Literatura Obras brasileiras ganham espaço no exterior
Futebol Cinco formas de celebrar a cultura do esporte
Sustentabilidade O que podemos aprender com a natureza
Teatro Dramaturgia inédita da autora Sílvia Gomez
CAPA: A impressão fotográfica Bori: Oxalá (2008-2011), de Ayrson Heráclito, integra a exposição Delírio tropical - Recanto, em cartaz no Sesc Pinheiros até 13/10. A mostra apresenta um panorama da produção visual brasileira contemporânea, reunindo cerca de 280 obras de aproximadamente 130 artistas de todas as regiões do país. Com curadoria de Orlando Maneschy e curadoria adjunta de Keyla Sobral. Mais informações em: sescsp.org.br/ programacao/delirio-tropical-recanto/ Imagem: Ayrson Heráclito
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*Em estabelecimentos de uso coletivo, é assegurado o acompanhamento de cão-guia. As unidades do Sesc estão preparadas para receber todos os públicos
Ao longo de seus 80 anos de atuação, o Sesc – Serviço Social do Comércio participa das transformações de uma sociedade em permanente movimento. A criação da entidade em 1946, por iniciativa do empresariado do setor do comércio de bens, serviços e turismo, respondeu às demandas de um período marcado por intensa urbanização do país, e que se intensificou particularmente nas últimas quatro décadas. O Brasil passou por profundas mudanças sociais, culturais e econômicas, consolidandose como uma nação majoritariamente urbana e profundamente marcada pela diversificação de ofertas no campo produtivo. Os empresários mantenedores do Sesc sempre tiveram papel protagonista nos avanços do país, constatado no peso preponderante do setor para o PIB – Produto Interno Bruto brasileiro.
Em meio a esse cenário dinâmico, o empresariado reafirma constantemente seu compromisso essencial em promover o bem-estar dos trabalhadores do setor, de seus familiares e da coletividade. Neste momento de encerramento de um ciclo longo e prolífico e de passagem de bastão para as novas lideranças empresariais, celebro o legado dessas últimas quatro décadas à frente dessa entidade e renovo a crença de que é possível construir uma nação mais igualitária, equilibrada e com oportunidades para toda a população, acompanhando as transformações do tempo presente para seguir proporcionando melhorias efetivas na vida das pessoas.
Abram Szajman Presidente do Conselho Regional do Sesc no Estado de São Paulo
Escrevivências
Podemos pensar que a literatura é uma arte capaz de transpor, para o campo simbólico, os traços da nossa existência como indivíduos e como integrantes de uma sociedade. Pelas letras, elaboramos representações de nós mesmos. Por meio das histórias, ficcionalizamos a nossa experiência de vida, o que nos possibilita assimilar, compreender, reviver e transformar. É por isso que a literatura pode ser entendida como um espelho por meio do qual nos observamos, reconhecemos, admiramos e nos estranhamos. Construímos, desse modo, a nossa identidade narrada, registrada e compartilhada. Celebramos nossa presença em tempo e em território, marcamos nossa passagem, processamos nossas dores, superamos nossos desafios na jornada humana. Aqueles que somos pelos filtros criativos da arte literária.
Diversa, altiva e plural, a literatura brasileira se constituiu e se consolidou pelo país, apresentando, com sua vasta produção, a sua riqueza cultural. Faz de sua singularidade a força que alcança leitores para além das nossas fronteiras, atraindo o interesse cada vez maior de populações de outros países. Reportagem desta edição da Revista E aborda a presença crescente de livros e de autores do Brasil no exterior, com novas traduções de obras clássicas e de produções contemporâneas. Uma mostra do interesse despertado para nossa natureza única enquanto comunidade e, para além disso, um sinal da nossa capacidade de promover vínculos e de tornar universal o nosso mundo tão incomparável e particular, fazendo menos individual e mais comunitária essa travessia do viver. Boa leitura!
Luiz Deoclecio Massaro Galina Diretor Regional do Sesc São Paulo
SERVIÇO SOCIAL DO COMÉRCIO – SESC
Administração Regional no Estado de São Paulo Av. Álvaro Ramos, 991 –Belenzinho
CONSELHO REGIONAL DO SESC EM SÃO PAULO
Presidente: Abram Abe Szajman
Diretor do Departamento Regional: Luiz Deoclecio Massaro Galina
Efetivos: Arnaldo Odlevati Junior, Célio Simões Cerri, Dan Guinsburg, Jair Francisco Mafra, José de Sousa Lima, José Maria de Faria, José Roberto Pena, Manuel Henrique Farias Ramos, Marcus Alves de Mello, Michelle Reis Moreira, Milton Zamora, Paulo Cesar Garcia Lopes, Paulo João de Oliveira Alonso, Paulo Roberto Gullo, Rafik Hussein Saab, Reinaldo Pedro Correa, Rosana Aparecida da Silva, Valterli Martinez.
Suplentes: Aguinaldo Rodrigues da Silva, Antonio Carlos Lima, Antonio Cozzi Junior, Antonio Di Girolamo, Antônio Fojo Costa, Antonio Geraldo Giannini, Cláudio Barnabé Cajado, Costabile Matarazzo Junior, Edison Severo Maltoni, Omar Abdul Assaf, Sérgio Vanderlei da Silva, Vitor Fernandes, William Pedro Luz.
REPRESENTANTES JUNTO AO CONSELHO NACIONAL
Efetivos: Abram Abe Szajman, Ivo Dall’Acqua Junior, Rubens Torres Medrano
Adriana Martins Dias, Amanda Martins Jacob, Ana Carolina Rodrigues, Andrea de Oliveira Rodrigues, Antonio Carlos F Barbosa, Bruna Gavioli Ramos, Bryan Alan Belati Pinheiro, Camila Oliveira Silva, Caroline Figueira Zeferino, Cibele Camachi, Cinthya de Rezende Martins, Cristina Berti Ribeiro, Deborah Dias Matos, Diego Polezel Zebele, Diogo de Moraes Silva, Elmo Sellitti Rangel, Fabia Lopez Uccelli dos Santos, Fabiane Emilio dos Santos, Felipe Silva Pasqua, Fernanda Porta Nova Ferreira da Silva, Flavia Dziersk de Lima Silva, Flavio Aquistapace Martins, Francisca Meyre Martins Vitorino, Gabriela Camargo das Graças, Gabriela Grande Amorim, Giovanna Alves Facci, Giovanna Cordeiro Nunes, Giulia Maria de Campos Manocchi, Gleiceane Conceicao Nascimento, Henrique Vizeu Winkaler, Isadora Vasconcelos de Oliveira Silva, Ivy Beritelli Jose de Souza, Ivy Granata Delalibera, Janete Bergonci, Juliana Neves dos Santos, Karen Leal da Silva, Laise Ferreira Guedes, Laudo Bonifacio Junior, Leandro Aparecido Pereira, Leonardo Thomaz Pereira da Silva, Leticia Yamashita Weigand, Livia Lima da Silva, Luana Brito Lima, Marcelo Baradel, Marcos Afonso Schiavon Falsier, Marcos Villas Boas, Milena Ostan da Luz, Monica Calmon Braga Mendonça, Monique Mendonça dos Santos, Natalia de Souza Freitas, Patricia Helena de Sousa, Renan Cantuario Pereira, Renata Barros Da Silva, Ricardo Lemos Antunes Ribeiro, Roseane Silveira De Souza, Sandra Ribeiro Alves, Sara Maria da Silva, Sawil Danrley Ramos Cordeiro, Stephany Tiveron Guerra, Talita Ferreira dos Santos, Tarianne da Silva Pinto Bertoza, Tulio Magno de S. P. Costa, Valeria Mantovani de Andrade Alves, Vinicius Silva de Azevedo, Vivianne de Castro, Wellington Luiz Siqueira.
Coordenação-Geral: Ricardo Gentil
Coordenação-Executiva: Ligia Moreli e Silvio Basilio
Editora-Executiva: Adriana Reis Paulics • Edição de Arte e Diagramação: Lucas Blat • Edição de Textos: Adriana Reis Paulics, Diego Olivares, Marcel Verrumo e Rachel Sciré • Revisão de Textos: Pedro P. Silva • Edição de Fotografia: Nilton Fukuda • Repórteres: Alexandre Raith, Claudio Eduardo, Diego Olivares, Luna D'Alama, Marcel Verrumo, Maria Júlia Lledó, Rachel Sciré e Vanessa D’Amaro • Coordenação Editorial Revista E: Adriana Reis Paulics, Marina Pereira, Marcel Verrumo e Rachel Sciré • Propaganda: Edmar Júnior, Jefferson Santanielo, Julia Parpulov e Vitor Penteado • Apoio Administrativo: Juliana Neves dos Santos e Talita Ferreira dos Santos • Arte de Anúncios: Alexandre Calderero, Estúdio Permitido, Geysa Bernardes, Leandro Vicente, Luiz Felipe Santiago e Wendell de Lima Vieira • Supervisão Gráfica: Rogerio Ianelli • Criação Digital Revista E: Cleber Paes e Rodrigo Losano • Circulação e Distribuição: Vanessa Zago
Jornalista responsável: Adriana Reis Paulics (MTB 37.488). A Revista E é uma publicação do Sesc São Paulo, sob coordenação da Superintendência de Comunicação Social
Distribuição gratuita. Nenhuma pessoa está autorizada a vender anúncios. Esta publicação está disponível para retirada gratuita nas unidades do Sesc São Paulo e também em versão digital, em sescsp.org.br/revistae e no aplicativo Sesc SP para tablets e celulares (Android e IOS). Fale conosco: revistae@sescsp.org.br
No mês do Dia
Mundial do Refugiado, Sesc São Paulo intensifica sua programação sobre o tema
Dramaturgo e diretor Ivam Cabral relembra a criação da Cia. Os Satyros e aborda o impacto da consolidação da SP Escola Superior de Teatro
Autores brasileiros se destacam na cena internacional, com traduções de obras clássicas e contemporâneas e participação em feiras e premiações
Em cartaz no Sesc Pinheiros, exposição
O traço inconfundível e a capacidade de falar com todas as idades marcaram a carreira do escritor e cartunista Ziraldo
Delírio tropical –Recanto apresenta produções visuais que povoam o imaginário nacional
As lições que podemos aprender com a natureza e a importância da preservação ambiental
dossiê entrevista literatura bio gráfica
Nilton Fukuda (Entrevista); Instituto Ziraldo (Bio); Eustáquio Neves (Gráfica)
Pesquisadoras
Fernanda Bruno e Paula Sibilia refletem sobre performance e anonimato na era do algoritmo
Especialista em novas tecnologias, o professor Diogo Cortiz coloca a inteligência artificial no centro do debate
Celso Tavares, da TV Cultura, comenta retomada do programa Bem Brasil, parceria entre a emissora e o Sesc
Espaços paulistanos e curiosidades para saber mais sobre a história do futebol
Sílvia Gomez (dramaturgia) e Adriana Komura (ilustração)
em pauta encontros inéditos
Marco Antonio Rosa Junior
AUTORAS E AUTORES CONTEMPORÂNEOS
PERCORREM UNIDADES DO SESC
SÃO PAULO, COMPARTILHANDO
OBRAS E PROCESSOS CRIATIVOS
EM
CLUBES DE LEITURA E BATE-PAPOS
Uma ação que aproxima públicos da produção literária brasileira e transforma a leitura em experiência compartilhada
SAIBA MAIS SOBRE O PROJETO EM SESCSP.ORG.BR/ LEITURASCIRCULANTES
apoio realização
JULIÁN FUKS
11/6 Sesc Sorocaba
17/6 Sesc Franca
18/6 Sesc Ribeirão Preto
SERGIO VAZ
16/6 Sesc Catanduva
20/6 Sesc Itaquera
1/7 Sesc Santo Amaro
De 27 de março a 3 de maio, o Teatro Anchieta, no Sesc Consolação, foi palco do espetáculo Gota D’Água – no tempo, da Cia. Coisas Nossas de Teatro. A partir do texto clássico de Chico Buarque e Paulo Pontes (1940-1976), a peça trouxe a tragédia grega Medeia, de Eurípedes, para o contexto de uma comunidade periférica do Rio de Janeiro. A direção geral foi assinada por Georgette Fadel, que também atuou, com codireção de Cristiano Tomiossi.
