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Francisco de Holanda, «Do Tirar pelo Natural»

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DO TIRAR PELO NATURAL


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Francisco de Holanda

DO TIRAR PELO NATURAL nota de apresentação

Paulo Pires do Vale edição crítica e introdução

Raphael Fonseca separata

«A Arte de Tirar» Tomás Maia

D O C U M E N TA


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Na capa: Lourdes Castro, Sombra Projectada de Pedro Morais, 1970 tecido de algodão bordado a negro, 60 × 70 × 10 cm Colecção de Lea Nascimento Obra exposta em Do Tirar polo Natural. Inquérito ao Retrato Português Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa Julho – Outubro, 2018


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ÍNDICE

Nota de apresentação, Paulo Pires do Vale ..................

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Introdução, Raphael Fonseca....................................

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DO TIRAR PELO NATURAL ........................... Diálogo de tirar pelo natural ................................... Como poucos podem fazer perfeição .................... Como nenhuma obra perfeita deve de ser vista, antes de ser acabada ............................................ Do escolher o posto e a Vista no tirar ao natural ... DOS OLHOS.................................................... DAS SOBRANCELHAS .................................... DO Perfil do NARIZ.......................................... DA BOCA ......................................................... Do primor e lugar da ORELHA .......................... DO CORPO ..................................................... DO VESTIDO .................................................. FINAIS AVISOS NO TIRAR AO NATURAL .....

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Na presente edição respeitaram-se as diferenças ortográficas e sintácticas entre o português brasileiro e o português europeu. Os critérios de fixação do texto de Francisco de Holanda são expostos na Introdução.


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Nota de apresentação As mães são as mais altas coisas que os filhos criam… Herberto Helder

Há textos que dão à luz outros textos. Sabem multiplicar-se, reproduzir-se. Basta um encontro. Que encontrem o leitor certo que se deixe fecundar, ou que os fecunde. Na verdade, deixamos de saber quem alimenta quem: se a leitura o texto, se o texto a leitura — criadora de um novo texto. A datação histórica não é, aqui, relevante: os sucessores criam os precursores. Como num mundo ao invés, os filhos dão à luz os seus pais — e para compreender uma época será tão importante saber o que ela escreve, quanto o que ela lê — e como se lê. Este livro nasce de um pedido de leitura. Filipa Oliveira, Anísio Franco e eu, convidados para comissariar uma exposição sobre o retrato em Portugal, no Museu Nacional de Arte Antiga, decidimos partir do tratado Do Tirar polo Natural, de modo a homenagear e divulgar a obra do escritor e artista Francisco de Holanda 1. Queríamos ter no catálogo esse texto e notas à margem, comentários ou digressões, mas de um ponto de vista filosófico-estético, e não histórico. Convidámos, então, Tomás Maia ——————— 1 A exposição intitulada Do Tirar polo Natural. Inquérito ao Retrato Português esteve patente no Museu Nacional de Arte Antiga, de Julho a Outubro de 2018.

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a ler e, livremente, a anotar as margens e as entrelinhas desse tratado. Por impossibilidade de ter a tradução inglesa do texto de Francisco de Holanda pronta a tempo, tivemos de abandonar a ideia de publicá-lo — e as notas reflexivas que ele originou a Tomás Maia. Essas notas renovavam o texto original, dando origem a um texto de Holanda que antes não podíamos ler. Permitiam que Holanda escrevesse um novo texto. «Tirava-se» assim um texto de dentro do texto anterior — mas qual o primeiro? Não separando os frutos mútuos de um encontro, esta edição — retomando o trabalho crítico de fixação do texto de Holanda realizado por Raphael Fonseca, que generosamente o reviu e o corrigiu, e que Manuel Rosa imediatamente aceitou publicar, o que muito agradecemos — torna acessível um texto intemporal (de Tomás Maia) a partir de um texto contemporâneo (de Francisco de Holanda). Ou o contrário, se preferirem a fidelidade genealógica, que talvez não corresponda aos estranhos e impuros caminhos da verdade. Paulo Pires do Vale

