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Joseph Conrad, «Tufão»

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Joseph Conrad

TUFÃO tradução e apresentação

Aníbal Fernandes


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TÍTULO DO ORIGINAL: TYPHOON

© SISTEMA SOLAR, CRL (2018) RUA PASSOS MANUEL, 67B, 1150-258 LISBOA tradução © ANÍBAL FERNANDES NA CAPA: WILLIAM TURNER, STORM, PORMENOR (1842) REVISÃO: ANTÓNIO D’ANDRADE 1.ª EDIÇÃO, JUNHO 2018 ISBN 978-989-8833-30-3


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A literatura surge-nos com imprevisíveis desvios de idioma, esses que fizeram Casanova e Goldoni escrever as suas memórias em francês, Wilde e William Beckford deixarem lá a sua Salomé e o seu Vatheck, Strindberg o seu Inferno e Le Plaidoyer d’un fou; houve romenos, como Istrati e Ionesco, que se passaram para escritores em francês; mas nenhuma destas translações linguísticas é tão surpreendente como a do polaco Józef Teodor Konrad Korzeniowski, que a viver na Inglaterra desde os vinte e um anos de idade, e a chegar lá com o conhecimento, diz ele, «de apenas seis palavras em inglês», surgiu dezasseis anos depois, em 1894, em alto ponto nas letras desse país. Era um comandante de navios afastado dos mares por um reumatismo de má convivência com aquele largo círculo de água, e que durante algumas rotas por si dirigidas com mais entediado do que encantado comando se encharcava, diz a lenda — e bonito será que haja nela alguma verdade — com o inglês de Shakespeare. O tempo e as experiências desse período marítimo entregaram-lhe matéria para a quase totalidade de uma obra literária com treze romances, vinte e oito contos e dois relatos de viagens. E fez-se, com esta vocação que parecia roubar cenários aos livros de aventuras, um escritor desde logo elogiado por uns tantos no estilo, na tão pessoal relação com as palavras, por outros denegrido como impertinente «invasão polaca» nas letras inglesas e a pretender disfarçar, à


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custa de complexidades psicológicas e de acção, o que não deixava de pertencer às ligeirezas de um género irremediavelmente popular. Quando Conrad publicou em 1903 este Tufão (narrativa de uma linearidade distante das complexidades de longo fôlego imaginadas por si nesta época) já era reconhecido autor de várias obras literárias, umas quantas destinadas a futura celebridade, como The Nigger of the «Narcissus» (1897), Youth (1898), Heart of Darkness (1899), Lord Jim (1900); e consumava com ela a sua terceira e última relação literária central com uma tempestade marítima. Poderia tomar-se este Tufão como exclusivo pretexto para palavras que fizessem chegar a magnífico umas quantas descrições de mar em fúria, sem muito visível equivalente na história da Literatura, mas em Conrad há sempre o essencial desejo de mostrar o homem como criatura não autónoma, parte do elemento que o envolve e corajosamente enfrenta. Ele próprio escreveu, a lembrar-se desta ameaça latente da vida dos homens no mar: «Parece que as tempestades foram enfrentadas como inimigos pessoais […] mas são adversários [que pertencem ao mundo], com ardis que temos de dissuadir, ultrapassar na violência, e com os quais temos de viver dias e noites.» Hemingway e Faulkner muito o admiraram, talvez por ter sabido (ao contrário do que acontece nas suas obras com o toureiro, o caçador de caça grossa, o pescador do mar alto) ultrapassar o mais pequeno e directo para se confrontar com uma bastante mais ampla dimensão do universo. E ainda haverá que acrescentar a isto uma sua reconhecível obsessão de escritor, a que ele deixou escrita no prefácio a The Nigger of the «Narcissus»: «A minha tarefa, a que tento dar realização, é levar pelo poder da palavra escrita o leitor a ouvir, levá-lo a sentir — e acima de tudo a ver. Isto — e nada mais, e é tudo. Se eu ven-


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cer, de acordo com os vossos desejos encontrareis lá encorajamento, consolo, medo, encanto, tudo o que exigirdes — e talvez ainda aquele vislumbre de verdade que vos tínheis esquecido de pedir.» Quando Tufão foi publicado em livro, um ano depois de ter surgido nos números de Janeiro a Março de 1902 do Pall Mall Magazine, Conrad sentiu a tentação de desfazer alguns equívocos: «Logo que o capitão MacWhirr me surgiu, vi que era o homem para a situação. Não quero com isto dizer que o tenha visto em carne e osso, ou mesmo que tenha entrado em contacto com o seu espírito prosaico e o seu indomável temperamento. MacWhirr não é um conhecimento de umas quantas horas, ou de umas quantas semanas, ou de uns quantos meses. É o produto de vinte anos de vida. Da minha própria vida. Nele, a invenção consciente pouca parte teve. Se é verdade que o capitão MacWhirr nunca andou nem respirou neste mundo (o que eu acharia, pela minha parte, muito difícil de acreditar), também posso assegurar aos meus leitores que é de uma absoluta autenticidade. E posso aventurar-me a garantir o mesmo no que respeita a todos os pormenores da história, confessando também que o particular tufão da narrativa é, de facto, da minha pessoal experiência. «Logo que Tufão surgiu pela primeira vez, alguns críticos classificaram-no com o premeditado desígnio de fazer uma obra-tempestade. Outros acharam que MacWhirr era de uma bem explícita intenção simbólica. Nada disto houve na minha intenção. Quer o tufão, quer o capitão MacWhirr, surgiram-me como necessidades ligadas à convicção profunda com que abordei o tema da história. Tinham ali a sua oportunidade. E também era a minha oportunidade; seria inútil discorrer sobre o que pude fazer com isto numa mão-cheia de páginas, uma vez que elas podem, dentro da capa deste livro, falar por si.»


