Literatura Produção inédita de Edimilson de Almeida Pereira
Brasil revelado Entrevista com o escritor Itamar Vieira Junior
Flip 2026 A escrita poética da homenageada Orides Fontela
Comensalidade Comer junto para fortalecer trocas e vínculos
Conheça novas formas de se expressar com uma programação que combina a criatividade do fazer manual com as múltiplas possibilidades das tecnologias e artes visuais.
Palestras
CAPA: Crianças brincando no mar, na Praia do Buraquinho (BA), nos anos 2000, em registro fotográfico de Lita Cerqueira. A obra integra a exposição Ofício: Luz: Lita Cerqueira: Direito de Olhar, que ocupa o espaço das Oficinas de Criatividade do Sesc Pompeia. Com mais de 50 anos de carreira, a fotógrafa tem uma produção predominantemente em preto e branco, que percorre cenas cotidianas, artistas e pessoas anônimas, compondo um inspirado arquivo da vida brasileira nas últimas décadas. Mais informações em: sescsp.org.br/oficio Imagem: Lita Cerqueira
Mundo em transformação
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Legendas de acessibilidade abafadores acessível* audiodescrição braille cão-guia* dublagem formato alternativo legenda closed caption legenda open caption legendas
Libras recursos táteis
*Em estabelecimentos de uso coletivo, é assegurado o acompanhamento de cão-guia. As unidades do Sesc estão preparadas para receber todos os públicos
Há oito décadas na condução de ações de fomento ao bem-estar, o Sesc – Serviço Social do Comércio se tornou um marco da sociedade brasileira. Fruto de uma iniciativa pioneira do empresariado do setor, a entidade foi criada em 1946 com o intuito de promover, de modo permanente, a qualidade de vida e o aprimoramento pessoal e profissional de seu público prioritário e de toda a comunidade. Com o olhar atento às urgências da época, esses empresários compreenderam o papel protagonista que o setor de comércio de bens, serviços e turismo já desempenhava – e que seguiu se expandindo ano após ano – e construíram uma sólida e emancipadora ação de qualificação do tempo livre.
Hoje presente em todo o estado, o Sesc oferece uma vasta gama de atividades nos campos da cultura, lazer, esportes, turismo e saúde, além de proporcionar alimentação saudável e equilibrada em suas unidades operacionais. No setor da saúde, é referência com as clínicas de tratamento odontológico. Contribui ainda com o debate público de temas contemporâneos, a exemplo da sustentabilidade, mantendo, inclusive, uma Reserva Natural em Bertioga, num compromisso público com as questões ambientais.
É com imensa satisfação e profundo senso de responsabilidade, portanto, que assumo o compromisso de dar continuidade a essa ação que tanto contribui para o desenvolvimento da população, para que juntos possamos ampliar o acesso e promover uma vida mais justa e digna para a nossa nação.
Ivo Dall’Acqua Junior Presidente do Conselho Regional do Sesc no Estado de São Paulo
Para alimentar as relações
Comer é um dos gestos mais cotidianos da experiência humana. Ainda assim, poucos atos revelam tanto sobre quem somos, de onde viemos e como nos relacionamos com o mundo. Alimentar-se ultrapassa a necessidade biológica de nutrir o corpo: é também um exercício de cultura, memória e pertencimento. Em torno dos alimentos se organizam tradições, celebrações, afetos e modos de vida que atravessam gerações. Cada receita carrega histórias, cada preparo guarda saberes, cada refeição estabelece conexões entre pessoas, territórios e tempos distintos.
Desse modo, o conceito de comensalidade pode ser compreendido como a prática de compartilhar a mesa e a celebração da experiência de comer junto. Mais do que dividir o alimento, aqueles que se reúnem para uma refeição compartilham conversas, lembranças, conhecimentos. Reforçam e renovam seus vínculos, portanto. A mesa torna-se um espaço de encontro, escuta e trocas, onde diferenças dialogam e laços se fortalecem.
Reportagem desta edição da Revista E reflete sobre o conceito da comensalidade e reafirma a importância da presença, da troca e da construção de sentidos em comum à mesa, enfrentando os desafios de um tempo presente marcado pela aceleração da vida cotidiana e pelo enfraquecimento dos espaços coletivos. Para que possamos sempre resgatar a ideia de que, ao redor da mesa, também cultivamos a convivência. Boa leitura!
Luiz Deoclecio Massaro Galina Diretor Regional do Sesc São Paulo
SERVIÇO SOCIAL DO COMÉRCIO – SESC
Administração Regional no Estado de São Paulo Av. Álvaro Ramos, 991 –Belenzinho
CONSELHO REGIONAL DO SESC EM SÃO PAULO
Presidente: Ivo Dall’Acqua Junior
Diretor do Departamento Regional: Luiz Deoclecio Massaro Galina
Efetivos: Aldo Nuñez Macri, Boris Ber, Dan Guinsburg, Ivo Pinfildi Junior, Jair Francisco Mafra, José de Sousa Lima, José Roberto Pena, Manuel Henrique Farias Ramos, Marcus Alves de Mello, Michelle Reis Moreira, Milton Zamora, Paulo Cesar Garcia Lopes, Paulo João de Oliveira Alonso, Paulo Roberto Gullo, Rafik Hussein Saab, Reinaldo Pedro Correa, Rosana Aparecida da Silva, Valterli Martinez.
Suplentes: Aguinaldo Rodrigues da Silva, Antonio Cozzi Junior, Antonio Di Girolamo, Antônio Fojo da Costa, Antonio Geraldo Giannini, Carlos Alberto de Melo, Célio Simões Cerri, Cláudio Barnabé Cajado, Edison Severo Maltoni, Martim Clementino de Medeiros, Natália Ferreira Weber, Omar Abdul Assaf, Sérgio Esper, Sérgio Vanderlei da Silva, Telmo Côrtes de Carvalho e Silva, Vitor Fernandes, William Pedro Luz.
Suplentes: Luiz Roberto Rando, Marcelo Braga, Virgilio Cansino Gil
CONSELHO EDITORIAL | Revista E
Alexandre Calderero Lamonato, Alisson Fabiano Sbrana, Amanda Cristina de Souza, Ana Marilia de Souza Silva, Andrea de Oliveira Rodrigues, Andressa Santiago Romao, Anna Raissa Costa Silva, Antonio Carlos F Barbosa, Augusto Pereira Paula, Beatriz Yumi de Oliveira Ueda, Betina de Tella, Bruno Correa da Silva, Carolina Balza, Carolina Vidal Ferreira, Christi Lafalce, Cinthya de Rezende Martins, Clara Sito Alves, Claudia Dias Perez Machado, Claudio Eduardo Rodrigues, Debora Ramos Ribeiro, Desiane Pereira da Silva, Diana Gama Santos, Diego Polezel Zebele, Elisangela Sena Moreira, Elmo Sellitti Rangel, Emily Fonseca De Souza, Fabricio Floro, Felipe Veiga do Nascimento, Fernanda Porta Nova Ferreira da Silva, Fernando Oliveira Viana, Flávia Pereira Rabaça, Francisca Meyre Martins Vitorino, Gabriela Carraro Dias, Gabriella Pereira Rocha, Giovana Moraes Suzin, Gislene Lopes Oliveira, Giulia Maria de Campos Manocchi, Giuliano Jorge Magalhaes da Silva, Glauber Mishima Tanaka, Glauco Gotardi, Gleiceane Conceição Nascimento, Ilana Priscilla Marques, Isabela Egea Lisboa Lacerda, Isadora Vasconcelos de Oliveira Silva, Jean Guilherme Paz, Joana Joventina Grigorio Pinheiro, Jose Mauricio Rodrigues Lima, Juliana Neves dos Santos, Juliane Barbosa Braga, Larissa Darc Alves de Castro, Laura Lopes de Freitas, Leandro Ribeiro da Silva, Leila Yuri Ichikawa, Leticia Martins Sapucaia, Letícia Novaes, Marcelo Baradel, Marcos Afonso Schiavon Falsier, Maria Eduarda Camargo Pedro, Maria Rizoneide Pereira dos Santos, Mariana Lins Prado, Marina Reis, Marina Tomaz Zan, Marina Villar de Souza, Milena Ostan da Luz, Mya Cristina Joaquim Rodrigues, Natalia de Souza Freitas, Natasha Correa Amaral, Paco Sampaio, Pedro Leonardo Leme Bueno, Rani Bacil Fuzetto, Renan Cantuario Pereira, Renata Barros da Silva, Romeu Marinho C. Ubeda, Sabrina Carla Tenguan, Sabrina Grazielly Belem Barbosa, Sandra Ribeiro Alves, Sara Maria da Silva, Talita Rebizzi, Tatiana Busto Garcia, Thais Ferreira Rodrigues, Thais Vieira Costa, Thamires Magalhaes Motta, Thiago Cordeiro Lins, Valeria Mantovani de Andrade Alves, Vanessa Ferreira da Silva, Vania Regina Toffoli, Vivianne de Castro.
Coordenação-Geral: Ricardo Gentil
Coordenação-Executiva: Ligia Moreli e Silvio Basilio
Editora-Executiva: Adriana Reis Paulics • Edição de Arte e Diagramação: Lucas Blat • Edição de Textos: Adriana Reis Paulics, Diego Olivares, Marcel Verrumo e Rachel Sciré • Revisão de Textos: Pedro P. Silva • Edição de Fotografia: Nilton Fukuda • Repórteres: Alexandre Raith, Diego Olivares, Lúcia Nascimento, Marcel Verrumo, Maria Júlia Lledó, Marina Pereira, Marina Vaz e Vanusa Soares Souza • Coordenação Editorial Revista E: Adriana Reis Paulics, Marina Pereira, Marcel Verrumo e Rachel Sciré • Propaganda: Edmar Júnior, Jefferson Santanielo, Julia Parpulov e Vitor Penteado • Apoio Administrativo: Juliana Neves dos Santos e Talita Ferreira dos Santos • Arte de Anúncios: Angelo Cavalcanti, Geysa Bernardes, Gustavo André, Leandro Assis, Leandro Vicente, Lucas Ferreira, Luiz Felipe Santiago e Wendell de Lima Vieira • Supervisão Gráfica: Rogerio Ianelli • Criação Digital Revista E: Cleber Paes e Rodrigo Losano • Circulação e Distribuição: Vanessa Zago
Jornalista responsável: Adriana Reis Paulics (MTB 37.488). A Revista E é uma publicação do Sesc São Paulo, sob coordenação da Superintendência de Comunicação Social
Distribuição gratuita. Nenhuma pessoa está autorizada a vender anúncios. Esta publicação está disponível para retirada gratuita nas unidades do Sesc São Paulo e também em versão digital, em sescsp.org.br/revistae e no aplicativo Sesc SP para tablets e celulares (Android e IOS). Fale conosco: revistae@sescsp.org.br
Itamar Vieira
Junior, autor de Torto arado, reflete sobre formação literária, memória e urgências do país
Em tempos de refeições apressadas e telas à mesa, comer junto é também resgatar formas de convivência em comunidade
Museus, planetários e parques científicos promovem atividades para aprender ciências fora da sala de aula
FIT Rio Preto 2026, de 16 a 25/7, apresenta diferentes tendências contemporâneas das artes cênicas do Brasil e do exterior
dossiê entrevista alimentação
Homenageada da Flip 2026, escritora Orides Fontela segue desafiando leitores com uma poesia concisa e filosófica
Um passeio pela obra de Lita Cerqueira revela o olhar independente de uma das grandes fotógrafas brasileiras
Nilton Fukuda (Entrevista); Fritz Nagib (Bio); Lita Cerqueira (Gráfica)
Como dados podem orientar decisões mais conscientes na gestão cultural, em artigos de Daniele Pereira Canedo e Beth Ponte
Múltipla e inquieta, Letrux compartilha referências e vivências que ressoam em sua criação artística na música e na literatura
Com décadas dedicadas aos palcos e às telas, atriz Walderez de Barros revisita trajetória que marcou a cena brasileira
A passagem de grandes nomes do rock brasileiro em unidades do Sesc São Paulo
Edimilson de Almeida Pereira (texto) e Heloisa Hariadne (ilustração)
em pauta encontros inéditos
Carmen Lúcia Saito Lelli
TEMPORADA 2026
APRESENTAÇÕES INÉDITAS
TODOS OS DOMINGOS, 21H
A cantora e instrumentista Vanessa Moreno em show no Teatro Raul Cortez, no Sesc 14 Bis, em maio, programação que integrou a Semana S, realizada pelo Sesc, Senac – Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial e a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP). De 12 a 17/5, a iniciativa promoveu atividades culturais, esportivas e socioeducativas aproximando a população das ações das entidades, em todas as regiões do Brasil.
SÃO JOSÉ DO RIO PRETO SÃO PAULO - BRASIL
DOSSIÊ
Diversidade em cena
Realizado em parceria com o Sesc São Paulo, FIT
Rio Preto apresenta espetáculos e atividades formativas entre 16 e 25 deste mês
OFIT Rio Preto – Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto chega à sua 24ª edição em 2026, ano em que completa 57 anos, mantendo sua relevância entre os festivais nacionais de artes cênicas e incorporando a acessibilidade como parte da sua concepção. Realizado entre 16 e 25/7 pela prefeitura de São José do Rio Preto em parceria com o Sesc São Paulo, o evento reafirma sua vocação de circulação de obras, formação de público e estímulo ao pensamento crítico sobre o teatro contemporâneo.
Criado em 1969 pela prefeitura rio-pretense como Festival Nacional de Teatro Amador, o FIT passou por um processo de expansão ao longo das décadas. A partir de 2001, ao assumir dimensão internacional e
estabelecer parceria com o Sesc São Paulo, o festival ampliou sua projeção, fortalecendo redes de intercâmbio artístico e inserindo-se de forma ainda mais consistente no circuito das artes cênicas.
Neste ano, a acessibilidade ganha protagonismo com ações que contemplam diferentes públicos, por meio da incorporação de tecnologias de audiodescrição, libras e recursos sensoriais, entre outras. As iniciativas devem contemplar pessoas com deficiência visual, auditiva, intelectual e física, além de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e indivíduos com diferentes sensibilidades sensoriais. “O FIT é um festival que pertence à população de Rio Preto. Queremos que cada cidadão se sinta parte dessa grande celebração da diversidade,
da criatividade e da convivência por meio do teatro”, afirma o Secretário Municipal de Cultura de São José do Rio Preto e coordenador geral do festival, Erick Soares.
Em sua programação, o FIT não se limita aos palcos convencionais. Suas atividades ocupam ruas, praças, centros culturais e espaços alternativos da cidade, promovendo um contato direto entre artistas e diferentes públicos. Essa ocupação urbana reforça o caráter democrático do evento e sua proposta de aproximar a produção teatral das dinâmicas cotidianas da cidade.
“Ao longo das décadas, o FIT Rio Preto se estabeleceu como um espaço de reflexão crítica sobre as artes cênicas contemporâneas, sobretudo nessa região do estado. Por meio de parcerias como essa, o Sesc São Paulo fomenta a ampliação do acesso à cultura a diferentes públicos”, afirma o Diretor Regional do Sesc São Paulo, Luiz Deoclecio Massaro Galina. Leia mais sobre o FIT e acesse a programação completa em sescsp.org.br/fit
Completando 57 anos em 2026, FIT Rio Preto democratiza artes cênicas para a população da cidade.
O CÉU É O LIMITE
Neste mês, o projeto Celestiais chega ao Sesc 24 de Maio com uma programação inspirada no céu, em seus astros e nas relações entre as cosmovisões indígenas brasileiras e de diferentes culturas. Com atividades de literatura, brincadeiras, manualidades, música e teatro, propõe releituras artísticas do céu e de seus elementos, estimulando a imaginação, a reflexão e o diálogo entre
diferentes formas de compreender o universo. Entre as atividades gratuitas, estão Planetário: Universo em Movimento, que acontece de 7 a 12/7, das 10h às 15h; Astronomias Ancestrais: conhecimentos celestes de povos indígenas, 28/7, às 19h; e Vem e olha o céu! – Telescópios no Mirante, de 21 a 26/7 (terça a sábado, às 16h e 18h30; domingo, às 16h). Saiba mais em: sescsp.org.br/24demaio
Projeto Celestiais, no Sesc 24 de Maio, propõe diálogo com diferentes entendimentos sobre o universo.