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I N T RO D U Ç Ã O Raphael Fonseca


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Entre a prática e a teoria do retrato: Do Tirar pelo Natural A pintura de retratos e o erguer de monumentos são práticas que, por vezes na história da arte, caminharam lado a lado. Buscando o sentido denotativo de «monumento», encontramos as seguintes definições: «1. obra grandiosa, construída com o fito de contribuir para a perpetuação memorialística de pessoa ou acontecimento relevante na história de uma comunidade, nação, etc. […] 5. sobrevivência, na memória, de alguma coisa significativa para alguém ou para um grupo social; recordação, lembrança.»1 Logo, todo retrato tem relação direta para com a memória de uma espaçotemporalidade. Erguer este monumento é (re)construir a História, a partir da eternização de um ou mais indivíduos detentores de alguma relevância, visando uma permanência material do objeto-retrato, de maneira otimista, rumo ao futuro. Como Jacques Le Goff aponta, todo monumento está permeado pela morte, já que, mapeando sua etimologia, ——————— 1 HOUAISS, A.; VILLAR, M.S. Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa. São Paulo: Editora Objetiva, 2004, p. 1957.

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A palavra latina monumentum remete para a raiz indo-européia men, que exprime uma das funções essenciais do espírito (mens), a memória (memini). O verbo monere significa «fazer recordar», de onde «avisar», «iluminar», «instruir». O monumentum é um sinal do passado. Atendendo às suas origens filológicas, o monumento é tudo aquilo que pode evocar o passado, perpetuar a recordação…2 Objeto de debates desde a Antiguidade, a retratística já se encontrava sintetizada na palavra italiana ritratto em alguns textos do século XIV, sendo problematizada, dentre os dicionários, a partir do século XVI. Segundo Édouard Pommier, inicia-se uma distinção entre imitare (realizar uma imagem à semelhança de alguma coisa) e ritrarre (fazer a cópia literal de algo). Apenas no século XVII, na Espanha e especialmente na Itália, a palavra ganha uma denotação mais próxima da utilizada até os presentes dias: figura cavata dal naturale, ou seja, «figura tirada pelo natural»3 — abstração bidimensional realizada a partir do contato direto, «natural», entre retratista e retratado. Com uma maior noção de individualidade existente no Renascimento, as figuras retratadas começam a ganhar um espaço próprio dentro das obras; já não mais se faz obrigatória a existência de uma cena histórica para se adicionar o corpo de uma pessoa ——————— 2 LE GOFF, Jacques. «Documento/monumento» in História e memória. Campinas: Editora Unicamp, 1996, p. 535. 3 POMMIER, Édouard. Théories du portrait — de la Renaissance aux Lumières. Paris: Gallimard, 1998, p. 17.

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ilustre. A obra pode apenas representá-lo, sem nenhuma justificação narrativa evidente; a sua presença e seu diálogo para com o espectador já são auto-explicativos. Pope-Henessy irá afirmar que as primeiras experiências formais desses retratos individuais provêm de um espaço de experiência da inserção de retratos de comanditários em pinturas históricas. Logo, fica mais compreensível a hieratização inicial de seus corpos que, pouco a pouco, serão suavizados e realizados com maior destreza, além de um maior detalhamento dos aspectos psicológicos e visuais dos retratados 4. Nesse trajeto histórico, diversos foram os teóricos da arte, poetas e artistas que dedicaram algumas linhas à retratística, entre os quais merecem destaque Leo Baptista Alberti, Albrecht Dürer, Leonardo da Vinci e Baldassare Castiglione. Contudo, todas estas escritas abordavam questões amplas da prática artística e social, dedicando pouco espaço ao retrato em si. Assim como os retratos individuais precisaram de certo tempo para existir, a reflexão da teoria da arte em torno do retrato e suas especificidades apenas vai ganhar sua primeira abordagem exclusiva em meados do século XVI, precisamente no ano de 1549, com a figura de um não-italiano: Francisco de Holanda, português, autor do texto intitulado Do Tirar polo Natural. Trata-se de um consenso para alguns historiadores da retratística, tais como Lorne Campbell e Shearer West, de que o texto seja o primeiro dedicado unicamente à prática do retrato. ——————— 4 POPE-HENESSY, John. The Portrait in the Renaissance. Nova Iorque: Pantheon Books, 1966, p. 23.

