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CÂMARA MUNICIPAL DE LISBOA
CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO DA EGEAC
ATELIER-MUSEU JÚLIO POMAR
vereadora da cultura Catarina Vaz Pinto
Joana Gomes Cardoso Lucinda Lopes Manuel Veiga
directora | curadora Sara Antónia Matos adjunta de direcção Graça Rodrigues Pedro Faro (Adj. Direcção Artística) conservação e produção Sara Antónia Matos Graça Rodrigues Pedro Faro Hugo Dinis Joana Batel comunicação Graça Rodrigues assessoria de imprensa Pedro Faro Hugo Dinis investigação Sara Antónia Matos Pedro Faro Hugo Dinis coordenação editorial Sara Antónia Matos serviços administrativos Isabel Marques Teresa Cardoso
apoio / parceria
serviço educativo Ana Gonçalves Joana Batel Teresa Cardoso Atelier-Museu Júlio Pomar | EGEAC Rua do Vale, 7 1200-472 Lisboa, Portugal Tel + 351 215 880 793
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Alexandre Melo CÚMPLICE DOS ARTISTAS
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Alexandre Melo CÚMPLICE DOS ARTISTAS conversas com Sara Antónia Matos e Pedro Faro
Seguido de uma conversa com João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira — Rádio Quântica —
DOCUMENTA CADERNOS DO ATELIER-MUSEU JÚLIO POMAR
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ÍNDICE
Introdução, Sara Antónia Matos . . . . . . . . . . . . . .
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Conversas com Sara Antónia Matos e Pedro Faro [2016-2017] . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Lua cheia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Lua cheia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Lua nova . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Quarto minguante. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Quarto minguante. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Lua nova . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Lua cheia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Lua cheia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
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Conversa com João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira, Outubro 2017 . . . . . . . . . . . . 161
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INTRODUÇÃO
Sara Antónia Matos [Directora do Atelier-Museu Júlio Pomar]
Alexandre Melo: Cúmplice dos artistas, Conversas com Sara Antónia Matos e Pedro Faro insere-se na colecção Cadernos do Atelier-Museu Júlio Pomar e dá seguimento ao projecto de entrevistas que se iniciou com Júlio Pomar: O Artista fala… [2014], continuou com Rui Chafes: Sob a pele [2015], Julião Sarmento: O Artista como ele é [2016] e Cabrita Reis: A voragem do mundo [2017]. As entrevistas são feitas por ocasião do programa de exposições do Atelier-Museu, que cruza a obra do pintor com artistas convidados, mostrando novas relações daquele com a contemporaneidade. Periodicamente, durante a investigação conducente às exposições, as conversas vão acontecendo, ora nos ateliers dos artistas, ora no museu, gerando-se um corpo de diálogos espaçados no tempo, que permite o leitor acompanhar e desvendar o processo de preparação da exposição, desde a sua concepção até às opções de montagem e materialização. Porém, desta vez, para a exposição «Táwapayêra», que reunia obras de Júlio Pomar, Igor Jesus, Tiago Alexandre