MÚSICA EM EVIDÊNCIA
Julho traz ao SescTV estreias dedicadas à música instrumental brasileira e ao violão. No dia 5/7, às 21h, começa a temporada 2026 do Instrumental Sesc Brasil, com uma série de apresentações que celebram o legado de Moacir Santos (1926-2006), compositor, arranjador e maestro que
completaria 100 anos em 2026. A abertura fica por conta da Jazzmin's Big Band e o espetáculo Para Moacir. Nas semanas seguintes, o programa recebe Mestre Negro (12/7), Alexandre Vianna Trio (19/7) e Andrea Ernest Dias Quarteto (26/7), todos às 21h. Outra estreia do mês é a nova temporada de
Educação e tecnologia em perspectiva
Lançamentos das Edições Sesc São Paulo abordam os impactos da tecnologia na sociedade. Em Educação midiática na prática, Januária Cristina Alves destaca a importância do pensamento crítico diante dos algoritmos e defende um uso ético, consciente e humano dessas ferramentas, relacionando educação midiática à democracia, à liberdade de expressão e à saúde coletiva. Já em Educar as tecnologias: elogio à presença e aos tempos do pensar, Fernando José de Almeida reflete sobre o papel da educação diante de transformações tecnológicas, sociais e culturais. O autor propõe uma inversão de perspectiva: mais importante do que perguntar o que as tecnologias podem fazer pela educação é compreender o que a educação pode fazer para orientar e dar sentido ao uso das tecnologias. Saiba mais em: sescsp.org.br/edicoes
Movimento Violão, série dirigida pelo violonista Paulo Martelli. No dia 22/7, às 19h30, o concerto 340 anos de Bach homenageia Johann Sebastian Bach (1685-1750) em um recital com violões de seis e onze cordas, com participação do violoncelista Fabio Presgrave. Saiba mais e assista em sesc.tv
Fábio Salles
SOBERANIA EM CURSO
Entre 29/7 e 7/8, o Centro de Pesquisa e Formação realiza o curso presencial Caminhos e experiências da soberania alimentar na cidade de São Paulo, que propõe uma reflexão crítica sobre a soberania alimentar no país.
A formação aborda esse tema como um direito fundamental e um projeto em disputa que diz respeito à segurança alimentar e nutricional, ao acesso à terra, à diversidade cultural e às relações de produção. A metodologia
MIRE E
O Sesc Bom Retiro recebe, até 27/9, a exposição Mire Veja: MAM São Paulo visita o Sesc Bom Retiro Resultado da parceria entre o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) e o Sesc São Paulo, a mostra reúne cerca de 50 obras de diferentes linguagens e períodos, promovendo o diálogo entre os acervos das duas instituições. Com curadoria de Valquíria Prates e Mirela Estelles, a exposição integra
o programa MAM em Movimento e ocupa todo o edifício do Sesc Bom Retiro. A mostra propõe reflexões sobre as diversas formas de ver, conhecer e compartilhar a arte, estendendo-se também aos espaços de convivência da unidade. A ação amplia o contato do público com as obras e estimula novas experiências de mediação cultural. Confira em: sescsp.org.br/bomretiro
articula debates teóricos e vivências em iniciativas que atuam na cidade de São Paulo e nos arredores. A formação é realizada em parceria com a Organização Rizomar e as inscrições podem ser realizadas em sescsp.org.br/cpf
Rock no interior
No mês do Dia Mundial do Rock, comemorado em 13/7, unidades do Sesc São Paulo apresentam uma programação inspirada no gênero. De 23 a 26/7 o Sesc Catanduva recebe o Catandupedras
Em sua 14ª edição, o evento reúne diferentes expressões e promove encontros entre artistas consagrados como Fresno, Detonautas, Masters Of Voices e Korzus, além de uma programação dedicada às crianças, o Catandupedrinhas. Já de 24 a 26/7, o Sesc Registro realiza a segunda edição do festival Ribeira Rock, reunindo shows, literatura, artes visuais, circo e cultura independente no Vale do Ribeira. Entre os destaques, estão Ratos de Porão, As Mercenárias, Gloria, Dance of Days, Supercombo e Display. Além da música, a Feira do Livro Ribeira Rock completa a programação. Também entre 24 e 26/7, o Sesc Thermas Presidente Prudente celebra a 16ª edição do festival Sesc Thermas do Rock, com destaques como Terno Rei, Wanderléa, Krisiun, Os Tornados e Tihuana. Saiba mais em: sescsp.org.br
VEJA
Rodrigo Braga
Cerca de 50 obras do MAM passam a ocupar o edifício do Sesc Bom Retiro, até setembro.
FAÇA SUA CREDENCIAL PLENA
A Credencial Plena do Sesc é um benefício gratuito para pessoas com registro em carteira, que são estagiárias, temporárias, se aposentaram ou estão desempregadas há até dois anos em empresas do comércio de bens, serviços e turismo e seus dependentes familiares. Com a Credencial Plena você tem acesso prioritário e descontos na programação e serviços pagos do Sesc.
Qual é a validade da Credencial Plena?
A Credencial Plena tem validade de até 2 anos - para desempregados, a validade é de 24 meses contados a partir da data de rescisão do contrato de trabalho.
Como fazer a Credencial Plena?
On-line pelo aplicativo
Credencial Sesc SP ou pelo site centralrelacionamento.sescsp.org.br
Se preferir, nesses mesmos canais, é possível agendar horários para realização desses serviços presencialmente, nas Centrais de Atendimento das unidades.
Quem pode ser dependente na Credencial Plena?
• Cônjuge ou companheiro de união estável de qualquer gênero
• Filho, enteado, irmão, neto, tutelado e pessoa sob guarda com até 24 anos
• Pai, mãe, padrasto e madrasta
• Avôs e avós
Relacionamento com Empresas
É o programa que facilita o acesso ao credenciamento dos funcionários das empresas parceiras dos ramos do comércio de bens, serviços e turismo. Nessa parceria, além do credenciamento, os aproximamos de nossa vasta programação e serviços. Saiba mais em sescsp.org.br/empresas
Acesse o portal para saber sobre a Credencial Plena do Sesc
Ricardo Ferreira
Território literário
Escritor Itamar Vieira Junior fala sobre carreira, processo criativo e o mais recente romance, Coração sem medo, que encerra sua Trilogia da Terra
POR MARINA VAZ
FOTOS NILTON FUKUDA
Um certo encantamento paira em torno de Itamar Vieira Junior. Não só pelo tanto de leitores que ele conquistou nos últimos anos, mas pela potência de sua escrita – que oscila entre o lirismo e o retrato histórico, entre a realidade bruta e o fantástico –, capaz de revelar o que há de mais humano em cada personagem.
Geógrafo de formação e doutor em Estudos Étnicos e Africanos pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), o escritor baiano, de 46 anos, trabalhou por quase duas décadas como servidor público do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Porém, a vontade de contar histórias esteve nele desde cedo. Tanto que carregou suas pesquisas acadêmicas e profissionais, incluindo trabalhos de campo em comunidades quilombolas e assentamentos de terra, para seu universo literário.
Foi a partir da relação das pessoas com a terra, em especial das que não a possuem, que Itamar criou histórias que atravessam diferentes períodos históricos (não bem determinados) e várias gerações (nem sempre, de antemão, conectadas) e que revelam, cada qual à sua maneira, como a herança colonial brasileira nunca deixou de afetar as
populações mais vulneráveis, como os descendentes de africanos escravizados e os povos originários. Um de seus primeiros livros foi Torto arado (Todavia, 2019), fenômeno editorial traduzido para mais de 30 idiomas e centrado na relação simbiótica entre as irmãs Bibiana e Belonísia, que trabalham em troca de morada numa fazenda do sertão baiano. O romance é o principal responsável pelo autor ter ultrapassado a marca de 1 milhão de livros vendidos.
A obra marcou o início da Trilogia da Terra, que se seguiu com Salvar o fogo (Todavia, 2023) e o mais recente lançamento, Coração sem medo (Todavia, 2025).
Em sua carreira, o autor acumula prêmios dentro e fora do país, incluindo duas vezes o brasileiro Jabuti, os lusófonos LeYa e Oceanos, e o francês Montluc Résistance et Liberté. Além disso, o escritor chegou à final do britânico International Booker Prize.
Apesar do sucesso, ele não se deslumbra – permanece com os pés fincados na terra, tal qual seus personagens. “Tudo o que falam sobre mim, as coisas boas e as coisas más, não me ajudam em nada. Porque as coisas boas podem me fazer achar que sou melhor do que eu sou. E as coisas más, às vezes, carregam certo ranço, alguma dose
entrevista
Meu interesse nas crenças e religiões de matrizes africanas é de alguém que se interessa pela história social, mas também pelo ser humano e por aquilo que é capaz de transcender, de levá-lo para outros lugares
de preconceito. Então, eu deixo tudo da porta para fora. Ninguém pode me parar. Pode até não ler depois; aí é outra questão. Mas me parar, parar com a minha escrita, não pode”, disse durante evento de lançamento de Coração sem medo, realizado em março, no Teatro do Sesc Pompeia.
Nesta Entrevista, realizada no dia do evento, que integrou o projeto Leituras Circulantes do Sesc, o escritor baiano fala sobre processo criativo, referências literárias, mercado editorial e seu novo romance.
Como surgiu seu interesse por escrever histórias? Eu fui alfabetizado com cinco anos e meio e, naquele momento, paravam historinhas na minha mão. Quando uma delas me capturava, surgia uma vontade de fazer a mesma coisa. Primeiro, comecei a contar histórias de maneira oral, fazendo teatro de bonecos. Depois, passei a registrar tudo e, lá por volta dos nove anos, levar para a escola na esperança de que os colegas lessem e interpretassem aquilo. Nunca tinha ido ao teatro, mas esse desejo já existia. Eu tinha um mau hábito – queria escutar as histórias de adultos. Então, me escondia atrás da porta e fingia estar brincando, porque havia muitos interditos, proibições. Mas eu não resistia, tinha uma curiosidade muito grande. Eu cresci com esse senso de observação, cresci numa casa escutando pessoas contarem histórias – meus pais, meus avós, minhas tias, meus tios. Embora nunca fosse escrito, fosse de maneira oral, isso estimulou minha criatividade. Eu me lembro de ler livros da Maria Heloísa Penteado (1919-2014), da Lúcia Machado de Almeida (1910-2005), do Marcos Rey (1935-1999), da Maria José Dupré (1898-1984). Foram autores que marcaram as minhas primeiras leituras, e fundamentais para que eu acessasse, mais tarde, outras leituras. Eu gosto de ressaltar a importância dos autores que escrevem para a infância
e para a juventude. É a porta de entrada para a formação do leitor. O pequeno leitor será o grande leitor depois.
Veio daí a vontade de escrever Chupim (Todavia, 2024), seu primeiro livro infantil?
Também, também. Esse é um compromisso que eu tenho comigo e com a literatura, de também eventualmente escrever histórias que possam ser lidas pelas crianças. De preferência por toda a família, para que exista assunto, para que se possa conversar, para que não fique ali restrito ao universo da criança.
Como esse gosto por escutar histórias tem a ver com o trabalho que desenvolveu em suas pesquisas acadêmicas, em comunidades quilombolas, e também como geógrafo do Incra, quando visitava assentamentos de terra?
Eu fui estudar Geografia porque nunca considerei ser escritor uma atividade profissional, encarava sempre como hobby, como algo a mais que eu gostava de fazer. Guimarães Rosa (1908-1967) foi diplomata durante toda a vida; Machado de Assis (1839-1908) se aposentou no Ministério da Agricultura. Muitos autores conciliavam suas profissões com sua vocação. Achei que seria professor de Geografia; cheguei a lecionar por dois anos. Mas aí as coisas mudam de rumo – prestei concurso e achei que o Incra me permitiria viajar, conhecer lugares novos, fazer um trabalho que também é social, muito focado naqueles mais vulneráveis. No Incra, eu descobri esse Brasil profundo, que é um Brasil que carrega marcas de seu passado, um Brasil que é pouco falado, mas que ainda vive. E eu vi ali um campo fértil para escrever. Me lembrava, sobretudo, de romances que marcaram a minha formação como leitor, principalmente dos autores do Nordeste – Jorge Amado (1912-2001), Graciliano Ramos (1892-1953), João Cabral de Melo Neto (1920-1999), Rachel de
Queiroz (1910-2003), José Lins do Rego (1901-1957). Eu não via mais nada parecido na literatura, e esse campo continua tão vivo, tão forte. E foi assim que tudo que observei, tudo aquilo que fez parte da minha formação, tanto acadêmica quanto profissional, também se tornou matéria-prima para o que eu viria a escrever como escritor de ficção.
E quais experiências como pesquisador e geógrafo você levou para a ficção? Eu tentei escrever Torto arado aos 16 anos, quando ainda não tinha essa experiência de trabalho. Escrevi 80 páginas do livro. Claro, eu não tinha maturidade, nem poderia conferir à história a densidade, a profundidade que ela merecia. Foi o trabalho, além da minha formação intelectual na universidade, que me permitiu conhecer o campo brasileiro. E isso fez toda a diferença. Se eu não
tivesse vivido essa experiência, provavelmente eu não teria escrito o livro da maneira que ele foi escrito. Muito do que aparece em Torto arado foram coisas que eu descobri e que vi no campo. Por exemplo, pessoas ainda em regime de trabalho que lembra a escravidão. Pessoas que não podem construir suas casas, porque a terra tem um proprietário – mesmo tendo nascido, vivido e crescido ali, há gerações, essas pessoas não têm direito de construir uma casa de alvenaria, essa casa precisa ser desfeita para não demarcar a vida delas naquele lugar. O jarê, por exemplo, que é uma crença que só existe na Chapada Diamantina e que é tão brasileira, que carrega essa religiosidade que vem de muitas frentes, do cristianismo, do candomblé, das religiões xamânicas. Eu só pude narrar isso porque essa experiência estava ali no meu horizonte, como profissional, pesquisador e também como escritor.
Torto arado foi lançado no Brasil só depois de conquistar, em Portugal, o prêmio LeYa de 2018 e de o livro ser publicado na Europa. Participar desse concurso abriu caminho para entrar, de fato, no mundo literário. Como vê o mercado editorial hoje?
Acho que o Brasil tem despontado na literatura com toda a sua força, diversidade, especificidades. Temos escritores do Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sul escrevendo e publicando por grandes editoras, não apenas do Sudeste como era antes. E isso tem garantido uma pluralidade muito interessante. Mas o que tem acontecido não é uma abertura das editoras, é uma demanda reprimida dos leitores. Vivemos, a partir da Constituição de 1988, uma revolução silenciosa, uma mudança no nosso perfil social – grupos historicamente invisibilizados, apagados, foram de alguma maneira integrados, com políticas de reparação, de cotas. Tudo isso que o Brasil tem vivido é uma pequena revolução, que tem impactado a sociedade sem que a gente se dê conta. Essas pessoas é que têm pautado as editoras. Escritores sempre existiram escrevendo – Carolina Maria de Jesus (1914-1977), há 65 anos, publicou Quarto de despejo, que se tornou um best-seller, um documento literário
importante sobre o Brasil pós-abolição. Mas ela foi um milagre, muitos não conseguiram fazer o que ela fez. E, hoje, a gente encontra essa abertura porque existe uma demanda muito grande dos leitores por essas histórias.
Ganhar prêmios, ser aclamado pela crítica e vender muitos livros nem sempre caminham juntos. E você conseguiu tudo isso. A que atribui essa receptividade tão grande, inclusive por leitores sem nenhuma conexão com a realidade brasileira?
Olha, esse é um verdadeiro mistério. Acho que tudo aquilo que eu escrevo tem encontrado eco nos leitores porque reflete as preocupações do nosso tempo. E, de alguma maneira, o leitor se encontra nessa história. As pessoas têm olhado de maneira mais honesta para o nosso passado, têm se reencontrado com suas origens e isso também vai ecoar na literatura. Isso falando de Brasil. Quando penso em América Latina, nós temos uma história muito parecida – a formação do continente carrega o peso da colonização, da escravidão, do genocídio dos povos originários. Então, é mais fácil entender como um leitor de outro lugar da América Latina também se
identifica com essas histórias. Aí, quando se parte para outros lugares, porque eu já tive a oportunidade de fazer turnê na Bulgária, no Japão, na Alemanha, na França, o que eu posso dizer é que, nessa aldeia em que eu escrevo, falando sobre um Brasil em particular, os leitores de outros lugares vão encontrar a experiência humana que é universal. Não importa onde você nasce, não importa em que contexto você vive, há sentimentos que atravessam a humanidade inteira – o amor, a luta, o ódio, o medo, a coragem. E eu tento escrever de uma maneira que essas personagens sejam capazes de mostrar suas fraquezas e suas forças também. Talvez isso, de alguma maneira, se comunique com os anseios dos leitores de diversos lugares.
As religiões de matrizes africanas têm presença forte na Trilogia da Terra. Qual é a importância de trazer para seus livros o tema da fé?
