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Jorge Santos e Pedro Valdez Cardoso, «Sem Título (Intimidade)»

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Jorge Santos Pedro Valdez Cardoso sem tĂ­tulo (intimidade) untitled (intimacy)

texto | text

Hugo Dinis

D O C U M E N TA


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pedro valdez cardoso , jorge santos , Sem título (intimidade) Vistas da exposição | Exhibition views, Galeria Diferença, 2018 28


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Sem título (intimidade)

hugo dinis

Os artistas Jorge Santos (1974) e Pedro Valdez Cardoso (1974) apresentaram trabalhos inéditos na exposição intitulada Sem título (intimidade) na Galeria Diferença. Tendo em consideração a referência aos trabalhos do artista Félix González-Torres (1957-1996), este projecto reflectiu sobre as dicotomias público/privado ou exterior/interior. Uma das estratégias de que o artista cubano se socorria para discutir a relação híbrida entre as esferas pública e privada passava por usar dispositivos específicos e privados, tais como: a cama, as persianas, as luzes. Estes lugares de intimidade, de descanso, mas também de conflito e de poder, quando se estabelecem num espaço público passam a ter uma outra função. Esta passagem não é inocente porque pressupõe uma vontade e uma acção. Neste sentido, o recolocar é de facto um gesto político e um dos mais subtis que há. O gesto que o inevitável Marcel Duchamp descreve no texto «The Creative Act» (1957) implica activamente os espectadores: um objecto só se torna uma obra de arte quando passa pelo crivo dos sentidos dos espectadores e no preciso momento de confronto com esse mesmo espectador. Resgatando a Fountain (1917), do mesmo Duchamp, pode-se afirmar que o sentido da obra (discurso político) é menos importante que a reacção do espectador e, ainda mais radicalmente, que o sentido da obra é meramente a reacção que ela própria desencadeia. Uma das formas fascinantes de obter reacção dos espectadores é inebriá-los com objectos de sensibilidade Camp, tal como Susan Sontag o descreveu

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nas suas notas em 1964. Resumidamente, os objectos Camp são vistos como artifícios, estilizações, cenários, que simulam uma qualquer realidade sem a mostrar convenientemente, mas sempre de uma forma ingénua e não deliberada. Na segunda nota, Sontag adverte-nos que o Camp é despolitizado e não empenhado, porque menospreza e introduz uma atitude neutra em relação ao conteúdo. Se, por um lado, as obras apresentadas na exposição Sem título (intimidade) pretendem que os objectos sejam eminentemente políticos, mas sem revelar a sua posição, por outro, pretendem que estejam ligados ao gosto Camp e por isso têm que ser esvaziados do seu conteúdo. Assim, estamos, ingenuamente, perante um problema paradoxal que criou a sua própria armadilha. Claramente a escolha dos objectos não foi inocente, descomprometida, nem desempenhada. Quando se nomeia um objecto ou obra pode-se reflectir sobre o que se quer mostrar ou, então, sobre o que não se quer revelar. Assim, se estas escolhas são premeditadas e relevantes não estamos verdadeiramente sobre o gosto Camp, já que este deve ser ingénuo, estamos perante escolhas cínicas e dissimuladas, que aparentemente querem ser politicamente inocentes. A obra inédita Untitled (Lovers) (2018) de Pedro Valdez Cardoso mimetiza plantas indiferenciadas em pano cru utilizado para moldes. Esta obra é composta por três vasos suspensos com plantas. Como noutros trabalhos anteriores do artista a importância do tecido utilizado revela a pertinência da própria obra. Neste caso, o recurso a pano cru, sem cor e, portanto, sem ideologia, usado para a execução de moldes, denota uma vontade de não conotação com nenhum dogma ou pré-conceito. Assim, o espectador pode mental e criativamente intervir e preencher o que ficou vazio e sem referências. A relação existente entre o exterior geograficamente não identificado, tanto nas plantas como no tecido, e o interior do espaço expositivo é mediada por uma pele que permite a incisão dos elementos identitários, em que cada espectador pode projectar as suas próprias ansiedades. A estratégia política que o artista utiliza é subtilmente construída através da ausência de pressupostos e premissas pré-estabelecidas. Ao, cinicamente, não determinar o seu ponto de vista estas obras permitem a inscrição individual e, simultaneamente, colectiva das acções e pretensões dos indivíduos e das comunidades que as acolhem. Jorge Santos apresenta a obra inédita Brise-soleil (Cortina de lágrimas) (2018), constituída por uma persiana, pintada de azul celeste e com missan30