Orlando Maneschy
Curador
Keyla Sobral
Curadora Adjunt a
Visit ação até 12 de outubro de 2026
Espaço Expositivo 2º andar
terças a sábados, das 10h30 às 21h domingos e feriados, das 10h30 às 18h
Sesc Pinheiros Rua Paes Leme, 195 Faria Lima Pinheiros
/sescpinheiros sescsp org.br/ pinheiros
Realização
Parceria institucional
Refúgio em discussão
Sesc São Paulo realiza atividades dedicadas a reflexões sobre refúgio em suas unidades, com programação em diferentes formatos
No mês em que é celebrado o Dia Mundial do Refugiado (20/6), o Sesc São Paulo intensifica sua programação sobre refúgio, tema abordado de forma permanente em suas unidades durante o ano. As iniciativas assumem relevância em um contexto geopolítico marcado por deslocamentos forçados em múltiplas áreas de conflito.
A partir do dia 2/6, tem início no Sesc Campo Limpo uma nova edição do projeto Refúgios Humanos, voltado a educadores da rede pública da cidade de São Paulo, que reúne pessoas em situação de refúgio e migração em uma grande troca de experiências. Realizada desde 2016 em parceria com a Secretaria Municipal de Educação e o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), a programação
completa dez anos, com encontros que já reuniram mais de 5.360 professores. Em agosto, a ação educativa é realizada nas unidades Belenzinho, Itaquera e Santana.
O SescTV também exibe produções sobre o tema. Entre os destaques está a estreia da série documental Travessia (Inês Figueiró e Eliane Caffé, 2022). Em seis episódios, a produção aborda a questão do refúgio no Brasil pela ótica de três mulheres da República Democrática do Congo, do Haiti e da Palestina. Os episódios serão exibidos às quintas, a partir de 11/6, às 19h30, em sesc.tv.
As ações continuam no dia 26/6, no Cinesesc. Às 19h, haverá uma apresentação de artistas afegãos, seguida da exibição do documentário Diáspora afegã (ACNUR, 2026). Para contar a história de uma nova onda de pessoas refugiadas do
Afeganistão para o Brasil, o filme mostra cenas e depoimentos de antes da partida e os desafios na construção de uma nova vida em território brasileiro. Após a exibição, haverá uma mesa de debate com os realizadores, representantes do Ministério da Justiça e Segurança Pública e da ACNUR. Ao final, será distribuída a publicação Refúgios humanos, acolhimento e integração de estudantes refugiados (2026), que apresenta o projeto desenvolvido pelo Sesc São Paulo e ACNUR, em parceria com a Prefeitura de São Paulo.
Essas iniciativas fortalecem a atuação do Trabalho Social com Pessoas Refugiadas, realizado desde 1995 pelo Sesc em suas unidades da capital, interior e litoral do estado. “São atividades que constroem espaços de expressão e protagonismo a pessoas refugiadas e migrantes, nas quais esses cidadãos assumem o papel de produtores das próprias narrativas, ao compartilhar suas culturas, histórias e memórias”, afirma Flávia Carvalho, gerente da Gerência de Estudos e Programas Sociais do Sesc São Paulo.
Com seis episódios, série documental Travessia (Inês Figueiró e Eliane Caffé, 2022) estreia no SescTV.
Junho reflete cuidado
Entre os dias 10 e 26/6, o Sesc promove ações de cuidado e proteção à pessoa idosa, dialogando com o Dia Mundial de Conscientização da Violência Contra a Pessoa Idosa (15/6) e o Dia Mundial de Prevenção de Quedas (24/6). A programação reúne apresentações artísticas, oficinas e encontros que debatem temas como a importância de se combater o isolamento social desses indivíduos, incentivando o convívio em sociedade e a prática de atividade física, além de abordar a violência que essas pessoas sofrem dos cuidadores e cuidadoras, trazendo à tona a precariedade do sistema de assistência a essa população. As atividades acontecem nas unidades Campinas, Casa Verde, Consolação, Interlagos, Ribeirão Preto e Rio Preto. Mais informações em: sescsp.org.br/pessoaidosa
HISTÓRIAS REVISITADAS
O seminário Igreja, comunidade e patrimônio: histórias do Rosário da Penha de França, realizado no Centro de Pesquisa e Formação (CPF), apresenta estudos sobre a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos da Penha de França, na zona Leste de São Paulo. A partir das memórias do local, aborda sua história, transformações e relações com a
DOSSIÊ
LIVROS NO PACAEMBU
O Sesc São Paulo participa da 5ª edição d'A Feira do Livro, realizada até 7/6, na Praça Charles Miller, na zona Oeste, e que reúne autores, editores, livreiros e leitores em programações gratuitas. Neste ano, o festival destaca a literatura latino-americana, thrillers e biografias, com mais de 250 convidados, entre os quais, Silviano Santiago, Fernando Morais e Pilar Quintana (Colômbia). Além de títulos das Edições Sesc, o estande do Sesc
oferecerá oficinas de personalização de materiais impressos, como xilografia e encadernação manual. Os livros Educação midiática na prática, de Januária Cristina Alves, e Outros Navios: fotografias de Eustáquio Neves, organizado por Eder Chiodetto, estão entre os lançamentos da editora que integram a programação oficial do evento. Saiba mais em: quatrocincoum.com.br/ evento/a-feira-do-livro-2026.
O Sesc marca presença mais uma vez n'A Feira do Livro, que tem programação gratuita na capital
tradição negra e indígena no bairro. A programação, com duas mesas, ocorre no dia 25/6, das 10h30 às 16h30. Na primeira, das 11h às 13h, as palestrantes Antonia Aparecida Quintão e Vanessa Neri Rodrigues falam sobre “Patrimônio afro-brasileiro e espaço de sociabilidade e devoção: a Igreja do Rosário dos Homens Pretos da Penha de França”, com mediação
de Patrícia Freire de Almeida. A segunda, das 14h30 às 16h30, é intitulada “Territórios Negros: resistências, pertencimento e disputas de narrativas na cidade”, com participação de Mestre Silvio Antonio e Claudia Adão, e mediação de Julio César Marcelino. O seminário é gratuito, com inscrições abertas desde 27/5 em: sescsp.org.br/cpf
Matheus José Maria
paulista.
Atividades do Sesc possibilitam aprender sobre futebol e torcer.
NO CLIMA DA COPA
Neste mês, entram em campo programações relacionadas ao torneio mundial de futebol. No Sesc Avenida Paulista, uma quadra virtual para partidas no formato 3x3 vai unir esporte e tecnologia para uma experiência imersiva, com desenhos e construção do videomapping idealizados pelo
Tradições juninas
artista visual catarinense VJ Vigas (Leandro Mendes). A ativação será às terças e sextas, de 30/6 a 17/7, das 10h às 21h; e às quintas, sábados e domingos, de 4 a 19/7, das 10h às 18h30. Já no Sesc Santo Amaro, acontece a 3ª edição do Torneio Liga Elas de Futsal Feminino às quartas e
Espetáculos de música, dança e circo valorizam as tradições populares em apresentações gratuitas em diversas unidades. O Sesc 24 de Maio apresenta Te esperando na janela, programação musical repleta de ritmos como o forró, o xote, o baião, o arrasta-pé e o xaxado. A unidade de Santo Amaro oferece Forrozera, seleção musical com grupos de forró comandados por mulheres. Folguedo de Julieta e Romeu, um espetáculo que se transforma em quadrilha, passa
sextas, de 10/6 a 10/7, das 20h às 21h30. No Sesc Consolação, o bate-papo “Diversidade em Campo”, com o ex-jogador Emerson Ferretti, abordará os desafios da inclusão no futebol, no dia 20/6, das 13h às 14h30. Confira outras programações em: sescsp.org.br/sescnacopa
pelas unidades 24 de Maio, Consolação e Santo Amaro. No Campo Limpo, os espetáculos Yandê Transpará: Brincando na Roça e Quadrilha Amor Brega Paixão sem Juízo celebram o mês festivo. Ainda na atmosfera celebrativa, o Sesc 24 de maio e o Sesc Santo Amaro apresentam Forró Bocó: o Arraiá dos Paiaços e Arraiá das Sampalhaças, respectivamente. Confira informações sobre essas e outras atividades em: sescsp.org.br/atividadesjuninas
FAÇA SUA CREDENCIAL PLENA
A Credencial Plena do Sesc é um benefício gratuito para pessoas com registro em carteira, que são estagiárias, temporárias, se aposentaram ou estão desempregadas há até dois anos em empresas do comércio de bens, serviços e turismo e seus dependentes familiares. Com a Credencial Plena você tem acesso prioritário e descontos na programação e serviços pagos do Sesc.
Qual é a validade da Credencial Plena?
A Credencial Plena tem validade de até 2 anos - para desempregados, a validade é de 24 meses contados a partir da data de rescisão do contrato de trabalho.
Como fazer a Credencial Plena?
On-line pelo aplicativo
Credencial Sesc SP ou pelo site centralrelacionamento.sescsp.org.br
Se preferir, nesses mesmos canais, é possível agendar horários para realização desses serviços presencialmente, nas Centrais de Atendimento das unidades.
Quem pode ser dependente na Credencial Plena?
• Cônjuge ou companheiro de união estável de qualquer gênero
• Filho, enteado, irmão, neto, tutelado e pessoa sob guarda com até 24 anos
• Pai, mãe, padrasto e madrasta
• Avôs e avós
Relacionamento com Empresas
É o programa que facilita o acesso ao credenciamento dos funcionários das empresas parceiras dos ramos do comércio de bens, serviços e turismo. Nessa parceria, além do credenciamento, os aproximamos de nossa vasta programação e serviços. Saiba mais em sescsp.org.br/empresas
Acesse o portal para saber sobre a Credencial Plena do Sesc
Ricardo Ferreira
O Relacionamento com Empresas aproxima o Sesc das pessoas que trabalham no comércio de bens, serviços e turismo, facilitando o acesso à Credencial Plena para elas e seus dependentes.
