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J.-H. Rosny Aîné, «A Morte da Terra»

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J.-H. Rosny Aîné

A moRte dA teRRA tradução e apresentação

Aníbal Fernandes


tÍtULo do oRIGINAL: LA MORT De LA TeRRe

© SIStemA SoLAR, CRL (2019) RUA PASSoS mANUeL, 67B, 1150-258 LISBoA tradução © ANÍBAL FeRNANdeS NA CAPA: vINCeNt vAN GoGH, CRâneO, 1887 RevISÃo: dIoGo FeRReIRA 1.ª edIÇÃo, dezemBRo 2019 ISBN 978-989-9006-12-6 ————— dePÓSIto LeGAL 465671/19 eSte LIvRo FoI ImPReSSo NA eURoPReSS RUA JoÃo SARAIvA, 10 A 1700-249 LISBoA PoRtUGAL


Belgas, irmãos com três anos de diferença nas idades, mostraram-se na literatura como um escritor que saía de duas penas, de duas faces, e se propunha ao público sob o falso nome de Rosny. O outro, o verdadeiro, era um Boex muito flamengo que se acrescentava no mais velho a Joseph-Henri e no mais novo a Séraphin-Justin-François. A sua literatura — que ia ser em francês — ganharia se não propusesse aos intelectuais de Paris um nome de sonoridades difíceis, se não os incomodasse com a pergunta: «Como é que isto se pronuncia?» Joseph-Henri, que tinha em tempos feito uma viagem a Rosny-sous-Bois e sentira esse Rosny cair-lhe simpaticamente no ouvido, alvitrou que o mau Boex se anulasse com o bom Rosny; e, desta fusão literária com nome falso, conhecemos hoje uma frase de Georges Rodenbach: «O irmãos Rosny são um grande escritor.» Joseph-Henri Boex não saiu da Bélgica (país-subúrbio) para entrar de imediato na literatura. esteve em Bordéus, onde estudou ciências e matemáticas; e em 1874, com dezoito anos de idade mudou-se para Londres; nove anos britânicos que lhe deram a oportunidade de um primeiro casamento e de ganhar as raízes do que viria a ser uma admirada erudição. no entanto, este jovem Boex com aparências que só pareciam agarrá-lo à imagem do cientista, bem mais sonhava literaturas e a ver-se impresso em letra de forma; sentia-se a navegar por histórias com palavras


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francesas que só teriam — hélas — destino de expatriadas e de maldição-off num mundo de ingleses e de editoras inglesas. Tudo isto o levou, em novembro de 1883, a instalar-se em Paris, onde o seu irmão Séraphin-Justin-François desde há anos executava, entediado, trabalhos de baixo administrativo num ministério francês. em 1886, Joseph-Henri realizou o seu sonho e surgiu como escritor; como romancista de um Nell Horn de l’armée du Salut que o enfileirava sem nenhuma hipótese de dúvida entre os naturalistas «à Zola» — o Zola que nesses dias o influenciava com as seduções de uma convivência próxima e cheia de argumentações de «escola». Séraphin, pelo seu lado, decidiu abandonar os detestáveis trabalhos de funcionário e combinou com o seu irmão que construíssem, apaixonados como ambos estavam pela literatura, uma parceria literária em ruptura com «naturalismos» que nunca dariam promissoras respostas, saídos de personalidades como as suas. As parcerias literárias mostravam-se nessa época com exemplos animadores. Os Irmãos Goncourt conseguiam chegar a um prestígio de letras altas enfeitando-as com um naturalismo de gramática competente e subtis sensualidades; os erckmann-Chatrian enviavam da Lorena novelas fantásticas escritas a quatro mãos, e até conseguiam inventar um dos lobisomens destinados a ficar entre os mais célebres da literatura. Os irmãos Rosny, esses, trilhariam caminhos diferentes; assinariam em parceria novelas tocadas por imaginações desdenhadas pelos «mais sérios nomes da literatura», muitas a iniciarem o género a que ainda se não tinha dado o nome de ficção-científica. Durante vinte e um anos, os Rosny surgiram como se houvesse nos seus livros o incontestável equilíbrio de um talento duplo.