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Alguns dos biógrafos de Conrad já retocaram, no entanto, num ou dois pormenores estas suas palavras. Segundo foi concluído de aturadas investigações, ele nunca passou na sua vida de homem do mar por uma desvairada tempestade como a que surge e ocupa largo espaço nesta sua obra; e que tem, curiosamente, o seu auge a 25 de Dezembro, que não pertence à época tradicional dos furacões nos mares da China; mas recorda-se, sem nenhuma dúvida, do largamente noticiado nesses tempos sobre o navio John P. Best e às suas atribulações nessas mesmas paragens. Quanto ao capitão MacWhirr, esteve numa realidade próxima da sua experiência pessoal; muito deve ao capitão John McWhir, que Conrad conheceu e teve ocasião de sentir perto de si quando foi imediato no três mastros metálico Highland Forest e fez, em 1887, uma viagem desde Amsterdão até Java. No seu livro The Mirror of the Sea, Conrad refere o «bom» capitão M.W., «de voz doce e amiga», que raramente saía do seu camarote e como que falava aos seus oficiais soprando-lhes as palavras «através do buraco de uma fechadura». Conrad tinha acabado de publicar Lord Jim quando se abalançou à difícil aposta do seu Tufão, em geral citado entre «o melhor» da sua obra — difícil porque disciplina a sua história aos prenúncios, aos acontecimentos, às consequências de uma tempestade; difícil porque jogada com oscilações que intercalam rigores de uma situação assumidamente dramática com a visão irónica desses mesmos rigores. O tenaz capitão MacWhirr, com um invencível sangue-frio, com uma silenciosa modéstia dotada de qualquer coisa a que poderá chamar-se grandeza épica, tem uma confiança quase mística na resistência do navio contra os assaltos do oceano. Não lançar o seu navio contra o tufão seria o mesmo que fugir ao Destino, arro-


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gância sem lugar no homem que se reconhece nas mãos de qualquer coisa que o domina e o transcende. Esta e outras lateralidades ao mais comum entendimento dos homens do mar constrói-o, perante eles, como imagem do homem com reduzidas complexidades de imaginação, a quem só é reconhecida «a capacidade de atravessar, e não mais do que isso, cada um dos dias que iam passando», e só capaz de compreender metáforas no seu sentido literal. Mas ele surge, no entanto, e em contradição com estas limitações, como alguém menos simples do que esta visão quereria fazer crer, o que virá a concluir-se pela desadornada sensatez da sua experiência, pela sua habilidade a enfrentar avarias, dissensões entre maquinistas, escaramuças entre chineses. A ironia espalhada contra MacWhirr ao longo da novela surge sobretudo nas palavras do seu imediato Jukes, incapaz de restabelecer a ordem num navio destroçado e em perigo, com uma ironia sem matizes que acaba por voltar-se contra ele próprio. Neste sentido, pode chamar-se a Tufão uma obra irónica que encena esplendorosamente o fracasso da sua ironia. A.F.


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Por mais longe que o marinheiro veja, no cimo do mastro, A vasta calmaria que tem à sua volta, Por mais ampla que a sala de Neptuno seja… John Keats, Endymion


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No que respeitava ao seu aspecto físico, o capitão MacWhirr do vapor Nan-Shan tinha uma fisionomia que era a exacta réplica do seu espírito: não mostrava quaisquer características bem definidas de firmeza ou estupidez; não mostrava, aliás, nenhumas características definidas; só era vulgar, inexpressiva e imperturbável. A única coisa que o seu aspecto podia às vezes sugerir, era timidez; porque permanecia nos escritórios da costa sentado, com um sorriso vago na tez queimada pelo sol, com olhos baixos. Quando os erguia, deixava-nos ver que olhava de frente e eram azuis. Tinha o cabelo louro e extremamente fino, que fechava com uma seda coberta de penugem a cúpula calva do crânio de uma têmpora à outra. A face tinha, pelo contrário, um pêlo arruivado e flamejante que parecia um campo de fios de cobre cortados rentes até à linha do lábio; mesmo quando estava bem barbeado, pela superfície das faces passavam-lhe, mal mexia a cabeça, reflexos dourados. Tinha uma estatura um pouco abaixo da média, um pouco corcunda, e era tão vigoroso de membros que a sua roupa parecia sempre apertada nos braços e nas pernas. Como se mostrava incapaz de captar o que era adequado às diferentes latitudes, punha um chapéu de coco castanho, vestia um fato completo de cor acastanhada e calçava grosseiras botas pretas. Este vestuário de porto de abrigo con-


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feria à sua espessa figura um ar de rígida e canhestra vivacidade. Uma fina corrente de relógio de prata atravessava-lhe o colete; e, para ir a terra, nunca saía do seu navio sem agarrar com a mão forte e peluda um elegante guarda-sol de excelente qualidade, mas sempre desenrolado. O jovem Jukes, seu imediato, escoltava o comandante até à prancha de desembarque e tinha por vezes a liberdade de lhe dizer com a maior das cortesias: «O meu comandante dá-me licença?» — Tomava posse, cheio de deferência, do guarda-sol, erguia-o como um cacete, sacudia-lhe as pregas e num abrir e fechar de olhos, antes de o devolver, fazia dele um rolo perfeito; toda esta cerimónia era levada ao fim com um rosto de tão portentosa gravidade, que Mr Solomon Rout, o mecânico-chefe que fumava o seu charuto matinal por cima da escotilha envidraçada, voltava a cabeça para ocultar um sorriso. «Oh! Pois claro! O abençoado chuço… Obrigado, Jukes, obrigado», tartamudeava o capitão MacWhirr sem levantar o olhar, profundamente agradecido. Uma imaginação que só lhe chegava para atravessar, e não mais do que isso, cada um dos dias que iam passando, fazia-o sentir-se com uma auto-segurança que o tranquilizava; mas não era, ao fim e ao cabo, por causa disto presunçoso. Só os superiores imaginativos são susceptíveis, autoritários e difíceis de contentar; qualquer navio comandado pelo capitão MacWhirr era um flutuante asilo de harmonia e paz. Para dizer a verdade, era tão impossível ele dar-se ao arrobo de uma fantasia como um relojoeiro consertar um cronómetro tendo apenas como instrumentos de trabalho um martelo de duas libras e uma serra. Mas estas vidas sem interesse de homens totalmente entregues a um quotidiano destituído de substância, ainda pos-