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e Dealmeida Esilva, comissariados por Alexandre Melo, achou-se por bem dialogar com o curador e não com os artistas que o mesmo tinha escolhido. Esta opção prendeu-se essencialmente com duas razões. A primeira, com o facto de estas entrevistas, que ambicionam ter alguma profundidade, versarem autores com longa experiência profissional — algo que os três artistas emergentes ainda não têm — assim permitindo não só dar a entender aspectos das suas práticas artísticas e profissionais, mas também as transformações que o contexto histórico foi sofrendo ao longo dos trajectos dos autores. O segundo aspecto, de ordem prática, prende-se com o facto de serem três artistas, em vez de um, sendo por isso mais difícil estabelecer a confiança, a intimidade e a cumplicidade necessárias às conversas de fundo, que se estendem por almoços e tardes, sem tempo limitado. As conversas com Alexandre Melo entre 2016 e 2017, pretendiam dar a conhecer o percurso do autor e, através do seu exemplo, o modo como se desenvolveu a crítica da arte e se instituiu o sistema de legitimação em Portugal, para o qual ele contribuiu decisivamente, em particular nos anos oitenta — período em que a crítica e o sistema propriamente ditos eram quase inexistentes. É, aliás, sobre isso, e sobre as inúmeras reflexões que foi fazendo ao longo das décadas, que tratam os livros que publicou — resultado nítido dos seus conhecimentos (e formação) no âm-
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bito da economia e das ciências sociais, particularmente a sociologia. O cruzamento destes campos epistemológicos, bem como a sua experiência de docente na Universidade, associados à prática concreta de trabalho directo com os artistas, com as instituições e com os múltiplos agentes do meio, confere a este autor uma amplitude de visão que provavelmente estará na base da sua abertura ético-moral e da sua liberdade crítica, por vezes corrosiva. Assim, a entrevista, em vez de dar a conhecer mais um artista e os fundamentos que regem a sua obra, virou-se agora para outro profissional do meio, também ele autor, incontornável pela clareza do seu discurso e pelo impulso que trouxe ao sistema artístico. Alexandre Melo, crítico e curador, com um percurso internacional reconhecido, deixa compreender as vicissitudes do universo artístico e institucional e o modo como as formas de legitimação se exerceram. Uma vez que os vários diálogos aconteceram, todos eles, antes da inauguração da exposição, o diálogo sobre as motivações inerentes à concepção e realização de Táwapayêra aconteceu sobretudo no programa Bregas — Rádio Quântica, de João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira, posteriormente transcrito e editado para se adaptar a esta publicação. Agradece-se aos dois artistas a permissão e a disponibilidade para integrar este diálogo informal no final deste livro.
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Da minha parte, resta dizer que se há pessoas com quem gostamos de conversar e debater ideias, há também aquelas que vale a pena ficar só a ouvir. É o exemplo de Alexandre Melo, com quem se aprende ficando só a escutar. Não foi o caso, mas poderia ter sido. A verdade é que na discussão de qualquer ideia, na problematização de qualquer questão, trazendo à colação qualquer autor, da filosofia ao pensamento estético, passando naturalmente pelos artistas, não me lembro de nenhum assunto ou referência que Alexandre Melo não conhecesse, em profundidade, permitindo-lhe rebater ou ir mais longe do que eu e Pedro Faro em qualquer argumento. Como se verá ao longo das páginas que se seguem, as conversas abrangeram questões relativas à vida pessoal, ao percurso profissional e aos posicionamentos ideológicos do autor, tendo este falado sempre sem reservas, fosse em relação aos assuntos perante os quais mostra mais convicção, fosse relativamente àqueles que lhe oferecem algumas dúvidas. A ambição das entrevistas passa também por essas oscilações, crenças e motivações pessoais, mostrando através da voz própria que cada autor tem um percurso singular e uma função no meio insubstituível. O Atelier-Museu Júlio Pomar agradece a disponibilidade de Alexandre Melo, não só para a realização desta entrevista mas também para a exposição que acompanhou e construiu com os artistas passo a passo.
