P_Bernard Williams_A Ética e os limites da filosofia.qxp:arte 20/10/17 19:07 Page 24
exemplo, ou autocontrolo. Essas são, no entanto, virtudes, porque constituem traços de carácter, e não visam a prossecução de outros objectivos, como é a simples posse de uma aptidão. Segundo Sócrates, as virtudes não podem ser utilizadas de forma inadequada; e afirmava algo de ainda mais radical, a saber, que é impossível aos indivíduos, porque possuem uma certa virtude, agir pior do que se não a possuíssem. Isto levou-o, de forma consistente, a pensar que existia, no fundo, apenas uma virtude, o poder do recto juízo. Não precisamos de o seguir aqui. Mais importante ainda, não devemos segui-lo no que motiva essas ideias, que é a busca de algo na vida de um indivíduo que pode ser incondicionalmente bom, bom sob todas as circunstâncias possíveis. Essa busca tem também as suas expressões modernas, e encontraremos uma delas nas preocupações especiais da moralidade. A noção de virtude é tradicional na filosofia moral, mas desapareceu da discussão por algum tempo. Em trabalhos recentes, vários autores realçaram justamente a sua importância7. Se um indivíduo possuir uma determinada virtude, então esta influencia o modo como ele delibera. Temos, no entanto, de ser claros acerca dos modos como ela pode afectar a deliberação. Um ponto importante é que o próprio termo «virtude» não ocorre habitualmente no conteúdo da deliberação. Alguém que possua uma determinada virtude executa acções porque estas se incluem em certas descrições, e evita outras porque se inscrevem noutras descrições. Essa pessoa é descrita em termos da virtude, e o mesmo se passa com as suas acções: ele ou ela é então uma pessoa justa ou corajosa, que pratica acções justas e corajosas. Mas – e aqui está o cerne da questão – é raro que a descrição aplicada ao agente e à acção seja a mesma em cujos termos o agente escolhe a acção. «Justo» é, de facto, um desses casos, um 7 P. T. Geach, The Virtues: The Stanton Lectures, 1973–74 (New York: Cambridge University Press, 1977); Philippa Foot, Virtues and Vices (Berkeley: niversity of California Press, 1978); James D. Wallace, Virtues and Vices (Ithaca: Cornell University Press, 1978); MacIntyre, After Virtue. As razões para a negligência residem sobretudo numa visão limitada dos interesses éticos e numa concentração nas preocupações da moralidade; porventura, o estudo das virtudes colou-se também às pressuposições religiosas (presentes de modo enfático no trabalho de Geash). Existe uma objecção, que se há-de levar a sério, à ideia de virtude, a saber, que ela precisa da noção de carácter, e que é uma noção que, para nós, já não faz nenhum, ou quase nenhum, sentido. Toco nesta questão no Pós-escrito. Creio que a objecção, se for desenvolvida, é uma objecção ao próprio pensamento ético, mais do que ao modo de o orientar.
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Bernard Williams