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suem um lado misterioso. No caso do capitão MacWhirr era impossível compreender-se, por exemplo, o que teria induzido o filho de um modesto merceeiro de Belfast, com tão satisfatória conduta, a fazer esta corrida em direcção ao mar. Ora, tinha sido isto mesmo o que ele levara a cabo aos quinze anos de idade. O que bastava para nos ocorrer, reflectindo sobre o caso, que há uma imensa e poderosa mão invisível a mergulhar no formigueiro do mundo, a pesar nos ombros, a fazer as cabeças chocarem umas contra as outras, levando os inconscientes rostos da multidão a voltarem-se para inconcebíveis objectivos e inimagináveis direcções. A verdade é que o seu pai nunca lhe perdoou esta insubmissa estupidez. «Podíamos passar sem ele», costumava mais tarde dizer, «se este negócio não existisse. E além do mais filho único!» Depois de ele desaparecer, a sua mãe tinha chorado muito. E como nunca lhe ocorreu deixar uma palavra antes de partir, foi lamentado como morto até a sua primeira carta, passados oito meses, chegar de Talcahuano. Era curta e continha esta declaração: «Tivemos durante a travessia bom tempo.» Mas, com toda a evidência, só havia uma informação importante para a mente de quem a escrevia: que o capitão inscrevera-o formalmente na lista do navio como Marinheiro de Convés. «Porque estou apto para o trabalho», explicava. E se isto tinha feito a sua mãe derramar-se de novo em lágrimas, o seu pai só exprimia nestes termos a emoção: «O Tom é burro.» Era um homem corpulento, dotado de uma malícia áspera que exerceu até ao fim da vida quando se referia ao seu filho, temperando-a com um pouco de piedade como se ele fosse um pobre de espírito.


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As visitas de MacWhirr à casa paterna eram inevitavelmente raras; e ao correr dos anos enviara aos seus pais outras cartas informando-os sobre sucessivas promoções e movimentos no vasto mundo. Nestas missivas podiam encontrar-se frases como: «Estava aqui um enorme calor.» Ou: «No dia do Natal encontrámos às quatro da tarde icebergues.» Os velhos tinham acabado por ficar a par de uma boa porção de nomes de navios e nomes dos capitães que os comandavam — bem como dos nomes dos seus armadores escoceses e ingleses — e nomes de mares, oceanos, estreitos, promontórios — nomes exóticos de portos especializados no comércio de madeiras, arroz, algodão — nomes de ilhas — e o nome da noiva do seu filho. Chamava-se Lucy. Mas não lhe passou pela cabeça dizer se achava o nome bonito. E acabaram por morrer. O grande dia do casamento de MacWhirr seguiu de perto, como era conveniente, o grande dia em que o primeiro comando lhe foi concedido. Todos estes acontecimentos tiveram lugar muitos anos antes da manhã em que foi confrontado, na sala dos mapas do vapor Nan-Shan, com a baixa de um barómetro de que ele não tinha razões para duvidar. A baixa — levada em conta a excelência do instrumento, a época do ano e a posição do navio no globo terrestre — era uma profecia de mau agoiro; mas a face corada do homem não traía nenhuma espécie de perturbação interior. Os presságios nada significavam para ele, e era incapaz de decifrar a mensagem de uma profecia antes de ela lhe bater com toda a evidência à porta. «Há uma baixa, sem dúvida», pensou. «Deve haver por aí um mau tempo muito fora do habitual.»


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O Nan-Shan vinha do sul e fazia a sua rota em direcção ao porto franco de Fu-Chau com alguma carga nos porões e duzentos coolies1 chineses que regressavam às suas aldeias na província de Fo-kien, depois de vários anos de trabalho numas quantas colónias tropicais. Estava uma bonita manhã, o mar de azeite ondulava sem nenhuma agitação, e uma estranha névoa branca colava-se ao céu formando como que um halo à volta do sol. O convés da proa atravancado com chineses estava cheio de roupas escuras, faces amarelas e rabichos, juncado com um grande número de torsos nus porque não havia vento e o calor era sufocante. Os coolies preguiçavam, falavam, fumavam ou olhavam debruçados na amurada; alguns puxavam água apanhada no mar e molhavam-se abundantemente uns aos outros; alguns dormiam no tampo das escotilhas, enquanto outros se agachavam em pequenos grupos de seis, à volta de tabuleiros de ferro com pratos de arroz e minúsculas chávenas de chá; cada um destes celestes trazia com ele quanto tinha neste mundo — uma caixa de madeira com fecho de anel e cantos de cobre, que continha o produto do seu trabalho: uns quantos fatos de cerimónia, paus de incenso, talvez um pouco de ópio, ninharias sem nome nem valor conhecido, e um magro pecúlio de dólares de prata ganhos a muito custo na descarga de barcaças de carvão, ganhos em casas de jogo ou em pobres negócios, arrancados à terra, suados nas minas, em linhas de caminho-de-ferro, na selva mortal sob fardos pesados — coleccionados com paciência, guardados com cuidado, ferozmente defendidos. 1

Termo inglês que designa o trabalhador assalariado indiano ou chinês. (N. do T.)