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gas negras serigrafadas do lado de dentro. A persiana, ao ser colocada junto de uma parede, inverte a sua funcionalidade e a dos espaços adjacentes, tornando o exterior num espaço interior e vice-versa. Esta não-diferenciação permite politizar a fronteira imposta e questionar os limites públicos da intimidade. Tomando como referência as cortinas de missangas coloridas de Félix González-Torres, as persianas que Jorge Santos apresenta, ao serem realizadas em serigrafia a preto, implicam um gesto mecânico e intencional de não inebriar o espectador com o fascínio da cor. O deslumbramento está presente no azul que parece projectar-se do exterior para o interior, como se de um espelho se tratasse. Ao reflectirem apenas a cor do céu, as persianas interagem com uma poética imaginação e criatividade que vai para além dos activistas politizados. Neste sentido, estas obras não se tornam propaganda nem panfletárias de um determinado ponto de vista, permitindo antes uma certa incerteza de um discurso não dogmático e premeditado, mais propício a um frutífero bem comum. As obras dos artistas residem numa zona intermédia de eleição, nada neutra, que mina o que as rodeia e, sobretudo, as imagens previamente construídas. A invisibilidade utiliza o privado como arma de arremesso público que perturba os seus espectadores. É esta a perversidade que se imiscui silenciosamente: a intimidade que não ousa ser o seu título ou «the love that dare not speak its name.» Amplamente difundido pelas feministas norte-americanas a partir dos anos 60, o chavão «the Personal Is Political» afirma que os assuntos domésticos, como os direitos sobre o corpo, a igualdade, a sexualidade, entre outros, não poderiam residir mais no interior das casas e teriam que ser discutidos na sociedade em geral e nos centros políticos em particular. Esta afirmação trata, sobretudo, do pessoal/privado e do político/público entendidos como questões de direitos e liberdades sociais e não como forma de devassar a intimidade ou de invadir a privacidade individual. Em última instância, a intimidade inominável, no sentido que não pode ter nome, é o discurso político mais pretensioso, arrogante e elitista. Estamos perante outro paradoxo? Talvez, mas nem a intimidade nem a política são de óbvia definição e, na medida em que uma voz individual pode tornar-se numa voz colectiva, cabe a cada um de nós responder: a intimidade é política?

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Untitled (intimacy)

hugo dinis

Jorge Santos (1974) and Pedro Valdez Cardoso (1974) presented a number of previously unseen works in Untitled (intimacy), an exhibition at Galeria Diferença. Taking as a reference the works of Félix González-Torres (1957-1996), this project focused on such dichotomies as public/private or exterior/interior. One of the resources explored by the Cuban artist to discuss that hybrid relationship between the public and private realms included the use of such specific private devices as a bed, sets of blinds, and lighting fixtures. When these places of intimacy and rest, but also of conflict and power, are transferred to a public space, their function changes. That passage is not an innocent one, for it presupposes a will and an action. In this sense, the change in place is actually a political gesture and a uniquely subtle one. The gesture described by the inescapable Marcel Duchamp in his text “The Creative Act” (1957) is one that actively implies its spectators: an object only becomes a work of art when it is filtered through the spectator’s senses, at the precise moment of its confrontation with that same spectator. Looking at Duchamp’s Fountain (1917), it is possible to state that the work’s meaning (its political discourse) is less important than the spectator’s reaction or, in even more radical terms, that the work’s meaning is merely the reaction it triggers. A fascinating way to draw reactions from the spectators is to inebriate them with objects suffused with a ‘Camp’ sensibility, as Susan described it in her 1964 notes. Briefly, ‘Camp’ objects are seen as artifices, stylisations, backdrops that simulate some reality without showing it clearly, but always in a naive, non-deliberate way. In her second note, Sontag warns us that ‘Camp’ 33


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is depoliticised and disengaged, because it cares not for content, or is at least neutral regarding it. If, on the one hand, the works displayed in Untitled (intimacy) want to be eminently political objects, but without disclosing their position, on the other they want to be connected to the ‘Camp’ taste and thus must be emptied of their content. Thus we find ourselves naively confronted by a paradoxical problem that has created its own pitfall. Clearly, the selection of the objects was not innocent, depoliticised or disengaged. When we name an object or work, that allows us to reflect on what we want to show or, alternatively, on what we do not want to disclose. Thus, if these choices are premeditated and relevant, we are not really in presence of the ‘Camp’ taste, which must be naive; instead, we are looking at cynical, deceitful choices, which apparently intend to be politically innocent. Pedro Valdez Cardoso’s Untitled (Lovers) (2018) is a piece that reproduces the shapes of undifferentiated plants in the kind of unbleached cloth used for cutting clothes’ patterns. This piece consists of three hanging pots with plants. As in previous works by the artist, the material used reveals the pertinence of the piece itself. Here, the use of unbleached cloth, devoid of colour and thus of ideology, habitually used for clothing patterns, denotes an inclination to avoid connotations with any kind of dogma or pre-conception. In this manner, the spectator is free to mentally and creatively fill in what was left blank and devoid of references. By cynically not defining their viewpoint, these works allow the individual and collective insertion of the actions and aspirations of the individuals and communities that receive them. Jorge Santos’ Brise-soleil (Cortina de lágrimas) (2018) consists of a blind painted in sky-blue, with black beads silkscreened on its reverse. By being placed near a wall, the blind reverses its function and the function of the adjacent spaces, turning the exterior into an interior and vice-versa. This nondifferentiation allows us to politicise the imposed boundary-line and call into question the public limits of intimacy. Using as reference Félix González-Torres’ colourful bead curtains, Jorge Santos’ blinds, done in black silkscreen, imply a mechanical gesture that does not intend to inebriate the spectator with a dazzling use of colour. Dazzle, however, is present in the blue, that appears to project itself from the outside to the interior, like a mirror. By reflecting only the colour of the sky, the blinds engage with a kind of poetical imagination and creativity that transcends political activism. In this 34


