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Teatro Aproximações e diálogos na cena latino-americana
Sesc 80 Anos
Olhares e percepções sobre os fluxos do tempo
Revista E | setembro de 2026 nº 3 | ano 33
Taís Araujo celebra carreira com solo coletivo
Protagonismo Stefano Mancuso e a inteligência das plantas
Sustentabilidade
Desde sua origem, o Sesc acompanha diferentes gerações, promovendo experiências em educação, saúde, cultura e lazer. Criado em 13 de setembro de 1946 e mantido pelos empresários do comércio de bens, serviços e turismo, o Sesc nasceu voltado aos trabalhadores e trabalhadoras do setor e suas famílias.
Hoje, o Sesc está presente em todo o Brasil. No Estado de São Paulo, são mais de 40 unidades que reúnem pessoas, atividades e possibilidades na capital, no interior e no litoral.
O Sesc segue se renovando, apoiando quem movimenta o comércio e ampliando o acesso a vivências que contribuem para uma sociedade mais justa, saudável, criativa e sustentável. Agora e no futuro.
Saiba mais em sescsp.org.br/80anos
CAPA: Registro histórico de carro da UNIMOS – Unidades Móveis de Orientação Social do Sesc, ação realizada pelo Sesc entre 1965 e 1976 com o objetivo de expandir o atendimento sociocultural e levar serviços itinerantes de saúde, lazer e cultura para diferentes regiões do estado. Criado em 1946, o Sesc celebra 80 anos neste mês, com reconhecida atuação nas áreas de lazer, cultura, esportes, turismo social, saúde e alimentação. Imagem: Acervo Sesc Memórias
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80 anos de realizações Oito décadas de História se constroem a partir de sonhos, planos e ações. Surgem do olhar visionário de quem, no passado, já vislumbrava uma nação desenvolvida e plena em oportunidades. Nascem da coragem e do ímpeto de assumir o protagonismo para uma ação transformadora em prol do bem-estar de toda a sociedade. E se sustentam na perseverança daqueles e daquelas que, ano após ano, dão continuidade ao propósito de manter vivo esse anseio. Pois foi do desejo, da ousadia e da atitude concreta do empresariado do comércio de bens, serviços e turismo que, em 1946, foi criado o Sesc – Serviço Social do Comércio, dando início ao compromisso de promover qualidade de vida para os trabalhadores do setor, seus familiares e a comunidade em geral. Há exatos 80 anos, portanto, a instituição dava os primeiros passos na concretização de sua missão de proporcionar novos encontros e aprendizados por meio de programações diversas nos campos do lazer, cultura, esportes, turismo social, saúde e alimentação.
formato alternativo legenda closed caption legenda open caption legendas Libras recursos táteis *Em estabelecimentos de uso coletivo, é assegurado o acompanhamento de cão-guia. As unidades do Sesc estão preparadas para receber todos os públicos
Hoje presente em todo o estado de São Paulo, o Sesc celebra sua trajetória expandindo o seu alcance, com a entrega de duas novas unidades operacionais neste 2026. A entidade mantém viva a mesma motivação que, em 1946, resultou nessa iniciativa emancipadora e de reconhecida relevância em todo o país. Ivo Dall’Acqua Presidente do Conselho Regional do Sesc no Estado de São Paulo
SERVIÇO SOCIAL DO COMÉRCIO – SESC Administração Regional no Estado de São Paulo Av. Álvaro Ramos, 991 – Belenzinho CONSELHO REGIONAL DO SESC EM SÃO PAULO Presidente: Ivo Dall’Acqua Diretor do Departamento Regional: Luiz Deoclecio Massaro Galina Efetivos: Aldo Nuñez Macri, Boris Ber, Dan Guinsburg, Ivo Pinfildi Junior, Jair Francisco Mafra, José de Sousa Lima, José Roberto Pena, Manuel Henrique Farias Ramos, Marcus Alves de Mello, Michelle Reis Moreira, Milton Zamora, Paulo Cesar Garcia Lopes, Paulo João de Oliveira Alonso, Paulo Roberto Gullo, Rafik Hussein Saab, Reinaldo Pedro Correa, Rosana Aparecida da Silva, Valterli Martinez. Suplentes: Aguinaldo Rodrigues da Silva, Antonio Cozzi Junior, Antonio Di Girolamo, Antônio Fojo da Costa, Antonio Geraldo Giannini, Carlos Alberto de Melo, Célio Simões Cerri, Cláudio Barnabé Cajado, Edison Severo Maltoni, Martim Clementino de Medeiros, Natália Ferreira Weber, Omar Abdul Assaf, Sérgio Esper, Sérgio Vanderlei da Silva, Telmo Côrtes de Carvalho e Silva, Vitor Fernandes, William Pedro Luz.
Ousar sonhar Se a mim fosse lançado o desafio de sintetizar em uma palavra o propósito que orienta as ações do Sesc em suas oito décadas de existência, seria possível que escolhesse “encontros”. Assim, no plural, como devem ser as trocas e os aprendizados que surgem no contato com o outro. Também me arriscaria a elencar “esquinas” como um termo síntese, ao remeter à ideia da intersecção de caminhos e do quanto somos capazes de nos modificar a partir das “encruzilhadas”. Talvez “travessia” entrasse nessa lista, por considerar que uma história se constrói no caminhar e nas transformações que resultam desses atravessamentos, sejam concretos ou simbólicos. Não abriria mão, porém, nesse exercício nostálgico e celebrativo, de incluir a palavra “tempo” como uma opção, por se tratar de algo de compreensão tão simples quanto impalpável. Sustentar a relevância de uma ação inovadora e de tamanho impacto, como é o trabalho do Sesc, só é possível porque nasce plural, feita da soma das vozes, ideias, expressões e manifestações presentes em nosso vasto território. Alimentado pela curiosidade que impulsiona a busca por respostas, pela celebração da diversidade como um legado positivo da essência humana e pelo desejo de construir uma vida plena e partilhada, o Sesc chega aos 80 anos de criação com o mesmo entusiasmo com que foi gerado, num convite permanente ao seu público para transformar utopias em realidade. Temos muito a comemorar. Luiz Deoclecio Massaro Galina Diretor Regional do Sesc São Paulo
REPRESENTANTES JUNTO AO CONSELHO NACIONAL Efetivos: Álvaro Luiz Bruzadin Furtado, Ivo Dall’Acqua, Rubens Torres Medrano. Suplentes: Luiz Roberto Rando, Marcelo Braga, Virgilio Cansino Gil CONSELHO EDITORIAL | Revista E Aila Renata Okada Goulart, Aline Estela da Costa, Aline Ribenboim, Ana Paula Neves Cabral de Vasconcellos, Ana Paula Verissimo Souza, Andrea de Oliveira Rodrigues, Andressa Santiago Romao, Anna Raissa Costa Silva, Betina de Tella, Bianca Pereira Santos Damaceno, Bruna Gavioli Ramos, Camila Oliveira Silva, Cinthya de Rezende Martins, Davi dos Santos Ferreira, Debora Santos Franca, Diego Polezel Zebele, Edmar Rodrigues De Fátima Júnior, Elmo Sellitti Rangel, Fabiana Della Coletta Monteiro, Fabricio Floro, Flavio Aquistapace Martins, Francisca Meyre Martins Vitorino, Gabriela Camargo das Gracas, Gabriella Pereira Rocha, Geraldo Soares Ramos Junior, Giulia Maria de Campos Manocchi, Giuliano Jorge Magalhaes da Silva, Glauber Mishima Tanaka, Glauco Gotardi, Ivo Reseck, Jose Mauricio Rodrigues Lima, Julia Campos Josino, Juliane Barbosa Braga, Julio Cesar Ibelli Mello, Karen Leal da Silva, Laise Ferreira Guedes, Ligia Fernandes Araujo, Luana Brito Lima, Maira Yassumi Nakazone de Mello, Marcelo Baradel, Marcos Afonso Schiavon Falsier, Marcos Villas Boas, Maria Eduarda Camargo Pedro, Marina Borges Barroso, Milena Karina de Oliveira, Priscila dos Santos Dias, Rachel Amoroso Gonsalves, Rafael Lima Peixoto, Renata Barros da Silva, Rodrigo Eloi da Silva, Romeu Marinho C. Ubeda, Sandra Ribeiro Alves, Sara Maria da Silva, Silvia Cristina Garcia, Talita Ferreira dos Santos, Tamisa Betina da Silva, Tayna Guimaraes Vieira de Oliveira, Thais Ferreira Rodrigues, Tommy Ferrari Della Pietra, Vanessa Ferreira da Silva, Vinicius Pereira de Oliveira e Wagner Linares da Silva Junior. Coordenação-Geral: Ricardo Gentil Coordenação-Executiva: Ligia Moreli e Silvio Basilio Editora-Executiva: Adriana Reis Paulics • Edição de Arte e Diagramação: Lucas Blat • Edição de Textos: Adriana Reis Paulics, Diego Olivares, Marcel Verrumo e Rachel Sciré • Revisão de Textos: Pedro P. Silva • Edição de Fotografia: Nilton Fukuda • Repórteres: Agnes Sofia Guimarães, Diego Olivares, Lucas Nobile, Marcel Verrumo, Maria Júlia Lledó, Marina Pereira, Rachel Sciré e Vanessa D’Amaro • Coordenação Editorial Revista E: Adriana Reis Paulics, Marina Pereira, Marcel Verrumo e Rachel Sciré • Propaganda: Edmar Júnior, Jefferson Santanielo, Julia Parpulov e Vitor Penteado • Apoio Administrativo: Juliana Neves dos Santos e Talita Ferreira dos Santos • Arte de Anúncios: Bruno Agostinho, Gabriela Batista Borsoi, Luiz Felipe Santiago, Michel Jesus Pinheiro, Mildred Conde Gonzalez, Rino & Partners e Wendell de Lima Vieira • Supervisão Gráfica: Rogerio Ianelli • Criação Digital Revista E: Cleber Paes e Rodrigo Losano • Circulação e Distribuição: Vanessa Zago Jornalista responsável: Adriana Reis Paulics (MTB 37.488). A Revista E é uma publicação do Sesc São Paulo, sob coordenação da Superintendência de Comunicação Social Distribuição gratuita. Nenhuma pessoa está autorizada a vender anúncios. Esta publicação está disponível para retirada gratuita nas unidades do Sesc São Paulo e também em versão digital, em sescsp.org.br/revistae e no aplicativo Sesc SP para tablets e celulares (Android e IOS). Fale conosco: revistae@sescsp.org.br
SUMÁRIO
entrevista
sesc 80 anos
bio
gráfica
teatro
Como o maestro Moacir Santos, que completaria 100 anos em 2026, deixou sua marca na música
dossiê
Sesc marca presença na 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, de 4 a 13/9, com programações de incentivo à leitura
Memórias e afetos do cinema de rua de São Paulo em nova exposição em cartaz no CineSesc
p.11
p.16
p.24
p.32
p.38
p.52
Nilton Fukuda (Entrevista); Acervo Moacir Santos (Bio); Fernando Cavalcanti (Gráfica)
O botânico e professor italiano Stefano Mancuso aponta o que podemos aprender com as plantas
As aproximações e interações da produção teatral latino-americana atual, presentes na 8ª edição do Mirada – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas
No mês em que o Sesc celebra suas oito décadas de criação, personalidades de diferentes idades e campos refletem sobre a passagem do tempo
A construção do desejo é o tema de artigos de Carlos Botazzo e Rodrigo Moretti
A partir de seu primeiro “solo coletivo”, Taís Araujo reflete sobre as escolhas que movem sua carreira
Diretor teatral Luiz Fernando Marques (Lubi) fala sobre seu caminho no teatro
Itens do acervo histórico do Sesc guardam lembranças e ajudam a contar como foi construída a trajetória da instituição
encontros
inéditos
depoimento
almanaque
P.S.
Oito décadas do Sesc São Paulo
em pauta
Nilton Fukuda (Encontros); Pedro Napolinario (Depoimento); Sesc Memórias (Almanaque)
Luiz Antonio Simas (texto) e Gabriel Diogo (ilustração)
p.60
p.66
p.70
p.74
p.78
p.82
9 – 13 setembro 2026 Oficinas, bate-papos, vivências e apresentações artísticas propõem reflexões sobre cuidado, padrões de beleza e as múltiplas formas de expressão que passam pela boca, convidando o público a ampliar o olhar sobre a saúde bucal.
Saiba mais em sescsp.org.br/boca
Rubens Tamashiro
em cena
O Grupo Sobrevento, referência no teatro de animação, apresentou o espetáculo Para Mariela, no Sesc Belenzinho, no dia 6/8. A montagem é inspirada em histórias de crianças bolivianas e aborda temas como imigração, pertencimento e identidade. A atividade integrou a 28ª edição do Palco Giratório, projeto criado em 1998 pelo Departamento Nacional do Sesc, dedicado à difusão e ao intercâmbio das artes cênicas.
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AULAS ABERTAS TREINOS ESPORTIVOS PRÁTICAS CORPORAIS BATE-PAPOS APRESENTAÇÕES DE ATLETAS
ESPORTE É BEM-ESTAR
O Sesc, ao lado diversas organizações do Brasil e da América Latina, oferece uma programação que incentiva todas as pessoas a adotarem um estilo de vida mais ativo e saudável.
Participe de atividades gratuitas em todas as unidades do Sesc! Saiba mais em sescsp.org.br/semanamove
21–27 SETEMBRO
INICIATIVA
APOIO
COORDENAÇÃO
DOSSIÊ
Durante a Bienal, o público terá a chance de participar de encontros com escritores.
Espaço dos livros Bate-papos, encontros e atividades com jornalistas, autores e artistas integram programação do Sesc São Paulo na edição 2026 da Bienal do Livro
Fernanda Baldo
O Sesc marca presença na 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, de 4 a 13/9, no Distrito Anhembi, em parceria com o Senac São Paulo. A participação contará com uma programação que busca aproximar os leitores dos livros e autores. Ao longo dos dez dias de evento, autores das Edições Sesc participam de bate-papos e lançamentos que ampliam as possibilidades de diálogo em torno de suas obras e dos temas que atravessam a produção editorial. Entre os destaques da programação, para celebrar o livro de fotografias Parlapatões: no ato, de Cuca Nakasone, os atores Hugo Possolo, Raul Barreto e outros integrantes da trupe de teatro fundada há mais de 30 anos apresentam três esquetes cômicos nos dias 4, às 15h, e 10,
às 17h. Também no dia 4, às 19h, o jornalista Jamil Chade e o professor da Universidade de São Paulo (USP) Alexandre Moreli conversam sobre as questões geopolíticas tratadas em Uma breve história do agora, de Diego Olstein, com mediação do jornalista Leonardo Sakamoto.
No dia 12, a jornalista Kamille Viola, autora de África Brasil: um dia Jorge Ben voou para toda a gente ver, comenta a importância do álbum que completa 50 anos em 2026 e foi assunto de seu livro, em diálogo com o músico BNegão, ex-integrante do grupo Planet Hemp.
Três mesas trazem o universo da música para o centro do debate. Dia 9, às 17h, o jornalista Miguel de Almeida, autor de Meu odiado crítico, faz dupla com o cantor e guitarrista Frejat, em bate-papo mediado por Adriana Ferreira Silva. Já no dia 11, às 19h, a jornalista Lígia Moreli fala sobre seu livro Elza Soares: insurreição na garganta, com mediação de Ana Cristina Pinho e participação da cantora e pesquisadora musical Fabiana Cozza e do cavaquinista Henrique Araújo, que fazem intervenções musicais.
O evento também terá a presença de caminhões do BiblioSesc, estacionados em dois espaços (Praça de Histórias e Praça da Palavra). Na programação, atividades como contações de histórias, intervenções poéticas, leituras abertas e bate-papos com autores. A entrada da 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo é gratuita para visitantes que apresentarem a Credencial Plena do Sesc e um documento oficial com foto. Veja a programação completa em sescsp.org.br/sescnabienal 11 | e
DOSSIÊ PRÁTICA PARA O BEM-ESTAR Promovida pela International Sport and Culture Association (Isca), com apoio da Unesco, e coordenada pelo Sesc São Paulo, a Semana MOVE chega à sua 14ª edição com o objetivo de incentivar a prática regular de atividades físicas e esportivas em toda a América Latina. Neste ano, com o tema “Esporte é bemestar!”, a ação propõe ampliar o acesso ao movimento a partir de experiências acessíveis,
Boca em evidência prazerosas e diversas, estimulando a permanência na prática e fortalecendo vínculos com o corpo, o território e a comunidade. A programação convida o público a se aproximar da prática esportiva, compreendendo o movimento como uma expressão de cuidado, pertencimento e bem-estar coletivo. As atividades ocorrem de 21 a 27/9, nas unidades do Sesc e em outras localidades. Saiba mais em sescsp.org.br/semanamove
Semana Move é oportunidade para introduzir ou ampliar a prática esportiva no cotidiano.
