sesc – serviço social do comércio Administração Regional no Estado de São Paulo
presidente do conselho regional
Abram Szajman
diretor do departamento regional
Luiz Deoclecio Massaro Galina
superintendências
técnico - social
Rosana Paulo da Cunha comunicação social
Ricardo Gentil administração
Jackson Andrade de Matos
assessoria técnica e de planejamento
Marta Raquel Colabone assessoria jurídica
Carla Bertucci Barbieri
gerências
estudos e programas sociais Flávia Andréa Carvalho artes gráficas Rogério Ianelli
comissão editorial
Adriana Reis Paulics, Alan Dias Fernandes, Aline Tafner Moreira, André Dias, Debora Cravo, Dulci Lima, Gustavo Nogueira de Paula, Juliana Fernandes Silveira, Juliana Viana Barbosa, Neide Alessandra Périgo Nascimento, Paula Caroline de Oliveira Souza, Ricardo Silvestre, Ricardo Tacioli, Rosângela Barbalacco, Suellyn Ortiz Camargo, Teresa Maria da Ponte Gutierrez, Tiago Marchesano, Zulaie L. Breviglieri da Silva
coordenação geral Flávia Andréa Carvalho coordenação executiva André Dias, Rosângela Barbalacco e Ricardo Silvestre coordenação editorial e gráfica Erica Dias, Fabíola Larissa Tavares Milan, Humberto Mota, Karina Camargo Leal projeto gráfico Cesar Albornoz editoração Humberto Mota produção digital Rodrigo Losano revisão Samantha Arana
Artigos para publicação podem ser enviados para avaliação da comissão editorial no seguinte endereço: revistamais60@sescsp.org.br
Mais 60: estudos sobre envelhecimento / Edição do Serviço Social do Comércio. –São Paulo: Sesc São Paulo, v. 36, n. 90, Junho 2026 –. Quadrimestral.
ISSN 2358-6362
Continuação de A Terceira Idade: Estudos sobre Envelhecimento, ano 1, n. 1, set. 1988-2014. ISSN 1676-0336.
1. Gerontologia. 2. Terceira idade. 3. Idosos. 4. Envelhecimento. 4. Periódico. I. Título. II. Subtítulo. III. Serviço Social do Comércio. CDD 362.604
Capa
Nelson Triunfo Foto: Adauto Perin
Redes de solidariedade e o desafio de envelhecer nas metrópoles por Maria Lígia Mathias Pagenotto
Longevidade nas moradias e nos ambientes: projeto em construção para o envelhecimento por Carmen Pineda Nebot e Silvia Maria Magalhães Costa
Cidadania e envelhecimento: uma experiência formativa com pessoas idosas no Sesc 14 Bis à luz da educação dialógica por Sandra Regina Gomes
Festival da Integração: diversidades e confluências por Rosângela Barbalacco, Gustavo Nogueira e Juliana Viana Barbosa
Corpo-cidadão, vozes coletivas: uma experiência política e cidadã no Sesc São Carlos por Gabryelle Nogueira Modesto e Lucas Pelegrini Nogueira de Carvalho
Envelhecimento e participação social: a experiência do Fuxico Fashion
Week no Sesc Maturidade Ativa por Luciana Diatel Laubinz Vieira, Luís Alexandre Grings, Michele Bittencourt Silveira de Ávila, Mári
Estela Kenner, Betina Berlitz e Uilian Lima Machado
entrevista
Nelson Triunfo fotos
Nelson Triunfo
envelhecemos
A arte de apreciar um corrimão por Xico Sá resenha
Tudo começou com uma dor no joelho por Mariza Tavares
editorial
Envelhecimento e redes sociais de cuidado nas cidades
Luiz Deoclecio Massaro Galina Diretor Regional do Sesc São Paulo
A proporção de pessoas idosas que compõem a população brasileira vem crescendo a cada ano. Segundo estimativas do IBGE, em 2030 o país terá um contingente de pessoas com 60 anos ou mais superior ao de crianças – faixa etária com menos de 15 anos. A tendência de envelhecimento populacional deve se intensificar e, em 2060, a previsão é que 1 em cada 4 brasileiros tenha 65 anos ou mais. Esse cenário aponta para uma presença cada vez mais significativa de pessoas idosas nos diferentes espaços sociais.
Uma projeção que impõe demandas às cidades, a fim de que possam ser capazes de conciliar conexão social, cuidado e integração entre diferentes gerações.
A construção e a promoção de condições para um envelhecer digno tornam-se indissociáveis do respeito à diversidade de pessoas e grupos, bem como do fortalecimento de redes de apoio, de atitudes acolhedoras e de práticas de solidariedade.
As questões relacionadas a essa população não se restringem, no entanto, às adaptações do modelo urbano, mas envolvem também a forma como o processo de envelhecer é compreendido no mundo contemporâneo. O programa Trabalho Social com Pessoas Idosas (TSPI) do Sesc São Paulo reconhece a potência dessa fase da vida, valorizando experiências, saberes e diferentes formas de participação.
Trata-se de incentivar o protagonismo e a autonomia das pessoas idosas como dimensões fundamentais de uma sociedade que se queira democrática.
Nesta edição, possibilidades de acolhimento urbano e iniciativas educativas se articulam a trajetórias de autoconhecimento e resistência, oferecendo modelos inspiradores para a promoção de uma velhice digna e livre de estereótipos.
A reportagem Redes de solidariedade e o desafio de envelhecer nas metrópoles apresenta uma perspectiva de redes comunitárias de cuidado nas cidades. Estudos e experiências práticas indicam que a forma como as pessoas envelhecem nos espaços urbanos depende do equilíbrio entre a capacidade de articular políticas públicas, a promoção do diálogo e da escuta da população e o alcance efetivo dos mecanismos estatais, em consonância com as ações desenvolvidas por tais redes.
O artigo Longevidade nas moradias e nos ambientes: projeto em construção para o envelhecimento apresenta desafios que as cidades brasileiras enfrentam em relação ao acolhimento das pessoas idosas e mobiliza possíveis respostas inspiradas em experiências internacionais.
Em Cidadania e envelhecimento: uma experiência formativa com pessoas idosas no Sesc 14 Bis, o destaque é a oficina Cidadania e a Pessoa Idosa,
ação educativa que dialogou com a perspectiva freiriana de educação libertadora e com as diretrizes internacionais da Década do Envelhecimento Saudável.
Já Encontro de pessoas idosas: diversidades e confluências traz uma análise histórica do desenvolvimento do Festival da Integração, evento anual voltado à promoção da convivência e à valorização da pessoa idosa, que acontece no Sesc Bertioga.
O entrevistado desta edição é o dançarino, músico, compositor, ativista social e educador Nelson Triunfo, que completou 71 anos em 2025. Ele se define como um resistente: enfrentou o racismo e o preconceito contra sua origem nordestina enquanto dançava nas ruas nas décadas de 1970 e 1980. Considerado o pai do hip-hop brasileiro, declara seu amor pela cidade de São Paulo, apesar das contradições que marcam a metrópole.
A jornalista Mariza Tavares, criadora do programa 50 Mais CBN, e autora de diversos livros sobre envelhecimento, é responsável pela resenha do livro Uma história da velhice no Brasil, da historiadora Mary del Priore.
Na editoria Envelhecemos, o escritor Xico Sá reflete sobre seu próprio envelhecimento. “O movimento é sexy, sexagenário”, respondia o jornalista às piadas feitas por amigos, com sacadas bem-humoradas diante do idadismo disfarçado de brincadeira.
envelhecimento e redes sociais de cuidado nas cidades editorial
Redes de solidariedade e o desafio de envelhecer nas metrópoles
Maria Lígia Mathias Pagenotto Jornalista, mestra em gerontologia social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) e especialista em jornalismo literário pela Associação Brasileira de Jornalismo Literário (ABJL). Possui experiência em redação e reportagem de textos jornalísticos e em comunicação corporativa. mlpagenotto@gmail.com
reportagem redes de solidariedade e o desafio de envelhecer nas metrópoles
O envelhecimento não
diz respeito apenas à saúde e aos sistemas de previdência. Ele
questões
envolve
ligadas à moradia, à mobilidade urbana, às oportunidades de trabalho, às relações familiares, à convivência comunitária e à garantia de direitos.
Quando essas dimensões falham, a velhice tende a ser atravessada pelo isolamento e pela exclusão, sobretudo nos grandes centros, onde o cotidiano impõe barreiras físicas, sociais e simbólicas à permanência das pessoas idosas nos espaços urbanos.
O que os dados de São Paulo escancaram, no entanto, não é um fenômeno isolado. Em grandes cidades ao redor do mundo, o envelhecimento também é marcado por desigualdades territoriais. Mesmo em metrópoles com alta oferta de serviços,
a vida urbana tende a se tornar mais hostil à medida que as redes familiares se enfraquecem e o cotidiano passa a exigir deslocamentos, recursos e autonomia que nem todos conseguem sustentar ao longo dos anos.
É nesse contexto que o envelhecimento deixa de ser apenas um tema demográfico e passa a expor escolhas políticas, arranjos institucionais e a existência – ou não – de redes capazes de dar suporte à vida cotidiana das pessoas idosas.
reportagem
1 Edgar Morin, pseudônimo de Edgar Nahoum, nasceu em Paris, em 8 de julho de 1921. Pesquisador emérito do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), é formado em direito, geografia e história, e realizou estudos de filosofia, sociologia e epistemologia. Um dos intelectuais mais destacados do século XX, é o principal pensador da teoria do pensamento complexo, uma visão em que os saberes devem ser multidisciplinares e interligados, em contraponto aos saberes e ciências compartimentados. Disponível em: sescsp.org. br/editorial/uma-ode-aopensamento-complexo Acesso em 19 jan. 2026.
2 Em maio de 2024, o Ministério da Saúde oficializou a instituição da Política Nacional de Cuidados Paliativos (PNCP) no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). A PNCP estabelece que os cuidados paliativos serão ofertados o mais precocemente possível no curso de qualquer doença ameaçadora da continuidade da vida. O objetivo é garantir maior autonomia e qualidade de vida mediante prevenção e alívio do sofrimento físico, psicológico, social e espiritual, estendendo os cuidados à fase de luto (sbgg.org.br/ politica-nacional-decuidados-paliativo-einstituida-no-ambito-dosus em 13/04/2026).
Cada vez mais, estudos e experiências práticas indicam que a forma como as cidades envelhecem dependem de uma combinação equilibrada entre a presença do Estado e a capacidade de articular políticas públicas com redes comunitárias de apoio, que operam justamente onde os serviços formais não chegam.
Essa articulação tem sido apontada por pesquisadores como um dos principais desafios das metrópoles que envelhecem. Políticas públicas desenhadas de forma centralizada, sem diálogo com os territórios, tendem a perder efetividade no cotidiano. Por outro lado, iniciativas comunitárias isoladas, sem apoio institucional, enfrentam limites de escala, financiamento e continuidade. A discussão contemporânea sobre envelhecimento urbano passa, portanto, por reconhecer o cuidado como uma responsabilidade compartilhada, que exige coordenação pública sem apagar a potência das redes locais.
Cuidado de proximidade: experiências que nascem no território
Em diferentes localidades, estratégias de cuidado baseadas na proximidade territorial e na articulação
comunitária vêm demonstrando que é possível enfrentar a fragilização da velhice fora de modelos exclusivamente institucionais. Em vez de deslocar a pessoa idosa para fora de seu território, essas iniciativas buscam fortalecer vínculos no próprio bairro, mobilizando vizinhos, voluntários, serviços de saúde e organizações locais.
Áurea Barroso, atuante na Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) e conselheira nacional dos direitos da pessoa idosa, é uma entusiasta dos modelos comunitários de apoio. “Não se trata de descartar a presença do Estado, mas de entender que alguns dados de território, por exemplo, são de domínio de uma rede informal.”
Quando um profissional de saúde visita um bairro como Cidade Tiradentes, segundo Áurea, a primeira atitude dele é procurar as lideranças locais. “Ele precisa conhecer o território, saber quais as forças que têm ali, como se organizam, para então traçar estratégias de atendimento.”
Inspirada no pensamento do filósofo e sociólogo francês Edgar Morin1, Áurea defende a construção de uma cultura de solidariedade baseada no reconhecimento da interdependência.
buscado driblar a fragilização da velhice a partir do território. No bairro de Morningside Heights, no Upper West Side de Manhattan, a Lifeforce in Later Years (LiLY) nasceu em 2009 da constatação de que envelhecer em grandes cidades – mesmo em áreas com ampla oferta de serviços – pode significar isolamento. Mas, em vez de retirar a pessoa idosa do seu entorno, a organização aposta no fortalecimento das relações de proximidade, articulando vizinhos, voluntários, familiares e serviços locais para sustentar o cotidiano e preservar o pertencimento.
A motivação para o seu surgimento foi profundamente pessoal. Após viver a experiência frustrante de buscar cuidados adequados para a própria mãe, a fundadora da LiLY, Irene Zola, já falecida, idealizou uma rede formada por voluntários locais capazes de reduzir o isolamento e garantir apoio em situações cotidianas, muitas vezes invisíveis para os serviços formais. “Mesmo pessoas muito idosas podem continuar vivendo em suas casas e comunidades, se assim desejarem, desde que tenham conexão social”, afirma Audrey Wu, diretora de desenvolvimento da organização. Essa é a proposta da LiLY.
Audrey Wu, diretora de desenvolvimento da Lifeforce in Later Years (LiLY), e sua mãe, Jomai Wu, 95 anos.
Na prática, ela funciona como uma rede de cuidado de alta proximidade, ancorada no cotidiano do bairro. O foco não está apenas em demandas médicas, mas em tudo o que sustenta a vida diária: companhia, circulação pela cidade, alimentação, segurança dentro de casa, uso de tecnologia, acesso a benefícios e mediação com serviços públicos e privados.
O modelo é deliberadamente informal. “As pessoas idosas sabem que podem ligar a qualquer hora, inclusive à noite ou nos fins de semana, quando surge uma emergência”, diz Audrey. Essa flexibilidade permite respostas rápidas a situações que, em estruturas tradicionais, tenderiam a se transformar em internações evitáveis ou em isolamento prolongado.
A própria família de Audrey faz parte dessa história. Sua mãe, Jomai Wu, hoje com 95 anos, é beneficiária da LiLY desde 2010. “Na época, meu pai ainda estava vivo. Foi ele quem conheceu a organização, porque a fundadora estava distribuindo panfletos na rua, de forma totalmente espontânea, para despertar o interesse de outros idosos”, conta. Hoje, a LiLY acompanha cerca de 300 pessoas idosas nos bairros de Morningside Heights, Manhattanville e Hamilton Heights.
Quase metade tem mais de 80 anos – muitas na casa dos 90 ou até dos 100. Parte dos primeiros voluntários da organização envelheceu junto com a rede e passou a ser também atendida, criando um ciclo contínuo de cuidado e pertencimento.
As histórias individuais ajudam a dimensionar o impacto desse tipo de arranjo. Um dos participantes, identificado como TG, chegou à organização na casa dos 80 anos, vivendo com catarata e cada vez mais isolado.
Durante a pandemia, passou a integrar um grupo de convivência criado pela LiLY para homens que haviam perdido vínculos sociais. Com o apoio de voluntários, retomou relações, foi incentivado a procurar atendimento médico e passou por uma cirurgia que lhe devolveu a visão. “Ele recuperou não só a autonomia, mas também a relação com a música, que sempre fez parte da vida dele”, relata Audrey. Hoje, participa ativamente de atividades coletivas, como jogos de cartas.
Outro caso envolve uma mulher de 96 anos que, após ser atropelada, corria o risco de ser institucionalizada por não ter quem a acompanhasse no retorno para casa. A LiLY articulou voluntários, vizinhos e assistentes sociais para adaptar o apartamento e garantir apoio cotidiano.
“Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o cuidado em domicílio é uma das estratégias mais eficazes para combater o isolamento social na velhice”, observa Jorge
Felix, pesquisador e economista especializado em longevidade.
Ela conseguiu voltar para o próprio lar, preservando autonomia e identidade.
Há também trajetórias marcadas pela continuidade do cuidado. Uma mulher de 95 anos foi acompanhada por mais de uma década após a morte do marido. Mesmo com o avanço de problemas de memória, permaneceu vivendo de forma independente, apoiada por voluntários e conectada à família que morava longe.
Em outro caso, uma acadêmica aposentada, sem filhos, tornou-se uma espécie de figura materna para jovens voluntários, que a acompanharam até o fim da vida. “Ela envelheceu onde queria estar”, diz Audrey. “E isso faz toda a diferença.”
No Brasil, segundo Áurea Barroso, há muitas microexperiências de solidariedade, especialmente nas comunidades formadas por pessoas mais vulneráveis. “Elas não chegam ao conhecimento de todos, mas vários desses grupos, por pressão constante, acabam por influenciar em decisões públicas e melhorias para seus territórios”, pontua.
No âmbito do Estado, embora poucas, há algumas experiências relevantes de cuidado territorializado.
É o caso do Programa
Acompanhante de Idosos (PAI), da prefeitura de São Paulo, e do Programa Maior Cuidado (PMC), de Belo Horizonte, reconhecidos internacionalmente por sua excelência, inclusive pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Ambos oferecem atendimento domiciliar, mesclando cuidado, presença regular e mediação com a rede de serviços públicos. O PAI foi formalizado no final da década de 2000 e, o Maior Cuidado, em 2011.
“Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o cuidado em domicílio é uma das estratégias mais eficazes para combater o isolamento social na velhice”, observa Jorge Felix, economista especializado em longevidade e pesquisador da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) no Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), em Paris. “O Brasil precisa instituir esse tipo de atendimento em escala nacional, com urgência, sob pena de ampliarmos muito a epidemia de solidão.”
Dados de um estudo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), divulgado em 2023 na revista Cadernos de Saúde Pública, indicam que quase 17% dos idosos dizem sentir solidão sempre,
e outros 31,7% relatam vivenciar esse sentimento às vezes.
“A solidão precisa ser tratada como fator de risco central", segundo a médica Martha Oliveira, doutora em envelhecimento pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e fundadora do Grupo Laços Saúde. “Hoje já sabemos que ela impacta mais a longevidade do que hipertensão ou diabetes. Ainda assim, ela segue fora do centro das políticas de saúde.” Atenta à questão, Martha buscou referências internacionais que pudessem jogar uma luz para esse desafio. Foi assim que conheceu o modelo holandês Buurtzorg, criado há cerca de 25 anos, quando o sistema de saúde da Holanda entrou em colapso diante do envelhecimento acelerado da população.
Baseado na ideia de “cuidado na comunidade”, o modelo reorganizou o sistema de saúde a partir da independência das pessoas idosas, com foco na manutenção da capacidade funcional e cognitiva, no autocuidado e no uso de instrumentos que fortalecem essa autonomia. “É um sistema todo pautado na independência do idoso. Isso fez muito sentido para o Brasil”, diz. A parceria com o Buurtzorg foi formalizada em 2021 e deu origem ao Grupo Laços Saúde, empresa voltada ao cuidado do envelhecimento.
reportagem
As operadoras de saúde encaminham pessoas consideradas mais vulneráveis, seja por região, histórico de internação recente ou outros critérios.
A equipe acompanha esses pacientes ao longo do tempo, acionando diferentes profissionais conforme as necessidades identificadas. São construídos planos de cuidados individualizados e os pacientes são acompanhados ao longo do tempo. “Isso faz uma grande diferença na sua saúde”, afirma Martha, crítica da lógica centrada no atendimento agudo.
“No sistema brasileiro, a organização do cuidado começa pela porta da emergência. Para a pessoa idosa, isso é fatal”, afirma. “O envelhecimento exige cuidado contínuo, longitudinal, e não episódios isolados.”
Segundo ela, o Grupo Laços foca nas especificidades do indivíduo. “Se é um idoso com polifarmácia, o geriatra entra. Se há risco de depressão, entra o psicólogo. Se há sarcopenia, o nutricionista”, exemplifica.
Os resultados, segundo Martha, aparecem tanto nos indicadores assistenciais quanto nos financeiros.
Almoço no Harlem, promovido pela Lifeforce in Later Years (LiLY), para combater o sentimento de solidão entre as pessoas idosas.
Há redução significativa de internações, de idas ao pronto-socorro e de custos para as operadoras.
Como resposta ao isolamento e à solidão, o modelo se baseia em dois tipos de relacionamento. O primeiro é o formal, que articula o cuidado entre os profissionais de saúde. O segundo é o informal, que busca identificar e fortalecer vínculos no entorno da pessoa idosa – vizinhos, outros idosos próximos, porteiros, pessoas de referência no cotidiano. “A gente tenta perceber quem pode ser essa referência e aproximar essas pessoas”, explica. Além disso, o clube digital promove encontros virtuais, aulas coletivas, clubes do livro e do filme, aproximando idosos com interesses semelhantes.
Onde o Estado falha: os limites do envelhecer nas cidades
Nesse cenário atual da longevidade no Brasil, Felix afirma que um dos grandes desafios é o enfrentamento de uma questão paradoxal: o país dispõe de uma das legislações mais avançadas do mundo em relação aos direitos da pessoa idosa, mas tem enorme dificuldade para transformar esse arcabouço legal em políticas efetivas de cuidado.
Segundo ele, parte desse descompasso está ligada à forma como a discussão sobre envelhecimento se consolidou nas últimas décadas. A valorização de uma “nova velhice”, ativa e autônoma, contribuiu para ressignificar essa etapa da vida, mas também acabou relegando a segundo plano a velhice marcada pela dependência. Do ponto de vista da longevidade, Felix observa que há uma negação da velhice em nossa cultura.
Áurea Barroso traz a famosa frase da filósofa francesa Simone de Beauvoir “velho é o outro” para demonstrar como o preconceito contra o idoso é estrutural. “Está internalizado em nós e isso se reflete na família, no mercado de trabalho, nos atendimentos de saúde, nas políticas públicas, que desconsideram em muitas situações aquela pessoa.” O combate a isso deve começar já na infância, acredita a pesquisadora.
No cuidado de longa duração, afirma Jorge Felix, o Brasil avançou muito pouco no que diz respeito à responsabilidade pública. O maior desafio da longevidade em uma sociedade que envelhece rapidamente é a crescente demanda por cuidados de longa duração, afirma Felix.
Dados de um estudo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), divulgado em 2023 na revista Cadernos de Saúde
Pública, indicam que quase 17% dos idosos dizem sentir solidão sempre, e outros 31,7% relatam vivenciar esse sentimento às vezes.
reportagem
3 A Política Nacional de Cuidados foi sancionada em dezembro de 2024. A iniciativa reconhece o cuidado como uma necessidade de todas as pessoas, como um direito a ser garantido pelo Estado e como um trabalho essencial para o bem-estar das pessoas, a reprodução e a sustentação da vida e o funcionamento da sociedade e da economia. Disponível em: www.gov.br/mds/pt-br/ noticias-e-conteudos/ desenvolvimento-social/ noticias-desenvolvimentosocial/governo-do-brasilregulamenta-politicanacional-de-cuidados. Acesso em 19 jan. 2026.
“Se as leis de proteção social não saírem do papel – em especial a Política Nacional do Cuidado3 –, esse passivo tende a se tornar uma fatura alta para o desenvolvimento do país”, pontua. A complexidade do tema é enorme e ele assegura que nenhum país resolveu plenamente essa questão do cuidado. E mais: não há modelos prontos a serem idealizados. “O caminho passa por observar experiências internacionais bem-sucedidas, aprender com o que funcionou e, sobretudo, reconhecer que a presença do Estado é a condição primeira para que qualquer arranjo tenha êxito”, afirma.