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Uma ondulação transversal surgira por volta das dez horas, vinda da zona do Estreito da Formosa, sem perturbar muito os passageiros porque o Nan-Shan, que era de fundo chato, com um fundo de porão bem adaptado a choques de forças móveis e folgada largura, tinha a reputação de uma excepcional capacidade de se mostrar estável nas rotas marítimas. Nos momentos em que Mr Jukes se expandia em terra, tinha o hábito de proclamar com voz forte que «aquela solteirona era tão boa como bonita.» No entanto, nunca teria ocorrido ao capitão MacWhirr expressar em tão firmes ou fantasiosos termos a sua opinião. Era indubitavelmente um bom navio, e sem ter nada de velho. Fora construído em Dumbarton há menos de três anos, encomendado por Sigg & Son, uma companhia de navios mercantes do Sião. Quando foi lançado, depois do último retoque a todos os pormenores e de estar pronto para toda uma vida de trabalho, foi com orgulho que os construtores o contemplaram. «Sigg pediu que confiássemos o navio a um comandante de confiança», tinha feito notar um dos sócios; e o outro, depois de reflectir durante um momento disse: «Penso que o MacWhirr está agora em terra.» «Sim? Então telegrafe-lhe já. É o homem certo», declarou sem a menor hesitação o mais velho. Na manhã seguinte, depois de viajar desde Londres no expresso da meia-noite e de fazer uma brusca mas pouco expansiva despedida à sua mulher, filha de um casal idoso que tinha conhecido melhores dias, MacWhirr estava à frente deles, imperturbável. — Capitão, é melhor vermos juntos o navio — disse o sócio mais velho; e os três homens puseram-se a caminho para


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admirar, desde a popa até à proa e desde o disco da carlinga até aos dois robustos mastros, as perfeições do Nan-Shan. O capitão MacWhirr começou por despir o casaco e pendurá-lo na ponta de um molinete a vapor que reunia, quanto a inovações, o que mais moderno havia. — Sabe? Ontem o meu tio escreveu uma carta que lhe é favorável aos nossos bons amigos, os senhores Sigg, e eles recomendaram-no sem qualquer hesitação para este comando — disse o sócio mais novo. — Capitão, está em condições de poder gabar-se de ter a seu cargo o melhor navio desta envergadura que existirá nas costas chinesas — acrescentou. — Ah, sim? Obrigado — murmurou vagamente MacWhirr, sem parecer mais seduzido por esta eventualidade distante do que um turista míope pela beleza de um vasto panorama; e como os seus olhos foram nesse momento atraídos pela fechadura da porta da cabina, aproximou-se dela com um ar decidido e começou a sacudir-lhe vigorosamente o manípulo, enquanto observava com a sua baixa e bem articulada voz: — Nos tempos que correm não podemos confiar nos construtores. Uma fechadura novinha em folha não funciona. Nem se mexe. Estão a ver? Estão a ver? E quando os sócios ficaram sozinhos no seu escritório, na outra extremidade do pátio, o sobrinho perguntou num tom levemente depreciativo: — Elogiou ao Sigg este tipo. O que vê nele? — Admito que nada existe nele do que pode imaginar quando pensa num capitão de navio, se é o que quer dizer — respondeu com secura o mais velho. — Mas olhe, não é o chefe da serralharia do Nan-Shan quem ali está?… Entre, Bates. Como


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é que deixou o pessoal da Tait instalar na porta da cabina uma fechadura com defeito? O capitão deu logo por isso. Mande-a substituir de imediato. Bates, dê atenção a estas ninharias… às ninharias… A fechadura foi substituída por outra em bom estado; e alguns dias depois o Nan-Shan aparelhava para o Oriente, sem MacWhirr ter feito mais nenhuma observação sobre a montagem do equipamento nem lhe terem ouvido pronunciar uma só palavra que sugerisse orgulho pelo seu navio, gratidão pelo cargo ou satisfação pelas perspectivas que ele abria. Com um temperamento pouco dado a palavras, embora não taciturno, poucas ocasiões encontraria para conversar. Havia, por certo, coisas relacionadas com o trabalho — instruções, ordens, etc. — mas como no seu espírito o passado se diluía e o futuro ainda não tinha lá comparecido, os acontecimentos do dia não mereciam na sua maior parte comentários — porque os factos podem, com implacável precisão, falar por si mesmos. O velho Mr Sigg gostava de homens de poucas palavras e «com a garantia de não fazerem retoques pessoais às suas instruções.» Como MacWhirr satisfazia estas exigências, era-lhe portanto confiado o comando do Nan-Shan e a tarefa de se aplicar, nos mares da China, aos cuidados da sua navegação. Quando o navio partiu, foi registado como pertencendo à Grã-Bretanha, mas passado algum tempo os senhores da Sigg julgaram conveniente mudar-lhe a bandeira para a do Sião. A notícia da consumada mudança provocou em Jukes uma agitação crescente, como se a considerasse uma afronta pessoal. Começou por resmungar sozinho e dar curtas e sarcás-


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ticas risadas. «Imagine-se lá isto! Temos um ridículo elefante de Arca de Noé na bandeira do navio!», disse ao passar pela porta da casa das máquinas. «Vou lá suportar isto; ponho o meu lugar à disposição. Não lhe dá náuseas, Mr Rout?» O mecânico-chefe limitou-se a clarear a garganta, com o aspecto de alguém que sabe o valor de um bom salário. Na primeira manhã em que a nova bandeira flutuou no cimo do mastro do Nan-Shan, Jukes parou na ponte a olhá-la com uma expressão de amargura no rosto. Depois de ter lutado durante algum tempo com os seus sentimentos, fez esta observação: — Estranha bandeira, para um homem navegar com ela, meu comandante. — Que problema a bandeira levanta? — perguntou o capitão MacWhirr. — Parece-me totalmente em condições. E percorreu a ponte até ao fim para a observar melhor. — Olhe, a mim parece-me estranha — explodiu Jukes, presa de um forte exaspero e a abandonar a ponte com passo precipitado. O capitão MacWhirr espantou-se com este comportamento. Pouco depois entrou com passo calmo na sala dos mapas e abriu o Código Internacional de Sinais na página onde as bandeiras de todas as nações estão em fileiras de cores garridas correctamente representadas. Percorreu-as com o dedo até chegar à do Sião, e muito atentamente observou o campo vermelho e o elefante branco. Não podia ser mais evidente; mas para ficar com uma indesmentível certeza levou o livro para a ponte, empenhado em comparar a imagem colorida com o objecto hasteado no mastro da bandeira. E quando Jukes, que nesse