Em sua 7ª edição, o projeto Boca, pra que te quero propõe desconstruir ideias cristalizadas sobre saúde bucal e ampliar os sentidos atribuídos ao cuidado, ao corpo e às diferentes formas da existência e da saúde para a boca. De 9 a 13/9, a programação reúne oficinas, rodas de conversa, vivências, debates e espetáculos em diferentes unidades do Sesc. A abertura é realizada no Sesc Belenzinho, com o bate-papo “Boca e Cultura: A Produção Social do Desejo e do Cuidado em Saúde”, e discute como a cultura influencia as noções de saúde, beleza e cuidado no campo da saúde bucal, com participação da antropóloga e doutora em Ciências Sociais Sílvia Naidin e do cirurgião-dentista Victor Hugo de Paula, mediação de Fábia Uccelli e pocket show de Thomé. A atividade ocorre das 19h às 21h no dia 9/9, é gratuita e aberta a pessoas de todas as idades. Acesse a programação completa em sescsp.org.br/boca
O público é convidado a explorar o universo da paleontologia por meio da cultura geek, da ciência e da arte, na 2ª edição do Amarogeek. O projeto do Sesc Santo Amaro, realizado de 1º a 13/9, tem atividades inspiradas no mundo jurássico, com oficinas, feira literária, experiências interativas e apresentações. O espetáculo Dinossauros do Brasil, da Cia. Pia
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Fraus, integra a programação, com temporada de 6 a 20/9, aos domingos, às 16h. Na sexta, 11/9, às 20h, a SP POP's Symphonic, sob regência do maestro Ederlei Lirussi, apresenta o show “A magia das trilhas sonoras de John Willians”, que conduz a plateia por um passeio musical pelas trilhas sonoras de filmes como Superman (1978),
E.T. - O extraterrestre (1982) e Indiana Jones (1981). Outro destaque é a oficina “Réplica de fósseis: o passado em suas mãos”, com o paleontólogo Luiz Anelli, nos dias 5 e 7/9, às 15h. Os participantes poderão produzir e colorir réplicas de fósseis, enquanto conversam sobre a origem da Terra e da vida. Saiba mais em: sescp.org.br/amarogeek
Laura Aidar
GIGANTES DA PRÉ-HISTÓRIA
DOSSIÊ FILOSOFIA EM CENA A série de televisão Filosofia Pop, dirigida por Esmir Filho e apresentada pela filósofa e escritora Márcia Tiburi, exibe novos episódios de sua terceira temporada, que marca dez anos desde a criação do programa. Exibida pelo SescTV, a série investiga os impactos da vida digital sobre a experiência humana. Neste mês, às quintas-feiras, 20h30, quatro episódios colocam em debate questões relacionadas
a raça, gênero, saúde mental e desinformação. No dia 3, “Raça e tecnologia” reúne o pesquisador e escritor Tarcizio Silva e o escritor Paulo Scott para discutir as relações entre tecnologia e questões raciais. Em 10/9, “Cultura da Influência” recebe a ensaísta e pesquisadora argentina Paula Sibilia e a cantora, compositora e ativista Katú Mirim. Já no dia 17, “Adolescência e saúde mental na era digital” aborda os
efeitos do ambiente digital sobre os jovens, com o psicanalista e professor Daniel Kupermann e o sociólogo e comunicador Thiago Torres (conhecido pelo apelido Chavoso da USP). Encerrando o mês, em 24/9, “Institucionalismo Algorítmico” reúne a ensaísta, professora e curadora Ivana Bentes e a professora e pesquisadora Silmara Gomes. Assista em sesc.tv/filosofiapop
Márcia Tiburi apresenta a nova temporada da série, que desta vez debate os impactos da vida digital.
SescTV
Promover encontros Diante de uma sociedade cada vez mais conectada pelas telas e, por vezes, mais distante do encontro presencial, o Sesc Vila Mariana apresenta o Seminário Laços Sociais: Presença e Convivência, de 1º a 7/9. Debates, brincadeiras, ações artísticas e passeio convidam famílias, educadores e especialistas a experimentar caminhos para resgatar os espaços públicos e presenciais do brincar, em busca do
desenvolvimento e crescimento saudável de crianças e jovens. A mesa de abertura será na terça (1/9), às 19h, com o tema “Uso de telas: saúde e sociedade”, que trará reflexões do pediatra e ativista pela infância Daniel Becker e da escritora e psicanalista Elisama Santos. A programação é gratuita, mas algumas atividades exigem a retirada prévia de ingressos. Mais informações em: sescsp.org.br/lacos-sociais
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Ricardo Ferreira
FAÇA SUA CREDENCIAL PLENA
A Credencial Plena do Sesc é um benefício gratuito para pessoas com registro em carteira, que são estagiárias, temporárias, se aposentaram ou estão desempregadas há até dois anos em empresas do comércio de bens, serviços e turismo e seus dependentes familiares. Com a Credencial Plena você tem acesso prioritário e descontos na programação e serviços pagos do Sesc. Qual é a validade da Credencial Plena?
Como fazer a Credencial Plena?
Relacionamento com Empresas
A Credencial Plena tem validade de até 2 anos - para desempregados, a validade é de 24 meses contados a partir da data de rescisão do contrato de trabalho.
On-line pelo aplicativo Credencial Sesc SP ou pelo site centralrelacionamento.sescsp.org.br. Se preferir, nesses mesmos canais, é possível agendar horários para realização desses serviços presencialmente, nas Centrais de Atendimento das unidades.
É o programa que facilita o acesso ao credenciamento dos funcionários das empresas parceiras dos ramos do comércio de bens, serviços e turismo. Nessa parceria, além do credenciamento, os aproximamos de nossa vasta programação e serviços. Saiba mais em sescsp.org.br/empresas
Quem pode ser dependente na Credencial Plena? • • • •
Cônjuge ou companheiro de união estável de qualquer gênero Filho, enteado, irmão, neto, tutelado e pessoa sob guarda com até 24 anos Pai, mãe, padrasto e madrasta Avôs e avós
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Acesse o portal para saber sobre a Credencial Plena do Sesc
Rino & Partners
Captação
Vendas Oficiais
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Patrocinador Master
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Organização e Promoção
Apoio
Realização
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entrevista
A inteligência das plantas Especialista em neurobiologia vegetal, professor e escritor italiano Stefano Mancuso defende que as respostas para a emergência climática e outras questões sociais podem vir do mundo vegetal POR VANESSA D’AMARO FOTOS NILTON FUKUDA
O
botânico italiano Stefano Mancuso anda inquieto com a crescente negação da crise climática. Em Fitópolis (Ubu Editora, 2026), seu livro mais recente, ele propõe estratégias para enfrentar o aquecimento global a partir de uma perspectiva centrada na natureza. “Nós criamos lugares onde vivem apenas seres humanos, desconsiderando todo o restante. É o equivalente a uma monocultura na agricultura. As cidades se tornaram monoculturas humanas e sabemos que elas são muito frágeis”, alerta o professor, formado em Ciências Agrárias e doutor em Biofísica. Mancuso confessa ter se apaixonado pelas plantas durante suas incursões acadêmicas e é considerado pioneiro nas pesquisas de neurobiologia vegetal. Desde 2001, atua como professor do Departamento de Ciência
e Tecnologia Agrária, Alimentar, Ambiental e Florestal da Universidade de Florença, na Itália. Em 2005, fundou o Laboratório Internacional de Neurobiologia Vegetal, onde investiga a linguagem e a comunicação das plantas em todos os níveis de organização biológica. Convencido de que as plantas oferecem respostas para alguns dos principais desafios ambientais do nosso tempo, o cientista também se dedica, desde 2013, a escrever livros sobre suas descobertas no campo da neurobiologia vegetal. Para ele, a extraordinária capacidade de organização coletiva desses seres vivos para garantir sua sobrevivência enseja uma ampliação do próprio conceito científico de inteligência. “Não é necessário ter um cérebro para ser inteligente. A inteligência é a capacidade de resolver problemas, uma característica essencial da vida”, defende.
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entrevista
Em 2018, o cientista venceu o 12º Prêmio Galileo de divulgação científica com Revolução das plantas (2019), que se tornou um best-seller traduzido para 27 idiomas e publicado pela Ubu Editora no Brasil. Por aqui, também publicou A planta do mundo (2021), A incrível viagem das plantas (2022), Nação das plantas (2024), além de Fitópolis, todos pela Ubu Editora. Em visita ao Brasil, em junho de 2026, Mancuso concedeu esta Entrevista durante o Festival Florestar, quando ministrou conferências nas unidades do Sesc São José dos Campos e Pompeia.
Ao longo da história da ciência, as plantas quase sempre foram colocadas em segundo plano. Elas são as protagonistas da vida no planeta? Na ciência, costumamos sempre falar dos seres humanos e dos animais. As plantas nunca protagonizaram a pesquisa científica, o que é incompreensível. Basta olhar para a vida no planeta: nós, seres humanos, junto a todos os animais, representamos apenas 0,3% da biomassa da vida. As plantas, por outro lado, representam 87%. Sempre me pareceu extraordinário que, durante toda a nossa história, tenhamos estudado apenas essa parcela minúscula — esses 0,3%, praticamente irrelevantes diante da história da vida no planeta — e tenhamos deixado de estudar as plantas. Como nunca as estudamos de verdade, nunca as observamos com profundidade, sempre pensamos que fossem apenas uma espécie de pano de fundo para as nossas atividades e para a vida dos animais. Na realidade, é exatamente o contrário. Nós, animais, dependemos das plantas. Se elas não existissem, nós não poderíamos existir. Se nós desaparecêssemos, provavelmente as plantas estariam até mais felizes. Existem vários níveis pelos quais podemos olhar para o mundo vegetal e, em todos eles, descobrimos um universo que até hoje foi completamente subestimado. Na verdade, eu nem diria subestimado, ignorado.
O senhor afirma que as plantas são seres inteligentes, embora não possuam um sistema nervoso central como os animais. Como define essa inteligência? Tradicionalmente, considera-se inteligente apenas o ser vivo que possui cérebro. O ser humano, naturalmente, sempre foi considerado inteligente. Depois, os animais mais próximos dele, como os macacos. Nos anos 1950, graças aos estudos de Konrad Lorenz [1903-1989], passamos a compreender que outros animais, como cães e aves,
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podiam ser considerados inteligentes. Porém, o debate parava aí. Agora, pensemos um pouco: mesmo que todos os animais dotados de cérebro sejam inteligentes, ainda estamos falando de apenas 0,3% da vida. Dizer que é preciso ter um cérebro para ser inteligente equivale a afirmar que 99,7% da vida é estúpida. Como cientista, essa é uma ideia que jamais consegui aceitar ou compreender. Não consigo imaginar que praticamente toda a vida restante seja desprovida de inteligência. Nós acreditamos que somos os únicos seres que precisam resolver problemas, mas todos os seres vivos precisam fazer isso. Até uma bactéria precisa resolver problemas todos os dias; caso contrário, não sobrevive. Minha definição de inteligência procura ser a mais ampla possível: é a capacidade de resolver problemas. Não é necessário ter um cérebro para ser inteligente. A inteligência é uma característica essencial da vida. Se algo está vivo, é inteligente.
Dessa maneira, discutir a inteligência das plantas nos obriga, então, a rever a própria forma como definimos a inteligência? Exatamente. Ao longo da história, todas as definições de inteligência que criamos acabavam descrevendo apenas a nós mesmos. Repetidas vezes, descobrimos que essas características não pertenciam exclusivamente aos seres humanos; outros seres vivos também as possuíam. Acredito que possamos olhar para a inteligência a partir de duas perspectivas diferentes. A primeira é a perspectiva humana: descrever especificamente a inteligência humana. Na verdade, trata-se quase de um problema linguístico. Se temos tanta necessidade de diferenciar a nossa inteligência, então chamemos essa forma específica de inteligência por outro nome. Se falamos realmente da capacidade de resolução de problemas, a nossa espécie vem demonstrando justamente o contrário: não consegue resolver nem mesmo aqueles fundamentais para a própria sobrevivência.
As plantas também se comunicam? Como funcionam as estratégias de comunicação entre elas? Essa é uma questão muito interessante. A principal característica das plantas é que elas não podem se deslocar. Não é verdade que elas não se movam. Elas se movem muito, mas em escalas de tempo muito longas. O que elas não podem é abandonar o lugar onde nasceram. São organismos enraizados. Se um ser permanece fixo, ele precisa desenvolver uma capacidade de comunicação
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muito mais ampla do que um ser que pode simplesmente ir embora. Precisa ser capaz de informar todos os organismos ao seu redor sobre aquilo que está acontecendo. As plantas estão paradas e, de fato, são comunicadoras extraordinárias. Elas trocam informações sobre tudo. Muitos anos atrás, por exemplo, descobrimos que, se um grupo de plantas recebe sal nas raízes (e o sal é um veneno para elas), essas espécies avisam as vizinhas: “Tomem cuidado, porque o sal está chegando.” Assim, aquelas que estão ao redor, começam a se preparar para resistir a essa adversidade. As plantas trocam informações sobre o ambiente: se está quente ou frio, se há água ou falta água, se há insetos se alimentando delas. Todas essas informações circulam entre elas. Nós nos comunicamos por meio de palavras e sons. Já as plantas usam a química: produzem uma enorme quantidade de moléculas químicas que viajam pelo ar e chegam a outra planta. O problema é que se trata de uma linguagem muito complexa. Até agora conseguimos compreender apenas uma parte dela. É um pouco como os ideogramas ou os hieróglifos. Cada sinal corresponde a uma mensagem. Quando você reúne três ou quatro sinais, eles passam a significar outra coisa.
Com as moléculas químicas das plantas ocorre exatamente o mesmo. Há moléculas cujo significado conhecemos: “socorro”, “há um problema”, “estão me atacando”. Quando elas aparecem combinadas com muitas outras, o significado muda, e nós ainda não sabemos interpretá-lo. É praticamente uma língua própria. Há cerca de dez anos, inclusive, descobrimos que existem dialetos. Plantas da mesma espécie, mas que crescem em regiões diferentes, comunicam-se melhor entre si do que com grupos da mesma espécie de outras regiões. Elas se entendem mais ou menos, mas não perfeitamente, exatamente como acontece com os dialetos dos nossos idiomas.
O que essa lógica de organização das plantas pode nos ensinar sobre inteligência coletiva e sobrevivência? Nós, seres humanos, criamos organizações inspiradas no modelo do nosso próprio corpo, que responde a uma hierarquia. A cabeça governa órgãos únicos ou duplos, cada um responsável por uma função específica. Vemos com dois olhos, comemos com uma boca, respiramos com dois pulmões, fazemos a digestão com um estômago. Temos
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um ou dois órgãos especializados que desempenham muito bem uma única função. Nós pegamos essa organização do nosso corpo e a reproduzimos em toda parte. Na universidade, nos governos, nas empresas. Onde quer que você olhe, há um chefe com nomes diferentes: diretor, presidente, diretor-executivo. Abaixo dele, órgãos especializados. Se observarmos o organograma de qualquer organização humana, veremos exatamente esse modelo. Igual ao nosso corpo. A única vantagem de uma organização hierárquica é a velocidade. Isso acontece porque somos animais e precisamos nos mover. Esse tipo de organização nos permite agir com rapidez. Em todo o resto, é uma organização terrível, frágil. Basta que um único órgão deixe de funcionar para que toda a estrutura entre em colapso. Um dos principais problemas desse tipo de organização é justamente este: quem decide não vive ao lado de quem sofre as consequências das suas decisões. Com as plantas, a organização é completamente diferente. São distribuídas, difusas, horizontais, nas quais não existe um chefe. Todo o organismo é capaz de fazer de tudo. Executa cada tarefa com menos eficiência
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do que um órgão especializado, mas é capaz de executá-la. Imagine uma grande árvore com dois pulmões ou um cérebro. Bastaria o primeiro inseto comer um pequeno pedaço dela para que a planta inteira morresse. É possível remover 80% do corpo de uma planta e ainda assim ela permanece viva. Por mais estranho que pareça, esta é também de uma organização criativa, porque resolve os problemas exatamente onde eles surgem.
Existe entre as plantas um senso de comunidade que poderia nos inspirar? As plantas são extraordinariamente competentes em criar comunidades nas quais umas ajudam as outras. Por que fazem isso? Não porque sejam anjos ou porque exista uma moral ou uma ética vegetal. Fazem isso porque essa é a forma mais eficiente de garantir a sobrevivência da espécie. E isso é algo de que nós nos esquecemos completamente. O ser humano já não pensa mais em termos de espécie. Ele pensa em termos de indivíduo. E, quando se pensa como indivíduo, o resultado muitas vezes é diferente — ou até o oposto.
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Em Fitópolis, o senhor defende que as cidades devem ser projetadas de uma maneira que priorize a interação com a natureza. Esse pensamento vegetal poderia ajudar e planejar novas formas de organização urbana? Sem dúvida. Antes de tudo, na própria forma de organização. Veja: nós também reproduzimos nas cidades aquela ideia da organização animal, com um chefe e órgãos especializados. Quase todas as cidades têm um centro administrativo, onde ficam a prefeitura, os órgãos de poder, os tribunais. Depois há a região dos hospitais, a região das universidades e outras áreas especializadas. Eu passo muito tempo no Japão porque um dos meus laboratórios fica lá. Em Tóquio, há um bairro onde existem apenas livrarias. Alguém pode pensar: “Que ótimo. Você vai até lá e encontra todas as livrarias.” Não, isso é uma loucura! Há o bairro das livrarias, o bairro dos eletrodomésticos… Dentro do bairro dos eletrodomésticos, existe a área dedicada às geladeiras, outras às televisões… As cidades não devem ser construídas dessa maneira. Não importa em que parte da cidade você more: em pouquíssimo tempo — digamos, em no máximo 15 minutos — você deve conseguir chegar a tudo de que precisa. Hoje, se fala muito na “cidade dos 15 minutos”. Mas, na verdade, esta seria uma cidade distribuída, difusa – um tipo de cidade vegetal onde todos os serviços estão espalhados pelo território, e não concentrados em um único lugar.
O senhor disse que os humanos se transformaram em uma espécie especialista ao viver prioritariamente em cidades. Qual é a consequência disso? Neste planeta, do ponto de vista biológico, existem dois tipos de espécies. A primeira delas é a generalista, que pode viver em qualquer lugar. A humanidade, desde que surgiu há 300 mil anos até algumas décadas atrás, tem sido exatamente isto: uma espécie generalista, capaz de se adaptar a qualquer ambiente neste planeta. As espécies especialistas vivem em ambientes específicos, onde são extraordinariamente eficientes. O coala, por exemplo, vive apenas em florestas de eucalipto. Ele é uma espécie chamada monófaga [que se alimenta de um único tipo de alimento]. O panda vive em florestas de bambu. Os cactos também são espécies especialistas. Eles prosperam em um ambiente específico: as terras áridas. Qual o problema com essas espécies? Elas são extraordinariamente eficientes enquanto o ambiente
estiver estável. Quando ele muda, essas espécies correm o risco de extinção. Quando mais de 70% de uma espécie, como a nossa, vive em um ambiente específico, como a cidade, então ela se torna uma espécie especialista. Você pode perguntar: “Mas o que isso significa?”. Nos tornamos especialistas precisamente no pior momento da nossa história. Em uma época em que não deveríamos ter feito algo assim. Este é o único momento em que o ambiente está mudando muito rapidamente. Dessa maneira, a questão das cidades torna-se relevante para a sobrevivência da nossa espécie quando pensamos no que o aquecimento global e as mudanças climáticas significam para nós.