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conversas com Sara AntĂłnia Matos e Pedro Faro
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Lua cheia
Há tempos, numa conversa não registada consigo, referia que se o Trump ganhasse as eleições nos Estados Unidos, como acabou por ganhar, talvez isso pudesse vir a ter algumas consequências mais interessantes do que se poderia imaginar. Eu já calculava que ele poderia ganhar. Expliquemo-nos. Este ano [2017] editei dois livros. Um deles, decorrente da minha tese de mestrado, realizada há cerca de vinte anos, é sobre a crise económica. Aliás, o livro chama-se Triunfo da Crise Económica, e explica por que razão a análise (que fiz há vinte anos) sobre os paradigmas do pensamento económico ainda tem actualidade. Dois dos principais aspectos, ou razões, que são referidos naquela análise tornaram-se ainda mais evidentes no presente. O primeiro é que a matematização ou o aperfeiçoamento dos modelos matematizados de análise económica não serve para nada de fundamental. Serve questões técnicas, de detalhe, mas não resolve as questões de fundo, ou seja, a questão das crises, da fome, da pobreza, etc. O outro aspecto é que todas as análises económicas subestimam
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as questões ideológicas, até porque não conseguem, não têm meios teóricos nem metodológicos para as integrar. Nesse contexto, dou exactamente o exemplo de Trump. Trauma e obsessão. Há questões básicas relativas aos valores culturais e à noção de «identidade americana» de vastos sectores da sociedade e dos pobres americanos que a por lá chamada «esquerda» continua a ter dificuldade em compreender. Por isso Obama teve uma enorme derrota nas intercalares, Hillary perdeu as eleições sem perceber como nem porquê e Trump assegurou o apoio incondicional de 1/3 do eleitorado. E este tipo de incompreensão, como se vai vendo por essa Europa fora, não é exclusivo dos Estados Unidos. Para complicar as coisas é engraçado observar as amplas zonas de concordância entre Trump, a extrema-esquerda (pseudocomunista) e a extrema-direita (pós-neofascista) europeias (em vias de união, por exemplo, na Itália): contra a união europeia (e a Nato…), contra o «comércio livre» e contra o «globalismo», a besta negra de todos eles, nesse ponto agora liderados por Trump… Estamos a viver um momento muito estimulante que proporciona grandes oportunidades de análise e reflexão a quem quiser e conseguir pensar… A maioria das pessoas que o conhecem não sabe que o Alexandre tem uma licenciatura e um mestrado em Economia e que foi
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professor de Economia durante dez ou quinze anos. Isso dá-lhe uma visão mais ampla também sobre as questões da arte? As questões da arte estão ligadas ao mundo, à sociologia e à globalização. O meu plano editorial para os próximos anos é voltar a publicar as Velocidades Contemporâneas e a Globalização Cultural com textos adicionados, os quais estão mais ou menos escolhidos, mas que ainda não tive tempo de arrumar. O livro Globalização Cultural foi escrito antes do 11 de Setembro. Quando o livro estava a ir para a impressora, mesmo a seguir ao 11 de Setembro, acrescentei-lhe um parágrafo num determinado sítio. Hoje, o meu modo de ver a questão é o mesmo, os princípios e as conclusões serão os mesmos, só que o dispositivo de argumentação é feito ao contrário. Como assim? Na altura, a grande preocupação em relação à globalização era que iria promover uma uniformização, uma homogeneização e uma dominação americana à escala global, e o que aconteceu foi exactamente o contrário. Na verdade, na altura, eu já dizia que as coisas não funcionam assim. A globalização provoca uma homogeneização mas, ao mesmo tempo, também provoca o contrário: fragmentação. Depois de quinze anos de terrorismo radical, é absurdo pensar em termos de uniformização e americanização. A questão que
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se põe é a de saber se, apesar de tudo, há factores susceptíveis de permitirem que as ideias de humanidade, direitos humanos e governação global não sejam completamente abandonadas. Se a curto prazo isso é impossível, não quer dizer que o seja a longo prazo. Portanto, os pressupostos dessa análise que data de há vinte anos, na minha opinião, claro, estão certos. As teses estão certas, só que a argumentação era desenvolvida no sentido de contrariar um aspecto, que agora é evidente que não é inevitável. Não é necessariamente forçoso que a globalização provoque uniformização. Portanto, na reedição do livro, manterei as ideias, as teses. Estava a entrar em bloqueio quanto ao modo como iria reelaborar o texto. Faço outro livro? A dizer a mesma coisa mas com uma argumentação completamente diferente? Então, até para permitir entender essa reelaboração das ideias ao longo do tempo, arranjei uma solução: vou usar dois tipos de letra diferentes e vou comentando, ponto por ponto. É um diálogo consigo mesmo? Mantenho o que estava escrito na íntegra e em paralelo introduzo a perspectiva actual, argumentando que de facto a globalização não provocou uma uniformização. Aliás, hoje em dia, o problema é exactamente o oposto. A globalização provocou uma fragmentação extrema e uma diversificação radical.