Meu interesse nas crenças e religiões de matrizes africanas é um interesse natural de pesquisador, de alguém que se interessa pela história social do Brasil, mas também pelo ser humano e por aquilo que é capaz de transcender, de levá-lo para outros lugares. Em nossa sociedade contemporânea, num mundo onde a ciência ocupa quase que um lugar de Deus, em que tudo é ditado pela ciência, ainda a ciência não oferece respostas para as inquietações da humanidade. E as crenças, as religiões, significam essa conexão que o ser humano pode ter com aquilo que considera sagrado. A colonização trouxe essa ruptura – quando aqui chegaram os colonizadores, encontraram sociedades que professavam suas crenças, suas fés, e elas tinham essa conexão profunda com o
sagrado. A terra não era uma mercadoria, era uma deusa, dependendo da sociedade. A lua, os astros, a montanha, nada disso tinha sido reduzido a recurso, a matéria – eram coisas vivas que estavam vivendo com essas pessoas. E o meu interesse nas crenças religiosas, e de trazer isso para essas histórias, é porque elas revelam uma face da nossa humanidade que, muitas vezes, é tida como menor, que são as nossas subjetividades, as emoções, os sentimentos. Acho que a fé das pessoas traz uma visão muito importante sobre a experiência humana. Sem isso, seríamos incapazes de compreender aqueles seres na sua complexidade, na sua inteireza.
Em uma época de tantos estímulos, hiperconectividade e desatenção, como é o desafio de reter a atenção de leitores?
Até hoje, quando minha mãe vai contar uma história, é preciso ter paciência e sentar, porque ela não vai entregar o ouro nos primeiros momentos. Ela vai contar de uma forma lenta, mas contínua, permanente; existe a sua maneira própria de contar história para entreter quem está escutando. Eu acho que, num mundo de grandes distrações, nós, que contamos histórias, seja oral, seja escrita, nos espelhamos na Sherazade, d’As mil e uma noites. Ela contava história para não morrer, porque, se ela entregasse o principal da história naquele dia, seria o fim dela – e ela deixa sempre uma parte importante para contar no dia seguinte. Num mundo como o nosso, é um desafio convidar o leitor para a leitura. É como se segurássemos na sua mão e disséssemos “vamos fazer uma travessia por essa história juntos”. E essa história não é um vídeo de (Trabalhando) no Incra, eu descobri esse Brasil profundo, que é um Brasil que carrega marcas
Não importa onde você nasce, não importa em que contexto você vive, há sentimentos que atravessam a humanidade inteira – o amor, a luta, o ódio, o medo, a coragem
90 segundos, nem um pequeno post. É algo mais denso, mais profundo, algo que vai exigir tempo, que vai exigir reflexão. Então, eu acho que é um movimento consciente, sim, mas eu não vejo outra maneira de contar histórias.
Poderia dar um exemplo de como faz isso?
Eu costumo não subestimar o leitor. Muita gente, por exemplo, em Torto arado, fica curiosa para saber em que tempo se passa a história. É exatamente no pós-abolição, é décadas depois? Eu vou entregando essas chaves não com calendário, datas marcadas, eu vou dando pistas. É um carro que aparece, é uma motocicleta que aparece. Porque, se estamos falando de permanências, como é que o leitor pode se engajar nessa leitura, tentar descobrir em que tempo essa história se passa? Eu acho que quem escreve não pode subestimar quem lê. É preciso dar espaço, margem, para que esse leitor também contribua com suas reflexões para a história.
Como você faz para construir personagens que refletem as questões de seu próprio tempo? Eu nunca penso na escrita de uma história a partir de um tema. Quem conduz a história, pelo menos pra mim, autor, são as personagens. E as personagens, assim como nós, carregam questões múltiplas, que transcendem uma visão limitada do ser humano. Em Torto arado, por exemplo, o parto tinha uma relação com a religiosidade, com a solidariedade, porque era feito por parteiras. Em Coração sem medo, essas mulheres já não encontram esse acolhimento, e chegam a viver violências obstétricas. Então, eu acho que aí tem um marcador temporal importante também. Essas coisas vão parar lá [em Coração sem medo] porque são as coisas vividas pelas pessoas
do nosso tempo. Porque essa história se aproxima do nosso tempo e as questões do nosso tempo são essas inquietações que também se refletem na história.
Como você se sente ao encerrar a Trilogia da Terra e deixar para trás essas personagens que o acompanham há tanto tempo?
A gente passa muito tempo com o projeto de um romance, antes mesmo de escrever. E é um processo excessivo. Eu, pelo menos, quando estou nesse processo, tenho que sentar todos os dias para escrever, não importa feriado, fim de semana. Não tem nada a ver com produtividade, tem é uma necessidade de estar junto das personagens. Eu preciso dessa rotina, desse encontro, para que a história possa fluir. E eu fico com esse luto. Mas aí tem uma coisa bonita, porque, depois que o livro é publicado e chega ao leitor, essas histórias voltam de alguma maneira. Eu sempre digo que os leitores estão me trazendo notícias da Bibiana, da Belonísia, da Luzia, do Moisés, da Rita Preta. Uma história, quando é lida, ela permanece viva. Antes, ela viveu com quem escreveu – e de muitas maneiras, porque a gente sente raiva, se arrepia, se emociona. Não é o intelecto que escreve uma história, é o corpo inteiro que escreve uma história. Depois, o leitor vai emprestar seu corpo para que essa história viva uma outra vez.
Assista a trechos da Entrevista com Itamar Vieira Junior, realizada no Sesc Pompeia, em março de 2026.
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COMER em companhia
a refeição acompanhado é uma
Além de fazer parte de culturas alimentares, o ato de comer junto promove trocas, vínculos sociais e benefícios à saúde e ao bem-estar
POR MARIA JÚLIA LLEDÓ
FOTOS NILTON FUKUDA
Fazer
das diretrizes do Guia Alimentar para a População Brasileira.
Braços estendidos cruzam-se sobre a mesa como num balé.
Entre trocas de travessas, uma coreografia é ritmada por conversas, contação de histórias e exclamações sobre o tempero do feijão ou o ponto do bife acebolado. Sentados à mesa, mais velhos, adultos, jovens e crianças realizam essa prática cultural que atravessa a história da humanidade: a comensalidade. Palavra originária do termo em latim mensa, que significa “mesa”, ela representa o ato de comer em companhia. O hábito não só traz inúmeros benefícios à saúde e ao bem-estar, mas também promove e fortalece vínculos sociais. No entanto, o modo de vida acelerado e mediado por dispositivos digitais tem apresentado desafios, como a demanda por refeições rápidas e individuais, o uso excessivo de telas e a falta de lugares adequados para se comer junto. Então, como preservar o protagonismo da comensalidade, enquanto prática sociocultural?
No Guia Alimentar para a População Brasileira estão as primeiras diretrizes alimentares oficiais do país, em resposta às transformações sociais e seus impactos sobre condições de saúde e nutrição. No capítulo 4, a comensalidade engloba três aspectos: comer com regularidade e com atenção, comer em ambientes apropriados e comer em companhia. E entre as vantagens dessa prática, descreve-se: “melhor digestão dos alimentos, controle mais eficiente do quanto comemos, maiores oportunidades de convivência com nossos familiares e amigos, maior interação social e, de modo geral, mais prazer com a alimentação”.
Coordenadora técnica na elaboração do Guia, a nutricionista e pesquisadora Patricia Jaime explica a importância do documento oficial, que serve de apoio às ações de educação alimentar e nutricional no Sistema Único de Saúde (SUS) e da criação de políticas públicas. “Ao orientar que as refeições sejam feitas com atenção e, sempre que possível, em companhia, o Guia não está promovendo apenas a convivência social. Ele também propõe
Carmen Silva, liderança do MSTC e idealizadora da Cozinha Ocupação 9 de Julho: comida como vetor social.
um contraponto ao ritmo apressado e disperso do mundo digital, um ritmo que facilita o consumo automático de ultraprocessados”, pondera Patricia Jaime, professora titular da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP).
Segundo a especialista, que também é coordenadora científica do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens) da USP, um estudo realizado com brasileiros de todas as idades mostrou que, quanto maior o tempo de lazer gasto em frente à televisão ou em outras telas, maior o consumo de alimentos ultraprocessados. E esses alimentos, de acordo com o Guia, têm uma composição nutricional prejudicial à saúde, devido às altas taxas de gorduras, açúcares e sódio. Estudos apontam que eles favorecem doenças do coração, diabetes e vários tipos de
câncer, além de contribuir para o aumento do risco de deficiências nutricionais. “Quando se substitui a mesa compartilhada por refeições diante de telas, perde-se algo essencial: diante da televisão ou do celular, as pessoas acabam comendo mais rápido e se distraem do próprio ato de comer, o que pode levar a comer além do necessário, sem perceber”, alerta a professora.
JEITO DE COMER
O uso de telas durante as refeições também reproduz, segundo a nutricionista e pesquisadora Marle Alvarenga, um novo jeito de comer. “O mundo digital está reorganizando a cultura alimentar. Você tem que fotografar, postar, performar.
QUANDO SE SUBSTITUI A MESA COMPARTILHADA POR REFEIÇÕES DIANTE DE TELAS, PERDE-SE
Patricia Jaime, professora e pesquisadora da Universidade de São Paulo
Ou seja, ele exerce uma influência não só para dizer se isso é certo ou errado, mas para dizer qual deve ser o jeito de comer. Tudo precisa ser absolutamente instagramável, mas o prato de comida de casa não necessariamente é, e está tudo bem”, reforça.
Soma-se ainda outro agravante: moradias sem estrutura para o preparo e a realização das refeições. Pesquisadora de culturas alimentares, Patty Durães chama atenção para uma arquitetura que individualiza e incentiva a cultura delivery da alimentação. “A gente foi perdendo, primeiro, a copa. Depois, a sala de jantar perdeu a mesa, ganhou uma televisão grande e um sofá retrátil. Na cozinha, não tem espaço para um fogão, mas na geladeira cabe comida congelada.
Então, o que a gente come e onde a gente come?
As pessoas não recebem mais a família porque não têm espaço dentro de casa. Aí, quando comem em casa, comem na companhia de uma tela”, observa a pesquisadora. Em outras palavras, os lugares onde vivemos influenciam muito nossos hábitos alimentares.
Em resposta, “casas com cozinhas e mesas convidativas, escolas com refeitórios acolhedores e espaços públicos equipados (como praças de alimentação e mercados locais) criam ambientes propícios para preparar e compartilhar refeições em grupo”, descreve a professora Patricia Jaime. Ela adverte, contudo, que não basta apenas o planejamento dos espaços físicos para que a comensalidade seja colocada em ação.
Espaços, como a Comedoria do Sesc Pinheiros, oferecem mesas coletivas e podem ser uma opção para socializar durante as refeições.
alimentação
HÁ ESTUDOS QUE DEMONSTRAM QUE O ATO DE COMER EM FAMÍLIA, POR EXEMPLO, ESTÁ
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Marle Alvarenga, nutricionista e pesquisadora
“Cozinhar e comer em conjunto também dependem de tempo disponível, acesso a ingredientes saudáveis e de como a sociedade organiza o trabalho de cuidado na família. Não adianta ter uma cozinha bem equipada se as pessoas não têm tempo para cozinhar ou se não conhecem formas de organizar sua rotina e preparar as refeições para o dia a dia”, pondera. Ao final, “valorizar o ato de cozinhar significa reconhecer sua importância para a saúde, para a cultura alimentar e para o convívio diário”, acrescenta Patricia.
Nas últimas décadas, pesquisas científicas também têm apontado um caminho de volta à mesa tendo em vista os impactos dessa prática da cultura alimentar sobre a saúde. De acordo com a pesquisadora Marle Alvarenga, “há estudos que demonstram que o ato de comer em família, por exemplo, está relacionado a melhores notas na escola, menor abuso de substâncias químicas e menor risco de transtorno alimentar”. Por isso, ela enfatiza: “uma boa educação alimentar deveria passar pela questão da mesa, do comer em conjunto, desde a infância”.
Outro aspecto da comensalidade que estudos apontam, segundo a especialista, é como diferentes culturas alimentares valorizam essa prática cultural. Publicada pela revista científica Food Research International, em 2022, e realizada pela Universidade de Konstanz, na Alemanha, uma pesquisa analisou semelhanças e diferenças entre culturas alimentares tradicionais e modernas em dez países: Brasil, China, França, Alemanha, Gana, Índia, Japão, México, Turquia e Estados Unidos. O estudo concluiu que compartilhar refeições à mesa ainda é uma prática tradicional valorizada no Brasil, Gana e França; enquanto China, Japão e Estados Unidos apresentam uma tendência maior para práticas modernas, como refeições rápidas e fora de casa.
Para preservar esse hábito, Marle Alvarenga orienta as famílias a assumirem essa prática como “um compromisso inadiável”. “Cada família vai avaliar o que é possível, mas é preciso anotar na agenda se vai almoçar ou jantar todos juntos. Quantas vezes a gente consegue fazer isso por semana? Manter esse ritual é poder crescer com essa referência e levar esse momento de socialização adiante na vida.”
alimentação
Vera Lucia Frazão, Ítala Cristina da Silva, Silvana de Oliveira, Mila Gomes e Maria do Socorro Albuquerque trabalham na Cozinha Solidária da Quebrada Alimentada, que serve 500 refeições diariamente (de segunda a sexta), além de promover encontros, oficinas e almoços coletivos na sede, na zona Norte de São Paulo.
JUNTOS À MESA
Desde a primeira fogueira que reuniu a humanidade para o ato de comer junto, diferentes povos em todos os continentes criaram seus próprios rituais de alimentação compartilhada ao longo da história. Atravessamos séculos e lá estava ela, a mesa (ou sua substituta) disposta a receber mais um. Podiam ser líderes a tomar decisões sobre seus territórios entre uma garfada e outra, ou artistas, a exemplo do escritor e historiador Mário de Andrade (1893-1945), que reunia os amigos em casa para apreciar acepipes, pratos e sobremesas enquanto discutia os passos do Modernismo.
Hoje, a comensalidade resiste nos centros urbanos e nos territórios periféricos por meio de ações que partem da sociedade. Cozinhas solidárias, quermesses, festas típicas realizadas em praças e outros espaços públicos e rituais de religiões de matriz africana se encarregam de preservar uma cultura alimentar nutrida pelo valor do compartilhamento, de acordo com a pesquisadora Patty Durães. O mesmo valor descrito pelo pensador e líder quilombola Nêgo Bispo (1959-2023) no livro
A terra dá, a terra quer (Ubu, 2023). Nas palavras de Bispo: “a comida alimenta o corpo e alimenta a alma – a comida para nós não é só comida”.
Da mesma forma, o almoço preparado pela Cozinha Ocupação 9 de Julho MSTC, na região central da cidade de São Paulo, não é só almoço. “Quando a gente resolve abrir a cozinha para o público, em 2017, a gente abre mostrando, inclusive, essa ancestralidade”, reforça Carmen Silva, liderança do MSTC. Ao entender a comida como um vetor social, a cozinha coletiva do Movimento Sem Teto do Centro (MSTC) busca o fortalecimento de uma economia solidária que favoreça os moradores das ocupações e da comunidade a partir da realização de almoços, sempre
aos domingos. Em dias de grande movimento, são vendidas até 600 refeições, sendo que, para cada uma dessas, duas são doadas a comunidades parceiras.
No espaço aos fundos, sombreado por árvores e rodeado por paredes coloridas por diferentes artistas, as mesas abraçam um caráter coletivo, prontas para receber uma diversidade de públicos. Lançamentos de livros, rodas de conversa, shows e outras apresentações culturais agregam novas trocas. “A intenção não é individualizar a mesa. Eu acho que ali é o momento das pessoas conversarem, fazerem amizade. E quando estou com tempo, eu circulo perguntando se está tudo bem, se gostaram do almoço. Às vezes, pessoas que nunca vieram comentam que sentem falta desse convívio. Ou seja, faz diferença juntar pessoas”, descreve Carmen, idealizadora da Cozinha.
Outro exemplo é o projeto Quebrada Alimentada, criado na pandemia de covid-19 pela professora do Departamento de História da USP e pesquisadora Adriana Salay e o chef Rodrigo Oliveira, do restaurante Mocotó, na Vila Medeiros, zona Norte de São Paulo. No começo, o projeto funcionava dentro do restaurante para doação de marmitas a moradores do bairro em situação de vulnerabilidade. Ao somar parceiros e lideranças comunitárias, em 2025, inaugurou-se a cozinha-escola da Associação Quebrada Alimentada, na Ocupação Jardim Julieta, na mesma região. “Para mim, a coisa mais especial aconteceu quando a gente estava fazendo a obra. Contratamos moradores da ocupação e um deles me disse: ‘O que a gente está construindo é o coração da comunidade’”, recorda Adriana, vice-presidente da associação.