O que podemos fazer para evitar esse cenário? Deveríamos primeiro nos preocupar em fazer o problema desaparecer. Nós precisamos reduzir a quantidade de dióxido de carbono que produzimos. Infelizmente, estamos fazendo exatamente o contrário. A cada ano, produzimos mais dióxido de carbono do que no ano anterior. E ainda há lugares do planeta onde a questão ambiental praticamente desapareceu. Ela é negada. Essa é uma das grandes loucuras do nosso tempo. A ciência apresenta fatos, apresenta problemas reais e dizer que um problema desses não existe é a coisa mais estúpida que se pode fazer. Este é o maior problema que a humanidade já enfrentou em toda a sua história – um consenso entre a comunidade científica. Só que vem sendo tratado como se fosse uma questão “de esquerda”. Assim, apenas a esquerda deveria se preocupar com ele, enquanto a direita não deveria. Isso é uma enorme estupidez. Problemas científicos não podem se transformar em motivo de divisão entre um lado e outro da política. O problema existe e precisa ser enfrentado por todos.
Quais caminhos podem ajudar a sociedade a se adaptar de forma mais sensível às emergências climáticas? O aquecimento global afeta o planeta inteiro, mas atinge principalmente as cidades. É nelas que seus efeitos são muito mais intensos do que no restante do planeta. Não conheço os dados do Brasil, mas imagino que não sejam muito diferentes dos da Itália. As cidades italianas estão, hoje, mais de 3 °C mais quentes do que estavam em 1960. É um aumento enorme em apenas 60 anos. Isso provoca problemas graves de saúde. As pessoas morrem. Ainda não estamos fazendo os cálculos corretamente, mas a revista Nature começou a publicar estudos estimando quantas pessoas morreram apenas nos meses de julho de 2023 e de
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Uma cidade com menos asfalto é uma cidade mais bela, mais habitável e mais saudável. Além disso, é uma cidade que aprendeu a usar as plantas da maneira mais importante: para salvar a vida das pessoas.
2024, na Europa. Estamos falando de centenas de milhares de pessoas. Costumamos associar a morte causada pelo calor apenas à pessoa que sofre uma insolação grave. Mas esses casos são poucos. Não são eles que explicam esses números. Existe uma relação direta entre a incidência de doenças cardiovasculares e o aumento da temperatura. É gravíssimo. E quem morre por causa do calor? As pessoas mais vulneráveis: os frágeis, os pobres, os idosos.
mais corajosas do que os homens – para começar a fazer algo semelhante: retirar 20% das ruas, remover o asfalto e plantar árvores. Uma cidade com menos asfalto é uma cidade mais bela, mais habitável e mais saudável. Além disso, é uma cidade que aprendeu a usar as plantas da maneira mais importante: para salvar a vida das pessoas.
Como adaptar as cidades para resistir às emergências climáticas?
Muitos dos problemas da humanidade nascem justamente do fato de termos pensado que a vida era uma questão animal. A verdadeira vida, no entanto, é a das plantas. Se começássemos a estudar as plantas — observando como se comportam, suas estruturas organizacionais e sua capacidade de priorizar a comunidade em vez de organismos individuais; se simplesmente começássemos a prestar atenção nelas — a notar sua existência, observar como vivem e perceber que não são apenas um cenário verde (aquele “fundo verde” de que falamos, como uma floresta) —, veríamos que elas são, na verdade, um coletivo de seres vivos inteligentes que resolvem problemas de uma maneira que, infelizmente, nós, humanos, já não conseguimos mais fazer.
Só existe uma maneira: cobrindo-a de árvores. Precisamos remover uma parte significativa das ruas asfaltadas. Cerca de 35% a 40% da superfície de uma cidade é ocupada por ruas, feitas para automóveis. Será que precisamos realmente de todas elas? Podemos eliminar de maneira racional, adequada e eficiente, 20% dessas vias e, em seu lugar, criar verdadeiros corredores de árvores; a temperatura da cidade poderia ser reduzida significativamente em até 3o C. Parece impossível, maluco e utópico simplesmente porque ninguém ainda o fez. No Brasil, vocês têm uma história importante de urbanismo. A primeira cidade do mundo a criar uma área exclusivamente para pedestres, sem circulação de carros, foi Curitiba [o calçadão da rua XV de Novembro]. E isso aconteceu graças a um grande prefeito, [o arquiteto e urbanista] Jaime Lerner (1937-2021). Ele decidiu fechar o centro da cidade para o trânsito. Ninguém jamais havia feito algo parecido. Esse exemplo se espalhou pelo mundo e, hoje, praticamente todas as cidades têm uma área exclusiva de pedestres. Acredito que precisamos encontrar novos prefeitos ou prefeitas – as mulheres, no geral, são
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As plantas poderiam ajudar a moldar um futuro mais otimista para a humanidade?
Assista a trechos da Entrevista com o professor e escritor italiano Stefano Mancuso, realizada no Sesc São José dos Campos, em junho de 2026.
1–30 setembro 2026
fest sesc festival Em setembro, o Festival Sesc de Turismo convida o público a redescobrir os territórios próximos às unidades do Sesc, mostrando que bairros, cidades vizinhas e paisagens cotidianas também podem ser espaços de encontro, aprendizagem e novas descobertas.
de turismo turismmo mais de 60 atividades realizadas por 32 unidades do Sesc São Paulo
perto da gente saiba mais em sescsp.org.br/ festivaldeturismo
sesc 80 anos
todos os
TEMPOS
Conceituada pela ciência e encantada pela poesia, a temporalidade assume diferentes formas e relações na vida de cada um POR MARIA JÚLIA LLEDÓ
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omos seres temporais. Uma espécie que dá contornos à realidade a partir da ideia de passado, presente e futuro. Primeiro, concebemos uma forma de viver coletivamente ao compasso das estações, do vai e vem das marés, da posição do sol, da lua e das estrelas. Já vivemos inteiramente sob a regência do tempo da natureza, coroado pelo poder da transformação, como descreveu o músico Gilberto Gil na canção “Tempo rei” (1984). Ao longo da história, outros elementos se somaram a essa concepção. Filósofos, matemáticos, físicos e poetas debruçaram-se sobre o significado do tempo. E
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assim, essa percepção se moldou conforme transformações políticas, sociais, econômicas e culturais de diferentes épocas. Sempre ditada pelo ritmo das invenções humanas, que definiriam nossa relação com o “antes”, o “agora” e o “depois”. Tais como livro, relógio, prensa, jornais, computadores, inteligência artificial… E o que ainda está por vir. Saudamos o passado, vislumbramos o futuro e vivemos um presente que parece nos escapar, cada vez mais veloz, em meio às revoluções da era digital. Por isso, tentamos negociar com o tempo o tempo todo. Mais cinco minutos de soneca, mais dez
minutos de brincadeira, menos horas de trabalho. Tentamos entrar num acordo com o “compositor de destinos, tambor de todos os ritmos” que o compositor e cantor Caetano Veloso tão bem definiu em “Oração ao tempo” (1982). Ainda que medida pelos ponteiros do relógio, a temporalidade assume uma forma para cada indivíduo, transformando-se ao longo dos anos. Desde as memórias que serão preservadas à maneira como se vive o presente e como se projeta o amanhã. A partir dessa reflexão, oito personalidades de diferentes gerações compartilham suas impressões. E para você? Qual a sua relação com o tempo?
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CURVAS DE UM RIO João Bosco, 80 anos, músico e compositor “Nunca consegui enxergar o tempo como uma linha reta. Ele me parece mais um rio, desses que às vezes correm na superfície e às vezes seguem por baixo da terra. A gente imagina que abandonou certas coisas, mas basta uma lembrança, um cheiro, um acorde, e tudo volta a existir no presente. Os anos nos transformam fisicamente, claro. O corpo passa a conversar conosco de outra maneira. Mas existe uma parte da gente que continua curiosa, espantada diante da vida, querendo descobrir um acorde novo, uma palavra que ainda não tinha sido dita. Enquanto essa curiosidade permanece viva, o tempo deixa de ser um inimigo. Ele passa a ser um
CERTEZA DA FINITUDE
Leo Aversa (João Bosco); Nilton Fukuda (Paulo Saldiva)
Paulo Saldiva, 72 anos, médico patologista e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) “Eu remava, corria, andava de patinete e bicicleta, ou seja, me orgulhava da minha capacidade física. Até que sofri um acidente de bike e tive que colocar uma prótese que, oito anos depois, infectou. Fiquei internado. Com isso, tive uma experiência de quase morte em 2025. Não vi luz nenhuma, mas eu tinha certeza de que iria morrer. Pensei que eu fiz bobagens na vida, pensei na morte, algo que para mim estava muito distante. Mas eu tive uma certeza: a finitude. E quando você passa a ter menos certezas de julgamento e mais incertezas de um fato inexorável,
professor. A memória nunca foi, para mim, um lugar de nostalgia. Ela é matéria-prima. É dela que nasce boa parte da minha música. E o futuro continua sendo um espaço de descoberta. Ainda tenho vontade de compor, de aprender, de encontrar músicos diferentes, de experimentar sonoridades novas. A curiosidade não envelhece. Completar 80 anos não é chegar a um ponto final. É apenas enxergar a paisagem de um lugar mais alto, de onde se consegue ver melhor o caminho percorrido e, ao mesmo tempo, perceber que ainda existe horizonte. Enquanto houver uma canção querendo nascer, enquanto puder subir ao palco e sentir essa conversa silenciosa com as pessoas, enquanto meus netos quiserem comer biscoito com requeijão e eu tiver que buscar, vou entender que o futuro continua acontecendo.”
você procura um propósito pelo tempo que te resta. Você volta diferente disso. No meu trabalho, você lê a história da vida de cada pessoa no corpo, nas marcas que o corpo tem. A morte é muito simples, o mistério está na vida. Você tem uma sobrevivência que dura enquanto viverem as pessoas que se lembram de você. Essa é a minha visão de futuro. Para mim, o futuro tem uma finitude também. Nosso caminho é o esquecimento, a não ser que você seja um gênio como Miguel de Cervantes (1547-1616), e tenha escrito Dom Quixote (1605), para mim o melhor livro já escrito. Mas eu gostaria de ter alguma sobrevida à minha finitude e ser lembrado, talvez, com uma marchinha de Carnaval. Ou melhor, como professor, na memória dos meus alunos.” 25 | e
Neide Santos, 66 anos, corredora e fundadora do projeto social Vida Corrida “Minha mãe vai fazer 89 anos, tenho uma filha, uma neta e uma bisneta. Eu vivo cinco gerações de mulheres na minha família. Nas fotos de papel que eu guardo, vejo aquela mulher sem rugas e com uma vontade de vencer gigantesca. Assim eu percebo que o tempo passou e envelheci. Tudo o que eu fazia antes ainda faço hoje, mas faço no meu tempo. Para mim, o esporte era competitivo e hoje é para uma vida inteira. O tempo passou e eu percebi a grandiosidade do esporte na minha vida desde que comecei muito cedo. Ainda não tenho o hábito da caminhada
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porque corro todo santo dia, às cinco da manhã. Aos 66 anos, quando me olho no espelho, gosto dessa mulher que sempre manteve o corpo em movimento. Por isso, pretendo mantê-lo assim enquanto puder inspirar e respirar. Ainda sou inquieta, mas achei que quando fosse envelhecer ia ficar zen e tranquila. Mas sinto falta e necessito desse movimento. Hoje, estou vivendo com a inteligência artificial, convivendo com outras gerações e em busca de aprendizados. Envelhecer para mim é isto: continuar conectada com essa geração. Eu não me preocupo mais com o meu futuro. Tudo o que faço e produzo é pensando no futuro das gerações que estão por vir. Meu tempo, enquanto eu viver, será infinito.”
Nilton Fukuda
CORPO EM MOVIMENTO
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Bel Santos Mayer, 59 anos, educadora e coordenadora do Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário (IBEAC) “Até pouco tempo, tive meu pai vivo. Tenho minha mãe, aos 88 anos, tenho sobrinhas, sobrinhos, netas, um sobrinho bisneto e uma sobrinha bisneta. Assim, a minha percepção da passagem do tempo é essa continuidade. É esse ir e vir. É olhar nas crianças pequenos gestos que conheci na minha avó, no meu pai, na minha mãe. É perceber as coisas num ‘tempo espiralar’, como diz a professora Leda Maria Martins. Ou seja, a gente vê o tempo fazendo seus caracóis e trazendo a gente de volta, nos fazendo lembrar de coisas que, às vezes, estavam adormecidas. Olhar o tempo, para mim, é ter a felicidade de estar envelhecendo e poder
fazer escolhas. Como diminuir ritmos e ter paciência e ciência para apresentar aos meus mais velhos o mundo que a gente está vivendo. É encontrar palavras para dizer tantas coisas que ficaram em silêncio. Fui uma criança, adolescente e jovem interessada nas coisas do passado. Eu já gostava de escrever o que acontecia. Fui escriba das receitas da minha mãe e das cartas da minha avó. Tenho certeza de que esse exercício de elaboração da memória vivida, ou mesmo esse direito de inventar uma memória quando há buracos, é muito interessante para a gente entender o mundo em que vivemos. Eu não sou daquelas que fica esperando ‘o futuro repetir o passado’. O tempo é uma gangorra. A gente está a cada dia com enormes desafios, muitas ameaças e dúvidas, mas eu conheço muita gente que tem procurado fazer o futuro ser melhor.”
CONTRA O RELÓGIO Naruna Costa, 43 anos, atriz, cantora e diretora “Eu percebo o tempo como se estivesse vivendo uma mudança de era. Quando lembro a minha infância – nasci e cresci em Taboão da Serra (SP) –, a minha rua era de terra. A partir da minha adolescência, nos anos 1990, as coisas foram se modificando de forma muito rápida. A rua passou a ser asfaltada, a relação com o bairro mudou, houve um crescimento das comunidades ao redor da casa dos meus pais. Tudo aconteceu de forma veloz e pouco estruturada. Depois disso, vieram a internet e a tecnologia. Minha percepção do tempo hoje é como se a gente estivesse numa esteira em que a velocidade aumentou
bruscamente e se tornou muito difícil estar conectada ao compasso. Então, são muitas as demandas para um tempo que é o mesmo de antes, mas como nossa relação com ele mudou, temos a sensação de que o tempo é muito pouco para se viver plenamente. Hoje, eu penso no futuro enquanto possibilidade de qualidade de vida. Isso, certamente, tem muito a ver com o tempo de qualidade. Amo trabalhar e pretendo ser uma velhinha que trabalha muito, mas também gostaria de viver o tempo no qual o trabalho não seja protagonista. Assim, seria possível observar como a gente vive no descanso. Sem que esse descanso seja a falta de trabalho ou a ausência de oportunidades, mas um lugar de recolhimento, reestruturação, cura e de celebração.” 27 | e
Nilton Fukuda
TEMPO ESPIRALAR
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Aline Bispo, 37 anos, artista visual “Costumo pensar sobre a passagem do tempo especialmente no mês do meu aniversário ( julho). Isso sempre foi uma constante desde criança. Eu pedia aos meus pais que me contassem várias vezes sobre como nasci, como comecei a andar e outros detalhes da minha vida que eu não teria a possibilidade de me lembrar. Nos últimos tempos, desde que venho atravessando o luto pela perda do meu pai, essa prática tem se expandido para outras situações. Desde me esforçar para estar o mais presente possível em minhas ações, até lapidar o meu olhar para as coisas que são atravessadas por meses e anos. Como cuidar das plantas em meu jardim e observar a transformação física das pessoas da minha família e de amigos. Dentro da minha prática religiosa, tradicionalmente cultuamos o Orixá Tempo, e é na árvore de
Iroko, a gameleira, que se preserva, alimenta e celebra a sua passagem nos planos espiritual e terreno. Essa força nos alinha com um caminho que não é linear, assim como a vida. Acredito que esse encontro mítico pode nos recolocar na espiral da vida, onde podemos fazer muitas coisas. Inclusive, retornar a pontos nos quais já estivemos, mas com a possibilidade de assumir novos posicionamentos, novas formas de ver a vida e, consequentemente, novas formas de agir a partir das experiências que outrora nos ensinaram. A relação com o passado existe, não a necessidade de reviver as coisas. Em minha vida, é comum limpar gavetas de tempos em tempos. Acredito que até a caixa das boas memórias precisa de revisão periódica. Uma das maneiras que tenho de pensar no futuro é mirá-lo a partir do que já fiz, de onde fui feliz, do que deu certo e posso repetir, além daquilo que ainda não fiz e desejo fazer.”
Daisy Serena
PONTO DE RETORNO
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PARCEIRO DA EVOLUÇÃO
Marcelo Zambrana
Gabrielzinho – Gabriel Geraldo dos Santos Araújo, 24 anos, nadador e campeão paralímpico “O tempo ensina muito. Aprendi que cada fase tem seu propósito e que grandes resultados são construídos com constância e disciplina. Quando eu era criança, tinha a chance de descobrir o mundo, brincar e sonhar sem me preocupar com os ponteiros do relógio. Naquele momento, aprendi que o tempo ganha valor quando é bem-vivido. Enquanto na piscina, o tempo é um parceiro da evolução de um atleta. Cada centésimo me desafia a buscar a minha melhor versão. Fora da água, eu tento viver de um jeito diferente. Sem tanta pressa. Levo comigo todos esses aprendizados. O passado me faz evoluir. Ele me lembra de onde eu vim e por que continuo seguindo em frente. Por isso, quando me perguntam quais são os meus sonhos, penso em continuar evoluindo, dentro e fora do esporte. Quero que a minha trajetória inspire outras pessoas e deixe um legado que vá muito além das medalhas. Hoje, eu continuo valorizando o tempo e entendo que algumas das melhores coisas do mundo acontecem no tempo certo.” 29 | e
Hevinha – Hevellin dos Santos Nascimento, 16 anos, estudante, ativista climática e líder do Movimento Girl Up “Para mim, o tempo é um mistério. Como pode uma perspectiva criada pelos seres humanos impactar tanto nossas escolhas e a nossa vida? Em um piscar de olhos, aquilo que antes parecia eterno já se esvai como grãos de areia entre os meus dedos. No fim, o que permanece são fragmentos de memória. A adolescência é um período em que percebo que o tempo definitivamente não passa em linha reta, mas em curvas imprevisíveis. Nos últimos anos, também comecei a pensar que a tecnologia transformou profundamente a nossa relação com o tempo. As notificações, a rolagem infinita, os vídeos cada vez mais curtos… Quando
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cada minuto é fragmentado por estímulos constantes, deixamos de perceber a passagem do tempo com profundidade. Se hoje sou uma adolescente que gosta de ler, sou aspirante a cientista, defendo pautas como igualdade de gênero e proteção ao meio ambiente, gosto de editar vídeos e me sinto confortável falando em público, é porque um dia existiu uma criança curiosa que decidiu experimentar tudo isso pela primeira vez. Já o futuro me assombra ao mesmo tempo em que parece encantador e cheio de possibilidades. Por que ele precisa ser tão incerto? Quando penso no futuro, penso muito na minha vida acadêmica e profissional. E confesso que isso me dá medo. O mais curioso é que eu ainda nem sei exatamente qual curso quero fazer ou em qual universidade. Acho que, quando esse momento chegar, vou descobrir.”