Autor do livro Viver muito (editora Leya), o pesquisador chama atenção para a redução da mão de obra disponível como efeito direto do envelhecimento da população. Essa escassez, explica, tende a pressionar os salários, sobretudo dos trabalhadores mais qualificados, em um cenário em que grande parte da população economicamente ativa ainda carece de educação de qualidade.
Ao mesmo tempo, Felix destaca a urgência de garantir empregos dignos, seguros e com direitos para pessoas mais velhas, associando a questão sobre produtividade do trabalho à inclusão social – e à qualidade dessa inclusão.
Vale lembrar ainda que, em um país onde os valores pagos pela previdência pública são frequentemente insuficientes para garantir o sustento, muitos aposentados seguem em atividade, não por escolha, mas por necessidade, disputando vagas em um mercado de trabalho que ainda se mostra pouco preparado para acolher o envelhecimento.
O vazio em relação ao cuidado que deveria ser proporcionado pelo Estado é agravado por uma concepção fortemente familista das políticas públicas brasileiras, de acordo com Felix. A Constituição atribui à família o papel central no cuidado, o que, em uma sociedade que envelhece rapidamente e vive profundas transformações na estrutura familiar, produz efeitos colaterais importantes. “Com a longevidade, isso significou mais desigualdade de gênero, porque são as mulheres que acabam cuidando de pessoas idosas vulneráveis, muitas vezes sem apoio nenhum por parte dos governos”, diz.
Para o pesquisador, a solidão que marca muitas trajetórias de envelhecimento nas grandes cidades não é apenas um problema subjetivo, mas um fenômeno social com impactos econômicos e sanitários mensuráveis.
“A pessoa idosa perde seu território simbólico. Os laços se rompem com a aposentadoria, com a distância dos filhos, com as perdas. Nas grandes cidades, isso se agrava.”
Esse diagnóstico é compartilhado por Alexandre da Silva, secretário nacional dos Direitos da Pessoa Idosa, que aponta o idadismo como uma das maiores barreiras para o envelhecimento com dignidade. A discriminação por idade, afirma, faz com que muitas pessoas deixem de se sentir à vontade ou sequer sejam convidadas a ocupar espaços fundamentais da vida social. “É um desconvite silencioso”, diz. “A velhice passa a ser tratada como um não lugar.”
Ele ressalta que o isolamento do idoso tem várias facetas.
Pode ser urbano ou rural, pode ocorrer dentro da própria casa, mesmo quando há outras pessoas presentes. “Em muitos casos, é marcado por injustiças históricas, vulnerabilidades acumuladas e discriminações”, afirma. Para Silva, pensar redes de solidariedade implica reconhecer essa heterogeneidade, marcada por classe, raça, gênero, território e trajetória social, e construir respostas sensíveis às realidades locais.
Jorge Felix: “O país dispõe de uma das legislações mais avançadas em relação aos direitos da pessoa idosa, mas tem dificuldade em transformar esse arcabouço legal em políticas efetivas de cuidado”.
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Em muitos casos, (o isolamento do idoso) é marcado por injustiças históricas, vulnerabilidades acumuladas e discriminações”, afirma Alexandre
da Silva, Secretário Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa.
Pessoas idosas negras, mulheres, população LGBTQIA+, povos indígenas, quilombolas, migrantes, pessoas em situação de rua ou privadas de liberdade envelhecem sob camadas adicionais de insegurança. “Muitos sequer chegam aos 60 anos, ou chegam com enorme dificuldade”, diz Silva.
A atuação da Secretaria Nacional, explica, busca fortalecer conselhos, fóruns e iniciativas comunitárias, articulando governo federal, estados, municípios e sociedade civil. “Políticas construídas a partir das falas e dos desejos das pessoas idosas são transformadoras.”
A dimensão política do envelhecimento também atravessa o olhar latinoamericano. Para Lucio Díaz Giménez, secretárioexecutivo regional da RED CORV e diretor da ONG de Capacitação e Desenvolvimento CEC, situada no Chile, envelhecer na região significa enfrentar desigualdade extrema, baixa cobertura previdenciária, informalidade e sistemas de saúde frágeis. “Vivemos em uma das regiões mais desiguais do mundo, e isso se expressa de forma muito dura na velhice”, afirma.
“Políticas construídas a partir das falas e dos desejos das pessoas idosas são transformadoras”, Alexandre da Silva, secretário Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa.
A RED CORV reúne organizações da sociedade civil de mais de 20 países da América Latina e do Caribe em defesa dos direitos humanos de pessoas idosas. O idadismo estrutural, presente no mercado de trabalho, nos serviços públicos, no sistema financeiro, na participação social e política e até no ambiente familiar, invisibiliza as pessoas idosas, limita seus direitos e desconsidera suas contribuições sociais. Como Felix, ele critica a visão dominante da velhice como “carga social”, associada a políticas assistencialistas
que produzem dependência, desvalorização e perda de identidade, em vez de garantir cidadania plena.
“O envelhecimento da população não cria um problema econômico e social; o problema já existe e é estrutural, agravado por políticas econômicas neoliberais e pela globalização”, afirma. A filosofia dominante de políticas, planos e programas na região é assistencialista, o que resulta em respostas limitadas, onerosas e geradoras de dependência, desvalorização e perda de identidade.
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Nessa perspectiva, os organismos da sociedade civil e as ONGs, na opinião de Díaz, devem combater essa visão assistencialista equivocada e desempenhar um papel decisivo na mudança individual e social diante do envelhecimento e da velhice.
“Isso implica facilitar a organização e o encontro das pessoas idosas, com funções cívicas que promovam seu empoderamento individual e comunitário, a intervenção na dinâmica social e a incidência na formulação de políticas públicas voltadas à comunidade, contribuindo para que assumam sua própria realidade, identifiquem necessidades, recursos e alternativas de ação frente à perda de direitos.”
Ele destaca o papel estratégico da organização coletiva e das redes da sociedade civil como instrumentos centrais de enfrentamento das exclusões. A articulação comunitária é apresentada como caminho para romper o isolamento, fortalecer vínculos, ampliar a participação social e política e incidir na formulação de políticas públicas. “Ao se organizarem, as pessoas idosas deixam de ocupar um lugar passivo e se afirmam como sujeitos políticos, capazes de disputar direitos, influenciar decisões e promover transformações sociais em direção a uma velhice com dignidade, participação e cidadania.”
Felix e Díaz alertam para os limites das redes comunitárias quando atuam sem coordenação pública.
“Elas são fundamentais, especialmente no Brasil, com leis familistas e um poder público ausente. A pandemia mostrou isso, mas sem Estado, elas tendem a ser desiguais, pois permite que os recursos sejam direcionados àqueles que têm maior poder de se organizar”, afirma o pesquisador brasileiro. Díaz reforça: “Quando o cuidado é terceirizado apenas para a comunidade, sem políticas estruturadas, ele se torna instável e insuficiente”.
Ao reunir experiências tão diversas – de São Paulo a Nova York, passando por diferentes países da América Latina –, fica claro que envelhecer nas cidades é uma experiência profundamente moldada pelo território. Onde há políticas públicas articuladas, espaços urbanos acessíveis e redes de cuidado ativas, a velhice tende a ser vivida com mais autonomia e dignidade. Onde esses elementos falham, o isolamento se impõe como risco social e de saúde.
Os desafios do envelhecimento no Brasil demandam uma transformação cultural que valorize o papel dos mais velhos na sociedade.
O enfermeiro e professor Alexandre Silva acredita que essa valorização é fundamental para a garantia de um cuidado digno a todos na velhice. Ele pontua em seu artigo que políticas de cuidado, comunidades compassivas e cidades amigas das pessoas idosas são partes de um quebra-cabeça mais amplo, que exige o envolvimento de toda a sociedade e o compromisso do Estado. “Mais do que preparar o país para um futuro, é necessário reimaginar o presente, valorizando as pessoas idosas e construindo um Brasil mais inclusivo e solidário.”
Importante reconhecer, segundo Áurea Barroso, que nenhuma cidade envelhece sozinha. A construção de respostas passa por combinar Estado, comunidade e políticas que reconheçam o cuidado como infraestrutura essencial da vida urbana. Como sintetiza Jorge Felix, a longevidade independe de escolhas, ela depende de componentes genéticos e sociais. Torná-la um direito efetivo nas cidades depende menos de soluções tecnológicas e mais da capacidade de tecer redes de solidariedade e políticas que sustentem a vida cotidiana.
Para Lucio Díaz Giménez, secretárioexecutivo da Rede Corv, envelhecer na região significa enfrentar desigualdade extrema, baixa cobertura previdenciária, informalidade e sistemas de saúde frágeis.
“Vivemos em uma das regiões mais desiguais do mundo”, Lucio Diaz, secretário-executivo da RED CORV.
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RESUMO
O lugar onde vivemos e envelhecemos pode ser favorável à vida caso atenda às demandas de uma existência digna, desde o cotidiano até os sonhos e o futuro que projetamos. É na cidade que a vida acontece, seja nos espaços de moradia, seja nos ambientes do entorno residencial, influenciados por desafios socioeconômicos e pela estrutura física e ambiental. A análise do envelhecimento no Brasil leva em consideração as desigualdades sociais influentes na expectativa de vida e no número de pessoas idosas em cada região, afetadas por oportunidades de trabalho; renda; direitos; acesso a bens públicos e de mercado; educação; entre outros. Segundo dados do IBGE e da PNAD, o Brasil possui mais de 32 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, o que representa cerca de 16% da população brasileira. Contar com uma cidade que atenda às demandas das pessoas idosas requer mudanças nas políticas e um entorno construído para responder de maneira adequada às capacidades e recursos dessas pessoas, antecipando-se em respostas flexíveis. O desafio enfrentado na atualidade inclui o avanço até um desenvolvimento que permita às pessoas idosas uma vida com independência e autonomia, com superação das barreiras impostas pelo planejamento das cidades e por redefinição dos modelos existentes. Neste artigo analisaremos, utilizando uma metodologia exploratória e descritiva de natureza qualitativa e aplicada, alguns dos problemas que as cidades brasileiras enfrentam em relação às pessoas idosas e proporemos algumas respostas para esses problemas, olhando para as soluções adotadas por cidades de outros países. Palavras-chave: habitação; moradia; ambiente; longevidade.
ABSTRACT
The place where we live and grow old can be favorable to life if it meets the demands of a dignified existence, from everyday life to the dreams and future we project. It is in the city that life happens, whether in living spaces or in residential environments influenced by socioeconomic challenges and physical and environmental structure. The analysis of aging in Brazil takes into account social inequalities that influence life expectancy and the number of elderly people in each region, affected by job opportunities; income; rights; access to public and market goods; education, among others. According to data from the Brazilian Institute of Geography and Statistics (IBGE) and the National Household Sample Survey (PNAD), Brazil has more than 32 million people aged 60 or older, representing approximately 16% of the Brazilian population. Having a city that meets the demands of elderly people requires changes in policies and an environment built to adequately respond to the capabilities and resources of these people, anticipating flexible responses. The challenge faced today includes progress towards development that allows elderly people to live independently and autonomously, overcoming the barriers imposed by city planning and redefining existing models. In this article we will analyze, using an exploratory and descriptive methodology of a qualitative and applied nature, some of problems that Brazilian cities face in relation to the elderly and we will propose some answers to these problems, looking at the solutions adopted by cities in other countries. Keywords: habitation; housing; environments; longevity.
Introdução
A população mundial envelhece e a esperança de vida aumenta tanto nos países desenvolvidos como nos países em desenvolvimento (KUNST et al., 2021). No caso do Brasil, os dados do novo Censo de 2022 indicam que o processo de envelhecimento da população aumentou 57,4% entre 2010 e 2022, sendo que os maiores de 65 anos representam agora 10,9% da população total. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil deverá se tornar o sexto país do mundo com maior número de idosos até 2025 (KUNST et al., 2021).
A esperança de vida também cresceu nos últimos anos, passando de 73,1 anos em 2010 para 76,4 anos em 2023, apesar do declínio ocorrido durante a pandemia de covid-19.
Se olharmos para os percentuais em 2024 da população idosa nos países da União Europeia, vemos que Itália (24,3%), Portugal (24,1%), Finlândia (23,4%), Grécia (23,3%), Croácia (23%) e a Alemanha (22,4%) são os países mais velhos e a sua proporção aumenta ano após ano. Espanha (20,4%) está ligeiramente abaixo da média da UE-27 de 21,6% (CSIC, 2024). Como pode ser observado, os percentuais ainda são muito superiores aos do Brasil.
A questão urbana é muito importante se levarmos em conta que atualmente mais da metade da população mundial vive em cidades, e essa proporção chegará a 2/3 em 2050. No caso do Brasil, 3/4 de sua população vivem em áreas urbanas (KUNST et al., 2021).
Perante esta nova situação, as cidades têm de se adaptar a este novo modelo de sociedades envelhecidas, cujas necessidades e exigências são diferentes e crescentes, tanto no nível da adaptação interna das habitações como dos bairros, da infraestrutura de transporte e dos espaços públicos, entre outros. Para que esta população tenha qualidade de vida, há dois elementos muito importantes: a habitação e o ambiente, uma vez que têm impacto direto no seu cotidiano, nas suas atividades diárias e na sua saúde (BRAGA, BESTETTI, FRANCO, 2016). As mudanças que ocorrem durante o processo de envelhecimento diminuem a capacidade de adaptação da população e isso a torna mais sensível ao meio ambiente (NASCIMENTO et al., 2017).
Espaços públicos como ruas, praças, jardins, equipamentos cívicos, centros culturais e desportivos são locais de
encontro e relacionamento entre pessoas. São, portanto, locais de convivência e sociabilidade. Daí sua importância. Mas, em geral, e no Brasil em particular, os espaços urbanos apresentam inúmeros problemas para os idosos, tanto físicos, derivados de desenhos urbanos que não levam em conta as diversas limitações que se acentuam com a idade, quanto sociais, entre os quais destacam-se os maiores índices de criminalidade, a insegurança, a pobreza, os riscos de trânsito, a escassez de serviços sociais, a falta de infraestrutura destinada aos idosos, o ruído e a poluição. Tudo isto faz com que os idosos que vivem nas cidades sintam maior vulnerabilidade social e ambiental (SÁNCHEZ, DOMÍNGUEZ, 2014; SÁNCHEZ, EGEA, 2011) e pode até contribuir para uma restrição dos seus espaços devido ao medo que podem ter quanto a um ambiente que lhes seja hostil.
Outra questão importante é a habitação. Os idosos precisam que sua moradia seja acessível e segura (SANTOS et al., 2019). Portanto, são necessárias políticas públicas com programas que permitam à população idosa o acesso
a moradias dignas e com infraestrutura adequada (ALBUQUERQUE et al., 2020; NAUD et al., 2019) – algo complicado em um país como o Brasil, que tem problemas para fornecer habitação digna para a população em geral.
Neste artigo abordaremos tanto a problemática da habitação como a dos ambientes, utilizando uma metodologia exploratória e descritiva de natureza qualitativa e aplicada, que visa gerar conhecimento prático para os problemas específicos das pessoas idosas (GIL, 2007). Para isso, foi realizada uma revisão bibliográfica e documental do tema e uma análise de boas práticas brasileiras e europeias, especificamente da Espanha. Isso nos permitirá verificar situações, explorar alternativas e propor soluções (ZIKMUND, 2000). O conceito de “ambiente” utilizado neste artigo provém do Plano para a Década do Envelhecimento Saudável 2021-2030, que identifica três ambientes para as iniciativas dos países-membros da ONU que aderirem à proposta: ambiente físico, ambiente social e ambiente socioeconômico (Organização Pan-Americana da Saúde – OPAS, 2020, p. 11).
Espaços públicos como ruas, praças, jardins, equipamentos cívicos, centros culturais e desportivos são locais de encontro e relacionamento entre pessoas. São, portanto, locais de convivência e sociabilidade.
Quando desenvolvem programas baseados no Guia Global
Cidade Amiga do Idoso, cidades brasileiras realizam pesquisa de escuta de idosos em “abordagem participativa, de baixo para cima” (OMS, 2007, p. 7) – elemento indispensável ao cumprimento dos requisitos de certificação municipal da Cidade Amiga do Idoso.
Desenvolvimento
Neste trabalho tomamos o sentido de moradia como a estrutura física construída, dotada de áreas internas e externas, relacionada a moradores, ao funcionamento e aos hábitos de uso (MARTUCCI, BASSO, 2002, apud COSTA et al., 2016). Consideramos a moradia situada no espaço urbano ou rural composta pelo ambiente físico onde a população estabelece residência e por onde circula. O ambiente se refere ao meio circundante da vida social – construído e não construído – abrangendo o conjunto de circunstâncias da existência humana.
Os inúmeros atores envolvidos com as cidades e seus ambientes – gestores públicos, políticos, administradores, planejadores, cidadãos, entre outros – observam e analisam a adequação, ou não, das localidades e de suas dinâmicas, que influenciam a cidadania, a qualidade de vida, a saúde e o bem-estar.
As três esferas do governo brasileiro realizam pesquisas para escuta da população geral sobre as cidades com resultados inseridos em planos anuais e plurianuais, orçamentos e outros instrumentos de gestão, sendo pouco frequente a escuta
específica da população idosa, apenas realizada localmente em casos de apoio à decisão gerencial para fundamentação de políticas, programas ou ações municipais. A escuta das pessoas idosas costuma indagar sobre pontos positivos e negativos de suas localidades no que concerne ao ambiente físico e aos transportes e estruturas de locomoção.
No Brasil, a prática de pesquisa qualitativa para escuta das pessoas idosas vem sendo baseada em publicação da Organização Mundial da Saúde (OMS): o Guia Global Cidade Amiga do Idoso (OMS, 2007).
O Guia da OMS difunde as respostas das pessoas idosas à pesquisa de 2006 realizada em 33 países, operacionalizada a partir do Protocolo de Vancouver – elaborado por experts em envelhecimento e voltado à escuta das pessoas idosas sobre suas cidades. À época, o objetivo da OMS era criar uma estratégia de efetivação do envelhecimento ativo nas cidades. O conceito de “envelhecimento ativo” foi anteriormente proposto pela OMS em publicação de 2002, intitulada Active ageing: a policy framework, publicada no Brasil com o título Envelhecimento ativo: uma política de saúde (OPAS, 2005), que fornece um quadro de aspectos sociais para políticas de envelhecimento, indo além da perspectiva da saúde.
Quando desenvolvem programas baseados no Guia Global Cidade Amiga do Idoso, cidades brasileiras realizam pesquisa de escuta de idosos em “abordagem participativa, de baixo para cima” (OMS, 2007, p. 7) –elemento indispensável ao cumprimento dos requisitos de certificação municipal da Cidade Amiga do Idoso.
Qualquer cidade do mundo que execute o Programa Cidade Amiga do Idoso tem os dados inseridos no portal da Rede Global de Comunidades e Cidades Amigas do Idoso (WHO Global Network for Age-Friendly Cities and Communities), surgida em 2010 como plataforma de divulgação de trabalhos em nível global. Em 2024, o Brasil contabilizava 50 cidades com informações disponíveis no site da rede – a maioria do Paraná: 32. Sendo as demais dos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Minas Gerais e São Paulo. No mundo há 1.542 cidades e comunidades, com participação de 51 países e alcance global de 320 milhões de pessoas (WHO Age-Friendly World, 2024).
A implementação de cada Programa Cidade Amiga do Idoso é orientada pelos requisitos do Guia Global Cidade Amiga do Idoso que
estabelece pontos essenciais para a certificação, com destaque para a escuta das pessoas idosas por pesquisa qualitativa ou algum método diagnóstico que envolva os idosos. A Figura 1 destaca as formas de escuta em cada uma das quatro iniciativas brasileiras já certificadas ou em andamento. A primeira coluna lista os requisitos da Rede Global disponível para todos que acessem o portal https://extranet. who.int/agefriendlyworld/.
Importante componente de suporte a iniciativas que executam o Programa Cidade Amiga do Idoso é o conjunto de oito dimensões de avaliação das cidades (OMS, 2007, p. 9) realizado pelas pessoas idosas, que não aparece na Figura 1 por não ser requisito, mas que pode ser parte integrante das pesquisas realizadas pela gestão pública aderida ao programa. Sendo documento interno dos experts elaboradores que se reuniram em Vancouver, Canadá, o Protocolo de Vancouver, não publicado, propôs oito dimensões como “tópicos de consulta” sugeridos, porém sem uso obrigatório. Cada gestor municipal pode elaborar seu próprio protocolo de pesquisa/ diagnóstico para avaliação dos espaços urbano e rural.
artigo
Características das iniciativas brasileiras baseadas no Modelo OMS
WHO Age-Friendly World
Desenvolvido por países-membros da OMS cumprindo os requisitos que constam no site da Rede.
Para os países-membros
• Dados: população de X idosos.
• Compromisso do prefeito.
• Descrição de ações já existentes.
• Informação sobre pesquisa que forma linha de base. Informação sobre ações ou Plano de Ação.
• Engajamento das pessoas idosas na pesquisa e em todas as etapas.
• Realização intersetorial.
• Participação na Rede e como espera colaborar.
Programa São Paulo Amigo do Idoso
Desenvolvido pelos municípios paulistas monitorados pelo governo estadual.
Voltados às cidades do estado
Passo 1: adesão pelo prefeito.
Passo 2: plano de ações obrigatórias.
• Criar conselho municipal.
• Diagnóstico de gestão.
• Diagnóstico com população idosa.
• Incluir garantia de direitos.
• Adequar/ampliar vacinação.
• Ações de promoção à saúde.
Passo 3: Ações obrigatórias e eletivas = Selo.
• Inserir idosos do CadÚnico.
• Ações de saúde bucal .
• Ampliar cobertura BPC.
Passo 4: Ações obrigatórias e eletivas = Selo.
• Repetir diagnóstico com pessoas idosas.
• Criar Fundo Municipal.
Cidades para todas as Idades – ILC BR
Desenvolvido pela ONG ILC BR e acompanhado pelo governo municipal e parceiros.
Voltado às cidades em geral
• Formar grupo de trabalho.
• Criar comitê intersecretarial.
• Criação comitê OSCs.
• Participação: conselho.
• Diagnóstico – perfil.
• Diagnóstico – inventário.
• Diagnóstico – qualitativo.
• Plano Municipal.
• Monitoramento.
• Certificação OMS.
Estratégia Ebapi
Desenvolvido pelo governo federal em parceria com Opas, organismos internacionais e universidades.
Preferencialmente voltado à população idosa integrante do CadÚnico residente em cidade brasileira
• Adesão pelo prefeito = Selo.
• Reconhecimento por meio de selos entregues a cada etapa cumprida colados em um certificado.
• Intersetorial e interinstitucional.
• Fases e etapas: 1. Adesão e envolvimento do Conselho Municipal.
2. Realização do diagnóstico e do Plano Municipal.
3. Transformação em lei.
4. Execução das ações.
• Monitoramento eletrônico.
Orientação Opas para certificação OMS
Desenvolvido para certificação direta no site da Rede.
Voltado à população idosa residente em cidade brasileira
• Adesão pelo Prefeito.
• Formar grupo de trabalho.
• Estímular a intersetorialidade.
• Orientação por profissionais da Opas e site da OMS.
• Execução baseada no Guia OMS.