O programa também leva experiências gratuitas às empresas e apresenta na prática tudo o que o Sesc oferece, reafirmando seu compromisso com o bem-estar e a qualidade de vida de quem faz a empresa acontecer.
Saiba mais em sescsp.org.br/empresa
Teatro em formação
Fundador da companhia Os Satyros e diretor da SP Escola Superior de Teatro, Ivam Cabral cria novos enredos para vidas e espaços a partir da arte
POR ALEXANDRE RAITH
FOTOS NILTON FUKUDA
Ahistória do ator, dramaturgo e diretor de teatro Ivam Cabral começa longe dos palcos, no interior do Paraná. Filho de um pedreiro e de uma costureira, ele cresceu cercado por uma educação afetiva. Sem televisão, a mãe reunia os seis filhos todas as noites para ler autores como Machado de Assis (1839-1908), José de Alencar (1829-1877) e Cecília Meirelles (1901-1964), formando ali a base de uma sensibilidade artística.
A infância em contato direto com a natureza também deixou marcas. Um olhar que ele mesmo diz que poderia tê-lo levado à biologia. No entanto, o início da vida adulta seguiu outra direção. Estudou Administração e trabalhou na Bolsa de Valores, no Paraná, em um percurso que prometia estabilidade e ascensão. Mas, na busca pela expressão, decidiu romper com o previsível e apostar no teatro, universo que experimentou ainda pequeno, na igreja da cidade.
Já em São Paulo, no fim dos anos 1980, o encontro com o colega de profissão Rodolfo Garcia Vásquez foi decisivo. Unidos por inquietações e referências filosóficas,
especialmente o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), os dois compartilhavam o desejo de romper com o teatro dominante da época, segundo ele, centrado na figura do diretor. Queriam algo mais “dionisíaco”. Dessa afinidade, nasceu, em 1989, a Cia. de Teatro Os Satyros, com a qual viajou para participar de festivais em dezenas de países.
A experiência internacional contribuiu para o nascimento da ideia de fincar os pés em outras terras. A dupla acreditava que, naquele momento, o Brasil oferecia poucas condições para a pesquisa teatral e a experimentação. O grupo encontrou no exterior o espaço para se desenvolver e aprender. A trajetória itinerante consolidou uma identidade artística marcada pela provocação e pela busca constante por novas formas de expressão.
De volta ao Brasil, decidiram se instalar na Praça Roosevelt, região central de São Paulo que, à época, era conhecida pela degradação e abandono. As peças do Satyros trouxeram o público de volta ao local, o que ajudou na ressignificação do espaço urbano. Junto ao poder público e a chegada de outras companhias de teatro, o grupo ajudou a tornar a praça um dos polos culturais da cidade.
Cabral idealizou junto a autoridades e pensadores da arte e da educação o modelo pedagógico da SP Escola de Teatro, da qual é diretor-executivo. Com a proposta de inovar o ensino das artes cênicas, o programa da escola é não hierárquico, não cumulativo e modular. Inaugurada em 2010, a instituição recebeu neste ano o aval do Ministério da Educação para se tornar faculdade. A agora SP Escola Superior de Teatro, uma instituição da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo sob gestão da Associação dos Artistas Amigos da Praça (Adaap), oferece gratuitamente oito cursos técnicos e mais de 20 de extensão cultural nas áreas de atuação, sonoplastia, cenografia, figurino, iluminação, entre outras.
Nesta Entrevista, Ivam Cabral relembra vivências da infância e o que motivou a criação de uma das companhias teatrais mais premiadas do país, e explica o modelo pedagógico da SP Escola Superior de Teatro. Também mostra como a arte e a educação podem impactar tanto a vida das pessoas como o espaço urbano.
Como sua infância em Ribeirão Claro (PR) influenciou a sua sensibilidade artística e como o teatro entrou na sua vida? Sou filho de um pedreiro, que não sabia ler nem escrever, e de uma costureira, que fez até a quarta série. Sou o quinto de seis filhos. Era um ambiente muito pobre. A gente comia o que colhia, o que plantava. Tínhamos uma relação muito forte com a natureza. Brinco que, se pudesse voltar no tempo, talvez fosse para a biologia. Era uma educação bastante humanista. A minha mãe adorava ler e na minha casa não tinha TV. Tinha leituras toda noite, antes de dormir. Lemos muito Machado de Assis, José de Alencar, José Mauro de Vasconcelos (1920-1984), Cecília Meirelles. Minha mãe foi nos educando para ocupar um lugar no mundo. Eles diziam ‘educação ninguém tira de vocês, então a gente vai ter que investir nisso. Todos têm que ir para universidade’. Cresci sabendo que sairia da minha cidade, que é muito pequenina, tem 10 mil habitantes hoje. Antes do teatro, fui fazer Administração de empresas. Aos 20 anos, cheguei a operar na Bolsa de Valores do Paraná.
No último ano do curso, dei um basta e fui para o teatro. Mas fazia uma ponte com a minha infância, quando tinham essas leituras e morava a 100 metros da igreja, de onde saíam encenações que sempre comemoravam alguma coisa. As leituras em casa e essa ligação com a igreja me despertaram o desejo de fazer teatro e viver de teatro.
Como foi o processo de criação da Cia. de Teatro Os Satyros em 1989, junto com Rodolfo Garcia Vásquez?
Terminei o curso de Teatro em 1988 e já no dia 13 de fevereiro de 1989 estava em São Paulo para tentar uma vida aqui. Imaginava que ia ser muito difícil ter um grupo, atuar como ator. Então, fui para a pós-graduação da ECA [Escola de Comunicações e Artes, da Universidade de São Paulo] tentar mestrado, fazer doutorado, enfim, dar aula. Meu sonho era ter um grupo que fosse fundamental para a história do teatro brasileiro, que entrasse na história. Conheci o Rodolfo na ECA, ele fazia mestrado em Sociologia. Ele procurava um ator para uma peça que ia dirigir, e a gente se conheceu assim. O que nos ligou era que estávamos lendo A origem da tragédia, de Nietzsche, e pensando no dionisíaco no teatro. Tinha que ter a embriaguez, o vinho, a deformação. Foi querendo criar um movimento que a gente decidiu fazer Os Satyros.
Por que vocês decidiram se mudar para a Europa após a criação da Cia.? Buscava um exílio voluntário. Era um Brasil que não tinha Ministério da Cultura. Não existia um teatro de pesquisa. Existiam os teatrões, os grandes astros da televisão que montavam suas peças e saíam viajando pelo Brasil, nesses teatros de cortinas vermelhas de veludo. Na história do teatro paulistano, a maioria dos grupos surge exatamente quando a gente surge, no começo dos anos 1990, como o Vertigem, Folias d'Arte, Latão. Começamos a receber convites de festivais e teatros do mundo. Fazíamos duas peças nesse período, Sades ou noites com os professores imorais e Saló, Salomé Esses dois espetáculos abriram portas para o mundo. Os Satyros é bem andarilho, atuou em talvez 39 países.
Em mais de 30 anos de atividade, como a estética e a linguagem teatral d'Os Satyros se transformaram? Foi se sofisticando. Naquele início, em 1989, tentando buscar esse elemento dionisíaco, houve algo até infantil de imaginar que essa embriaguez viria só com corpos nus. Não é exatamente isso. Fui fazer mestrado, doutorado e estou fazendo pós-doc. Nesse âmbito de tentar trocar, de tentar somar com outras culturas, com outras possibilidades.
Quais trabalhos você considera como a grande virada do grupo e da sua visão das artes cênicas? Esses dois espetáculos que citei [Sades ou noites com os professores imorais e Saló, Salomé]. O dionisíaco em cena vinha com nudez, com atrevimento, com vontade de denunciar, de falar sobre o tempo em que a gente estava vivendo, recém-saído da ditadura. De profundis é um espetáculo que está na nossa chegada à Praça Roosevelt, no começo dos anos 2000. Depois, teve Hipóteses para o
amor e a verdade, quando introduzimos tecnologia na nossa pesquisa, em 2009. Roberto Zucco, de 2010, também é um grande sucesso. Pessoas perfeitas, de 2014, ganhou todos os prêmios naquele ano. E tem o momento que trabalhamos na pandemia, com o mundo inteirinho em modo virtual.
Como foi instalar Os Satyros na Praça Roosevelt?
A gente fez tudo que você possa imaginar. Foi bem difícil, teve que brigar com muita gente. Mas a gente sabia o que queria com esse projeto. Não chegou aqui desavisado. Chegou sabendo que era uma das regiões mais violentas da cidade de São Paulo e chegou com a incumbência de modificar isso. Sabia que o teatro poderia fazer isso. Me lembro que a gente fez um plano de negócios para Os Satyros em 2000, já com a certeza de que em 2005 mudaria tudo. No final de 2001, já tínhamos mudado tudo. Tinha público, uma história acontecendo aqui. As Satyrianas [maratona cultural com apresentações gratuitas de teatro, dança, circo, performance, cinema e literatura], que
entrevista
existem na praça desde 2001, também são um organismo importante. É o momento em que a gente traz todo mundo para a Praça Roosevelt, desde um ator famoso até um grupo da zona Leste que está começando uma história. E é importante dizer que não há o heroísmo do Satyros como protagonista. Surgiu um movimento Praça Roosevelt. Vários outros grupos se aproximaram desse trabalho.
Como você vê o papel da formação em teatro frente às novas tecnologias e plataformas digitais?
A gente está pensando bastante nisso. Em 2009, quando o celular chegou às plateias do teatro e nós, artistas, começamos a ficar muito nervosos com isso, decidimos liberar o uso do celular nas nossas peças. Até hoje, para
quem quiser atender o celular, não há problema algum. Me sinto desrespeitado, sim, mas tenho que começar a conviver. Em 2009, no espetáculo Hipóteses para o amor e a verdade, a gente conversava com o público por meio desses torpedos no celular e criou uma dramaturgia com isso. Incorporou a tecnologia à cena.
Como surgiu a ideia de criar a SP Escola de Teatro e quais foram os principais desafios até ela se tornar realidade em 2010?