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dia cumpria as suas obrigações com uma espécie de furor contido apareceu no convés, o comandante disse-lhe: — Não há nesta bandeira nada errado. — Não há? — resmungou Jukes deixando-se cair de joelhos à frente do compartimento de arrumos e tirando de lá, com ar rancoroso, uma das linhas de sonda sobressalentes. — Não. Estive a olhar para o livro. O comprimento é exactamente o dobro da largura e o elefante está mesmo no centro. Penso que há em terra gente que sabe executar a bandeira do seu país. Continuo a ter razão. Está enganado, Jukes… — Muito bem, meu comandante — começou Jukes a argumentar, enquanto se levantava com um ar excitado — é o mais que posso dizer… Para desenrolar a linha até ao fim, as suas mãos tremiam com desajeitados movimentos. — Está tudo em ordem — respondeu o capitão MacWhirr, tentando acalmá-lo e deixando-se cair em peso no seu banco preferido, um pequeno banco de lona articulado. — Até se habituarem a ela, só tem de ter cuidado e não deixar que a icem de pernas para o ar… Jukes atirou a nova linha de sonda através da coberta da proa com um sonoro «Agarra lá isto, capataz… e não te esqueças de a deixar completamente molhada». E depois voltou-se com um ar muito decidido para o comandante, que tinha os cotovelos confortavelmente apoiados na amurada. — … porque seria interpretado, acho eu, como um pedido de socorro — acrescentou MacWhirr. — Não acha? A este elefante, fique a sabê-lo, cabe um papel de certo modo idêntico ao da Union Jack na bandeira…


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— Parece-lhe? — berrou Jukes de uma forma que fez todas as cabeças do convés do Nan-Shan voltarem-se para a ponte. Mas deu depois um suspiro e disse num tom de humildade subitamente resignada: — É bem certo que um pedido de socorro nos seria prejudicial. Já o dia ia avançado quando ele se aproximou do mecânico-chefe e confidenciou: — Deixe-me contar-lhe a última do velho. Mr Solomon Rout (a quem chamavam muitas vezes Sol Alto, Velho Sol ou Papá Rout), acabava quase sempre por concluir que era o homem de maior estatura a bordo dos navios onde prestava serviço, e adquirira o hábito de se inclinar com calma condescendência sobre o interlocutor. Tinha um cabelo ralo e cor de areia, longas, ossudas e pálidas faces planas, e mãos de letrado muito descoradas, também, como se tivesse passado na sombra toda a sua vida. Tinha sorrido do mais alto de si para Jukes, e continuara a fumar e a observar tranquilamente aquilo que o rodeava, à maneira de um bondoso e benevolente tio que prestasse atenção à história contada pelo entusiasmo de um estudante. E depois, muito divertido mas imperturbável perguntou: — Disse-lhe que queria demitir-se? — Não! — exclamou Jukes, levantando uma cansada e desencorajada voz que se sobrepunha ao zumbido lancinante da fricção dos molinetes. Todos trabalhavam intensamente para içar os tiradores de carga até ao alto das compridas gruas, e faziam-no apenas — ao que parecia — para deixar a carga cair despreocupadamente até ao pavimento. As correntes de carga gemiam nos guinchos,


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faziam ressoar as braçolas, estalavam quando batiam contra os costados, e todo o navio tremia, com os longos flancos cinzentos a fumegarem volutas de vapor. — Não! — exclamou Jukes — não disse. De que serviria fazê-lo? Seria o mesmo que pedir a este tabique a minha demissão. Não acredito que nos seja possível fazer um homem destes compreender seja o que for. O que ele consegue, muito simplesmente, é fazer-me perder as estribeiras. O capitão MacWhirr chegava neste momento de terra e atravessava o convés com o guarda-sol na mão, escoltado por um lúgubre e impassível chinês calçado com sapatos de sola de papel, e também ele armado com um guarda-sol. Com uma voz que mal se ouvia, e a olhar como de costume para as botas, o capitão do Nan-Shan comunicou que era necessário fazerem naquela viagem escala por Fu-chau, e desejava que à uma hora em ponto da tarde do dia seguinte Mr Rout tivesse o navio a desatracar. Puxara para trás o chapéu, para enxugar a testa, acrescentando ao mesmo tempo que lhe era, ao cabo e ao resto, odioso ir a terra. Mr Rout fumava, sem se dignar a dizer uma palavra, e olhava-o de cima com um rosto fechado, acariciando com a palma da mão esquerda o cotovelo direito. Depois, com a mesma voz amortecida, Jukes pediu-lhe para o espaço entre as cobertas da proa ser desimpedido de toda a carga. Deviam instalar ali os duzentos coolies. A Bun Hin Company mandava aquele lote regressar a casa. Uma sampana descarregaria directamente vinte e cinco sacos de arroz para serem armazenados. Todos aqueles homens tinham terminado o contrato de sete anos, dissera o capitão MacWhirr, e todos possuíam uma caixa de madeira de cânhamo. O carpinteiro deveria


