a forma de varetas que parecem arame farpado; corais com um brilho amarelado, quase vermelho-esbranquiçados, que fazem lembrar as orlas superiores das pétalas das rosas-chá, róseo-amarelados, róseos, vermelho-tijolo, vermelho-beterraba, cinabrinos1 e, finalmente, corais que parecem gotas de sangue, redondos e compactos. Há corais redondos e semi-redondos; corais que parecem pequenos potes e outros que se assemelham a pequenos cilindros; há corais direitos, tortos e até corcovados. Há estrelas, espinhos, dentes, flores. Pois os corais são as plantas mais preciosas do submundo oceânico, rosas para as caprichosas deusas dos mares, tão ricos em formas e cores como os próprios caprichos destas deusas. No original zinnoberfarbene, de Zinnober [cinábrio]. Refere-se à cor vermelha desse mineral. 1

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Como se vê, Nissen Piczenik não tinha uma loja aberta. Conduzia o negócio em casa, isto é: vivia com os corais dia e noite, Verão e Inverno, e visto que as janelas do seu quarto assim como as da cozinha davam para o pátio e, ainda por cima, estavam protegidas com grades de ferro densas, reinava na casa um crepúsculo belo e misterioso, que fazia lembrar o fundo do mar, e era como se nela crescessem corais e não fosse o local onde estes eram vendidos. Por outro lado, graças a um capricho da Natureza, estranho e quase intencional, Nissen Piczenik, o negociante de corais, era um judeu ruivo, cuja barba de bode acobreada lembrava uma espécie de sargaço avermelhado e dava ao homem um aspecto surpreendente de um deus do mar. Era como se ele próprio criasse ou plantasse e colhesse os corais que comercializava. E tão forte era a relação da sua mercadoria com o seu aspecto que, na pequena cidade de Progrody, ninguém o chamava pelo seu nome, que com o tempo até foi esquecido, sendo conhecido simplesmente pela sua profissão. Dizia-se, por exemplo: vem aí o negociante de corais — como se em todo o mundo, além dele, não houvesse mais nenhum. Nissen Piczenik sentia, de facto, um carinho familiar pelos corais. Longe das ciências naturais, sem saber ler nem escrever — pois nunca frequentara a escola e mal sabia escrever o seu nome —, estava convicto de que os corais não eram de modo algum plantas, mas sim animais vivos, uma espécie de animais marinhos minúsculos e vermelhos — e nenhum professor de biologia marinha o poderia convencer do contrário. De facto, para Nissen Piczenik, os corais estavam ainda vivos, mesmo depois de terem sido serrados, cortados, facetados, se-

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índice Prefácio, Álvaro Gonçalves . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Introdução cronológica à vida e obra de Joseph Roth . .

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A Lenda do Santo Bebedor . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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Os génios, seguido de Exemplos, Victor Hugo O senhor de Bougrelon, Jean Lorrain No sentido da noite, Jean Genet Com os loucos, Albert Londres Os manuscritos de Aspern (versão de 1888), Henry James O romance de Tristão e Isolda, Joseph Bédier A freira no subterrâneo, com o português de Camilo Castelo Branco Paul Cézanne, Élie Faure, seguido de O que ele me disse…, Joachim Gasquet David Golder, Irene Nemirowsky As lágrimas de Eros, Georges Bataille As lojas de canela, Bruno Schulz O mentiroso, Henry James As mamas de Tirésias — drama surrealista em dois actos e um prólogo, Guillaume Apollinaire Amor de perdição, Camilo Castelo Branco Judeus errantes, Joseph Roth A mulher que fugiu a cavalo, D.H. Lawrence Porgy e Bess, DuBose Heyward O aperto do parafuso, Henry James Bruges-a-Morta — romance, Georges Rodenbach Billy Budd, marinheiro (uma narrativa no interior), Herman Melville Histórias da areia, Isabelle Eberhardt O Lazarilho de Tormes, anónimo do século XVI e H. de Luna Autobiografia, Thomas Bernhard Bubu de Montparnasse, Charles-Louis Philippe Greco ou O segredo de Toledo, Maurice Barrès

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Cinco histórias de luz e sombra, Edith Wharton Dicionário filosófico, Voltaire A papisa Joana — segundo o texto de Alfred Jarry, Emmanuel Rhoides O raposo, D.H. Lawrence Bom Crioulo, Adolfo Caminha O meu corpo e eu, René Crevel Manon Lescaut, Padre Prévost O duelo, Joseph Conrad A felicidade dos tristes, Luc Dietrich Inferno, August Strindberg Um milhão conta redonda ou Lemuel Pitkin a desmantelar-se, Nathanael West Freya das sete ilhas, Joseph Conrad O nascimento da arte, Georges Bataille Os ombros da marquesa, Émile Zola O livro branco, Jean Cocteau Verdes moradas, W.H. Hudson A guerra do fogo, J.-H. Rosny Aîné Hamlet-Rei (Luís II da Baviera), Guy de Pourtalès Messalina, Alfred Jarry O capitão Veneno, Pedro Antonio de Alarcón Dona Guidinha do Poço, Manoel de Oliveira Paiva Visão invisível, Jean Cocteau A liberdade ou o amor, Robert Desnos A maçã de Cézanne… e eu, D.H. Lawrence O fogo-fátuo, Drieu la Rochelle Memórias íntimas e confissões de um pecador justificado, James Hogg Histórias aquáticas — O parceiro secreto, A laguna, Mocidade, Joseph Conrad O homem que falou (Un de Baumugnes), Jean Giono O dicionário do diabo, Ambrose Bierce A viúva do enforcado, Camilo Castelo Branco O caso Kurílov, Irène Némirowsky A costa de Falesá, Robert Louis Stevenson Nova Safo — tragédia estranha, Visconde de Vila-Moura

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Gaspar da Noite — fantasias à maneira de Rembrandt e Callot, Aloysius Bertrand Rimbaud-Verlaine, o estranho casal O rato da América, Jacques Lanzmann As amantes de Dom João V, Alberto Pimentel Os cavalos de Abdera e mais forças estranhas, Leopoldo Lugones Preceptores – Gabrielle de Bergerac seguido de O discípulo, Henry James O Cântico dos Cânticos – traduzido do hebreu com um estudo sobre o plano a idade e o carácter do poema, Ernest Renan Derborence, Charles Ferdinand Ramuz O farol de amor, Rachilde Diário de um fuzilado, precedido de Palavras de um fumador de ópio, Jules Boissière A minha vida, Isadora Duncan Rakhil, Isabelle Eberhardt Fuga sem fim, Joseph Roth O castelo do homem ancorado, Joris-Karl Huysmans Tufão, Joseph Conrad Heliogábalo ou o anarquista coroado, Antonin Artaud Van Gogh, o suicidado da sociedade, Antonin Artaud Eu, Antonin Artaud

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Joseph Roth A LENDA DO SANTO BEBEDOR / O LEVIATÃ

Joseph Roth A LENDA DO SANTO BEBEDOR seguido de O LEVIATÃ

prefácio, tradução e notas de

Álvaro Gonçalves

«Havia nele toda a sabedoria do judaísmo, o seu humor, o seu realismo amargo; toda a tristeza da Galícia, todo o encanto e melancolia da Áustria.» Heinrich Böll

www.sistemasolar.pt

Joseph Roth A LENDA DO SANTO BEBEDOR seguido de O LEVIATÃ


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