Regiane Oliveira
CERTO MISTÉRIO
para ver no sesc / sesc 80 anos
MÊS DE CELEBRAÇÕES Sesc São Paulo comemora 80 anos com campanha de credenciamento e programações gratuitas entre os dias 11 e 13 de setembro
Renata Teixeira
O Sesc São Paulo celebra suas oito décadas neste mês com uma série de ações voltadas ao seu público prioritário e à comunidade em geral. De 11 a 13, shows e espetáculos realizados em todas as unidades do estado terão entrada gratuita. Entre as programações previstas está o concerto comemorativo da Orquestra Sonare no Sesc Pinheiros, no domingo (13/9), às 18h, em apresentação que integra o projeto Sesc Partituras. No Sesc Vila Mariana, o rapper Rincon Sapiência apresenta sucessos dos álbuns Galanga livre e Mundo Manicongo, no sábado (12/9), às 20h, e no domingo (13/9), às 18h.
As artes cênicas também estão contempladas com apresentações gratuitas. No Sesc Ipiranga, Lady Macbeth: um ensaio sobre o poder revisita a personagem de Shakespeare em um solo de Aretha Sadick, com direção de Tainara Cerqueira. O espetáculo investiga as relações entre ambição, poder e consciência e segue em cartaz no domingo, dia 13. Neste mês, as unidades do Sesc também intensificarão as ações de credenciamento de trabalhadores do comércio de bens, serviços e turismo e seus dependentes. Quem
fizer ou renovar a Credencial Plena do Sesc durante todo o mês terá gratuidade no exame dermatológico necessário para acesso às piscinas. Essas comemorações dos 80 anos dão continuidade a um calendário de ações que reforça a atuação do Sesc nas áreas de cultura, lazer, esporte, educação e saúde. Em maio, a instituição promoveu, em parceria com o Senac e a FecomercioSP, mais uma edição da Semana S, com atividades gratuitas em todo o estado. No Sesc São Paulo, a programação ocorreu de 15 a 17 de maio, com apresentações artísticas, ativações esportivas e ações voltadas ao bem-estar. Entre os destaques estiveram o Diálogos & Gestão, encontro voltado ao empresariado e convidados, no Sesc 14 Bis, e o Circuito Sesc de Corridas, em Bertioga. Acesse a programação completa de atividades em sescsp.org.br
Pessoas que fizerem ou renovarem a Credencial Plena do Sesc em setembro terão gratuidade no exame dermatológico para acesso às piscinas.
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Acervo Moacir Santos
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Moacir de
TODOS OS SANTOS Originalidade do maestro Moacir Santos, que completaria 100 anos em 2026, segue influenciando novas gerações da música brasileira POR LUCAS NOBILE
No ano do seu centenário de nascimento, o compositor, maestro e instrumentista pernambucano Moacir Santos (1926-2006) permanece com relevância e prestígio perante a classe musical e os aficionados por música, embora seja pouco conhecido pelo público em geral. No Discogs, site de compra e venda de discos, um exemplar original do primeiro e mais cultuado álbum de Moacir, Coisas, lançado em 1965 pelo selo Forma, seguia à venda no fim de maio por impressionantes R$ 35 mil. Fora das plataformas digitais de áudio, mas relançado no ano de 2013 em reedição em vinil pela Polysom a preços mais democráticos, o álbum pode ser encontrado hoje a partir de R$ 260. O legado de um artista não se mede apenas pelo valor de mercado de seus discos, mas sobretudo pelo quanto sua obra continua a influenciar sucessivas gerações. Neste sentido, mesmo tendo se passado duas décadas de sua morte, Moacir Santos segue vivíssimo.
ECOS PRESENTES Recentemente, dois artistas criaram diferentes shows inspirados na obra do compositor. O clarinetista e saxofonista Caetano Brasil apresentou o espetáculo “Flores pro Moa — O choro vivo de Moacir Santos”. O trombonista Allan Abbadia, por sua vez, estreou na edição de 2025 do Sesc Jazz o show Coisas Supremas, em que aproximou os universos de dois álbuns consagrados de 1965, Coisas, de Moacir, e A love supreme, do saxofonista e compositor estadunidense John Coltrane (1926-1967), cujo centenário de nascimento também é celebrado em 2026. “O que mais diferencia Moacir são os diálogos que ele propõe na obra dele, como uma pessoa negra na afro-diáspora. Tem esse diálogo constante da música afro-americana, da música afro-caribenha e da música afro-brasileira. Há uma simbiose, ele compõe já arranjando. Por ele ter feito arranjos para o Edison Machado (1934-1990), para o Paulo Moura (1932-2010), para o
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Milton Banana (1935-1999), para o Bossa Rio, encaixou-se o Moacir numa estante de samba jazz, mas não é só isso também, é uma música afrodiaspórica. É uma densidade cultural tão grande e uma não hierarquização de melodia, harmonia e ritmo, em que um não é mais importante do que o outro, que é até difícil de definir”, analisa Abbadia. Outro trabalho importante para a manutenção e a transmissão do legado do arranjador é o livro Moacir Santos ou os caminhos de um músico brasileiro (Folha Seca, 2013), escrito por Andrea Ernest Dias. Flautista e biógrafa de Moacir, Andrea pesquisa o universo criativo do músico há mais de 25 anos. Ela atuou em Ouro negro (2001) e Choros e alegria (2005), discos idealizados e dirigidos pelo violonista e arranjador Mário Adnet e pelo saxofonista Zé Nogueira (1955-2024), fundamentais por reapresentar Moacir Santos ao público brasileiro, que fixou residência nos Estados Unidos em 1967. “Em Moacir, composição e arranjo são indissociáveis, como em uma partitura de Bach. O projeto Ouro negro foi sem dúvida o grande impulsionador do interesse na obra de Moacir de, ao menos, duas ou três gerações de músicos a partir de então, inclusive crianças”, diz a flautista e pesquisadora. Outro disco recente que amplifica o alcance referencial do compositor é Moacir de todos os santos, do maestro baiano Letieres Leite (1959-2021) e da Orquestra Rumpilezz, lançado em 2022 pelo selo Rocinante. “Quando surgiu a ideia do Ouro negro, trouxemos Moacir para acompanhar as gravações. Já tínhamos gravado todas as bases, e ele chegaria quando fôssemos gravar a parte dos sopros. Ao ouvir a nossa base, com Cristóvão Bastos tocando o que havia sido transcrito nota por nota do original, o Moacir perguntou: ‘Como é que vocês me puseram ali? Como é que eu estou aqui? Sou eu tocando aqui’. Ele ficou muito impressionado. O fato de ele achar que era ele quem estava tocando ali, para mim, foi como ganhar uma
estrelinha do mestre. A partir disso, ele relaxou e começou a participar das gravações, opinando e respondendo coisas que a gente não poderia imaginar, como as surdinas no trompete ou no trombone”, relembra Mário Adnet.
REFERÊNCIA MUSICAL Além das dez composições gravadas no álbum Coisas, o disco duplo Ouro negro apresentou também regravações de obras presentes nos outros álbuns feitos por Moacir Santos nos Estados Unidos – três deles pela renomada gravadora Blue Note (The Maestro, 1972; Saudade, 1974; e Carnival of the spirits, 1975) e um pelo selo Discovery (Opus 3 nº 1, 1978). Somando às faixas instrumentais, o disco também contou com algumas canções interpretadas por nomes como Djavan, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Joyce Moreno e João Bosco. Djavan ainda relembra seu encontro com Moacir, ocorrido quatro décadas antes de Ouro negro. “Eu estava em Los Angeles gravando o Luz e, num dos dias, fomos a um churrasco em Pasadena, na casa do Moacir. Aí eu fiz o convite para ele, porque eu sabia que ele gostava de mim e eu também gostava muito dele. E ele fez aquele arranjo lindo. Também tocou o sax barítono, que era o instrumento dele. Fiquei encantado com uma ideia que ele teve para o arranjo, de falar o meu nome em um determinado momento da música. Se você ouvir com atenção o arranjo de ‘Capim’, vai perceber lá: ‘Djavan… Djavan…’. Na hora, eu fiquei assim: Meu Deus, que coisa incrível. Falei: você é maluco. E ficou lindo, ficou lindo. Ele era incrível”, conta Djavan. Antes mesmo do revolucionário Coisas, Moacir Santos já ganhava projeção e notoriedade no meio musical. “Naquele período em que surgiu a bossa nova, quase todos estavam estudando comigo. Tive a felicidade de ensinar muitos dos
O Moa é a síntese do conhecimento acadêmico clássico com a tradição oral popular Teco Cardoso, músico e aluno de Moacir Santos
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Acostumado a tocar instrumentos desde a infância, Moacir Santos impressionou músicos brasileiros e internacionais durante sua carreira.
meus colegas”, contou Moacir em entrevista para a Rádio Jornal do Brasil em 1973. A lista dos alunos é extensa: Baden Powell (1937-2000), Nara Leão (1942-1989), João Donato (1934-2023), Sérgio Mendes (1941-2024), Carlos Lyra (1933-2023), Wilson das Neves (1936-2017), Roberto Menescal, Eumir Deodato, Maurício Einhorn e muitos outros.
Acervo Moacir Santos
Baden foi um dos primeiros a interpretar composições de Moacir, como “Coisa nº 1” e “Coisa nº 2”, no LP Baden Powell swings with Jimmy Pratt, em 1963. No mesmo ano, no álbum Vinicius & Odette Lara, Vinicius de Moraes (1913-1980) gravou “Samba da bênção”, dele e de Baden, em que, no final da canção, o poeta expressava sua admiração por Moacir com a célebre declaração: “A bênção, maestro Moacir Santos, que não és um só, és tantos”. Ainda no segundo semestre de 1963, a gravadora Copacabana lançou um disco em que Elizeth Cardoso (1920-1990) cantava obras de Vinicius compostas com diversos parceiros e arranjos de Moacir. Na contracapa do disco, Vinicius de Moraes voltava a explicitar seu encantamento pelas criações do maestro: “Antigo maestro da Rádio Nacional e professor de música de muitos dos responsáveis pelo movimento da bossa nova, Moacir Santos surge com grande força e originalidade, colocando-se, de saída, na linha de frente da seleção de ouro do momento”. No ano seguinte, o pianista Sérgio Mendes e o sexteto Bossa Rio lançaram o importante álbum Você ainda não ouviu nada, com quatro arranjos e composições de Moacir, uma delas, a mais conhecida de toda a obra do maestro, “Coisa nº 5 — Nanã”, que ganhou dezenas de regravações, como a de Nara Leão em seu disco de estreia.
NAS TRILHAS DO CINEMA Boa parte das “coisas” de Moacir foi composta para a trilha sonora do filme Ganga Zumba (1963), do diretor Cacá Diegues (1940-2025). Ao gravar o LP Coisas, perguntado sobre os nomes das faixas, o compositor, que julgava que suas obras não eram dignas de serem nomeadas como “Opus”, seguindo a terminologia utilizada no universo da música de concerto, ele as batizou simplesmente como “coisas”. Os trabalhos do compositor para cinema foram reunidos e analisados pelo pesquisador Lucas Zangirolami Bonetti no site trilhasmoacirsantos.com.br. Lá, assim como Ganga Zumba, estão as composições e arranjos de Moacir para filmes brasileiros como Seara vermelha (1964), Santo módico (1964), Os fuzis (1964), O beijo (1965) e Grande cidade (1966). Encontram-se também as colaborações de Moacir para produções internacionais como Amor no Pacífico (lançado em 1969, e que motivou a ida do compositor para os Estados Unidos dois anos antes), Africa erotica (ou Jungle erotica, de 1970), a série Missão impossível [exibida originalmente de 1966 a 1973] e Final justice (1985). No meio artístico estadunidense, Moacir Santos também conquistou a admiração de músicos consagrados. Entre eles, os pianistas e compositores Clare Fischer (1928-2012), Horace Silver (1928-2014), Gil Evans (1912-1988) e Henry Mancini (1924-1994), que se referia ao brasileiro com um adjetivo tão simples quanto categórico: “Moacir is unique” [“Moacir é único”, em tradução livre].
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bio
Antes das trilhas para cinema e de sua discografia própria, Moacir Santos foi maestro da principal emissora do país em sua época, a Rádio Nacional, entre os anos de 1948 e 1967. Aluno de César Guerra-Peixe (1914-1993) e do alemão Hans-Joachim Koellreutter (1915-2005), aprimorou seus conhecimentos em teoria musical, harmonia e contraponto para consolidar um trabalho extremamente original como orquestrador. Só na Rádio Nacional, deixou mais de 300 arranjos escritos para diversos programas. “Na época das gravações do disco Choros e alegria, Moacir esteve com a gente no Rio de Janeiro. Como não tinha nada escrito, ele orientava, escrevendo apenas a melodia e o baixo, e a gente tinha que adivinhar a harmonia, ele ia corrigindo aos poucos. Mas poucas vezes nós falamos em harmonia, acidente de acorde ou passagens com nomes teóricos”, diz Mário Adnet.
No Rio de Janeiro, ao ser submetido a testes na Rádio Nacional, a estupefação se repetiu. “Os diretores estavam ainda decidindo se me admitiriam na rádio ou não. Consultaram o maestro Chiquinho para saber se deviam me contratar. A resposta foi a seguinte: ‘Colocamos nossas músicas, ele tocou. Aí, ele mostrou as dele, e não conseguimos tocar’”, contou Moacir na Rádio Jornal do Brasil.
ANDANÇAS
Em 1967, com passagens oferecidas pelo Itamaraty, Moacir seguiu para Newark em Nova Jersey, para acompanhar a pré-estreia do filme Amor no Pacífico, para o qual ele havia composto a trilha sonora. De lá, seguiu para Pasadena, onde fixou residência e morou até morrer em 6 de agosto de 2006. “O Moa é a síntese do conhecimento acadêmico clássico com a tradição oral popular. Com a experiência adquirida nos anos de músico e depois maestro arranjador da Rádio Nacional forjou uma originalíssima afro-brasilidade. O jazz, o samba, o maracatu e as técnicas de contraponto eruditas se mesclavam numa música extremamente contemporânea e original. Em seu estúdio em Pasadena onde tive aulas, partituras de Bach e Villa-Lobos a Nelson Riddle e Oliver Nelson eram tiradas das prateleiras abarrotadas, todas devidamente analisadas e cheias de observações a lápis de alguém que as estudou a fundo”, relembra Teco Cardoso, um dos últimos alunos de Moacir e herdeiro do saxofone barítono que pertenceu a seu mestre.
A relação de Moacir Santos com a música remonta a tempos muito anteriores à chegada dele ao Rio de Janeiro, na década de 1940. Nascido em Flores do Pajeú, no sertão pernambucano, Moacir tinha suas primeiras lembranças musicais antes mesmo de ficar órfão por volta dos 3 anos de idade. “Antes de eu ter consciência de mim, eu já vivia tocando. O pessoal em Flores dizia: ‘Esse menino é danado. A mãe dele morrendo, e ele lá tocando e brincando com latas no quintal’. Eu comecei com música desde que nasci, com menos de 2 anos já batia ritmo”, relembrou Moacir na entrevista concedida a Simon Khoury na Rádio Jornal do Brasil, na década de 1970. Adotado pela família Lúcio, desde pequeno já construía de maneira intuitiva suas flautas e pífanos. Aos 14 anos, partiu sozinho em suas andanças por cidades da região próxima a Serra Talhada (PE). Dotado de extrema musicalidade, impressionava os músicos das bandas municipais por onde passava. Aos primeiros encontros, a mesma cena se repetia. Questionado sobre qual instrumento tocava, Moacir respondia: “todos”. Instado a comprovar a resposta que soava arrogante, ao jovem bastava uma breve demonstração de suas habilidades para deixar a todos boquiabertos. Antes de chegar ao Rio de Janeiro, Moacir passou por algumas capitais do Nordeste, como Recife, João Pessoa – na capital paraibana foi arranjador da Rádio Tabajara e conheceu Cleonice, com quem se casaria e teria um filho, Moacir Junior – e Salvador.
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A despeito do serviço que realizou como arranjador na principal estação radiofônica do país e de todos ineditismo e excelência contidos em seu disco Coisas, Moacir Santos sentiu que as condições de trabalho no mercado brasileiro não eram das mais favoráveis naquele período: “Eu e meus colegas arranjadores vivíamos uma crise aqui. Pensei até em vender meu carro na praça. E acabei indo embora”, contou o compositor em outra entrevista para a Rádio Jornal do Brasil, já na década de 1980.
“O fato de tocar sax barítono, o mais grave do naipe, e ao colocá-lo não mais apenas dobrando as linhas do baixo mas muitas vezes assumindo a melodia (que estaria normalmente nas pontas mais agudas das flautas e trompetes) ‘inverteu’ uma lógica estabelecida, achando soluções sempre criativas para aquela ‘novidade’. Suas claves rítmicas inovadoras e desafiadoras, sua música essencialmente escrita e suas melodias, assim no plural, pois todas as vozes ‘carregam uma história própria’, como ele costumava me dizer, fazem dele um farol que vem iluminando caminhos. O meu desde sempre”, complementa Teco.
para ver no sesc / bio
Sempre cercado de música e nome fundamental do jazz, Moacir Santos é celebrado com programação especial em 2026.