A história é curiosa. Se pudesse elencar os responsáveis por terem feito todas as pontes e conexões, diria Gilberto Dimenstein (1956-2020) e Contardo Calligaris (1948-2021). Gilberto escreveu um livro chamado O mistério das bolas de gude, em que contava experiências
de transformação artística em cidades em que ele havia morado e a experiência dos Satyros na Praça Roosevelt é um desses exemplos - e foi na mesma praça o local do lançamento do livro. A gente fazia um trabalho voluntário no Jardim Pantanal, chegamos a ter uma sede lá. E esses meninos e meninas começaram a trabalhar no Satyros, desde bilheteria, limpeza, operação de som, de luz. No dia do lançamento do livro do Gilberto Dimenstein, a gente trabalhou com esses meninos e essas meninas do Jardim Pantanal. E o [José] Serra [prefeito da cidade de São Paulo à época] ficou curioso em saber quem éramos. Ele era amigo do Gilberto Dimenstein e do Contardo e propôs a criação da SP Escola de Teatro. Foi um processo muito lento, com cinco anos de estruturação. A gente criou uma escola progressista, que nasce da periferia, nessa ideia do Jardim Pantanal. É surpreendente que tenha construído esse espaço de muita liberdade para poder falar sobre as coisas do contemporâneo. Por meio do contemporâneo, a gente busca a tradição, não o contrário.
O que caracteriza o ensino da escola e qual é a diferença em relação a outras instituições? Em meados de 2000, ainda havia grade, disciplina, delegacia de ensino, inspetora. Isso tudo te lembra alguma coisa? É uma educação estruturada essencialmente a partir de uma estrutura militar. Quando criamos a
escola, optamos por trabalhar com outra nomenclatura. Disciplina viraria componente, grade viraria matriz. Sou freiriano, não acho que vou lhe ensinar nada se não estiver em uma corrente de aprender com você. Nosso modelo pedagógico não trabalha com a ideia de acumulação. Um semestre tem começo, meio e fim. São completamente independentes um do outro, e cada módulo vai mostrar alguma linguagem do teatro. Não é hierárquico, além de não ser acumulativo. Somos 200 estudantes por turno, e são oito linhas de estudo.
E quais os ganhos para o projeto com sua transformação para SP Escola Superior de Teatro? Importante voltarmos ao tema da internacionalização desses projetos. A primeira universidade com que a gente fez contato é a de Estocolmo, a Uniarts, a escola que formou Greta Garbo (1905-1990). A gente prestou consultoria e eles implantaram um modelo inspirado em muito do que fazemos na SP. Depois, fizemos contato com instituições da Islândia, Finlândia, Alemanha e África do Sul. São parceiros criativos. Junto com o Brasil, esses quatro países vão criar um programa de mestrado com duração de dois anos. Os estudantes de cada um dos países passarão até seis meses em cada um deles. Já fizemos 340 intercâmbios. Nossa escola é uma torre de babel. Tudo isso fez com que a gente chegasse ao curso superior com
Me lembro que a gente fez um plano de negócios para o Satyros em 2000, quando teria certeza de que em 2005 mudaria tudo. No final de 2001, tudo já tinha mudado. Tinha público, uma história acontecendo aqui.
vantagem, com facilidade, porque foi tentando entender os territórios onde podíamos nos abrigar e os modelos que nos inspiravam. É impossível hoje não tentar buscar uma identidade sua, seja singular ou política, em um mundo que está em transformação. A história precisa ser revista. Se você não ressignificar isso, nada vai acontecer.
A escola é administrada pela Associação dos Artistas Amigos da Praça (Adaap). Como essa atuação associativa contribui para a formação cultural na cidade de São Paulo?
Acho muito importante, porque não sei se São Paulo precisava de mais uma escola de teatro, mas acho que o Brasil precisa da SP Escola Superior de Teatro, por várias razões. A gente continua sendo os únicos a ter formação em cenário, figurino, iluminação, sonoplastia, técnicas de palco, dramaturgia. Imagina um país que não tem cursos de dramaturgia, com um crescimento absurdo dos streamings? É óbvio que a gente vai impactando mercados de trabalho.
Quais são os seus planos e as perspectivas para a SP Escola Superior de Teatro?
Gostaria muito que começássemos brevemente a trabalhar com mestrado e doutorado. São campos do conhecimento que precisam ser estudados, desenhados, reestruturados. É a segunda escola que a gente cria.
A gente criou a MT Escola de Teatro, no Mato Grosso, a partir de consultoria. Estruturou lá uma escola que existe desde 2017. A gente não acha que a educação deva ser negociada, mas tem vontade de fazer isso em outros estados. 80% dos nossos estudantes saem empregados.
É bonito ver que existe um mercado que absorve esses profissionais. O Brasil é um país de mais de 210 milhões de pessoas. Tem uma imensidão de potencial e de possibilidades que têm que ser trabalhada.
O que você diria para as novas gerações de alunos da escola?
A gente sempre imagina o pior para nós. Me lembro quando eu tinha 20 anos, jamais imaginaria que poderia encontrar um lugar, um espaço no teatro. Achava que eu fosse viver até os 40, parece que não vai dar tempo. E de repente dá tempo. E de repente você pode e consegue fazer e transformar os teus sonhos em coisas reais. E isso também vai mediando a questão da dificuldade. Tenho falado para muitos estudantes: “vai ser tão interessante conversar com você daqui a 10 anos, daqui a 20 anos”.
Sei que metade de toda a angústia que esse estudante está vivendo eu também vivi. Também achava que não tinha saída. Mas acho que a arte se reinventa sempre, ela nos coloca em contato, principalmente, com as dificuldades. Por isso, tem que vencer essas etapas, e não queimá-las. É muito importante vencer isso.
Assista a trechos da Entrevista com o dramaturgo e diretor Ivam Cabral, realizada na SP Escola Superior de Teatro, em março de 2026.
A coletânea reúne artigos que conectam temas como desinformação, pós-verdade, fake news, discurso de ódio, inteligência artificial e futuro. O fio condutor é sempre o mesmo: a necessidade de formar os leitores do mundo.
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literatura
escrita sem
Títulos traduzidos em diversos países do mundo mostram a pluralidade de estilos dos autores nacionais.
FRONTEIRAS
Obras literárias brasileiras ampliam sua circulação e reconhecimento fora do país, com editoras e premiações estrangeiras de olho em diversidade
POR DIEGO OLIVARES
Em fevereiro, quando o nome da escritora brasileira Ana Paula Maia apareceu entre os treze semifinalistas ao Booker Prize internacional, categoria dedicada aos livros originalmente escritos em língua não inglesa da tradicional premiação britânica, muita gente se surpreendeu. Até ela mesma.
“Minha editora no Reino Unido inscreveu o livro para tentar a indicação, mas eu nem sabia. Simplesmente acordei um dia com a notícia de que era semifinalista”, conta. No final de março, Ana Paula e seu romance Assim na terra como embaixo da terra (Record, 2017) ainda avançaram para a final, junto com outros cinco títulos de diferentes países.
Apesar da surpresa de parte do público leitor – e da própria autora –, nomeações de obras brasileiras ao Booker Prize têm sido recorrentes na história recente. Em 2022, Paulo Scott foi semifinalista com Marrom e amarelo (Companhia das Letras 2019), e em 2024 foi a vez de Torto arado (Todavia, 2019) de Itamar Vieira Junior chegar até a final. O retrospecto comprova um aumento do interesse do mercado literário internacional nos nossos escritores.
“Desde a década passada houve uma diversificação da nossa literatura de uma maneira geral. Quanto mais você diversifica e amplifica o número de vozes que está publicando, mais chances você tem de se ramificar para entrar nas editoras estrangeiras”, explica Fernando Rinaldi, coordenador de direitos autorais da Companhia das Letras e um dos responsáveis pelo
licenciamento de obras da editora para o exterior. “Os livros que publicamos aqui são algo que as editoras estrangeiras gostariam de publicar também. São assuntos universais, mas tratados de uma forma local”.
A pluralidade de estilos e gêneros literários é um traço forte da literatura brasileira contemporânea, como comprovam as obras que vêm ganhando projeção para além do território nacional. Assim na terra como embaixo da terra, lançado originalmente no Brasil em 2017 e publicado no Reino Unido em 2025, quando foi eleito um dos melhores do ano pelo jornal The Guardian, é uma distopia com traços de faroeste e terror que se passa numa colônia penal isolada, na qual os detentos estão sujeitos à violência de um diretor sádico. Enquanto as relações de poder e a exploração de sujeitos menos favorecidos são temas clássicos da literatura mundial, o fato de a colônia ter sido construída sobre um antigo terreno que foi cenário de tortura de escravizados dialoga com traumas históricos brasileiros.
Ana Paula Maia concorreu ao prêmio Booker Prize deste ano com distopia violenta que se passa numa colônia penal.
Pablo Contreras
Em mais de 20 anos de sua carreira como autora, Ana Paula já teve obras publicadas em 15 países, em oito línguas: inglês, espanhol, alemão, francês, italiano, holandês, sérvio e turco. Desde a indicação ao Booker, esses números vêm aumentando. “A literatura tem um poder de alcance que atravessa o tempo e o espaço. Da mesma forma que um autor russo do século 19 me toca, espero que o Assim na terra como embaixo da terra chegue em outros leitores daqui a 100 anos e eles possam reconhecer um recorte do mundo em que vivemos”, reflete.
Para Jeferson Tenório, autor de O avesso da pele (Companhia das Letras, 2020), vencedor do Prêmio Jabuti e que já circula em 15 países, há um interesse estrangeiro em aprofundar o conhecimento sobre o Brasil. “Os leitores querem descobrir um país que saia do estereótipo de futebol, samba e violência”, relata. “Estamos vivendo um momento de valorização de autores negros, autores índigenas, autores que a gente não estava acostumado a ver no cânone. Talvez seja uma tentativa de recontar ao mundo a nossa história e as origens da nossa sociedade”, completa.
Conforme as fronteiras alcançadas por livros brasileiros se ampliam, cada vez mais autores vivem a sensação de exportar as palavras que colocam nas páginas. É o caso da paulistana Aline Bei, que começa a engatar uma carreira internacional, fora do Brasil e Portugal, onde já havia circulado suas obras.
Aline Bei e a edição italiana de seu romance mais recente, Uma delicada coleção de ausências Nilton
Uma delicada coleção de ausências (Companhia das Letras, 2025), seu livro mais recente, acaba de ser publicado na Itália, e já teve os direitos vendidos para ganhar versões em inglês e francês. “Os italianos estão conhecendo meu trabalho, enquanto no Brasil muitas leitoras já têm uma visão mais geral do meu projeto literário, que é de dedicar muita atenção não só ao assunto, mas à forma”, compara.
Enquanto dá os primeiros passos como autora internacional, ela procura equilibrar a responsabilidade de levar algo da nossa cultura para o exterior com o desprendimento necessário para a criação literária livre. “Em certo sentido, a gente se sente muito mais brasileiro quando é lido fora. É uma forma de reafirmar nossa nacionalidade, nossa cultura, nosso repertório”, reconhece.
CONQUISTAR TERRITÓRIOS
Aline passou boa parte do mês de maio viajando pela Itália, divulgando seu livro em cidades como Padova, Milão e Roma, além da Feira Internacional do Livro de Turim, um dos principais eventos literários da Europa. A presença em feiras como essa é uma estratégia importante não apenas para autores, mas também para editores, agentes e figuras que orbitam o ambiente das letras.