• Etapas para recebimento do certificado:
1. Carta-compromisso.
2. Pesquisa com idosos para linha de base.
3. Criação de Plano de Ação para período de três anos.
4. Avaliação (possível expansão).
Figura 1. Quadro das características das iniciativas brasileiras. Fonte: elaboração própria a partir de revisão bibliográfica e observação participante.
A proposta é um “plano de ação” balizador dos dez anos de ação conjunta, estruturada no âmbito da saúde, incluindo aspectos sociais e socioeconômicos.
O Plano de Ação se organiza em quatro “áreas de ação” – pilares das realizações efetivadas durante a década.
1. Mudar a forma como pensamos, sentimos e agimos com relação à idade e ao envelhecimento.
2. Garantir que comunidades promovam as capacidades das pessoas idosas.
3. Entregar serviços de cuidados integrados e de atenção primária à saúde centrados na pessoa e adequados à pessoa idosa.
4. Propiciar o acesso a cuidados de longo prazo às pessoas idosas que necessitem.
Relacionado à Década do Envelhecimento Saudável 20212030, o foco deste trabalho é a Área de Ação 2 que se subdivide em ambiente físico, ambiente social e ambiente socioeconômico (OPAS, 2020, p. 11), com o propósito de garantir a promoção das capacidades das pessoas idosas.
Os estudos realizados neste trabalho apontaram para macrogrupos de ambientes, no (1) conjunto das dimensões do Programa Global Cidade
Amiga do Idoso – como já visto acima – e no (2) Plano de Ação da Década do Envelhecimento Saudável 2021-2030. As publicações que veiculam o programa e o plano de ação fazem afirmações semelhantes, assentadas na saúde. O Programa Global Cidade Amiga do Idoso tem como base e objetivo o “envelhecimento ativo” alcançado por meio de seus componentes e estratégias. O Plano de Ação da Década do Envelhecimento Saudável 2021-2030 está centrado no “envelhecimento saudável” a ser conquistado por meio de iniciativas realizadas nas quatro “áreas de ação” acima citadas.
Há ainda outro paralelo passível de se fazer entre as duas propostas (do Programa e do Plano para a Década): o Programa Global Cidade Amiga do Idoso ressalta a pesquisa de escuta de idosos como elemento indispensável à sua execução e à obtenção da certificação da cidade; e o Plano de Ação da Década do Envelhecimento Saudável 2021-2030 recomenda ouvir as diversas vozes das pessoas idosas, permitindo seu envolvimento e de familiares, cuidadores, jovens e comunidades. O envolvimento com significado para as pessoas idosas indica que elas são beneficiárias dos serviços e agentes de mudança.
Esse envolvimento com as próprias pessoas idosas é crucial para cada uma das áreas de ação. Considerando que as relações sociais se desenvolvem nesses três ambientes compostos de setores da vida humana, entendemos que esse é o lócus onde as políticas públicas são propostas e executadas.
Para a manutenção dos limites do presente artigo, selecionamos discutir apenas o “ambiente físico” como objeto de exposição de questões que requerem enfrentamento pela gestão pública para aplicação de melhorias e ajustes que adaptem os espaços ao acelerado processo de envelhecimento populacional e às novas demandas inerentes a grupos etários e pessoas com deficiência idosas e não idosas.
Resultados e discussão:
Habitação
A casa é uma referência importante para os idosos, com a qual mantêm uma relação mais forte do que outras faixas etárias, como apontam Stones e Gullifer (2016). Essa relação não se dá apenas com o espaço físico e os objetos que nele se encontram, mas também com as experiências, memórias e histórias de vida que lhes estão associadas, à sua comunidade e ao contexto sociocultural.
Além disso, a permanência do idoso no seu domicílio contribui para a preservação da identidade e do seu sentido de controle, autonomia e independência, algo que é muito importante para as pessoas à medida que envelhecem (STONES, GULLIFER, 2016; MACKENZIE, CURRYER, BYLES, 2015). Todas elas essenciais para um envelhecimento ativo.
Mas é preciso levar em conta que o acesso à moradia digna no Brasil é limitado para a população geral, principalmente quando se trata da população de baixa renda. Portanto, embora, como veremos, tenha sido feito um esforço para ser proporcionada uma moradia digna aos idosos de baixa renda, ainda há um espaço muito grande para ser coberto (BONDUKI, 2008; GANDINI, BARIONE, SOUZA, 2012; COSTA et al., 2016). Apesar dos esforços do Governo Federal, os programas habitacionais para idosos são escassos, pois necessitam de recursos não só para construção, mas também para a implantação de centros de saúde, assistência social, entre outros (SCHUSSEL, 2012; YOSHIDA, 2017).
O processo de criação de habitação para idosos tem sido longo e não isento de dificuldades.
A casa é uma referência importante para os idosos, com a qual mantêm uma relação mais forte do que outras faixas etárias, como apontam Stones e Gullifer (2016). Essa relação não se dá apenas com o espaço físico e os objetos que nele se encontram, mas também com as experiências, memórias e histórias de vida que lhes estão associadas, à sua comunidade e ao contexto sociocultural. artigo 1 longevidade nas moradias e nos ambientes
O processo de criação de habitação para idosos tem sido longo e não isento de dificuldades.
Começa com a Política Nacional do Idoso de 1994 e o Estatuto do Idoso de 2003, e continua com o Estatuto da Cidade e a aprovação do Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social.
Começa com a Política Nacional do Idoso de 1994 e o Estatuto do Idoso de 2003 e continua com o Estatuto da Cidade e a aprovação do Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social. São Paulo é a primeira cidade a adotar as iniciativas de moradia para idosos em situação de rua, com a construção da Vila Dignidade.
Mas foi na primeira Conferência Nacional dos Direitos do Idoso, em 2006, que o direito à moradia digna dos idosos começou a ganhar força. Essa conferência, de carácter deliberativo, teve como objetivo geral Definir as Estratégias para a Implementação da Rede de Proteção e Defesa dos Idosos. E um dos seus pontos era estimular a construção de moradias para idosos que deveriam atender aos padrões de acessibilidade existentes (SANTOS, 2022).
Outras alternativas criadas no Brasil para atender à crescente demanda por locais de residência para idosos foram as chamadas residências seniores – Vida Assistida, Vida Independente, Habitação Coletiva, Comunidade de Cuidados Continuados para Aposentados, Clínicas, Clínicas especializadas em Alzheimer, entre outras (YOSHIDA, 2017).
Esses espaços foram criados a partir de políticas públicas, sendo a maioria subsidiada pelo governo federal (BESTETTI, 2006). Iniciativas de condomínios ou repúblicas também têm sido adotadas por grupos de idosos para conviver entre amigos (LABORDE, 2016), que consideram essa estratégia uma forma interessante de convivência nesta fase da vida. Mais recentemente, o projeto Sênior Cohousing tem sido abordado como um modelo de habitação partilhada para pessoas idosas, em que existem espaços comuns, mas também espaços privados (LEITE, 2019). Na Espanha já há em funcionamento mais de uma dezena de projetos de moradia compartilhada para pessoas idosas, distribuídos por grande parte da geografia espanhola, em localidades como Antequera; Horcajo de Santiago, em Cuenca; Losar de la Vera, em Cáceres; Torremocha de Jarama, em Madri; ou em cidades como Valladolid, Málaga, Barcelona e Madri.
Estes últimos exemplos de soluções habitacionais destinam-se a pessoas com níveis de rendimento elevados. Mas no Brasil existe um grande grupo da população com nível de renda baixo ou muito baixo, que precisa de outras soluções, soluções semelhantes ao programa Minha Casa, Minha Vida.
Exemplo disso foi a experiência pioneira do estado da Paraíba com o programa Cidade Madura, criado para atender idosos de baixa renda, que serviu de modelo para o Programa Viver Mais Paraná, do estado do Paraná.
Cidade Madura é um programa habitacional, iniciado em 2011 e entregue em 2014, que tem como objetivo facilitar o acesso à moradia de idosos de baixa renda e está localizado no bairro Cidade Verde, na zona sul da cidade de João Pessoa. É composto de 40 moradias geminadas, uma praça, uma horta comunitária, um espaço de convivência, um posto médico, uma vaga de estacionamento, um prédio administrativo e uma cabine de segurança (PB AGORA, 2014). Essas casas pertencem ao governo e quem nelas reside apenas tem uma concessão de utilização, o que não lhes permite fazer qualquer tipo de alteração, alugar ou transferir o imóvel. Esse modelo inspirou outras cidades do estado da Paraíba: Campina Grande, Cajazeiras, Guarabira e Pato (MIGUEL, MAFRA, 2019).
O Programa Viver Mais Paraná é destinado a pessoas com mais de 60 anos, sem casa própria e com renda familiar de um a seis salários mínimos, com prioridade para quem tem menor poder aquisitivo.
longevidade
As pessoas selecionadas podem residir por tempo indeterminado e têm de pagar um aluguel social que equivale a 15% do salário mínimo. Os condomínios atendem condições semelhantes às do programa Cidade Madura. Já existem condomínios em Jaguariaíva, Foz do Iguaçu, Prudentópolis, Cornélio Procópio, Irati e Telêmaco Borba e estão em construção em Cascavel, Francisco Beltrão e Ponta Grossa.
Embora essas iniciativas sejam muito positivas na resolução de um problema crescente, as pesquisas têm identificado problemas, como o descumprimento de legislação específica, o subdimensionamento dos ambientes, a existência de necessidades não satisfeitas dos moradores e o isolamento e a falta de comunicação condominial (RODRIGUES et al., 2020).
Nos países onde há muito se apresentam elevados percentuais de população idosa, foram realizadas diferentes alternativas de residência para este grupo populacional, sendo que o envelhecimento no local, ou aging in place, ganha cada vez mais peso. Este conceito vem dos desenvolvimentos conceituais de estar no local e envelhecer em casa (ROWLES, 2000) e é definido como a possibilidade de envelhecer em um ambiente estável (PHILLIPS, WALFORD, HOCKEY, 2011).
Enfatiza as virtudes de receber cuidados em casa: manutenção da autonomia, autoeficácia, expressão e autoestima, privacidade, identidade, manutenção de relacionamentos, conexão com a vizinhança e pertencimento (DAHLIN-IVANOFF et al., 2007; COONEY, 2012; ROWLES, 2000). Além de beneficiar toda a população ao promover o fortalecimento da relação intergeracional entre os idosos e a comunidade em que vivem (FARBER, SHINKLE, 2011).
Ao manter o idoso morando em seu domicílio, lugar importante para ele ao longo de todo o seu ciclo de vida, ele ganha um novo significado nesta última etapa da vida, sendo também o instrumento necessário para permanecer na sociedade (LEBRUSÁN, 2020). Na maioria das vezes, quando questionados, os idosos preferem viver em casa, mas fazê-lo também é positivo para a sua saúde e bem-estar, mesmo para aqueles que são dependentes (PINZÓN-PULIDO, 2016).
Além disso, ficar em casa cumpre importante função psicossocial, pois se configura como parte da representação social e é essencial na autodefinição, ancorando a identidade das pessoas e gerando sentimento de pertencimento (PREECE, 2020).
A questão da identidade é especialmente relevante para os idosos, uma vez que a ausência de socialização nesta fase da vida faz com que o envelhecimento se torne um desafio para a identidade, sendo difícil de definir e, por vezes, de enfrentar. Assim, a continuidade num ambiente conhecido (onde conheço e sou conhecido) cumpre uma função fundamental de ligação entre a velhice e as fases anteriores e, portanto, na própria identidade. Além disso, envelhecer em casa implica em uma decisão ativa e a expressão de um desejo, que simboliza o controle sobre a própria vida, permitindo vivenciar esta fase como uma continuidade, somada às outras e não justaposta, sendo um importante portador de significados relacionados à experiência, biografia e personalidade da pessoa (NYGREN et al., 2007). E, além de tudo, está demonstrado que a permanência dos idosos nas suas casas é a opção mais econômica para o Estado (ROWLES, 1993).
Na Espanha, a experiência Etxean Ondo (“viver bem em casa”), promovida pelo Governo Basco e pelo Instituto Gerontológico Matia, visa avançar na revisão do modelo de cuidados aos idosos sob uma abordagem ecossistêmica, territorializada e comunitária.
Assim, a continuidade num ambiente conhecido (onde conheço e sou conhecido) cumpre uma função fundamental de ligação entre a velhice e as fases anteriores e, portanto, na própria identidade.
longevidade
Ela é realizada através do desenvolvimento de uma proposta de cuidados integrais no domicílio, incorporando e coordenando os diferentes papéis desempenhados pelos agentes envolvidos nesses cuidados: as famílias, os serviços sociais, os cuidados de saúde primários e especializados, o setor laboral do lar e os cuidados, os assistentes pessoais, o voluntariado, os serviços comunitários e as iniciativas de participação comunitária. Tem como objetivo passar de um modelo administrativo rígido para um modelo de atenção integrado. Esse novo modelo de atenção integrada conteria os seguintes princípios: autonomia, escolha, integralidade, individualização, inclusão social, independência e continuidade.
Mas, para que um idoso permaneça em casa, devem-se reunir condições adequadas para que compensem, de alguma forma, a deterioração de sua saúde e capacidade funcional (MIGUEL et al., 2018).
As deficiências das residências as tornam incapazes de proporcionar qualidade de vida aos seus moradores, sejam eles idosos ou não. Estas questões não estão tanto relacionadas, no caso do déficit, com a dimensão do parque habitacional, mas sim com as suas especificidades e características. Esses problemas exigem políticas públicas não
apenas voltadas à construção de novas moradias, mas também voltadas à melhoria das moradias existentes, melhorias que vão desde a regularização (títulos e urbanização) até a oferta de cobertura e infraestrutura de serviços básicos – como a instalação de unidades sanitárias, o abastecimento de água, a coleta de lixo, o fornecimento de energia, entre outros (FJP, 2017).
Para saber mais sobre a questão da inadequação habitacional, utilizamos o último relatório, de 2022, da Fundação João Pinheiro (FJP), que realizou um cálculo do déficit habitacional e da inadequação habitacional no Brasil e suas regiões. São apresentados os resultados atualizados da inadequação de endereços, entre 2016 e 2019, com base na “reponderação” da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua – PnadC (IBGE, 2021).
No referido documento, as residências são classificadas como inadequadas seguindo os seguintes critérios: a) inadequação da infraestrutura urbana, vinculada aos subindicadores abastecimento de água, águas residuais sanitárias, coleta de lixo e energia elétrica;
b) inadequação da edificação, relacionada ao tamanho da moradia, armazenamento de água, número de dormitórios, ausência de banheiro e cobertura
Tabela 1. Quantitativo de famílias com inadequações e respectivas soluções¹
Tipo de inadequação Solução de melhoria habitacional (14)
Material de parede inadequado
Adensamento excessivo com possibilidade de melhoria habitacional
de banheiro
de piso inadequado
Ausência de água canalizada
banheiro isolado/contíguo
de instalações hidrossanitárias
Ausência de alternativa de esgotamento sanitário Fossa séptica e sumidouro
Ausência de abastecimento de água por rede pública Kit caixa d’água
Ausência de energia elétrica em domicílio ou cômodos
rede elétrica interna
Quantidade total de famílias que moram em domicílio próprio com pelo menos um tipo de inadequação
Quantidade total de famílias registradas no Cadastro Único
1 Considerando que um domicílio pode apresentar mais de uma inadequação habitacional, ao somar a “quantidade total de famílias que moram em domicílio próprio com pelo menos um tipo de inadequação” foram excluídas as duplicatas, de modo que cada domicílio com ao menos uma inadequação habitacional foi contabilizado apenas uma vez.
A Tabela 1 evidencia o panorama geral das inadequações habitacionais no Brasil a partir do tipo de inadequação, solução de melhoria indicada e quantidade de famílias afetadas no meio urbano e rural.
Na Tabela 2 podemos apreciar a variação entre os dados do CadÚnico de 2019 e os de 2024.
Fonte: Ipea (2025).
Ela revela que, na maior parte das inadequações habitacionais, o percentual de famílias com determinada inadequação apresentou variações positivas e/ ou negativas de até 10%, sendo o aumento mais expressivo a “ausência de energia elétrica no domicílio ou cômodos”, que teve um crescimento de 45,3% no período. Com aumentos acima de 25%, também são destacadas a piora nas situações de
Tipo de inadequação
Tabela 2. Variação, por ano de referência, com relação aos tipos de inadequação habitacional
Solução de melhoria habitacional
de parede inadequado
excessiva Novo cômodo isolado/contíguo
de banheiro Novo banheiro isolado/contíguo
de piso inadequado Contrapiso e revestimento cerâmico novo em cômodo padrão
Ausência de água canalizada Revisão/instalação de instalações hidrossanitárias
Ausência de alternativa de esgotamento sanitário Fossa séptica e sumidouro
Ausência de abastecimento de água por rede pública
Ausência de energia elétrica em domicílio ou cômodos Revisão/instalação de rede elétrica interna
Fonte: Ipea (2025).
“ausência de alternativa de esgotamento sanitário” (25,5%) e “ausência de abastecimento de água por rede pública” (27,1%).
Embora estes dados sejam da população geral, é fácil compreender que as pessoas que vivem nestas casas quando envelhecem enfrentam os mesmos problemas, colocando ainda mais em risco a sua qualidade de vida.
Quantidade de famílias (CadÚnico 2019) – Total (Urbano+Rural)
de famílias (CadÚnico 2024) – Total (Urbano+Rural)
Vários estudos desenvolvidos por Hui et al., (2014), Agnelli (2012), Tomé e Másculo (2006) e Mustaquim (2015) mostram que os lares dos idosos devem ser analisados de forma a melhorar a sua qualidade de vida, lares onde as barreiras arquitetônicas, o design e as questões ergonômicas não impeçam a sua autonomia e independência e que garantam segurança e mobilidade diária confortável dentro do seu espaço.
Na realidade, muitos idosos no seu dia a dia encontram diversos problemas devido à falta de rampas ou sinalização adequada, à falta de conforto térmico, acústico e visual ou à poluição sonora e visual (BESTETTI, GRAEFF, DOMINGUES, 2012).
Ao analisar os elementos que devem ser levados em consideração em um lar para idosos, Pistori e Ferrão (2014) apontam: a eficiência do mobiliário, a racionalidade da circulação, a localização e disposição dos equipamentos e seus métodos de manuseio. Para obter bons resultados com as mudanças é necessário observar e analisar o dia a dia de quem mora ali e o tempo e uso que a pessoa idosa faz de cada ambiente e, a partir daí, fazer as modificações necessárias.
Na Espanha existe também um problema de inadequação da habitação para os idosos, embora não em um grau diferente. Atualmente há 1.596.675 pessoas com mais de 65 anos que residem em habitações que sofrem do que poderia ser descrito como extrema vulnerabilidade residencial. Isso significa que residem em lares que acumulam uma série de problemas: habitabilidade, saúde, segurança, isolamento ou provisões mínimas de
bem-estar. Esses problemas nunca aparecem isolados, mas combinam-se de tal forma que afetam gravemente a qualidade de vida das pessoas que vivem nessas casas. Quanto mais problemas graves sofremos (não ter banheiro ou água canalizada, problemas na estrutura do edifício que colocam em risco a nossa segurança etc.) mais comum é que sofram também de outros problemas (como não ter aquecimento ou um elevador). Falamos de vulnerabilidade residencial extrema quando esta combinação de problemas ocorre na mesma casa (LEBRUSÁN, 2018).
A não existência de elevador em edifícios de vários andares provoca isolamento e solidão nos idosos que ali residem e, consequentemente, problemas sociais e de saúde.
Na imagem seguinte podem ver as zonas da Espanha onde existe maior número de habitações sem elevador entre as 840 mil existentes.
Por último, gostaríamos de salientar que adaptar a casa de um idoso, algo necessário para que possa permanecer em casa e melhorar a sua qualidade de vida, não é transformá-la em algo estranho.
1. Arborização das cidades: As árvores nas cidades melhoram a qualidade do ar, reduzem a poluição sonora, proporcionam sombra, amenizam a temperatura ambiente e aumentam a umidade relativa do ar. O Brasil conta com legislação e planos nessa área. Respostas à pesquisa divulgada no Guia Global Cidade Amiga do Idoso sobre o tema (OMS, 2007, p. 12 e 13) apontam a importância do ambiente de temperaturas equilibrados, dotado de áreas verdes, limpo e livre de poluição do ar e sonora.
2. Vias públicas reversíveis para atividade física: A liberação para pedestres das vias públicas cotidianamente usadas por veículos cria oportunidade para que as pessoas se movimentem, realizando atividade física e até exercício físico – este com orientação de profissional habilitado. No Guia Global (2007, p. 68), em vários países as pessoas idosas mencionaram atividade física e orientação para prevenção de lesões como serviços importantes e fatores de promoção da saúde.
A questão urbana é muito importante se levarmos em conta que atualmente mais da metade da população mundial vive em cidades.
Nilton Silva
As políticas urbanas brasileiras preveem espaços públicos de lazer e áreas verdes (Brasil, 2001).
3. Mobiliário urbano para pausa em trajetos longos: O mobiliário urbano atende à demanda de descanso em trajetos longos e para abrigo e convivência em paradas de transporte público e em praças e parques da cidade. São equipamentos previstos no Estatuto da Cidade (BRASIL, 2001) e constam das respostas à pesquisa da OMS (2007) como requisitos do conforto, bem-estar e saúde.
4. Calçadas adequadas:
As características de uma calçada adequada são acessibilidade; largura adequada; fluidez; continuidade; segurança contra queda; espaço de socialização e conforto ambiental (PREFEITURA DA CIDADE do Rio de Janeiro, 2019). Em várias localidades do mundo, as calçadas representam barreiras e perigo para a integridade física dos cidadãos (OMS, 2007, p. 13).
5. Áreas de acessibilidade física e motora: O acesso a todas as estruturas construídas, como rampas, corrimãos, soluções para desníveis e proteções de parada de transportes é
regulamentado por norma técnica específica (ABNT, 2020) e também pela Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (BRASIL, 2015) sobre barreiras à circulação pela cidade. Em vários países a acessibilidade é ponto crucial pouco atendido pelos planejadores e gestores urbanos (OMS, 2007).
6. Sistemas de acessibilidade sensorial: Constituídos por sinalização e iluminação, os sistemas constam de letreiros, avisos luminosos, cartazes, entre outros materiais e equipamentos, que atendem aos sentidos da visão, audição, tato e olfato. O objetivo é a clareza obtida com “linguagem simples” (PREFEITURA de São Paulo, 2020) e por “design universal” (FRANCISCO, MENEZES, 2011) em escadas e entradas/saídas; prédios públicos; veículos de transporte público; em toda situação que precisa ser bem conhecida para prevenir acidentes; em estações e pontos de ônibus, de forma adequada à leitura e ao entendimento dos horários e trajetos. Também há recursos para a participação cultural com uso de audiodescrição e legendagem e libras.
longevidade nas moradias e nos ambientes
Conclusão
Como se viu, quando se fala de cidade e do direito à cidade dos idosos e da sociedade geral, nos referimos ao direito de usufruir de uma vida urbana, de seus espaços livres, públicos, de equipamentos e serviços com qualidade, de autogerir os recursos disponíveis, de acesso a uma moradia digna e adequada às necessidades, além de fortalecer a autonomia e cidadania.
Para conseguir isso, devemos eliminar as barreiras de mobilidade e acessibilidade – como a qualidade das vias e calçadas. As barreiras ainda constituem um grande desafio para as cidades adequarem sua organização e funcionamento na promoção de uma boa qualidade de vida para as pessoas e especialmente para os idosos – o mesmo acontece com a questão da habitação.