Atualmente, a cozinha solidária da Quebrada Alimentada prepara e distribui 500 refeições diariamente, de segunda a sexta, para moradores
da região e proximidades. Coordenadora da cozinha-escola, a nutricionista Mila Gomes reforça que a importância da associação vai além do preparo e entrega de marmitas. “Somos um espaço que também supre essa demanda de aprendizado, acolhimento e convivência”, conta a nutricionista.
Isso porque a cozinha-escola ainda incorpora uma área de convivência para cursos de culinária e outras atividades, além de almoços coletivos em datas comemorativas. “Esse espaço já trouxe vacinação que não poderia ser feita na rua, trouxe projetos de dignidade menstrual, capoeira para as crianças, festas, processos de formação em gastronomia e queremos, também, alfabetização”, compartilha Adriana.
Dessa forma, as cozinhas comunitárias e solidárias vêm demonstrando, segundo a professora Patricia Jaime, todo o seu potencial. Afinal, é nelas que as comunidades cozinham juntas, compartilham alimentos e se ajudam, promovendo inclusão social, segurança alimentar e hábitos alimentares mais saudáveis. Uma ação do coletivo pelo coletivo para que a comensalidade possa se tornar uma estratégia de promoção de saúde e bem-estar, junto a políticas públicas. “Construir espaços adequados é o primeiro passo, mas combiná-los com ações educativas, mais tempo livre para as famílias e programas públicos garante que comer junto deixe de ser apenas um ideal e passe a ser uma prática real que beneficia a todos”, conclui Patricia.
Almoços coletivos são oportunidades de trocar histórias e conhecimentos, mantendo viva uma prática ancestral.
para ver no sesc / alimentação
ALIMENTAR AS RELAÇÕES
Além de oferecer refeições, espaços do Sesc São Paulo fomentam saúde, bem-estar e convivência
Quem frequenta uma unidade do Sesc São Paulo encontra nas Comedorias um espaço para alimentar corpo, ideias e relações. Ponto de encontro para uma refeição em família, um café com amigos ou mesmo para começar novas amizades, esses espaços incentivam que as pessoas compartilhem as mesas
durante as refeições, fazendo da hora de comer um momento para dividir e conversar. Ao todo, 12 restaurantes e 81 cafeterias e lanchonetes estão distribuídos nas unidades da capital, do interior e do litoral do estado de São Paulo, com um cardápio de opções saudáveis, feitas a partir de ingredientes regionais e sazonais.
“Nas Comedorias, a comensalidade se traduz em experiências cotidianas de alimentação, que promovem a convivência, o diálogo, o cuidado e a valorização da cultura alimentar. Em espaços acolhedores e acessíveis, reforça a dimensão social da alimentação e contribui para a promoção do bem-estar e de práticas alimentares saudáveis”, explica Mariana Meirelles Ruocco, gerente da Gerência de Alimentação e Segurança Alimentar do Sesc São Paulo.
Saiba mais sobre as Comedorias: sescsp.org.br/comedorias
Presentes em diversas unidades, como no Sesc Pinheiros (foto), as mesas compartilhadas das Comedorias incentivam o encontro.
Fritz Nagib
a poeta FILÓSOFA
Homenageada da Flip 2026, Orides Fontela traçou a vida em versos, tornando-se uma das principais representantes da poesia brasileira
POR LÚCIA NASCIMENTO
Uma máquina de escrever, uma cadeira de balanço, várias folhas de papel, alguns livros e quase mais nenhum objeto. Nesse cenário, uma mulher magra, de óculos com lentes grossas e cabelos curtos escreve seus poemas. A mulher é Orides Fontela (1940-1998). O cenário, o apartamento em que viveu seus últimos anos de vida, na cidade de São Paulo.
A imagem é um dos poucos registros audiovisuais da intimidade dessa poeta, uma das mais importantes de sua geração. A gravação foi feita pela TV Cultura pouco tempo antes da morte de Orides, em 1998. Na entrevista, ouvimos sua voz envelhecida rememorar que, com menos de sete anos, “já escrevi uma quadrinha”.
Mas foi no começo da vida adulta que sua escrita ultrapassou as fronteiras da cidade natal, São João da Boa Vista, no interior de São Paulo, quando um exemplar do jornal local O Município chegou às mãos de Davi Arrigucci Júnior, conterrâneo de Orides, com quem ela estudou na infância. Ali, alguns poemas da autora chamaram a atenção do crítico literário, professor aposentado da Universidade de São Paulo (USP). Foi ele, então, quem primeiro incentivou Orides a reunir os poemas em livro e a se mudar para São Paulo.
ANOS DE FORMAÇÃO
“Desde criança, enquanto a gente brincava, Orides parava a brincadeira para escrever. Ficava assim um tempão. Depois voltava, brincava um pouquinho e logo saía de novo”, conta Maria Helena Teixeira, prima da autora, no documentário Orides, onde ninguém mais (2018), dirigido por David Ribeiro. “Ela era muito sozinha, se isolava, não era muito de conversar. O que ela queria era escrever.”
Filha de um marceneiro e de uma dona de casa, Orides foi alfabetizada pela própria mãe. Mas foi com o pai analfabeto que ouviu suas primeiras histórias, contadas como causos. Orides e o pai eram inseparáveis.
Ao se mudar para a capital do estado, Orides abriu mão dessa relação. A mudança de cidade aumentou a solidão da poeta que, nessa época, já era órfã de mãe. Mas também marcou a época em que ela iniciou os estudos de filosofia na USP e publicou seu primeiro livro, Transposição (1969).
Na obra, dois gestos se atravessam: a interrogação criativa e a releitura da tradição não apenas literária, mas filosófica. Sua poética é sóbria, de versos curtos e enigmáticos. Já nessa primeira obra, algumas das características da poesia oridiana estão presentes, como a depuração formal e a concisão.
“Ela usava essas estratégias poéticas para extrair o máximo do mínimo, dizendo muito com pouco”, afirma Nathaly Felipe, doutora em Teoria e História Literária pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e autora de uma tese sobre a poética de Orides Fontela. “Os poemas dela criam um universo próprio a partir da reiteração de um vocabulário-base . Assim, o verbo, e o silêncio que o envolve, o tempo e, acima de tudo, a vida comparecem como resposta lúcida e lúdica ao chamado da poesia como experimentação.”
A formação filosófica também marca profundamente a escrita de Orides, menos voltada à confissão pessoal do que à investigação sobre o tempo e o ser. “Sob o signo da lucidez, a poesia de Orides é simultaneamente delicada e brutal. A associação com a filosofia não é somente temática, nem se deve exclusivamente ao fato de ela ter cursado filosofia. Orides pensa os conceitos [filosóficos] e os torce até que eles se tornem imagem, matéria de poesia”, explica Nathaly.
RECONHECIMENTO
Quatorze anos separaram a publicação de Transposição, no final da década de 1960, e a premiação de Orides no Jabuti, um dos mais importantes prêmios literários do país. Em 1973, publicou Helianto que, como o primeiro livro, não teve grande repercussão em seu lançamento. Nessa época, lecionava em uma escola primária Em 1980, foi transferida para a função de bibliotecária. “O pedido foi o fim do tormento. Não precisaria mais lidar com crianças: cuidaria apenas dos livros da biblioteca”, escreve o professor da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB), Gustavo de Castro Silva, em O enigma Orides –Uma biografia (2026), publicado pela editora Hedra.
Entre altos e baixos, Orides iniciou a década de 1980 publicando Alba (1983), obra vencedora do Prêmio Jabuti. O livro tem prefácio do crítico Antonio Candido (1918-2017), no qual ele afirma que o trabalho de Orides “tem o rigor construtivo dos poetas engenheiros”. Se os poetas engenheiros são aqueles que prezam por rigor formal, objetividade e lapidação precisa dos versos, não há dúvidas de que a poesia de Orides se aproxima dessa tradição.
Para Patricia Lavelle, poeta e professora de literatura na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), a obra de Orides surge “à sombra da anti-lira de João Cabral de Melo Neto (1920-1999) e da poesia concreta, abrindo novos caminhos para a poesia brasileira. Ela é leitora de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), de Manuel Bandeira (1886-1968), dos quais propõe releituras em seus próprios poemas, se inscrevendo numa herança modernista”.
ALUNA INCOMUM
Apesar do reconhecimento literário, o Prêmio Jabuti não foi suficiente para que a situação econômica de Orides, sempre muito delicada, melhorasse. “Da minha vida particular basta saber uma coisa: eu sou professora aposentada, o meu dinheiro não está dando para o aluguel e eu preciso dar um jeito de arranjar um emprego para equilibrar meu orçamento”, disse Orides em uma entrevista à revista Marie Claire, em 1996. A entrevista é retomada na obra de Gustavo de Castro Silva, O enigma Orides – Uma biografia
Nessa mesma entrevista, outro traço que costuma marcar a biografia da poeta ganha centralidade: ela sempre foi uma pessoa com convívio social mínimo ou inexistente. “Às vezes, me chamam de briguenta. Eu não sei como me relacionar bem. Primeiro, sou filha única. Fui criada muito tímida, fechada. Segundo, eu tenho que conviver num meio burguês, no qual não fui criada, tenho umas maneiras meio grossas. E às vezes eu posso chocar as pessoas. Principalmente quando digo a verdade. Eu tenho que aprender a pôr uma mascarazinha. Às vezes eu me sinto um pouco diminuída em meios muito burgueses. Frente a colegas poetas que são ricos. E é isso que faz com que eu seja agressiva com eles”, confessou a poeta.
O modo de agir de Orides já havia impressionado uma de suas professoras na faculdade: a filósofa Marilena Chauí. Durante sua fala no Colóquio Orides Fontela: 50 anos de Transposição, em 2019, a filósofa lembra que, quando “Orides gostava muito do que tinha escutado em uma aula, ficava entusiasmada, saía da classe e
Orides Fontela expressava sua visão de mundo em versos precisos, que dialogavam com autores como Carlos Drummond de Andrade.
gritava no corredor. Você via que estava produzindo um poema. Ela andava de um lado ao outro do corredor. Depois silenciava e entrava na sala de aula outra vez. Às vezes, quando achava que o professor estava falando bobagem, ela saía da sala de aula e fazia um comício nos corredores. Depois de gritar bastante, ela entrava outra vez na classe e continuava assistindo à aula.”
Para Marilena, Orides foi uma aluna incomum. “Não só porque ela ia produzindo a obra poética à medida que ia assistindo aos cursos, mas também porque ela refutava os cursos e se pronunciava a respeito”, em uma época em que esse comportamento era raro.
UMA MULHER FEMINISTA
Seus posicionamentos feministas também estavam à frente de sua época. Na mesma entrevista à revista Marie Claire, de 1996, Orides afirmava não acreditar que
a mulher poderá um dia “estar livre se não houver um sistema que a libere do trabalho doméstico”. Também não considerava justo um sistema em que homens ganham salários maiores para exercer a mesma função. “Temos que brigar”, ela incitava, para mudar essa situação.
“A poesia de Orides desloca a poesia escrita por mulheres dos clichês de temáticas sentimentais e confessionais. Mesmo quando ela usa elementos biográficos, o faz de modo reflexivo, por vezes irônico”, afirma Patricia. “Nesse sentido, sua poética concisa e filosófica me parece complementar à de Ana Cristina César (1952-1983), que produz efeitos de ironização de clichês do feminino por meio da ficcionalização do eu lírico.”
Sua poesia concisa e densa é a base de Rosácea (1986), publicada três anos após o Prêmio Jabuti. Sua relação irreverente com a tradição poética brasileira fica explicitada na obra, com “uma forma muito pessoal
meio-dia
Ao meio-dia a vida é impossível.
A luz destrói os segredos: a luz é crua contra os olhos ácida para o espírito.
A luz é demais para os homens.
(Porém como o saberias quando vieste à luz de ti mesmo?)
Meio-dia! Meio-dia!
A vida é lúcida e impossível.
ode
E enquanto mordemos frutos vivos declina a tarde.
E enquanto fixamos claros signos flui o silêncio.
E enquanto sofremos a hora intensa lentamente o tempo perde-nos.
Poema publicado em Transposição (1969).
Poema publicado em Helianto (1973).
reflexos
Poema publicado em Alba (1983).
No espelho a vida a pura vida já sem palavras.
A vida viva.
A vida quem?
A vida em branco espelho puro: ninguém ninguém.
cda (imitado)
Poema publicado em Rosácea (1986).
Ó vida, triste vida! Se eu me chamasse Aparecida dava na mesma.
mão única
Poema publicado em Teia (1996).
– é proibido voltar atrás e chorar.
A poesia de Orides Fontela foi reconhecida com prêmios da crítica, mas ainda está por ser descoberta pelo grande público.
de fazer humor, em homenagens que são também metamorfoses críticas capazes de marcar ironicamente a sua própria posição de enunciação, como mulher de origem simples e proletária”, afirma Patricia.
Na poesia de Orides Fontela, está presente o senso agudo dos desencontros e obstáculos que constituem o mundo real. Esse é um dos traços que ligam sua escrita à do poeta Carlos Drummond de Andrade, por exemplo, o mais explicitamente lembrado e celebrado em sua obra. “Podemos compreender sua poesia na chave das poéticas super contemporâneas da citação e da apropriação textual”, completa Patricia. Entre as características drummondianas, a ironia é das que mais provoca identificação em Orides.
UMA VIDA DEDICADA À POESIA
intelectuais brasileiros interessados em poesia conheciam o trabalho dela, mas o grande público, não”, lamenta Silva, que trabalhou por anos na biografia da poeta.
Pouco tempo após a publicação de Teia, sua saúde se deteriorou por conta de uma tuberculose. Em 1998, foi internada em um sanatório em Campos do Jordão, onde morreu aos 58 anos. Sua poética, no entanto, segue influenciando a literatura brasileira. Em 2018, Patricia Lavelle e Paulo Henriques Britto organizaram a coletânea O nervo do poema, publicada pela editora Relicário, que reúne criações inspiradas na obra oridiana e escritas por nomes como Ana Martins Marques, Marília Garcia, Edimilson de Almeida Pereira e da própria Lavelle. Neste ano, a editora Hedra também relança as cinco obras da poeta.
Se escrever poesia era a vida de Orides Fontela, o pedido feito ao receber um dos prêmios que ganhou ao longo da carreira continua reverberando, quase três décadas após sua partida. “É favor continuarem me lendo, ouviram? Obrigada de todo o coração.”
Dez anos após Rosácea, Orides publicou sua quinta e última obra, Teia (1996). Sucesso de crítica, o livro ganhou o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), mas não alcançou um público extensivo de leitores. “Os Fritz Nagib
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FESTA DAS LETRAS
Sesc marca presença na Flip 2026, que tem Orides Fontela como autora homenageada
Desde a primeira edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em 2003, apenas cinco edições homenagearam autoras brasileiras. Os destaques foram Clarice Lispector (1920-1977), Ana Cristina Cesar, Hilda Hilst (1930-2004), Maria Firmina dos Reis (1822-1917) e Pagu (1910-1962). Também por esse motivo, a homenagem a Orides Fontela é tão importante, na edição 2026. “Trata-se de uma autora de indiscutível relevância no campo da poesia brasileira e, portanto, da literatura brasileira. A homenagem na Flip possibilita que mais leitores possam conhecer sua obra, ofuscada por uma vida atribulada, de precariedade material e instabilidade emocional, situação que costuma cobrar um preço alto para as mulheres”, afirma Rita Palmeira, curadora da Flip 2026.
Uma das festas literárias mais importantes do país, a Flip também conta com a presença do Sesc. “Desde nossa primeira participação na Flip, em 2012, o Sesc tem fortalecido seus laços com a cidade, oferecendo uma programação contínua que valoriza o patrimônio cultural e artístico, além de promover a educação e a difusão dos variados sotaques da produção artística brasileira”, afirma Leonardo Minervini, gerente interino de Cultura do Departamento Nacional do Sesc.
Já a participação do Sesc São Paulo, por meio das Edições Sesc, se consolidou a partir de 2017. Naquela ocasião, a editora passou a ocupar de forma integral um espaço no Centro Histórico de Paraty, em parceria com o Departamento Nacional do Sesc. Em 2026, a
programação do Sesc na Flip será intensa. Confira os destaques e programe-se para acompanhar.
FLIP 2026
Uma breve história do agora
Com Alexandre Morelli e Jamil Chade, com mediação de Daniela Lima. Dia 23/7, quinta, às 19h30.
Elza Soares: mulher do fim do mundo
Com Lígia Moreli e Fabiana Cozza, com mediação de Ana Cristina Pinho. Dia 24/7, sexta às 19h30.