Em 2008, a Câmara Brasileira do Livro (CBL), a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) e o Ministério das Relações Exteriores criaram o Brazilian Publishers. O projeto tem como objetivo promover a internacionalização da produção editorial brasileira, apoiando editoras
Carlos
Macedo
Com o O avesso da pele, Jeferson Tenório apresenta ao público internacional aspectos profundos da sociedade brasileira.
nacionais na venda de livros e na negociação de direitos autorais para publicação no exterior.
“O Brazilian Publishers oferece treinamentos, estudos de mercado e orientação sobre práticas internacionais de negociação, ajudando os editores brasileiros a entenderem melhor as demandas externas, precificar direitos e estruturar contratos”, ressalta Sevani Matos, presidente da CBL. A profissional comemora os resultados robustos, colhidos nos últimos anos: “Em 2025, por exemplo, editoras participantes do Brazilian Publishers movimentaram mais de 24 milhões de dólares em negócios internacionais ao longo do ano, evidenciando o avanço da internacionalização do setor”, destaca. “Um dado ainda mais revelador é que, apenas no primeiro semestre de 2025, essas editoras já haviam gerado cerca de 14,3 milhões de dólares em negócios, valor que supera todo o resultado de 2024”. O desafio é fazer com que esse movimento siga numa trajetória crescente.
Em 2013, o Brasil chegou a ser pela segunda vez o país homenageado na Feira de Frankfurt, na Alemanha – a primeira havia sido em 1994. Na ocasião, uma delegação oficial de 70 autores participou do evento, considerado o maior do mundo literário, numa escalação que incluía nomes então em ascensão, como Andrea Del Fuego, Daniel Galera e Silviano Santiago, ao lado de veteranos como Adélia Prado, Ziraldo (1932-2024), Ruy Castro, Ignácio de Loyola Brandão e João Ubaldo Ribeiro (1941-2014).
“Em 2013 estavam postas mais algumas demandas e alguns incômodos dessa ausência da literatura nacional no exterior. Mas agora estamos caminhando”, relembra Rinaldi, da Companhia das Letras. “O que vemos hoje é resultado de uma mudança cultural a partir dos anos 2010, com um olhar mais atento para pautas sociais, ambientais, feministas e LGBT+”, afirma.
ESTAMOS VIVENDO UM MOMENTO DE VALORIZAÇÃO DE AUTORES NEGROS, AUTORES INDÍGENAS, AUTORES QUE A GENTE NÃO ESTAVA ACOSTUMADO
A VER NO CÂNONE. TALVEZ SEJA UMA TENTATIVA DE RECONTAR AO MUNDO A NOSSA HISTÓRIA
Jeferson Tenório, escritor
literatura
Nos últimos anos, a Companhia das Letras adotou como prática no mercado internacional a aproximação com editoras de médio e pequeno porte que, com menos títulos em seu catálogo, podem dar atenção especial a cada lançamento. Foi o que aconteceu com o romance A palavra que resta (2021), de Stênio Gardel, publicado nos Estados Unidos pelo selo independente New Vessel Press, e premiado em 2023 como melhor livro traduzido no prestigioso National Book Awards.
“Pensar em outros países, em países asiáticos, escandinavos, enfim, tem também a ver com esse movimento de um olhar diferente para a maneira como a gente faz o trabalho. Não pensar só nos grandes autores e grandes casas editoriais em países que estão no centro do mundo”, diz o coordenador.
NA PONTA DA LÍNGUA
Além do editor, há outra figura fundamental e quase invisível no processo de internacionalização dos livros: o tradutor. Para fomentar essa função essencial, a Biblioteca Nacional conta com um programa de apoio à tradução, que oferece bolsas periódicas para editoras estrangeiras publicarem autores brasileiros.
“Traduzir um livro é fazê-lo nascer em outra língua”, define Jeferson Tenório. “O tradutor acaba sendo um coautor. Ele precisa entender o espírito daquele livro e levar isso para o seu idioma, de forma que o leitor tenha a sensação de estar diante da obra original”, completa.
Fernando Rinaldi, da Companhia das Letras, com alguns dos livros da editora que ganharam versão internacional nos últimos anos.
Nilton Fukuda
Dilemas linguísticos se tornaram corriqueiros para a australiana Alison Entrekin, que passou mais de uma década vertendo para o inglês as 560 páginas de Grande Sertão: Veredas (1956), de Guimarães Rosa (1908-1967). A obra, que em 2026 completa 70 anos desde sua publicação original, ganha agora uma nova edição internacional em comemoração à efeméride.
“Meu trabalho foi entender o original, e pensar como ele construiu determinada frase ou palavra, para então fazer todo um caminho de reconstrução no inglês”, conta Alison, que diz que, no caso dos neologismos, teve de olhar qual é a técnica usada pelo autor. “[Observo se o vocábulo] Veio da junção dessa palavra com aquela palavra. Aí eu vou traduzir essas duas palavras, cortar e tentar juntar partes dessas palavras para ver se crio alguma coisa que tem vida e que transmite as mesmas coisas”, exemplifica.
A australiana tem no currículo a adaptação de textos de escritores emblemáticos da nossa literatura, como Clarice Lispector (1920-1977) e Chico Buarque. Nos últimos anos, ela viu a demanda crescer. Trabalhou nas traduções de Ainda estou aqui (Companhia das Letras, 2015), escrito por Marcelo Rubens Paiva, Tudo é rio (Record, 2021), de Carla Madeira, e A árvore mais sozinha do mundo (Todavia, 2024), de Mariana Salomão Carrara, entre outros.
Alison caracteriza nossa literatura como representante do estilo “experimental”. “A literatura normalmente publicada nos Estados Unidos é muito mais comportada”, analisa. “Então às vezes eu percebo um estranhamento dos editores de lá em relação à linguagem, à pontuação, quando leem o livro completo traduzido. Aí eu explico que o autor ou autora propositadamente quebra algumas regras, e é sempre uma discussão muito interessante”.
AMOR À PRIMEIRA LINHA
Quem ocupa o posto informal de embaixadora da literatura brasileira em solo estrangeiro é a estadunidense Courtney Henning Novak, criadora de conteúdo para a internet. Há dois anos, um vídeo em que ela cobre de elogios a obra de Machado de Assis (1839-1908) Memórias póstumas de Brás Cubas
(1881) viralizou nas redes sociais. “Virou um dos meus livros favoritos”, conta. “Fiquei vidrada com o ritmo, o humor e a maneira como ele brinca com a linguagem. Dá para notar que se trata de um gênio escrevendo um tipo de literatura que só ele poderia escrever”. Com a repercussão do vídeo, Courtney passou a receber recomendações do público brasileiro, incentivando-a a ler outras obras de Machado. Ela então passou para Quincas Borba (1891) e Dom Casmurro (1899) (“Capitu não traiu, aliás”, salienta, entre risos, opinando sobre o famoso mistério do texto) e seguiu fascinada.
Durante sua empreitada de ler um livro de cada país do mundo, que a levou a Memórias póstumas, começou um projeto paralelo, dedicado apenas a autores brasileiros. Ali, ela mescla a leitura de clássicos
Ao conhecer a obra de Machado de Assis, a criadora de conteúdo Courtney Henning Novak, dos Estados Unidos, se apaixonou pela literatura brasileira.
de Clarice Lispector e Jorge Amado (1912-2001) com escritores contemporâneos. Entre aqueles que mais gostou, cita Torto arado, Os supridores (Todavia, 2020), de José Falero, e Suíte Tóquio (Todavia, 2020), de Giovana Madalosso, que também entrou na lista do The New York Times dos 100 melhores livros lançados nos Estados Unidos em 2025. “Acho a literatura brasileira efervescente. O fato de não estar totalmente presa a uma tradição europeia dá liberdade para não se limitar a formatos antigos”, enaltece.
O amor à primeira vista que Courtney sentiu assim que colocou os olhos em Memórias póstumas teve a tradutora Flora Thomson-DeVeaux como uma espécie de cupido. Sua versão em inglês do romance, lançada em 2020 pela Penguin Classics, esgotou a primeira tiragem no site da Amazon no dia em que chegou ao mercado. Após dois meses, a edição já estava no quinto lote.
A tradução de Flora é a quarta para o inglês e foi feita inicialmente para sua tese de doutorado na Universidade Brown, uma das principais dos Estados Unidos. O foco em contextualizar detalhes da sociedade brasileira satirizada por Machado foi seu diferencial. “Eu queria mergulhar naquilo que o leitor anglófono do século 21 não sabe, para explicar por que Machado é tão genial”, explica.
Ver novos leitores se apaixonando pelo texto do célebre carioca tem um gosto de reparação histórica. “Se a Courtney aparece indignada naquele vídeo, se perguntando como não conhecia Machado antes, é porque ele não chegou à corrente sanguínea da literatura anglófona quando deveria ter chegado”, afirma Flora. E complementa: “É muito importante a gente tirar o atraso, mas é muito importante também a gente apoiar a tradução e a circulação das obras atuais para que a literatura brasileira possa dialogar com seus pares em tempo real”.
A LITERATURA TEM UM PODER DE ALCANCE
Ana Paula Maia, escritora
para ver no sesc / literatura
Bibliotecas do Sesc estão em 22 unidades e seis caminhões itinerantes, com quase 160 mil títulos no acervo.
LIVROS NOSSOS
Bibliotecas do Sesc oferecem acesso gratuito a obras de autores brasileiros que têm ganhado projeção no exterior
Entre os 160 mil títulos que atualmente compõem o acervo das bibliotecas fixas presentes em 22 unidades do Sesc na capital, interior e litoral paulista, é possível encontrar diversas obras que estão sendo destaque no mercado internacional. Assim na terra como embaixo da terra, de Ana Paula Maia, Torto arado, de Itamar Vieira
Junior, e Marrom e amarelo, de Paulo Scott, todos indicados ao Booker Prize internacional, fazem parte do catálogo, que também tem livros como O avesso da pele, de Jeferson Tenório, Suíte Tóquio, de Giovana Madalosso, Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo, Tudo é rio, de Carla Madeira, O peso do pássaro morto, de Aline Bei, e A palavra que resta, de Stênio Gardel, vencedor do National Book Award.
Há ainda romances de autores que atravessam gerações no Brasil e no mundo já há algum tempo: Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, A hora da estrela, de Clarice Lispector, Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus, e O homem que falava javanês, de Lima Barreto, são algumas das opções. Crianças e jovens também encontram nas estantes histórias que cruzaram fronteiras, como
João por um fio, escrito por Roger Mello, sucesso nos Estados Unidos, Europa, China e América Latina.
Entre os meses de janeiro e março deste ano, as bibliotecas do Sesc e os seis caminhões itinerantes do Bibliosesc realizaram um total de 65 mil empréstimos. Os espaços têm como premissas a democratização do acesso e o estímulo à leitura. Para pegar um livro, é necessário apresentar a Credencial Plena ou fazer um cadastro simples em uma das unidades, levando documento oficial com foto e comprovante de residência. É possível ficar com até cinco livros simultaneamente, e o período de empréstimo é de 15 dias, com direito a três renovações, desde que o título não esteja reservado por outro usuário.
