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Federico Bertolazzi
almadilha ensaios sobre Sophia de mello Breyner andresen
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Obra publicada com o apoio da Cátedra Agustina Bessa-Luís da Universidade de Roma Tor Vergata
© SISTEMA SOLAR, CRL (DOCUMENTA) RUA PASSOS MANUEL, 67 B, 1150-258 LISBOA © FEDERICO BERTOLAZZI, 2019 1.ª EDIÇÃO, ABRIL DE 2019 ISBN 978-989-8902-72-6 CAPA: ANDRÉ ALMEIDA E SOUSA, SEM TÍTULO, 2011 FOTOGRAFIA DA PÁGINA 2: SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN POR JOÃO CUTILEIRO, ANOS 1960 REVISÃO: LUÍS GUERRA DEPÓSITO LEGAL 455184/19 PUBLITO – ESTÚDIO DE ARTES GRÁFICAS PARQUE INDUSTRIAL DE PINTANCINHOS, 4700-727 BRAGA
Talvez eu vá ficando igual à almadilha da qual os pescadores dizem ser apenas água. Sophia de Mello Breyner Andresen
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Para a ana lĂşcia, dia a dia.
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índice
i Umbral . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ii «O cântico da longa e vasta praia». Eco atlântico em itinerário mediterrâneo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . iii a pequena flauta da sombra . O classicismo de Sophia . . . . . . . . . iV Uma questão de tempo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . V Exemplaridade i . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Vi «O Nome das Coisas» Traduzir Sophia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Vii Sophia e Pascoaes. Um encontro na paisagem . . . . . . . . . . . . . . . . . Viii a «velhinha janela» . adília, Sophia e Pascoaes . . . . . . . . . . . . . . . . iX Exemplaridade ii. Vida e escrita . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
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Bibliografia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Nota sobre os textos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
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Esta ideia de ser é a sublimação do desejo de existir, fulgindo em cada Nebulosa. E, por isso, a semente humana, dizia um filósofo grego, é da mesma substância das estrelas. Teixeira de Pascoaes
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Só tem profundo olhar o nosso sentimento. Para se descobrir a origem duma flor Não basta o raciocínio, o humano pensamento, É preciso sentir por ela um grande amor. Teixeira de Pascoaes
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a voz de Sophia de mello Breyner andresen é uma das mais límpidas da poesia de língua portuguesa. desde o seu primeiro livro, Poesia (1944), Sophia mostrou uma pertinaz paixão para a busca de uma linguagem capaz de recuperar a íntima e primordial potência das coisas e da palavra que a possa nomear. a sua busca formal indaga o real na tentativa de pôr a nu aquela espécie de núcleo da essência que vive na integridade primitiva das coisas. Este percurso de procura de linguagem leva-a a viver a poesia como desvelamento da verdade, num percurso genético que martin heidegger descreveu e que exige da língua uma precisão iluminadora, e portanto reveladora do que está encoberto pela patine do habitual.1 mais que uma vez Sophia descreveu o seu espanto juvenil perante o espectáculo do mundo, e, nele, o reverberar de certos elementos configurou-se-lhe como revelação epifânica de uma imanência que ela irá perseguindo ao longo de toda a sua escrita; para Sophia a poesia, que ela própria definiu «a minha explicação com o universo»2, faz-se instrumento de busca ontológica: através da palavra ela pode definir e conhecer as coisas e clarificar a sua relação com elas. através da palavra, que se quer exacta, essa relação que tem como fundamento o rigor e a intransigência formal, liga-se à verdade e, clarificando e tornando nítido o eixo principal da existência na relação do homem com o mundo, contribui também para a explicação da relação do homem com o homem. E mais, configurando-se como um processo livre de indulgências, coloca-se naturalmente como exemplo para os outros homens e desempenha dessa forma a sua imprescindível função social, isto é, política, assim como definido na «arte poética iii»3: martin heidegger, Der Ursprung des Kunstwerkes (1935), trad. port. A Origem da Obra de Arte, lisboa, Edições 70, 2007. 2 «arte poética ii», in Obra Poética, lisboa, assírio & alvim, p. 891. 3 Ibidem, p. 893. 1
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O artista não é, e nunca foi, um homem isolado que vive no alto de uma torre de marfim. O artista, mesmo aquele que mais se coloca à margem da convivência, influenciará necessariamente, através da sua obra, a vida e o destino dos outros. mesmo que o artista escolha o isolamento como melhor condição de trabalho e criação, pelo simples facto de fazer uma obra de rigor, de verdade e de consciência ele irá contribuir para a formação duma consciência comum. mesmo que fale somente de pedras e de brisas a obra do artista vem sempre dizer-nos isto: Que não somos apenas animais acossados na luta pela sobrevivência mas que somos, por direito natural, herdeiros da liberdade e da dignidade do ser.