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Mas já havia desconfianças. embora Joseph-Henri mostrasse a preocupação de sugerir que esta criação conjunta se devia à união de uma idêntica força criativa, de uma relação de qualidade idêntica com a expressividade das palavras, os que conviviam de mais perto com a parceria notavam neste resultado literário iniludíveis ecos da personalidade do mais velho. e por causa desta marca literária os seus livros, que contavam com surpreendente insistência futuros imaginados ao abrigo de uma grande erudição, passados que recriavam uma pré-história acrescentada pelo sonho, que escolhiam um fantástico suportado pelos dados da ciência, eram aceites nas suas «marginalidades» sem assinalável desdém pelo núcleo duro e central da literatura. Além disto os irmãos Rosny eram muito visíveis; frequentavam com persistência e com êxito os salões literários onde se animavam as admirações e as invejas do mundo literário parisiense. e embora trilhassem vias de uma inspiração que andava ao lado da «literatura central», conviviam de perto com os Goncourt, com Daudet, Jules Renard, Hugo e tantos outros, o mais velho a surpreender sempre num círculo onde brilhava a sua inesgotável erudição. Chegou-nos destes discursos um expressivo eco numa memória do suíço Georges Casella, autor de du Sang sur la neige e seu primeiro biógrafo: «O mais velho tem o rosto estranho que as gravuras eslavas dão ao Cristo ortodoxo. É quase calvo, apesar dos cabelos castanhos que parecem fazer uma nobre coroa na prodigiosa testa. Fala com lentidão, com as pálpebras meio fechadas, a balançar a mão direita e numa voz cantarolada, um pouco monótona. Quando o ouvimos surpreende-nos a sua ciência. não ignora nada. O menor facto é pretexto para dissertações, e termina-as com rapidez e verdades inesperadas sob a forma de


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extraordinários paradoxos. O seu irmão faz com ele um surpreendente contraste. Tem aspecto de militar, a palavra sonora e alta, o gesto seco. A pêra larga e espessa, abaixo do lábio inferior, ajuda este fugidio e duro aspecto.» esta parceria com sintomas de grande solidez, espalhada por uma considerável soma de obras que as bibliografias hesitam em definir por um rigoroso número sem possibilidades de contradição, desfez-se em 1908 e subdividiu-se em dois Rosny — o J.-H. Rosny aîné, para designar o mais velho, e o J.-H. Rosny jeune, para designar o mais novo. Se o seu trabalho conjunto já espantava, vertido por uma inesgotável fertilidade, subdividido duplicou. Mas nunca foi possível pressentir nesta bifurcação um litígio; os dois irmãos mostravam uma amável convivência sem dissensões que justificassem a sua separação. era porém evidente que o mais velho e o mais novo surgiam agora a par na montra dos livreiros, propunham-se ao público como criadores independentes, mostrando-se bem mais talentoso Joseph-Henri e bem menos dotado Séraphin-Justin-François. A passagem do tempo fez a superioridade intelectual e literária de Joseph-Henri sobrepor-se em todas as obras que tinham sido publicadas como parceria; e hoje, fazendo justiça à desigualdade dos seus talentos, é costume republicar os antigos títulos «de autoria dupla» apenas com a designação J.-H. Rosny aîné. embora a inspiração literária de Rosny aîné começasse a ter evidentes companhias que soavam ao seu lado com os nomes de Jules Verne e do inglês H.G. Wells, distanciava-se deles por um «aroma científico» não-demonstrativo, ou seja, esse que mais facilmente atravessa os tempos mantendo a força do momento da sua criação, sem o perigo de ser reduzido ou negado por conheci-