O acervo pode ser consultado no site: sesc.i10bibliotecas.com.br
O MENINO de Caratinga
Cartunista, escritor, jornalista e artista gráfico, Ziraldo marcou gerações de leitores brasileiros com senso de humor afiado e generosidade com seus pares
POR VANESSA D’AMARO
Poucas cidades brasileiras foram tão amadas por um artista quanto Caratinga, no interior de Minas Gerais. A terra natal do cartunista, jornalista e escritor Ziraldo (1932–2024) foi, ao longo de sua vida, uma fonte inesgotável de inspiração. “Caratinga foi a minha maior fantasia”, disse no documentário Ziraldo – Era uma vez um menino (2022), dirigido pela filha, a cineasta Fabrizia Pinto. Esbanjando carisma, o menino Ziraldo perambulava pelo centro durante as décadas de 1930 e 1940, fazendo amigos, inventando brincadeiras e observando o mundo com curiosidade. Amava tanto aquele lugar que guardou uma memória cartográfica. “Sou capaz de desenhar as casas da rua principal de Caratinga uma por uma, de um lado e do outro, e dizer quem morava nelas”, declarou em entrevista ao Museu da Pessoa.
O próprio nome nasceu bem-humorado, tal qual um traço de sua personalidade: Ziraldo é a junção de Zizinha, a mãe costureira, e Geraldo, o pai guarda-livros. A invenção, inclusive, dá pistas da capacidade imaginativa da família Alves Pinto. Ziraldo aprendeu a ler cedo com a mãe, que transformava o desenho das letras do alfabeto em brincadeira — método que ele próprio usaria anos mais tarde com os filhos Daniela, Fabrizia e Antonio. Começou a desenhar aos 6 anos e não demorou para se apaixonar
pelos quadrinhos, sempre ansioso pelos exemplares que chegavam à banca local. Lia títulos como O Gibi, O Globo Juvenil, Mirim, Tico-Tico e O Lobinho. Na literatura infantil, acumulava exemplares de Monteiro Lobato, Viriato Correia, Ofélia e Narbal Fontes. “Os quadrinhos eram a minha janela para o mundo”, afirmou. Aos 12 anos, descobriu a caricatura e passou a brincar com o exagero dos retratos, incentivado pelo pai. Aos 16, em 1948, tinha certeza de que queria ser cartunista e trabalhar em um jornal. Mudou-se para o Rio de Janeiro para estudar e conseguiu estágio em publicidade.
Retornou a Caratinga em 1952 para servir ao Exército. E, na sequência, se mudou para Belo Horizonte, onde estudou Direito na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Na época, já desenhava para algumas publicações – e seu traço único capturava o olhar de futuros colegas e amigos. “Eu e Ziraldo tínhamos 9 anos de diferença. Quando era criança, eu adorava os quadrinhos da revista Sesinho”, lembra o escritor Pedro Bandeira. “Quando contei isso para o Ziraldo, ele me contou que começou desenhando para essa revista. Sou fã dele há 75 anos!”.
Em 1958, já casado com Vilma Gontijo Alves Pinto (1934–2000), partiu novamente para o Rio de Janeiro. “Meu avô deu para o meu pai um cartão postal de Copacabana nos anos 1940. E ele era tão determinado
que decidiu alugar um apartamento em um dos prédios que viu nesse cartão postal”, conta Daniela Thomas, a filha mais velha, sobre a infância na praça do Lido.
BRASIL NOS QUADRINHOS
Ziraldo entrou definitivamente no mundo editorial no fim dos anos 1950. Publicou charges, tiras e cartuns no Jornal do Brasil e em O Cruzeiro Internacional. Em 1960, realizou o sonho de se tornar autor de quadrinhos com a revista Pererê. O Saci, o indígena Tininim, a onça Galileu, o jabuti Moacir, o tatu Pedro Vieira, o coelho Geraldinho e o macaco Alan — muitos deles batizados com nomes de amigos de Caratinga — formavam um universo profundamente brasileiro. Ali estava a preocupação com o meio ambiente e o folclore nacional, tratados com humor e inteligência.
Foi nesse período que recebeu a visita de Mauricio de Sousa, interessado em publicar suas próprias histórias. A generosidade de Ziraldo se tornou um impulso para o cartunista lançar futuramente a Turma da Mônica. “O Ziraldo tinha uma ousadia, uma confiança no humor brasileiro e uma visão muito autoral que encorajaram o meu pai”, conta Marina Sousa, filha de Mauricio e diretora executiva da Mauricio de Sousa Produções. A conversa foi tão boa que Ziraldo convidou Mauricio para desenhar algumas tiras do Pererê. “Houve ali admiração mútua e, principalmente, a sensação de que era possível fazer quadrinhos brasileiros com identidade, com alma”, fala
Marina. Os dois permaneceram grandes amigos a vida inteira, colaborando inclusive juntos em algumas ocasiões, como foi o caso dos livros O maior anão do mundo (2011) e O reizinho e o castelo perdido (2013). “Na arte, ambos tinham traços muito próprios, mas compartilhavam uma coisa essencial: o desenho como extensão da personalidade. O humor também vinha desse lugar afetuoso, que faz rir e pensar ao mesmo tempo. Eles acreditavam que contar histórias era uma forma de formar cidadãos mais curiosos, mais criativos, mais humanos”, reflete Marina.
O golpe militar de 1964 interrompeu a experiência do Pererê. Em 1969, após o AI-5, Ziraldo se uniu a Jaguar, Tarso de Castro, Sérgio Cabral e Luiz Carlos Maciel para fundar O Pasquim. O jornal se tornou espaço de resistência e humor em meio à censura. “O Pasquim era um veículo em que as pessoas conseguiam se expressar. Então, esta foi uma época muito intensa porque vivíamos sob um medo constante”, lembra Fabrizia. Muitos dos grandes personagens de Ziraldo ficaram populares nesse período, como The Supermãe, Jeremias o Bom e Os Zeróis. “Acho que o traço do meu pai é eternamente contemporâneo. O desenho dele nunca ficou datado”, afirma Fabrizia.
Entre 1968 e 1970, o cartunista foi preso três vezes. “Eu e Daniela temos algumas lembranças dessas passagens, de ficarmos sem ele em casa, sem saber se ele ia voltar ou não”, comenta Fabrizia. “Em uma das prisões, meu pai ficou um mês numa solitária, o que para mim foi das coisas mais violentas porque ele sempre esteve rodeado de gente,
Com Pererê, sua primeira revista em quadrinhos, Ziraldo (na foto, com a publicação nas mãos) homenageia e valoriza figuras do folclore brasileiro.
Instituto Ziraldo
nossa casa vivia sempre cheia”, recorda Daniela. “Nós fomos visitá-lo em todas as prisões. Para nós, ele sempre amenizou a situação. Dizia que ficava lá jogando cartas, que era superdivertido. Hoje, lendo os antigos diários e cartas dele, entendemos as angústias que ele sentiu”, reflete Daniela. A irmã, Fabrizia, vem reunindo esses textos em um livro que deve ser publicado pela família ainda em 2026.
Felizmente, Ziraldo retornou à casa todas as vezes –diferente do que aconteceu com Rubens Paiva, cuja família é retratada no filme Ainda estou aqui (2024), do qual Daniela foi produtora executiva. “Na última prisão, em 1970, ficamos bastante tempo sem saber onde meu pai estava. Mas o Sérgio Macaco [Sérgio Ribeiro Miranda de Carvalho, capitão paraquedista da aeronáutica] veio nos procurar e contou que todos eles [a equipe de O Pasquim] estavam em um quartel em Marechal Hermes. Minha mãe organizou uma visita e fomos até lá”, conta Daniela. “Na noite anterior à nossa visita, as celas onde eles estavam foram invadidas por baratas e eles travaram uma batalha com elas. Sem saber, jogaram creme de barbear achando que era inseticida. Eles nos contaram tudo, rindo, brincando... Até nesse momento, eles estavam fazendo piada”, lembra.
LITERATURA INFANTIL
Em 1969, mesmo ano de fundação de O Pasquim, Ziraldo lançou outro trabalho emblemático: Flicts, seu primeiro livro infantil. Criado em apenas dois dias, ele conta a história de uma cor rara e triste chamada Flicts. Sem lugar neste mundo, ela acaba encontrando o seu destino na lua.
Flicts se tornou marco da literatura infantil brasileira. Em uma resenha ao jornal Correio da Manhã, Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) foi só elogios à narrativa, afirmando que Ziraldo “abriu mão de suas artimanhas”, no caso os seus desenhos autorais, para revelar a festa da cor como realidade profunda. “Sua revelação é fulgurante. Faz explodir a carga emocional e mental que as cores trazem consigo”, escreveu o poeta. “Eu acho que foi um livro revolucionário. Com uma história tão simples, ele tocou em tantos temas importantes”, comentou Fabrizia, que completou: “Ali, ele entendeu que a literatura infantil era o lugar dele.”
O livro correu o mundo e foi traduzido para diversos idiomas, vencendo o Prêmio Andersen - Il mondo dell'infanzia, na Itália. Foi tão longe que chegou até os astronautas – outra grande referência para Ziraldo. Quando Neil Armstrong (1930-2012) visitou o Rio de Janeiro, recebeu o livro, leu junto a Ziraldo e disse que a lua era, sim, Flicts, como descrito pelo escritor. Este episódio, inclusive, Daniela recorda com carinho. “Eu voltei para casa pisando em nuvens pensando que meu pai tinha me levado para conhecer um astronauta”, conta.
O MENINO MALUQUINHO
Em 1980, criou O Menino Maluquinho, seu maior best-seller. O autor conta no documentário Ziraldo - Era uma vez um menino (2022) que partiu de uma premissa muito simples: queria mostrar que uma criança feliz se torna um adulto legal.
O Ziraldo tinha uma ousadia, uma confiança no humor brasileiro e uma visão muito autoral que encorajaram o meu pai [Mauricio de Sousa]. Eles acreditavam que contar histórias era uma forma de formar cidadãos mais curiosos, mais criativos, mais humanos.
Marina Sousa, filha de Mauricio de Sousa e diretora executiva da Mauricio de Sousa Produções
Cheio de episódios quase autobiográficos, O Menino Maluquinho ressoou no Brasil inteiro. Com apenas quatro meses de publicação, já havia vendido mais de 100 mil exemplares. O personagem se tornou um fenômeno editorial e cultural. E não demorou para que o menino vestido de Napoleão com uma panela na cabeça entrasse no imaginário do brasileiro: virou filme, série de TV e até desenho animado.
Como não podia deixar de ser, Caratinga também quis celebrar o personagem e, em 2003, uma estátua de 10 metros de altura, criada por João Rosendo Alvim Soares, foi instalada na praça dos Rodoviários. Foi a primeira – mas não a única – grande homenagem a Ziraldo na cidade. Ele, inclusive, se mantinha sempre informado sobre a política local e contribuía com a vida comunitária, mesmo vivendo no Rio. O coreto da cidade, por exemplo, é uma obra inesperada de Oscar Niemeyer (1907-2012), depois de um pedido do próprio Ziraldo, para a praça Cesário Alvim. “Caratinga foi o amor da vida dele. Aquela praça era o quintal da casa”, lembra Fabrizia.