de facto, o aspecto social é um dos mais interessantes da reflexão estética de Sophia, que – embora tenha sido envolvida activamente na resistência política ao regime do Estado Novo, e tenha sido eleita na assembleia Constituinte –, pensa a literatura na sua dimensão social numa acepção rigorosamente estética e desligada de qualquer ortodoxia ideológica. isto é cristalino nas palavras que ela pronunciou por ocasião da tomada de posse na associação Portuguesa dos Escritores, em maio de 1975, num clima politicamente muito aceso: É a poesia que me implica, que me faz ser no estar e faz estar no ser. É a poesia que torna inteiro o meu estar na terra. E porque é a mais funda implicação do homem no real, a poesia é necessariamente política e fundamento da política. Pois a poesia busca o verdadeiro estar do homem na terra e não pode por isso alhear-se dessa forma do estar na terra que a política é. assim como busca a relação verdadeira do homem com a árvore ou com o rio, o poeta busca a relação verdadeira com os outros homens. isto o obriga a buscar o que é justo, isto o implica naquela busca de justiça que a política é. E porque busca a inteireza, a poesia é, por sua natureza, desalienação, princípio de desalienação, desalienação primordial. liberdade primordial, justiça primordial. O poeta diz sempre: «Eu falo da primeira liberdade» […] Sabemos que a vida não é uma coisa e a poesia outra. Sabemos que a política não é uma coisa e a poesia outra. Procuramos o coincidir do estar e do ser. Procurar a inteireza do estar na terra é a busca da poesia. 16
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[…] E porque desalienar, conquistar a inteireza de cada homem é a finalidade radical de toda a política revolucionária, o projecto de uma política real é por sua natureza paralelo ao projecto da poesia. mas olhando com atenção vemos que a tarefa específica da política é criar as condições em que a desalienação é possível. Em rigor, a política não cria a desalienação mas sim a sua possibilidade. É a poesia que desaliena, que funda a desalienação, que estabelece a relação inteira do homem consigo próprio, com os outros, e com a vida, com o mundo e com as coisas. E onde não existir essa relação primordial limpa e justa, essa busca de uma relação limpa e justa, essa verdade das coisas, nunca a revolução será real. Pois é a poesia que funda. Por isso hölderlin disse: «aquilo que permanece os poetas o fundam». E por isso a política não pode nunca programar a poesia. […] Porque propõe ao homem a verdade e a inteireza do seu estar na terra toda a poesia é revolucionária. Por isso a forma mais eficaz que o poeta tem de ajudar uma revolução é ser fiel à sua poesia. Escrever má poesia dizendo que se está a escrever para o povo, é apenas uma forma nova de explorar o povo. Quem está realmente empenhado num país melhor e numa sociedade melhor, luta pela verdade da cultura. aquele que é conivente da mediocridade é inimigo de uma sociedade melhor, mesmo que apregoe grandes princípios revolucionários. a revolução da qualidade é radicalmente necessária a uma revolução real.1
Na minha opinião, o paradigma desse percurso artístico exemplar que se perfila num preciso domínio estético delineia-se no plano da poética, isto é, da prática material da escrita, em redor daquele tema central de toda a obra de Sophia que é a relação com o mar, analisada e descrita com constância e paixão ao longo de todos os seus sessenta anos de vida literária. Principiando no Norte do país, onde a força impetuosa do oceano se impõe na orla da terra, essa relação alimenta-se do encanto pela misteriosa potência das 1 Texto lido no i Congresso de Escritores Portugueses, publicado in O Nome das Coisas, lisboa, moraes, 1977.