Repensar a cidade para que não seja apenas o habitat ideal para os jovens deve constituir um dos grandes desafios para arquitetos, urbanistas, geógrafos, economistas, sociólogos e outros cientistas envolvidos no planejamento das cidades. Criar espaços urbanos partilhados, inclusivos e amigáveis que incentivem a atividade
social e facilitem o acesso a serviços e oportunidades para todos, incluindo a oferta de espaços verdes e públicos que incentivem a atividade física e a interação social e uma oferta crescente na oferta de serviços adequados, acessíveis, além de um transporte público seguro e responsável.
Levar em consideração o ambiente sociofísico no envelhecimento implica o reconhecimento de que existem outros fatores que influenciam a velhice além da questão biológica, contribuindo, assim, para uma concepção multidimensional e multidirecional do envelhecimento.
Sem esquecer que é muito importante conhecer e ter em conta a opinião dos mais velhos se quisermos alcançar cidades cada vez mais habitáveis para todas as gerações. A idade não impede que as pessoas sejam cidadãs e elas devem ser tratadas como tal.
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Cidadania e envelhecimento: uma experiência formativa com pessoas idosas no Sesc 14 Bis à luz da educação dialógica
Sandra Regina Gomes Gerontóloga e mestra em gestão e políticas públicas. Doutoranda em desenvolvimento, sociedade e cooperação internacional pela Universidade de Brasília (UnB). Fundadora da Longevida – consultoria em gerontologia.
RESUMO
O presente relatório analisa a experiência formativa da oficina Cidadania e a Pessoa Idosa, realizada no Sesc 14 Bis, em São Paulo, no ano de 2025, articulada ao Festival de Integração realizado no Sesc Bertioga. Fundamentada na educação dialógica de Paulo Freire, na construção coletiva do conhecimento e nas diretrizes da Década do Envelhecimento Saudável (2021-2030), a proposta teve como foco o protagonismo das pessoas idosas, a escuta ativa e a reflexão crítica sobre cidadania, direitos e envelhecimento. A metodologia adotada incluiu encontros presenciais, uso do design thinking, Estação das Vozes e palavras geradoras, resultando na elaboração coletiva de perguntas e propostas sobre políticas públicas. Os resultados evidenciam a potência da participação social das pessoas idosas, a persistência de situações de idadismo e desigualdades territoriais, bem como a necessidade de fortalecer estratégias educativas que promovam autonomia, dignidade e cidadania ativa no envelhecimento.
Introdução
O envelhecimento populacional é uma das transformações demográficas mais significativas do século XXI e impõe desafios complexos às políticas públicas, às instituições e à sociedade como um todo. No Brasil, envelhecer não é apenas um fenômeno biológico, mas um processo profundamente marcado por desigualdades sociais, territoriais e de acesso a direitos.
Nesse contexto, a cidadania das pessoas idosas não pode ser compreendida apenas como um status legal, mas como uma prática social e política, construída cotidianamente por meio da participação, da escuta e do reconhecimento das múltiplas velhices. Conforme estabelece o Estatuto da Pessoa Idosa,
“o envelhecimento é um direito personalíssimo e a sua proteção um direito social” (BRASIL, 2003).
Este relatório apresenta e analisa a experiência da oficina Cidadania e a Pessoa Idosa, realizada no Sesc 14 Bis, compreendendo-a como uma ação educativa que dialoga com a perspectiva freiriana de educação libertadora e com as diretrizes internacionais da Década do Envelhecimento Saudável.
Para Paulo Freire, cidadania é um processo educativo e político. Segundo o autor, “ninguém nasce sabendo o que é ser cidadão ou cidadã: a gente aprende, vivendo e se unindo com os outros” (FREIRE, 1996). A cidadania, portanto, se constrói a partir da consciência crítica, do diálogo e da participação ativa na vida coletiva.
cidadania
No campo do envelhecimento, essa abordagem é fundamental para romper com visões assistencialistas e idadistas, que tendem a associar a velhice à dependência ou à incapacidade. O envelhecimento é um processo heterogêneo e individual, e a velhice constitui apenas uma das etapas do curso da vida, não podendo ser reduzida à doença ou à perda de autonomia (BRASIL, 2003).
A Organização Mundial da Saúde (OMS), ao instituir a Década do Envelhecimento Saudável (2021-2030), reforça a necessidade de mudar a forma como pensamos, sentimos e agimos em relação à idade e ao envelhecimento, promovendo ambientes favoráveis, participação social e respeito às capacidades das pessoas idosas (OMS, 2020).
Objetivo geral
Promover uma vivência formativa, reflexiva e participativa sobre cidadania e envelhecimento, fortalecendo o protagonismo das pessoas idosas e sua atuação crítica na sociedade.
Objetivos específicos
• Estimular a reflexão crítica sobre envelhecimento, direitos e cidadania.
• Valorizar a escuta e as narrativas das pessoas idosas.
• Construir coletivamente perguntas e propostas relacionadas às políticas públicas.
• Promover a articulação entre unidades do Sesc no estado de São Paulo.
• Produzir conteúdo a partir das vozes das pessoas idosas, com potencial de replicabilidade institucional.
Metodologia
A oficina Cidadania e a Pessoa Idosa foi desenvolvida como um curso de formação processual, com abordagem qualitativa e participativa. Foram realizados oito encontros presenciais, com duração de duas horas cada, envolvendo aproximadamente 60 pessoas idosas frequentadoras do Sesc 14 Bis, que ocorreram na unidade, no período de junho a agosto de 2025, nos seguintes dias: 24/6, 1°/7, 8/7, 15/7, 22/7, 29/7, 5/8 e 12/8.
Conforme programação nos três primeiros dias (24/6, 1°/7 e 8/7), o grupo de pessoas idosas do 14 Bis elaborou dez questões sobre cidadania e políticas públicas para serem enviadas aos técnicos das demais unidades do Sesc do estado de São Paulo e eles, junto aos seus grupos locais, realizaram um trabalho coletivo para responder às perguntas, que foram devolvidas no dia 10/8 ao Sesc 14 Bis. Abaixo a relação das dez perguntas:
1. O que você pensava sobre o envelhecimento quando tinha menos de 30 anos?
2. Você se sente respeitada(o) pelas pessoas?
3. Você conhece os seus direitos como pessoa idosa, como os previstos no Estatuto da Pessoa Idosa? Já precisou ou conseguiu acessar algum deles?
4. Quais são as suas sugestões de políticas públicas para uma sociedade mais justa em relação à pessoa idosa?
5. Como evitar que os outros decidam por você?
6. Qual a moradia ideal para uma melhora na qualidade de vida da pessoa idosa, levando em consideração a escolha dela?
7. Diante do aumento significativo de golpes visando a pessoa idosa, o que você considera importante para a prevenção?
8. Na sua opinião, o preconceito etário está presente no mercado de trabalho?
9. Se tivéssemos uma medicina preventiva, teríamos melhor qualidade de vida?
10. Você sente que sua cidade oferece boas condições para as pessoas idosas viverem com dignidade e autonomia?
Ao receberem as respostas, os participantes do grupo do Sesc 14 Bis compilaram e analisaram os conteúdos para serem apresentados no Festival da Integração evento realizado no Sesc Bertioga.
Cabe informar que das 43 unidades do Sesc do estado de São Paulo, apenas cinco responderam dentro do prazo: Sesc Jundiaí, Sesc Araraquara, Sesc Piracicaba, Sesc Osasco e Sesc Mogi das Cruzes. Pairou um sentimento de frustração nos participantes do Sesc 14 Bis, provocando um debate sobre o processo participativo, possibilitando que eles e elas, ao invés de reforçarem essa indignação, decidissem fazer do conflito um fator de crescimento político educativo. E concluíram que haveria a necessidade de todas as unidades promoverem espaços, a exemplo do Sesc 14 Bis,
de participação social com foco em uma prática pedagógica planejada e contínua em relação aos direitos das pessoas idosas.
Para otimizar as análises dos conteúdos das respostas, o grupo decidiu criar uma estratégia metodológica que denominou Estação das Vozes (vide Figura 1). O grupo se dividiu, escolheu o nome, justificou o tema e definiu que seria responsabilidade de cada um debater duas perguntas e suas respostas (vide Figura 2), totalizando as dez questões.
Conforme demonstrado a seguir, na Figura 3, utilizou-se a nuvem de palavras (word cloud ),
uma ferramenta de representação visual que destaca graficamente a frequência das palavras em um texto ou conjunto de dados, atribuindo maior tamanho e destaque àquelas mais recorrentes. Essa técnica permite identificar de forma rápida e intuitiva os termos-chave e os temas predominantes do conteúdo analisado. Ao oferecer uma visão panorâmica dos vocábulos mais frequentes, a nuvem de palavras contribui para a análise textual, o levantamento de ideias e a compreensão dos aspectos centrais do material, revelando os elementos de maior relevância em determinado contexto.
artigo
cidadania
Resistência – A pessoa idosa resiste o tempo inteiro
O que você pensava sobre o envelhecimento quando tinha menos de 30 anos?
Mogi das Cruzes Piracicaba Osasco Jundiaí Araraquara Sesc 14 Bis
Predomínio de ‘não pensava’; alguns viam como natural; minorias: visão negativa (‘triste’, ‘pior possível’).
Não se pensava; foco em viver/ trabalhar; alguns associam a amadurecimento e respeito.
Maioria diz que sim, com exceções em transporte e atendimento; alguns relatam idadismo.
Maioria se sente respeitada; ressalvas ao dirigir (jovens desrespeitam).
Velhice vista como distante; alguns esperavam projetos; experiências de trabalho com idosos mudaram perspectivas.
Muitos não pensavam; expectativas às vezes pessimistas/ irreais; alguns cuidavam-se desde cedo.
Você se sente respeitada/do pelas pessoas?
Muitos não pensavam; alguns imaginavam dificuldades; poucos citaram envelhecimento saudável.
Direitos existem no papel, mas não se concretizam; desrespeito no transporte; saúde com filas e pouca prioridade.
Misto: muitos ‘sim’, porém idadismo recorrente no cotidiano (ônibus, filas, atendimento).
Não pensávamos sobre o envelhecimento, mas sobre ter maior idade e independência financeira. Preocupação da nova geração.
Sesc 14 Bis
Respostas variam: alguns ‘sim’, outros ‘mais ou menos’; apontam desrespeito e idadismo. Existe a necessidade de se impor para se ter respeito em todos os contextos, mas primeiramente devemos nos respeitar.
Todos são Aprendizes – Vivemos para aprender
Você conhece os seus direitos como pessoa idosa (Estatuto)? Já precisou/acessou?
Mogi das Cruzes Piracicaba Osasco Jundiaí Araraquara Sesc 14 Bis
Conhecimento parcial; poucos acessos; uso de transporte gratuito e prioridade em filas aparece.
Conhecem parcialmente; poucos acessos; maioria nunca precisou.
Muitos conhecem; dificuldades de exercer; problemas de acessibilidade e mobilidade urbana.
Bastante conhecimento; aplicação difícil; usos mais comuns: filas, transporte, vagas; lacuna entre lei e prática.
Conhecimento parcial dos direitos; poucos acessos; uso mais comum: transporte gratuito e prioridade.
Sim, alguns. Os benefícios mais utilizados são transporte, meiaentrada em eventos e prioridade nos atendimentos.
Suas sugestões em políticas públicas para uma sociedade mais justa em relação à pessoa idosa
Mogi das Cruzes Piracicaba Osasco Jundiaí Araraquara Sesc 14 Bis
Cumprimento do Estatuto; mais acesso à saúde (geriatria/UBS); informação sobre direitos, lazer e acessibilidade.
Mais lazer e informação pública; respeito no trânsito; mais convites para participação política. Saúde digna; acessibilidade urbana; participação política; prevenção; informação; incentivo a ações comunitárias. Uniformizar cumprimento das leis; ampliar saúde/prevenção; escuta ativa aos idosos; fiscalização; mobilidade; moradia digna.
Mais atividades culturais; leis mais rígidas contra crimes; respeito; campanhas nas escolas; inclusão digital.
Mais informações sobre as pessoas idosas na mídia. Falta educação também.
Mogi das Cruzes Piracicaba Osasco Jundiaí Araraquara
O Florecer do Inverno – Começando uma nova fase da vida
Como evitar que os outros decidam por você?
Mogi das Cruzes Piracicaba Osasco Jundiaí Araraquara Sesc 14 Bis
Preferência por casa própria/térrea acessível; sem degraus/tapetes; perto de serviços; alguns citam família ou ILPI acessível.
Atenção e aprendizado; livrearbítrio; manter autonomia; impor o direito de decidir.
Posicionamento, expressão das opiniões e autoconfiança; abrir debates; evitar consentir pelo silêncio.
Manter autonomia/ lucidez/atividade; voz firme; rede de apoio; informação sobre direitos; aceitar limites quando necessário.
Manter opinião própria; mente ativa; recusar a ser comandado; buscar informação; rede de apoio.
Qual a moradia ideal para melhorar a qualidade de vida da pessoa idosa?
Onde se sinta bem e segura; moradias acessíveis (térrea/elevador, adaptações) e opções de baixo custo.
Conforto e segurança; oportunidades de socialização (ex.: atividades Sesc); proximidade da família com autonomia.
Casa térrea/ acessível; condomínios/ complexos para idosos; perto da família e rede de apoio; alternativas com suporte.
Primeiramente analisar a situação e as minhas condições em relação ao proposto pela outra pessoa. Se a minha opinião for discordante da outra pessoa, eu vou explicar o porquê e o meu ponto de vista, o meu desejo.
Preferência por residência plana/adaptada; proximidade de familiares; alguns citam condomínios ou casas de repouso. Moradia ideal é o lugar onde a pessoa idosa se sente bem, com segurança e respeito.
Idosos Ativos – Sempre em atividades
A medicina preventiva melhoraria a qualidade de vida?
Mogi das Cruzes Piracicaba Osasco Jundiaí Araraquara Sesc 14 Bis
Consenso: sim.
Consenso: sim.
Consenso: sim.
Consenso: sim (prevenção reduz custos e melhora bem-estar).
Consenso: sim.
Sim, reduz as internações e o uso de medicamentos. Melhora o bem-estar geral. Contribui para a saúde mental.
Sua cidade oferece boas condições para idosos viverem com dignidade e autonomia?
Mogi das Cruzes Piracicaba Osasco Jundiaí Araraquara Sesc 14 Bis
Predominância de ‘não’; calçadas ruins, transporte difícil e acesso à saúde insuficiente; alguns veem avanços pontuais.
Demandas por vias públicas e ônibus melhores; alguns dizem ‘oferece se você procura’; avaliação geral: precisa melhorar.
Visão crítica: falta acessibilidade, saúde e segurança; necessidade de melhorias estruturais. Muitos ‘não’; calçadas/ônibus/ saúde precários; Sesc visto como ‘oásis’; alguns reconhecem avanços, mas falta muito. Respostas divididas; alguns avaliam ‘sim’, outros dizem que faltam melhorias em infraestrutura e serviços.
Sim, mas depende muito da região onde se mora e da renda familiar.
Mogi das Cruzes Piracicaba Osasco Jundiaí Araraquara Sesc 14 Bis
Movimento Consciente – Conscientização dos direitos e deveres da pessoa idosa
Diante dos golpes contra pessoas idosas, o que é importante para a prevenção?
Mogi das Cruzes
Informação contínua, letramento digital, campanhas na mídia; pedir ajuda a pessoas de confiança; cautela com links/ telefonemas.
Piracicaba Osasco Jundiaí Araraquara Sesc 14 Bis
Acesso à informática; atenção às notícias; consultar alguém de confiança; orientação de familiares/ cuidadores.
Educação para segurança digital; curso no ETA; rede de apoio; tecnologia assistiva; informação contínua.
Informação constante; não agir sozinho; orientação familiar; controles tecnológicos; LGPD insuficiente para o ritmo dos golpes.
Mais orientação; leis severas contra golpistas; conversar com conhecidos; campanhas públicas.
O preconceito etário está presente no mercado de trabalho?
Atenção e informação, não aceitar ajuda de estranhos e compartilhar com as pessoas as ocorrências. Frequentar cursos de conhecimentos básicos e participar de palestras.
Mogi das Cruzes Piracicaba Osasco Jundiaí Araraquara Sesc 14 Bis
Sim, em geral; alguns veem melhora pontual.
Respostas divididas: alguns ‘sim’, outros veem melhora recente, mas ainda há barreiras.
Presente, mas com sinais de mudança e valorização da experiência em alguns setores.
Predominantemente ‘sim’, com alguns sinais de melhora; barreiras permanecem.
Predomínio do ‘sim’; alguns ‘mais ou menos’.
Sim, há uma restrição declarada contra as pessoas idosas, elas incomodam a sociedade.
Essa experiência, que se apoiou no dinamismo da riqueza da participação social, refletiu um potencial do exercício da cidadania, isto é, o grupo do Sesc 14 Bis vivenciou o mais intenso protagonismo social. Todos sentiram-se orgulhosos, responsáveis, cuidadosos, comprometidos e resilientes. Essa concepção suscita a necessidade de se pensar em novos horizontes e orientações para a prática educativa em todos os espaços sociais. O professor Paulo Freire (1995, p. 74) sintetiza essa abordagem com a citação: “Não dá para dizer que a educação crie a cidadania de quem quer que seja. Mas, sem a educação, é difícil construir a cidadania.
A cidadania se cria com a presença ativa, crítica, decidida, de todos nós”.
Após a discussão dos principais temas, e com base no conteúdo extraído das respostas, o grupo elaborou uma poesia intitulada Estação das Vozes, utilizando a Inteligência Artificial (IA), conforme apresentada a seguir.
A concretização dessa experiência revelou, nas respostas das dez questões enviadas pelas unidades do Sesc, incluindo o 14 Bis, aspectos recorrentes:
• O envelhecimento, para muitos, não era pensado na juventude, mas passa a ser ressignificado na velhice.
• Persistem situações de idadismo, especialmente nos transportes, atendimentos públicos e no mercado de trabalho.
• O conhecimento sobre direitos das pessoas idosas existe, mas há dificuldades de acesso e efetivação.
• A autonomia aparece como valor central, associada à informação e ao respeito.
• A moradia ideal é compreendida como aquela que garante segurança, dignidade e escolha.
• A medicina preventiva é unanimemente reconhecida como essencial para a qualidade de vida.
• As condições das cidades variam conforme território e renda, revelando desigualdades estruturais.
O resultado do trabalho em grupo desenvolvido no Sesc 14 Bis foi replicado no evento do Sesc Bertioga, em formato pocket, com a realização de três encontros de duas horas cada, nos dias 11, 12 e 13 de setembro de 2025. Participaram dessa experiência duas pessoas idosas, escolhidas pelo grupo, que haviam integrado as atividades desenvolvidas na unidade 14 Bis.
Por meio do processo de aprendizagem dos participantes, foi possível evidenciar a eficácia das práticas participativas como estratégias educativas capazes de promover a construção imediata de novos significados.
Destaca-se, contudo, que diversos outros participantes dessa unidade também compuseram a oficina realizada em Bertioga. A metodologia previamente utilizada foi integralmente replicada e, ao longo das discussões, identificaram-se respostas e percepções semelhantes, com intensa participação dos integrantes do grupo – mais de 70 pessoas – provenientes de diferentes regiões do estado de São Paulo.
Retomando um pouco do desenvolvimento da experiência formativa
Nos encontros iniciais no Sesc 14 Bis, os participantes foram convidados a refletir sobre suas trajetórias de vida, suas percepções em relação ao envelhecimento e cidadania, e como se reconheciam como sujeitos de direitos. A partir dessas reflexões emergiram palavras geradoras como dignidade, autonomia, qualidade de vida, direitos, moradia, informação e idadismo, que passaram a orientar o processo.
A metodologia do design thinking, sugerida por um dos integrantes do grupo, obteve adesão imediata de todas e todos.
Ao longo do processo, o grupo apropriou-se dessa abordagem centrada no ser humano, voltada à resolução de problemas complexos e à promoção da inovação. A metodologia enfatiza a compreensão profunda das necessidades das pessoas por meio da empatia, da experimentação e da colaboração, estruturando-se em etapas como imersão, ideação e prototipagem. Trata-se de um processo interativo e não linear, que favorece a criatividade e contribui para o desenvolvimento de produtos e serviços mais desejáveis, viáveis e factíveis, alinhados às demandas reais.
A proposta contribuiu de forma significativa para a elaboração dos trabalhos e, como informado anteriormente, foi conduzida por um dos integrantes do grupo, com ampla experiência na aplicação dessa metodologia. Por meio do processo de aprendizagem dos participantes, foi possível evidenciar a eficácia das práticas participativas como estratégias educativas capazes de promover a construção de novos significados.
Síntese analítica dos aprendizados
O processo evidenciou que as pessoas idosas:
a) Desejam ser ouvidas e respeitadas.
b) Reconhecem-se como sujeitos políticos.
c) Apresentam propostas concretas para políticas públicas e qualidade de vida.
d) Demonstram capacidade crítica, criativa e colaborativa.
A metodologia adotada fortaleceu vínculos, ampliou repertórios e possibilitou a produção de conhecimento a partir das próprias experiências das pessoas idosas. Em diversos momentos, o grupo demonstrou resistência em encerrar os encontros, expressando o desejo de seguir dialogando e argumentando sobre questões coletivas, em um ambiente marcado por um diálogo respeitoso, inclusivo e participativo.
Considerações finais
A experiência da oficina Cidadania e a Pessoa Idosa demonstra que as pessoas idosas desejam participar ativamente da construção de reflexões e propostas
sobre o envelhecimento e a cidadania. Quando escutadas e reconhecidas como sujeitos políticos, produzem análises críticas, narrativas potentes e contribuições relevantes para as políticas de direitos.
A articulação entre o Sesc
14 Bis e o Festival de Integração do Sesc Bertioga evidencia o potencial institucional do Sesc como espaço de educação cidadã, participação social e promoção do envelhecimento com dignidade. A experiência apresentada reforça a necessidade de ampliar ações educativas baseadas no diálogo, na escuta e no protagonismo das pessoas idosas, contribuindo para a construção de uma sociedade que supere visões assistencialistas e reconheça as pessoas idosas como sujeitos de direitos.
referências
BRASIL. Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003. Dispõe sobre o Estatuto da Pessoa Idosa. Diário Oficial da União, Brasília, 2003.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Década do Envelhecimento Saudável 2021-2030: plano de ação. Genebra: OMS, 2020.
artigo
cidadania
Gerência de Programas e Estudos Sociais do Sesc São Paulo
O presente artigo analisa o Festival da Integração, encontro de pessoas idosas realizado pelo Sesc no estado de São Paulo. O projeto faz parte do Trabalho Social com Pessoas Idosas (TSPI), programa voltado para pessoas com 60 anos ou mais, desenvolvido pelo Sesc. Os encontros de pessoas idosas no Sesc ganharam força na década de 1980 com encontros estaduais, regionais e nacionais. O encontro precursor dos Festivais da Integração foi o Encontro de Esporte e Cultura para a Terceira Idade, que teve início em 1982 no Sesc Bertioga. Será apresentada uma análise histórica do desenvolvimento do festival. O artigo, de caráter qualitativo, fundamenta-se em documentos, bem como em dados estatísticos e depoimentos, buscando compreender sua importância e como ele foi transformado ao longo dos anos, em diálogo com as mudanças na sociedade e na maneira de entender o processo de envelhecimento. Palavras-chave: envelhecimento; gerontologia; políticas culturais; Sesc; Festival da Integração.
