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D.H. Lawrence, A Mulher Que Fugiu a Cavalo

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tradução e apresentação de

Aníbal Fernandes

Os homens deveriam juntar-se sob o signo novo De homens solares E todos voltariam o seu peito Para o sol supremo centro de todas as coisas, E do fundo do seu pequeno sol interior Inclinar-se-iam Perante o grande poder.

D.H. Lawrence A MULHER QUE FUGIU A CAVALO

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D.H. Lawrence

A MULHER QUE FUGIU A CAVALO

tradução e apresentação de

Aníbal Fernandes

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TÍTULO DO ORIGINAL: THE WOMAN WHO RODE AWAY

© SISTEMA SOLAR, CRL RUA PASSOS MANUEL, 67B, 1150-258 LISBOA tradução © ANÍBAL FERNANDES NA CAPA: ESCULTURA MEXICANA PRÉ-HISPÂNICA 1.ª EDIÇÃO, MARÇO 2013 ISBN 978-989-8566-24-9

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Eastwood onde nasceu, e ao lado Nottingham onde estudou, são daquela Inglaterra triste e quase esquecida pelo sol; com pós de carvão e ferro que então se escapavam das minas e pousavam em tudo o que não fosse varrido pelo sopro do vento salvador. Temos estas fealdades numa página de Lady Chatterley’s Lover: «As casas de tijolo enegrecido, os telhados de ardósia preta, íngremes e luzidios, a lama negra do carvão, os pavimentos húmidos e escuros. Parecia que a tristeza tinha impregnado tudo. Nada é mais terrível do que esta negação completa de toda a beleza natural, esta perfeita negação de toda a alegria de viver, esta total ausência do instinto da beleza que nem sequer possui um pássaro ou mesmo outro animal, esta morte consumada de toda a faculdade de intuição humana.» Anos mais tarde Graham Greene seria categórico e rápido no romance A Gun for Sale: Nottingham é «sinistra». D.H. Lawrence, o quarto dos cinco filhos do mineiro Arthur Lawrence, nasceu sensível a estes rigores de clima e de 7

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vida. O seu relato autobiográfico relembra o «menino pálido e franzino com o nariz entupido, que a maior parte das pessoas tratava com o carinho que se dá a todos os miúdos com ar delicado.» Às duas semanas de idade D.H. teve uma bronquite; e depois gripes; e depois pneumonias; tudo o que preparava campo à tuberculose e à primeira hemoptise de 1913. Em 1913 — ele com vinte e oito anos e já autor de poemas e dos romances The White Peacock e The Trespasser, a um ano de se casar com Frieda (farta do barão Von Richtofen e ansiosa por abrir a asa que daria protecção a um intelectual; melhor ainda, a um intelectual carente de protecção feminina) — teve um sério anúncio de vida curta e o aviso de que estaria destinado a uma saúde pouco favorecida pelo nevoeiro inglês. Nestes séculos de tuberculose como sentença de morte, a medicina britânica incitava os seus tísicos à emigração. Fê-lo com reconhecidos escritores. Se as irmãs Brontë morreram a ouvir os ventos do Yorkshire por nenhuns meios lhes sobrarem para uma extravagância de ares longínquos, em 1754 Henry Fielding tinha vindo morrer a Lisboa (sem conseguir chegar ao seu destino, que era o Funchal), em 1894 Robert Louis Stevenson acabava sob o sol de Samoa; e anos mais tarde Katherine Mansfield iria para aquele sul de França que só lhe deu vida até 1923. D.H. Lawrence, esse, hesitou. Os sin8

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tomas agravavam-se e ele continuava na Inglaterra, ou a fazer viagens por uma Europa não muito melhor para os seus pulmões. Em 1916, quando o seu mal dava avisos alarmantes, ainda andou por uma enevoada Cornualha; só em 1919 se decidiu por Capri e Taormina, só em 1922 experimentou Ceilão e a Austrália; e só em 1923 foi parar ao sol quente do Novo México, depois de se demorar em Nova Iorque, Tahiti e São Francisco. Com o Novo México D.H. Lawrence chegava, enfim, à terra do Sol. «Penso que o Novo México foi a mais bela experiência do mundo exterior que alguma vez fiz», disse à revista Phœnix. «Não tenho dúvidas de que irá transformar-me para sempre. […] Na manhã magnífica e triunfante do Novo México tomo súbita consciência de que uma parte nova da alma desperta e o velho mundo cede o passo ao novo.» Lawrence estava em terras de sol quente sobre a pele mas também do Sol dos índios, esse que confere ao homem um poder abstracto mas profundo, o que estaria presente em duas obras suas, o extenso romance The Plumed Serpent e a ficção curta A Mulher que Fugiu a Cavalo. A sua relação com os índios do México nunca passou pela sedução exótica nem pela vertigem romântica. O «bom selvagem» de Jean-Jacques Rousseau andou sempre longe da 9