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marés que nas suas alternâncias ora velam ora desvelam um mundo que parece acabado de criar. É um fascínio que nasce em Sophia na infância e na juventude e marca para sempre o seu imaginário. Esse atlântico selvagem, que desde cedo ela reconhece como fonte de linguagem, leva-la-á para uma busca existencial ao longo dos caminhos que levam para o mar interior, o mediterrâneo que se lhe apresentará como lugar sagrado à volta de uma terra, a Grécia, onde a sua espiritualidade será completa numa fusão entre vida, poesia, e sentimento do divino. Será possível dizer que, para Sophia, o mediterrâneo começa no algarve, cuja frequentação inicia no princípio da década de sessenta. Ela realiza, no plano da poesia, o que Orlando Ribeiro descreve do ponto de vista da cultura no seu Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico1; o caminho que leva Sophia para a Grécia é um caminho de reconhecimento das suas próprias raízes, baseado no pressentimento de uma afinidade que, na verdade, resulta de uma interpretação cultural fortemente subjectiva e que tem os traços de uma geopoética que parte de homero e, passando pela arte grega clássica, chega até Fernando Pessoa. Tentarei traçar esse percurso nos textos que se seguem. Ora, o encontro com a Grécia e com os restos da sua antiguidade, para além de fornecer a Sophia um verdadeiro altar para a sua religiosidade expressa medindo com a palavra a relação do homem com o mundo, também representa o momento de união deste aspecto poético com o social de que falava antes. de facto, Sophia selecciona e retém da classicidade grega o tema da justiça declinado em associação com o da justeza da palavra. Na sua «arte poética iii» lemos: «Como antígona a poesia do nosso tempo diz: Eu sou aquela que não aprendeu a ceder aos desastres» e, mais significativamente ainda, no poema «Catarina Eufémia», poema escrito depois do escandaloso assassinato, lemos: «O primeiro tema da reflexão grega é a justiça […] antígona poisou a sua mão no teu ombro no instante em que morreste»2. Essa justiça do homem, que vimos evocada também nas palavras do i Congresso de Escritores Portugueses citadas acima, é fundamental pois constitui a li1 2
a primeira edição é de 1945. Veja-se a mais recente: lisboa, letra livre, 20118. Dual (1972), in Obra Poética, lisboa, assírio e alvim, 2015, p. 644.
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gação nunca interrompida entre o poeta e os homens, e era, no tempo em que Sophia escrevia, urgentíssima. Ora (e eis a passagem para um segundo aspecto da questão), a objectividade desse mecanismo de convergência entre justiça e justeza só é possível graças à impersonalidade da palavra do poeta, que veicula a sua universalização. Sophia quer o poema livre de laços que o prendam a uma única experiência reconhecível e subjectiva, a sua aspiração é que a intensidade da experiência individual seja tão depurada de maneira a tornar-se universal. Por isso, quando se encontra no lugar epifânico, ela volta a Fernando Pessoa1. Essa despersonalização do poeta, que no caso de Fernando Pessoa Sophia descreve muito claramente numa conferência de 19892 proferida no Palácio Fronteira, em lisboa, é a chave da universalidade da palavra poética através da mimese e Sophia, que conta ter vivido a sua relação com Pessoa como uma luta, pois não conseguia aceitar a sua voluntária «excomunhão» da vida, afirma só ter podido clarificar essa relação, depois de ter escrito vários poemas sobre Pessoa, graças à mimese realizada na «homenagem a Ricardo Reis»3. Essa despersonalização é reconduzida por Sophia no âmbito da dimensão imanente em que ela diz ter enquadrado a poesia desde a infância, e, significativamente, liga-a também com a escrita de Pessoa. lemos em «arte poética iV»4: Fernando Pessoa dizia: «aconteceu-me um poema.» a minha maneira de escrever fundamental é muito próxima deste «acontecer». O poema aparece feito, emerge, dado (ou como se fosse dado). Como um ditado que escuto e noto. É possível que esta maneira esteja em parte ligada ao facto de, na minha infância, muito antes de eu saber ler, me terem ensinado a decorar poemas. Encontrei a poesia antes de saber que havia literatura. Pensava que os poemas não eram escritos por ninguém, que existiam em si mesmos, por si mesmos, que eram como que um elemento do natural, que estavam suspensos, imanentes. E que bastaria estar muito quieta, calada e atenta para os ouvir. Cf. infra, p. 138. Presente no Espólio de Sophia conservado na Biblioteca Nacional de Portugal, cota E64/1186-1188. 3 maria andresen Sousa Tavares recolheu num livro estes textos: Os Poemas sobre Pessoa, prefácio de Fernando Cabral martins, lisboa, Caminho, 2012. 4 (1972), Obra Poética, p. 895. 1 2
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E, anos mais tarde, na «arte poética V»1, ela contará: No fundo, toda a minha vida tentei escrever esse poema imanente. E aqueles momentos de silêncio no fundo do jardim ensinaram-me, muito tempo mais tarde, que não há poesia sem silêncio, sem que se tenha criado o vazio e a despersonalização. Um dia em Epidauro – aproveitando o sossego deixado pelo horário do almoço dos turistas – coloquei-me no centro do teatro e disse em voz alta o princípio de um poema. E ouvi, no instante seguinte, lá no alto, a minha própria voz, livre, desligada de mim. Tempos depois, escrevi estes três versos: A voz sobe os últimos degraus Oiço a palavra alada impessoal Que reconheço por não ser já minha.
Esse climax em que Sophia descreve o acontecer da despersonalização, partindo da concretude do real, tem a ver com uma espécie de síntese que ela opera entre duas das maiores figuras literárias que a fascinam. digo «fascinam» por ser-me difícil dizer «influenciam», uma vez que de verdadeira influência, em Sophia, é muito raro conseguir falar. Quando muito há mimese, mas essa é facilmente reconhecível, o fascínio está no facto de que ela admira desde muito cedo e durante a sua vida toda, em primeiro lugar, Teixeira de Pascoaes e nele a relação com as coisas, com o mundo, com a paisagem que é a fonte onde ele vai haurir a sua linguagem. Sophia admira, e não o esconde, a maneira como Pascoaes continuamente renasce da paisagem e ama a fusão que ele vive com as coisas que vê. ao mesmo tempo ela também reconhece o fascínio por Pessoa, que, pelo contrário, e seguindo nisto a leitura que dele fez Jorge de Sena como «homem que nunca foi», só na abdicação da vida, no afastamento das coisas, consegue pensá-las. É 1 (1988), agora in Obra Poética, p. 898. O poema citado no final do texto será emendado. a versão final encontra-se no corpus da obra com o título «Epidauro 62»: «Oiço a voz subir os últimos degraus / Oiço a palavra alada impessoal / Que reconheço por não ser já minha», op. cit., p. 757.
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como se Sophia tivesse conseguido a síntese entre estes dois poetas, vivendo a fusão com o real à maneira de Pascoaes, dizendo-a com a despersonalização objectiva de Pessoa. Gosto de ligar essa impersonalidade da poesia que, por um lado, é o cume da expressão, àquela dimensão infantil de que Sophia fala e que representa uma relação pura e necessária com a expressão – a poesia antes da literatura. E assim a Grécia se torna para Sophia o lugar onde se cumpre o seu paradigma estético, e a transfiguração por ela operada contribui não apenas para a interpretação do seu mundo de poeta, mas também para a nossa, de moradores, cada um do seu mediterrâneo. Então o mar é ao mesmo tempo fonte, espelho e último destino da existência. Na orla do mar Sophia decifra o mistério da beleza; nas suas ondas observa a profundeza do ser; por sobre as águas, as espantosas navegações tornam-se símbolo da busca do conhecimento; nas suas exalações, o espírito apraz-se e sossega. No mundo de Sophia, aquele