This article analyzes the Integration Festival (Festival de Integração), a gathering for older adults organized by Sesc in the state of São Paulo. The project is an integral part of the Social Work with Older Adults program, developed by Sesc for individuals aged 60 and over.
The organized gatherings for older adults at Sesc gained significant momentum during the 1980s through state, regional, and national meetings. The precursor to the Integration Festivals was the Sports and Culture Gathering for Older Adults, which originated in 1982 at Sesc Bertioga.
This article presents a historical analysis of the development of the festival. Using a qualitative approach, the study is based on documentary sources, as well as statistical data and testimonies, in order to understand its significance and how it has evolved over the years in dialogue with social changes and with shifting perspectives on the aging process.
Keywords: aging; gerontology; cultural policies; Sesc; Festival da Integração.
artigo
3
festival da integração: diversidades e confl uências
Introdução
Com o crescimento da população de pessoas idosas, é preciso repensar todo o processo de envelhecimento, considerando as várias velhices e seus territórios diversos. O aumento acelerado da expectativa de vida pode ser atribuído ao maior acesso às vacinas, aos antibióticos e ao saneamento básico, entre outros fatores. Apesar da longevidade ser uma vitória da humanidade, as pessoas velhas muitas vezes ainda não têm seus direitos efetivados. A maior parte sofre com as desigualdades sociais, muitas delas vividas ao longo de toda sua existência e aprofundadas na velhice.
Envelhecer não é um processo singular, ele é variável e condicionado pela sociedade, pela biologia e pelo indivíduo. Assim, o envelhecimento é uma aventura que começa muito antes do nascimento, ele é construído pela sociedade e suas escolhas, que deveriam considerar todo o processo de vida e de como cada etapa interfere na velhice. As ações do Sesc nesse campo, além de atender o próprio indivíduo, também tornam visíveis as demandas de quem envelhece, bem como discutem e pesquisam qual é a velhice que todos os indivíduos desejam e têm o direito de acessar.
Surgido em 1963, no Sesc Carmo, unidade localizada no centro de São Paulo, o Trabalho Social com Pessoas Idosas (TSPI) inicialmente tinha um público de homens aposentados que recebiam suas pensões e ficavam na unidade, comumente jogando cartas e conversando para passar o tempo. Os técnicos do Sesc, a partir da observação desses aposentados, iniciaram uma pesquisa sobre como seria a vida pós-trabalho em países mais longevos da época, como Estados Unidos e França. Baseados em visitas in loco e em estudos, os orientadores da instituição criaram os primeiros grupos de convivência, que se desenvolveram juntamente com as mudanças sociais.
Um exemplo é que naquela época o público era prioritariamente masculino, enquanto atualmente as unidades recebem em suas atividades do TSPI uma grande maioria de frequentadoras mulheres. Para entender tal diferença, é necessário olhar para o contexto da época. O Censo de 1960 indicava que a maioria da população se concentrava na zona rural (54,92%). A pílula anticoncepcional, desenvolvida em 1960 nos Estados Unidos, só chegou ao Brasil em 1962.
No mesmo ano foi criada a Lei nº 4.212/1962, permitindo que mulheres casadas não precisassem mais da autorização do marido para trabalhar.
Assim, naquele tempo, o lugar do feminino ainda era o espaço privado, realidade transformada aos poucos pelos movimentos feministas.
Conforme conta Marcelo Salgado, gerontólogo, epidemiólogo do envelhecimento e um dos responsáveis pelo desenvolvimento do TSPI no Sesc São Paulo, em entrevista à revista A Terceira Idade1 .
Fui admitido em 1970 na carreira de orientador social. Após trabalhar alguns meses nas Unidades Móveis de Orientação Social, fui transferido para o Sesc Carmo, unidade operacional onde se iniciava o primeiro trabalho com idosos. Ali encontrei uma pequena nucleação de pessoas da terceira idade, um grupo formado basicamente por homens. Quase todos eram aposentados da atividade do comércio; se encontravam após a refeição; e se entretinham com jogos de salão, leitura de jornais e revistas etc. Colaborando na organização desse grupo, conhecendo seus participantes e ajudando-os a definir seus interesses e expectativas, foi como ingressei nessa área social (GERÊNCIA, p. 72, 2003).
Na fala de Salgado, podemos observar alguns dos procedimentos que ainda hoje orientam o trabalho dos técnicos2 do TSPI: organizar
grupos de pessoas idosas e ouvi-las para, a partir daí, em conexão com a realidade social e política, criar ações relevantes para esse público.
A metodologia do trabalho em grupos acompanha o TSPI ao longo dos anos. Os agrupamentos, mesmo que informais, como atualmente acontecem nas unidades, permitem o atendimento qualificado e o desenvolvimento de ações que coadunam com as realidades vividas pelas pessoas frequentadoras. Além disso, conforme explica Lilian Ladislau, socióloga e gerontóloga, que também trabalhou no TSPI, os agrupamentos geram trocas que proporcionam bem-estar físico, emocional e psicológico.
A observação da convivência de idosos do Sesc comprova que por intermédio de atividades físicas, culturais e artísticas, eles têm aproveitado essas oportunidades para o desenvolvimento da criatividade e, através do convívio, percebem sua força social. No que diz respeito à qualidade de vida, os idosos foram unânimes em afirmar que obtiveram melhoras tanto no aspecto físico, com a prática de esportes e ginástica, como no psicológico, melhorando suas ações interpessoais (LADISLAU, p. 21, 2002).
1 A Revista Mais 60 - Estudos sobre Envelhecimento é um continuação da revista A Terceira Idade, criada em 1988, e que foi um desdobramento e um aperfeiçoamento gráfico e de conteúdo dos antigos Cadernos da Terceira Idade, boletim criado em 1977 que buscou, num primeiro momento, servir de intercâmbio técnico entre os profissionais da Instituição. De lá até aqui, a revista A Terceira Idade evoluiu bastante, assumindo um formato de periódico científico com suas precisas normas de publicação. Em 2014, uma atualização editorial alterou o nome, layout e conteúdo da publicação. Desde 2023, foi iniciada uma nova revisão, que inclui, além dos artigos científicos, reportagens, a editoria Envelhecemos, ensaios fotográficos, uma diagramação mais agradável para leitura, entre outras mudanças.
2 Em cada unidade do Sesc São Paulo existe um profissional da programação responsável pelas atividades do TSPI. Esse profissional é chamado de técnico de referência.
O trabalho da instituição foi pioneiro no sentido de iniciar um olhar diferenciado do existente até então para a pessoa que envelhece. Conforme nos revela o psicólogo e especialista em gerontologia José Carlos Ferrigno, que também atuou no Sesc, em texto sobre ação cultural para pessoas idosas, publicado na revista A Terceira Idade, mencionando o início do trabalho do Sesc:
Na época, em razão de uma demanda muito intensa de integração social, os Grupos de Convivência se constituíram como o primeiro modelo de trabalho, caracterizado por atividades recreativas e de confraternização. Tais grupos se multiplicaram pelo país afora e ainda hoje representam importante fator de socialização, principalmente para idosos de menores recursos econômicos e culturais. Atualmente milhares de núcleos dessa natureza se espalham por todo o Brasil, abrigados em entidades públicas e em instituições particulares (FERRIGNO, p. 26, 2005).
Em seu texto, o autor ainda menciona que na época da criação do TSPI, o país tinha pouco mais de 5% de pessoas maiores de 60 anos e que por ser ainda um contingente reduzido não possuía visibilidade social e política.
Rubens Tamashiro
Yara Maria Miguel ministra oficina de Dança Circular Afro no festival.
Além disso, as ações neste setor concentravam-se na caridade e filantropia, principalmente por meio de instituições asilares e de assistência básica fornecida por associações religiosas. “Neste contexto nasceu em 1963, no Sesc, um programa pioneiro de atividades culturais e de lazer” (FERRIGNO, p. 26, 2005).
O trabalho do Sesc junto às pessoas idosas traz ainda muito do ineditismo inicial, especialmente em relação às conexões sociais. Apesar de parecer um modelo simples –possibilitar que a pessoa idosa se encontre com seus pares e possa aprender a trocar experiências e se relacionar com o outro –, ele persiste como fundamental para a qualidade de vida das pessoas que envelhecem. E, num momento em que as relações virtuais têm aumentado o nível de isolamento, o encontro com outro ser humano tem uma importância cada vez maior.
O estudo mais longo sobre saúde e longevidade já realizado é o Harvard Grant Study (agora parte do Estudo do Desenvolvimento Adultos – Study of Adult Development). Iniciado em 1938, ele acompanhou 268 estudantes homens de Harvard e 456 de um grupo controle de Boston, durante mais de 75 anos, sem saber como seriam suas histórias de vida.
Cerca de 59 deles, a maioria na faixa dos 90 anos, ainda está participando do estudo. A principal descoberta do estudo é que o sentimento de felicidade e bem-estar está relacionado com vínculos afetivos, sejam eles amorosos ou de amizade. “A qualidade de nossos relacionamentos aos 50 anos é um previsor mais importante de como será a saúde aos 80 anos do que o nível de colesterol. Os bons relacionamentos protegem os cérebros” (LEVITIN, p. 424, 2024).
Encontros de pessoas idosas
Os encontros de grupos de pessoas idosas sempre existiram no TSPI. As finalidades foram as mais variadas: trocas de saberes, sociabilização, formação de grupos, debates sobre direitos e deveres, entre muitos outros. Para atingir tais objetivos foram realizados bailes e confraternizações, passando por encontros regionais de unidades, discussões sobre a Política Nacional do Idoso (1994) e do Estatuto da Pessoa Idosa (2003), inúmeros congressos, seminários e encontros nacionais. De todas as confluências realizadas, neste momento, a mais representativa é o Festival da Integração, que reúne características diversas.
O festival é emblemático do pioneirismo do Sesc, representa um desdobramento dos encontros iniciais do TSPI na década de 1960. Qualifica o convívio das pessoas idosas por meio de ações que dialogam diretamente com desejos, esperanças e apreensões dos maiores de 60 anos, expande a convivência.
O Festival da Integração acontece no Sesc Bertioga, Centro de Férias do Sesc São Paulo que foi inaugurado em 1948 e conta com com piscinas, quadras, restaurante e uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN). O principal motivo para a escolha do local é a possibilidade do convívio intenso. Em sua programação, que dura em média quatro dias atualmente, acontecem aulas de atividades físicas, discussões sobre políticas públicas e as várias velhices, bailes, shows e a possibilidade de entrar em contato com uma área preservada de Mata Atlântica que, para muitas pessoas idosas que migraram do campo para a cidade, representa um reencontro com a natureza.
Criado inicialmente para receber campeonatos de esportes adaptados, ao longo
dos anos o festival foi sendo moldado para se transformar em um encontro de pessoas idosas que discutem e agem pelo bem-estar na velhice. Atualmente recebe cerca de 1.700 pessoas idosas divididas em duas edições. Conforme comentado no artigo da revista Mais 60:
A década de 1980 começava, assim, não apenas com o surgimento de novos centros de convivência pelo interior de São Paulo, o que representava a expansão do TSI, mas com a iniciativa de reuni-los em eventos de grande porte, como os mencionados encontros estaduais, regionais e nacionais, mas também o Encontro de Esporte e Cultura para a Terceira Idade, em Bertioga, que teve sua primeira edição em 1982, com a participação de diversos grupos de idosos, o desenvolvimento de atividades culturais, jogos e brincadeiras que proporcionaram a aprendizagem e estreitaram os laços entre os partícipes (COMISSÃO EDITORIAL, p. 62, 2021).
Muitas mudanças sociais ocorreram desde o primeiro encontro de Esporte e Cultura para a Terceira Idade.
A Política Nacional do Idoso (1994) e o Estatuto da Pessoa Idosa (2003) estão entre elas e viraram realidade por conta das reivindicações das pessoas idosas. E, podemos dizer que, de algum modo, a organização das pessoas em grupos possibilita o surgimento das demandas coletivas que concernem à faixa etária. Assim, o encontro que tinha o objetivo inicial de proporcionar um momento de práticas esportivas cresceu e, além das atividades físicas, também inclui discussões temáticas, ações artísticas, entre outras atividades que propõem uma reflexão sobre o envelhecimento.
Os encontros de pessoas idosas e as atividades em grupos dão um sentido de pertencimento, possibilitam se reconhecer no outro e entender melhor o momento pelo qual se está passando. Como explica Ferrigno: “Em qualquer parte do mundo tais associações oferecem a preciosa oportunidade de se estabelecer vínculos afetivos e de compartilhar preocupações, angústias, sonhos e desejos com aqueles que vivem o fenômeno do envelhecimento” (FERRIGNO, p. 27, 2005). O festival, por seu caráter coletivo, cumpre essa função.
Os encontros de pessoas idosas e as atividades em grupos dão um sentido de pertencimento, possibilitam se reconhecer no outro e entender melhor o momento pelo qual se está passando.
Para além do sentido de coletividade, o festival também passou a ser pensado como um momento de aprendizado e aprofundamento nos temas relacionados ao envelhecer. A principal mudança nessa direção ocorreu em 2014, com encontros temáticos que provocavam a discussão entre grupos e uma finalização coletiva que apresentava a todos os participantes as conclusões alcançadas.
Em 2014, o tema foi “Meu tempo é hoje”; em 2015, “Ainda somos os mesmos?”; em 2016, “Desatar nós, criar laços”; em 2017, “Tempo de sonhar”; em 2018, “Velho mundo novo”; e, por fim, em 2019, “Compartilhar ideias, conectar pessoas”. Os encontros temáticos ocorreram até 2019. Nos anos de 2020, 2021 e 2022, o festival não aconteceu em razão da pandemia de covid-19.
Passado o impacto da pandemia e com o retorno às atividades, percebeu-se a necessidade de incentivar cada vez mais a participação protagonista das pessoas idosas. Assim, a partir de 2023, foram inseridas na programação do encontro apresentações dos trabalhos desenvolvidos ao longo do ano nas unidades.
Os maiores de 60 sobem ao palco para mostrar o resultado de cursos variados, como canto, teatro, políticas públicas, o corpo que envelhece, entre outros. Tal mostra só é possível pois, ao longo do ano, todas as unidades do Sesc em São Paulo oferecem oficinas, cursos, shows, palestras, pontos de encontro, entre outras ações para as pessoas idosas, um conjunto de atividades permanentes, regulares, propiciando um espaço de trocas entre as pessoas que envelhecem, mas também de pesquisa e informação na área.
O festival atualmente
Em sintonia com as transformações sociais das últimas décadas, especialmente o crescimento da população idosa, surgiram novas demandas que reforçam a importância do protagonismo desse público. Assim, representatividade deixa de ser conceito abstrato e se traduz em prática, na medida em que os participantes se reconhecem no que veem no festival e se tornam parte ativa da própria programação. Com o objetivo de valorizar o protagonismo das pessoas idosas e, simultaneamente, dar visibilidade às ações desenvolvidas nas unidades do Sesc, o festival incorporou parte das atividades processuais que ocorrem ao longo do ano.
Essa participação se organiza a partir de um novo fluxo de trabalho: a equipe técnica da Gerência de Programas e Estudos Sociais (Gepros), que trabalha em conjunto com as unidades no desenvolvimento das atividades do TSPI, acompanha regularmente as ações permanentes em toda a rede e identifica e seleciona processos de interesse que podem ser apresentados para o público em Bertioga para compor o festival. Em seguida, inicia-se o diálogo com as pessoas de referência nas unidades para ajustar aspectos específicos
das atividades e verificar as condições necessárias para sua apresentação. As unidades selecionadas enviam pessoas que atuem como elo entre o que foi desenvolvido localmente e o público que terá contato com a ação em Bertioga. Cada processo reúne cerca de 40 participantes e é concluído no próprio festival, onde ocorrem os ensaios e discussões finais. Isso permite que o público participe de ações realizadas em outras unidades ou assista às produções de diferentes localidades, fortalecendo o sentido de integração presente desde seu início.
artigo
3 festival da integração: diversidades e confluências
divulgação
O Festival de Integração de 2024 mostra os resultados dos processos realizados nas unidades do Sesc ao longo do ano.
Em 2025, foram atendidas 25 instituições, o que fortaleceu a presença do Sesc nos territórios e ampliou o alcance do atendimento ao público.
A representatividade surge como elemento central dessa experiência, renovando o sentido de um evento tão longevo. O desejo de ocupar papéis historicamente negados a esse público e de participar de forma mais ativa têm transformado o festival em um espaço de expressão e empoderamento, ampliando o alcance e o significado da ação. Um efeito perceptível desse novo formato é a forma como as unidades passaram a planejar suas programações, muitas vezes já considerando a possibilidade de participação e apresentação no festival. Com isso, as ações regulares ganham nova atenção e sentidos mais definidos, tornando-se mais atrativas e orientadas por objetivos claros, especialmente diante da perspectiva de finalização dos processos em diálogo com outras unidades e públicos.
Ainda como parte das inovações pelas quais o festival passou nos anos recentes, destaca-se a adoção de critérios socioeconômicos como referência para determinar a participação das pessoas interessadas. Como o número de interessados costuma superar o total de vagas disponíveis, tornou-se necessária a definição de critérios de desempate.
Nesse sentido, a partir de 2024, passaram a ser considerados a autodeclaração de renda (até três salários-mínimos), a raça/ cor (com preferência para pessoas pretas e pardas) e a participação em edições anteriores do evento (com prioridade para quem nunca participou). A aplicação desses critérios sobre a lista inicial de interessados resulta na definição da lista final de participantes. Essa mudança permitiu ampliar de modo significativo a diversidade do público presente no festival, especialmente no que diz respeito ao aumento da participação de pessoas autodeclaradas pretas e pardas.
Outra inovação presente nas edições de 2024 e 2025 foi a possibilidade de as unidades operacionais destinarem vagas a pessoas idosas vinculadas a instituições parceiras. A intenção foi garantir que diferentes organizações que atendem pessoas idosas, em diversas regiões do estado e da capital, estivessem representadas por seus participantes. Em 2025, foram atendidas 25 instituições, o que fortaleceu a presença do Sesc nos territórios, ampliou o alcance do atendimento ao público e potencializou o impacto social do Programa.
Integração, sonhos e afetos
Thamires Andrade Reiss, técnica de referência do TSPI do Sesc São Bento, acompanhou os grupos de pessoas da unidade no Festival da Integração 2025
Rogério*, homem preto, carioca, 74 anos, há quase 40 sem ver o mar. Quando convidado para participar da edição de 2025 do Festival da Integração, no Sesc Bertioga, chorou, “quarenta anos sem ver o mar”, repetia. Choramos juntos. Viveu o festival cheio de novos amigos e retornou para casa, uma moradia da prefeitura de São Paulo destinada a pessoas idosas em situação de vulnerabilidade, com o celular cheio de contatos. Ganhou apelidos como “novinho” e “novato”. No ônibus de retorno, puxou Quem Parte Leva Saudade e cantamos todos juntos a música quando cruzamos o portão do Sesc Bertioga, rumo a São Paulo.
Dalva*, mulher preta, paulista de Palmital, 70 anos, a maior parte deles trabalhando como empregada doméstica de uma família que tinha casa na praia. Passava temporadas no litoral com a família para a qual trabalhava. Foi ao festival por meio da gratuidade oferecida ao Centro de Acolhida Especial de Idosos Morada São João e talvez essa tenha sido a primeira vez que ela foi à praia sem estar a trabalho. Muitos dias após o retorno, em uma das atividades que o Sesc São Bento realiza, encontramos Dalva ainda com a pulseira de identificação no braço, carregando consigo a sacola do evento.
A inclusão de pesoas idosas em situação de vulnerabilidade social vai além da oportunidade de conhecer novos espaços, pessoas, atividades, visitar a praia, experimentar refeições maravilhosas, se divertir. É também a possibilidade de reviver histórias, experimentar outras posições, se reinventar — ainda que passados 70 anos de vida. Possibilidade de carregar no corpo e na memória dias feitos de sol e de sonhos.
*Os nomes das pessoas mencionadas neste relato são fictícios, preservando a identidade dos participantes.
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festival da integração: diversidades e confluências
Continuidade
Enfrentar os desafios que marcam o envelhecimento hoje exige pensar o futuro de maneira planejada e comprometida com uma vida mais digna para todas as pessoas idosas. Assim como ocorreu com os movimentos sociais que contribuíram para a criação da Política Nacional do Idoso, em 1994, e do Estatuto da Pessoa Idosa, em 2003, é fundamental fortalecer espaços coletivos de participação. Esses encontros, embora promovam convivência e momentos de lazer, vão além: tornam-se oportunidades para refletir sobre direitos, projetar expectativas e construir sentidos compartilhados sobre o envelhecer.
Ao conviver em grupo, torna-se evidente aquilo que falta, o que foi negado ao longo das gerações e o que ainda precisa ser garantido. Esse processo favorece a elaboração conjunta de reivindicações e a identificação de caminhos possíveis para mudanças sociais. É no diálogo com o outro, muitas vezes percebido como um espelho, que se ampliam a consciência crítica e o desejo de transformação.
Por isso, os próximos encontros de pessoas idosas têm potencial para se consolidar como espaços de criação e fortalecimento coletivo.
Ao imaginar e reivindicar uma velhice com direitos assegurados, esses grupos também ajudam a projetar o futuro de toda a sociedade.
O Festival de Integração de 2025 apresenta Grupo Cupuaçu de cultura popular.
referências
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COMISSÃO EDITORIAL. O Trabalho com Idosos (TSI) do Sesc: trajetórias e realizações. Mais 60: Estudos sobre Envelhecimento, São Paulo: Sesc, n. 80, p. 54-75. 2021. Disponível em: https://sesc.digital/conteudo/ palestras-cursos-e-seminarios/mais-60/ mais-60-estudos-sobre-envelhecimentovolume-32-n-80. Acesso em: 9 fev. 2026.
FERRIGNO, José Carlos. Ação cultural e terceira Idade. A Terceira Idade: Estudos sobre Envelhecimento. São Paulo: Sesc São Paulo: Geti, v. 16, n. 32, p. 25-37, fev. 2005. Disponível em: https://sesc.digital/ conteudo/cidadania/mais-60/a-terceiraidade-estudos-sobre-envelhecimentovolume-16-no32. Acesso em: 12 fev. 2026.
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LADISLAU, Lilia. Lazer e participação social. A Terceira Idade: Estudos sobre Envelhecimento
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LEVITIN, Daniel J. O bom da idade: um neurocientista examina o poder e o potencial de nossas vidas. Rio de Janeiro: Objetiva, 2024.
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SANTOS, Micaela. Pobreza e extrema pobreza caem ao menor nível da série do IBGE. G1, São Paulo, 3 dez. 2025. Disponível em: https:// g1.globo.com/economia/noticia/2025/12/03/ brasil-extrema-pobreza-da-serie-historicado-ibge.ghtml. Acesso em: 19 fev. 2026. Disponível em: chrome-extension:// efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/ https://repositorio.ipea.gov.br/server/ api/core/bitstreams/dbb60fd6-4a0f4bc3-8122-7419619c07f8/contente. Acesso em 30mar. 2026.
