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O Bancário | 1 de novembro de 2020

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Porto Alegre e RegiĂŁo, 16 de novembro de 2020


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CONSCIÊNCIA

O dia 20 de novembro chega todo o ano com a marca da paixão de Zumbi dos Palmares. O líder negro que ousou enfrentar o racismo impregnado na alma do Brasil desde 1500, morreu há 325 anos. Sua morte é o símbolo de um Brasil atrasado que não soube incluir o povo negro em patamares de igualdade social com os brancos. Os negros são 56,1% da população, segundo o IBGE, mas chegam a ganhar até R$ 1,2 mil em média menos do que os brancos. São muito poucos a ocuparem posições de comando nas empresas públicas e privadas e somente agora começam a fazer parte de uma elite pensante, por efeito das políticas de ações afirmativas nas universidades públicas. O racismo estrutural é insidioso por ser invisível. Ele se manifesta em piadas racistas, em expressões aparentemente inofensivas, mas que servem para “colocar o negro no seu lugar”. Ora, o que ocorre é a naturalização de uma suposta falta de talento dos(as) negros(as), de uma aparente ausência de competência dos(as) negros(as). O normal é achar que os(as) negros(as) não podem ser médicos. Que não podem ser professores. Que não podem ser presidentes e que não podem nem sequer serem chefes em bancos. Pensamos isso porque não vemos tantos negros ocupando essas posições no Brasil. Os(as) bancários(as) sabem do que estamos falando. Basta olhar ao redor em seu local de trabalho, em sua agência bancária. Você que é branco(a) enxerga muitos

Compromisso de Wikimedia Commons

negros ao seu redor? Não. Eles(as) não são nem metade dos(as) trabalhadores(as) bancários(as). E observe também que os(as) negros(as) têm maiores dificuldades de ascensão e são os(as) últimos(as) a serem lembrados para promoções. Essa realidade precisa mudar. A mudança passa por todos nós. Começa com os homens e mulheres brancos(as) despindo-se dos seus preconceitos pessoais. Segue com o nosso reconhecimento de que todos são iguais independente da cor da pele. A diferença é a falta de oportunidade. Os(as) negros(as) são competentes, trabalhadores, dedicados. Todo poder ao povo negro!

Uma vida de resistência Zumbi nasceu livre no Quilombo dos Palmares por volta de 1670. Depois, quando fez seis anos de idade, foi levado para uma missão católica onde ganhou o nome de Francisco e aprendeu a ler e escrever. Palmares era um dos muitos quilombos para onde os negros fugiam da escravidão e das torturas entre Pernambuco e Alagoas. Por muitos anos, os negros resistiram às investidas dos representantes da colônia portuguesa e dos holandeses que invadiram o Brasil por volta de 1600. Não só resistiram como

O Bancário

Jornal do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre e Região (SindBancários) - filiado à CUT e à Fetrafi/RS. Presidente: Luciano Fetzner Barcellos. Diretor de Comunicação: Gilnei Nunes (MTb 9286). Jornalista Responsável: Clóvis Victória Junior (MTb 13.829). Redatores: Clóvis Victória Junior, Henrique Lammel (MTb 16191), José Antônio Silva (MTb 3870) e Caio Venâncio (MTb 19.624). Diagramação: Nina de Oliveira (MT 6612RS). Impressão: Grupo Sinos. Tiragem: 3 mil exemplares. Casa dos Bancários - Rua Gal Câmara, 424 CEP 90010-230 - Porto Alegre - RS Tel: (51) 3433.1200 redacao@sindbancarios.org.br | www. sindbancarios.org.br|www.facebook.com/SindBancarios.PoA|twitter.com/@sindbancarios | youtube.com/ sindbancariospoa|IG: @sindbancariospoa

inspiravam a fuga de muitos negros do assédio e das torturas da casa grande na senzala. Por volta de 1670, um governador de Alagoas tentou fazer um acordo com o líder de Palmares Ganga Zumba. Zumbi impediu que o acordo fosse feito, pois julgava que os negros seriam traídos. Manteve a resistência em Palmares até 1695. Foi no dia 20 de novembro que, depois da destruição dos quilombos, Zumbi foi emboscado com 20 de seus guerreiros no interior de Alagoas. Militares do governo federal já o perseguiam há dois anos. Os guerreiros não ofereceram muita resistência aos homens do governo mais bem armados, descansados e mais bem alimentados. Zumbi foi ferido a faca e morto. Sua cabeça chegou a ser exibida em Maceió, capital das Alagoas, para mostrar ao povo que Zumbi não era imortal. Os quilombos ainda hoje resistem. Estão espalhados por todos os Estados brasileiros e encravados em muitas cidades. São símbolo do tempo em que os negros eram escravos. Se, em 1888, a Lei Áurea pôs fim à escravidão não foi por bondade da princesa Isabel. Mas sim porque os negros lutaram muito, por séculos, para se tornarem livres. Tudo começou com Zumbi. Zumbi vive!