Eustáquio Neves: outros navios
Com Eder Chiodetto e Eustáquio Neves. Dia 25/7, sábado, às 17h.
Meu odiado crítico
Com Charles Gavin e Miguel De Almeida. Dia 25/7, sábado, às 19h30.
Casa Edições Sesc
Rua Marechal Santos Dias, 43 (Antiga Rua da Matriz). Centro Histórico de Paraty, Rio de Janeiro. Entrada gratuita.
Sesc São Paulo promove lançamentos e bate-papos com autores durante a Flip, em Paraty.
VER E SER VISTA
A obra de Lita Cerqueira transforma a fotografia em um exercício de proximidade, escuta e reconhecimento
POR DIEGO OLIVARES
Crianças brincando no mar, Praia do Buraquinho (BA), anos 2000.
“Suas fotos são um milagre do olho esquálido e atento atendido pela graça desatenta dos deuses em transe”. É assim que Gilberto Gil define o trabalho da fotógrafa Lita Cerqueira, sua conterrânea soteropolitana, em texto reproduzido no site oficial da artista. Desde abril, os resultados desse “milagre” podem ser vistos na exposição Ofício: Luz: Lita Cerqueira: Direito de Olhar, em cartaz no Sesc Pompeia.
Nela estão reunidas 47 fotografias representativas de suas mais de cinco décadas de carreira, três filmes em super 8 da década de 1970 e um conjunto de objetos de seu acervo pessoal, incluindo negativos, cromos e câmeras. As imagens formam um caleidoscópio de festas populares e tradicionais brasileiras, feiras, retratos de cenas da vida cotidiana, além de registros de grandes nomes da MPB, como o próprio Gil e seus parceiros de Doces Bárbaros: Caetano Veloso, Maria Bethânia e Gal Costa (1945-2022).
“Desde cedo, já sabia que eu era artista”, diz Lita, que ainda na adolescência se interessou por ser atriz, mas logo migrou para a fotografia, após ganhar de uma amiga a primeira câmera. Filha de um operário e de uma dona de casa, não tinha contatos no meio artístico. Mesmo assim, ela decidiu aos 19 anos que faria das fotos sua profissão. Trabalhava em festas de aniversário e em qualquer ocasião na qual pudesse exercitar o olhar. “Nunca cheguei a estudar fotografia. Sou autodidata e sempre trabalhei por conta própria. Não tive patrocinador, eu que comprava o negativo e pagava a revelação”, conta.
Lita construiu uma obra marcada pela independência. Sem vínculo permanente com jornais ou grandes agências, desenvolveu um percurso guiado sobretudo pela curiosidade e pela proximidade com os personagens que fotografava.
A autonomia permitiu que transitasse com a mesma naturalidade entre os bastidores da música brasileira, os sets de cinema e as celebrações que ocupam as ruas de Salvador e de tantas outras cidades do país, e acompanhasse eventos históricos, buscando outro ponto de vista: “Quando o Tancredo Neves (1910-1985) morreu, por acaso estava em São João del-Rei (MG) [cidade natal do advogado, presidente eleito do Brasil, que faleceu antes de assumir o cargo] quando aconteceu a missa de sétimo dia. Fui e optei por não fotografar nenhum político presente, apenas o povo”.
A exposição destaca ainda um aspecto fundamental de sua produção: a atenção dedicada à cultura popular e à presença negra no Brasil. Ao registrar festas religiosas, celebrações de rua, trabalhadores, crianças e personagens anônimos, Lita produz imagens que escapam dos enquadramentos exóticos ou folclóricos frequentemente associados a esses universos. Sua fotografia devolve complexidade, dignidade e protagonismo aos sujeitos retratados.
Parte significativa do material apresentado permaneceu guardada por décadas. Entre os destaques, estão fotografias nunca ampliadas ou digitalizadas e sete imagens coloridas inéditas, raridade em uma trajetória associada ao preto e branco. Os três filmes em super 8 exibidos na mostra também chegam ao público pela primeira vez, registrando momentos como a Festa do Senhor do Bonfim, a independência da Bahia e uma apresentação da cantora Clementina de Jesus.
Ofício: Luz: Lita Cerqueira: Direito de Olhar funciona como um reencontro com uma artista que ajudou a formar uma memória visual do Brasil sem jamais abrir mão da própria perspectiva. “Sou apaixonada pelo meu trabalho. Me orgulho de mim e da vida que construí por conta própria”, encerra.
POMPEIA
Ofício: Luz: Lita Cerqueira: Direito de Olhar
Até 13/9. Terça a sexta, das 10h às 21h. Sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h. GRÁTIS.
Gêmeas de Guarapari (ES), 1986.
Mais informações em: sescsp.org.br/oficio
Acima: Maria Bethânia, Roma (Itália), 1984.
À direita: Ana das Carrancas, Petrolina (PE), 1999.
Acima: Elza Soares na Bahia, durante os anos 1980.
À esquerda: Menina na escadaria da igreja da rua do Paço, Salvador (BA), 1975.
Acima: Marina Lima, Gilberto Gil, Lulu Santos e Cazuza (1958-1990), Rio de Janeiro (RJ), anos 1980.
À esquerda: Senhora na janela, Portão (BA), 1989.
Gilberto Gil no bloco Filhos de Gandhi, Salvador (BA), anos 1980.
Inscrições para tratamento odontológico
De 22 de julho, a partir das 15h30, até 29 de julho
O tratamento odontológico é exclusivo para quem tem a Credencial Plena do Sesc São Paulo. Para fazer a inscrição, baixe o aplicativo Credencial Sesc SP ou acesse o site centralrelacionamento.sescsp.org.br.
Mais informações sescsp.org.br/odontologia
APRENDER CIÊNCIAS fora da escola
Museus, parques e outros espaços dedicados às ciências convidam públicos de todas as idades a transformarem curiosidade em conhecimento
POR ALEXANDRE RAITH
Julho é tempo de férias escolares e pode ser uma oportunidade para despertar a curiosidade e a imaginação das crianças pelo universo das ciências. Planetários, observatórios, jardins botânicos e museus de história natural convidam o público a explorar temas como astronomia, biodiversidade, tecnologia, fósseis e meio ambiente. Esses espaços aproximam os visitantes dos processos de investigação que fazem parte da produção do pensamento científico, por meio de uma experiência interativa, divertida e cheia de descobertas. Além do lazer, visitar esses locais durante as férias pode fortalecer o interesse pelo conhecimento.
Observar fenômenos, manipular objetos e participar de atividades práticas são algumas das opções presentes nesses espaços culturais. De modo lúdico e cercado por brincadeiras e desafios, o público é convidado a se envolver com experiências sensoriais e investigativas, dando novas dimensões para o aprendizado teórico da sala de aula.
A ideia de expandir o conhecimento para além do conteúdo conceitual é tão presente na educação que integra a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que reúne as aprendizagens essenciais a serem desenvolvidas ao longo da Educação Básica. O documento defende
um ensino de ciências baseado na investigação, observação e resolução de problemas do cotidiano. Em vez de restringir a aprendizagem à memorização de conceitos, a BNCC propõe que os estudantes desenvolvam a capacidade de formular hipóteses, analisar evidências, argumentar e compreender a relação entre ciência, tecnologia, sociedade e meio ambiente.
Para a professora e pesquisadora Martha Marandino, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP), a formação acontece em diferentes ambientes sociais. Referência nos estudos sobre educação não formal – que
Nilton Fukuda
No Museu Catavento, crianças podem tocar e interagir com diversos itens que ajudam a explicar conceitos científicos.
educação
A VIVÊNCIA PRÁTICA, VISUAL E LÚDICA
CONSOLIDA A CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO
E, CONSEQUENTEMENTE, INCREMENTA E APROFUNDA O PENSAMENTO CIENTÍFICO
DO INDIVÍDUO DESDE A BASE
Marcos
Pedroso, coordenador de atividades da Sabina Escola Parque do Conhecimento
ocorre em espaços que não a escola –, a professora explica que centros culturais de ensino de ciência possuem intencionalidade educativa, mas funcionam de maneira distinta da escola, com outras formas de organização do tempo, do espaço e das experiências de aprendizagem. “Algumas pesquisas no Brasil indicam que é a escola que dá o acesso a esses espaços culturais para crianças e jovens. Isso mostra a importância de uma parceria”, afirma Martha, que também coordena o Grupo de Estudo e Pesquisa em Educação Não Formal (GEENF/USP).
Mais do que despertar curiosidade e a imaginação dos visitantes, esses ambientes ajudam a desenvolver o pensamento científico. Para a professora, nesse processo é fundamental compreender como a ciência é produzida. “A ciência é um empreendimento humano, logo ela está relacionada a interesses
econômicos, políticos e sociais. Ela é influenciada pelas concepções de ser humano e de conhecimento dos diferentes momentos históricos. Não podemos separar o aprendizado do conhecimento científico dessas dimensões que são da natureza da ciência, do processo de produção do conhecimento e das relações entre a ciência e a sociedade”, explica.
LOCAIS DE INTERAÇÃO E VIVÊNCIA
O livro A Educação em museus e os materiais educativos (GEENF/ USP, 2016), organizado pela professora Martha, destaca que espaços culturais deixaram de ser apenas locais de contemplação para se tornarem lugares de interação, diálogo e mediação cultural. As atividades desenvolvidas ajudam os visitantes a construir interpretações próprias sobre os temas abordados, tornando a aprendizagem mais participativa.
Ao visitar um planetário, observar fósseis em um museu de história natural ou percorrer uma trilha em um jardim botânico, crianças e adolescentes – e por que não adultos – entram em contato com diferentes formas de produzir conhecimento. Nas férias, são experiências que unem lazer e educação, ampliam repertórios culturais e mostram que aprender ciência pode ser uma aventura repleta de descobertas.
Mais do que apresentar informações, centros culturais de ciências estimulam perguntas, e ajudam a reforçar a noção de que o conhecimento não nasce de respostas prontas, mas da capacidade de questionar, investigar e buscar explicações para os fenômenos naturais. Esse é o ponto de partida da Sabina Escola Parque do Conhecimento, museu de ciências em Santo André, na região do ABC paulista. “Nosso espaço foi
projetado para uma vivência visual, interativa e prática. Dessa forma, o visitante pode ser despertado para o universo científico. Imagine estudar os dinossauros na teoria e, depois, conhecer um modelo de fóssil de Tiranossauro rex em tamanho real?”, explica Marcos Pedroso, coordenador de atividades do local. “A experiência se torna completa e, assim, conseguimos alcançar plenamente os objetivos pedagógicos”, defende.
Para Pedroso, espaços como a Sabina estimulam o aprendizado científico por causa do contato próximo com o objeto estudado. “A vivência prática, visual e lúdica consolida a construção do conhecimento e, consequentemente, incrementa e aprofunda o pensamento científico do indivíduo desde a base”, afirma.
ESPAÇOS DE ENCANTAMENTOS
Exercitar o pensamento científico consiste em ensinar a observar com atenção, levantar hipóteses, analisar evidências e construir argumentos fundamentados. Essa dinâmica reproduz as etapas do método científico. Primeiro surge a pergunta. Em seguida, formulam-se explicações possíveis. Depois, vêm a observação, o teste e a análise dos resultados. Ao participar desse processo, os visitantes compreendem que a ciência não é um conjunto de verdades prontas, mas uma construção contínua baseada em investigação, evidências e debate.
Mas, como transformar conceitos científicos em narrativas envolventes e com linguagem acessível? “Podemos fazer isso
utilizando uma imersão por meio do nosso projetor de estrelas que simula um céu verdadeiro”, exemplifica Mirian Castejon, supervisora de Astronomia do Planetário do Ibirapuera, na capital paulista. “Quando a criança pode observar e interagir com o conteúdo, ela se sente parte da descoberta. Muitas vezes, as perguntas que elas fazem durante as atividades são justamente o ponto de partida para discussões muito ricas e novas curiosidades”, completa a astrofísica.
Ela acredita que, graças a essa participação ativa dos visitantes, espaços culturais estimulam o pensamento científico “ao incentivar a curiosidade, a observação, o questionamento e, o principal, gerar encantamento”, relaciona.
PROTAGONISTA DO APRENDIZADO
Visitar espaços culturais com esse perfil cria memórias na criança, pois a experiência funciona como uma semente, na opinião de Rafael Adinolfi, coordenador do núcleo técnico do Museu Catavento, em São Paulo. “Quando a criança toca, experimenta e investiga, ela se torna protagonista do próprio aprendizado.” O verdadeiro desafio na mediação desses espaços está em criar situações que incentivem a formulação de perguntas e a busca por respostas e, sobretudo, em transformar temas complexos em experiências atraentes.
O coordenador do Museu Catavento explica que as abordagens devem ser específicas para cada faixa etária, enquanto o uso de analogias e aproximações com o cotidiano é
Ter a oportunidade de ver de perto animais como cobras é uma das atrações do Butantan.
relevante para conectar o conceito científico ao conteúdo aprendido na escola. “O cérebro das crianças ainda está em desenvolvimento, e a interação física com experimentos, oficinas e materiais educativos oferece estímulos que criam conexões neurais”, diz Adinolfi.
ESTIMULAR A IMAGINAÇÃO
A curiosidade é uma ferramenta no processo de aprendizagem. Quanto mais perguntas surgem, maiores são as oportunidades de aprofundar o conhecimento. Suzana Cesar Gouveia Fernandes, diretora do Centro de Desenvolvimento Cultural do Instituto Butantan, ao qual se vincula o complexo cultural Parque da Ciência, conta que o desenvolvimento infantil é influenciado pela imaginação. “Desde a primeira infância, a
criança é estimulada a imaginar, no sentido mais amplo, e é também estimulada a aprender”, diz. “No que diz respeito ao aprendizado científico, estimular a criatividade, mostrando que podem existir diferentes formas e habilidades para se chegar a um objetivo, incita a convivência e a capacidade de pensar criticamente e coletivamente, elementos que são a base da ciência”, acrescenta Suzana.
Para ela, tal objetivo pode ser alcançado quando centros culturais oferecem diferentes possibilidades de interação, para que os visitantes se sintam seguros e estimulados a exercitar a curiosidade. “Nos museus, a imaginação é exercitada por meio de atividades lúdicas, desafiadoras e socializantes. A imaginação do público, aliada ao conhecimento sobre educação em ciências, gera ações nos espaços
No Sabina Escola Parque do Conhecimento, em Santo André, a ideia é oferecer uma programação instigante e visual.
de educação não formal que contribuem significativamente para o desenvolvimento de cidadãos comprometidos com o conhecimento científico e com o bem-estar social”, acredita a diretora.
APRENDER COLETIVAMENTE
Além disso, quando a educação científica se torna acessível, as pessoas desenvolvem o pensamento crítico e se tornam aptas a opinar – e aí está a compreensão da ciência sob uma perspectiva social. Ao frequentar espaços culturais, os visitantes constroem repertório capaz de reconhecer informações confiáveis e identificar conteúdos enganosos. São experiências que podem abrir caminhos para vivências que fortalecem vínculos com a ciência e o saber, elementos fundamentais para o desenvolvimento intelectual e emocional de pessoas de todas as idades. educação
Frequentar esses espaços durante as férias revela como o lazer combina com diversão, cultura e aprendizado. Além disso, o saber é adquirido de forma compartilhada, já que crianças, jovens e adultos trocam impressões, fazem perguntas e descobrem juntos novas informações. Neste contexto de troca, as pessoas cuidadoras revisitam conteúdos estudados há anos ou entram em contato com temas que nunca tiveram oportunidade de explorar. Esse processo se transforma em um momento de troca, fortalecendo os laços familiares por meio do aprendizado conjunto e da construção coletiva de conhecimento.
Sabina
Parque
UNIVERSO DAS CIÊNCIAS
Sesc São Paulo oferece experiências de aprendizado e de conexão com os saberes científicos em atividades nas unidades e em visitas a diferentes espaços
A ação educativa pauta as programações do Sesc São Paulo nas mais diversas frentes do conhecimento, de modo permanente e transversal. Por meio de atividades ao longo do ano, a instituição busca aproximar os frequentadores do universo das ciências, com projetos para todas as idades e em diferentes linguagens. São oficinas, debates, mostras, encontros, passeios e cursos de diferentes perfis.
Neste mês, dois projetos convidam a população a se aproximar dos diferentes saberes e a experimentar novas possibilidades de aprender.
Oba! Bora Passear!, projeto de Turismo Social do Sesc, é voltado para crianças de até 12 anos e seus responsáveis e propõe
experiências turísticas, culturais e educativas, como visitas a espaços de aprendizagem. Nesta edição, 25 unidades do Sesc na capital, Grande São Paulo, interior e litoral oferecem 30 atividades. Inscrições e programação completa podem ser conferidas em sescsp. org.br/obaborapassear.