Corpo-cidadão, vozes coletivas: uma experiência política e cidadã no Sesc São Carlos
Gabryelle Nogueira Modesto Educadora especial pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), técnica de programação e do Trabalho Social com Pessoas Idosas no Sesc São Carlos. gabryelle.modesto@sescsp.org.br
Lucas Pelegrini Nogueira de Carvalho Gerontólogo (UFSCar), mestre em ciências da saúde (UFSCar), doutor em ciências pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto (EERP/USP), docente e vice-coordenador do curso de bacharelado em gerontologia (UFSCar) e coordenador do Laboratório de Pesquisa em Envelhecimento, Cognição e Saúde Mental (Lapecs/UFSCar). lucaspnc@ufscar.br
Agradecemos a todas as pessoas idosas que, de maneira ativa, engajada e reflexiva, participaram e abrilhantaram os encontros de nossa oficina: Altemiro, Arlete, Carmen, Carolina, Cláudio, Cleuza Oliveira, Cleuza Martines, Eliziara, Felício, Jorge, Laice, Luís Roberto, Luiz Carlos, Maria Cecília, Maria Lúcia, Maria Moreno, Marisa, Marlene, Neli, Rosa, Silvana, Vera Periotto e Vera Dellapina, muito obrigado! Agradecemos, também, a profª drª Mariza Silvana Zazzetta e ao fisioterapeuta e professor de teatro Marcio Antônio Antunes da Silva pela participação em nossos encontros: suas vivências e conhecimentos agregaram imensurável valor ao processo, gratidão!
Introdução
Como parte do processo de curadoria e planejamento de programação, somos constantemente confrontados e confrontadas com questões essenciais sobre a relevância e o impacto das propostas. A dúvida é sempre a mesma: aquilo fará sentido para o público que desejamos alcançar?
Quando surgiu a oportunidade de desenvolvermos uma oficina focada em políticas públicas para a pessoa idosa, o desafio inicial foi ousar na metodologia. Pensamos em como enriqueceríamos o tema com elementos que são caros ao Sesc, como o cunho artístico-cultural e a expressão corporal. A meta era misturar o conteúdo denso da política com o corpo e a voz, testando se esta fusão de elementos faria sentido para as pessoas idosas.
O que nos surpreendeu e validou a escolha foi o engajamento e a alta aderência do público de pessoas idosas ao longo de todo o processo. Esse entusiasmo demonstrou que a interseção entre o saber político e a vivência artística é um caminho poderoso para o empoderamento. Assim, motivados por este engajamento e todos os desdobramentos observados a partir desta ação, compartilharemos um relato de experiência sobre a oficina Corpo-Cidadão, Vozes Coletivas: Oficina sobre Políticas Públicas para Pessoas Idosas.
Ao trabalhar o corpo como território político e a voz como instrumento de afirmação e pertencimento, a proposta buscou fortalecer o protagonismo da pessoa idosa na esfera pública e em sua própria trajetória.
corpo-cidadão, vozes coletivas
Envelhecer é um ato [político]
O envelhecimento da população brasileira é um fenômeno social e demográfico cada vez mais evidente, e com ele emergem novos desafios para a construção de uma sociedade mais justa, inclusiva e democrática. Dados recentes do censo demográfico (IBGE, 2024) indicam que entre os anos 2000 e 2023 a população idosa passou de 8,7% para 15,6% em nosso país, ou seja, em um curto período de tempo, o número de pessoas com 60 anos ou mais no Brasil esteve próximo de dobrar. Em meio a esse cenário, torna-se urgente desenvolver estratégias que reconheçam as pessoas idosas como sujeitos de direitos, com voz ativa e capacidade de participar criticamente dos espaços de deliberação, decisão e transformação social. No entanto, ainda é comum que as pessoas idosas enfrentem barreiras para o exercício da cidadania plena, como o desconhecimento de seus direitos, o distanciamento dos espaços políticos e a falta de oportunidades para expressar suas experiências e perspectivas (KAZMIRCZUK et al., 2025).
As políticas públicas voltadas ao envelhecimento, como o Estatuto da Pessoa Idosa, a Política Nacional do Idoso e a Política Nacional de Saúde
da Pessoa Idosa, representam importantes conquistas sociais. No entanto, o acesso à informação e à participação política ainda é limitado para grande parte dessa população, em especial no que diz respeito à ocupação de conselhos, audiências públicas, processos orçamentários e outros mecanismos de controle social (SOUZA; MACHADO, 2018; KAZMIRCZUK et al., 2025).
Paralelamente, a desvalorização simbólica do corpo envelhecido e a invisibilização das vozes das pessoas idosas contribuem para a manutenção de estigmas e para o apagamento de suas histórias e contribuições sociais (DUTRA, CARVALHO, 2021).
Neste sentido, a oficina CorpoCidadão, Vozes Coletivas:
Oficina Sobre Políticas Públicas para Pessoas Idosas surgiu como uma proposta de formação, escuta e expressão que reconhece o potencial transformador de vivências, corpos e narrativas das pessoas idosas. Mais do que um espaço de transmissão de conteúdos, a oficina propôs a construção coletiva de saberes, em uma abordagem que articulou conteúdos formativos sobre políticas públicas, práticas corporais e vocais, produção textual e vivências culturais. Ao trabalhar o corpo como território político e a voz como instrumento de afirmação e pertencimento, a proposta buscou fortalecer
o protagonismo da pessoa idosa na esfera pública e em sua própria trajetória.
Além de estimular o conhecimento sobre direitos e políticas públicas, a oficina também promoveu o desenvolvimento da consciência corporal, da expressão vocal e da produção autoral, reconhecendo essas dimensões como fundamentais para a cidadania ativa. Ao final, pretendia-se que as pessoas participantes não apenas ampliassem sua compreensão sobre o funcionamento das políticas públicas, mas também
fortalecessem sua autonomia e capacidade de se posicionar enquanto agentes políticos. Esta foi, portanto, de uma proposta que valorizou o cruzamento entre política, corpo, memória e criação, em uma perspectiva de envelhecimento cidadão, expressivo e coletivo. Como objetivo principal, a oficina buscou fortalecer a participação social, ampliar a consciência sobre direitos e estimular o engajamento em espaços de cidadania ativa, contribuindo para que as pessoas idosas se reconhecessem como agentes de transformação em suas comunidades.
A oficina Corpo-Cidadão foi realizada em Bertioga, no Festival da Integração.
Divulgação
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corpo-cidadão, vozes coletivas
Ao longo do processo, buscamos integrar conteúdos formativos, práticas expressivas e vivências que fortalecessem o protagonismo, a cidadania e a articulação entre corpo, voz e ação política.
A caminho da cidadania: implementação, métodos e atividades propostas
A oficina foi conduzida com base nos princípios da educação popular e da pedagogia crítica (FREIRE, 2025; SPOHR et al., 2021), valorizando a escuta ativa, as experiências de vida das pessoas idosas e a construção coletiva do conhecimento. Ao longo do processo, buscamos integrar conteúdos formativos, práticas expressivas e vivências que fortalecessem o protagonismo, a cidadania e a articulação entre corpo, voz e ação política.
Os encontros ocorreram presencialmente, de forma semanal, sempre com duas horas de duração, ao longo dos meses de julho e agosto de 2025. Cada encontro foi organizado como um espaço de convivência, criação e troca, articulando múltiplas linguagens, como a falada, escrita, corporal e artística, de modo a estimular a participação crítica, afetiva e engajada das pessoas participantes. As atividades combinaram momentos expositivos, rodas de conversa, dinâmicas de grupo, vivências corporais, exercícios de expressão vocal e oficinas de criação textual. Utilizamos diversos recursos didáticos, como cartilhas, vídeos, músicas, textos acessíveis, imagens e exercícios práticos que favoreceram a reflexão e a expressão.
Para além das atividades presenciais, as pessoas idosas foram convidadas a produzir conteúdo literário e/ou artístico sobre envelhecimento, participação social e políticas públicas. Como elementos, poderiam abordar os temas a partir de suas próprias vivências, experiências, percepções e questões relacionadas ao idadismo, por exemplo. Para tanto, se expressaram por meio de desenhos, poesias, acrósticos, textos livres, paródias de músicas, práticas teatrais/ corporais, entre outros.
O acompanhamento pedagógico foi realizado por facilitadores com experiência em gerontologia, políticas públicas, arte e expressão corporal. Ao final da trajetória, organizamos um momento de sistematização e celebração por meio de um sarau, no qual os participantes compartilharam suas produções e reflexões construídas ao longo da oficina. A seguir descreveremos as atividades realizadas nos encontros.
Descrição das atividades
Encontros 1 a 3 – Políticas públicas, direitos e cidadania: Os três primeiros encontros foram dedicados à apresentação, de forma participativa e acessível, dos direitos das pessoas idosas,
do funcionamento das esferas de governo e dos espaços de participação social, como conselhos e audiências públicas. Discutimos conceitos fundamentais sobre políticas públicas, seus tipos e suas relações com o cotidiano da população idosa.
Encontros 4 e 7 – Vivências em palavras: Esses encontros foram voltados à criação textual. Em oficinas de escrita por meio de poemas, versos, relatos ou outras formas livres, os participantes transformaram em palavras as vivências, emoções e reflexões surgidas ao longo da oficina, valorizando suas narrativas e sensibilidades.
Encontros 5 e 6 – O corpo é político: Nesses encontros, trabalhamos o corpo como meio de expressão, presença e ação no mundo. Por meio de práticas corporais e exercícios de voz, estimulamos a consciência corporal, a comunicação e a liberdade de expressão.
Encontro 8 – Sarau e encerramento: O encontro final foi marcado por um momento coletivo de celebração. Realizamos um sarau com apresentações voluntárias, leituras, performances e partilhas simbólicas, em um clima de convivência e reconhecimento das vozes e corpos que se colocaram em movimento durante todo o processo.
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Corpos e vozes com vida: reflexões e desdobramentos da experiência
A oficina Corpo-Cidadão, Vozes Coletivas: Oficina sobre Políticas Públicas para Pessoas Idosas se insere na urgência de responder ao crescente envelhecimento da população brasileira. Embora existam conquistas legais significativas, como o Estatuto da Pessoa Idosa, muitas pessoas idosas ainda enfrentam barreiras, como o desconhecimento de direitos e a desvalorização simbólica de seus corpos e narrativas.
A oficina buscou confrontar essa realidade, com o objetivo de fortalecer o protagonismo da pessoa idosa, trabalhando o corpo como território político e a voz como instrumento de afirmação e pertencimento.
Como citado anteriormente, ao longo deste intenso percurso estruturado nos oito encontros, as pessoas participantes mergulharam em temas cruciais: as políticas públicas, a projeção de voz e o debate aprofundado sobre direitos da pessoa idosa.
Um dos momentos mais sensíveis e notáveis foi o trabalho dedicado à projeção de voz e expressão vocal. Para muitas pessoas idosas, retomar ou descobrir a capacidade de se fazer ouvir foi um ato empoderador. Essa dimensão técnica foi rapidamente absorvida, pois se conectava diretamente ao objetivo de usar a voz como instrumento de afirmação. A dedicação intensa nesse processo demonstrou o compromisso com a construção de um instrumento poderoso para a cidadania ativa.
O clímax dessa jornada foi o sarau de encerramento. Foi um momento de sensibilidade, no qual as pessoas idosas vivenciaram a cena não para um público externo, mas como protagonistas de suas próprias narrativas em um momento de celebração e autoafirmação do grupo. Havia uma beleza particular em ver cada participante ocupar o espaço, com a voz firme e o corpo expressivo, celebrando o encontro entre memória, criação e política. O encantamento foi interno: as próprias pessoas idosas se surpreenderam e se emocionaram com a potência de sua presença e de sua voz coletiva, validando o corpo envelhecido como um território político capaz de gerar transformação e sentimento de pertencimento.
Ao término da oficina, observamos que as pessoas participantes ampliaram sua compreensão sobre políticas públicas relacionadas ao envelhecimento, reconhecendo seus direitos e identificando formas de participação em instâncias de controle social, como conselhos e fóruns. O processo contribuiu para fortalecer o protagonismo das pessoas idosas e favorecer uma vivência mais consciente da cidadania.
As práticas corporais e expressivas favoreceram a escuta do próprio corpo, a valorização das trajetórias individuais e coletivas, o fortalecimento da autoestima e a liberdade de expressão. Por fim, percebemos um estreitamento significativo entre as pessoas idosas e os espaços de decisão política, estimulando engajamento contínuo e reconhecimento de que sua presença é essencial para a construção de políticas públicas mais inclusivas, representativas e sensíveis à diversidade do envelhecer.
Além dos aspectos trabalhados em cada encontro, a oficina revelou-se um ponto de apoio importante para que o grupo desse seus primeiros passos rumo à participação social e ao fortalecimento da representatividade.
De forma espontânea, as pessoas idosas passaram a se organizar coletivamente e, desde então, vêm buscando ocupar espaços de diálogo e decisão no município, como o Conselho de Saúde, o Conselho Municipal da Pessoa Idosa e a Comissão de Defesa dos Direitos das Pessoas Idosas. Também têm participado de palestras, rodas de conversa e debates sobre envelhecimento, levando suas vozes e experiências para diferentes públicos.
Outro desdobramento potente foi a articulação do grupo para desenvolver ações intergeracionais com crianças e adolescentes, com o propósito de desmistificar o envelhecimento, reduzir atitudes idadistas e evidenciar as potências que surgem ao longo do curso da vida. Por meio de suas próprias trajetórias, o grupo busca demonstrar que envelhecer é um processo natural, que deve ser pensado desde cedo e, acima de tudo, reconhecido e acolhido em toda a sua diversidade. Um exemplo foi uma ação realizada no próprio Sesc com participação no programa Curumim, na qual compartilharam suas vivências com brincadeiras do período em que eram crianças e aprenderam o que representa o brincar para a nova geração.
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corpo-cidadão, vozes coletivas
Considerações finais
A experiência vivida na oficina Corpo-Cidadão, Vozes
Coletivas: Oficina sobre
Políticas Públicas para Pessoas Idosas reafirmou a potência de criar espaços em que o corpo, a palavra e a ação política caminhem juntos. Ao longo dos encontros, ficou evidente que quando as pessoas idosas têm acesso à informação, oportunidades de expressão e condições de ocupar simbolicamente e fisicamente novos lugares, emergem formas renovadas de participação social e de pertencimento. Mais do que transmitir conteúdos, a oficina possibilitou que cada participante reconhecesse sua própria história como fonte legítima de saber e transformação, fortalecendo vínculos, ampliando horizontes e ativando presenças que muitas vezes permaneciam silenciadas. O processo revelou que o cruzamento entre arte, política e cidadania não apenas engaja, mas mobiliza, emociona e cria caminhos concretos para que as pessoas idosas se percebam como protagonistas de suas comunidades e de suas narrativas.
Assim, concluímos que iniciativas que valorizam a expressão, a escuta e o protagonismo são essenciais para construir um envelhecimento mais digno, sensível e democrático.
Além disso, os desdobramentos observados indicam que a oficina não se encerra em si mesma, mas reverbera em ações contínuas que fortalecem a rede de direitos e a presença política das pessoas idosas no território. Que esses corpos e vozes sigam inspirando práticas que reconheçam, celebrem e protejam a diversidade do envelhecer, reafirmando que cidadania se faz no coletivo, no movimento e na possibilidade sempre aberta de criar novos futuros.
referências
DUTRA, Bruna de Souza Gonsales; CARVALHO, Claudia Reinoso Araujo de. Violência simbólica: estigma e infantilização e suas implicações na participação social das pessoas idosas. Revista Kairós Gerontologia, v. 24, n. 1, p. 79-91, 2021.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 256 p. 91 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2025.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA ESTATÍSTICA – IBGE. Projeção da População. População do país vai parar de crescer em 2041. 2024. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge. gov.br/agencia-noticias/2012-agenciade-noticias/noticias/41056-populacaodo-pais-vai-parar-de-crescer-em-2041. Acesso em: 3 dez. 2025.
KAZMIRCZUK, Bruna Laís; GARCES, Solange Beatriz Billig Garces. Do direito previsto ao direito vivido: letramento jurídico e social como ponte para a cidadania da pessoa idosa. Serviço Social & Realidade, v. 34, n. 2, 2025.
SOUZA, Michele Souza; MACHADO, Cristiani Vieira. Governança, intersetorialidade e participação social na política pública: o Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa. Ciência & Saúde Coletiva, v. 23, p. 3.189-3.200, 2018.
SPOHR, Fúlvia da Silva; DALSOTTO, Mariana Parise Brandalise; CORREA, Ygor. Educação popular e pedagogia crítica: os princípios pedagógicos freireanos na formação de educadores populares em saúde. Praxis Educativa, v. 16, 2021.
Fuxico Fashion Week no Sesc Maturidade Ativa
Luciana Diatel Laubinz Vieira
Professora Licenciada em Letras com habilitação em língua portuguesa e respectivas literaturas, agente de Programas Sociais do Sesc Uruguaiana. llaubinz@sesc-rs.com.br
Luís Alexandre Grings
Profissional de educação física, é licenciado e pós-graduado em filologia do exercício e treinamento. É diretor das unidades de Unidades Sesc Uruguaiana e Quaraí. lgrings@sesc-rs.com.br
Michele Bittencourt Silveira de Ávila
Profissional de educação física, com licenciatura plena e mestrado em saúde e desenvolvimento humano. É coordenadorade assistência do Sesc-RS. mbsilveira@sesc-rs.com.br
Mári Estela Kenner
É cirurgiã-dentista com mestrado em odontologia. É gestora executiva do Sesc-RS. mkenner@sesc-rs.com.br
Betina Berlitz
É enfermeira com mestrado em saúde coletiva. Trabalha como analista técnica em saúde na Gerência de Assistência e Saúde do Sesc-RS. bberlitz@sesc-rs.com.br
Uilian Lima Machado
É professor licenciado em educação física e analista do Trabalho Social com Grupos na Gerência de Assistência e Saúde do Sesc-RS. umachado@sesc-rs.com.br
RESUMO
O envelhecimento constitui um dos principais desafios do século, marcado pelo aumento da longevidade em todo o mundo. No Brasil esse processo ocorre de forma acelerada, com destaque ao Rio Grande do Sul, estado com maior proporção de pessoas idosas. Nesse contexto, o Sesc Maturidade Ativa desempenha um papel importante há mais de duas décadas, promovendo um envelhecimento ativo, saudável e participativo. Este trabalho tem como objetivo apresentar a experiência de um grupo de pessoas idosas na produção de peças para um desfile de costura criativa - o Fuxico Fashion Week. Com uma abordagem qualitativa, o presente trabalho apresenta a trajetória do projeto e de suas participantes, desenvolvido no formato de oficina, no período entre 2023 e 2025, com total de 125 pessoas idosas. Apresenta a produção do fuxico como estratégia de socialização, fortalecimento das redes de apoio, promoção de espaços que valorizem os saberes construídos ao longo da vida, convivência intergeracional, bem como o envolvimento e o reconhecimento da comunidade local em relação ao envelhecimento e às pessoas idosas. E por fim, traduz a potência do projeto, e revela novas possibilidades de fazeres alinhados a práticas sustentáveis, vinculados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Palavras-chave: pessoas idosas; envelhecimento; participação social, protagonismo.
ABSTRACT
Aging is one of the main challenges of the century, marked by increased longevity worldwide. In Brazil, this process is occurring at an accelerated pace, particularly in Rio Grande do Sul, the state with the highest proportion of elderly people. In this context, Sesc Maturidade Ativa has played an important role for over two decades, promoting active, healthy, and participatory aging. This work aims to present the experience of a group of elderly people in producing pieces for a creative sewing fashion show – the Fuxico Fashion Week. Using a qualitative approach, this work presents the trajectory of the project and its participants, developed in a workshop format between 2023 and 2025, with a total of 125 elderly people. It presents the production of fuxico (a type of patchwork) as a strategy for socialization, strengthening support networks, promoting spaces that value the knowledge built throughout life, intergenerational coexistence, as well as the involvement and recognition of the local community in relation to aging and elderly people. Finally, it translates the project’s potential and reveals new possibilities for actions aligned with sustainable practices, linked to the Sustainable Development Goals. Keywords: aged; aging; social participation; empowerment
Introdução
O cenário demográfico mundial passa por uma transformação significativa, caracterizada pelo acelerado processo de envelhecimento populacional, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU). Atualmente, mais de 700 milhões de pessoas no mundo possuem 65 anos ou mais, e as projeções indicam que esse contingente poderá ultrapassar 1,5 bilhão até o ano de 2050 (ONU, 2023). Esse fenômeno é resultado, sobretudo, da redução das taxas de fecundidade e do aumento da expectativa de vida, configurando-se como um dos principais desafios sociais, econômicos e culturais do século XXI.
Nesse contexto, o Brasil destaca-se entre os países que vivenciam um dos processos mais acelerados de envelhecimento demográfico, dados do Censo Demográfico de 2022. Quando o assunto é o envelhecimento o Rio Grande do Sul (RS) se destaca como o estado com maior proporção de pessoas idosas do país, apresentando indicadores de longevidade superiores à média nacional. O índice de envelhecimento que expressa a relação entre o número de pessoas com
65 anos ou mais e a população de crianças de 0 a 14 anos apresentou aumento de 74% no período entre 2010 e 2021.
As projeções demográficas apontam que esse processo continuará se intensificando, com estimativas de que, até 2060, o número de pessoas idosas supere o de jovens na base da pirâmide etária, evidenciando profundas mudanças na estrutura populacional do estado (RIO GRANDE DO SUL, 2022; IBGE, 2023).
É nesse cenário que se insere o Sesc Maturidade Ativa, que vem desempenhando papel relevante no Rio Grande do Sul há 23 anos. Presente em 56 municípios gaúchos com 60 grupos e 8.400 participantes, desenvolve ações voltadas à promoção do envelhecimento ativo, saudável e participativo, fundamentadas em uma concepção ampliada do envelhecimento. Essa abordagem está alinhada ao conceito proposto pela Organização Mundial da Saúde, que define envelhecimento ativo como “o processo de otimização das oportunidades de saúde, participação e segurança, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida à medida que as pessoas envelhecem” (OMS, 2005, p. 13).
Dessa forma, reconhece a pessoa idosa como sujeito de direitos, saberes e protagonismo social, estimulando a autonomia, a independência funcional, o convívio e a aprendizagem ao longo da vida (SESC, 2019).
No conjunto das ações desenvolvidas pelos grupos
Sesc Maturidade Ativa, as atividades de trabalhos manuais destacam-se como práticas significativas para a promoção do envelhecimento ativo e saudável. Pesquisas recentes indicam que a participação de pessoas idosas em atividades sociais, culturais e artísticas está associada à manutenção das capacidades funcionais, ao bem-estar psicológico e à melhoria da qualidade de vida na velhice, especialmente quando realizadas em contextos coletivos.
Nesse sentido, os trabalhos manuais configuram-se como estratégias socioeducativas que favorecem o estímulo das funções cognitivas, o desenvolvimento de habilidades funcionais e o fortalecimento dos vínculos sociais (CHACUR; SERRAT; VILLAR, 2022).
As oportunidades de novas aprendizagens assumem papel central no contexto do envelhecimento populacional, uma vez que contribuem para a manutenção da autonomia, da autoestima e da participação social das pessoas idosas. Estudos contemporâneos demonstram que o engajamento em atividades significativas ao longo da velhice está diretamente relacionado ao sentimento de pertencimento social, ao bem-estar subjetivo e à preservação da funcionalidade,
Divulgação
Participantes do desfile Fuxico Fashion Week.