Em 2025, quando Ziraldo completou o seu aniversário de 25 anos na editora Melhoramentos, convidou três amigos escritores para escreverem três títulos diferentes com ele: Ruth Rocha, Ana Maria Machado e Pedro Bandeira. “Eu escrevi o apólogo Papo de sapato. Para mim, aquela foi uma honra equivalente a um prêmio Nobel. Tenho tantos momentos memoráveis da convivência com esse gênio, que daria um livro dos grossos”, comenta Bandeira.
Desinibido e falante, ele sempre espalhou generosidade: deu conselhos aos mais jovens, ouviu suas histórias e abriu portas. “Ele era muito interessado nas pessoas. Acho que ele tinha um fascínio pelo olhar do outro”, diz Daniela.
Élcio Danilo Russo Amorim, o cartunista Edra, sabe bem disso. Morador de Caratinga, ele começou a acalentar o sonho de se tornar autor de histórias em quadrinhos nos anos 1980. Seguiu os passos do conterrâneo e acabou desenhando para o Correio Braziliense. Quando lançava Se rir eu choro (1998), foi atrás do mestre para escrever
A criatividade de Ziraldo viajava até o espaço sideral, cenário de muitas de suas histórias.
Instituto
Ziraldo
Em 2018, exposição Ziraldo, de A a Zi, no Sesc Interlagos, celebrou a obra do escritor e mostrou como seu trabalho atravessa gerações.
o prefácio. O pedido ocorreu quando Ziraldo organizou uma festa de aniversário para seu pai em Caratinga e um conhecido os apresentou. Ficaram de conversar depois por telefone. “Ele pediu para eu ligar para ele de madrugada, enquanto ele estava trabalhando. Nos falamos às duas horas da manhã”, conta Edra, rindo.
Edra foi responsável por criar, na década de 1990, o Salão Internacional do Humor de Caratinga com a intenção de trazer cartunistas e chargistas para o local. Mais tarde, fundou a Casa Ziraldo de Cultura, que conta com um grande acervo de Ziraldo e uma gibiteca, além de abrigar exposições, palestras e oficinas culturais. “Sempre admirei Ziraldo porque é muito difícil alguém que fica tão famoso e bem-sucedido ainda manter uma relação tão próxima do lugar de onde veio”, reflete.
DE CARATINGA À VIA LÁCTEA
Ao longo da carreira, Ziraldo publicou cerca de 200 títulos. “Eu não escrevo para crianças, eu escrevo para o núcleo familiar. Nunca um livro meu foi lido só pela criança; a mãe e o pai leem também”, afirmou ao Museu da Pessoa.
Aos 75 anos, ele idealizou a série Os meninos dos planetas, planejada em dez volumes, em que retornou
à temática do universo. “Eu descobri que esse é um jeito de eu vencer a morte. Como eu vou fazer um por ano, eu só posso morrer daqui a 10 anos”, brincou no depoimento ao Museu da Pessoa. O primeiro volume foi O menino da lua (2007), finalista do prêmio Jabuti; o último, As cores do escuro e Os meninos de plutão (2018). “Ele sempre foi um apaixonado pelo Espaço: esse amor começou bem antes da corrida espacial, com os quadrinhos do Flash Gordon”, afirma Daniela. “Acho que o astronauta é um símbolo dessa curiosidade pelo novo que ele sempre teve”, reflete Fabrizia.
Após concluir a série, Ziraldo sofreu um AVC, o que o deixou mais recluso. Em 2024, faleceu aos 91 anos. As homenagens foram grandiosas e afetuosas em todo o Brasil. Caratinga decretou oficialmente o dia 24 de outubro, seu aniversário, como Dia do Ziraldo.
“Ele era uma pessoa excepcional: muito amoroso, muito apaixonado, muito provocador”, afirma Fabrizia. “O que eu posso dizer é que, se eu nascesse 20 vezes, escolheria ser filha do Ziraldo em todas elas”, diz, emocionada. Para Daniela, Ziraldo permanece vivo em toda a sua obra. “O momento em que a gente vive é cruel com a memória. O corpo dele parou de funcionar, mas a alma dele está em tudo o que ele fez. Ele continua sendo um livro aberto. E eu acho que o tempo do meu pai é o tempo todo.”
gráfica
PAÍS NA RETINA
Guardiões da floresta (2024), de Rafael Prado, uma das pinturas presentes na mostra.
Exposição Delírio tropical – Recanto, no Sesc Pinheiros, estimula reflexões sobre o imaginário brasileiro a partir da diversidade de produções visuais
POR RACHEL SCIRÉ
Entre o Fogo e a Faca IV (2021), de Indigo Braga.
Pinturas, cartazes, retratos, capas de revistas e discos, postais, fotojornalismo, lambes, vídeos, performances, esculturas. Para além da sucessão infinita das imagens que rolam em nossas telas, somos povoados por múltiplas criações visuais, que formam um imenso mosaico de nossa nação. Essa diversidade é mobilizada na exposição Delírio tropical – Recanto, no Sesc Pinheiros. “Propus uma exposição que pensasse nesse imaginário constituído a partir de todas as imagens com as quais a gente convive, que nos atravessam e afetam a nossa forma de olhar para elas e para o Brasil”, conta o curador Orlando Maneschy.
A mostra reflete sobre como as produções visuais em vários formatos moldam as memórias do país. Ao mesmo tempo, pretende descortinar visões não hegemônicas a respeito da nossa realidade, capturando o olhar para o inesperado, o desviante, aquilo que ainda é pouco conhecido. A imersão em um fluxo de cerca de 280 obras, de mais de 130 artistas de todas as regiões do país, traz à tona temas como identidade, memória, mídia, território e pertencimento.
“O que eu e a Keyla Sobral [curadora adjunta] fizemos foi colocar em diálogo obras de diferentes artistas, a partir de espelhamentos no próprio espaço”, explica Maneschy. Além do aspecto especular da expografia, que favorece reflexões, as relações entre imagem e autoimagem, estereótipos e vivências também são tensionadas em obras que trazem espelhos de forma concreta, como Abebé (2021), de Keila Sankofa, Caboclo Meio-Dia (2015), de Arthur Scovino, Permissão para lembrar (2022), de Waléria Américo, e (Outros) Fundamentos #01, (2017-2019), de Aline Motta.
A articulação de produções visuais desde a década de 1960 até perspectivas indígenas, negras, LGBTQIAPN+ e outras vozes da arte contemporânea amplia a visão do que se entende por nacional. “Ao percorrer diferentes espaços e contextos, a mostra prolonga uma experiência compartilhada de conhecimento, valorizando a diversidade como uma chave para compreender os entendimentos e as contradições que moldam a sociedade”, afirma Luiz Deoclecio Massaro Galina, Diretor Regional do Sesc São Paulo. Nesse sentido, a curadoria evidencia a participação umbilical dos artistas que integram a mostra, já
que diferentes corpos, identidades e histórias não estão ali como representações, mas como presenças. “Com inteligência, talento e muita perspicácia, as pessoas estão trazendo os seus olhares sobre os seus lugares”, diz Maneschy, que exemplifica com davi de jesus do nascimento, em corpo-embarcação (2019), um retrato em que ele aparece abraçado a uma carranca. Ele, que se define como “artista barranqueiro”, nasceu em Pirapora (MG) e cresceu às margens do rio São Francisco, em uma família de ribeirinhos. “A gente está falando de pertencimento, da força da vida dessas pessoas”, explica o curador.
O público tem o olhar convocado a elaborar sentidos sobre o cotidiano, os impasses da nossa modernidade, a cultura visual midiática, as comunidades tradicionais, as lutas políticas, os corpos invisibilizados, as disputas simbólicas, as marcas da nossa história, a emergência ambiental e a capacidade de reimaginar o futuro. “Nós deixamos as leituras abertas. Pode ser um olhar antropológico, histórico, estético, há muitas possibilidades de acesso às obras”, destaca o curador. De acordo com ele, o desejo é pensar como as imagens que estão ao nosso lado podem nos levar além. “É uma atualização do olhar: para lembrar, voltar a sentir, descobrir e romper com visões cristalizadas”, conclui Maneschy.
A exposição Delírio tropical foi originalmente apresentada entre 2024 e 2025 na Pinacoteca do Ceará, em Fortaleza, como uma das ações do Solar Fotofestival, evento internacional de fotografia voltado à difusão da imagem como linguagem artística e cultural. No Sesc Pinheiros, onde fica em cartaz até 13 de outubro, ganhou nova expografia, o subtítulo Recanto e uma obra inédita de Keyla Sobral. A programação integrada conta com mostra audiovisual de filmes, videoartes e performances orientadas para o vídeo, playlist, série de lambes ao ar livre, visitas mediadas, ações educativas e atividades formativas.
PINHEIROS
Delírio Tropical – Recanto
Até 13/10. Terça a sábado, das 10h30 às 21h. Domingos e feriados, das 10h30 às 18h. GRÁTIS. Mais informações em sescsp. org.br/delirio-tropical-recanto
Acima, Por um Fio, da série Fotopoemação (1976/2010), que mostra a artista Anna Maria Maiolino unida à mãe e à filha por um cordão. À direita, Re-Utopya - Estrada para Pindorama (2022), de Hal Wildson.
À esquerda:
Acima: Sem título, da série Corpos ConflitantesParacatu de Baixo/MG (2015), de Nilmar Lage.
Zero Cruzeiro (1974-1978), de Cildo Meireles.
Corpo Indivíduo (2011), de Dalton Paula.
Hagakure (2003), de Miguel Chikaoka.
O trio apresenta composições próprias, dentre elas uma música inédita
sustentabilidade
aprender com a NATUREZA
Espaços verdes dentro ou fora dos centros urbanos nos ensinam sobre equilíbrio, respeito, diversidade e convivência entre espécies
POR LUNA D’ALAMA
Os fósseis mais antigos de Homo sapiens foram descobertos no Marrocos, norte da África, e análises arqueológicas divulgadas em 2017 apontam que esses ancestrais do homem moderno viveram há cerca de 300 mil anos – 100 mil anos antes do que se pensava até então. Ao longo de 20 mil gerações, os indivíduos da espécie humana foram caçadores-coletores, sendo substituídos por agricultores nas 500 gerações seguintes. Há apenas nove gerações, porém, casas e escritórios passaram a ter luz elétrica; e, somente há duas, a internet começou a fazer parte do nosso dia a dia. Segundo o botânico italiano Stefano Mancuso, professor da Universidade de Florença e autor
do livro Fitópolis (Ubu, 2026), em pouco tempo na escala evolutiva, o ser humano passou de alguém muito conectado à natureza e às plantas para um especialista em cidades, trânsito, telas e ambientes fechados.