Já o FestA! – Festival de Aprender oferece programação gratuita em 43 unidades em todo o estado. Entre os dias 24/7 e 2/8, a ação reúne mais de 300 cursos, oficinas, encontros, vivências e demonstrações que exploram os universos das artes visuais, tecnologias e da ciência. Inscrições e programação completa em sescsp.org.br/festa
Confira destaques:
para ver no sesc / educação
Oba! Bora Passear!
SÃO CAETANO
Pegadas do Universo: Museu Aberto de Astronomia
Passeio a Campinas para conhecer os mistérios e encantos dos planetas, das estrelas e do Sol. Dia 17/7, às 12h. Pré-inscrição via portal.
BAURU
A Geologia da Cuesta
Passeio ao Museu Aberto de Geociências e Ecoparque Pedra do Índio, em Botucatu. Dia 18/7, às 7h30. Pré-inscrição via portal.
ITAQUERA
Descobrindo o Mundo da Ciência: Instituto Butantan Conheça um dos mais importantes centros de pesquisa biomédica do mundo. Dia 26/7, às 7h30. Saída da unidade. Pré-inscrição via portal.
FestA! – Festival de Aprender
CASA VERDE
Contagem Regressiva: Experiência espacial
Oficina temática sobre astronomia que contará com um planetário. Dias 24 e 31/7, às 13h30. Grátis.
REGISTRO
Tecnologias Indígenas: Grafismos Guarani
A proposta é ampliar o entendimento sobre tecnologia, reconhecendo saberes tradicionais.
Dias 31/7 e 1/8, às 14h. Grátis.
TAUBATÉ
Raiz Digital: Usina de Fabricação de Cerâmica com impressora 3D
Oficinas e vivências que propõem a criação de personagens, brinquedos e arquiteturas imaginárias.
Dia 31/7, às 14h. Grátis.
Mirella Ghiraldi
Atividades variadas aproximam crianças de elementos naturais.
GESTÃO CULTURAL NA ERA DA INFORMAÇÃO
Entre métricas, algoritmos, plataformas digitais e disputas por atenção, a cultura passou a ocupar um lugar paradoxal no mundo contemporâneo: ao mesmo tempo em que nunca produziu tantos dados, ainda luta para tornar visível política, econômica e socialmente o valor que ela gera para a sociedade.
Se durante muito tempo o campo da cultura se apoiou sobretudo em argumentos simbólicos, subjetivos e afetivos para defender sua importância, hoje isso já não parece suficiente em um cenário no qual decisões públicas e privadas são tomadas a partir de indicadores, estatísticas e resultados mensuráveis. Afinal, como demonstrar o impacto de um espetáculo, de uma biblioteca, de um festival ou de uma política cultural em meio a disputas orçamentárias tão intensas? Como traduzir em evidências concretas algo que, muitas vezes, é vivido no plano da experiência, da memória, da identidade e do pertencimento?
“Durante muito tempo, muitas dessas perguntas foram respondidas com base exclusivamente na experiência e na intuição dos profissionais à frente dessas instituições e projetos culturais. Mas, diante da complexidade desta era de dados e da crescente acessibilidade a tantas informações, não é mais preciso, e nem é suficiente, se basear unicamente no conhecimento empírico. Ele pode e deve ser apoiado por evidências que ajudem gestores e organizações culturais a tomar melhores decisões sobre recursos que, quase sempre, são escassos”, argumenta a gestora cultural e consultora Beth Ponte, coautora da
publicação Gestão cultural baseada em evidências: por onde começar (Centro de Pesquisa e Formação do Sesc São Paulo, 2025).
A partir de pesquisas, relatórios e indicadores nacionais e internacionais, é possível aferir como a cultura impacta áreas como saúde, economia, geração de emprego, bem-estar e desenvolvimento social. Dados qualificados podem fortalecer a legitimidade da cultura no debate público e enfrentar percepções distorcidas sobre investimento estatal no setor.
“Por um lado, é necessário seguirmos lutando pelo fortalecimento de sistemas públicos de estatísticas e indicadores culturais, criação de observatórios e realização de levantamentos estatísticos. Por outro, é importante que artistas e projetos culturais, de diferentes portes, também produzam evidências. Acreditamos que mesmo pequenas ações de sistematização e análise já podem fazer diferença, seja para comprovar a efetividade de um projeto, fortalecer a legitimidade institucional ou ampliar o reconhecimento da cultura como direito”, sugere Daniele Canedo, gestora cultural e professora do Centro de Cultura, Linguagens e Tecnologias Aplicadas da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), coautora da obra citada.
Neste Em Pauta, Beth e Daniele defendem que produzir, analisar e comunicar evidências não significa reduzir a cultura a planilhas ou métricas frias. Significa, antes, criar instrumentos para que sua relevância deixe de ser invisibilizada.
em pauta
A cultura na 'vazante da infomaré'
POR BETH PONTE
"Com quantos gigabytes
Se faz uma jangada
Um barco que veleje
Que veleje nesse infomar
Que aproveite a vazante da infomaré?"
Gilberto Gil, "Pela Internet" (1996)
No momento em que você lê este texto, muitas coisas estão acontecendo simultaneamente nas 44 unidades do Sesc São Paulo. Para se ter uma noção: em 2024, a instituição registrou 28.954.760 frequentadores anuais, 119.616 livros em suas bibliotecas fixas, 5.008 shows, 3.496 apresentações teatrais e muito mais. Se você acessou esta revista pelo portal online, contribuiu com uma das 63.118.499 visualizações anuais registradas. Esses números revelam não apenas a dimensão do trabalho do Sesc São Paulo, mas algo que muitas vezes passa despercebido: o quanto dados estão no centro da gestão cultural contemporânea.
E não são apenas as grandes instituições que produzem e coletam dados. Cada um de nós é uma usina de informações em funcionamento permanente: nos rastros digitais do consumo online, na navegação pelas redes sociais, nos dados de sono, atividade física e batimentos cardíacos monitorados pelos smartwatches, os relógios inteligentes. Quando participamos de grandes eventos, também estamos gerando dados sem perceber. Você sabia que o Rock in Rio, por exemplo, opera em parceria com empresas especializadas em inteligência de dados para monitorar o comportamento de cada pessoa que pisa
na Cidade do Rock? Mas essa não é uma realidade restrita a megaeventos. Você já assinou um livro de presença ao sair de um museu? Comprou ingresso online para um espetáculo? Respondeu a uma pesquisa de satisfação? Se sim, também contribuiu com dados que podem – e deveriam – ser muito importantes para instituições e projetos culturais.
A grande questão, portanto, não é a falta de dados. Na nossa era da informação, eles existem de sobra. Mas a grande pergunta continua sendo: em meio a tantas informações e tantos dados, o que podemos fazer com eles? Como podem nos ajudar a tomar melhores decisões? E se olharmos para os dados com esse pensamento, podemos fazer muita coisa. Assim como os usuários dos smartwatches podem mudar hábitos de saúde a partir do monitoramento dos próprios dados, organizações culturais podem tomar decisões importantes sobre programação, funcionamento e relacionamento com seus públicos com base nas informações que já monitoram. Em ambos os casos, estamos falando de decisões baseadas em evidências.
Esse conceito tem uma história. O termo "decisões baseadas em evidências" se popularizou na medicina nos anos 1990, na Austrália, e rapidamente se difundiu por diferentes países e áreas do conhecimento. A medicina baseada em evidências defende que as decisões sobre um tratamento devem se apoiar em um tripé: a experiência do profissional de saúde, as melhores evidências científicas disponíveis no momento e, não menos importante, as preferências do paciente. De lá, o conceito se expandiu para a gestão corporativa e para as políticas públicas. Por que esse pensamento não pode ser também tomado de empréstimo pelo campo da gestão e da produção cultural?
Pense na quantidade de perguntas que permeiam o fazer cultural. Para qual cidade uma companhia circense deve levar seu espetáculo? A equipe de um museu deve ou não prolongar a duração de uma exposição que é um sucesso de público? Vale a pena utilizar a verba de marketing de um festival de música para impulsionar uma publicação em determinada rede social? Como aumentar a participação de um
No campo cultural, a gestão baseada em evidências não se trata de seguir cegamente os dados, mas de utilizar as melhores informações à disposição, dentro de um contexto, unindo nossa experiência e as preferências dos públicos
público específico – como o de pessoas idosas – em um projeto cultural? Durante muito tempo, muitas dessas perguntas foram respondidas com base exclusivamente na experiência e na intuição dos profissionais à frente dessas instituições e projetos culturais. Mas, diante da complexidade desta era de dados e da crescente acessibilidade a tantas informações, não é mais preciso, e nem é suficiente, se basear unicamente no conhecimento empírico. Ele pode e deve ser apoiado por evidências que ajudem gestores e organizações culturais a tomar melhores decisões sobre recursos que, quase sempre, são escassos.
Talvez essa ideia gere estranheza em muitos agentes culturais que ainda têm certa resistência em misturar cultura com números. No campo cultural, de tantas subjetividades, é claro que nem tudo o que tem valor pode ser quantitativamente medido. Mas a gestão baseada em evidências não se trata de seguir cegamente os dados, mas de utilizar as melhores informações à disposição, dentro de um contexto, unindo nossa experiência e as preferências dos públicos.
E para quem gosta da ideia e quer avançar nesse campo, um alerta, porém, é necessário: quando é possível monitorar e contabilizar quase tudo, é preciso ter clareza sobre o que efetivamente importa acompanhar. Para navegar com rumo nesse ‘infomar’, o mais importante é ter um mapa de navegação: saber onde se quer chegar, quais são os objeti-
vos e usar os dados como guia nessa jornada, não como um fim em si mesmos. Começar pela pergunta certa e olhar para as informações que um projeto cultural já possui é, sem dúvida, o melhor jeito de não ficar à deriva nesse mar de possibilidades.
Finalizo este breve texto com duas mensagens. Para os meus colegas, agentes, artistas, gestores e gestoras culturais: você não precisa ter o tamanho do Sesc ou do Rock in Rio para iniciar a gestão baseada em evidências em seu projeto, grupo ou instituição. Pode começar com o que já tem: borderôs, analytics de redes sociais, planilhas orçamentárias, pesquisas de público, comparações com outros projetos ou instituições da sua área. Se você parar para pensar, já tem muitos dados à sua disposição. Fazer as perguntas certas é sempre o primeiro passo.
E o outro recado é para você, público da cultura: na próxima vez que receber um convite para responder uma pesquisa de satisfação ou que pedirem alguma informação antes, durante ou depois da visita a um equipamento cultural ou em um espetáculo, colabore. Seus dados e sua opinião podem fornecer as evidências que o setor cultural como um todo precisa para ser mais relevante, navegar com mais rumo e aproveitar melhor essa "vazante da infomaré".
Beth Ponte é gestora cultural e consultora pela Deck - Inteligência Digital pela Cultura e coautora do livro Gestão cultural baseada em evidências: por onde começar (Centro de Pesquisa e Formação do Sesc São Paulo, 2025). Tem mestrado em Cultura e Sociedade (UFBA) e MBA em Gestão e Transformação Digital (USP). É professora do Curso de Gestão Cultural do Sesc e de pós-graduações no Brasil e exterior.
Dados, evidências e o valor da cultura
POR DANIELE CANEDO
Em tempos de tecnologias cada vez mais avançadas, ainda faz sentido investir em cultura? Vivemos em contextos de recursos escassos e disputas intensas por orçamento público. Por que destinar verbas para museus, bibliotecas, festas populares, cinema, teatro e patrimônio, entre outros segmentos, quando existem tantas demandas urgentes? “É óbvio que a cultura ainda importa”, muitas pessoas vão pensar, pois conhecem os benefícios diretos da participação em ações culturais. A cultura fortalece identidades, preserva memórias, amplia a criatividade e produz sentidos de pertencimento.
Durante muito tempo, a defesa da cultura esteve baseada principalmente em argumentos simbólicos e subjetivos sobre o alcance dos seus resultados. Afinal, os efeitos são perceptíveis, mas muitas vezes difíceis de mensurar, pois incidem na vida das pessoas. O problema é que, na era da informação, especialmente em períodos eleitorais e de planejamento orçamentário, as disputas são feitas com dados e indicadores. Quando essas questões aparecem no debate público, temos um desafio: como demonstrar que a cultura é parte estratégica do desenvolvimento de uma sociedade?
Os dados se tornaram um dos principais ativos do mundo contemporâneo. Hoje, quem controla este ativo controla a visibilidade. No campo das políticas públicas, praticamente todas as áreas se esforçam para demonstrar resultados. Saúde, educação, segurança pública e meio ambiente, por exemplo, produzem estatísticas por meio de indicadores acompanhados ao longo do tempo e de sistemas permanentes de monitoramento. Ademais, plataformas digitais e redes sociais utilizam métricas para direcionar conteúdos e influenciar comportamentos e consumos. É justamente por isso que a gestão cultural baseada em evidências defende a necessidade de tornar visíveis, com informações
qualificadas, os impactos que a cultura já produz na vida social e econômica do Brasil.
No campo social, um relatório de 2024 elaborado para o Departamento de Cultura, Mídia e Esporte do Reino Unido evidenciou que a participação em ações culturais melhora indicadores de saúde e bem-estar em diferentes grupos etários. O estudo aponta benefícios associados a práticas como visitas a museus, canto em coral, atividades musicais, entre outras. Os resultados evidenciam que tal engajamento pode contribuir para melhorias das condições físicas e mentais, com redução de doenças cardiovasculares, da incidência de depressão e até menor risco de demência em idosos. Em alguns modelos, esses benefícios também foram associados à redução de custos com atendimentos médicos e assistência social.
Na perspectiva econômica, uma pesquisa realizada pela Fundação Getulio Vargas (FGV) em parceria com o Ministério da Cultura (MinC) e a Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI), identificou que para cada R$ 1 investido na Lei Rouanet, foram movimentados R$ 7,59 na economia brasileira. Isso significa que o investimento público em cultura dinamiza a economia nos territórios, movimentando os setores de turismo, alimentação, hospedagem, transporte, comunicação, design, audiovisual, comércio, tecnologia, entre outros. Segundo o estudo, os projetos culturais financiados pela Lei Rouanet geraram aproximadamente R$ 25,7 bilhões em 2024 e foram responsáveis por mais de 228 mil postos de trabalho diretos e indiretos. Só em tributos municipais, estaduais e federais, tais projetos injetaram cerca de R$ 3,9 bilhões nos cofres públicos.
Já o Sistema de Informações e Indicadores Culturais (SIIC), do IBGE, indica que o setor cultural representava, em 2022, 6,8% das empresas brasileiras formalizadas, e, em 2024, empregava cerca de 5,9 milhões de pessoas. Os dados do IBGE também ajudam a desmontar uma percepção muito comum no debate público brasileiro: a ideia de que a cultura representa um gasto excessivo do Estado. Segundo o órgão, em 2023, a destinação para a cultura, considerando as três esferas de governo, representou 0,38% das despesas públicas totais. Isso significa
Acreditamos que mesmo pequenas ações de sistematização e análise já podem fazer diferença, seja para comprovar a efetividade de um projeto, fortalecer a legitimidade institucional ou ampliar o reconhecimento da cultura como direito
que, de cada R$ 100 gastos pelo poder público brasileiro, apenas 38 centavos foram destinados à cultura. No orçamento federal, a participação da cultura foi de 0,04% das despesas da União, ou seja, somente quatro centavos em cada R$ 100. Portanto, apesar da cultura ser vista como área de grande gasto estatal, na prática, os números mostram o contrário: os investimentos públicos representam uma parcela ínfima do orçamento nacional.
Imaginar o que seria possível com ampliação e democratização do investimento público talvez seja uma das perguntas mais importantes para o futuro das políticas culturais brasileiras. Promover a gestão cultural baseada em evidências tem como objetivo garantir que a cultura deixe de ser invisibilizada nos processos de decisão. Os dados podem ajudar a tornar mais perceptível a contradição entre os benefícios que a cultura gera e os parcos recursos a ela destinados.
Todavia, sabemos que produzir dados e evidências ainda é um grande desafio para o setor cultural. As barreiras envolvem a ausência de métricas padronizadas e a escassez de recursos e competências técnicas. Por isso, diferentes agentes podem e devem exercer um papel no fortalecimento de um ecossistema de informações, incluindo órgãos públicos, universidades, artistas, coletivos, empresas e organizações sociais da cultura. Por um lado, é necessário seguirmos lutando pelo fortalecimento de sistemas públicos de estatísticas e indicadores culturais, criação de observatórios e realização de levantamentos estatísticos. Por outro, é importante que artistas e projetos culturais, de diferentes portes, também produzam evidências. Acreditamos que mesmo pequenas ações de sistematização e
análise já podem fazer diferença, seja para comprovar a efetividade de um projeto, fortalecer a legitimidade institucional ou ampliar o reconhecimento da cultura como direito.