Aponta-se como necessidade o esforço permanente de valorização das diferentes velhices, através da escuta e das realidades no qual estão inseridas.
reforçando a importância de práticas que promovam a aprendizagem contínua e a convivência social. Esses achados dialogam com a literatura clássica da Gerontologia, que já apontava a permanência em atividades socialmente relevantes como elemento fundamental para um envelhecer com qualidade (NERI, 2013; MONTEIRO et al., 2025).
Entre as práticas de trabalhos manuais, destaca-se o fuxico, uma técnica artesanal tradicional profundamente vinculada à história social e cultural do Brasil. Estudos sobre o artesanato popular indicam que sua origem remonta ao período colonial, especialmente ao século XVII, quando mulheres negras escravizadas, mulheres pobres e trabalhadoras do meio rural reutilizavam retalhos de tecidos provenientes de sobras de roupas e enxovais, associando reaproveitamento de materiais e convivência coletiva (PILAR; MEDEIROS, 2021).
Sob essa perspectiva, o fuxico configura-se como uma atividade com relevante potencial no contexto do envelhecimento, ao contribuir para o aprimoramento da coordenação motora fina, para a ampliação das interações sociais e para o fortalecimento da autonomia funcional na velhice.
Ao possibilitar a troca de experiências e a valorização dos saberes acumulados ao longo da vida, essa prática dialoga diretamente com os princípios do envelhecimento ativo propostos pela Organização Mundial da Saúde (OMS, 2005).
Sendo assim, o presente trabalho tem como objetivo apresentar a experiência de um grupo de pessoas idosas na produção de peças para um desfile de costura criativa – o Fuxico Fashion Week.
Metodologia
O presente estudo adota uma abordagem qualitativa, com o objetivo de compreender a complexidade dos fenômenos sociais investigados. As fontes de dados utilizadas incluem a vivência da facilitadora do grupo, materiais publicados em mídias impressas e digitais, bem como os relatos das participantes, os quais contribuíram para reforçar a relevância da atividade realizada (BVS, 2021).
A iniciativa apresentada integra o Trabalho Social com Pessoas Idosas (TSPI) do Sesc, reconhecido nacionalmente com mais de 60 anos de atuação. No Sesc Rio Grande do Sul o TSPI é carinhosamente nomeado de Sesc Maturidade Ativa (SMA), com 23 anos de atuação sistematizada,
orientado por diretrizes que promovem uma nova perspectiva sobre a velhice e o processo de envelhecimento.
O SMA é estruturado em nível estadual, abrangendo 56 municípios e contemplando 60 grupos que desenvolvem atividades semanais. A área técnica do projeto integra a Gerência de Assistência e Saúde, que fica alocada no Departamento Regional do Sesc/RS, com sede em Porto Alegre. Essa área é composta, por uma equipe estadual formada por uma executiva, uma coordenação, uma analista técnica e um analista.
As Unidades Operacionais do Sesc/RS são responsáveis pela execução dos 60 grupos, sendo compostos por um diretor e um facilitador de grupo social.
As atividades contemplam ações integradas e abrangem as áreas de educação, cultura, esporte, lazer, assistência e saúde, sendo construídas por meio de um planejamento participativo com as pessoas idosas.
Neste caminho, o Fuxico Fashion Week, experiência relatada neste trabalho, configura-se como uma atividade sistemática do SMA, retratando uma experiência exitosa baseada na escuta, no interesse e na valorização da experiência das pessoas idosas.
O trabalho foi realizado na Unidade Sesc Uruguaiana e descreve a trajetória do grupo desde a estratégia de organização, arrecadação de resíduos têxteis, perpassando pelo planejamento e confecção das peças, até culminar na cerimônia do desfile.
Resultados e discussão
Os resultados apresentados referem-se ao desenvolvimento do projeto Fuxico Fashion Week, no período de 2023 a 2025,
o qual contemplou a participação de 125 participantes na faixa etária de 60 a 90 anos de idade, no Sesc Uruguaiana. Além disso, serão relatados os benefícios da prática do fuxico como estratégia de socialização, fortalecimento das redes de apoio, promoção de espaços que valorizem os saberes construídos ao longo da vida, bem como o envolvimento e o reconhecimento da comunidade local em relação ao envelhecimento e às pessoas idosas.
O projeto é realizado anualmente, sendo a primeira edição realizada em 2023. De forma sistemática, a partir do mês de julho iniciam-se os encontros e o planejamento do desfile.
Divulgação
Cleusa, participante do SMA, desfila no Fuxico Fashion Week.
Os encontros, realizados mensalmente, são momentos no qual as participantes reúnem-se para trocar ideias e atuam de forma voluntária ao projeto como aprendizes, amantes da arte e instrutoras.
As instrutoras, assim nomeadas pelo grupo, possuem a experiência em costura e artesanato em fuxico, e contribuem para com as demais dando dicas, ensinando e compartilhando práticas. Vale mencionar que o fuxico é um produto artesanal de costura popular, confeccionado a partir de retalhos, que pode dar origem a uma diversidade de peças (BATISTA et al., 2024).
A valorização dos saberes do grupo é uma estratégia potente, que encontra sustentação nas bases da educação popular freireana, sendo um terreno amplo a ser explorado no que se refere ao diálogo, à participação e à problematização dos cenários de vida e velhice dos participantes (FREIRE, 1968).
O trabalho inicia com a divisão das equipes de produção e das peças que serão apresentadas no desfile. Na sequência, organizam o material e selecionam os tecidos, as cores e os modelos de fuxicos a serem confeccionados para a montagem da peça de vestuário ou decoração.
Essa etapa é chamada de Arte em Tecido, desenvolvido no formato de oficina. Nos primeiros encontros, a produção é realizada no Sesc Uruguaiana, mas no decorrer dos encontros, as integrantes também montam os fuxicos em seus lares, possibilitando o envolvimento das famílias e das relações intergeracionais.
O material utilizado na produção das peças é doado pelos participantes do Sesc, tanto do grupo Maturidade Ativa quanto dos clientes dos outros serviços do Sesc, como Academia, Biblioteca e Espaço Multimídia, que se envolvem dessa forma com a atividade do grupo, doando retalhos, linhas, apliques e tudo que possa contribuir para produção de moda.
A estratégia de arrecadação de resíduos têxtil, como etapa preparatória da oficina, constitui um reconhecimento não somente às velhices, mas as práticas de sustentabilidade. A iniciativa pode, ainda, desvelar novas alianças e consolidar práticas a favor da sustentabilidade no território, como a implementação de economias criativas, com geração de renda e alinhamento aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável.
E na mesma crescente, o público que prestigia o desfile a cada ano tem sido mais expressivo. Os desfiles totalizaram um público de plateia de mais de 200 pessoas.
Frequentemente, a prática do fuxico é utilizada como estratégia conjunta de produção artesanal e roda de conversa, de forma a possibilitar reflexões sobre o viver, compartilhamentos de histórias e um formato de expressão livre de cada sujeito. A oficina de costura criativa e o desfile, construída com o grupo, aponta para os benefícios da socialização e dos vínculos ao longo da vida, especialmente na velhice. (BATISTA et al., 2024).
A prática do fuxico e do desfile corroboram com as diretrizes e os resultados do SMA, que incluem a ampliação das redes de relacionamento e convivência, o estímulo a aprendizagem ao longo da vida, a ampliação de oportunidades de socialização, os espaços de lazer e cultura e maior participação e pertencimento das pessoas idosas aos seus territórios (ÁVILA, BERLITZ, KENNER, 2025).
Vale destacar que as pessoas que desfilaram exibindo as peças eram compostas por integrantes do grupo, além de filhas, netas e amigas, configurando, assim, uma atividade com caráter intergeracional.
Maria Helena, do SMA, exibe xale produzido na oficina de Fuxicos.
Divulgação
Estudos contemporâneos demonstram que o engajamento em atividades significativas ao longo da velhice está diretamente relacionado ao sentimento de pertencimento social, ao bem-estar subjetivo e à preservação da funcionalidade, reforçando a importância de práticas que promovam a aprendizagem contínua e a convivência social.
Durante o processo de envelhecimento, na maioria das vezes, o suporte social é proveniente da família. A experiência relatada fortalece esse suporte familiar e proporciona uma oportunidade de socialização, bem como de ressignificar o envelhecer na sociedade (AQUINO et al, 2024).
Ademais, ao final dos desfiles as produções ficaram expostas no Espaço de Exposições Sesc Uruguaiana, aberto à visitação do público em geral, e após passaram a ser de uso das artesãs que optaram por comercializar ou presentear.
Considerações finais
Por fim, conclui-se que as atividades repercutiram de forma positiva no bem-estar das pessoas, com a valorização dos saberes, relações e oportunidade para ressignificar a velhice, e os espaços ocupados pelas pessoas idosas.
Reconhecendo o valor sociocultural e terapêutico do fuxico, o grupo Sesc Maturidade Ativa de Uruguaiana proporcionou uma experiência significativa, alinhada às necessidades, aos interesses e às potencialidades das pessoas idosas participantes. Assim,
a articulação do trabalho manual à convivência social e à valorização da expressão criativa teve como culminância o projeto do Fuxico Fashion Week.
A valorização de elementos da costura criativa e valorização dos saberes como estratégia de engajamento social, visibilidade e protagonismo das pessoas idosas, constituiu o eixo central das reflexões apresentadas neste trabalho.
Aponta-se como necessidade o esforço permanente de valorização das diferentes velhices, através da escuta e das realidades no qual estão inseridas. A trajetória do SMA tem contribuído para o desenvolvimento de um novo olhar para o envelhecer e o processo de envelhecimento humano.
O esforço deste coletivo para a sistematização desta prática mostrou-se uma atividade desafiadora, mas imprescindível para unir a teoria-prática e uma convivência que conecta e transforma as pessoas. Ainda, esta experiência exitosa traduz a potência do SMA, em especial deste grupo, e revela novas possibilidades de fazeres alinhados a práticas sustentáveis, vinculados aos ODS.
Nelson Triunfo
entrevista
nelson
triunfo
Baile Black com Nelson Triunfo e Funk Cia, Sesc Interlagos.
Dançarino, músico, compositor, ativista social e educador, Nelson Triunfo completou 71 anos em setembro de 2025 e afirma que é um resistente. Resistiu ao racismo, ao preconceito contra sua origem nordestina, às prisões quando dançava nas ruas nas décadas de 1970 e 1980. Atualmente, encara o idadismo e o envelhecimento que, segundo ele, traz experiências boas, mas também difíceis.
Considerado o pai do hip-hop brasileiro, como educador ensina para crianças e jovens nas escolas públicas a capacidade de existir e resistir por meio dos versos do hip-hop, da dança, da arte.
“Tem que reconhecer a diversidade, é a primeira coisa que o ser humano tem que ter cuidado, a diversidade, porque aquilo que é bom para mim, pode ser para mim e não para você.”
Como a dança e a arte entraram na sua vida?
triunfo Cheguei aqui em São Paulo em 1977, eu tinha 22 anos. É uma história que parece um pouco surreal, mas é verdadeira, porque aconteceu. Um moleque novo, muito jovem, com dez anos, vivia na roça, tirava leite de vaca, cuidava das criações e estudava ao mesmo tempo. Comecei a ser considerado o melhor aluno na escola e isso me deu uma responsabilidade maior ainda e foi aquela fama de moleque trabalhador, vivia na cidade, na roça, pá, pá, pá. Mas teve uma coisa que começou a me chamar muito a atenção. É que lá em Triunfo (PE) tem um cinema de 1922. É um cinema maravilhoso. E eu, naquela época, com dez, onze anos, assistia a muitos filmes famosos de cowboy, de gladiadores, e passavam muitos filmes, que eram moda na época, que eram esses musicais de Hollywood, tipo Carmem Miranda, Sammy Davis Jr., essas figuras. Tinha uns irmãos que eram impressionantes: os Nicholas Brothers, que já na década de 1940 dançavam nas ruas, e aquilo me incentivou a dançar. Eu já dançava frevo e outras danças do lugar, mas aquilo foi uma injeção. Quando com 16 anos eu saí de Triunfo, já com essas coisas na cabeça, fui para Paulo Afonso.
Você foi estudar na cidade de Paulo Afonso e continuou dançando? triunfo Sim. Em 1972, começou um evento maravilhoso em Paulo Afonso, e as pessoas falavam: Nelsão, você viu o que está acontecendo no Coliseu? E eles falaram que era um evento, como se fosse um programa do Chacrinha. Tinha cantores lá, uma banda que acompanhava as pessoas, gincanas e pessoas disputando isso e aquilo, e fui lá ver e me apresentar. Tinha uma figura no palco que me apresentou: “Temos aqui um novo líder, maravilhoso, um cara superlegal”. Aí começou meu grande êxito, porque nessa hora eu virei o James Brown naquele palco, fazendo show, daí foi aquele barulho ensurdecedor.
Foi um marco na sua carreira? triunfo Sim. Foi nesse dia que, na saída, uma senhora perguntou para mim: “Meu filho, você dançou no palco com outros dois? Meu filho, vocês não têm ossos?”, ela perguntou. Daí eu fiquei dando risada e ela perguntou o nome do grupo, e eu já aproveitei, o grupo não tinha nome nenhum, era recém-formado, eu falei: “Os Invertebrados”. E ficou sendo o nome do primeiro grupo de soul funk do Nordeste.
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nelson triunfo
Mais uma coincidência, depois de um ano, em 1973, lá nos Estados Unidos, foram estabelecidos os quatro elementos que sustentam o hip-hop (o DJ, o rapper, a dança e o graffiti) e, em 1983, eu levei para as ruas de São Paulo esses elementos. E começou ali. Lá atrás comecei a dançar com esses grupos de artistas de rua porque o Silvio Santos tinha um programa, o Show de Calouros, que chamava grupos de dança para ver se o Brasil conseguia fazer que nem os caras lá fora, e eu fui juntando tudo: o funk, o hip-hop e um punhado de coisas. Tem gente que fala, “ah, mas o hip-hop começou nos Estados Unidos em 1973”, eu digo uma coisa simples, porque lá eles começaram em 1973, mas não foi um sucesso. Aquilo ali levou um tempo para as pessoas olharem, acharem legal, e aí, em 1979, as coisas começaram a acontecer, saíram os primeiros clipes, os primeiros filmes, ali em 1982, 1983 estourou. Eu, por coincidência, já estava aqui em São Paulo na rua também. Igual eles estavam em Nova York. Então tem umas coincidências legais assim também.
Como foi que você saiu do Nordeste e veio para São Paulo? triunfo Em Paulo Afonso eu trabalhei na construção da terceira usina, trabalhei com cartografia, a partir de 1978. Eu estava no ginásio. Depois, fui para Brasília, para estudar e trabalhar também, daí fiz o colegial. Terminei o colegial em Brasília e vim para São Paulo. Já decidido, porque tanto em Paulo Afonso quanto em Brasília eu já dançava em clubes. Em Brasília, montei um grupo com uns caras em Ceilândia, uma das cidades mais independentes e maiores de Brasília, e naquele tempo era só madeira e chão de terra. Eu não saía de cabelo solto lá, porque, se desse um vento, o cabelo ficava vermelho (risos).
Você veio para São Paulo para dançar? triunfo Eu já dançava, eu era um dançarino já pronto. Vim porque meus irmãos moravam aqui. Quando o black surgiu, evoluiu em algumas cidades, uma é Cuiabá, a outra se chama São Paulo, a outra se chama Porto Alegre, por incrível que pareça. Fizemos uma festa lá para 20 mil negros. Pelotas é a cidade mais negra do Rio Grande do Sul.
nelson
triunfo
Baile Black com Nelson Triunfo e Funk Cia, Sesc Interlagos, 2024.
Quando você chegou aqui em São Paulo percebeu muito preconceito em relação à dança ou por ser um homem negro? triunfo A dança digamos que nem tanto. Pelo contrário, a dança que abriu caminho. Agora, preconceito teve uns pesados. Eu cantava com meu black no meio dos brancos, já havia problemas, mas eu fui conseguindo dobrar essas coisas. Porém eu sofri três paradas, naquele tempo, que se fosse hoje eu ia processar legal. Mas naquele tempo eu não podia nem piscar, era o militarismo. O chefão ali podia me mandar matar. A gente sabia como era. Uma das coisas foi o seguinte: eu estava andando no único shopping que tinha em São Paulo, na Faria Lima. Só que o segurança me pegou e levou para um quarto e falou: “Quero saber quem é você”. E eu falei: “Eu sou músico, cara, sou dançarino”. Ele respondeu: “É que uma senhora falou que você era muito estranho e não quer você no shopping”. Para você ver como é que era.
Isso aconteceu quando você chegou aqui? triunfo Foi quando eu cheguei. Na primeira eu fiquei meio tonto, mas na segunda eu fiquei muito chateado.
A primeira foi a do shopping e a segunda foi no programa Clube dos Artistas, que era no canal do Silvio Santos. O cara falou que na hora que eu terminasse de cantar era para sair de mansinho sem falar nada. E eu, na minha inocência da época, consegui entender que ele queria dizer que eu era internacional, para todo mundo pensar que era um gringo, essas coisas de valorizar americano aí da nossa televisão. Daí, quando chegou na época do hip-hop, me chamaram para mostrar o rap, eu fui mostrar o rap para uma mulher de uma gravadora. Ela falou que não iria me gravar porque eu tinha problema na língua. E eu pensei, impossível, problema na língua? Depois descobri que o problema na língua era nada mais, nada menos, que o meu sotaque nordestino. Várias vezes eu fui brecado naquela época por causa disso. Eles tinham vergonha do sotaque. Foi uma coisa que me aconteceu na pele.
Você ainda sofre esse tipo de preconceito? triunfo Desse jeito aí não, tem mais não. Esse tempo aí já foi. Ainda mais que têm vários artistas, Fagner, Belchior, que estouraram suas músicas com sotaque e tudo. No Brasil teve uma mudança brusca.
Hoje em dia, até por causa da violência do Rio de Janeiro, muita gente foi para o Nordeste fazer turismo e descobriu o quanto o Nordeste é maravilhoso.
Entrando um pouco mais na temática do envelhecimento, você se lembra das pessoas velhas da sua infância e juventude? Como elas eram? triunfo Lembro. Na minha cidade, a grande maioria delas era de pessoas boas. Pessoas que, como era uma cidade pequena, conheciam todo mundo, mas tinha uns caras chatos também. Chatos porque achavam feio isso, achavam feio aquilo. Era uma coisa muito conservadora e que, na prática, a gente via que eles eram doidos para fazer a mesma coisa, sabe? (risos)
Você se acha diferente dessas pessoas? triunfo Nossa, eu evoluí muito. Eu sou um moleque. Um moleque pra frente, igual a garota pra frente que o Roberto falou. Eu era pra frente mesmo do meu tempo. Por exemplo, sair do meio dos matos e levar para as ruas de São Paulo, maior cidade da América Latina, o hip-hop, sendo um cara ali dos preás...
Você não pode subestimar uma pessoa dessas. Para a frente é assim: as roupas que eu usei naquele tempo, eu vejo hoje os caras usando. Até meu filho, brinca comigo, diz: “Pai, estão com a roupa sua”. Daí teve um tempo que o Brasil tomou de 7 a 1 da Alemanha, eu me lembro que os jogadores usavam uma chuteira amarela, uma vermelha, outra azul, chuteiras diferentes. Eu tenho foto de 1977 de tênis verde e vermelho.
Você tem uma relação boa com as juventudes?
triunfo Ela é tão boa que eu converso em escolas onde as diretoras e os diretores não conseguem falar. Tenho o domínio de como conversar. Eu vou com muito prazer, digo “meu nome é Nelson Triunfo, mas pode me chamar de Nelsão”. E as coisas vão acontecendo de todo jeito (faz rima): “Vejo aquele molequinho ali, se não me esqueço é o Paulinho, ele veio de vermelho, mas está bonito parece que se ajeitou no espelho”. “A Maria, é legal, rima com melancia, padaria e periferia”. Isso aí... e quando falo o nome deles, eles têm um choque, e, assim, minha palestra é altamente atual, porque eu já os envolvi na ideia.
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Encontro com Nelson Triunfo no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc.
Rafael Pimenta
Essas coisas que eu já tenho são minhas técnicas de trabalhar, que venho desenvolvendo há muito tempo. Uma coisa necessária de se falar é a importância das professoras e dos professores, de procurarem ajuda, saberem um pouco de psicologia, porque às vezes, numa mesma classe, pode ter criança sem pai nem mãe, às vezes o pai está preso e como eu vou trabalhar essa família não tradicional dentro da classe? Então, são essas coisas que a gente trabalha dentro da violência. Muitas vezes a violência é gerada em casa.
Você acha que a cidade de São Paulo é um bom lugar para envelhecer? triunfo Eu acho que São Paulo é o melhor lugar do mundo. Por quê? É um lugar que tem muita estrutura, é um lugar que tem muito recurso, é um lugar que tem trabalho e é um lugar também que tem moradas boas e tudo para envelhecer. Eu acho que São Paulo só é ruim para envelhecer você sendo pobre, certo? Porque não vai ter tanta coisa fácil. Mas envelhecer em São Paulo, uma cidade assim, em que as pessoas saem na rua como se fosse seu quintal, dá para viver numa boa. Eu amo São Paulo, sou meio suspeito. Amo São Paulo, porque aqui que nasceram meus filhos.
Você tem quantos filhos?
triunfo Com esse que tenho agora são três. O Jean trabalha comigo, canta pra caramba, o Andrew passou em física, em primeiro lugar do Brasil, em cinco federais, e aí o banco o chamou para trabalhar. Agora tem esse novinho aí (três meses), que é o Romano, que é inteligentíssimo. Já dá para ver. Também é uma coisa que eu quebro, o paradigma ou o padrão da velhice. Geralmente a pessoa casa, tem vários filhos, aí a vida separa: mulher para um lado, os filhos para o outro. E não é considerado normal um homem mais velho ter filho, eu tive o Romano, quebrei o padrão. Então, isso aí serve para mostrar para os de 70 anos que eles são capazes. Eu tenho que me apoiar nessas coisas, senão estou no negativismo.
Você sente que o envelhecimento te limita em algo?
triunfo Jogar uma bola. Às vezes vejo a bola vindo e quero ir lá e o negócio não funciona mais. Aí você percebe que alguma coisa não é mais flexível ou ágil como era antes. Outra coisa, noite de sono. Eu acho que é o que as pessoas, os de mais idade, têm que ter mais cuidado, porque se existe uma coisa que enfraquece homens e mulheres são noites insones.
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Então, sou meio assustado com isso. Eu sou meio pé atrás com o sono. Tipo assim, eu gosto de ir dormir, descansar, para no outro dia não estar com aquele vazio, com aquela ânsia de que alguma coisa não está certa, como se fosse até uma ressaca. Quando faço show, eu já peço para que o Jean veja para mim, que no máximo o show comece à uma da manhã, porque quando for às duas horas, eu praticamente já terminei e já vou. Quando for cinco da manhã, o baile já terminou e eu já dormi duas horas e meia. Mais um pouquinho e já dormi cinco horas. Pelo menos eu não perdi minha noite. Isso é uma preocupação para mim.
Você se vê como uma pessoa idosa?
triunfo Na verdade, me vejo como rapaz. Não é louco? Não é apenas o traje, é o espírito do que eu sou. Eu me lembro que estava fazendo uma esteira lá no hospital e a enfermeira me perguntou: “Nelson, quantos anos você tem?”. Eu disse, 70. E ela: “Olha, eu não estou de brincadeira não, isso aqui é um trabalho sério” (risos). Daí eu olhei para ela e falei: “Ué, o que eu falei? Setenta anos, sim”. Mostrei meu RG. Ela falou: “Meu Deus, pensei que você tivesse uns 50 anos”.