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pregar ripas de três polegadas ao longo do convés inferior, desde a popa até à proa, para as caixas se manterem estáveis durante a travessia. Seria melhor Jukes vigiar desde já esse trabalho. «Ouviu bem, Jukes?» Aquele chinês ia acompanhar o navio até chegarem a Fu-chau — uma espécie de intérprete, em suma. Era empregado da Bun Hin, e queria dar uma olhadela ao espaço. O melhor era Jukes levá-lo até à proa. «Ouviu bem, Jukes?» Jukes teve o cuidado de pontoar nos sítios adequados estas instruções, proferindo sem entusiasmo o obrigatório «Sim, meu comandante». E com um brusco «Vamos lá a isso, John, abre bem os olhos», pôs no seu encalço o chinês. — Tu ver bem tudo, tu deitar bem o olho nisto — disse Jukes, sem nenhum talento para línguas estrangeiras, e que até o inglês-pidgin1 falava sem ter muita crueldade a espatifá-lo. Apontou para a escotilha aberta. — Parece primeira classe, lugar bom para dormir, hem? Era grosseiro, como a sua superioridade racial exigia, mas não antipático. O chinês deitou sem comentários um olhar triste à escuridão da escotilha, com o ar de alguém que tivesse parado à beira da cova bem aberta de um túmulo. — Não cair chuva dentro… tu ver? — fazia Jukes notar. — Supõe tempo bom: todos os coolies subir aqui acima — acrescentou com a sua imaginação a ganhar força. — Fazer assim: Puuuuu! — Dilatava o peito e inchava as bochechas. — Compreender, John? Respirar… ar fresco. Bom, hein? Lavar calças, chow-chow na boca… Ver bem, John? 1 Inglês com sintaxe mínima e estropiada, usado para melhor compreensão dos trabalhadores chineses e indianos. (N. do T.)


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Com uma exuberante expressividade de boca e mãos, fazia de conta que comia arroz e lavava a roupa; e o chinês, que atrás de um ar concentrado com laivos de branda e delicada melancolia dissimulava a desconfiança suscitada por esta pantomima, fazia os amendoados olhos correrem desde Jukes até à escotilha e regressarem pelo mesmo percurso. «Sêle muito bom», murmurou num tom desconsolado, apressando-se a atravessar a suaves passos as pontes, contornando os obstáculos que o caminho levantava. Desapareceu mergulhando sob um tirador de talha de turco carregado com dez sacos de serapilheira suja, cheios de uma qualquer mercadoria preciosa que exalava um repulsivo cheiro. O capitão MacWhirr tinha entretanto vindo até à ponte e dirigira-se dali para a sala dos mapas, onde uma carta dois dias antes iniciada aguardava que a concluíssem. Estas longas cartas começavam com as palavras «Minha mulher querida»; e o camareiro, entre a limpeza dos cronómetros e a esfregada do chão, aproveitava todas as oportunidades para as ler. Era possível que lhe interessassem muito mais do que aos olhos da mulher a que se destinavam; e isto por apenas relatarem, com ínfimos pormenores, cada uma das jornadas sucessivas do Nan-Shan. Era cuidadosamente consignada em muitas páginas a única coisa com reflexos na consciência daquele capitão fiel aos factos. A casa para onde estas páginas eram expedidas ficava num subúrbio do norte de Londres e tinha um pequeno pedaço de jardim à frente das janelas com parapeitos salientes, uma varanda larga de bom aspecto, uma porta de entrada onde alguns vidros coloridos imitavam um vitral com cercaduras de chumbo. Pagava por ela quarenta e cinco libras ao ano sem achar que fosse


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uma renda muito elevada; porque Mrs MacWhirr (uma pretensiosa criatura com pescoço descarnado e altivez nos modos) era considerada «muito distinta» dama pela vizinhança. O único segredo da sua vida era o abjecto terror ao momento em que o seu marido regressasse de vez a casa. Debaixo do mesmo tecto viviam ainda a sua filha, chamada Lydia, e o filho Tom, qualquer deles com fracos conhecimentos acerca do seu pai. Viam-no sobretudo como uma rara e privilegiada visita que à noite fumava cachimbo na sala de jantar e lá dormia. A esgalgada rapariga tinha, de uma forma geral, vergonha dele; e o rapaz, com aquela forma encantadora e despretensiosa característica dos rapazes viris, uma total e bastante franca indiferença. O capitão MacWhirr escrevia desde as costas da China para sua casa doze vezes por ano, manifestando estranhamente o desejo de que «o recomendassem aos pequenos» e assinando com placidez «O teu apaixonado marido»; como se estas palavras, desde há tão longos tempos usadas por tantos homens e usadas assim até à corda, não tivessem em paralelo com o seu significado um murcho sentido. Os mares das Chinas do Norte e do Sul são exíguos. São mares que se enchem todos os dias com pormenores de monta como ilhas, bancos de areia, recifes, rápidas e variáveis correntes — pormenores de confusa aparência, e não obstante com uma linguagem que a todos os marinheiros fala com um claro e conclusivo som. Este discurso apelava às suas realidades e forçava-o a sair da sala dos mapas, a nível mais baixo, para viver praticamente o dia inteiro na ponte do navio, ordenando com frequência que as refeições lhe fossem ali em cima servidas e decidindo dormir à noite na sala dos mapas. Redigia ali as cartas