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Esse rever de perspectivas envolve uma autocrítica? É uma espécie de metalivro. [Risos] Considero-o apenas uma actualização com base em novos factos, observáveis. Envolve então uma revisão de posições? Não se trata de autocrítica, porque vou sempre dizer que tinha razão. [Risos] Vou explicar e expor os argumentos adequando-os ao tempo actual. Mas as teses estão todas certas. Os contextos mudaram. A tese fundamental sobre esse assunto continua a manter-se: a globalização é um processo dúplice de simultânea homogeneização e diversificação, hegemonização e democratização. Portanto, unificação e diversificação são duas faces da mesma moeda. A tendência para predominar uma ou outra depende dos contextos concretos e da situação histórica e conjuntural em cada sociedade concreta. Isto tanto se aplicava na altura como se aplica agora. Num mesmo tempo, numa mesma temporalidade histórica, podem acontecer as duas coisas? Exactamente. As Primaveras Árabes são exemplo disso. Começam por manifestações de jovens estudantes, com estudos superiores da classe média urbana, que reivindicam
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sociedades democráticas de modelo ocidental. Esse movimento dá origem ao desestabilizar das ditaduras no poder — geralmente militares —, que permitem que os fundamentalistas islâmicos tomem o controlo (porque são eles que têm o apoio da maioria da população mais pobre, do povo da rua). Portanto, temos essa situação extraordinária: manifestações em favor da democratização, desestabilizam as ditaduras, e simultaneamente provocam a ascensão e o triunfo dos fundamentalistas e terroristas. Lembro-me de ouvir um porta-voz de um daqueles grupos derivados da Al-Quaeda, hoje em dia considerados moderados comparados com o Daesh, dizer que o mundo ocidental, ao defender a democracia nos países árabes, leva a que os radicais subam ao poder. Foi o que aconteceu no Egipto, onde ganharam os fundamentalistas, e foi preciso que os militares viessem outra vez tomar o poder, impedindo que um estado terrorista islâmico se instituísse no Egipto. Nos países onde o poder militar não é suficientemente homogéneo para impor uma ditadura, os grupos extremistas destroem os países, como está a acontecer na Síria, no Afeganistão, no Iraque, na Líbia, já para não falar de tantos outros países africanos em ruína como o Iémen, o Congo, o Sudão, a República Centro-Africana, etc. Queremos ler esse livro ou «metalivro».
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Ainda não está finalizado. Tenho outro, já em revisão, que se chama Somos Todos Famosos, que analisa o star system, Andy Warhol, a arte pop, e a formação de Hollywood. Esse livro está na base da sua prova de agregação à Universidade? Sim. Mas ainda não a fiz porque a carga de trabalho burocrático (e inútil) que é exigida é descomunal. Mas ninguém o pode ajudar a fazer isso? Tem de ser uma pessoa com muita paciência, alguém a quem eu dê um caixote para ver o que lá está, com a minha orientação. O essencial tem de ser feito por mim. Mas para o conseguir tenho de dispor de tempo, ver os meus diários desde há mais de trinta anos. Como é que eu tenho tempo para estar a rever quarenta anos de vida? Poderá ser um exercício complexo, até do ponto de vista emocional… Tem outros projectos em curso? Vai comissariar uma exposição nas Galerias Municipais? Sim, no próximo ano, em Janeiro [2017]. É no Palácio Pombal, sob a gestão das Galerias Municipais/EGEAC. Vai ser uma retrospectiva das principais obras de Albert Serra. Haverá uma antestreia na Cinemateca e a estreia comercial da obra A Morte de Luís XIV.