Trata-se de um processo incremental. Não será possível construir uma cultura de uso de dados da noite para o dia, mas com passos graduais, ajustes constantes e aprendizado coletivo poderemos ter mais argumentos para defender os investimentos públicos em cultura na arena política. A sustentabilidade das organizações culturais e a defesa da cultura como direito dependem, cada vez mais, da nossa capacidade coletiva de produzir, sistematizar e comunicar evidências.
Daniele Canedo é gestora cultural, capoeirista e professora do Centro de Cultura, Linguagens e Tecnologias Aplicadas da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e das pós-graduações em Administração e Cultura e Sociedade na Universidade Federal da Bahia (UFBA). É coautora do livro Gestão cultural baseada em evidências: por onde começar ( Centro de Pesquisa e Formação do Sesc São Paulo, 2025) e, desde 2015, é pesquisadora e coordenadora do Observatório da Economia Criativa da Bahia (Obec Bahia), onde lidera pesquisas nacionais.
encontros
no caldeirão de LETRUX
Cantora, escritora e atriz reflete sobre carreira, humor e maternidade
POR MARINA PEREIRA
“Astrologia faz parte da minha vida, assim como a ciência também faz. Fé sozinha é delírio, ciência sozinha é tristeza. Ponho tudo no meu caldeirão”. Publicado em seu perfil em uma rede social, o trecho reflete elementos que orbitam o universo da carioca Letícia Novaes, a Letrux.
Cantora, compositora, escritora, poeta e atriz, ela ganhou
notoriedade após o lançamento do seu primeiro projeto solo em 2017, Letrux em noite de climão, álbum produzido por meio de um financiamento coletivo. Antes, manteve a banda Letuce por nove anos, junto a Lucas Vasconcelos, com quem lançou três discos. Letrux também realizou projetos nas artes cênicas, atuando em peças, seriados e filmes, e na literatura, com três livros
publicados. Em 2023, foi tema do média-metragem Viver é um frenesi, do documentarista Marcio Debellian, que mostra, de forma poética e bem-humorada, o período em que a artista viveu em isolamento durante a pandemia até o retorno aos palcos.
Neste Encontros, Letrux fala sobre sua carreira e sobre o novo álbum, SadSexySillySongs, lançado
no Sesc Pinheiros em abril deste ano. Também reflete sobre as descobertas da maternidade, a influência dos seus pais no modo como vê o mundo e como ainda preserva a atmosfera da infância em suas criações e projetos.
MÚSICA NO TEATRO
Não tenho artista na família, mas meus pais sempre foram muito presentes. Levavam eu e meus irmãos ao museu, ao cinema. Víamos o filme da Xuxa, mas também víamos filmes iranianos que minha mãe escolhia, que achava que era importante ver. Eu tive uma infância muito comum,
mas cheia de encantamentos. Cresci em um ambiente em que um domingo clássico da Tijuca começava tocando sambas-enredo e terminava com música clássica. Fui apresentada a muita coisa e carrego isso até hoje. Aquelas experiências ficaram dentro de mim. Cheguei a fazer teatro na escola, mas não tinha a noção de que aquilo poderia ser uma vida. Na faculdade de Letras, comecei a me decepcionar com o curso, porque entendi que não estudaria em um ambiente tipo A sociedade dos poetas mortos [filme de Peter Weir, lançado em 1990] Minha mãe, na contramão de todas as mães que têm medo da filha fazer teatro, me matriculou em um curso de teatro profissional, a
Cal – Casa das Artes de Laranjeiras. E qual era a primeira aula do teatro? Música. Eu lembro que o professor de música falou: “Você aí, canta uma música”. E eu cantei Janis Joplin (1943-1970). Há um mistério nisso: eu fui fazer teatro, mas a música me sequestrou de alguma forma.
LETUCE E CLIMÃO
Em 2005, monto uma banda de rock, Letícius. Eu sei que é ridículo, mas para mim era o feminismo da época, o meu nome estar no título significava muito. As músicas eram minhas, as letras eram minhas, era importante isso para mim. Em 2007, eu conheço
“Anteninha de histórias”: Letrux tira do cotidiano a inspiração para letras de música e livros, adicionando elementos de humor.
Lucas Vasconcelos, meu parceiro romântico e na nova banda, Letuce. O primeiro disco [Plano de fuga pra cima dos outros e de mim, de 2009] ainda foi mais na “brincadeira”. No segundo disco [Manja perene, 2012], percebo que isso podia ser uma profissão, ser real. E ainda lançamos um terceiro disco, Estilhaça [2015], que para mim é um dos melhores que fizemos. Depois de Letuce, em carreira solo, já com o projeto de Letrux em noite de climão, faço um crowdfunding e 500 pessoas colaboram. Fãs da época de Letuce, a quem sou muito grata. E foi uma época curiosa, porque esse crowdfunding gerou muita conexão com o público. Eu ia na casa das pessoas, as pessoas me recebiam, isso foi muito forte. O Climão acontece e estoura. Eu viajo o Brasil, vou pela primeira vez ao Pará, à Amazônia. Para além
da minha música estar sendo espalhada, também começo a ter uma vivência do Brasil mais profunda, de ir a lugares e perceber culturas, hábitos, modos de falar que eu adoro anotar, gírias da região. Isso tudo foi muito rico para mim. Sou muito grata pelo Climão ter me permitido viajar tanto.
VOZ E VIOLÃO
Toda cantora, se for sincera, vai falar que tem o desejo de fazer um disco de voz e violão. Estranho quem fala que não tem desejo. Porque temos mais momentos em uma apresentação de voz e violão do que com a banda. Amo minha banda e as camadas sonoras que eles conseguem atingir, com o nível de excelência dos músicos que me acompanham, mas tem qualquer
coisa que eu queria de pureza em SadSexySillySongs [álbum lançado em 2026]. Uma jornalista até perguntou: “Você acha que fez um disco mais silencioso porque você virou mãe?” Eu respondi: “Uau, não tinha pensado nisso!” Pode ter sido instintivo. Acho que também era um desejo de colocar a minha voz de um modo mais minimalista mesmo. E o disco tem músicas mais com batidinha, que são as da categoria mais sensuais, o sexy; tem as mais tristes, as sads; as sillys, mais bobas, no melhor sentido da palavra. Eu sou uma pessoa que ama bobeira, bobagem, besteira.
REVOLUÇÃO PELO HUMOR
O humor é muito revolucionário. Entendo a força bélica da construção, do coletivo. A raiva
impulsiona lutas e conquistas, mas tem qualquer coisa que o humor conquista de uma forma mais saborosa. A pessoa nem percebe que está sendo conquistada. Ela muda a ideia, ela muda de opinião, ela fica mais suave. Eu sou caçula de dois irmãos, então tinha que ser engraçada para prestarem atenção em mim, porque a terceira filha, nada é novidade. Mas eu acho que, desde criança, eu percebi que eu conseguia fazer umas gracinhas aqui, fazer um povo rir. E na escola também, percebi que conseguia imitar a professora. E, ao mesmo tempo em que tinha muita gente fazendo bullying comigo, eu tinha também uma plateia. Acho que era tanto sofrimento do bullying que o humor me fazia esquecer e, de repente, tinham dez pessoas quase me aplaudindo no recreio, só porque eu estava imitando a professora de Geografia. Inclusive, estudei palhaçaria. Minha palhaça se chama Clowndia. Ela é uma senhora de 99 anos, surfista, viveu algumas guerras.
FRENESI
O documentário Viver é um frenesi (2023) aborda, de uma forma um pouco mais poética, o período de isolamento da pandemia. Eu fui morar na casa de férias da minha família, em São Pedro da Aldeia (RJ), uma cidade a duas horas e meia do Rio. Fui para lá e foi um privilégio poder estar na natureza durante a pandemia. E essa casa tem muita lembrança, muitos fantasmas da vida, da família, de situações. Então, o Marcio Debellian, documentarista que dirigiu esse projeto, registra todo esse processo e chega a filmar até o meu primeiro show após essa fase
mais difícil de isolamento, ainda de máscara, no Circo Voador. Parece que foi ontem, mas parece que tem 17 anos também. Todo mundo carrega algum tipo de sequela física ou mental desse período.
LETRUX ESCRITORA
Eu sou muito anteninha de histórias. Presto atenção em tudo. Acho que tem muita coisa minha nas músicas, mas não só minha. Por exemplo, a gíria que estrago, da música do Climão. É muito normal no Rio você ouvir: “nossa, a mulher foi lá e fez o maior estrago”. E eu tenho esse hábito de ter um caderninho para anotar as palavras. Quando pego uma caneta e um papel, sou um pouco transportada para qualquer lugar lúdico da infância onde tudo era possível de desenhar, de escrever. Acho que o computador me lembra uma coisa muito adulta. Ao passo que pegar a caneta e o papel tem qualquer frescor que a gente só tinha na infância. Eu tenho três livros lançados. O Zaralha. Abri minha pasta (Guarda-Chuva, 2015) é uma coletânea de maluquices da minha infância. Eu sou disléxica, então tem alguns exercícios de alfabetização hilários, poemas, adedanhas. Tudo que já nadei: Ressaca, quebra-mar e marolinhas (Planeta, 2021) é um livro pandêmico, uma homenagem às águas, não importa se é mar, se é cachoeira, se é água do corpo, se é lágrima, suor ou gozo. E o último livro é um de contos, o Brincadeiras à parte (Planeta, 2025). Cada conto tem um jogo acontecendo: Buraco, Mega-Sena, Telefone Sem Fio, Paciência, Xadrez, Dado... Entre os contos dos jogos, tem alguns intervalos mais biográficos. E meu
próximo projeto na literatura vai ser meu primeiro livro infantil, Glorinha vai ao fundo. É a história de uma menina chamada Glorinha, que ama ir à praia, mas nunca tem coragem de ir para o fundo, onde não dá pé.
MATERNIDADE E INFÂNCIA
Sou mãe há sete meses e é uma fase muito mágica, todo dia é uma pequena magia. É uma fase de atenção a tudo que é minúsculo. Em vez de você ter um telescópio, você está com um microscópio, prestando atenção nos pequenos detalhes. É muito lisérgico estar perto de um ser humaninho se desenvolvendo, é fascinante. Eu sempre fui muito maternal em todos os meus trabalhos. Então, sabia que a maternidade ia acontecer na minha vida de algum jeito, desde criança eu sentia isso. Eu sempre fui curiosa com a infância, até porque o processo psicanalítico não me deixa fugir disso, mas eu estou mais ainda agora. A infância para mim é um assunto eterno. Acho que deixam a infância muito fofinha. Também pode ser fofinha, mas não é só isso. Eu acho que é uma formação muito grande. A gente é a gente desde os cinco anos.
A cantora, escritora e atriz Letrux esteve presente na reunião do Conselho Editorial da Revista E, no dia 28 de maio. A mediação do bate-papo foi de Flávia Rabaça, cientista social e assessora cultural no núcleo de música da Gerência de Ação Cultural do Sesc São Paulo.
inéditos
ÁRVORES
POR EDIMILSON DE ALMEIDA PEREIRA ILUSTRAÇÕES HELOISA HARIADNE
A câmera avança até o quintal – o que se vê não é o que houve.
O tempo mais o tempo são necessários para o caule luzir com as manchas brancas.
E mais tempo para quem espera colher um lençol de espuma dentro da pérola negra.
2/ Mangifera Indica mangueira
Nesses dias de sol para fotografia e cama de folhas na terra, esperamos – bulbos galhos brotos ramos esperam – contamos as horas sem saber que as contamos.
Ainda é cedo, não é o tempo, se algo der errado será tarde.
A sombra da copa é lenta, apesar do rio que passa.
Enquanto nos ocupamos, o rio também se ocupa – a tempestade chegará de qual país? de qual nuvem no final da tarde?
Os dias seguintes serão uma estufa em festa –sapatos
de conversa com os sapos formigas migrando para os armários.
Tudo morrerá um pouco debaixo das águas.
Até que o sol vermelho, a terra em chamas os líquens cujos nomes não entendemos e os frutos devolvam função aos dentes não fotografados.
3/ Caryocar Brasiliense pequizeiro. pyqui
O morcego atravessa a noite, quem não sabe do seu voo não sabe que leva uma árvore para nascer no escuro da terra.
Vemos o dia a dia o vaivém das abelhas o arco-íris de beija-flores não vemos durante a noite o morcego que também semeia.
Os frutos caem do alto de sua altura – seu amarelo rubro e espinhos na armadura da pele – secreto é o alimento e o comem a anta o lobo o homem.
inéditos
4/ Eugenia Uniflora pitangueira. ybápytanga
Nas folhas verde-escuras e novas dormem as que serão adultas em algum setembro. As manhãs de maio infiltram nas mudas a luz de um sol mediano.
O sol de maio se prolonga ácido e doce pesadelo.
Pensando no inverno dentro do fruto, em sua forma de globo preso na palma da mão – suponho a machina do mundo além do que percebemos.
5/ Prunus Persica pessegueiro
Mil e uma noites não duram – exceto por essa flor esse vento e a infância.
Não houve um fosso sob a areia nem uma orla mais larga que o mar. Todos permanecem paramentados para o domingo
– aqueles da mesma célula embora separados
comparecem a cerimônias comem bebem dançam depois se deitam numa aragem soprada através das vértebras.
6/ Anacardium Occidentale cajueiro. acayu
Uma condição para criar laços com o passado é não completar o jogo de palavras cruzadas – não há fórmula para explicar nesse corpo o particular sentido das maçãs do rosto.
O que tem sido um modo de pertencer ao clã
impõe-se
também como um filho no lugar de outro.
Embora seja esse o jogo 7 erros a que nos habituamos ainda restam o húmus sem plantio e úmida, uma mordida.
7/ Ficus Carica figueira
Caminho tortuoso entre a horta e o morto.
A flor branca – outras dentro do livro –e a imaginação dispostas a listar até o fim dos dias
doenças & remédios o peso dos ciclos & o anel da nova estação.
Numa das margens, a palavra na outra o indizível à procura de um corpo. Nessa margem o verde escuro boia num rio de açúcar levado à boca nada revela.
Apesar de pouco, parte-reparte seu néctar.
A câmera, caixa de memórias, regressa em direção ao mundo da rua.
Edimilson de Almeida Pereira nasceu em Juiz de Fora (MG). É poeta, ensaísta e professor de Literatura Portuguesa e Literaturas Africanas de Língua Portuguesa na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Autor de obras como Zeosório blues (Mazza, 2002), Lugares ares (Mazza, 2003), Casa da palavra (Mazza, 2003), Um corpo à deriva (Edições Macondo, 2020), O Ausente (Relicário, 2020, Prêmio Oceanos) e Front (Nós, 2020, Prêmio São Paulo de Literatura).
Heloisa Hariadne é uma artista visual brasileira. Trabalha, principalmente, com pintura e cerâmica. É bacharel em Artes Visuais pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Seu trabalho foi apresentado em instituições e galerias como Farol Santander, Galeria Leme e Tiwani Contemporary (Londres). Também participou de diversas exposições coletivas no Brasil e no exterior, incluindo na Pinacoteca de São Paulo, Instituto Tomie Ohtake, no Museu de Arte do Rio (MAR) e na LAM Gallery (Londres). Seu trabalho integra importantes coleções públicas e privadas, como Inhotim e a Pinacoteca de São Paulo.
depoimento
memórias de uma HUMANISTA
Consagrada nos palcos e nas telas, atriz Walderez de Barros
relembra cenas de sua história e compartilha sua busca por entender o mistério do mundo
POR MARCEL VERRUMO FOTOS NILTON FUKUDA
Nascida em 1940, em Ribeirão Preto (SP), a atriz Walderez de Barros revela ter se aproximado das artes ainda na escola, por meio da declamação de poesia. A atividade a fez perceber que, mesmo tímida, era capaz de emocionar plateias. Começou a nutrir um apreço pela palavra e, do consequente contato com a literatura, a tentar entender o que chama de “mistério do mundo”. Mudou-se para a capital para estudar Filosofia na Universidade de São Paulo (USP), curso que não concluiu, mas a aproximou de movimentos artísticos e políticos.
Transformou a arte da declamação em matéria-prima para a atuação. Participou de montagens teatrais
como Abajur lilás (Plínio Marcos, 1980) e Madame Blavatsky (Plínio Marcos, 1985). Dos teatros, conquistou espaço na televisão, em telenovelas clássicas, como Beto Rockfeller (Tupi, 1968-1969) e O rei do gado (TV Globo, 1996-1997). Também fez cinema e, recentemente, produções para plataformas de streaming.