que vive em comunhão com o mar é testemunha da justiça, aquele que do mar se afasta, fatalmente se perde pelos labirintos da cidade: em oposição à pureza inscrita no sal há a podridão urbana que cerca o homem. muitas vezes em Sophia a cidade é símbolo dessa separação fatal que fractura a existência, a não ser que ela seja fruto da mente iluminada, como a Brasília, que ela visitou em 1966, no lugar que se acabara de ganhar ao caos do sertão e que, não por acaso, Sophia diz «desenhada por lúcio Costa Niemeyer e Pitágoras/ lógica e lírica/ Grega e brasileira»1. Contudo, há também um espaço de mediação entre a pureza do mar e a corrupção da cidade traída2, e é o jardim, outro topos, lugar de reconciliação, donde olhar para o mundo alimentando a esperança da unidade3:
Cf. «Brasília», de Geografia (1967), Obra Poética, p. 566. Um dos textos mais belos sobre este tema é «Pelo negro da terra, pelo branco do muro», publicado pela primeira vez em Távola Redonda, n.º 21, Janeiro de 1963, p. 1, e reeditado em 2003: Correntes d’Escritas. Revista de cultura literária da Póvoa de Varzim, p. 60. Cf. infra, p. 176. 3 Sobre o topos do jardim em Sophia leia-se o texto de José Tolentino mendonça, in alberto Vaz da Silva, Evocação de Sophia, assírio e alvim, lisboa, 2009, pp. 95-102. O poema «Quando» pertence ao livro Dia do Mar (1947), Obra Poética, p. 191. 1 2
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Quando Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta Continuará o jardim, o céu e o mar, E como hoje igualmente hão-de bailar as quatro estações à minha porta. Outros em abril passarão no pomar Em que eu tantas vezes passei, haverá longos poentes sobre o mar, Outros amarão as coisas que eu amei. Será o mesmo brilho, a mesma festa, Será o mesmo jardim à minha porta, E os cabelos doirados da floresta, Como se eu não estivesse morta.
O jardim é a síntese da Natureza, representa o lugar, em todas as suas potencialidades reveladoras. E é sempre um referente concreto, empírico: o jardim da casa dos avós, no Campo alegre, no Porto (actual Galeria da Biodiversidade); o jardim ao pé da praia da casa da Granja; o jardim da casa da Travessa das mónicas, em lisboa, projectado por Gonçalo Ribeiro Telles. Estes são cenários que se tornam literários porque fundadores daquela atenção que é o gesto sagrado de Sophia. E é curioso notar como é sempre à volta do lugar que ela estrutura as suas narrativas para a infância: A Menina do Mar (1958), A Fada Oriana (1958), A Noite de Natal (1959), O Cavaleiro da Dinamarca (1964), O Rapaz de Bronze (1965), A Floresta (1968), A Árvore (1985)1. Todos estes livros que, desde a sua publicação têm sem interrupção contribuído para revelar aos seus leitores a efabulação e a palpabilidade do sonho, representam uma parte muito importante da «participação do poeta na cidade do homem». Vejamos este testemunho de Sophia numa entrevista de 1982: 1 Sobre a génese destes livros veja-se a entrevista a Eduardo Prado Coelho e lúcia Garcia marques, ICALP – Revista, n.º 6, agosto/dezembro, 1986, pp. 60-77.
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logo a seguir ao 25 de abril e mesmo antes, eu falei muito do lugar do poeta na cidade do homem e pensei que tinha uma certa obrigação de participação. hoje em dia o meu desejo profundo é um desejo de marginalização para poder fazer o que posso fazer. aliás, quando estava na assembleia Constituinte tive uma experiência importante. Saí um dia mais cedo e atravessei o Bairro alto a pé. Na rua havia um pequeno grupo de crianças a brincar na soleira de uma porta. E chamaram-me e perguntaram se eu era a Sophia de mello Breyner andresen. Eu disse que sim, mas como é que elas sabiam? Elas responderam que a professora estava a ler uma história minha na aula e tinham visto um retrato meu. Fiquei a conversar com as crianças – e pensei, de repente, que escrever era a minha verdadeira participação política1.