Zumbi: resistência nos quilombos

Os números d Cerca de 56,1% dos homens e mulheres brasileiros se declaram pretos ou pardos. Como se vê, a maioria da população brasileira tem pele escura. Mas a representação em locais de trabalho, como os bancos, em cargos de chefia e mesmo a renda, ainda é muito inferior aos brancos. Os números a seguir dão a dimensão do racismo estrutural no Brasil.

24,7% É o percentual de bancários que se declaram negros ou pardos nos bancos. Quando olhamos para todo Brasil, 56,10% da população se declara negra ou parda, segundo o Censo da Diversidade (2014). 1,8% É o percentual de negros na direção do Itaú. Entre os gestores, eles são apenas 14,6%, segundo Relatório Anual do Itaú 2019.

3,3% Éo negros o relató der 201

11% Éo pardos desco, Diversi

R$ 1,2 Éo balhado receber


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A NEGRA 2020

combate ao racismo Lutas negras importam

Em 1965, as políticas de ações afirmativas surgem nos Estados Unidos, levando em consideração três aspectos: reparação, justiça social e justificação. Esta última diz respeito à fase de implantação de políticas de cotas em serviços públicos e de reserva de vagas para negros e pobres em universidades. Vejamos bem que até um país como os Estados Unidos, que faz guerras genocidas, já desenvolveu políticas de ações afirmativas para reduzir a distância de oportunidades para os brancos e o povo negro, assolado por séculos de escravidão. Como podemos observar, países como os Estados Unidos e a Índia debatem a questão da compensação a povos secularmente excluídos há mais de 50 anos. No Brasil, este debate é recente e começou em 2004. Quer dizer, a forma como muitos enxergam as cotas raciais e sociais

não leva em consideração que estamos muito atrasados para exigir efeitos imediatos a uma política de longo prazo. Há quem possa dizer que essas políticas não fazem nenhum efeito. Então, como explicar que depois de tanta luta dos negros dos EUA, como Angela Davis, Malcon X, Martin Luther King Jr, e até hoje, um presidente negro, Barack Obama, seja eleito para dois mandatos? É claro que há retrocessos. O assassinato de George Floyd que o diga. De qualquer modo, o exemplo serviu para disseminar mundialmente protestos sob o signo “Vidas negras importam”, em 2020. Foi por acaso também que o racista Donald Trump perdeu as recentes eleições? E será que nada disso tem a ver com a eleição da primeira mulher negra como vice-presidente dos EUA, Kamala Harris, na chapa com Joe Biden? Sempre tem luta do povo negro.

do racismo estrutural

percentual de diretores do Santander, segundo ório Anual do Santan19.

percentual de negros e nas gerências do Brasegundo o Censo da idade de 2014.

2 mil valor médio que os traores negros deixam de r em comparação com

os trabalhadores brancos no Brasil, segundo o IBGE. 24,7% É o percentual de bancários que se declaram negros ou pardos nos bancos, segundo Censo da Diversidade 2014. 2 em cada 10 Brasileiros entre os 10% mais ricos do Brasil são negros. Olhando os 10% mais pobres, os números se invertem: 8 em cada 10 são negros, segundo o IBGE.

56,6% É o que um branco recebe, a mais do que um trabalhador negro no Brasil, segundo o IBGE. 4,7% É o percentual de negros em cargos de alta gerência nas maiores 500 empresas do Brasil. Já as mulheres negras são apenas 0,4%, segundo os dados captados pelo Instituto Ethos.