CENTENÁRIO FESTEJADO Programação do Sesc São Paulo celebra obra de Moacir Santos
Acervo Moacir Santos
Ao longo de 2026, o Sesc São Paulo destaca o centenário de Moacir Santos em diferentes atividades, reconhecendo um dos grandes compositores, arranjadores e maestros da música brasileira. Um dos destaques é programação do Instrumental Sesc Brasil dedicada à obra do artista. Realizada pelo SescTV no Sesc Consolação, as apresentações estão disponíveis na plataforma Sesc Digital. A homenagem contou com a Jazzmin's Big Band, conjunto feminino que realizou o espetáculo Para Moacir, seguida pelo Alexandre Vianna Trio, que revisitou o clássico álbum Coisas sob uma perspectiva contemporânea, ao lançar
o álbum Coisas de Moacir (2025). O grupo Mestre Negro também prestou tributo ao maestro, valorizando sua escrita musical e as conexões entre o jazz e as matrizes afro-brasileiras. A programação seguiu com Andrea Ernest Dias Quarteto, no espetáculo Uma Roda para Moacir Santos, que amplia o diálogo entre a obra do compositor e outros nomes fundamentais da cultura brasileira, e se encerrou com Allan Abadia, em Coisas Supremas, apresentação que aproxima o universo criativo de Moacir Santos e John Coltrane, a partir de dois discos emblemáticos lançados em 1965. Disponível em sesc.tv/instrumental O Selo Sesc também reúne registros que evidenciam a presença de Moacir Santos na música brasileira. Entre eles está Sessões Selo Sesc #7: João Donato + Projeto Coisa Fina, disponível nas plataformas digitais. O encontro aproxima diferentes gerações de músicos por meio de um repertório marcado pelo legado do maestro. Lançado em mídia física, o álbum Coisa Fina, da big band paulistana Projeto Coisa Fina, dedicado à obra de importantes compositores brasileiros, também reverencia a obra de Moacir Santos. Acesse em sescsp.org.br/selosesc 37 | e
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Ambientação idealizada pela equipe do CineSesc, com curadoria e direção de arte de Mauro Amorim, recria atmosfera de cinemas de rua entre as décadas de 1940 e 1970 na capital paulista.
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Fotos: Fernando Cavalcanti
RUAS DO CINEMA Em meio às transformações do mercado audiovisual e do espaço urbano, cinemas de rua atravessam as décadas democratizando a sétima arte POR MARCEL VERRUMO 39 | e
Pintura da artista Fernanda D’Boer homenageia o Cine Marrocos, mesclando sua arquitetura com elementos iconográficos do pôster do filme Um corpo que cai (Alfred Hitchcock, 1958).
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aminhar pela região da República, no Centro de São Paulo, é assistir a cenas em que se sobrepõem múltiplas camadas de tempo. Um dos endereços onde passado e presente se encontram em um mesmo frame é a Avenida Ipiranga, 757, sede do Playarte Marabá, antigo Cine Marabá. Inaugurado em 1945, o icônico cinema de rua fazia parte da Cinelândia Paulistana, região que concentrava algumas das mais tradicionais salas de exibição da época. Numa metrópole em expansão e de agitada vida cultural, esse cinema acomodava 1655 pessoas em um edifício imponente, com monumental arquitetura e design luxuoso. Locais como o Cine Marabá estiveram no centro da cena cinematográfica até a década de 1970, atuando como espaços de difusão de obras que se tornariam clássicas, de encontros entre amantes da sétima arte e de produção de hábitos culturais. “Os cinemas de rua eram o endereço da vida social paulistana, do seu glamour e fervo. As pessoas iam a esses espaços e, após assistirem a um filme, reproduziam os trajes e hábitos das personagens. Eram espaços de produção da cultura em um momento em que tudo girava em torno deles”, conta Mauro Amorim, curador e diretor de arte de Cinemas de Rua: Da Augusta à Cinelândia Paulistana, que ambienta o CineSesc, cinema de rua que funciona desde 1979 na Rua Augusta, em São Paulo. Na ambientação idealizada pela equipe do CineSesc, é possível imergir na memória desses cinemas, por meio de imagens, letreiros e mapas que remetem à sua história e funcionamento. São obras que resgatam o seu apogeu nas décadas de 1940 e 1950 e o seu declínio a partir dos anos 1970, motivado por fatores como a expansão das salas de cinema em centros comerciais e as transformações urbanas e demográficas.
Entre os destaques da ambientação, está uma série de cinco pinturas em papel da artista Fernanda D’Boer, que celebra o Cine Marabá, o Cine Comodoro, o Cine Ipiranga, o Cine Marrocos e o próprio CineSesc. As criações mesclam traços das fachadas arquitetônicas desses espaços com referências iconográficas dos filmes Tubarão (Steven Spielberg, 1975), A doce vida [Federico Fellini (1920-1993), 1960], Um corpo que cai [Alfred Hitchcock (1899-1980), -1958], Bye Bye Brasil [Cacá Diegues (1940-2025), -1980] e Laranja Mecânica [Stanley Kubrick (1928-1999), 1972]. Um mapa ilustrado, de autoria do estúdio Radiográfico, guia o público em um passeio entre a rua Augusta e a Cinelândia Paulistana. “Ao fazermos esse resgate dos cinemas de rua, celebramos espaços onde pulsaram e ainda pulsam a essência e a paixão pelo cinema”, resume Amorim, para quem locais como o CineSesc e o Marabá, na República, representam formas de resistência, onde é possível desbravar cenas da arte e da cidade por meio das lentes do cinema.
CINESESC
Ambientação Cinemas de Rua Da Augusta à Cinelândia Paulistana Visitação todos os dias, das 13h15 às 22h. Grátis. 41 | e
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Acima: referências às antigas bombonieres dos cinemas de rua compõem a ambientação. À direita: produções jornalísticas especializadas em cinema contam a história da sétima arte.
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Acima: ingressos para sessões em cinema de rua no apogeu desses espaços, entre as décadas de 1950 e 1960. À esquerda: celebração ao CineSesc, com destaque ao filme Bye Bye Brasil (Cacá Diegues, 1980) em pintura da artista Fernanda D’Boer.
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Criado pelo estúdio Radiográfico, painel conta a história dos cinemas de rua, conectando os tradicionais equipamentos culturais da rua Augusta à Cinelândia Paulistana na República.
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Acima: o pôster do filme Laranja Mecânica (Stanley Kubrick, 1972) dialoga com a fachada do Cine Ipiranga, em pintura da artista Fernanda D’Boer. À esquerda: objetos históricos do universo cinematográfico, como a lanterna, compõem a homenagem do CineSesc aos cinemas de rua.
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Óculos 3D em formato anáglifo, sucesso nas décadas de 1950 e 1960, criavam a ilusão de profundidade tridimensional diante da tela plana do cinema.
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Em Santos, São Vicente, Guarujá, Praia Grande e Cubatão.
41 ESPETÁCULOS ATIVIDADES FORMATIVAS PONTO DE ENCONTRO
Equador País homenageado
Ingressos à venda pelo aplicativo Credencial Sesc SP, pelo portal Sesc SP e nas bilheterias das unidades.
SESCSP.ORG.BR/MIRADA
Espanha Guatemala México Peru Portugal Uruguai Venezuela
Yumo Apurinã no espetáculo Ideias para Adiar o Fim do Mundo. Foto: Natalia Tupi
Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Cuba
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LATINO-AMERICANA Diálogos e interações aproximam as fronteiras das produções teatrais na América Latina POR RACHEL SCIRÉ
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ma mulher encontra o velho que, com um tear, criou as linhas que definem os limites da América Latina. Ela deseja mover algumas dessas linhas, que parecem solidificadas e estão enferrujadas — foram feitas de sangue. Arrastar as linhas no mapa é a única forma de abrir uma fresta por onde poderia surgir um novo continente. A cena dá início ao espetáculo ¡Cerrado!, do Grupo Pano, que integra a programação do Mirada - Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas (leia mais no box) e discute a noção de fronteira e como a cultura pode ultrapassar traçados territoriais na América Latina. “A gente tentou fazer um
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espetáculo transcultural, com texto e músicas em portunhol, para evidenciar como estamos distantes de outros países da América Latina por essa fronteira da colonização, a língua portuguesa, que se tornou também uma barreira”, explica o diretor e dramaturgo Caio Silviano. A alegoria criada pelo Grupo Pano serve também para refletir sobre a permeabilidade das expressões teatrais latino-americanas. Devido a fatores como colonização, regimes autoritários e contextos sociais, temas e discussões convergentes podem ser reconhecidos em uma parcela das dramaturgias contemporâneas desses países. Mas para além disso, em que
medida teríamos um espaço aberto para aproximações e diálogos nas artes cênicas da América Latina?
TEATRALIDADES DECOLONIAIS Antes de os territórios serem colonizados, já existiam teatralidades específicas, por anos ignoradas entre estudiosos das artes da cena, explica a professora doutora do Departamento de Artes Cênicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Gina Maria Monge Aguilar, natural da Costa Rica. “Hoje, a ideia de 'teatro' na América Latina tem um sentido ampliado que inclui teatralidades, performatividades,
O caráter festivo é marcante em produções latino-americanas, como no espetáculo ¡Cerrado!, do Grupo Pano.
Leekyung Kim
jogos, que não tinham o nome de peça de teatro, mas em que já existia a ideia de representação, o uso de elementos cênicos.” Um exemplo seria o Rabinal Achí, da Guatemala, expressão dramática ritual com origens pré-colombianas, que remonta ao século 15, declarada obra-prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade pela Unesco. Vinculadas a eventos e espaços comunitários, nessas manifestações não se estabeleciam separações entre dança, teatro, música, rituais e comida. Mesmo com a chegada dos colonizadores e das teatralidades europeias, elas continuariam se desenvolvendo, ainda que de modo
não oficial. É possível reconhecê-las no Juego de los Diablitos, que acontece na passagem de ano na comunidade indígena de Boruca, na Costa Rica, em que guerreiros nativos mascarados como “diabos” dramatizam o enfretamento com os colonizadores espanhóis. Outro exemplo seria a tradição quilombola do Nêgo Fugido, realizada em julho, em Acupe, em Santo Amaro (BA), que revive lutas de escravizados pela liberdade durante o período colonial. Esse caráter decolonial seria determinante para as artes da cena na América Latina. “Na construção da dramaturgia cênica, por exemplo, temos uma relação com o público que
não remete necessariamente ao distanciamento brechtiano, à quebra da quarta parede”, cita Gina. Segundo ela, o teatro na América Latina teria se desenvolvido entre as expressões originárias e populares e os moldes europeus, adquirindo ainda, um recorte político decorrente das condições históricas da região. No espetáculo Esperando al Coyot, escrito e dirigido pelo equatoriano Juan Andrade Polo, três artistas populares esperam por um coyote, que promete levá-los ao sucesso no “primeiro mundo”. A trama evoca a importância de não se limitar a uma estagnação diante de diferenças históricas, 53 | e
bem-humorada, com jogo de cintura, que a gente tem de encarar a realidade é um traço continental.”
FESTA E MAGIA
As aproximações também deram origem ao Boi Galado Vagamundo, brincadeira inspirada nos folguedos do boi, que acontecem por todo o Brasil. O grupo viajou pela América Latina para aprofundar a pesquisa das festas populares com figuras bovinas, como na Fiesta de la Virgen del Carmen, no Peru, ou a Fiesta del Buey, na Colômbia. “Boa parte dos grupos no país tendem a pensar a questão da brasilidade nas obras. A gente já parte de um ponto de vista expandido, que é pensar na latinidade”, conta.
As festas populares e o teatro de rua têm sido um caminho para ir ao encontro da latinidade, de acordo com o diretor e dramaturgo Fernando Yamamoto, um dos fundadores do Grupo Clowns de Shakespeare, de Natal (RN). “Como a gente consegue lidar com a dureza das questões? Em meio à alegria do fazer, do brincar, de se divertir e de festejar. Essa forma malemolente,
O ponto de partida latino-americano é também o pressuposto do Coletivo Labirinto, fundado em 2013, que se dedica a investigar dramaturgias contemporâneas da América Latina articuladas a discussões sociais, políticas e históricas. “Gostamos de nos aproximar de autores e autoras vivos, para entrar em interlocução”, conta Wallyson Mota, um dos criadores do Labirinto.
A corrida é uma alegoria da condição latino-americana no espetáculo Pés-Coração, do Coletivo Labirinto.
e busca por reconhecimento ou sentimento de inadequação. Para Andrade, “o encontro entre povos pré-hispânicos e nativos deu origem a uma vertente dupla de linguagens teatrais e a um sincretismo rico em formas rituais adicionais, bem como em modos de expressão populares e festivos. Ao mesmo tempo, equilibrou diferentes histórias e formas de compreender o cosmos”. De acordo com ele, essa livre mistura colaborou para que as fronteiras de gênero fossem desafiadas, combinando “comédia popular, coplas [formas de declamação poética, muitas
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vezes satíricas], o trágico, o político, o absurdo grotesco, o absurdo, o realismo mágico e o ritual”.
Tomás Franco
Fundado em 1993, o Clowns tem intensificado parcerias com grupos da América Latina há mais de dez anos, como o Malayerba, do Equador; o Teatro de Los Andes, da Bolívia; o Yuyachkani, do Peru; e o Teatro El Galpón, do Uruguai. Nesse processo, montaram a trilogia latino-americana, com os espetáculos Abrazo, inspirado em O Livro dos abraços, de Eduardo Galeano (1940-2015); Nuestra Senhora de las nuvens, do dramaturgo argentino Arístides Vargas, e Dois amores y um bicho, do dramaturgo venezuelano Gustavo Ott.
teatro
O grupo já realizou montagens com dramaturgias da Argentina, Uruguai, Chile e Brasil. Em Pés-Coração, espetáculo mais recente e primeira criação autoral do Coletivo, divide o palco pela primeira vez com Allycia Machaca, atriz boliviana. No espetáculo, a dramaturgia nasceu ao entrar em contato com a história dos rarámuris, povo originário do Norte do México, conhecido por correr longas distâncias a pé e que, na atualidade, tem se destacado em maratonas. “A gente começou a pensar como isso poderia sugerir algumas pistas para possíveis traços da nossa identidade latino-americana, entendendo a corrida como uma certa alegoria da nossa condição, do nosso modo de ser e estar nos territórios”, explica Mota. A peça explora temas como
a subsistência, a relação com o tempo, o “corre” do mundo do trabalho, a busca por alternativas de sobrevivência e a necessidade de movimento incessante. “A gente está em deslocamento o tempo todo em cena. A partir disso, fizemos uma associação com um cortejo de Carnaval em que não se pode parar, caso contrário, a escola perde ponto. Esses personagens de lá desembocam em um desfile daqui, dando uma certa ideia de que, quando se alcança o mais fundo do que poderia ser uma imagem latina, observamos a nós mesmos.” Caio Silviano, do Grupo Pano, também entende a festa como um marcador de semelhança entre o teatro produzido na América Latina. O disparador do
espetáculo ¡Cerrado!, por exemplo, foi a descoberta de que existe uma legislação municipal em San Pedro de Atacama (Chile) que cerceia a possibilidade de realizar festas e dançar – existem até placas com a inscrição “¡Prohibido bailar!”. “Alguns poderiam dizer que é realismo fantástico, mas é a nossa realidade. Diante desse fato, acabei escrevendo um texto sobre o autoritarismo na América Latina e como a gente pode tentar desmantelar essa noção de que a nossa realidade é um fim em si mesmo, já que a gente pode destruí-la e criar outra realidade”, comenta o dramaturgo. Para levar a ficcionalidade adiante, o grupo recorre a palhaços, máscaras e bonecos gigantes,
HOJE, A IDEIA DE 'TEATRO' NA AMÉRICA LATINA TEM UM SENTIDO AMPLIADO QUE INCLUI TEATRALIDADES, PERFORMATIVIDADES, JOGOS, QUE NÃO TINHAM O NOME DE PEÇA DE TEATRO, MAS EM QUE JÁ EXISTIA A IDEIA DE REPRESENTAÇÃO E O USO DE ELEMENTOS CÊNICOS Gina Maria Monge Aguilar, professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) 55 | e
como se observa em diferentes tradições latino-americanas. “A gente acha que o palhaço é um marcador europeu, mas existe a figura do palhaço nas expressões das comunidades indígenas e quilombolas”, lembra.
PALCO LATINO “Por que se forçar a um diálogo com a Europa, enquanto aqui ao redor existe uma realidade que faz muito mais sentido?” A questão apresentada por Fernando
Yamamoto reflete o movimento de alguns criadores brasileiros de se voltar para a América Latina, uma vez que o Brasil teria passado bastante tempo de costas para o próprio continente. “O engraçado é que eles nunca viraram as costas para a gente. Eles nos conhecem muito mais do que nós a eles, e existe uma admiração, existem portas muito abertas para esse trânsito”, diz. Apesar de ser possível encontrar discussões comuns, já que as regiões buscam elaborar seus
processos sociais e políticos convertendo-os em cena, são percebidas diferenças tanto nos assuntos, quanto nas formas artísticas. “A questão indígena está em um lugar para eles, e em outro, para nós. Assim como a questão preta é diferente aqui por conta da presença da população preta na sociedade brasileira e das batalhas que o movimento preto encampa incessantemente pela visibilização de sua identidade e cultura”, comenta Wallyson Mota, do Coletivo Labirinto.
Nicolas Calderon
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Tomás Franco
O espetáculo Vampyr (Chile), da diretora e dramaturga Manuela Infante, se apropria da lenda do vampiro europeu para propor uma mitologia inventada de um vampiro sul-americano.
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TENHO DIFICULDADE EM FALAR DE UMA FORMA PROPRIAMENTE LATINO-AMERICANA. FALARIA, ANTES, DE FORMAS SEMPRE EMERGENTES, ENTENDENDO A EMERGÊNCIA NÃO COMO UMA CATEGORIA GERACIONAL NEM COMO SINÔNIMO DE NOVIDADE, MAS COMO ALGO CUJA ESPECIFICIDADE RESULTA DE DETERMINADAS CONDIÇÕES, CORPOS, MATERIAIS E NECESSIDADES QUE SE ENCONTRAM DE UMA MANEIRA ESPECÍFICA. Manuela Infante, diretora e dramaturga chilena
Ele também percebe em outros países uma ênfase na dramaturgia dialógica do que entre as produções brasileiras, especificamente as de São Paulo. Além disso, em sua pesquisa de mestrado sobre a dramaturgia uruguaia de Marianella Morena, Santiago Sanguinetti e Gabriel Calderon, Mota analisa que o universo ficcional parece mais assegurado, enquanto, entre nós, a ideia de “real”, de performatividade, de “verdade” ganhou muito a cena nos últimos anos. “Aqui, parece que a gente usa como base a realidade e cria dispositivos ficcionais. Lá, é um pouco o contrário, eles partem de uma base ficcional
em que se abrem buracos com dados de realidade”, explica. Gina Aguilar, professora da Unicamp, afirma que, diante da grande quantidade de países, existiriam algumas identidades que nos caracterizam e, para além das temáticas, destaca a presença de princípios cênicos, conhecimento teatral e questiona a necessidade de se ater a certos assuntos para que as produções sejam valorizadas como latino-americanas. “Por que a gente consegue ver metáforas sobre a condição humana em textos ingleses, franceses, estadunidenses, mas nossos
trabalhos são tratados como regionais? Acho muito difícil que uma peça latino-americana engajada politicamente só diga respeito àquela região específica.”