Então, o afastamento da vida política activa, na década de oitenta, não é uma abdicação da participação social, pois a experiência de vida e de escrita confluem, graças à palavra, que é instrumento de afirmação da nua e necessária verdade do ser. a sua moral granítica, a sua técnica poética rigorosa e capaz da excelência, a sua lucidez intransigente fazem dela uma delgada figura aristocrática dotada de uma força inabalável. Com a argúcia habitual, agustina Bessa-luís disse dela: «Faz a cortesia de parecer vulnerável» e, de facto, a leveza e a profundidade raras vezes se encontram tão bem conjugadas com a força e a pertinácia, por isso o nome de Sophia é, hoje, sinónimo de transparência.
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Entrevista a maria armanda Passos, JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias, n.º 26, 16 de Fevereiro, 1982.
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ii «o cântico da longa e vasta praia» Eco atlântico em itinerário mediterrâneo
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Em nĂŠvoa, a onda realiza o seu desejo diluviano. Teixeira de Pascoaes
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Midi le juste y compose de feux Paul Valéry, Le cimetière marin
Como já apontado acima, a relação de Sophia com o mar é vasta e profunda, nela radica-se a busca de uma linguagem que visa recuperar a potência elementar das coisas e do momento em que, sendo nomeadas, elas projectam a sua essência para o exterior de si, começando plenamente a sua existência. a proximidade do mar, em Sophia, funciona como instrumento de renovação desse momento genesíaco que nos restitui a integridade primitiva do real. há um andamento ascensional inscrito nesse sistema estético e poético. Um andamento ascensional que se relaciona com o elementar de maneira conforme à que escrevia João Cabral de melo Neto: «elementar», dizia o poeta brasileiro, «como todas as coisas que podem ser mudadas em vapor ou poeira» (Os Três Mal-Amados, 19431). interessa-me a maneira como Sophia se coloca nesta topografia precisa e depurada, tornando essencial esta parte eufórica, ou costruens, do seu mundo poético, na qual, através do isolamento, veicula e torna possível o encontro com a verdade. Não é apenas o mar que interessa a Sophia, mas mais precisamente a praia, enquanto lugar liminar e precário. Em geral, toda a relação de Sophia com os lugares geográficos passa por uma elaboração de poética: o lugar em si, o espaço físico, é desconstruído e depurado, procurando-se nele uma imanência primordial que possa voltar a exprimir a sua primitiva potência. a praia, imóvel, mas, ao sabor dos ventos e das marés sempre mutável, acolhe mostra e esconde o que do mar provém. É na praia, lugar entre a terra e o mar, que acontecem os 1
Obra Completa, Rio de Janeiro, Nova aguilar, 2003, p. 59.
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milagres iniciáticos, como sabem todos os leitores de A Menina do Mar1; a praia, em virtude da sua mutabilidade, torna-se assim num lugar de passagem, nunca estável, numa espécie de não-lugar, ou ou-topia, se se quiser recuperar o étimo desta palavra. E, de facto, o que é mágico em Sophia, é tornar habitável essa ou-topia, torná-la instrumento da busca do ser pelas palavras. No conto intitulado «a casa do mar», do livro Histórias da Terra e do Mar (1984)2, encontram-se diversos exemplos do aproveitamento poético dessa liminaridade. O processo que julgo revelador actua a vários níveis, desde o narrativo até ao sintáctico: a casa, lê-se no conto, «está construída na duna» (p. 67), na linha entre a terra e o mar, e abre-se e dialoga com a paisagem, recebendo-a e projectando-se nela. diz a narradora: «dentro da casa o mar ressoa como no interior de um búzio. […] Profundos os espelhos reflectem demoradamente os dias. E em frente das janelas o mar brilha como inumeráveis espelhos quebrados» (p. 70). há uma troca contínua entre o interior e o exterior da casa, e, como acabámos de ver, é em primeiro lugar a nível narrativo que isto se verifica. Paralelamente, os elementos convocados na narração definem-se com nitidez no espaço, mas relacionam-se com ele como exalando a sua própria essência. Procedendo do geral para o particular, encontramos várias ocasiões nas quais as coisas se amplificam, projectando uma espécie de halo da sua essência em seu redor. a casa está em constante contiguidade com as areias (note-se que o plural é de Sophia) tanto que as dunas «estendem-se como um grande jardim deserto» (p. 69): na praia «o poisar das gaivotas deixa finas pegadas triangulares, semelhantes à escrita de um tempo antiquíssimo» (p. 68), e atente-se na sintaxe da frase, na leveza do verbo-sujeito «o poisar das gaivotas», que subtrai ao gesto qualquer peso que poderia ter. Continuando, o jardim das traseiras dá para uma paisagem onde «os plátanos sonham devagar a própria sombra» (p. 69): é este um repouso demorado, no qual as coisas parecem respirar com todo o seu ser, criando-se uma estratificação metafórica que desconhece a gravidade. mais à frente vemos que «o vento que 1 2
a primeira edição é de 1958. Cito aqui a 41.ª edição: Porto, Figueirinhas, 2002. Cito a partir da 22.ª edição, Porto, Figueirinhas, [2006], pp. 65-82.