Em 2026, a atriz subiu aos palcos para encenar Medea, de Sêneca (4 a.C.- 65 d.C.), com direção de Gabriel Villela, em montagem apresentada no Teatro Anchieta do Sesc Consolação. Nesse teatro, em 1997, protagonizou outra encenação de Medeia, a de Eurípides, com direção de Jorge Takla. Neste Depoimento, realizado em março, em São Paulo, ela relembra cenas de sua história.
infância
Ainda não havia companhias teatrais que viajavam com frequência para Ribeirão Preto, minha cidade natal, e se apresentavam na cidade. Nós também éramos pobres. Mesmo que alguma companhia se apresentasse, eu não iria, porque não tinha dinheiro para o ingresso. O que fez eu me aproximar daquilo que pode ser uma atividade teatral, digamos assim, foi a declamação de poesias. A professora mandou escolher uma poesia para declamar no colégio no Dia das Mães. Eu decorei, declamei e todo mundo começou a chorar. Foi um escândalo. Eu era doentiamente tímida e, no entanto, percebi que conseguia declamar poesia. O diretor da escola me apadrinhou, me colocou
para estudar declamação com uma poetisa da cidade. Mas o principal professor que eu tive foi o avô Gouveia. Na verdade, ele não era avô de sangue, mas foi a figura mais importante da minha infância. Ele era um sapateiro, romântico e espírita. E gostava de poesia. Eu nem sabia ler, nem escrever, nada. Eu ia lá, me sentava e ele lia os poemas. Eu não entendia nada, mas achava maravilhoso. Aquela declamação ficou gravada em mim. Depois de muito tempo, eu percebi que quem me ensinou como dizer cada palavra, a articular uma frase corretamente, foi o avô Gouveia.
mudança
Cresci e queria continuar estudando. Em Ribeirão, só tinha faculdade de Medicina e Odontologia. As minhas amigas vieram prestar o vestibular [em São Paulo], mas eu não tinha condição. Meus pais resolveram vir para cá, botaram a mala nas costas e se mudaram. Veja bem, não foi uma mudança qualquer. Meu pai saiu da rua onde ele nasceu, onde viveu a vida inteira, onde os amigos estavam. Ribeirão é uma cidade do interior, nós morávamos em um bairro sossegado e, de repente, eles vieram para São Paulo para os filhos poderem estudar. Quando percebi quem eram os meus pais, senti orgulho de ser filha dos dois. Até hoje, sinto. Herdei deles algo que eles e os meus avós tinham: o humanismo, aquilo que é próprio do ser humano. Ser humanista é ser verdadeiramente humano. Depois disso, eu tinha um dever, pelas circunstâncias do sacrifício dos dois, de ser aprovada no vestibular. E entrei em primeiro lugar no curso de Filosofia na USP.
faculdade
Cheguei em São Paulo e conheci a vida. Trabalhava durante o dia e fazia a faculdade à noite. Fui fazer Filosofia, queria descobrir o mistério do mundo. Cheguei na faculdade e passei a ficar irritada: o professor dava aula como no clássico, ditando o ponto. Me desiludi completamente. Também sempre me interessei por política e foi um choque. Eu era uma menina romântica que caiu de paraquedas na Maria Antônia [rua onde funcionava a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, e que foi espaço de confrontos estudantis durante a ditadura militar], onde estava se construindo uma revolução [início da década de 1960]. Junto com isso, minha mãe teve câncer e tive que ajudá-la. A política estava tomando contornos mais violentos e eu não queria entrar nessa, porque estava cuidando da minha mãe. Conheci o teatro que não conhecia, novos filmes. Também conheci o Plínio [dramaturgo Plínio Marcos (1935-1999)] e íamos nos casar. Foi tudo junto. A faculdade, de repente, não era mais a minha ambição. Fui explicar para o meu pai e para minha mãe que achava que eu tinha uma dívida com eles, mas precisava de dinheiro e por isso ia trabalhar, trancar a faculdade. Mas nunca voltei.
carreira
Conheci o [diretor e dramaturgo] Fauzi Arap (1938-2013), através de uma amiga, e comecei a atuar no CPC, o Centro Popular de Cultura [movimento artístico ligado à União Nacional dos Estudantes (UNE)]. Também fazia parte do núcleo de teatro da faculdade de
Filosofia. Comecei a atuar sem saber o que era exatamente o teatro. Tudo era novo. Eu não sabia nem como se ensaiava. Depois, conheci o [ator e diretor] Eugênio Kusnet (1898-1975). Não fiz o curso dele regularmente por tanto tempo, porque precisava trabalhar em uma editora. Mas às vezes dava para eu assistir às aulas do Kusnet, quando ele estava no [Teatro de] Arena, por exemplo, dando um curso que era mais tarde. Eu saía do trabalho e ia correndo para lá. Com o Kusnet, entendi que pode haver uma técnica de interpretação. Dessa época até hoje, ainda não sei o que o teatro significa para mim. Não gosto de definição, porque elas são limitantes.
televisão
Havia um preconceito idiota e brutal contra a televisão, que estava surgindo. Tudo era muito doméstico. Era um preconceito que também existe em relação a outras expressões de entretenimento. Se você fizer uma peça ou um filme que seja mais entretenimento, terá que lidar com preconceito. É preciso entender que a televisão trabalha horizontalmente, você fala para milhões de pessoas. O teatro e o cinema trabalham verticalmente. Até dá para fazer Medea na televisão, mas não do jeito que estamos fazendo [na temporada no teatro]. Agora, a gente pode contar essa história na televisão, porque mais pessoas vão ficar sabendo quem são Medeia e Jasão. Nós podemos contar essas histórias na televisão para construir mais repertório. Mas o que havia e o que há ainda é uma cobrança errada, de cobrar da televisão o que é feito em teatro, que não é próprio dela. Hoje, acho que já não
tem mais, já perceberam que é besteira isso, principalmente com as séries. A série possibilita inclusive fazer grandes obras. Eu mesma fiz.
aprendizado
Se você é uma atriz ou um ator, o mundo te pertence. Mas você tem que prestar atenção em tudo, tem que ler muito, ler ficção, ver filmes. Você tem que conhecer, principalmente, os grandes autores, atores, diretores. Ter bagagem cultural é tão importante quanto fazer um curso técnico. Eu, durante a pandemia, fiquei assistindo aos vídeos das encenações da Comédie-française, que tinham sido disponibilizados para o público em geral. A Comédie, uma companhia estatal, mantém permanentemente atores e atrizes contratados. Ó maravilha! Mesmo não entendendo muito bem o francês, eu prestava atenção nos detalhes das encenações e, principalmente, me deleitava com as interpretações do precioso elenco. Foi um grande aprendizado. Também é preciso observar a realidade. Às vezes, fico prestando atenção em cenas e
objetos do cotidiano. Por exemplo, nesses dias, São Paulo renasceu com as árvores. Eu sou capaz de parar o carro para ficar olhando uma árvore, observar a diferença dos verdes, criar histórias com cada uma delas e imaginar suas personalidades. Isso é algo que eu faço com frequência. Também não concebo um ator ou uma atriz que não esteja acompanhando as guerras, por exemplo, quem fala que não gosta de política. Não é sobre gostar de política. Você tem que conhecer o mundo. Como é que você vai fazer um papel, seja lá de que peça for, se não conhecer o mundo? Você tem que ter um repertório muito grande.
teatro
Ontem, vivi um momento em que a minha vaidade se manifestou. Eu fiz a cena [em Medea, no Sesc Consolação]. Sacanamente, termino cada apresentação, tiro os óculos e me curvo em direção à plateia. Claro que eu estou chamando palmas e vão me aplaudir. Até ontem, pelo menos, não deixaram de aplaudir, o que eu achei muito
bom. Mas, ontem, me aplaudiram de pé. Me aplaudiram tanto e não queriam me largar. São momentos de teatro. E, ontem, foi uma noite em que comecei a cena muito mal, não engrenava. Mas pensei: “aqui é meu território, eu vou virar o jogo.” E virei. Isso é empenho, é uma força que você não sabe de onde vem. É algo que não dá para explicar. Foi muito bonito observar a força do pensamento, do desejo pela mudança, da vontade. Isso é teatro, não é outra arte. É algo que só teatro pode fazer, porque tem um ser humano no palco. O teatro é algo que não dá para entender, não dá para verbalizar, muito menos definir.
Assista a trechos desse
Depoimento com a atriz Walderez de Barros, realizado em março, em São Paulo.
Com uma vida dedicada às artes cênicas, Walderez ainda se emociona diante dos aplausos do público.
ALMANAQUE
Barão Vermelho no palco do Sesc Itaquera, dentro do projeto Todos os Sons, em 1998.
Em alto e bom som
No ritmo do Dia Mundial do Rock, relembre shows históricos realizados em unidades do Sesc São Paulo
POR DIEGO OLIVARES
FOTOS: ACERVO SESC MEMÓRIAS*
Em 13 de julho de 1985, nomes do rock internacional como U2, Queen, David Bowie (1947-2016), The Who e Paul McCartney se uniram em um show beneficente para arrecadar fundos para combater a fome na África. As bandas e artistas subiram aos palcos do Live Aid em Londres (Inglaterra) e na Filadélfia (Estados Unidos), para se apresentarem diante de um público estimado de 162 mil pessoas nos estádios e 1 bilhão de telespectadores
em todo o mundo. Além de levantarem a multidão, eles arrecadaram o equivalente a R$ 1 bilhão em valores atuais.
Desde então, a data é lembrada como o Dia Mundial do Rock, ocasião para os fãs do gênero celebrarem seu estilo favorito, fazendo as guitarras soarem ainda mais alto em suas caixas de som.
Popularizado no Brasil a partir dos anos 1960, o rock em território nacional é marcado pela diversidade. Começou emulando o chamado “yeah-yeah-yeah” estadunidense e britânico com a Jovem Guarda dos então estreantes Roberto Carlos e Erasmo Carlos (1941-2022), mas logo ganhou também os contornos psicodélicos dos Mutantes, grupo que revelou Rita Lee (1947-2023), e a mistura de ritmos da Tropicália e do “maluco beleza” Raul Seixas (1945-1989).
A partir da década de 1980, no contexto da reabertura política pós-ditadura militar, o rock brasileiro ganhou de vez as ondas do rádio, com o surgimento de bandas
Denise Adans
como Titãs, Os Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, Ira!, Legião Urbana, Plebe Rude, RPM e Capital Inicial, muitas delas em plena atividade até hoje.
Como espaço para expressões musicais dos mais variados estilos, o Sesc sempre acolheu o rock, com apresentações históricas, como o Sonoridades - Rock Paulista, que em 1970 reuniu Made in Brazil, Casa das Máquinas, Tutti Frutti e outros artistas numa programação que incluía shows, oficinas e debates. Há, ainda, os projetos atuais Thermas do Rock e Catandupedras, realizados anualmente nas unidades de Presidente Prudente e Catanduva, respectivamente.
Além disso, existem gerações de roqueiros e roqueiras que passaram pelo Sesc no começo de carreira e, no auge, retornaram muitas vezes. É o caso da cantora Cássia Eller (1962-2001), que em 1993, ainda pouco conhecida do grande público, participou do projeto Outros Ares, no Sesc Pompeia, e se apresentou em diversas unidades durante os anos seguintes, conforme se estabelecia entre as grandes vozes do país.
Neste Almanaque, revisitamos o acervo do Sesc Memórias e apresentamos momentos emblemáticos do rock nacional em nossos palcos.
Reis e Tony Bellotto com os Titãs em 2001, no palco do Sesc Itaquera.
Cássia Eller em 1999, no palco do Sesc Itaquera.
Nando
ALMANAQUE
À esquerda: Paula Toller comanda show do Kid Abelha no Sesc Itaquera, em 1999.
Abaixo: Rita Lee recebe Zuza Homem de Mello (1933-2020) no palco do Sesc Pompeia, durante o projeto Ouvindo estrelas, em 1997.
Nilton
Acima: os mineiros do Pato Fu no Sesc Itaquera, em 1998, em show do projeto Todos os Sons.
À esquerda: Engenheiros do Hawaii no Sesc Itaquera, em 2000.
*SESC MEMÓRIAS
O Sesc Memórias é o programa criado em 2006 para reunir, sistematizar, preservar e disponibilizar a documentação histórica de ações do Sesc São Paulo desde sua fundação, há 80 anos. O acervo conta com mais de 900 mil itens que possibilitam o apoio a pesquisas e a produção de conhecimento nas áreas de história, arquivo e patrimônio. Entre eles, encontram-se objetos tridimensionais, material gráfico textual, fotos e vídeos, em formatos físicos e digitais. Visitas e pesquisas são abertas aos públicos interessados, com agendamento prévio ou solicitação pelo e-mail sescmemorias@sescsp.org.br.
Rua Doutor Plínio Barreto, 285, 3° andar – Bela Vista, São Paulo
Entre sabores e memórias
A comensalidade vai além do simples ato de se alimentar. Ela é, antes de tudo, o gesto de compartilhar, de estar junto, carregando dimensões sociais, culturais e afetivas que dão sentido às refeições.
Na minha trajetória, a alimentação sempre ocupou um lugar especial. Minha relação com a comida foi construída, sobretudo, no ambiente familiar, onde aprendi que comer é também um gesto de cuidado e convivência. Ao longo dos anos, essa percepção se aprofundou no meu trabalho, especialmente no Sesc, onde atuo há 33 anos, vivenciando, na prática, como o alimento aproxima pessoas e cria vínculos.
Minhas lembranças de infância se entrelaçam à minha família, especialmente à minha avó materna. De origem japonesa, ela trouxe para nossa mesa sabores que até hoje me remetem a afeto e pertencimento. Com ela, aprendi que o preparo de um alimento é um verdadeiro ritual, que reúne técnica, tradição, respeito, sabor, estética e, principalmente, amor e cuidado.
Entre as memórias mais vivas, estão os piqueniques em família. Parávamos na estrada ou na praia para comer, e o bife à milanesa com oniguiri (bolinho de arroz) se transformava no melhor almoço do mundo, acompanhado da presença e das risadas dos meus pais, irmãos e avós. O bife da minha avó, inclusive, permanece inesquecível.
Os almoços de domingo e as datas comemorativas reforçavam esse sentido coletivo de cozinhar. Enquanto os adultos preparavam tudo “a várias mãos”, nós, crianças, ajudávamos e beliscávamos os quitutes antes da hora. Com o tempo, assumi meu lugar na cozinha. Hoje, sou eu quem prepara os pratos preferidos dos meus pais, mas minha mãe, aos 83 anos, ainda chega com seu tradicional pudim.
Compartilhar refeições sempre teve, para mim, um sentido muito concreto. Mesmo quando estou sozinha, penso em alguém com quem dividir os bons sabores
e novas descobertas. Em restaurantes, gosto de escolher pratos diferentes para compartilhar. O trio perfeito sempre foi minha mãe, minha avó e eu: juntas, explorávamos sabores e texturas, transformando cada refeição em uma experiência compartilhada.
Minhas primeiras lembranças com o Sesc vêm da infância, no restaurante do Sesc Bertioga. Lembro-me dos cafés da manhã e da delicadeza dos garçons servindo café e leite em bules, trazendo as refeições em bandejas de inox. Cenas simples, mas marcantes.
O Sesc sempre valorizou o convívio social também por meio da alimentação, e tive a honra de participar da implantação da Comedoria, um conceito que coloca a comensalidade no centro da experiência.
A Comedoria é, ao mesmo tempo, meu espaço de trabalho e de convivência com o público e com os meus colegas. Nesse ambiente, a comida assume um papel essencial: aproxima, constrói pontes, transforma momentos simples em memórias e abre espaço para ouvir, conversar e trocar. Ao longo dos anos, muitas receitas me foram compartilhadas, e algumas passaram a integrar os nossos cardápios, carregando consigo histórias e afetos. Quantos conflitos foram suavizados durante um café, e quantas ideias nasceram nesses encontros. Foi também nesse espaço que construí laços, fortaleci parcerias e vivi trocas que marcaram profundamente a minha caminhada.
Como nutricionista, o que mais me encanta é perceber que o alimento vai além de nutrir: ele conecta pessoas, histórias e gerações, reunindo em si vínculos, memórias e afetos em um encontro entre corpo e emoção.
Carmen Lúcia Saito Lelli é formada em Nutrição
pela Faculdade de Saúde Pública, da Universidade de São Paulo, pós-graduada em Administração (USP), Vivências Gastronômicas (Senac) e Nutrição Esportiva (Albert Einstein). Atua como coordenadora do setor de Alimentação do Sesc Santos.