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destinadas à sua casa, contendo cada uma delas, sem excepção, a frase «Houve nesta viagem muito bom tempo» ou qualquer outra forma de expressar a mesma realidade; declaração de uma maravilhosa persistência que a tornava tão impecavelmente precisa como as demais que lá se encontravam. Mr Rout também escrevia cartas; embora a bordo ninguém soubesse como ele podia, de pena na mão, ser tão tagarela; porque este maquinista-chefe tinha imaginação suficiente para manter a secretária fechada à chave. A sua mulher apreciava-lhe enormemente o estilo. Era um casal sem filhos; e Mrs Rout uma quarentona grande e de peito farto, que partilhava com a sua desdentada e veneranda sogra uma pequena casa de campo, perto de Teddington. Ao pequeno-almoço passava vivos olhos pela correspondência, e com voz alegre gritava à velha surda as mais interessantes passagens prefaciando cada extracto com uma severa advertência: «Tal como o Solomon diz!» Mesmo à frente de estranhos e para sua estupefacção, tinha a mania de declamar sentenças de Solomon, usando a todo o momento e em desconcerto com o texto esta chistosa veia para citações. Num dia em que o novo vigário lhe telefonou para fazer a primeira visita a sua casa, arranjou forma de afirmar a meio da conversa: «Tal como o Solomon diz, os maquinistas que seguem para o mar em navios contemplam as maravilhas da natureza marinha.» Mas de repente, perante a expressão alterada do visitante que gaguejou muito corado: «Salomão!… Oh! Mrs Rout… Para ser franco… não sei…», interrompeu o discurso. — Refiro-me ao meu marido! — anunciou ela com uma impetuosa exclamação, recostando-se na cadeira.


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Ria-se sem contenção e com um lenço nos olhos pelo equívoco, enquanto ele continuava sentado, a forçar um sorriso, e com a sua inexperiência no convívio de mulheres a deixá-lo muito convencido de que tinha diante de si uma louca digna de lástima. Mas acabou por admitir que não tinha havido naquilo nenhuma intenção irreverente, e por achar que se tratava de uma senhora muito respeitável. Depois de a absolver, não só se tornaram excelentes amigos mas aprendeu a receber, sem pestanejar, outras saídas como esta sobre a sabedoria salomónica. — «Quanto ao que me diz respeito» — garantia a mulher que Solomon tinha um dia afirmado — «dêem-me para comandante o mais bronco dos asnos, mas não um velhaco. Há sempre uma maneira de lidarmos com um imbecil; mas um velhaco é espertalhaço e escorregadio». Esta generalização um pouco petulante fora inspirada pelo caso particular que a honestidade do capitão MacWhirr constituía, e era de tão evidente peso como um bloco de barro. Mas Mr Jukes, esse era incapaz de generalizar; celibatário e sem noiva, habituara-se a abrir o seu coração, se assim pode dizer-se, a um velho companheiro e camarada de bordo, naquela altura a trabalhar como segundo oficial num transatlântico. E insistia principalmente nas vantagens do comércio nos países orientais, aludindo à superioridade que mostravam em relação aos do serviço ocidental. Gabava-lhe o céu, os mares, os navios e a vida fácil do Extremo Oriente. Como navio de alto mar, afirmava ele, o Nan-Shan a nenhum outro pedia meças. «Não temos fardas com coisas a brilhar e somos aqui como irmãos», escreveu. «Fazemos todas as refeições juntos e vivemos regaladamente… Todos os tipos negros que há na tripulação


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têm a decência que pode ao seu género exigir-se, e O Velho Sol, O Chefe, é uma criatura às direitas. Somos bons amigos. Quanto ao nosso velho, mais discreto comandante não poderá encontrar-se. Pensar-se-ia às vezes que não tem capacidade para reconhecer qualquer coisa mal feita. Mas também isto não é verdade. Não pode sê-lo. Há um bom par de anos comanda navios. Não dá ordens insensatas, de facto, e leva o navio a bom porto sem incomodar ninguém. Mas acho-o ainda assim sem miolos que cheguem para se entreter com zaragatas. Não tento aproveitar-me dele. Parecer-me-ia mesquinho. Se exceptuarmos a rotina do que são as obrigações, não creio que compreenda mais de metade do que lhe dizemos. Faz-nos de vez em quando rir; mas também é monótono privar com um homem destes… num longo percurso. Diz O Velho Sol que ele não é de muitas conversas. Conversas! Meu Deus! Nunca fala. Há uns dias tagarelava eu debaixo da ponte com um dos maquinistas, e acho que nos ouviu. Quando subi para fazer o meu quarto de vigia, saiu da sala dos mapas, inspeccionou com vagar o que à sua volta havia, deu uma espreitada às vigias do costado, deitou olhares à bússola, outros de soslaio às estrelas. Ou seja, o que é habitual fazer-se. Mas logo a seguir disse: “Não esteve ainda agora a falar na coxia de bombordo? Estive, meu comandante. Com o terceiro maquinista? Sim, meu comandante.” Saiu de estibordo e foi sentar-se debaixo do toldo num pequeno tamborete que é seu; e durante meia hora, talvez, não soltou nenhum som além do espirro que lhe ouvi dar. Algum tempo depois ouvi-o levantar-se e percorrer o caminho de bombordo até ao sítio onde eu estava. “Não consigo compreender o que vocês têm tanto para conversar durante duas


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horas bem contadas”, disse ele. “Não estou a censurar-vos. Vejo em terra pessoas que o fazem todo o dia, e à noite sentam-se e continuam a fazê-lo enquanto bebem. Devem repetir vezes sem conta as mesmas coisas. Não consigo compreender.” «Já ouviste uma coisa como esta? E dizia-o num tão paciente tom! Tive muita pena dele. Mas também há ocasiões em que exaspera. Não sentimos, claro está, vontade de fazer qualquer coisa que o ofenda, mesmo que pudesse dar resultado. O que não seria o caso. É de uma tão encantadora inocência, que poderíamos fazer-lhe na cara um gesto indelicado sem o levar a mais do que inquirir de si para si o que nos teria passado pela cabeça. Disse-me uma vez, com o ar mais simplório deste mundo, que lhe custava muito descobrir o sentido das tão estranhas atitudes que as pessoas constantemente tinham. Mas é, na verdade, bronco de mais para se incomodar com isto.» Mr Jukes escrevia ao camarada que navegava nos mares ocidentais, expondo por completo o seu coração e o que havia de vivo na sua fantasia. Dava com toda a honestidade a sua opinião; não valia a pena tentar impressionar um homem como aquele. Se apenas houvesse no mundo homens do seu género, era provável que a vida parecesse desinteressante e inútil. E não era o único a pensar assim. Dir-se-ia que o próprio mar compartilhava esta indulgente benevolência com Mr Jukes, pois nunca mostrara vontade de sobressaltar o homem silencioso que para ele bem pouco olhava e vagueava com inocência sobre as águas sem revelar mais nada, além do propósito de garantir a alimentação, o vestuário e a casa às três pessoas que em terra dependiam de si. Tinha, como é evidente, enfrentado dias de mau tempo.