COLETIVIDADE Para a diretora e dramaturga chilena Manuela Infante, mais do que uma identidade comum, uma parte do teatro latino-americano é marcada pela precariedade e por se organizar em redes informais, espaços, recursos alternativos e modos colaborativos. Isso não seria apenas uma condição 57 | e
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“Tenho dificuldade em falar de uma forma propriamente latino-americana. Falaria, antes, de formas sempre emergentes, entendendo a emergência não como uma categoria geracional nem como sinônimo de novidade, mas como algo cuja especificidade resulta de determinadas condições, corpos, materiais e necessidades que se encontram de uma maneira específica.” Assim, uma das particularidades do teatro latino-americano seria a capacidade de inventar outras maneiras de fazer cena e de olhar para o mundo.
O equatoriano Juan Andrade Polo concorda ao observar modos de produção menos institucionais e com poucos recursos, que se tornaram “fontes de estilo” e propostas que “potencializaram outras ferramentas de atuação, de desenho cênico, mais adequadas às realidades de países em ‘vias de desenvolvimento’”. Para além de certa institucionalidade e estruturas como festivais, mercados, plataformas e editais de financiamento para criações e residências, que têm possibilitado um intercâmbio e um fluxo de ideias e práticas, ele destaca circuitos informais e autogeridos, que contribuem para ampliar técnicas, reflexões e conceitos sobre os processos criativos.
Para Fernando Yamamoto, a organização coletiva que caracteriza o Teatro de Grupo compartilha preceitos éticos e é genuinamente latino-americana, sendo algo que também nos unifica. “Quando estou em outro país e me convidam para ir à sede de um grupo, independentemente de onde seja, eu passo a estar no meu país, que é o país do teatro. É um lugar em que eu reconheço os cheiros, as texturas, a bagunça do cantinho dos cenários, é algo muito familiar”, conta. “Talvez o traço que une o teatro latino-americano seja o desejo de pertencimento, de estar irmanado com esses outros países e grupos”, complementa.
Três artistas populares ensaiam seus números, enquanto esperam pelo reconhecimento internacional no espetáculo Esperando al Coyot (Equador), do diretor e dramaturgo Juan Andrade Polo
Rafael Andrade
de produção, mas resultaria em procedimentos, relações e construções estéticas.
para ver no sesc / teatro
O espetáculo Me-de-as, do Colectivo Mitómana, do Equador, abre a programação do Mirada discutindo maternidade e migração.
FESTIVAL DE ARTES CÊNICAS Palcos, praças e espaços históricos de Santos, Cubatão, Guarujá, Praia Grande e São Vicente pulsam durante a 8ª edição do Mirada
Florencia Luna
Entre 3 a 13 de setembro, será realizada a 8ª edição do Mirada – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas, em Santos e outras cidades da Baixada Santista. Desde 2010, o festival promove o encontro entre artistas, públicos e diferentes modos de fazer teatro, dança e performance produzidos na América Latina e na Península Ibérica. Em 2026, o país homenageado é o Equador. A curadoria foi orientada por vetores como a festa como rito e ato político; as determinantes geográficas; as lógicas interdependentes de trabalho e ócio; as
concepções plurais de tempo; os deslocamentos territoriais e a desconstrução do colonialismo. A programação conta com 41 espetáculos de 15 países, entre os quais sete produções da Mostra Equatoriana. Entre os espetáculos brasileiros, se destacam as estreias Casa do Norte (Grupo Clariô de Teatro), Macbeth (Cia. Extemporânea), Vovó surrealista (Cia. De Feitos) e ...ao mesmo tempo... (Lume Teatro e Clowns de Shakespeare), essa última parte das celebrações dos 80 anos do Sesc. A curadoria foi organizada com pessoas representantes de
Departamentos Regionais do Sesc de sete regiões do país, do Departamento Nacional, além da equipe do Sesc São Paulo, integrada por Fernanda Dorazio, Natália Martins, Rodrigo Eloi, Rose Silveira e Tommy Pietra. De acordo com o Diretor do Sesc São Paulo, Luiz Deoclecio Massaro Galina, “ao ocupar teatros, ruas, praças e espaços alternativos, alguns deles com forte vocação histórica, o Mirada apresenta um panorama da produção cênica contemporânea na Iberoamérica, evidenciando distintas abordagens dramatúrgicas e modos de encenar a experiência humana”. O festival também promove 17 ações formativas, com residências, vivências, oficinas, bate-papos e sessões de autógrafos de livros. Em outubro, a programação expandida circula pelas unidades do Sesc na capital e no interior. Confira a programação em sescsp.org.br/mirada 59 | e
A CONSTRUÇÃO DO DESEJO
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ntes de pronunciar as primeiras palavras, a boca já experimentou o mundo. Sugou, mordeu, chorou, sorriu. Alimentou-se, desejou, recusou, beijou. É por ela que o corpo estabelece seus primeiros vínculos com o outro e é também por ela que, ao longo da vida, aprendemos a expressar afetos, identidades, conflitos e pertencimentos. Não por acaso, aquilo que parece apenas uma parte da anatomia revela-se um dos lugares mais complexos da experiência humana: um território onde biologia e cultura se encontram, onde prazer e linguagem se confundem e onde também se inscrevem normas, interditos e relações de poder.
Ilustração Rafael Sica
Retomando o conceito de bucalidade, o professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) Carlos Botazzo mostra que a boca ultrapassa sua dimensão anatômica para tornar-se um território onde se entrelaçam alimentação, erotismo, linguagem e representação. A partir dessa perspectiva, a boca deixa de ser apenas objeto das ciências da saúde para revelar como os corpos são socialmente produzidos e como o desejo é construído desde os primeiros momentos da vida, quando sucção, fala, alimentação e afeto começam a desenhar o processo de humanização.
Rodrigo Moretti, professor titular do Departamento de Saúde Pública da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), parte dessa reflexão para pensar as diversas camadas do desejo: o desejo que vira mercadoria, o desejo que desperta medo, o desejo que se converte em bandeira política, o desejo de vigiar o desejo alheio e o desejo, mais elementar de todos, de simplesmente existir. Ao analisar a mercantilização da diversidade, o autor retoma à boca e à sua dimensão política: “O sorriso é um ato social e um ato de desejo. Por isso importa perguntar quais sorrisos ganham as telas e quais permanecem escondidos, quais bocas beijam em público e quais beijam com medo”. Neste Em Pauta, Botazzo e Moretti mostram que o desejo não é uma experiência exclusivamente individual. Ele nasce do encontro entre corpos e sociedade, manifesta-se tanto na intimidade quanto no espaço público e se torna objeto de disputa quando determinadas formas de existir são autorizadas, toleradas ou silenciadas. Ao aproximar uma reflexão conceitual sobre a bucalidade e uma análise das tensões em torno da diversidade e dos direitos humanos, os professores convidam leitores e leitoras a olhar para a boca não apenas como um órgão, mas como um território onde se articulam saúde, cultura, afetos e desejos.
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A bucalidade em cena POR CARLOS BOTAZZO
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Pensar a construção social do desejo remete a diferentes materialidades, boa parte delas relativas ao corpo. O que não pode ser considerado estranho, se pensarmos que o corpo — nosso corpo — é o suporte privilegiado para um conjunto incrivelmente amplo de ações sociais. Como diz Adauto Novaes, os sentimentos e as condutas humanas são coisas naturais e, no entanto, não raro é produzida a ilusão imagética “de que nossos desejos não são naturais, sendo estranhos ao nosso corpo e à nossa alma”. Podemos falar em construção, mas igualmente em produção, fabricação ou formação: corpo fabricado, corpo socialmente produzido. Basta lembrarmos a famosa frase de Simone de Beauvoir (19081986): não se nasce mulher, torna-se mulher! Aqui, para mais bem compreender essa ideia de formação, vale utilizar uma pitada de sociologia. Em As regras do método sociológico, um dos pilares clássicos da sociologia funcionalista, Émile Durkheim (1858-1917) apresenta um conceito de pedagogia, aliás ainda hoje bastante utilizado no mundo ocidental. Para ele, as crianças devem ser, desde bem pequenas, submetidas à pressão da sociedade, isto é, aos ritmos, tempos e modos de ser (e fazer) do mundo dos adultos. Explicitamente, ele afirma que as crianças devem ser forçadas a comer, beber, dormir em horas regulares; constrangidas a terem hábitos higiênicos, a serem calmas e obedientes; a aprender a pensar nos demais, a respeitar usos e conveniências. Devemos forçá-las ao trabalho, dirá ele. Esse é o conceito político de educação do autor: um esforço contínuo para impor às crianças maneiras de ver, de sentir e de agir às quais elas não chegariam espontaneamente. Uma pressão que a criança sofre permanentemente, uma pressão completa do meio social, que buscará moldá-la à sua imagem. Assim é concebida a formação de um novo ser social.
Existem outros modos de conduzir a criança no mundo dos adultos, não há dúvida, e muito certamente a pedagogia dos povos originários hoje nos mostra outras possibilidades. No entanto, no âmbito do positivismo repressivo do século 19, esse era o modo de construir sujeitos aptos à produção econômica e à guerra, aquilo que Michel Foucault (1926-1984) acertadamente denominou de produção de corpos dóceis, os corpos necessários ao capitalismo: formados, conformados, deformados. Esse seria o caminho da “super adaptação ao meio”, que Maria Rita Kehl vê como super adaptação às exigências da realidade que, neuroticamente (dirá ela), inibe a curiosidade, a capacidade de investigação e de insubordinação. Este é o caminho aplainado para o fascismo. Bem, não é preciso dizer que bebês são seres não conformados! Ao contrário, são seres dotados de enorme instintividade, são pura biologia! Comem, dormem e choram quando algo não está bem (para eles). E fazem cocô e xixi quando e no momento que desejam fazer: durante o banho, após as mamadas, no momento da troca das fraldas... Vai demorar ainda algum tempo para que tenham outro comportamento, que aprendam a controlar os esfíncteres, por exemplo, e a deixar de babar! Têm o que se poderia chamar de bucalidade em estado puro: levam tudo à boca, como fazem todos os filhotes mammalia. Por enquanto, estamos entre arrotos, regurgitações e balbucios, e arriscamos os primeiros sorrisos. Lenta e inexoravelmente, o caminho da sua hominização está sendo percorrido. Esvaziar-se-á de seio e, todavia, não permanecerá vazia, pois em breve essa boca se encherá de dentes e de palavras, como certa vez apontou Teresa Pinheiro. O desmame e a dentição, a fala, a marcha, o controle dos esfíncteres são como eventos articulados e mais ou menos em sequência, apontando o nítido caminho antes mostrado por Arminda Aberastury (1910--1972): eis a criança se deslocando do solo de sua primeira eroticidade. Aqui está. Se vamos na direção de compreender o nascimento da boca humana, o seu processo de formação é a ideia da sua produção social que se instaura de imediato. É uma ideia de cultura que vem articulada e subjacente a essa produção. Por isso, foi possível dizer ainda
A boca é depositária de um oculto sobre o qual convém pôr-se com alguma discrição
mais: A boca é um território, um lugar, um espaço. São vísceras que delimitam essa existência e estas é que são os órgãos desse lugar. São dentes, músculos, mucosas, glândulas, freios, dutos e espículas, que uma embriologia caprichosa cuida em dispor como convém. Se há uma função é porque tudo isto entra em movimento de modo mais ou menos simultâneo, ou mais ou menos em conjunto. É assim deste modo que a função bucal se expressa por meio dos trabalhos que a boca realiza. A manducação, a erótica, a linguagem. Comer: a função digestiva começa aqui, esta é a parte superior do aparelho digestivo. Manducação: este o nome do movimento que a boca realiza — apreende, tritura, insaliva, deglute. Chupar: ato de sugar alguma coisa. Mammalia, todos vão dizer. É, posso repetir, mamália: a sucção bucal é definidora deste gênero. Víscera com víscera; mucosa com mucosa; saliva com saliva: bocas entrevorazes na manducação do mesmo e do outro. Chupar: sugar, sorver, extrair com a boca o suco de. A gramática nos revela outro tipo de gozo, outro trabalho bucal, outra forma de coordenação entre órgãos, os mesmos que antes. E não poderiam essas funções ser movidas pelo desejo, de sorte que o trabalho do lugar tanto pode gerar prazer quanto ser infértil, o trabalho de sugar sem que lá de dentro saia alguma coisa, a vontade de mastigar sem que haja o quê, as frustrações, as faltas, as carências que então se estabelecem, o desgaste do lugar pelos diferentes trabalhos que realiza, o investimento continuado como condição de possibilidade, condição de existência, propriamente? Não podendo a boca gozar o tempo todo, viria por acaso a adoecer disto?” E, finalmente, o trabalho da representação: o desejo do Outro é sua manducação incompleta, a voracidade da boca extenuando-se pela sucção, obten-
do por este ato apenas parte do corpo do outro, apenas os líquidos que podem sair dele. Primeira autonomia de uma boca que se imagina genitália, o sexo dela mesma. Representar: o desejo há de se dar como linguagem, a vontade e o prazer podem agora ser falados: Perde-se nas brumas do tempo o momento em que a boca humana aprendeu a falar, e não deixa de ser estranho que ela o tenha feito — e ainda o faça — pelas suas vísceras. É assim que a anatomia classifica os órgãos bucais, esses mesmos aos quais a ciência da fala atribui a existência da língua dos homens. Vê-se que esses órgãos — essa boca múltipla, complexa, interseccional — são todos lugares de desejo, lugares socialmente construídos. E se a boca aparece em destaque na face humana, um ícone dela mesma, mesmo com tudo isso ela ainda se mantém em recato. Não gostamos de falar dessas coisas abertamente, nós nos mantemos sempre em recuo, “posto também aparecer, de modo mais ou menos evidente, uma má vontade, um não-à-vontade, melhor dizendo, que se instala entre as pessoas quando se trata dos discursos acerca da cavidade bucal(...).A boca é depositária de um oculto sobre o qual convém pôr-se com alguma discrição.
Carlos Botazzo é professor associado sênior do Departamento de Política, Gestão e Saúde da Faculdade de Saúde Pública, da Universidade de São Paulo (FSP/USP). Tem graduação em Odontologia pela Universidade Estadual Paulista (Unesp); especialização em Saúde Pública (Medicina Santa Casa de São Paulo); Mestrado e Doutorado em Saúde Coletiva, pela Universidade de Campinas (Unicamp); Livre-Docente pela USP em Teoria Social/Ciências Sociais em Saúde. Autor de uma centena de artigos científicos e ensaios, dez livros publicados, entre os quais Salud Bucal Colectiva y Bucalidad. Ensayos (Remédios de la Escalada: De La UNLA, Lanús, Ar, 2025).
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O sorriso das minorias POR RODRIGO MORETTI
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Uma travesti sorri em uma propaganda de banco. Um casal de homens brinda em um comercial de cerveja. Uma mulher negra e lésbica estampa a capa de uma revista de circulação nacional. As imagens se multiplicam a cada junho [quando é celebrado o Mês do Orgulho LGBTQIA+] e provocam uma pergunta incômoda. Esses sorrisos anunciam um avanço enquanto exercício dos direitos humanos ou apenas a descoberta de um novo mercado? E a pergunta importa porque o desejo se apresenta em camadas. Proponho percorrer algumas dessas nuances, o desejo que vira mercadoria, o desejo que desperta medo, o desejo que se converte em bandeira política, o desejo de vigiar o desejo alheio e o desejo, mais elementar de todos, de simplesmente existir. Comecemos pela primeira nuance, o desejo transformado em mercadoria. O chamado pink money revelou às corporações que a diversidade vende. O sorriso que aparece na campanha foi testado, medido e aprovado por departamentos de marketing. Ele costuma pertencer a corpos palatáveis, jovens, magros, brancos ou embranquecidos, ajustados à norma o bastante para vender sem assustar. Marcas globais tingem o logotipo com as cores do arco-íris em São Paulo e o mantêm discretamente cinza em mercados onde a homossexualidade é crime. Há avanço real nessa visibilidade. Uma adolescente lésbica no interior do Piauí que se vê em uma propaganda encontra ali um espelho que gerações inteiras jamais tiveram. A visibilidade, porém, tem data de validade e critérios de seleção. Terminado junho, os logotipos voltam ao cinza. A questão é o preço do espelho. O direito de aparecer, concedido pelo mercado a alguns corpos em algumas datas, vem sendo confundido com o direito de existir, que pertence a todos os corpos em todos os dias.