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sense, these works are not propaganda for a certain viewpoint; instead, they convey a somewhat uncertain and undogmatic (though premeditated) discourse that is more conducive to a fruitful common good. These works reside in a carefully appointed, non-neutral intermediate realm that undermines their surroundings and, particularly, certain images that are being re-used. Invisibility uses the private sphere as a public weapon, which disturbs its viewers. It is this perversity that silently intrudes itself here: the intimacy that does not dare appear as its title, or ‘the love that dare not speak its name.’ ‘The Personal is Political’, a cliché that has been widely diffused by American feminists since the 1960s, states that such domestic matters like the right over one’s own body, gender equality and sexuality, among others, could no longer be confined to the inside of the house and had to be discussed both in political centres and in society at large. The personal/private and political/public spheres are largely seen here as connected with issues concerning social rights and freedoms, not as ways of intruding upon one’s intimacy or privacy. Ultimately, unnameable (in the sense that it cannot have a name) intimacy is the most pretentious, arrogant and elitist of political discourses. Are we facing another paradox here? Perhaps, but neither intimacy nor politics can be obviously defined and, considering that an individual voice can turn into a collective one, each one of us is tasked with answering this: is intimacy political?

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jorge santos , Sun around the house #5, 2018 Pintura acrĂ­lica sobre papel | Acrylic paint on paper, 55 Ă— 75 cm

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jorge santos , Sun around the house #6, 2018 Pintura acrílica sobre papel | Acrylic paint on paper, 55 × 75 cm

jorge santos , Sun around the house #7, 2018 Pintura acrílica sobre papel | Acrylic paint on paper, 55 × 75 cm

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jorge santos , Brise-soleil, 2015 Pintura acrĂ­lica e serigrafia sobre estore | Acrylic paint and serigraphy on blind, 240 Ă— 200 cm

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pedro valdez cardoso , Não Digas Nada, 2004 Recorte manual sobre fotografia | Hand-cut photograph, 125 × 90 cm Colecção Fundação Carmona e Costa | Fundação Carmona e Costa collection

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pedro valdez cardoso , Sem título (Duplo), 2005 Tecido, bordado, linha, vidro, plástico e k-line | Cloth, embroidery, thread, glass, plastic and k-line, 45 × 10,5 × 0,5 cm (cada | each) 62


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pedro valdez cardoso , Quem Não Vê É Como Quem Não Sabe, 2006 Tecido, linha e madeira | Fabric, thread and wood, 95 × 95 × 20 cm Colecção Figueiredo Ribeiro | Figueiredo Ribeiro collection, Quartel da Arte Contemporânea de Abrantes 64


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pedro valdez cardoso , High School Drama, 2006 Borracha e bordado sobre tecido | Rubber on embroidered fabric, 83 × 13 × 4 cm Colecção particular | Private collection

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Agradecimentos | Acknowledgements Irene Buarque Marta Caldas Maria da Graça Carmona e Costa Paulo Lourenço António Jorge Silva Patrícia Valdez

www.jorgesantos.net www.pedrovaldezcardoso.com


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Este livro Sem título (intimidade), de Jorge Santos e Pedro Valdez Cardoso, foi publicado por ocasião da exposição com o mesmo título realizada na Galeria Diferença, Lisboa, com curadoria de Hugo Dinis, Junho de 2018 This book Untitled (intimacy), of Jorge Santos and Pedro Valdez Cardoso, was published on the occasion of the exhibition with the same title shown at Galeria Diferença, Lisbon, with curatorship by Hugo Dinis, June, 2018 ———————— © Sistema Solar, Crl (chancela Documenta) Rua Passos Manuel, 67 B, 1150-258 Lisboa Imagens | Images © Jorge Santos, Pedro Valdez Cardoso Texto | Text © Hugo Dinis Fotografia | Photography: António Jorge Silva, Nuno Moreira Inácio Tradução | Translation: José Gabriel Flores Junho | June 2018 ISBN 978-989-8902-22-1 Depósito legal | Legal deposit: 442991/18 Pré-impressão, impressão e acabamento | Preproof, printing and binding: Gráfica Maiadouro SA Rua Padre Luís Campos, 586 e 686 (Vermoim) 4471-909 Maia Portugal


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Jorge Santos e Pedro Valdez Cardoso, «Sem Título (Intimidade)» by Sistema Solar - Documenta - Issuu