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Em que entra Vasco Araújo? Sim. Há uma cena em que aparece o Vasco a cantar ópera. E vamos fazer, com a Rosa Filmes, uma retrospectiva dos filmes de Serra na Cinemateca. A exposição distribui-se entre a Galeria Graça Brandão — uma performance com duração de uma semana — e o Palácio Pombal, onde se mostram vídeos, e terá inaugurações simultâneas. O projecto chama-se Serra: Roi Soleil. Fomos ao Palácio Pombal ver as salas com Albert Serra. Numa das salas, vamos mostrar um vídeo novo, relacionado com a ideia de Roi Soleil, ou seja, fazendo a articulação directa com o que acontece na galeria. Na sala rectangular maior, do Palácio Pombal, apresenta-se o Singularity (2015), projecção que esteve no Pavilhão da Catalunha, na Bienal de Veneza, com cinco ecrãs em simultâneo. Na outra sala ao lado, vai mostrar-se o filme Els tres porquets [The Three Little Pigs] (2012) de 100 horas, que ele apresentou na Documenta 13, em Kassel. E agora o Serra resolveu que quer mostrar ainda outro filme, praticamente desconhecido: Los nombres de Cristo (2010). Tudo será feito em colaboração com o produtor de Albert Serra cá em Portugal, a Rosa Filmes de Joaquim Sapinho, que já está em contacto com a equipa das Galerias Municipais para saber dos projectores existentes, dos ecrãs disponíveis, etc. O Serra achou o espaço maravilhoso e pôs toda a sua obra ao
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conversa com João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira [Texto editado para esta publicação]
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«Meu coração é brega» (2015) Fafá de Belém
Boa noite. Bem-vindos a mais um Bregas na Rádio Quântica. Eu sou o João Pedro Vale, estou com Nuno Alexandre Ferreira, e hoje temos o mui ilustre convidado Alexandre Melo. Olá, boa noite. Olá, Alexandre. Obrigado por teres vindo. Como temos muitas músicas vamos pôr mais uma e já voltamos à conversa. «O Ritmo é de Boi» (2014) Associação Folclórica Boi-Bumbá Caprichoso
Alexandre, conta-nos que música é esta. Ao fazê-lo vamos chegar, calculo eu, à exposição que inaugura no próximo sábado [28 de Outubro de 2017] no Atelier-Museu Júlio Pomar, em Lisboa. Muito boa noite. Tenho muito gosto em estar aqui. Fico muito contente por me terem convidado para estarmos na Rádio Quântia a conversar. Nós é que estamos muito honrados com a tua presença.
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Esta música diz o essencial, «O Ritmo é de Boi». O boi é um tipo de música próprio do Amazonas, no Brasil, e próprio do Festival Folclórico de Parintins — uma das principais fontes motivadoras da ideia da exposição «Táwapayêra». O Festival Folclórico de Parintins realiza-se todos os anos no último fim-de-semana de Junho. Parintins é uma ilha maravilhosa no meio do rio Amazonas, mais ou menos a meio caminho entre Manaus e Belém, que são respectivamente as capitais do estado do Amazonas e do estado do Pará, no norte do Brasil, na Amazónia brasileira. No último fim-de-semana de Junho de cada ano há este festival que é uma das experiências mais entusiasmantes e mais apaixonantes que eu vivi nos últimos anos em termos de cultura popular. Depois podemos falar se é cultura popular de massas, se é cultura popular … De arroz, feijão… Tradicional… ou de tacácá, ou tucumã, ou de xis-caboclinho, ou de quicão. Como deves calcular, não temos conversa para esses termos; não somos conhecedores tão profundos da cultura cabocla quanto tu. Podemos ir continuando e chegaremos a estes detalhes alimentares mais para a frente. O Festival de Parintis
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são três noites e tudo se passa numa arena que se chama bumbódromo, porque o boi é o boi-bumbá. A arena estaria a meio caminho entre uma arena, no sentido que nós conhecemos, e um estádio de futebol. Só que em vez de ter uma forma circular, rectangular ou mesmo oval, tem a forma de uma cabeça de boi. Com os chifres… O que é uma originalidade que depois também tem consequências na forma de apresentação do espectáculo, porque o espectáculo tem de obedecer, como é lógico, aos limites físicos da tal arena. Há uma série de movimentos e alegorias, isto é, elementos decorativos que são utilizados no espectáculo que têm de se conformar com as dimensões da arena, na largura mas também na altura. Voltando ao essencial, o espectáculo são seis horas por noite, durante três noites consecutivas. Cada um dos bois compete na arena. Há dois bois — o Boi Caprichoso e o Boi Garantido — sendo que eu sou sócio, associado e torcedor do Boi Caprichoso. Sim, que é azul e branco. Reparei, quando estava a pesquisar as músicas, que o Boi Garantido usa as cores branco e vermelho. Sendo assim, porque é que o Alexandre não é torcedor do Boi Garantido, que tem o branco e o vermelho do Benfica?