Convém observar ainda quem fica fora do enquadramento. A vitrine raramente exibe a travesti de cinquenta anos, o homem gay gordo do interior, o corpo com deficiência que também deseja e quer ser desejado. O desejo admitido em cena tem roteiro, figurino e limite de idade. Produz-se assim uma segunda exclusão, silenciosa e sofisticada, dentro da própria política de visibilidade. A segunda nuance é o desejo alheio vivido como ameaça. Setores reacionários transformaram esses sorrisos em obsessão, alimentando ondas de pânico moral que tratam cada aparição pública de pessoas LGBTI+ como propaganda, cada casal de mãos dadas como doutrinação, cada existência visível como perigo à família e à nação. O paradoxo merece registro. O mesmo sorriso funciona como mercadoria para o mercado e como prova de conspiração para o moralismo. Enquanto isso, os relatórios da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) seguem posicionando o Brasil entre os países que mais assassinam pessoas trans no mundo. A indignação que se mobiliza contra uma propaganda permanece em silêncio diante desses números. O pânico é seletivo, e sua seletividade revela o que está em disputa, o controle sobre quem pode viver plenamente. Dessa obsessão nasce a nuance propriamente política. O desejo dissidente ocupa lugar permanente na agenda do conservadorismo autoritário, que dele extrai inimigos, votos e engajamento. O mesmo desejo, contudo, opera como ponto de reunião de quem resiste. Foi do levante de corpos indesejados que nasceram as Paradas, e é em torno do afeto compartilhado que se organizam coletivos, casas de acolhida, redes de cuidado e candidaturas. Perseguido, o desejo se politiza. Cada beijo em praça pública, cada nome social respeitado, cada família formada fora do roteiro converte a intimidade em ato político. As pessoas LGBTI+ aprenderam, à força, que a própria existência está em disputa, e cunharam para isso uma grafia precisa, (r)existir, resistir existindo e existir resistindo. A nuance seguinte é a mais desconfortável, o desejo de vigiar e punir. Michel Foucault (1926-1984), em Vigiar e punir (1987), descreveu sociedades discipli-
[O desejo de existir plenamente] inclui o direito de ser complexo, contraditório e indócil, de envelhecer, de ter dentes imperfeitos, de amar sem servir de propaganda e de viver sem pedir licença.
nares que corrigem os corpos desviantes pela vigilância permanente, e a torre central que tudo vê ganhou, em nosso tempo, versão de bolso. Cabe então a pergunta central. As redes sociais produzem essa vigilância ou fazem tanto sucesso justamente porque o ser humano contemporâneo encontra prazer em vigiar e punir quem destoa dos padrões instituídos? Padrões, convém lembrar, definidos por grupos que sequer abarcam todas as possibilidades de ser no mundo de hoje. As plataformas lucram com a indignação, os algoritmos premiam o linchamento e cada usuário vira fiscal voluntário da vida alheia. A tecnologia ofereceu a ferramenta. O apetite parece anterior a ela. Reconhecer que a vigilância do outro é também uma forma de desejo talvez seja a constatação mais incômoda que as redes nos devolvem sobre nós mesmos. Há ainda a nuance territorial, pois o desejo é negociado com a geografia. O que significa ser LGBTI+ na capital paulista, onde a maior parada do mundo ocupa a Paulista, enquanto travestis seguem sendo assassinadas nas periferias da mesma cidade? O que significa em Florianópolis, ilha que abriga cenas de sociabilidade dissidente e, simultaneamente, elege discursos que as condenam? E nos interiores do país, onde os aplicativos de encontro exibem perfis sem rosto e o desejo se vive no anonimato? Em um lugar o desejo dissidente é nicho de consumo, em outro é segredo, em outro é risco de morte. Nas capitais nordestinas, cenas dissidentes florescem há décadas em convivência tensa com o moralismo local, e nas cidades amazônicas a distân-
cia amplia tanto a liberdade do anonimato quanto o desamparo diante da violência. Trata-se do mesmo país e de regimes distintos de desejar. A boca condensa todas essas camadas. Carlos Botazzo, ao formular o conceito de bucalidade, lembrou que ela ultrapassa os dentes e os procedimentos, pois é órgão de fala, de prazer e de vínculo. O sorriso é um ato social e um ato de desejo. Por isso importa perguntar quais sorrisos ganham as telas e quais permanecem escondidos, quais bocas beijam em público e quais beijam com medo. O desejo encontra na boca seu território mais cotidiano e, por isso mesmo, mais disputado. Resta a nuance fundamental, o desejo de existir plenamente. Ele ultrapassa a prateleira do mercado e o pesadelo do moralista. Inclui o direito de ser complexo, contraditório e indócil, de envelhecer, de ter dentes imperfeitos, de amar sem servir de propaganda e de viver sem pedir licença. Enquanto a vida do outro seguir sendo tratada como assunto público, permanecerá atual a pergunta que este texto deixa ao leitor. O que a sua indignação vigia, e a quem ela serve?
Rodrigo Moretti é professor titular do Departamento de Saúde Pública da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Cirurgião-dentista e sociólogo, dedica-se à saúde coletiva, às ciências sociais em saúde, à pesquisa qualitativa e à educação em saúde, com ênfase nas iniquidades que atingem a população LGBTI+. Coordena o braço sociológico do projeto "TransBucal Brasil", pesquisa multicêntrica nacional sobre a saúde bucal de pessoas transgênero no Sistema Único de Saúde. Desenvolve seu trabalho em articulação permanente com coletivos e movimentos sociais LGBTI+.
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encontros
palco
LIVRE
Defensor de um teatro que ocupa a cidade e desafia espaços convencionais, o diretor Luiz Fernando Marques (Lubi) reflete sobre sua trajetória e seus processos de criação POR DIEGO OLIVARES
Natural de Santos (SP), o diretor teatral e dramaturgo Luiz Fernando Marques, também conhecido como Lubi, construiu sua linguagem artística desafiando convenções. Suas produções são pautadas na ocupação de espaços não convencionais e na fricção contínua entre o espetáculo e a vida pública. Com uma trajetória de mais de duas décadas, é cofundador do Grupo XIX de Teatro (coletivo sediado na histórica Vila Maria Zélia, em São Paulo) e do Teatro Kunyn. Diretor de montagens como Hysteria (2001) e Hygiene (2005), realiza pesquisas que borram as fronteiras entre palco e plateia, transformando arquiteturas
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urbanas e patrimônios históricos em elementos vivos da dramaturgia. Com foco na criação colaborativa, é encenador de mais de quarenta peças e orientador de novos diretores em escolas de formação, e defende que transformar a cena exige, antes de tudo, transformar os modos de produção.
seus processos de criação ao lado de diversos coletivos e discute a urgência de reocupar as cidades com um teatro que saiba escutar o outro e acolher histórias de grupos muitas vezes invisibilizados.
Neste Encontros, Lubi fala sobre a inspiração para o espetáculo Pés-Coração (2026), um dos destaques da programação da oitava edição do Mirada – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas, realizado entre 3 e 13 deste mês, em Santos e em outras cidades da Baixada Santista. Ainda relembra o início de sua carreira, detalha
Saí de Santos para virar um cineasta, fazer faculdade de Audiovisual em São Paulo. Foi naquele ano fatídico em que o Brasil não produziu nenhum filme [início da década de 1990, quando houve o fechamento da Embrafilme]. Resolvi fazer cinema no pior ano possível. Era um deserto muito grande. Comecei
DESPERTAR
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Nilton Fukuda
Cena do espetáculo Hysteria, que estreou em 2001 apresentando muitos dos traços autorais pelos quais Lubi se tornou conhecido.
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certa maneira, você consegue, com muito mais liberdade, dar os seus gritos, dar os seus pulos.
HYSTERIA A peça Hysteria [que marca a estreia do Grupo XIX de Teatro, em 2001] nasce da ideia de uma conversa dessas personagens, que são do século retrasado, com a plateia nos dias de hoje. Para que essa conversa [a partir de personagens femininas diagnosticadas com o que era chamado de histeria no século 19] acontecesse de maneira sincera, a gente tinha poucas pistas de como poderia ser essa interação. Tínhamos contra nós um século de convenção teatral do que é teatro, plateia, palco. O que a gente fez foi tirar tudo isso: a luz, a maquiagem, o som, para que as pessoas se sentissem muito próximas de nós, porque tínhamos um desejo de que essa interação fosse sincera e direta. Começamos fazendo dentro
da Cidade Universitária e, depois, procuramos um espaço do século 19 que pudesse nos abarcar. Fomos parar no prédio da FAU [Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP], um palacete que fica em Higienópolis. Mas optamos por fazer a peça na cozinha, sentindo que era esse espaço das pessoas excluídas do ambiente social. E a gente nunca imaginou que aquilo fosse acontecer como aconteceu. Começamos apresentando para 20 pessoas e, no último dia, havia 320 pessoas para assistir.
ESPAÇO Quando você fala “teatro”, pensa em um espaço. Essa palavra foi capturada, então você fica ali dentro de um “espaço”, e é muito difícil brigar contra isso. O mais triste é que esse espaço dá conta de um momento histórico que tem a ver com a burguesia, e foi profundamente encapsulado
Jonatas Marques
a fazer curso de teatro pensando na direção de atores. Nunca quis ser ator, mas fui parar nesse mundo. Depois da faculdade de Audiovisual, comecei a faculdade de Letras, parei, e fui tentar entrar na Faculdade de Artes Cênicas do CAC [da Universidade de São Paulo (USP)]. Escutando como funcionava a EAD [Escola de Arte Dramática, curso técnico também da USP], pensei que ser assistente de direção de cinco diretores seria mais interessante do que fazer outra graduação. Prestei EAD e brinco que era a pessoa calma entre todas as que estavam ali, porque eu não tinha de fato uma ambição de ser ator. Passei e realmente mudou a minha trajetória. O teatro me conquistou pela questão da autoria. Isso eu já saquei desde a faculdade: na televisão e no cinema, ia ser muito difícil ser autor. E quando falo de autor, não é dramaturgo, é ter a minha autoria. Como o teatro é uma arte fora do mercado, de
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ali. Quando você luta contra ele, está lutando contra um grande sistema. Hoje em dia, tenho olhado para o quanto isso é limitador. Existem frases terríveis como “na minha cidade não tem teatro”, “na minha cidade o teatro pegou fogo”, “está em reforma”. Isso, às vezes, paralisa o movimento. Uma das oportunidades mais ricas da minha vida foi o Palco Giratório [projeto do Sesc para circulação das artes cênicas em território nacional, do qual participou em 2009]. Fizemos 63 cidades justamente porque não precisávamos de um teatro. Muitas pessoas falavam “eu achava que a minha cidade não tinha teatro, mas agora a gente vai continuar fazendo aqui [no espaço público]”. A gente percebeu com o tempo que foi um gesto político muito significativo.
REPRESENTATIVIDADE O Teatro Kunyn nasceu de cinco amigos gays que saíam de baladas juntos, eram artistas de grupos diferentes e falavam: “cara, a gente não se vê em nenhum lugar”. Isso em 2006, 2007. A gente não tinha espaço, porque não tinha edital, não tinha nada. A gente estava nas nossas casas. Fiz a proposta para cada ator: vamos sair do próprio armário de cada um? Do armário de casa mesmo. A gente riu quando teve a ideia, mas, quando foi fazer, ficou profundamente emocionado. A imagem de sair de dentro do armário era muito forte. E começamos a querer fazer uma peça que falasse disso. A primeira obra do nosso grupo chama Dizer e não pedir segredo e era feita na
nossa casa. Estreamos no nosso apartamento e, quando acabava a peça, falávamos: “se alguém gostou, a gente pode fazer no seu apartamento”. E assim fizemos em mais de 20 casas, descobrindo que a peça era também o que aquele anfitrião tinha preparado para aquela noite. As pessoas usavam a peça para dizer algo. Fizemos desde festa de firma até divórcios e encontros entre pais e filhos.
LUTA Quando fizemos uma peça chamada Orgia, a ideia era abordar a vida homoafetiva no espaço público, por isso montamos nos espaços “de pegação”. Foi uma luta enorme para fazer essa peça no Parque Trianon [localizado na Avenida Paulista, em São Paulo]. A primeira vez que uma notícia sobre essa peça saiu no jornal, os comentários na internet foram tão violentos que a matéria consta nos autos do STF (Supremo Tribunal Federal) para a lei contra a homofobia. Esses espetáculos vão gerando “problemas”, vão gerando situações, mas também vão abrindo espaços. Hoje, tem sido um pouco triste perceber o quanto isso [tratar de peças com temática homoafetiva no espaço público] ainda é uma questão. Há um retrocesso sobre esses temas. E aí eu tenho vontade de fazer mais, em vez de me recolher. Estou com vontade de voltar a me radicalizar. Acho que é o momento em que a gente precisa estar de novo na cidade, porque a cidade está nos expulsando. Me interessa estar nessa briga.
LATINIDADE Fazer Pés-Coração (2026) [espetáculo do Coletivo Labirinto apresentado no Mirada – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas, em Santos] foi um processo bem diferente. Eu vinha de experiências com corpos dissidentes, mas o corpo latino traz um nó muito doido: ao mesmo tempo em que ele parece estar fora de nós, ele é a gente. Para nós, brasileiros, a latinidade é atravessada pela questão da língua e por uma particularidade colonial que nos deixa sempre com um pé lá e outro cá. A partir dessa crise de como nos aproximar do tema, a encenação nasceu justamente do movimento: a peça é fragmentada, correndo, em deslocamento constante entre o perto e o longe. Ela é uma estrutura que ganha ar com a história dos lugares e das pessoas. Por isso, apresentar no Mercado Municipal de Santos durante o Festival Mirada é tão forte para mim. Minha família trabalhou ali e é um espaço cheio de memória. Tudo o que aprendi sobre América Latina vem muito do Mirada, dessa oportunidade de reconhecer as mesmas dores e cicatrizes coloniais.
O diretor teatral Luiz Fernando Marques, Lubi, esteve presente na reunião do Conselho Editorial da Revista E, no dia 29 de julho. A mediação do batepapo foi de Tommy Pietra, assistente na Gerência de Ação Cultural do Sesc São Paulo. 69 | e
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FUTEBOL, VIDA E GUERRA POR LUIZ ANTÔNIO SIMAS ILUSTRAÇÕES GABRIEL DIOGO
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Ando meio desiludido com o futebol moderno. A lista do que anda me deixando injuriado é vasta. O menino de quinze anos pertence ao empresário e já é chamado pelo nome e sobrenome, pensando no que será mais adequado ao mercado europeu. O apelido nos campos está morrendo: saem Pelé, Garrincha e Zico e entram Wellington Soares, Jeferson Oliveira e Paulo César Alencar. Os celulares tomaram conta das arquibancadas e virou moda o espectador ficar mais preocupado em postar em tempo real não o desempenho do time, mas o dele mesmo, no estádio. Por falar em estádios, eles viraram arenas multiusos e alguns passaram a ter, inclusive, camarotes com ambientes instagramáveis propícios a networking (escutei essa expressão bizarra recentemente e me senti uma espécie de múmia de 5 mil anos). A venda de camisas do Real Madrid supera as camisas de clubes brasileiros. O comentarista insiste em chamar o passe de assistência, o jogador reserva de 'peça de reposição' e o craque de 'atleta diferenciado'. Os canais esportivos, com raras exceções, apostam na idiotização do espectador e transformam as resenhas em programas de humor repletos de piadas do nível das contadas em filmes norte-americanos sobre adolescentes fazendo bobagens em festas de formatura. Tem mais. As redes de televisão compram os campeonatos e enfiam os jogos em horários quase clandestinos, na calada da noite, incompatíveis com a esmagadora maioria dos trabalhadores que têm, ou tinham, no futebol um raro refresco para abrandar a dureza do dia. As bets patrocinam times e campeonatos e as apostas viraram casos de saúde pública. Os torcedores passam a ser prioritariamente vistos como, conforme escutei dia desses, consumidores do 'produto futebol'. Organizações criminosas se infiltram em algumas torcidas organizadas e o ódio pelo torcedor do outro time é digno de transformar os homens pré-históricos da Serra da Capivara em lordes britânicos de cinema. Bandeiras são proibidas, a torcida única parece ser o destino inevitável e o jogo de futebol como um evento da cultura é esmagado pelo jogo de futebol como um espetáculo da cultura do evento: elitizado, higienizado, domesticado, desencantado, ferido de morte pelos donos do negócio.
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O futebol sempre teve, para mim, outros sentidos. Recorro ao escritor e filósofo franco-argelino Albert Camus, que fora goleiro do Racing de Argel na adolescência. Ele afirmou certa feita que devia ao futebol tudo que sabia sobre moralidade e as obrigações do homem. Para Camus, o sentido da vida, diante do absurdo da existência, não era dado pela mente e seus exercícios lógicos, mas por aquilo que vivenciamos intensamente com nossas entranhas, como o amor pelo futebol. Já o técnico do Liverpool nos anos 1960 e 70, Bill Shankly, foi o autor de uma frase sobre o futebol que gosto de repetir como uma espécie de mantra: O futebol não é uma questão de vida ou morte; é muito mais do que isso. Depois de iniciar esse arrazoado esculhambando o futebol moderno, vou me valer da máxima de Shankly e o diagnóstico de Camus para levar esse texto para o meu campo de atuação: a História. As sentenças do escritor e do técnico são perfeitas para descrever um episódio que ocorreu em 1969, nas eliminatórias para a Copa do Mundo do México, disputada no ano seguinte. Na ocasião, Honduras e El Salvador, países limítrofes que não se bicavam, foram disputar em um confronto direto com jogos de ida e volta uma vaga para o torneio mundial de 1970. No primeiro jogo, em Tegucigalpa, Honduras fez valer o fator campo e ganhou pelo escore mínimo: 1 × 0. No jogo da volta, El Salvador devolveu o resultado com juros e correção monetária e sapecou um 3 × 0 contundente no adversário; o que gerou a necessidade e um jogo decisivo, disputado em campo neutro, na Cidade do México. Após uma peleja não recomendada para pacientes cardíacos, El Salvador venceu por 3 × 2.
Com acusações de ambos os lados, suspeitas sobre a arbitragem, denúncias de suborno, ameaças de suicídios em praça pública e cenas de pugilato no campo e nas arquibancadas, aconteceu o inusitado: o governo de Honduras achou por bem responder à derrota nos gramados expulsando milhares de imigrantes salvadorenhos de seu território. O governo de El Salvador, estimulado pela classificação para o Mundial, respondeu ao siricotico hondurenho na bucha e mandou o exército invadir o território inimigo. Começava, no dia 14 de junho de 1969, a Guerra do Futebol; uma senhora pancadaria capaz de fazer as guerras napoleônicas terem a dramaticidade de um piquenique na Quinta da Boa Vista ou de um passeio de pedalinho em Paquetá. O confronto durou seis dias, vitimou cerca de 5.000 pessoas, fez o trio de arbitragem do jogo final pedir proteção a organismos internacionais, mobilizou a ONU, a OEA e a Cruz Vermelha, gerou milhares de refugiados e só terminou com um cessar-fogo negociado e a criação de uma zona desmilitarizada na fronteira – onde jogos de futebol foram terminantemente proibidos. Não podia ter nem linha de passe, paredão ou altinha. O governo salvadorenho comparou o conflito, por sua dimensão histórica e importância geopolítica, à Guerra dos Cem Anos, entre Inglaterra e França, que mudou as fronteiras da Europa e a história do Ocidente. A pancadaria contra Honduras ficou conhecida, inclusive, como a Guerra das Cem Horas.