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Molhara-se, sentira-se desconfortável, cansara-se com a forma habitual de nos cansarmos, sentindo-o no próprio momento mas com tudo isso agora esquecido. E justificava-se, portanto, que tivesse razões de fundo para enviar até à sua casa notícias de muito bom tempo. Nunca lhe tinha sido dado um vislumbre de ilimitadas forças e imoderadas cóleras — essa cólera que passa, esfalfada, mas nunca se acalma — a cólera e a fúria do impulsivo mar. Conhecia-lhes a existência como sabemos que o crime e as abominações existem; ouvira falar delas como o pacato cidadão de uma cidade ouve falar de batalhas, fome e inundações sem saber nada do que estas coisas significam — mesmo que já tivesse estado metido numa zaragata de rua e lhe tivesse acontecido não poder um dia jantar ou encharcar-se até aos ossos por um aguaceiro. O capitão MacWhirr navegara na superfície dos oceanos como alguns homens deslizam pelos anos da existência até se deixarem cair suavemente na calma de um túmulo, ignorando até ao fim o que é a vida por nunca lhes ter surgido a ocasião de ver tudo o que ela contém de perfídia, violência e terror. Há na terra e nos oceanos homens destes, favorecidos — ou desdenhados — pelo destino ou pelo mar.


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Os génios, seguido de Exemplos, Victor Hugo O senhor de Bougrelon, Jean Lorrain No sentido da noite, Jean Genet Com os loucos, Albert Londres Os manuscritos de Aspern (versão de 1888), Henry James O romance de Tristão e Isolda, Joseph Bédier A freira no subterrâneo, com o português de Camilo Castelo Branco Paul Cézanne, Élie Faure, seguido de O que ele me disse…, Joachim Gasquet David Golder, Irene Nemirowsky As lágrimas de Eros, Georges Bataille As lojas de canela, Bruno Schulz O mentiroso, Henry James As mamas de Tirésias — drama surrealista em dois actos e um prólogo, Guillaume Apollinaire Amor de perdição, Camilo Castelo Branco Judeus errantes, Joseph Roth A mulher que fugiu a cavalo, D.H. Lawrence Porgy e Bess, DuBose Heyward O aperto do parafuso, Henry James Bruges-a-Morta — romance, Georges Rodenbach Billy Budd, marinheiro (uma narrativa no interior), Herman Melville Histórias da areia, Isabelle Eberhardt O Lazarilho de Tormes, anónimo do século XVI e H. de Luna Autobiografia, Thomas Bernhard Bubu de Montparnasse, Charles-Louis Philippe Greco ou O segredo de Toledo, Maurice Barrès


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Cinco histórias de luz e sombra, Edith Wharton Dicionário filosófico, Voltaire A papisa Joana — segundo o texto de Alfred Jarry, Emmanuel Rhoides O raposo, D.H. Lawrence Bom Crioulo, Adolfo Caminha O meu corpo e eu, René Crevel Manon Lescaut, Padre Prévost O duelo, Joseph Conrad A felicidade dos tristes, Luc Dietrich Inferno, August Strindberg Um milhão conta redonda ou Lemuel Pitkin a desmantelar-se, Nathanael West Freya das sete ilhas, Joseph Conrad O nascimento da arte, Georges Bataille Os ombros da marquesa, Émile Zola O livro branco, Jean Cocteau Verdes moradas, W.H. Hudson A guerra do fogo, J.-H. Rosny Aîné Hamlet-Rei (Luís II da Baviera), Guy de Pourtalès Messalina, Alfred Jarry O capitão Veneno, Pedro Antonio de Alarcón Dona Guidinha do Poço, Manoel de Oliveira Paiva Visão invisível, Jean Cocteau A liberdade ou o amor, Robert Desnos A maçã de Cézanne… e eu, D.H. Lawrence O fogo-fátuo, Drieu la Rochelle Memórias íntimas e confissões de um pecador justificado, James Hogg Histórias aquáticas — O parceiro secreto, A laguna, Mocidade, Joseph Conrad O homem que falou (Un de Baumugnes), Jean Giono O dicionário do diabo, Ambrose Bierce A viúva do enforcado, Camilo Castelo Branco O caso Kurílov, Irène Némirowsky A costa de Falesá, Robert Louis Stevenson Nova Safo — tragédia estranha, Visconde de Vila-Moura


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Gaspar da Noite — fantasias à maneira de Rembrandt e Callot, Aloysius Bertrand Rimbaud-Verlaine, o estranho casal O rato da América, Jacques Lanzmann As amantes de Dom João V, Alberto Pimentel Os cavalos de Abdera e mais forças estranhas, Leopoldo Lugones Preceptores – Gabrielle de Bergerac seguido de O discípulo, Henry James O Cântico dos Cânticos – traduzido do hebreu com um estudo sobre o plano a idade e o carácter do poema, Ernest Renan Derborence, Charles Ferdinand Ramuz O farol de amor, Rachilde Diário de um fuzilado, precedido de Palavras de um fumador de ópio, Jules Boissière A minha vida, Isadora Duncan Rakhil, Isabelle Eberhardt Fuga sem fim, Joseph Roth O castelo do homem ancorado, Joris-Karl Huysmans


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