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sua fascinada admiração. Numa carta de 25 de Outubro de 1923 a John Middleton Murry lemo-lo a enunciar o difícil, senão impossível, apaziguamento entre duas civilizações no seu essencial antagónicas: «Têm de atar-se os dois extremos da corda que se partiu. […] Uma mão estendida no espaço não chega. É preciso outra, do extremo oposto, para se dar o aperto das mãos. A mão escura e a mão do homem branco. Pero todavia no. No alcanzan. Todavia no alcanzan. No tocan. Se debe esperar.» O escritor sentiu-se tentado a exprimir o antagonismo entre o mundo anglo-saxónico e o mexicano. Os índios perturbavam-no com a sua estranheza e a sua aspereza, e reconhecia-lhes o mérito de terem conservado misteriosos laços com o universo. Queria encontrar-se literariamente com esse povo que ele via a fazer da dança uma disciplina capaz de lhe aumentar o poder sobre as forças vivas da terra; que tinha sabido conservar o primitivismo indissociável do homem obediente aos seus instintos, e que tinha por mais importante ser do que saber. E ele teria, neste programa, de construir personagens decididas a levar até ao fim experiências de vida exteriores aos círculos fatais da civilização europeia. Escreveu com esta veia o romance The Plumed Serpent (nem sempre logrado, como lhe aconteceu nas ficções muito extensas) e a excelente história curta The Woman who 10

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Rode Away, com a mulher entregue em sacrifício ao poder do sol índio, mas oportunidade de a instalar num pólo oposto ao de outras ficções onde o corpo masculino de outra raça é utilizado para excitar um grande público consumidor de ilusões. No texto «Pornography and Obscenity» Lawrence insurge-se contra a pornografia elegante de romances como The Sheik de Edith McHull, onde uma Lady Diana Mayo se vê sequestrada numa tenda do deserto do Sara, fêmea humilhada e sem defesa perante Ahmed Ben Hanan (aliás, para cúmulo de mau romantismo, um conde escocês abandonado em criança e promovido a xeque «civilizado», sem harém). A sua atitude ambígua entre a recusa e o consentimento à violação pelo esplêndido macho bronzeado num isolamento exótico de areia e palmeiras, era a ficção bárbara caucionada pela trama aristocrática e moralizadora; ainda mais excitante por esta lady surgir no cinema agarrada pelos braços fortes de Rudolfo Valentino, o maior sex-symbol dessa época. Pelo contrário, a heroína sem nome de A Mulher que Fugiu a Cavalo seria apenas vítima e mostrada como oposto da «pornografia» de Edith McHull. Entraria na história marcada pela vida sexualmente nula do seu casamento, e entregue aos acasos de um destino onde estaria apenas em 11

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causa o sacrifício como forma de renascer através de uma nova consciência e de um regresso ao estado de pureza original. E, a dominar toda esta história, o Sol. O puritano Lawrence só via as relações entre sexos como resposta a um apelo físico tão básico como os da fome, da sede ou do sono. Enfeitá-lo ou contorná-lo, sobrepondo-lhe outras dimensões, atirava-o para os domínios da pornografia. Lawrence aprovava as histórias com ar saudável que em Boccacio se reduzem à franqueza física; e olhava para uma Jane Eyre de sentidos reticentes perante o senhor de Rochester como bom exemplo de pornografia; ainda mais condenava a reaccionária fantasia sexual da personagem feminina de Edith McHull nos braços do xeque pseudo-árabe, entre palmeiras e na solidão do deserto. A história da mulher que fugiu a cavalo, publicada em livro no ano 1928, surgia na literatura como visão gélida da aventura da mulher branca entre homens de pele escura e expostos ao seu olhar num cúmulo de exuberância física. A mulher branca iria desta vez enfrentá-los com uma absoluta indiferença pelo seu atractivo sexual; e, pelo seu lado, sentir-se-ia apenas vista como objecto assexuado entre homens faustosamente dotados para as relações físicas. Mas esta «afronta» à oportunidade de uma fantasia literária onde interviesse o dirty little secret tão obsessiva12