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mentos científicos entretanto adquiridos posteriormente à época em que ele foi concebido. Rosny ressentia-se, porém, com um desinteresse do público que considerava injusto. escrevia livros que imaginava susceptíveis de se afirmarem com um assinalável êxito de vendas, mas esta expectativa era regularmente desmentida pela realidade. Um dia, numa conversa que Jules Renard registou no seu diário, falou sobre «as suas lendas»: «Sou para alguns um antigo príncipe, para outros um operário que está a aprender a escrever — já tenho vinte e cinco anos de aprendizagem — para outros um comunardo.» Quanto à sua celebridade, via-a com estas perplexidades: Não chego a compreender que um homem possa ser célebre […] sem vinte e cinco mil leitores capazes de lhe comprar os livros. […] Não sei o que é um desencorajamento prolongado; mas sou triste e penso todas as noites na morte. Sou um apaixonado pela vida, e parece-me que a morte se aproxima. Não a temo, apesar de saber que põe fim a tudo e lamentar que tenhamos de morrer, ou seja, que tenhamos de fazê-lo antes de nos sentirmos velhos. esta celebridade frustrada foi distraída por algumas compensações. em 1897 Rosny aîné teve direito ao reconhecimento oficial que lhe atribuiu a prestigiada roseta de lapela que anuncia os escolhidos pela ordem nacional da Legião de Honra. e houve, sobretudo, a inesperada distinção expressa no testamento de edmond Goncourt, que destinava aos «irmãos Rosny» um preponderante lugar no que passaria a ser a Academia Goncourt. Rosny aîné foi seu presidente desde 1926 até 1940, o ano da sua morte. e coube-lhe, no prémio que esta Academia destinou à literatura, com nomes e obras que a passagem do tempo — como


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é habitual — indiferente ao que foi ditado por uma «lucidez de momento» relega sem apelo para a zona dos esquecidos, marcar com a sua aprovação persistentes valores como os de Le Feu de Henri Barbusse (1916), de À l’ombre des jeunes filles en fleur de Marcel Proust (1919) e até de La Condition humaine de André Malraux (1933). Hoje, o nome do escritor J.-H. Rosny aîné surge ligado, sobretudo, ao seu romance La Guerre du feu, de 1909, uma história do homo faber preocupado com a imprescindível «posse» do fogo essencial à sua sobrevivência. Mas publicou, no ano seguinte ao desta sua obra mais célebre, uma bastante curiosa novela a que deu o título A morte da terra. esta morte é pré-anunciada por quase todas as religiões. Surge como castigo divino, desenvolvida em narrativas apocalípticas que competem entre si nos horrores que destinam ao homem julgado pelo seu comportamento terreno. A Bíblia, com os livros que o Vaticano actualmente aceita como não apócrifos, dá a conhecer esta Revelação feita na ilha de Patmos — a ilha que os Romanos destinavam aos seus exilados de mau comportamento político — a um tal João que também foi decidido que deveria coincidir com o João apóstolo e evangelista. no entanto, as horríveis punições deste Apocalipse joanino são amenas se comparadas com as do Apocalipse de Pedro, um texto incompleto, depositado no museu do Cairo, e não aceite pelo Vaticano. A Ciência, essa prevê a morte da Terra por razões não determinadas pela justiça implacável e temperamental dos deuses. Conhece-lhe uma morte ainda muito longínqua, ligada ao inexorável envelhecimento do Sol; sabe que um meteorito de grandes dimensões, com uma trajectória que o faça embater no planeta,


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pode anular-lhe a vida que muito lentamente ressuscitará, talvez sob novas formas, como já aconteceu quando um acidente deste tipo livrou a Terra da fauna feroz e disforme a que damos hoje o nome de dinossauros; sabe que colisões longínquas podem enviar-nos um tremendamente poderoso feixe de raios gama com uma energia não suportável pelos seres humanos; conhece a existência de planetas desorbitados, rebeldes às regras do sistema solar, com imprevisíveis percursos que podem levá-los ao mau momento de uma travessia com cruzamento da nossa órbita; já pressente a decadência vital do planeta, determinada por comportamentos errados mas «imparáveis» da civilização tecnológica deste e de outros futuros séculos. J.-H. Rosny aîné soube em 1910 sonhar esta morte suicida do homem, vítima dos excessos provocados pelo seu avanço civilizacional. Teve a coragem de um texto desolado, que imagina o fim do derradeiro resto da humanidade não exposto a um brutal acidente cósmico nem apocalíptico, mas ao esgotamento (ajudado por movimentos sísmicos) dos seus recursos naturais. O planeta desses dias é um imenso deserto onde subsistem alguns oásis ainda férteis mas com uma progressiva escassez de água. Já não há florestas nem rios nem lagos nem mares, todos os animais irracionais desapareceram com a excepção de algumas aves, evoluídas no seu comportamento até zonas próximas da racionalidade; e há já indícios de uma vitória de minerais a progredirem num comportamento animalizado que os parece destinar a futuros ocupantes da Terra. esta escassa humanidade, prisioneira e vítima do seu progresso, luta com um mundo que lhe foge; com saudade relembra nos seus sonhos a Terra amável que ainda conhecemos. É sedu-