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ARTIGOS

LIVE SHOW

A renda mínima como política de reparação ao povo negro Isis Garcia* Estamos vivendo uma fase no país que, ouso dizer, será um divisor de águas em nosso modelo de sociedade. A pandemia veio para mostrar nitidamente que as desigualdades social e racial foram resultado de um processo de invisibilização da crueldade, construída ao longo da história, para que as pessoas aceitem o sistema capitalista escravocrata imposto à população negra no Brasil. Um vírus microscópico, capaz de ceifar milhões de vidas, trouxe à tona a necessidade de assumirmos de fato que as políticas públicas reparatórias serão o caminho para termos os mesmos pontos de partida e oportunidades entre as populações que compõem nossa sociedade. É preciso reparar séculos de escravidão e construir justiça social para o povo negro que há tanto tempo figura como o extrato mais representativo da desigualdade no mundo do trabalho. O racismo estrutural impulsiona a exclusão da população negra. A discriminação histórica e naturalizada em nossa sociedade definiu o lugar que cada pessoa deve ocupar no mundo do trabalho. E o pior para os(as) negros(as): não

Arquivo pessoal

devemos sair dos postos rebaixados que ocupamos. Nós, população negra trabalhadora, somos constantemente colocados à prova: seríamos ou não capazes de estarmos em determinados espaços de poder? Se temos uma lição a tirar da pandemia, é permitir enxergarmos com maior nitidez que a população negra produz renda e consumo desde sempre neste país, exceto durante a escravidão. Agora chegou a hora da política de renda mínima trazer avanços aos negros que o trabalho formal proporciona. O racismo estrutural mata, pois que exclui do debate por uma sociedade mais justa a importância da renda mínima para a população negra. Sem esta política de emancipação econômica, reparatória e

de justiça social, a população negra fica sem perspectiva de uma vida digna para o futuro, sob os efeitos econômicos e sociais da pandemia de Covid-19. Sei que será um grande desafio, em tempos de total desmonte da organização do trabalho e suas estruturas representativas, implantarmos uma política de renda mínima para quem mais precisa. Ainda mais sob o domínio de lideranças políticas sem projetos de curto e longo prazo para o país e sem sensibilidade para entender que problemas precisam ser resolvidos para o bem-estar de todos(as). Apesar disso, acredito que esse será o momento de reconhecemos uma falha estruturante do movimento sindical. Precisamos colocar como pauta permanente a inclusão de diretrizes, em nossas negociações sindicais, para o princípio da reparação na busca por igualdade de condições e de renda ao povo trabalhador negro. Não podemos usar a meritocracia como diretriz de inclusão no espaço do trabalho, pois temos mecanismos que desqualificam a pessoa pela cor da sua pele. Temos sim que, dentro de nossos debates no ambiente sindical, exigir que os mecanismos de seleção desses trabalhadores não se baseiem na divisão sexual e racial do

trabalho. Eu que sou trabalhadora do ramo financeiro sinto na pele essa invisibilidade a que a população negra bancária é submetida. Somos convencidos até mesmo a desconsiderar nossa ancestralidade. A “branquitude” do(a) negro(a) é o caminho de sermos aceitos como pessoas confiáveis. Ainda somos vistos no mercado de trabalho como os incompetentes, mesmo sendo os mais fiscalizados, os mais desqualificados e os menos competentes. Neste mês da Consciência Negra, é fundamental que todos e todas nos comprometamos e entendamos o quanto o racismo só prejudicou as nossas relações de trabalho e desestruturou nossa sociedade. É tempo de abrirmos frentes de batalhas. De defender tudo o que nos unifica como, na saúde em defesa do SUS, e mostrar como esse sistema mantém uma estrutura que iguala as pessoas, fiscalizando a Vigilância Sanitária e os planos de saúde privados, o cuidado com a nossa alimentação e a defesa das campanhas de vacinação, fundamentais para a saúde da população e para o bem-estar do povo negro. Lutaremos por uma sociedade antirracista. * Diretora da Fetrafi-RS e Secretária de Combate ao Racismo da CUT-RS.

Para recuperar identidade nacional deve-se buscar a superação da desigualdade racial e social Vera Daisy Barcellos* “Reconhecemos a necessidade de se adotarem medidas especiais ou positivas em favor das vítimas de racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerância correlata, com o intuito de promover sua plena integração na sociedade. As medidas para uma ação efetiva, inclusive as medidas sociais, devem visar corrigir as condições que impedem o gozo dos direitos e a introdução de medidas especiais para incentivar a participação igualitária de todos os grupos raciais, culturais, linguísticos e religiosos em todos os setores da sociedade, colocando a todos em igualdade de condições”.(Declaração e Programa de Ação da Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata - Durban/ África do Sul/2001). Ao pensar na elaboração deste artigo, resolvi trazer como pauta inspiradora o trecho acima de um documento expressivo na militân-