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mente condenado no seu texto «Pornography and Obscenity», teria como centro uma suprema história de Sol. D.H. Lawrence era um homem fascinado pelo sol. Não apenas por aquele que os médicos lhe apontavam como elemento pacificador da sua tuberculose, mas pelo sol siciliano que em «The Sun» leva Juliet a oferecer-lhe a sua nudez, convencida de que tinha sido por ele eleita e devia conhecê-lo no seu mais amplo sentido carnal e cósmico; ou pelo sol que no seu livro Pansies inspira dois poemas, «Mulheres Solares» e «Homens Solares», explícitos quanto à sua transcendente relação com o astro regenerador: Estranho seria as mulheres darem um passo em frente e dizerem Somos as mulheres solares. Não pertencemos aos homens nem aos nossos filhos nem a nós mesmas Mas ao sol. […] Os homens deveriam juntar-se sob o signo novo De homens solares E todos voltariam o seu peito Para o sol supremo Centro de todas as coisas, 13

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E do fundo do seu pequeno sol interior Inclinar-se-iam Perante o grande poder. […] A mulher que fugiu a cavalo vê-se entre índios que a elegem como sua mensageira solar. Fugida do tédio do casamento para uma aventura que começara envolta «num tolo romantismo, ainda mais irreal do que o existente nas raparigas», acedia à hiperlucidez conferida pelas drogas e, com ela, à complacência perante o seu destino de vítima oferecida a um supremo poder. Porque aqueles índios viviam uma má época da sua história, roubados pelo homem branco no que tinha sido um seu ancestral poder. Dizia-lhes uma crença que a grande força geradora seria obtida com o encontro astronómico do sol e da lua; e que em esplendorosos tempos esta impossível conjunção celeste era indirectamente obtida descendo o sol até ao homem índio, descendo a lua até à mulher índia, para no seu encontro físico e terrestre se multiplicar o Poder. A aparição do homem branco tinha feito o sol e a lua zangarem-se, tornando os encontros físicos do homem índio e da mulher índia estéreis quanto a essa força vital. Mas bastaria o índio mostrar-se capaz de dominar o homem branco, oferecendo a sua mulher ao Sol, para o astro supremo voltar a penetrar no homem índio, a lua voltar a entrar na 14

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mulher índia, e a sua conjugação restituir-lhes a força perdida. Para cenário desta oferenda D.H. Lawrence lembrou-se de uma gruta que visitou num dos seus passeios a cavalo nos arredores de Taos, a região dos índios adoradores do sol; que o tinha impressionado pela cascata à frente da entrada, e que formava durante o Inverno uma gigantesca estalactite de gelo suspensa como um dardo sobrenatural. Bem pôde Lawrence viver em terras de um sol a que ele atribuía poderes revitalizadores. O astro poderoso não soube poupá-lo a uma hemoptise em Taos nem, no ano seguinte, a outra muito mais grave em Oaxaca. O homem que escrevia «este país é muito belo, o seu céu muito perfeito e todos os dias azul e quente, e tem flores que se sucedem numa tão grande rapidez», compreendeu que teria de abandonar estas belezas e regressar à Europa velha e solarmente pobre, mas com uma medicina mais eficiente. Nessa Europa fugiria das névoas inglesas; e havia pouco distantes do seu país as terras quentes da Itália, como Spotorno e Sacandicci, os locais onde mais tempo se fixou. Nenhum agravamento na saúde conseguiu opor grandes restrições ao seu desejo de mobilidade nem à necessidade de se expressar como escritor. Lawrence, que só teria mais quatro anos de vida, ainda viajou debilitado na Itália e não resistiu aos apelos que lhe faziam Palma de Maiorca, Baden-Baden 15

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ou Bandol. E, no que respeita à sua actividade de escritor, ainda conseguiu terminar em 1926 The Plumed Serpent e escrever a peça de teatro David; publicar em 1927 Mornings in Mexico; em 1928 o livro que abre com o conto A Mulher que Fugiu a Cavalo, e Collected Poems, e a terceira e controversa versão do romance The Lady Chatterley’s Lover; em 1929 os poemas de Pansies e «Pornography and Obscenity», o texto onde melhor se revela na sua puritana moralidade. Em 1930 viu-se obrigado a receber cuidados no sanatório de Vence. Mas já era um caso clínico perdido. Foi no dia 2 de Março que olhou para Frieda e, com algum ânimo, lhe disse: «Estou agora a sentir-me melhor»; e que, por ironia do destino, mal acabou de dizê-lo morreu. A.F.