E eu pensei, poxa, os velhos que chegam aqui devem estar acabados. Então tem essas coisas da velhice.
O que é mais difícil no envelhecimento?
triunfo A pior coisa de todas que eu acho é a saudade dos amigos que se foram. Tantas pessoas boas que estavam com você e vão. E que a gente não pode dizer mais um oi, não pode mais abraçar, pessoas lindas com as quais você esteve e que já estão em outro estágio, então, isso é uma coisa que eu não gosto de pensar, não. Não gosto de ir para esse lado, porque me dá muita nostalgia. Se há coisa que eu não gosto é isso.
Envelhecer é também resistir. Você é um artista negro, nordestino, que conseguiu passar dos 70 anos. Podemos dizer que você é uma pessoa que resiste?
triunfo Você vê, resisto mesmo. Se eu tivesse ido para o futebol, teria tido duas carreiras já. Eu tinha parado com 35, tinha nascido e trabalhando de novo. Agora, uma das coisas que precisamos ter cuidado na velhice é fazer amizades. Porque, geralmente, o velho de certa forma fica meio ranzinza e briga muito com as pessoas de casa e tudo.
Se eles tiverem mais malandragem, eles criam amizade com os netinhos, para sair com eles, com as pessoas num bar, numa padaria para ir tomar um cafezinho de manhã, pelo menos para ver as pessoas, sair um pouquinho. A pior coisa para a velhice é você ficar preso em casa.
Você comentou em uma entrevista que o seu maior interesse no trabalho é dividi-lo com outras pessoas. triunfo Isso, inclusive eu montei a Casa do Hip Hop em Diadema e, hoje, existem mais de 50 casas de hip-hop no estado de São Paulo, nunca cobrei nem um centavo de ninguém, eu criei programas como Hip Hop em Ação, em que as pessoas depois puseram o nome e eu deixei. Porque eu não queria ganhar com isso, ganhei com minhas entrevistas, com meus shows, e algumas coisas, quanto mais eu abri mão, melhor foi para o movimento, para crescer. Muitos moleques que tirei da rua hoje são doutores, engenheiros, advogados. Outros são campeões mundiais de dança. Conheço hoje o mundo inteiro, um cara que nem sequer saía de São Paulo, pensava que nunca ia
conhecer o estrangeiro e que através do hip-hop andou nos melhores aviões, se hospedou nos melhores hotéis e ainda ganhou alguns euros.
Tem alguma coisa que te incomoda no envelhecimento?
triunfo O envelhecimento, tem uma coisa que eu não gosto de falar. É justamente essa coisa do futuro, porque cada vez que você está mais velho, você lembra que está mais perto de ir. Então, a pessoa conviver com isso é uma coisa muito séria, que muitos não percebem. Agora, por exemplo, estou com 71, será que vou viver mais dez? Será que vou viver mais cinco? Quando eu estava lá com 20, eu não pensava se iria viver até os 100. Mas a pior coisa é você saber que está indo para um ponto sem volta. Eu não gosto nem de pensar. Vamos gozar o presente. Aí que está a resposta. A velhice é boa por um lado, e ela é muito cruel por outro. Porque eu penso assim: eu tinha um amigo, ele trabalhava 24 horas por dia, ele foi embora. Nem o apartamento ele levou junto. Deixou aí prédio, deixou aí todas as coisas, então, eu não sou aquele cara que tem todo esse bem material. Eu quero bem material para curtir meu momento, poder sair, ficar no meu hotel, curtir uma boa praia, curtir uma boa viagem.
entrevista
nelson
triunfo
Dois momentos de Nelson Triunfo
O artista que impulsionou o hip-hop nas ruas de São Paulo revisita sua história na exposição HIP-HOP 80’SP – São Paulo na Onda do Break, que foi realizada no Sesc 24 de Maio. Educador e ativista social, Triunfo ainda hoje é visto como ídolo e exemplo pelos jovens.
Adauto
Perin
Fernando Baldo
Envelhecemos
A arte de apreciar um corrimão
Xico Sá Escritor, jornalista, apresentador do @icl.noticias, colunista do @diariodonordeste xicosa@uol.com.br
A virada dos 50 para os 60 anos sempre foi motivo de brincadeiras dos amigos. É um clássico. “O movimento é sexy, sexagenário”, assim eu respondia de volta as piadas — estilo quinta série — da turma dos engraçadinhos. Ah, os marmanjos e a eterna imaturidade. A ilusão de que enganamos o tempo com zombarias adolescentes.
Tremendo engano. O tempo não se distrai nunca, segue contando nos dedos, de forma implacável, o dia a dia. Não adianta achar que a vida é um jogo de basquete e pedir ao árbitro para paralisar o cronômetro quando a bola não está em jogo. Seguem os ponteiros, inapelavelmente.
Minha virada 59-60, porém, não foi só piadinha e inútil corrida contra o relógio. Lembro que estava no Sesc Paraty, para um bate-papo com o artista multimídia Fausto Fawcett, quando iniciamos uma reflexão sobre o tema – “com a pena da galhofa e a tinta da melancolia”, como pregava o personagem machadiano Brás Cubas.
Fausto já havia atravessado o portal um tempinho antes; eu acabara de chegar ao universo dos bravos e bravas sexagenários. A primeira palavra que nos veio, quase em uníssono, durante aquela prosa, foi corrimão. Bendito corrimão.
No Dicionário Aurélio, esta nobre invenção da humanidade – aleluia! – é definida como uma barra ou peça, geralmente de madeira ou metal, que corre ao longo de uma escada, ponte ou outra passagem, servindo como apoio para a mão e garantindo segurança ao subir ou descer.
Fizemos uma verdadeira louvação ao corrimão. Fausto falava como um autêntico connoisseur, um conhecedor, alguém que testa, experimenta e usufrui das delícias e utilidades dos corrimãos em variadas arquiteturas e ocasiões.
Sem se falar nos aspectos da observação estética do utensílio. “Ah, o imbatível corrimão neoclássico”, disse uma senhora na plateia. “O barroco é muito mais interessante, conheci muitos lindos corrimãos nas casas paroquiais das igrejas de Minas Gerais”, observou um grisalho participante do debate. “Verdadeiras obras de arte!”
A animada conversa descambou para o incrível mundo do doutor Sigmund Freud. Inevitável dizer que a nossa apreciação sobre a peça de apoio nas escadas remetia ao medo atávico das quedas, um drama existencial da velhice em qualquer lugar da Terra.
Fechamos a pauta com um alerta. Mesmo que se ache vigoroso e seguro, nunca despreze o uso de um bom corrimão – se o apoio está ao alcance, nunca o esnobe, mesmo que isso possa garantir alguma dose de orgulho da sua condição física pós-60. Gastemos nosso momento de narcisismo de uma maneira mais segura – com uma selfie, por exemplo, durante o exercício físico no parque.
Na subida ou na descida, vale sempre o cuidado contra os tombos e quedas, como na advertência irônica do poeta português David Mourão-Ferreira:
“É uma escada em caracol/ E que não tem corrimão./ Vai a caminho do Sol/ Mas nunca passa do chão”.
envelhecemos
Tudo começou com uma dor no joelho
Uma História da velhice no Brasil pode ser uma bússola para o futuro
Mariza Tavares
Mariza Tavares é formada em jornalismo pela Universidade Federal Fluminense (UFF), fez mestrado em comunicação na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e MBA em gestão de negócios no Ibmec. Desde 2016, mantém o blog Longevidade: modo de usar, no portal de notícias g1. Foi diretora-executiva da Rádio CBN entre 2002 e 2016, onde criou o programa 50 Mais CBN, no qual participava com o médico Alexandre Kalache e a jornalista Mara Luquet. É autora dos livros Longevidade no cotidiano: a arte de envelhecer bem (2020) e Menopausa: o momento de fazer as escolhas certas para o resto da sua vida (2022), ambos pela editora Contexto; e A vida depois dos 60 – prepare-se para criar a sua melhor versão (2025). marizatavares@uol.com.br
Em sua longa trajetória profissional, Mary Lucy Murray del Priore conseguiu uma proeza: não só transitar com desenvoltura no mundo acadêmico, mas, também, por meio de uma linguagem acessível, construir uma ponte com o público geral. Doutora em história social pela Universidade de São Paulo (USP), e com pós-doutorado na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), em Paris, lecionou em diversas universidades, mas não se limitou a conquistar a atenção dos alunos. Os leitores logo se renderam a seu estilo, levando-a a se tornar presença constante nas listas de best-sellers.
São mais de 50 livros publicados – alguns, como Histórias íntimas: sexualidade e erotismo na história do Brasil e O príncipe maldito: traição e loucura na família imperial, bateram (com folga) a marca de 200 mil exemplares vendidos. Uma façanha notável em qualquer lugar do mundo, mas ainda mais impressionante em um país onde o mercado literário é tão restrito. O segredo dessa conexão talvez esteja no fato de Priore sempre ter se interessado pela vida privada de figuras públicas, do Brasil Colonial ao Republicano. Na verdade, é uma contadora de histórias, ou “causos”, apaixonada.
resenha
tudo
começou
com
uma
dor
no
No entanto, há um dado novo em sua última obra, Uma história da velhice no Brasil (2025, Vestígio). O que se vê ali é uma mulher septuagenária que decide abrir uma janela para refletir sobre seu próprio envelhecimento. Logo na introdução, convida o leitor a entrar em sua vida: “Tudo começou com uma dor no joelho e uma mãe centenária. Aí, o tema passou a me interessar, pois, afinal, sempre deixamos uma parte de nós mesmos na história que fazemos”.
Priore também retrata o Brasil em que vive: um país cuja população está mais envelhecida e feminina do que nunca. O contingente acima dos 65 anos já representa mais de 10% do total de habitantes. Se os idosos antes estavam à margem, passaram a ganhar visibilidade. Então, qual é a história da velhice brasileira? Esse é o ponto de partida para sabermos que, em 1549, quando Tomé de Souza chegou à Bahia acompanhado de mil pessoas, entre degredados, colonos pobres e fidalgos, a expectativa de vida era de apenas 21 anos. Era tão difícil envelhecer, que “vivia-se a velhice como Deus quisesse ou mandasse”, ela escreve.
Embora não tivesse tal nome, o idadismo, ou etarismo, é um fio condutor que entrelaça a humanidade.
A historiadora lembra que, na Idade Média, menosprezava-se o “farrapo humano” no qual a idade transforma o corpo. No Renascimento, exaltava-se a beleza do jovem e “a feiura do velho parecia ainda mais odiosa”. E a reação dos primeiros cronistas diante dos seios caídos das indígenas também foi de repulsa: imagens das tupinambás idosas circularam pela Europa, remetendo às descrições das feiticeiras feitas pela Inquisição católica.
Na verdade, a velhice no Brasil Colonial poderia ser descrita como quase um milagre. Sem diagnósticos precisos, as pessoas provavelmente não sabiam do que morriam, mas conheciam bem o perigo das pestes, que não escolhiam idade. Boticários e “sangradores” – africanos ou afrodescendentes que praticavam escarificações (incisões superficiais na pele) ou sangrias – eram os “profissionais” da saúde. “E, uma vez que não havia fiscalização, raizeiros, parteiras, feiticeiros, sangradores, charlatães, curandeiros, na sua maioria gente idosa, preencheu o vazio da medicina oficial”, enumera.
Celebrar aniversários estava longe de ser motivo de comemoração.
O mais importante era manter o vigor para não ser abandonado à própria sorte. No quesito vitalidade, a autora traz inúmeras receitas para restaurar a potência masculina. “Numa época sem calendário nem relógio, em que a maioria não sabia quantos anos tinha, o marcador da entrada na velhice, para os homens, era um só: a impotência”, registra. Para as mulheres, o fim chegava com a menopausa: não poder gerar filhos as destituía das “virtudes sociais da maternidade”. Virilidade e fecundidade eram os atributos essenciais dos indivíduos numa sociedade onde o sexo estava atrelado à religião e às normas de conduta.
A prescrição de afrodisíacos era comum: por exemplo, hortelã, alho-poró e urtiga para combater a flacidez do pênis. Havia um amplo leque de opções, como unções com fezes de corvo ou de cão; ou banhos íntimos com açafrão, noz-moscada, carne de vitela, leite e vinho. O envelhecimento feminino, depois de muitos filhos, era quase sinônimo de enclausuramento – o contato com o mundo externo se restringia ao padre da paróquia. Nas raras pesquisas de historiadores demógrafos para o Brasil Colonial, homens e mulheres com mais de 50 anos e até 80 estão sempre presentes.
Curioso é que os médicos portugueses, que vieram com a família real para o Rio de Janeiro em 1808, acreditavam que o coração dos velhos diminuía de volume com a idade. A morte se dava quando ele “desaparecia”.
Priore também se debruça sobre a velhice dos quatro milhões de escravizados que chegaram ao Brasil. A maioria era composta de homens entre 15 e 40 anos. Apesar das condições degradantes em que viviam, havia os que envelheciam – e acreditava-se que isso era um dom dos deuses. Entendia-se que a longevidade se devia ao fato de a pessoa ter vivido de acordo com a lei dos ancestrais.
É inegável que o poder estava nas mãos de homens mais velhos, mas ela conta que, na flor da mocidade, Dom Pedro II fez questão de “aposentar” os idosos que o tinham cercado na meninice, abrindo espaço para os bacharéis recém-saídos das academias. Na segunda metade do século XIX, os próprios protagonistas da história passaram a discorrer sobre sua idade. O abolicionista Joaquim Nabuco, por exemplo, via surgirem projetos do qual não participara: “Resigno-me a ter tido a minha vez e que outros tenham a sua”.
Priore também se debruça sobre a velhice dos quatro milhões de escravizados que chegaram ao Brasil.
A maioria era composta de homens entre 15 e 40 anos. Apesar das condições degradantes em que viviam, havia os que envelheciam –e acreditava-se que isso era um dom dos deuses. Entendia-se que a longevidade se devia ao fato de a pessoa ter vivido de acordo com a lei dos ancestrais.
tudo começou com uma dor no joelho
resenha
A figura do patriarca reinou absoluta até o final do século XIX. No entanto, nas primeiras décadas do século XX, ficou visível a luta do novo contra o velho: modernismo e futurismo eram as palavras de ordem em São Paulo, a metrópole que sediara a Semana de Arte Moderna de 1922 e se transformava na locomotiva do país. A velocidade imperava, com trens, bondes e os primeiros automóveis. O progresso era sinônimo de urbanização acelerada, culto aos esportes e idealização do corpo.
Entre os anos 1930 e 1950, consolidou-se a idade de ouro da juventude: nos anúncios, nas fotografias, no cinema. Cronistas definiam que a meia-idade era compreendida entre os 35 e 42 anos; a idade madura, dos 43 aos 49; o declínio, de 57 a 63; a velhice, de 64 a 70; na sequência, vinha a decrepitude. Vale lembrar que, em 1920, a expectativa de vida era de 35 anos; em 1950, 46,8 anos. Hoje, uma criança nascida em 2025 pode esperar viver, em média, 76,8 anos.
Mari Del Priore, “presença constante nas listas de best-sellers”.
O conceito do ageism, o idadismo ou etarismo, foi criado pelo psiquiatra norte-americano Robert Butler, em 1969. Em 1971, Marcos Vale cantava: “Não confie em ninguém com mais de 30 anos”. Entretanto, segundo a economista Ana Amélia Camarano, citada no livro, o cenário para o idoso brasileiro, em 1998, era bem melhor que em 1981: sua renda era maior que a dos mais jovens, o que lhe permitia oferecer suporte familiar.
Na quarta e última parte, Mary Del Priore descortina, sem eufemismos, uma visão da situação do velho no país. Destaca que o ponto alto da década de 2000 foi a promulgação do Estatuto da Pessoa Idosa, em 1º de outubro de 2003. A questão é que, diante da previsão de que, em 2030, o Brasil terá mais adultos acima dos 60 do que crianças até os 14 anos, o envelhecimento da população significará dificuldades crescentes com despesas previdenciárias.
A própria autora reconhece: “Houve e há as mais diversas velhices, sobretudo num país desigual como o nosso, o velho rico vai viver mais e melhor que o pobre”, acrescentando que “a realidade de opressões e carências é complexa”. Afirma que, sem ter como meta buscar respostas para um quadro tão complexo, procurava testemunhos sobre a velhice.
“A história mostra que tivemos velhos capazes de desenhar seu futuro e que não se restringiram àquele que lhes apontaram. Velhos que advertiam e que se divertiam. Velhos que reivindicaram e tiveram voz. Velhos que ‘esperançaram’ e se frustraram”.
Mais uma vez, Priore alia a amplitude documental a uma capacidade narrativa que envolve o público. O fato de dar visibilidade à velhice, um tema negligenciado pela historiografia, fortalece os debates atuais sobre políticas sociais e de cuidados. Conclui dizendo que as lições que amealhou de nossos antepassados podem nos ajudar a construir um novo caminho, no qual a velhice não esteja associada a tantos estereótipos e imagens negativas.
“Durante quase 500 anos, os velhos eram apenas sobreviventes. No século XXI, a velhice parece ser uma conquista”, arremata, de forma otimista. O fecho nos leva de volta à sua vida privada –traçando um paralelo ao trabalho de garimpagem que revelou a intimidade de seus personagens. Enquanto escrevia, a dor no joelho sumira e sua mãe falecera. “Morreu à antiga, em casa, com a filha e o neto ao pé da cama. Exemplar, ela viveu intensamente todas as idades.” Que sirva de inspiração para que todos possam ter a mesma oportunidade.
resenha
tudo começou com uma dor no joelho
A revista : Estudos sobre Envelhecimento é uma publicação multidisciplinar, editada desde 1988 pelo Sesc São Paulo, de periodicidade quadrimestral e dirigida a estudantes, especialistas e interessados na área do envelhecimento. Tem como propósito estimular a reflexão e a produção intelectual no campo da gerontologia e das áreas em que o envelhecimento e a longevidade são objetos de estudo. Seu objetivo é publicar artigos de divulgação técnicos e científicos que abordem os diversos aspectos da velhice (físico, psíquico, social, cultural, econômico etc.) e do processo de envelhecimento.
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O Sesc – Serviço Social do Comércio é uma entidade privada com finalidade pública, criada em 1946 por iniciativa do empresariado do setor de comércio de bens, serviços e turismo, e que tem como missão contribuir para a qualidade de vida dos trabalhadores dessas categorias, seus dependentes e da sociedade em geral.
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O Sesc desenvolve, assim, uma ação de educação não formal permanente com o intuito de valorizar as pessoas ao estimular a autonomia, a convivência e o contato com expressões e modos diversos de pensar, agir e sentir.
CONSELHO REGIONAL DO SESC – 2022-2026
PRESIDENTE Abram Szajman
DIRETOR DO DEPARTAMENTO REGIONAL Luiz Deoclecio Massaro Galina
MEMBROS EFETIVOS
Arnaldo Odlevati Junior, Célio Simões Cerri, Dan Guinsburg, Jair Francisco Mafra, José de Sousa Lima, José Maria de Faria, José Roberto Pena, Manuel Henrique Farias Ramos, Marcus Alves de Mello, Michelle Reis Moreira, Milton Zamora, Paulo Cesar Garcia Lopes, Paulo João de Oliveira Alonso, Paulo Roberto Gullo, Rafik Hussein Saab, Reinaldo Pedro Correa, Rosana Aparecida da Silva, Valterli Martinez
MEMBROS SUPLENTES
Aguinaldo Rodrigues da Silva, Antonio Carlos Lima, Antonio Cozzi Junior, Antonio Di Girolamo, Antônio Fojo Costa, Antonio Geraldo Giannini, Cláudio Barnabé Cajado, Costabile Matarazzo Junior, Edison Severo Maltoni, Omar Abdul Assaf, Sérgio Vanderlei da Silva, Vitor Fernandes, William Pedro Luz
REPRESENTANTES DO CONSELHO REGIONAL JUNTO AO CONSELHO NACIONAL
MEMBROS EFETIVOS
Abram Szajman, Ivo Dall’Acqua Júnior, Rubens Torres Medrano
MEMBROS SUPLENTES
Álvaro Luiz Bruzadin Furtado, Marcelo Braga
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nesta edição
A reportagem Redes de solidariedade e o desafio de envelhecer nas metrópoles apresenta uma perspectiva de redes comunitárias de cuidado nas cidades. Cada vez mais, estudos e experiências práticas indicam que a forma como as cidades envelhecem dependem de uma combinação equilibrada entre a presença do Estado e a capacidade de articular políticas públicas com redes comunitárias de apoio, que operam justamente onde os serviços formais não chegam.
Em Longevidade nas moradias e nos ambientes: projeto em construção para o envelhecimento, as autoras analisam alguns dos problemas que as cidades brasileiras enfrentam em relação ao acolhimento das pessoas idosas e propõem algumas respostas para esses problemas, olhando para as soluções adotadas por cidades de outros países.
Cidadania e envelhecimento: uma experiência formativa com pessoas idosas no Sesc 14 Bis analisa a experiência da oficina Cidadania e a Pessoa Idosa, realizada no Sesc 14 Bis, compreendendo-a como
uma ação educativa que dialoga com a perspectiva freiriana de educação libertadora e com as diretrizes internacionais da Década do Envelhecimento Saudável.
Encontro de pessoas idosas: diversidades e confluências apresenta uma análise histórica do desenvolvimento do Festival da Integração, evento anual voltado à promoção da convivência e valorização da pessoa idosa, realizado no Sesc Bertioga. O artigo analisa a importância dessa ação e como foi transformada ao longo dos anos, em diálogo com as mudanças na sociedade e na maneira de entender o processo de envelhecimento.
Nelson Triunfo é o entrevistado da edição. Dançarino, músico, compositor, ativista social e educador, Nelson Triunfo completou 71 anos em 2025 e afirma que é um resistente. Resistiu ao racismo, ao preconceito contra sua origem nordestina e às prisões quando dançava nas ruas nas décadas de 1970 e 1980. Atualmente, encara o idadismo e o envelhecimento que, segundo ele, traz experiências boas, mas também difíceis. Considerado o pai do hip-hop brasileiro, como educador
ensina para crianças e jovens nas escolas públicas a capacidade de existir e resistir por meio dos versos do hip-hop, da dança, da arte.
A jornalista Mariza Tavares –criadora do programa 50 Mais CBN, no qual participava com o médico Alexandre Kalache, e autora de diversos livros sobre envelhecimento – apresenta o livro Uma história da velhice no Brasil, da historiadora Mary del Priore. No livro, o idadismo, ou etarismo, é o fio condutor que entrelaça a humanidade. A historiadora lembra que, na Idade Média, menosprezava-se o “farrapo humano” no qual a idade transforma o corpo. No Renascimento, exaltava-se a beleza do jovem e “a feiura do velho parecia ainda mais odiosa”.
Na editoria Envelhecemos o escritor Xico Sá reflete sobre seu próprio envelhecimento. “A virada dos 50 para os 60 anos sempre foi motivo de brincadeiras dos amigos. É um clássico. ‘O movimento é sexy, sexagenário’, assim eu respondia, de volta às piadas – estilo quinta série –da turma dos engraçadinhos. Ah, os marmanjos e a eterna imaturidade. A ilusão de que enganamos o tempo com zombarias adolescentes.”