Arquivo pessoal

cia que persigo desde a década de 1970, nos movimentos sindical e das mulheres negras feministas e, igualmente, em outras caminhadas pela luta da implementação efetiva dos direitos humanos na sociedade, em especial, dos negros e pardos que compõem a maioria da população brasileira. A busca de uma mínima parte do conteúdo da relevante e sempre atual “Declaração de Durban” tem o intuito de demarcar a temática ofertada pelo editor deste jornal para a redação deste artigo. Ou seja, relacionar a superação do racismo estrutural com

efetivas ações de um Estado que seja democrático nas oportunidades e movido pelo Bem Viver. E mais do que isto, defender que a democracia total e ampla só será possível quando as desigualdades sociais e raciais forem banidas do país. E isto está muito longe de se concretizar. O Brasil é uma nação que tem em sua formação e desenvolvimento a herança maldita do período escravocrata. O que foi determinado pela própria discriminação racial e racismo, para o lugar ocupado hoje por mulheres negras e pardas, e homens negros e pardos que demarcam a população majoritária brasileira. Os noticiários dos jornais, redes online e televisivos da quinta-feira, 12/11, divulgaram as pesquisas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apresentando suas Sínteses de Indicadores Sociais com base no ano de 2019. Índices que referendam a formulação do meu pensamento que guia esta escrita, bem como tantos outros documentos elaborados por especialistas sobre esta

temática. Persiste o alto percentual de pessoas vivendo em situação de extrema pobreza, vivendo com renda de R$ 437,00 por mês. Os dados apontam o que a militância preta vem, ao longo dos anos, repetindo, como se um mantra fosse, “a população branca ganha cerca de 37,4% mais do que a preta ou parda, o que segundo as Sínteses equivalem ao recebimento de uma renda mensal de trabalho de R$ 1.828,00 e R$ 1.330,00”. Na verdade, não há fato novo nestes indicadores, que demonstram, ao longo dos tempos, a ausência do Estado e a inoperância do atual Governo Federal na formulação de políticas públicas,agravado ainda pela pandemia Covid-19. Um governo que não reconhece o racismo, a discriminação e as intolerâncias como determinantes da precarização das condições de vida da população deste país. *Jornalista, atual presidenta do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS (Sindjors) e militante do Movimento de Mulheres Feministas Negras.

Vamos celebrar o povo negro Que a escravidão tornou os(as) negros(as) os últimos da fila para os melhores postos de trabalho e os salários mais vantajosos, e praticamente torna os (as) poucos(as) trabalhadores(as) bancários(as) negros invisíveis aos bancos, a gente sabe muito bem. Também sabemos que isso é obra de um racismo estrutural, herança de antepassados que chegaram em navios negreiros no Brasil por mais de 300 anos. Mas isso está mudando. Até às 19h30 do sábado, 21/11, quando ocorre a Live Show da Consciência Negra do SindBancários, contaremos as histórias de colegas negros e negras bancários(as). Histórias de sucesso. São homens e mulheres que, apesar das dificuldades, venceram o preconceito e são referências em suas áreas.

PROGRAMAÇÃO

Sábado, 21 de novembro 19h30 Assista e participe facebook.com/SindBancarios.PoA youtube.com/SindBancáriosPoA A transmissão será ao vivo, direto do Salão de Festas da Casa dos Bancários. Todos os cuidados com protocolos de saúde e prevenção da disseminação da Covid-19 serão tomados, conforme prescrição das autoridades sanitárias. uAbertura com a mestre de cerimônias Valéria Barcellos (cantora e artista trans). uDepoimentos gravados, com cerca de 2 minutos de duração cada, dos diretores do SindBancários Carmen Guedes Guaracy Gonçalves Isis Marques uDepoimento gravado do historiador Edison Moura, bancário do Itaú, sobre a invisibilidade do negro. uPainel ao vivo com os diretores Carmen Guedes, Guaracy Gonçalves, Isis Marques uDeclamação da poesia “Novembro negro – heróis de ontem, hoje e sempre” com o ator e produtor Sirmar Antunes Corrêa. uVinhetas musicais com Irmãs Vidal e Marietti Fialho uDeclamação da poesia “Mulheres Negras” com a atriz, produtora, apresentadora e cantora Silvia Duarte uDepoimento da mulher, com a ativista política e social da Restinga Juliana Gonçalves. uVídeo sobre “Religiosidade e segurança alimentar” com Tata (duração de 10 minutos) uEncerramento com shows musicais com Irmãs Vidal, Marietti Fialho e Valéria Barcellos.


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