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Tinha-lhe parecido que aquele casamento iria ser, entre todos os casamentos, uma aventura. Não porque encontrasse no homem qualquer coisa de realmente mágico. Um nervoso e retorcido homenzinho vinte anos mais velho do que ela, com olhos castanhos e cabelo a ficar grisalho, que há muito saíra da Holanda e chegara à América como uma insignificante criança abandonada, um rapazinho que fora expulso das minas de ouro do Oeste e atirado para o interior do México, sendo agora mais ou menos rico e proprietário de minas de prata nos ermos da Sierra Madre; nestas circunstâncias residia a aventura, como é óbvio, e não tanto na sua pessoa. Apesar dos acidentes tinha sobrevivido, continuava a ser um pequeno dínamo de energia e, o que tinha feito, fizera-o sozinho. Mas era um destes destroços humanos com os quais se não deve contar. Quando viu o que ele tinha realmente levado a cabo, perdeu a coragem. Grandes, ininterruptas eleva19

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ções montanhosas cobertas por vegetação, e no meio deste isolamento sem vida os rosados e pontiagudos montículos com a lama seca da extracção da prata. Abaixo da nudez das áreas de trabalho, o muro de alvenaria que encerrava a casa de adobe de um só piso com jardim interior e uma varanda larga, revestida de um e outro lados por trepadeiras tropicais. E se estivéssemos neste patio cercado e florido, olhando para o alto veríamos o enorme cone rosado dos detritos lamacentos da prata e as máquinas de extracção contra o céu que por cima delas havia. E mais nada. Bem certo era que os grandes portões de madeira muitas vezes se abriam. E então ela podia ir para fora, para o vasto mundo do ar livre. E ver os admiráveis e desabitados montes revestidos com árvores, uns atrás dos outros empilhados desde o que nada era até ao que nada continuava a ser. Verdes no tempo do Outono. E no resto do tempo rosados, de uma firme dureza, e abstractos. O seu marido levava-a no Ford desconjuntado até à pequena e morta, três vezes morta, cidade espanhola esquecida entre as montanhas. A enorme igreja morta e crestada pelo sol, os portales mortos, o mercado coberto que não tinha dias melhores à vista e onde encontrou, na primeira vez que lá foi, um cão morto no meio dos balcões 20

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da carne e da exposição das hortaliças, como se ali fosse ficar estendido para sempre, sem haver quem se desse ao trabalho de tirá-lo de lá. A morte dentro da morte. Todos falavam desanimadamente da prata, mostrando pedaços de minério. A prata estava num momento de estagnação. A Grande Guerra tinha vindo e tinha partido. A prata era uma mercadoria morta. As minas do seu marido tinham fechado. Mas viviam ambos na casa de adobe abaixo dos estaleiros, entre flores que para ela nunca estavam muito floridas. Tinha dois filhos, um rapaz e uma rapariga. E o rapaz, o mais velho, estava quase com dez anos quando ela despertou do torpor de um submisso atordoamento. Era uma desequilibrada mulher de trinta e três anos de idade, forte, com olhos azuis, que começava a ficar gorda. O seu baixo, tenso, rude e retorcido marido de olhos castanhos tinha cinquenta e três anos e era resistente como um arame, talvez como um arame ainda cheio de energia mas assombrado pela baixa cotação da prata no mercado e pela estranha inacessibilidade da sua mulher. Era um homem de princípios e bom marido. De certo modo apaixonado por ela. Nunca tinha conseguido vencer a fascinada admiração que ela lhe merecia. Embora continuasse, no fundo, um solteirão. Com dez anos de 21

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idade, quando tinha sido atirado para o mundo já era um solteirão. Quando se casou passava dos quarenta e tinha dinheiro suficiente para estar casado. Mas todo o seu capital era de um celibatário. Era dono das suas oficinas, e considerava o casamento como a sua última e mais íntima dessas oficinas. Admirava até mais não poder a sua mulher, admirava-lhe o corpo, tudo o que nela havia. E para ele continuava a ser a mesma californiana de Berkeley, a deslumbrante rapariga dos primeiros dias. Guardava-a como um xeque entre aquelas montanhas de Chihuahua. Tão cioso dela como da sua mina de prata; o que é dizer muito. De facto, com trinta e três anos de idade continuava a ser a rapariga de Berkeley, em tudo menos no físico. O casamento paralisara-lhe misteriosamente a evolução do espírito, tinha sofrido uma paragem radical. Para ela o seu marido nunca tinha sido real, quer sob o ponto de vista mental, quer sob o ponto de vista físico. Apesar da paixão tardia que ele lhe devotava, nunca tinha tido nenhum significado físico. Dominava-a apenas sob o ponto de vista moral, subjugava-a, mantinha-a numa invencível escravidão. Na casa de adobe os anos foram passando uns atrás dos outros, com o pátio soalheiro à volta e dominados de 22