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O texto é essencial para as discussões quanto à história, crítica e teoria da arte não apenas do chamado Renascimento, mas também para a contemporaneidade. Ler as palavras de Francisco de Holanda é aprender sobre a cultura visual de meados do século XVI e observar quais preceitos de seu olhar seguem vigentes nas culturas ocidentais e mesmo não-ocidentais desde então. O autor se refere à pintura, mas basta observarmos os retratos presidenciais oficiais e fotográficos de diversas nações do mundo para notarmos como uma tradição da retratística foi instaurada e permanece. Para além do campo da reflexão sobre os retratos, Do Tirar pelo Natural é um importante texto para se compreender o trânsito artístico entre Portugal e Itália durante os séculos XV e XVI; o autor sempre terá como norte a produção de arte na Itália e, curiosamente, em sua própria prática como retratista, apresentará soluções formais mais próximas das tradições portuguesas da pintura de iluminuras do que da cultura visual que tanto admirava, representada pelos grandes quadros a óleo de Tiziano. Por muito tempo a produção teórica de Francisco de Holanda foi enxergada como um modo de informar a historiadores da arte a respeito da arte italiana; felizmente, porém, nas últimas décadas, parece ficar claro que suas palavras talvez falem mais sobre a própria cena artística portuguesa. Quanto à sua estrutura, a escrita está dividida em onze partes, sendo também construída no formato de diálogo, só que entre apenas dois personagens: Fernando (pseudônimo para o

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DO TIRAR PELO NATURAL [fol. 184] Francisco de Holanda


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Indo eu a SANTIAGO 1 de Galícia com o valeroso e clementíssimo Príncipe, o Infante DOM LUÍS, aceitando eu a tal romaria de boa vontade, como quer que essa só me falecia das maiores de Espanha, e quase de toda a Europa, pois já fui a Guadalupe, e a Nossa Senhora Del Antigoa em Sevilha, e a Nossa Senhora de Monserrat, e a São Maximino em Provença, onde está a cabeça de Santa Maria Madalena, e a São PEDRO e a São PAULO em ROMA, e a Nossa Senhora de Loreto na Marca de Ancona e a São Marcos em Veneza, e ao nosso Santo ANTONIO em Pádua, estimei finalmente de ir ver o apóstolo de ESPANHA em Compostela. MAS, chegando ao PORTO, cidade estrangeira em Portugal, quis-me tomar por hóspede Brás Pereira, que foi filho de Fernão Brandão, Guardarroupa do Infante Dom [fol. 184v] Fernando, que DEUS haja. E como quer que nós ambos quase criamos na casa daquele senhor, e ele ficou dali meu amigo, nem a mim me pesou da sua pousada, nem a ele da minha companhia. Mas é este Brás Pereira um homem ——————— 1 A palavra aqui vem grafada toda em maiúsculas e a sílaba «ti» aparece em forma de uma cruz, unindo as duas letras e criando um caractere só.

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fidalgo de muito gentis partes e habilidades, e principalmente na arte da Pintura tem muito engenho e natural, e no conhecimento da Arquitectura, por onde nos não enfadávamos muitas vezes de praticar alguns primores sobre as tais disciplinas que se acham em mui poucos fidalgos portugueses. E gastávamos nisso parte das noites. Mas tornando eu já de SANTIAGO, e mandando-me o infante, de que me apartei em São Gonçalo de Amarante, que fosse a Santo Tirso dizer a um gentil-homem, criado do cardeal Fernes, que entregasse ao dito Brás Pereira umas cabeças de Gesso antigas que vieram de Roma, para lhas mandar por água a Lisboa, foi-me forçado tornar eu outra vez a pousar na casa de Brás Pereira, [fol. 185] e havendo ocasião teve-me em sua casa oito dias, de vida boa. Mas achando-me com mais ócio na volta da romaria que na ida, tornamos a tratar algumas vezes dos primores da Pintura e principalmente do tirar ao natural e dizendo-lhe eu como tinha escrito novamente sobre a Pintura um volume em dois livros, encomendou-me que no fim dele não esquecesse de tratar o que nós ali tocávamos do Tirar ao natural e eu prometi-lhe; porém será melhor ouvir o que cada um dizia nesta prática, que perder-se mais o Tempo.