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De facto, está em contradição com a minha ideologia futebolística, mas tratava-se de um contexto diferente. Uma pessoa, que tem bastante influência sobre mim, convenceu-me a ser torcedor do Boi Caprichoso. E como eu não quis contrariar essa pessoa sou agora membro e sócio da Associação Cultural do Boi Caprichoso. E ser «garantido» também é uma grande chatice, não? Acho mais giro ser «caprichoso» que «garantido». «Ser garantido» dá uma ideia de estabilidade e de imobilismo que não entusiasma. O festival é uma competição entre as duas associações? É uma competição no sentido em que em cada noite cada um dos bois (é assim que se diz) apresenta duas horas e meia de espectáculo inédito. Mas o espectáculo repete todas as noites? Não. São três espectáculos diferentes. Na verdade, são seis espectáculos diferentes em que quase todas as músicas, letras, coreografias e elementos cénicos são inéditos. De vez em quando, fazem umas revisitações, mas no essencial é tudo novo. Significa que em três dias há quinze horas de espectáculo inédito. Aliás, as duas associações trabalham nisto o ano inteiro.
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Ficámos abismados com a quantidade de pessoas, com a imponência de tudo aquilo, das figuras que vêm dos céus e que pudemos pesquisar no Youtube em Boi Caprichoso, porque não queremos saber do outro boi! [Risos] Há espectáculos inteiros gravados. O engraçado é que, por um lado, se conseguem ver os shows na totalidade, o que dá uma imagem daquela grandiosidade; por outro, encontram-se os vídeos que os organizadores divulgam para que as pessoas saibam as coreografias, para que as pessoas façam parte dos rituais. Depois, pelo que percebemos, todos os anos é lançado um DVD com o espectáculo desse ano. Embora as pessoas não nos estejam a ver, aqui na Rádio Quântica, quando estava a dar a música «O Ritmo é de Boi», nós estávamos a dançar e a fazer as coreografias que já aprendemos. Nas próximas músicas também vamos estar a dançar, mas isso os ouvintes só vão ver se virem nos nossos stories do Instagram, passe a publicidade. Ou, então, se forem à inauguração da exposição, no sábado dia 28, a partir das cinco da tarde, no Atelier-Museu Júlio Pomar. Já lá chegaremos. Hoje é segunda-feira, as pessoas podem ouvir as músicas… E ensaiar até sábado. Só têm quatro dias. É muito fácil aprender as coreografias porque no Youtube aparece o show completo, diferenciado por anos, com as músicas e o
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vídeo das coreografias, que não são muito complicadas. Está-se à espera de um ritmo muito frenético, estilo samba, uma coisa carnavalesca, mas é muito mais lento. É quase dança contemporânea. A questão da velocidade, quer da música quer da execução das coreografias, é uma das questões que se põem a propósito do balanço entre a tradição e a renovação, um debate permanente dos responsáveis pelos bois. Aliás, conforme estavam a dizer há pouco, em termos das pessoas mobilizadas, praticamente metade da população da ilha de Parintins trabalha directa ou indirectamente para o boi e a economia local, toda ela, recebe o impacto do festival. A quantidade de turistas que vão a Parintins na altura do festival, praticamente triplica a população local. Portanto, além do impacto económico, é importante o facto de toda a população estar envolvida trabalhando para as várias componentes: as músicas, a dança, a comunicação, a criação dos tais elementos cénicos, a que eles chamam «alegorias», e de uma forma ainda mais aliciante em termos socioculturais, enquanto «torcedores». A clivagem entre o Caprichoso e o Garantido atravessa toda a vida social da ilha. Ao ponto de, por exemplo, a ilha estar dividida ao meio geograficamente e, de um lado, é o território do Garantido e, do outro, o do Caprichoso. E não é possível fazer uma decoração, ou uma pintura exterior, ostensivamente vermelha do lado do Caprichoso, nem azul do lado do