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Depois dessa zorra toda, El Salvador foi disputar o torneio no México. A torcida, estimulada pela épica classificação, sonhava, pelo menos, com um terceiro lugar. Os jogadores, saudados como heróis de guerra, receberam condecorações, desfilaram em carro aberto e o escambau. Enquanto isso, em Honduras, rituais pré-colombianos, que incluíam preces diárias ao sol e outras mumunhas, clamavam pela desgraça do selecionado rival na copa. A mandinga hondurenha funcionou. A campanha da seleção salvadorenha no certame foi uma das piores de um selecionado na história das Copas do Mundo: perdeu da Bélgica (3 × 0), do México (4 × 0) e da URSS (2 × 0). Com o pior desempenho do Mundial, sem marcar um mísero gol, o esquadrão centro-americano não passou da primeira fase e voltou mais cedo para a casa. O time de ex-heróis, o futebol é pródigo em produzi-los, foi devidamente recebido por torcedores indignados com uma chuva de hortifrutigranjeiros no aeroporto.
Luiz Antonio Simas é carioca, filho e neto de pernambucanos e alagoanas. Mestre em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), professor de história, educador popular, escritor, poeta e compositor, tem mais de trinta livros publicados sobre culturas de rua do Brasil, como Coisas nossas (José Olympio, 2017), O corpo encantado das ruas (Civilização Brasileira, 2019) e Sonetos de birosca e poemas de terreiro (José Olympio, 2022). Venceu o Prêmio Jabuti de Literatura na categoria Livro do Ano de Não Ficção, em 2016, em parceria com Nei Lopes, pelo Dicionário da história social do samba (Civilização Brasileira, 2015). Também é curador de exposições e compositor, e mantém projetos populares de aulas públicas em ruas, praças, botequins, coretos, quadras de escolas de samba e terreiros.
Gabriel Diogo é um designer que se encontrou na ilustração. Nascido e criado na zona Leste de São Paulo, é formado em Design Gráfico e Digital pelo Istituto Europeo di Design (IED-SP) e vive desde criança fazendo arte. Com diversos trabalhos na publicidade, utiliza suas próprias memórias para desenvolver um estilo pautado na brasilidade. Apaixonado por cores e texturas, utiliza o desenho para se conectar com o seu lado mais fantasioso e introspectivo, tentando influenciar as pessoas por meio da arte.
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ALÉM da dor
Com solo coletivo, atriz Taís Araujo celebra mais de 30 anos de carreira e compartilha reflexões sobre encontrar o protagonismo negro por meio do amor e da insurgência POR AGNES SOFIA GUIMARÃES
Nanna Moraes
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esde a adolescência, Taís Araujo ocupa um lugar de destaque na dramaturgia brasileira. Aos 17 anos, tornou-se a terceira atriz negra da história a protagonizar uma telenovela: Xica da Silva, exibida pela TV Manchete, em 1996. Ao apresentar uma nova e irreverente faceta para a personagem, já conhecida no imaginário brasileiro, alcançou visibilidade internacional.
(1940-2025), em O maior amor do mundo (2006); e Lázaro Ramos, em Medida provisória (2020).
Em 2004, tornou-se a primeira atriz negra a protagonizar uma telenovela contemporânea da Rede Globo, Da cor do pecado. Cinco anos depois, foi a única Helena negra de Manoel Carlos (1933-2026), em Viver a vida. No cinema, trabalhou com diretores como Joel Zito Araújo, em Filhas do vento (2004); Cacá Diegues
Em 2025, depois de celebrar três décadas de carreira interpretando outra protagonista emblemática, Raquel Accioli, no remake de Vale Tudo (Globo), Taís partiu em busca de um novo protagonismo: a escolha de qual tipo de história queria contar sobre pessoas negras. “A dor precisa parar de ser vendida. As pessoas precisam
Para além das telas, Taís, que também é formada em Jornalismo, levou sua voz a outros espaços. Tornou-se uma das principais vozes públicas do país na luta pelo antirracismo, como Defensora dos Direitos das Mulheres Negras pela ONU Mulheres Brasil, posição de porta-voz que ocupa desde 2016.
parar de ter gosto por ver a nossa dor [das pessoas negras]. E acho que o papel principal disso são as escolhas, do que se escolhe contar”. Nessa busca, Taís encontrou Mayah, uma mulher que, às vésperas dos 40 anos, é levada a um doloroso recomeço. No percurso, descobre alegria e força no amor de duas mulheres negras de gerações distintas, uma jovem e uma idosa. A história é contada em Mudando de pele, que ficou em cartaz no Sesc 14 Bis entre 3 de junho e 5 de julho de 2026. Em cena, Taís potencializa o coletivo: divide o palco com as musicistas Dani Nega e Layla, que ajudam a contar as inquietações que atravessam Mayah durante seu processo de cura. A peça é uma adaptação do texto da britânica Amanda Wilkin, dirigida por Yara de Novaes, e estreou no Rio de Janeiro. 75 | e
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Na 37ª edição do Prêmio Shell, a produção lidera as indicações, pelo Júri do Rio, concorrendo em cinco categorias (Atriz, Direção, Figurino, Iluminação e Música). Neste Depoimento, Taís fala sobre a responsabilidade de fazer escolhas quando a curadoria está em suas mãos. Também discute o papel da televisão, do cinema, do teatro e da publicidade na reconstrução da imagem que a população brasileira produz sobre si mesma.
histórias Fui muito provocada por livros e ensaios de autoras negras. Sueli Carneiro, Cida Bento, bell hooks (1952-2021), Audre Lorde (1934-2022), Patricia Hill Collins. Depois, quando assisti ao filme Ficção americana [longa estadunidense dirigido por Cord Jefferson], senti que a dramaturgia estava apontando para um passo diferente. Muitas das histórias que fizeram a gente chegar até aqui já foram contadas
de várias maneiras. Elas foram importantes, mas precisamos ampliar esse olhar. A dor precisa parar de ser vendida. As pessoas precisam parar de ter gosto por assistir à nossa dor. As dores vão continuar existindo, claro. Mas são dores de muitas naturezas. Não podem estar sempre submetidas à ordem da sobrevivência.
escolhas Entrei em uma pesquisa de textos e encontrei uma história [o texto Mudando de pele] que também falava sobre o encontro entre gerações, outro assunto que me interessa muito. Há uma frase do Emicida de que gosto: “tento ler almas para além da pressão”. Como sou uma artista que tem a possibilidade de produzir e, em alguns momentos, de escolher o que quero falar no teatro e no cinema, meu interesse estava nessa reconstrução das narrativas. Não acho que a necessidade de recomeçar pertença exclusivamente às mulheres de 40 ou 50 anos. A
gente sente necessidade de mudar várias vezes durante a vida. Foi isso que me chamou a atenção nessa história. Mesmo sendo uma mulher de quase 50 anos, me enxerguei naquele lugar em diferentes momentos. É um texto que atravessa gerações. Todo mundo tem uma Mildred na vida. Uma pessoa mais velha, seja homem ou mulher, que te direciona, salva.
coletivo A peça começou com o meu desejo de fazer um solo. Então, Yara disse que gostaria de ter música ao vivo e trouxemos as musicistas. A ideia de “solo coletivo” foi a última coisa a aparecer. Quando recebi a identidade visual, estava escrito: “um solo de Taís Araujo”. Aquilo me incomodou profundamente. Eu não achava que era um solo. Tivemos um processo muito horizontal, com a participação de todo mundo. Falei para Yara: “vamos colocar solo coletivo?”. Ela perguntou se isso existia. Eu jurava que tinha inventado. Depois ela pesquisou e descobriu que o termo já existia. A Mayah tem um pouco de todas nós. A personagem foi construída a partir das nossas vivências particulares. Por isso, não consigo imaginar esse espetáculo sem as pessoas que estão comigo. Minha vida é muito trabalhada no coletivo.
Como produtora e protagonista da peça Mudando de Pele, a atriz Taís Araujo propõe reflexões sobre transformações pessoais e a passagem do tempo.
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Eu sou muito inquieta. Quero fazer coisas, descobrir coisas, experimentar algo diferente. O lugar do conforto, quando significa acomodação, não me cabe. Gosto do incômodo. Do que quer mudar. Do que quer melhorar. Isso é o que me move na vida. Por isso, já estive muitas vezes nesse lugar de mudar de pele. Pessoas inquietas como eu talvez passem por isso quase semanalmente.
Nanna Moraes
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feito. A teledramaturgia tem feito. O jornalismo tem agido com mais responsabilidade em relação a essa reconstrução. A imagem que um povo tem de si mesmo também é construída por essas linguagens. Estamos falando do Brasil, o país das novelas. A teledramaturgia é fundamental. O telejornalismo é fundamental. A publicidade também. Cabe a esses espaços participar dessa reconstrução.
comunicar
“O lugar do conforto, quando significa acomodação, não me cabe. Gosto do incômodo. Do que quer mudar”, conta Taís Araujo.
responsabilidade
Nanna Moraes
Quando a curadoria me cabe, existe um desejo de provocar reflexão. A Mayah é um exemplo disso. Também vou fazer o filme da Elza Soares (1930-2022), uma história que pode provocar uma reflexão sobre como este país tratou essa mulher durante tantos anos. Sobre como foi cruel, misógino e racista com ela. Quando posso escolher, minhas decisões são voltadas para uma construção de narrativa mais responsável. Quando a curadoria não me cabe, tento encontrar caminhos. Sendo a pessoa e a mulher que sou, de alguma maneira meu trabalho estará sempre a serviço de uma agenda e de diálogos que me interessam. Não tem como não ser dessa forma.
negritudes O que está acontecendo hoje na teledramaturgia é muito
bonito. Vemos atrizes negras protagonizando novelas, filmes e séries. É uma mudança bastante recente. Foi um processo crescente. Passamos de personagens periféricas, de uma única pessoa negra em uma novela, para várias personagens. Depois, essas personagens começaram a ocupar outros lugares até chegarem ao centro das histórias. Ter mulheres negras como protagonistas das narrativas é algo ainda muito recente. Mas existe uma transformação em curso.
Procuro histórias com um olhar ampliado, mais humano. Personagens com subjetividade e complexidade. E procuro trabalhos que comuniquem. No teatro, principalmente, não me interessa fazer nada hermético. Sei que muitas pessoas vão ao teatro pela primeira vez para me assistir. Algumas não têm o hábito de frequentar esse espaço. Gostam de mim por causa da televisão ou pelas coisas que digo. Não posso perder esse público. Ele precisa se sentir contemplado. Por isso, durante o processo, estou sempre perguntando: “dá para entender?”. Quem trabalha há muito tempo com arte pode entrar em questões herméticas, artísticas ou subliminares demais, que às vezes não chegam às pessoas. Isso não me interessa. Eu quero comunicar. Não quero fazer algo só para mim. Quero que todo mundo tenha acesso.
imagens A construção do olhar da população brasileira sobre a população negra foi trágica durante muito tempo. Esse olhar foi construído pelo jornalismo, pela dramaturgia e pela publicidade. Hoje, vejo esses campos fazendo um trabalho de reconstrução. A publicidade tem
Assista a trechos desse Depoimento com a atriz Taís Araujo, realizado em junho de 2026. 77 | e
ALMANAQUE Oito décadas de memórias Histórias do Sesc São Paulo e de seus visitantes são reveladas em objetos, espaços e eventos POR MARINA PEREIRA
Responsável pela preservação e difusão da memória institucional, o Sesc Memórias, criado em 2006, é um programa que atua na coleta, higienização, organização, preservação e disponibilização da documentação produzida pelo Sesc São Paulo. Também realiza pesquisas, produz conteúdos sobre a história institucional e desenvolve ações nas áreas de história, memória, arquivo e patrimônio. Neste Almanaque, celebramos momentos históricos do Sesc São Paulo, resgatando registros fotográficos de objetos, espaços e eventos.
Esses materiais revelam uma linha do tempo que representa o vínculo criado entre o Sesc e diferentes gerações de públicos presentes
Pedro Mascaro
Fotos históricas: Acervo Sesc Memórias
U
m vasto acervo material, reunido e preservado nas últimas oito décadas, ajuda a contar as histórias do Sesc São Paulo, bem como desvendar memórias e afetos de seus visitantes. São objetos como a Credencial Sesc, que já foi de papel, mudou de tamanho, cor e material, podendo hoje ser acessada na tela do celular. Há também os ingressos das apresentações que passaram por mudanças de layout e suporte, provocando nostalgia a colecionadores e fãs do papel. Cartazes de peças teatrais e exposições revelam a ampliação da programação cultural e as mudanças na linguagem gráfica ao longo das décadas. Equipamentos de saúde e lazer mostram programas e serviços que foram se atualizando.
em suas unidades. Mais do que itens materiais, são vestígios das experiências vividas por uma diversidade de pessoas que frequentaram os espaços desde a sua fundação, em 1946. Ao preservá-los, a instituição conserva não apenas sua própria trajetória, mas parte da história do país.
Unidades: à esquerda, Centro Social do Sesc Bento Pires de Campos, no Belém, de 1948. Acima, Sesc Franca, unidade inaugurada em 2025.
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Ricardo Ferreira
Nilton Fukuda
Alimentação: acima, Restaurante do Comerciário, de 1957. À esquerda, Comedoria do Sesc Pinheiros, a primeira do Sesc São Paulo.
Ingresso: acima, um dos icônicos modelos de ingresso do Sesc, datado do ano 2000. À direita, ingresso utilizado atualmente nas unidades.
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Nilton Fukuda
ALMANAQUE
Ricardo Ferreira
Saúde: à esquerda, maternidade João Daudt D'Oliveira, em atividade de 1957 a 1970, no Jardim Paulista. Acima, atual clínica odontológica do Sesc São Bento, no Centro de São Paulo.
Credencial: à esquerda, cartão de matrícula do Centro Social Bento Pires de Campos, no Belém, de 1956. Acima, Credencial Plena do Sesc, em sua versão digital.
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Nilton Fukuda
Além dos muros: à esquerda, Feira de Lazer em Santo André, em 1975, em uma ação da UNIMOS - Unidades Móveis de Orientação Social. À direita, apresentação teatral no Circuito Sesc de Artes em 2026, em Bragança Paulista.
Rubens Tamashiro
Apresentações culturais: à esquerda, apresentação do Rei do Baião, Luiz Gonzaga (1912-1989), realizada no Teatro Pixinguinha, que integrou a programação do Sesc Consolação entre as décadas de 1970 e 1980. Abaixo, Vanessa da Mata no programa Bem Brasil, em 2026, no Sesc Itaquera.
P.S.
Rumo ao centenário Chegou o momento de comemorar meus 80 anos! Para começar, devo reconhecer que minha existência se justifica pelas pessoas. O que me propus a fazer desde os primórdios tem a ver com o bem-estar coletivo – e isto, devo confessar, é bastante escorregadio. Hoje, no auge da maturidade, me pergunto: continuo sendo necessária? Tenho cumprido meus compromissos e responsabilidades? O que me reserva o futuro? Desde o princípio, meu objetivo central foi o cuidado – sobretudo da gente do comércio e suas famílias, como costumávamos dizer. Nos primeiros momentos, lá nos anos 1940 e 1950, as questões sanitárias e de saúde ocuparam grande parte dos meus esforços. Embora já tivesse a ambição de abarcar outras demandas – alimentação, esporte e lazer – como direitos básicos para uma vida com qualidade. Sim, me orgulho desse meu passado porque, sem ele, dificilmente alçaria voos maiores. E isso se deu quando percebi que já podia ousar em novas frentes. Parti em minha jornada para conhecer mais de perto realidades que ainda me eram distantes. Tal qual heróis ancestrais que carregam seus saberes e incertezas para decifrar o mundo, percorri cada canto desse estado e me apresentei como aliada para a transformação sociocultural e comunitária – era a época das UNIMOS, as Unidades Móveis de Orientação Social. Trago em mim um rosário de histórias e experiências memoráveis, que contribuíram para semear o desejo de construir o que é necessário e urgente para cada realidade. Com o passar do tempo, fui me estruturando a partir de minhas unidades distribuídas por São Paulo, que são hoje a principal maneira das pessoas conhecerem aquilo que posso oferecer. Tem muita gente que vê em mim uma extensão da sua própria casa, e isso tem a ver com a beleza das minhas instalações: teatros, comedorias, piscinas, ginásios, clínicas odontológicas – e o mais importante, as áreas de convivência, onde tudo acontece. Olhando agora em retrospectiva, constato que um propósito mobilizou meus caminhos: cultivar o bom, o belo e o justo. Como são princípios abstratos, eles ganharam a forma das ações, projetos e programas
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que foram se constituindo como uma espécie de personalidade: tem gente que vem até mim para praticar esportes, para comer bem, para se encantar com a arte, para se educar, para fazer uma bela viagem – e sobretudo, para encontrar a diversidade de pessoas que compõe nossa maior riqueza enquanto povo. A experiência da pandemia foi um choque: de repente, me vi sozinha, desabitada, temerosa. Me reinventei, buscando uma versão digital de mim mesma, que segue até hoje relevante. Mas voltar a me sentir plena pelos corações, mentes e corpos de crianças e jovens, pessoas adultas e idosas, foi uma alegria sem fim! Afinal, o que eu tenho a oferecer é a possibilidade de promover encontros entre pessoas – quanto mais plurais e diversas, melhor. A ordem natural das coisas é seguir em frente: a cada ano, me vejo maior, chegando mais perto das pessoas, com novas unidades e com minhas ações em praças e espaços públicos. Mas me permito uma reflexão: na perspectiva humana, costuma-se conceber a vida como uma trajetória linear. Nem todas as tradições, entretanto, compartilham dessa lógica. O pensador e ativista quilombola Antônio Bispo dos Santos, o Nêgo Bispo, evoca a ancestralidade para afirmar outra compreensão do tempo e da existência: tudo tem começo, meio e... começo novamente. Me parece uma filosofia adequada e oportuna. Ao completar oito décadas de existência, vislumbro que tradição e inovação são dimensões complementares. É justamente este diálogo permanente que me impulsiona, permitindo acumular aprendizados para atuar no presente e imaginar futuros. Celebrar 80 anos é reconhecer que a continuidade não se sustenta apenas por aquilo que preservamos, mas também pela coragem de renovar propósitos. Se a vida é assim, sigamos em movimento, inspirados pelo legado que recebemos das gerações anteriores e pela responsabilidade de animar os próximos capítulos, rumo ao centenário!
Sesc São Paulo
SETEMBRO 2026
sescsp.org.br
DISTRIBUIÇÃO GRATUITA VENDA PROIBIDA
Ignacio Aronovich (foto); Lucas Blat (colagem)
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