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zida por uma eutanásia «oficial» transformada em agradáveis momentos de um voluptuoso esvaimento. Mas Targ, o derradeiro homem, o único que resistiu por um invencível desejo de vida à eutanásia, entregar-se-á sem remissão ao inevitável festim dos metais gulosos do ferro sanguíneo. «Teve um último soluço, e a morte entrou-lhe no coração.» esta morte do homem na Terra não deixa porém de levantar-nos algumas dúvidas quanto ao carácter definitivo e irremissível que Rosny, numa leitura menos atenta do seu texto, parece querer dar-lhe. Ao narrador da tragédia do último homem na Terra conviria uma voz omnisciente, pessoalmente alheia aos sucessos do planeta, capaz de contar na sua posição superior e distante o fim do seu último sobrevivente. no entanto, no capítulo II esta voz assume-se como pertencendo ela própria à Terra (refere-se por diversas vezes aos «nossos antepassados», à «nossa espécie»), e assim mesmo capaz de narrar o desaparecimento do último homem. A esta subtil «incongruência» acrescenta-se ainda, na frase final, a informação de que o último homem fazia a sua entrada «na Vida nova». A morte da Terra de Rosny admite portanto a existência de uma Vida nova dominada por seres híbridos entre o animal e o mineral. Voluntários — ao que parece — contra-sensos, que só perturbam num bom sentido o que seria o desolado e irremissível pessimismo desta imaginação de Rosny. A.F.


A MORTE DA TERRA


o homem tudo captou, até a misteriosa força que reuniu os átomos. este frenesi anunciava a morte da terra.


i. palavras através da distância

o horrível vento do norte calou-se. A sua má voz desde há quinze dias enchia o oásis de temor e tristeza. Foi preciso levantar os corta-furacão e as estufas de silício elástico. e o oásis começava finalmente a aquecer. targ, o vigilante do Grande Planetário, sentiu uma destas alegrias súbitas que iluminaram a vida dos homens nos tempos divinos da Água. Como as plantas ainda eram belas! elas levavam targ até ao montante das idades, quando os oceanos cobriam três quartos do mundo, quando o homem crescia no meio das fontes, dos ribeiros, dos rios, dos lagos e dos pântanos. Que frescura animava as incontáveis gerações de plantas e animais! A vida fervilhava até ao mais fundo dos mares. Havia lá pradarias e silvas de algas como se fossem florestas de árvores e savanas de ervas. Um futuro imenso abria-se perante as criaturas; o homem mal pressentia os longínquos descendentes que iam tremer à espera do fim do mundo. ele tinha alguma vez imaginado que a agonia ia prolongar-se a mais de cem milénios? targ ergueu o olhar para o céu onde nunca apareciam nuvens. A manhã ainda estava fresca, mas ao meio-dia o oásis seria tórrido. — Não tarda que seja tempo da colheita! — murmurou.