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ÚLTIMOS LIVROS CADERNOS DO ATELIER-MUSEU JÚLIO POMAR DOCUMENTA
Caveiras, Casas, Pedras e uma Figueira Júlio Pomar, Álvaro Siza Vieira, Luís Noronha da Costa, Fernando Lanhas Textos de Sara Antónia Matos, Delfim Sardo Notas Sobre uma Arte Útil — Parte escrita I (1942-1960) Júlio Pomar Edição de Sara Antónia Matos, Pedro Faro Da Cegueira dos Pintores — Parte escrita II (1985) Júlio Pomar Tradução de Pedro Tamen Introdução de Sara Antónia Matos / Organização de Pedro Faro Tratado dos Olhos Júlio Pomar Textos de Sara Antónia Matos, Paulo Pires do Vale, Catarina Rosendo Temas e Variações — Parte escrita III (1968-2013) Júlio Pomar Apresentação e organização de Sara Antónia Matos, Pedro Faro O Artista Fala… Conversas com Sara Antónia Matos e Pedro Faro Júlio Pomar, Sara Antónia Matos, Pedro Faro Fotografias de Luísa Ferreira Incandescência — Cézanne e a pintura Tomás Maia Apresentação de Sara Antónia Matos Edição & Utopia — Obra gráfica de Júlio Pomar Textos de Sara Antónia Matos, Maria Teresa Cruz, Pedro Faro Júlio Pomar e Rui Chafes: Desenhar Textos de Sara Antónia Matos, João Barrento, Maria João Mayer Branco
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Rui Chafes: Sob a pele. Conversas com Sara Antónia Matos Rui Chafes, Sara Antónia Matos Prémio de Curadoria 2015 — AMJP/EGEAC Projecto curatorial de Maria do Mar Fazenda, Vários artistas Textos de Sara Antónia Matos, Maria do Mar Fazenda Decorativo, Apenas? — Júlio Pomar e a integração das artes Organização de Sara Antónia Matos Textos de Júlio Pomar, Sara Antónia Matos, Catarina Rosendo O Museu como Veículo de Desenvolvimento Crítico e Social Organização de Sara Antónia Matos Textos de Sara Antónia Matos, Liliana Coutinho Fotografias de Teresa Santos Julião Sarmento: O Artista como ele é. Conversas com Sara Antónia Matos e Pedro Faro Julião Sarmento, Sara Antónia Matos, Pedro Faro Void*: Júlio Pomar & Julião Sarmento, Vol. I Textos de Sara Antónia Matos, Alexandre Melo, Pedro Faro Void*: Julião Sarmento — Dirt, Vol. II Textos de Sara Antónia Matos, Alexandre Melo, Pedro Faro Void*: Júlio Pomar — Obras destruídas, Vol. III Textos de Sara Antónia Matos, Alexandre Melo, Alexandre Pomar, Pedro Faro Estranhos Dias Recentes de um Tempo Menos Feliz Prémio de Curadoria 2016 — AMJP/EGEAC Projecto curatorial de Hugo Dinis, Vários artistas Organização de Hugo Dinis Textos de Sara Antónia Matos, Hugo Dinis, José Neves, Carmo Sousa Lima, Alexandre Quintanilha, Miguel Vale de Almeida, Tiago Castela Júlio Pomar e Cabrita Reis — Das pequenas coisas Júlio Pomar, Cabrita Reis Texto de Sara Antónia Matos Cabrita Reis: A voragem do mundo. Conversas com Sara Antónia Matos e Pedro Faro Cabrita Reis, Sara Antónia Matos, Pedro Faro Táwapayêra Dealmeida Esilva, Igor Jesus, Júlio Pomar, Tiago Alexandre Textos de Alexandre Melo, Pedro Faro, Sara Antónia Matos Júlio Pomar — O pintor no tempo Irene Flunser Pimentel
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© Atelier-Museu Júlio Pomar / Sistema Solar, Crl (Documenta), 2018 Textos © Sara Antónia Matos, Pedro Faro, Alexandre Melo, João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira 1.ª Edição, Outubro de 2018 ISBN 978-989-8902-43-6 colecção Cadernos do Atelier-Museu Júlio Pomar apresentação Sara Antónia Matos e d ição d e te x to Sara Antónia Matos Alexandre Melo Pedro Faro transcrições Hugo Dinis Pedro Faro design gráfico Manuel Rosa revisão Helena Roldão depósito legal 447337/18 impressão e acabamento Tipografia Lessa Pta dos Mogos, 157 – Zona Industrial de Vermoim 4470-343 Maia
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