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Diรกlogo de tirar pelo natural [fol. 185v]


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FERNANDO 2

BRÁS PEREIRA

Como poucos podem fazer perfeição3

Dizem que Alexandre o Magno Amava muito uma moça formosa daquele tempo, e por isto pediu a Apeles que ao natural a Pintasse; mas o excelente pintor como quer que da proporção da sua formosura mais entendido que aquele Imperador, muito se namorou dela; e foi tanto que chorava de a entender; mas Alexandre, que foi liberal até de seus próprios contentamentos, quis vencer-se assim mesmo e deu aquela formosa Dama a Apeles, estimando merecê-la aquele mais que a melhor entendia 4. E não foi esta menor coisa de Alexandre, que todas as que ele fez. Que vos parece a vós?

——————— 2 O nome dos dois personagens a dialogar são Fernando e Brás Pereira. Monsenhor Gordo, porém, em alguns momentos os transcreve como «Brás Fereira» e «Feramando». Foi optado aqui por alterar esta grafia no que diz respeito à introdução das novas falas e também no desenvolver dos diálogos, visando dar unidade ao texto. 3 A estrutura das apresentações dos diálogos muitas vezes é esta: primeiramente o nome dos dois personagens e, depois, o título do diálogo. John Bury, em sua edição espanhola, porém, inverte esta ordem — da mesma forma que Joaquim de Vasconcelos e José da Felicidade Alves. 4 Esta frase não se encontra na edição de 1892/1984. No seu lugar, entre colchetes, lemos «[e conhecendo Alexandre que também Apeles dela se namorara, lhe faz dela dom]».

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Fernando — A mim, que porventura foi tanto, que algum de nós o não fizera, e não fizera mui pouco [fol. 186] em não fazê-lo. Muito privado foi Apeles de Alexandre o Magno e ele foi o que pôs edito que só Apeles ao natural o pintasse; e foi nisto grande homem. Brás Pereira — Em que prática mais nobre podemos gastar este pedaço da noite que na doutrina do Tirar ao NATURAL? Fernando — Basta o que já sobre isso outras vezes praticámos. Brás Pereira — Não vos pese de tornarmos a iterar o que outras vezes faláramos; e iremos descobrindo mais terra e mais, pois que esta noite se nos mostra quietíssima e digna de tal conversação. Fernando — Faça-se como o mandais, pois o tratar da Pintura é a coisa mais digníssima deste Mundo, e o Tirar ao natural aquilo que só DEUS fez por tão investigável sabedoria como ele sabe. Querê-lo um homem de terra imitar deve ser coisa mui grande e a maior que os homens podem fazer; ao menos eu (de o não saber fazer) por a maior a estimo; outros tê-lo-ão por menos. Brás Pereira — De vós sentirdes como se deve estimar, e o preço e a dificuldade do negócio, [fol. 186v] disso vos nascem essas desconfianças, teme o saber e o estima; mas vamos mais adiante: qual é o primeiro preceito que vós no tirar ao Natural poríeis?

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[fol. 213]

Acabei-o de escrever sem emendar, em Santarém, hoje, quinta feira, Três DIAS do Mês de Janeiro NA ERA DO NOSSO SENHOR JESUS CRISTO DE MDXXXXIX.

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A ARTE DE TIRAR Tomás Maia

Separata que acompanha o Diálogo Do Tirar pelo Natural, de Francisco de Holanda, edição crítica e introdução de Raphael Fonseca, Lisboa, Documenta, 2019


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Francisco de Holanda, «Do Tirar pelo Natural» by Sistema Solar - Documenta - Issuu