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mostrava um rosto bistre, olhos e cabelos tão negros como a antracite. tinha, como todos os Últimos Homens, o peito espaçoso, embora o seu ventre minguasse. tinha mãos finas, maxilares pequenos, membros que denunciavam mais agilidade do que força. Uma veste de fibras minerais, tão leve e quente como as lãs antigas, adaptava-se rigorosamente ao corpo; o seu ser exalava uma graça resignada, um temeroso encanto que as faces estreitas e o fogo pensativo das pupilas sublinhavam. demorou-se a contemplar um campo de altos cereais, rectângulos de árvores, todas com tantos frutos como folhas, e disse: — Sagradas idades, prodigiosas alvoradas em que as plantas cobriam o jovem planeta! Como o Grande Planetário estava nos confins do oásis e do deserto, targ podia vislumbrar uma sinistra passagem de granitos, silícios e metais, uma planície de desolação estendida até aos contrafortes das montanhas despidas, sem glaciares, sem fontes, sem um talo de erva ou uma placa de líquen. Neste deserto de morte, o oásis com as suas plantações rectilíneas e as suas aldeias metálicas era uma miserável mancha. targ sentiu pesar sobre si a vasta solidão e os montes implacáveis; ergueu com melancolia a cabeça para a concha do Grande Planetário. esta concha espalhava uma corola cor de enxofre em direcção à lisura das montanhas. Feita de arcum1 e sensível como uma retina, só recebia os ritmos do largo emanados dos oásis e, de acordo com as regras, apagava aqueles a que o vigilante não devia dar resposta. 1

Um desconhecido metal, imaginado por Rosny. (n. do T.)


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targ amava-a como um emblema das raras aventuras ainda possíveis à criatura humana; nas suas tristezas voltava-se para ela, e dela esperava coragem ou esperança. Uma voz fê-lo estremecer. viu, com um leve sorriso, subir para a plataforma uma rapariga de ritmados contornos. Usava com liberdade os seus cabelos de trevas; tinha um busto que ondulava, tão flexível como a haste dos longos cereais. o vigilante olhava-a com amor. A sua irmã Arvá era a única criatura que lhe fazia encontrar os súbitos, imprevistos e encantadores minutos com um fundo de mistério onde ainda parecia haver algumas energias capazes de salvar os homens. Com um riso reprimido ela exclamou: — está bom tempo, targ… As plantas sentem-se felizes! ela aspirou o cheiro consolador que saía da carne verde das folhas; o fogo negro dos seus olhos palpitava. três pássaros planaram por cima das árvores e desceram para a beira da plataforma. tinham o tamanho dos antigos condores, formas tão puras como as dos belos corpos femininos, imensas asas argênteas espelhadas a ametista e com pontas que emitiam um clarão roxo. As cabeças eram grossas, os bicos muito curtos, muito ágeis, vermelhos como lábios; e a expressão dos olhos aproximava-se da expressão humana. Um levantou a cabeça e deixou ouvir sons articulados; targ agarrou, inquieto, na mão de Arvá. — Compreendeste? — perguntou. — A terra agita-se! Apesar de nenhum oásis ter perecido desde há muito tempo com sobressaltos sísmicos, e a amplitude destes sobressaltos ter diminuído bastante desde a era sinistra em que


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tinham quebrado o poder humano, Arvá sentiu a mesma angústia que o seu irmão. mas pelo espírito passava-lhe uma caprichosa ideia. — Quem sabe — disse ela — se os tremores de terra, depois de tanto mal terem feito aos nossos irmãos, não vão ser-nos mais favoráveis? — mas como? — perguntou targ com indulgência. — Fazendo com que uma parte das águas reapareça! ele tinha tido muitas vezes este sonho, sem falar disso a ninguém por lhe parecer um pensamento estúpido e quase blasfemo perante uma humanidade caída em desgraça, com terrores que evocavam sempre levantamentos de terra planetários. — Ainda pensas nisso! — exclamou ele com exaltação. — Não o digas a nenhum homem! ofendê-lo-ias até ao fundo da alma! — Só a ti posso dizê-lo. vindos de todos os lados, surgiam bandos brancos de pássaros; os que se tinham aproximado de targ e de Arvá corriam pelo chão com impaciência. o rapaz falou-lhes, empregando uma sintaxe particular. Porque os pássaros, à medida que progrediam em inteligência tinham-se iniciado na linguagem — uma linguagem que só admitia palavras concretas e frases-imagens. A sua noção do futuro permanecia obscura e curta, a sua previdência instintiva. desde que o homem deixara de servir-se deles como alimento viviam felizes, incapazes de conceber a sua própria morte e, mais ainda, o fim da sua espécie. o oásis criava cerca de duzentos, com uma presença de animada doçura e muito útil. o homem, sem conseguir recu-