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O Inverno tinha chegado ao vale alto com neve que os dias de sol derretiam, e com noites de uma severa frialdade. Ela continuou a viver numa espécie de desorientação, sentindo que a sua força se esvaía cada vez mais e ficava distante dela, como se a vontade própria a tivesse abandonado. Sentia sempre um mesmo estado de lassidão, confusão e logro, excepto quando a bebida de ervas lhe entorpecia o espírito soltando ao mesmo tempo os sentidos numa espécie de acuidade exacerbada e mística, e fazia-a sentir como era delicioso difundir-se na harmonia das coisas. Com o tempo passou a ser este o único estado de consciência que realmente reconhecia; o da complicada sensação de escorrer para dentro da mais elevada beleza e harmonia das coisas. De facto, podia nessas alturas ouvir através da porta as grandes estrelas que via a falarem no céu por intermédio do seu movimento e do seu brilho, a dizerem coisas perceptíveis ao cosmo enquanto percorriam exemplarmente o seu ondulante caminho, 73

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como se fossem sinos postos no chão do céu, a passarem umas pelas outras e a agruparem-se numa infindável dança, separadas pelos espaços escuros. E em dias frios e nublados podia ouvir no céu a neve a chilrear e a assobiar baixinho como os pássaros que se reúnem no Outono e voam para longe dizendo um adeus repentino à lua invisível e que, saindo às ocultas das planícies do ar, libertam um tranquilizante calor. Ela própria pedia à neve suspensa que caísse dessa elevadíssima atmosfera. Ela própria pedia à lua invisível que deixasse de estar zangada, voltasse a fazer as pazes com o sol invisível, como uma mulher que ao entrar na sua própria casa deixa de se sentir irada. E podia sentir o cheiro das fragâncias da lua que cedia no céu de Inverno ao sol, quando a neve começava a cair com uma fraca e gelidamente perfumada lassidão, quando a paz do sol e a paz da lua voltavam a fundir-se gerando qualquer coisa como uma harmonia. Também tinha consciência da espécie de sombra que pesava sobre os índios do vale, uma desolação profunda e estóica, quase religiosa na sua essência profunda. — Perdemos o nosso poder sobre o sol, e estamos a tentar trazê-lo de volta. Mas ele exaspera-se connosco, e está esquivo como um cavalo em fuga. Temos muito para andar. 74

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Foi o que lhe disse o jovem índio mantendo um olhar fixo e de sentido oculto pousado nela. Como que enfeitiçada, ela respondeu: — Desejo que consigam recuperá-lo. Pela face dele correu um sorriso de triunfo. — Desejas isso? — perguntou. — Desejo — disse ela como inevitável resposta. — Então está bem — disse ele. — Havemos de recuperá-lo. E saiu dali, exultante. Pareceu-lhe que estava a ser arrastada para um qualquer desfecho que não tinha vontade de evitar, embora o considerasse pesado e, para si própria, um terrível fim. Já pouco faltaria para o mês de Dezembro, uma vez que os dias eram pequenos, quando a levaram à presença do ancião, a despojaram das roupas e foi tocada pela ponta dos seus velhos dedos. O velho cacique olhou-a nos olhos com os seus olhos de uma solitária, longínqua e negra penetração, e murmurou-lhe qualquer coisa. — Quer que faças o sinal de paz — traduziu o jovem, mostrando-lhe o que deveria executar. — De paz e despedida dele. 75

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livros publicados

Os génios, seguido de Exemplos, Victor Hugo O senhor de Bougrelon, Jean Lorrain No sentido da noite, Jean Genet Com os loucos, Albert Londres Os manuscritos de Aspern (versão de 1888), Henry James O romance de Tristão e Isolda, Joseph Bédier A freira no subterrâneo, tradução de Camilo Castelo Branco Paul Cézanne, Élie Faure, seguido de O que ele me disse…, Joachim Gasquet David Golder, Irene Nemirowsky As lágrimas de Eros, George Bataille As lojas de canela, Bruno Schulz O mentiroso, Henry James As mamas de Tirésias — drama surrealista em dois actos e um prólogo, Guillaume Apollinaire Amor de Perdição, Camilo Castelo Branco Judeus Errantes, Joseph Roth Porgy e Bess, Dubose Heyward

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REVISÃO: ANTÓNIO LAMPREIA DEPÓSITO LEGAL: 357447/13 IMPRESSO NA GUIDE — ARTES GRÁFICAS, LDA. RUA HERÓIS DE CHAIMITE, 14 ODIVELAS

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D.H. Lawrence A MULHER QUE FUGIU A CAVALO

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