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bibliografia
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Sitografia http://purl.pt/19841/1/index.html Sophia de Mello Breyner Andresen no Seu Tempo. Momentos e Documentos. autoria de maria andresen Sousa Tavares.
Filmografia Sophia de Mello Breyner Andresen, de João César Santos [monteiro], 1968. Correspondências, de Rita azevedo Gomes, 2017.
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nota sobre os textos
Os textos aqui reunidos foram escritos em diferentes ocasiões. Para a presente edição foram adaptados com o intuito de os harmonizar num conjunto que dá conta de cerca de oito anos de convívio com a obra de Sophia. O primeiro texto, que aparece com o título «Umbral», acompanhava, como posfácio, a antologia de poemas que organizei e traduzi para italiano, intitulada Come un Grido Puro (milano, Crocetti, 2012). «O cântico da longa e vasta praia. Eco atlântico em itinerário mediterrâneo» foi apresentado no Colóquio Internacional Sophia de Mello Breyner Andresen (lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 10-11 de Janeiro de 2011) e foi publicado nas actas, organizadas por maria andresen Sousa Tavares (Porto, Porto Editora, 2013). «a pequena flauta da sombra. O classicismo de Sophia» reproduz a minha comunicação no colóquio Matrizes Clássicas da Literatura Portuguesa: uma (re)visão da literatura portuguesa das origens à contemporaneidade Universidade de lisboa, 4-6 de dezembro de 2013) e foi publicado nas actas, organizadas por Paula morão e Cristina Pimentel (lisboa, Campo da Comunicação, 2014). «Uma questão de tempo» reproduz o meu prefácio ao livro No Tempo Dividido na sua mais recente publicação (lisboa, assírio e alvim, 2013). O mesmo acontece com «Exemplaridade i», texto que acompanha a última edição de Contos Exemplares (lisboa, assírio e alvim, 2014). «O nome das coisas. Traduzir Sophia» foi apresentado pela primeira vez no colóquio Italia, Portogallo, Brasile: un incontro di storia, lingua e letteratura attraverso i secoli (Roma, Università Roma 3, 24-25 de maio de 2012), tendo sido publicado nas actas do colóquio, organizadas por Sónia Netto Salomão, Giorgio de marchis e Simone Celani (Roma, Nuova Cultura, 2014). «Sophia e Pascoaes. Um encontro na paisagem» foi apresentado em Pisa, por ocasião do colóquio Giochi di specchi. Modelli, tradizioni, contaminazioni e dinamiche interculturali nei e tra i paesi di lingua portoghese (29-31 de Outubro de 2014), tendo sido publicado nas actas, organizadas por Valeria Tocco e monica lupetti (Pisa, ETS, 2016). «a “velhinha janela”. adília, Sophia e Pascoaes» foi apresentado no colóquio internacional NEWW Conference: Centennial of Cláudia de Campos (1859-1916) (lisboa, Biblioteca Nacional de Portugal, 24-26 de Novembro de 2016). Finalmente, «Exemplaridade ii. Vida e escrita» foi apresentado, com o título «modalidades do conto na obra de Sophia de mello Breyner andresen», no congresso internacional O Conto: O Cânone e as Margens (Universidade de aveiro, 17-19 de Outubro de 2017) e foi publicado na revista Forma Breve (n.º 14, 2017) dirigida por antónio manuel Ferreira.
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