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perar o instinto perdido durante as suas idades de poder, devido às actuais circunstâncias do meio travava uma luta com fenómenos que os aparelhos herdados dos seus antepassados, apesar de muito delicados, não conseguiam assinalar mas os pássaros previam. Com eles, derradeiro vestígio da vida animal, desaparecidos, ter-se-ia abatido uma bem mais amarga desolação sobre as almas. — o perigo não é imediato! — murmurou targ. o oásis era percorrido por um rumor; homens irrompiam das imediações das aldeias e das terras semeadas. Um indivíduo atarracado, com um crânio maciço que parecia pousado directamente no torso, surgiu ao pé do Grande Planetário. Abria pobres olhos sem pestanas num rosto cor de iodo; as mãos chatas e rectangulares oscilavam na ponta dos braços curtos. — Havemos de ver o fim do mundo! — resmungou. — vamos ser a última geração dos homens. ouviu-se atrás dele um riso cavernoso. dane, o centenário, aparecia ali com o seu bisneto e uma mulher de longos olhos e cabelo cor de bronze, que andava com uma leveza de pássaro. — Não, não vamos vê-lo — afirmou ela. — A morte dos homens será lenta… A água diminuirá até não restarem mais do que umas quantas famílias em redor de um poço. e será assim mais terrível. — Havemos de ver o fim do mundo! — teimou o homem atarracado. — tanto melhor! — disse o bisneto de dane. — Que a terra beba hoje mesmo as suas últimas fontes!


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A sua face sinuosa e muito estreita revelava uma tristeza sem limites; ele próprio se espantava por já não ter posto fim à sua existência. — Quem sabe se não há uma esperança! — resmungou o velho. o coração de targ começou a bater com força; baixou, para o centenário, olhos onde a juventude cintilava. — oh! Pai!… — exclamou. A face do velho já se tinha imobilizado. voltava a cair no sonho taciturno que o fazia parecido com um bloco de basalto; targ guardou para si o que pensava. A multidão aumentava nos confins do deserto e do oásis. Havia uns quantos planadores no ar, chegados do Centro. estava-se numa época em que o trabalho não pedia grande coisa aos homens; só teriam de esperar pelo tempo das colheitas. Porque nenhum insecto, nenhum micróbio, tinha sobrevivido. Fechados em estreitos domínios, fora dos quais toda a vida «protoplásmica» era impossível, os antepassados tinham travado uma luta eficaz com os parasitas. Nem mesmo os organismos microscópicos conseguiam sobreviver, privados desse imprevisto que depende das densas aglomerações, dos grandes espaços, das transformações e das deslocações constantes. Aliás, desde que os homens dominassem a distribuição da água, dispunham de um invencível poder contra os seres que desejavam destruir. e a ausência de antigos animais domésticos e selvagens contribuíra para apressar ainda mais a hora do seu triunfo. Homem, pássaros e plantas estavam, de vez, ao abrigo das velhas doenças infecciosas.


índice

Apresentação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . I. II. III. Iv. v. vI. vII. vIII. Ix. x. xI. xII. xIII. xIv. xv. xvI.

Palavras Através da distância . . . . . . . . . . . . . . . . . A Caminho das terras vermelhas . . . . . . . . . . . . o Planeta Homicida . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Na terra Profunda . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . No Fundo dos Abismos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . os Ferromagnetais. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . A Água, mãe da vida . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . e Só as terras vermelhas Sobrevivem . . . . . . . . . A Água Fugitiva . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . o Abalo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . os Fugitivos. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Rumo aos oásis equatoriais . . . . . . . . . . . . . . . . . . A Paragem . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . A eutanásia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . o enclave desapareceu . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Na Noite eterna . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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últimos livros

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