Na visão do especialista em neurobiologia vegetal, que investiga o comportamento e as características das plantas (como inteligência, adaptação, memória e comunicação), nosso afastamento das florestas e áreas verdes é a principal causa dos problemas atuais. Isso porque existe uma relação de interdependência entre a vida animal e a vegetal. “Sem as plantas e algas, qualquer vida animal seria impossível. Elas são o elo entre o Sol e a Terra, transformando
energia luminosa, água e dióxido de carbono – pela fotossíntese – em energia química (açúcares) que permite aos animais viver e se reproduzir”, explica Mancuso no livro Fitópolis. Até a constituição do corpo humano tem relação com nosso passado arborícola: os olhos voltados para a frente, a postura ereta, as mãos adaptadas para segurar galhos e colher frutos. Uma anatomia que ainda permite que muitos primatas vivam em árvores.
Foi a partir dos gregos, sobretudo de Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.), que o ser humano começou a achar que está fora da natureza – ou pior, acima dela. O rompimento desse vínculo primordial desde a Antiguidade Clássica exige, na
Nilton Fukuda
Jerá Guarani, da aldeia Kalipety, tem na convivência com a natureza um caminho para a sua saúde física, mental e espiritual.
sustentabilidade
análise de Mancuso, uma retomada da interação fluida e orgânica com os espaços naturais, reconhecendo o ser humano como integrante de um ecossistema mais amplo. “Grande parte do que nos torna humanos provém das árvores. E as árvores são o modelo no qual as cidades deveriam se inspirar." Para habitarmos centros urbanos mais verdes, vivos e saudáveis no futuro, os quais o botânico batiza de fitópolis, o ideal seria termos uma proporção de 86,7% de plantas para 0,3% de animais (incluindo humanos). Assim, compreenderíamos o que deveria ser a real função desses locais: vastos organismos vivendo em relação comunitária com os demais seres.
BANHO DE FLORESTA
Segundo a pedagoga e arteterapeuta Luanda Bauly, o banho de floresta é um ótimo exemplo de conexão com a natureza. Criada nos anos 1980, essa prática terapêutica oriental (conhecida em japonês como Shinrin-yoku) envolve a imersão em áreas vegetadas, técnicas de relaxamento e o uso do nosso sistema sensorial, com foco na saúde mental, no bem-estar e na redução do estresse. “Essas vivências duram até duas horas, e seus benefícios são sentidos e relatados por quase um mês. É importante olhar para as nossas raízes, e as florestas são regeneradoras”, destaca.
Luanda é facilitadora de banhos de floresta em Sorocaba (SP), com o coletivo Floresta Cultural, e também trabalha em parceria com a ecoeducadora Camila Pedroso. “Nosso corpo tem memória, e ele responde quando está cercado pela natureza, pelos ciclos do Sol e da
Lua, pelas estações do ano. Somos também natureza e precisamos nos harmonizar com esse todo”, ressalta.
De acordo com a pedagoga, é possível levar o banho de floresta para ambientes indoor e até hospitais, com a utilização de óleos essenciais e estímulos sonoros, táteis, visuais e olfativos. Mas, em geral, a prática é realizada em parques, praças, áreas de proteção permanente ou bairros com árvores nativas. “Observamos as espécies, eu explico quais delas são originárias da Mata Atlântica, vemos os pássaros à nossa volta. Isso se chama ecoalfabetização, ou seja, ler e compreender a natureza. O banho de floresta é um convite a um estado de presença, cada vez mais raro hoje em dia, em que há muitos estímulos e atenção fragmentada”, pontua Luanda, que há sete anos pesquisa o comportamento social das árvores da Mata Atlântica e do Cerrado.
OLHAR ORIGINÁRIO
A integração entre os seres humanos e os não humanos (também chamados de mais que humanos), como animais, plantas, fungos, microrganismos, rios, florestas e montanhas, é algo que faz parte da cosmologia dos povos originários. Como relata a agricultora, pedagoga, escritora e
liderança indígena Jerá Poty Mirim, mais conhecida como Jerá Guarani, os Guarani Mbya acreditam que uma pessoa só pode ter saúde física, mental e espiritual se viver em um ecossistema equilibrado entre fauna e flora. “Nossa relação com o meio se estabelece dentro de uma crença de que tudo tem uma importância sagrada e uma interligação profunda. Utilizamos e usufruímos da natureza apenas o suficiente para nosso plantio, caça, pesca, coleta de frutos, remédio e moradia. Se alguém ultrapassa os ensinamentos e quebra essa regra, pode adoecer tanto física quanto espiritualmente”, defende.
Jerá vive na aldeia Kalipety, que pertence à terra indígena Tenondé Porã, localizada no extremo Sul da capital paulista. O local de quase 16 mil hectares abriga 17 aldeias, e na Kalipety vivem 87 indígenas divididos em 22 famílias.
Na aldeia, além das plantações de diversas variedades de milho e batata-doce, há árvores frutíferas (de laranja, banana, mexerica), plantas nativas e medicinais. O modo de ser guarani (ou nhandereko) pressupõe essa relação harmoniosa entre humanos, animais, florestas e territórios. “Acreditamos que é possível viver em áreas sem derrubar e asfaltar tudo. Os juruás [não indígenas] passam seus dias
Vista áerea da terra indígena Tenondé Porã, localizada no extremo Sul da capital paulista.
Nilton Fukuda
trabalhando, indo atrás de salário, carro e casa, enquanto o mundo está sendo destruído e chegando ao fim”, analisa. Para Jerá, as comunidades indígenas têm muito a ensinar sobre vida em comunidade, uma existência que reconhece a importância de cada ser e a ligação entre todos.
DO ESPAÇO À FLORESTA
Por meio de mapas, dados e imagens de satélite, também é possível entender a importância das áreas verdes nas nossas vidas. O agrônomo, pesquisador titular e chefe da Divisão de Projetos Estratégicos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Jean Ometto, estuda as relações
entre ambientes naturais e aqueles transformados pelo ser humano. “As florestas brasileiras são ambientes naturais muito biodiversos, compostos por plantas, fungos, microrganismos e animais. Todos os nossos biomas têm florestas, não apenas a Amazônia e a Mata Atlântica. Há florestas no Cerrado, no Pantanal, na Caatinga, no Pampa. O que varia são, essencialmente, a diversidade biológica e a estrutura delas (como a altura e o diâmetro das plantas) em cada região”, explica.
Ometto acrescenta que as florestas – verdadeiros sustentáculos do solo, do clima e da vida no planeta – também têm uma relação com o ciclo da água, por meio de um processo chamado
evapotranspiração, que transfere a umidade do solo e das folhas para a atmosfera, contribuindo para a formação de nuvens, chuva, correntes de vento, rios voadores (no caso da Amazônia) e o resfriamento do ambiente. “As plantas são a base da cadeia alimentar e, por uma questão de escala, há muito mais vegetais do que animais na Terra. As plantas servem de comida aos herbívoros, que nutrem os carnívoros. Os vegetais são o início da transferência de energia na cadeia alimentar, centrais para a vida. Sem eles, nós não existiríamos”, elucida.
PARQUES NACIONAIS
Outra forma de se conectar à natureza no Brasil é conhecendo os parques nacionais: são 76 localizados de Norte a Sul do país. Liderado pelo economista paulistano Dennis Hyde e pela psicóloga Letícia Alves, o projeto Entre Parques – criado em 2021 e oficializado como instituto em 2025 – mapeou essas grandes áreas verdes ao longo de três anos e meio, com o objetivo de reunir informações e divulgá-las a quem quiser visitar os espaços. “Os parques nacionais são unidades de conservação que ocupam 3% do nosso território continental, a maioria na Mata Atlântica – mas, em termos de extensão, os maiores estão na Amazônia”, explica Hyde.
Há parques nacionais em todos os estados, exceto Alagoas, cercados de praias, cachoeiras e até cavernas com pinturas rupestres. O mais antigo é o do
Localizado em Ponta Grossa (PR), a pouco mais de 100 quilômetros de Curitiba, o Parque Nacional dos Campos Gerais é o 14º parque nacional mais visitado do país.
sustentabilidade
Itatiaia (RJ), criado em 1937, e o mais recente é o do Albardão (RS), oficializado em março de 2026.
Todos são geridos pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
Há atrações para todos os gostos e perfis, desde famílias com crianças até trilheiros profissionais. A maior infraestrutura, segundo o fundador do Entre Parques, está no Parque Nacional do Iguaçu, em meio às cataratas de Foz do Iguaçu (PR), e no Parque Nacional da Tijuca, no Rio de Janeiro (RJ). Ambos também recebem a maior visitação anual: 2 milhões e 5 milhões de pessoas, respectivamente.
“Os parques nacionais são de proteção integral, ou seja, não se pode retirar nenhum tipo de recurso nem morar dentro deles. Em 2025, foi sancionada a Política Nacional de Incentivo à Visitação a Unidades de Conservação (Lei nº 15.180/2025), para estimular o turismo sustentável, ampliar o acesso e gerar renda no entorno”, detalha Hyde. A legislação é uma tentativa de equilibrar educação ambiental, conservação, turismo, lazer e valorização da cultura local. Além disso, a biodiversidade nas unidades de conservação do país tem se mantido estável na última década, contra uma perda de mais de 70% em todo o mundo nos últimos cinquenta anos – o que reforça a importância dos parques nacionais.
De acordo com Hyde, o ser humano se esquece de que também é natureza. “Com a filosofia grega, acreditou-se que os animais e o meio ambiente foram criados para servir ao homem. Aristóteles acreditava que os cavalos só existiam para ser força motriz, puxar carga. E assim ‘evoluímos’ no Ocidente,
achando que a espécie humana é uma coisa e a natureza é outra. A partir de Darwin, a gente se coloca de novo como natureza. Nas grandes cidades, porém, nos afastamos dela, não observamos mais a Lua, as estrelas, as marés”, avalia.
AMBIENTES PRIVILEGIADOS
Nos territórios e na rotina das metrópoles, áreas verdes como parques, praças, jardins, quintais e hortas acabam sendo espaços privilegiados para usufruto do direito ao lazer e de relacionamento com a natureza, segundo Rosangela Martins, pesquisadora de parques urbanos e conselheira gestora do Parque Piqueri, no Tatuapé, na zona Leste de São Paulo. “Um parque urbano é um lugar onde o corpo em movimento, o ambiente natural e a sociabilidade nos permitem observar os ciclos naturais, reconhecer limites espaciais e compreender que a vida, nas suas mais diversas formas, se sustenta por relações de cooperação. A mesma interdependência que existe entre fauna e flora deveria ocorrer entre natureza e sociedade”, compara.
“Aproximar-se continuamente de espaços naturais, para a pesquisadora, amplia saberes ligados ao afeto, ao vínculo, à corresponsabilidade, ao lazer e ao bem-estar. “O meio ambiente está indissociavelmente ligado ao cuidado com nós mesmos, com o outro e com a cidade”, reforça Rosangela. “Os parques urbanos devem ser valorizados como patrimônio ambiental, cultural e social. Eles ajudam a desenvolver sujeitos críticos e implicados com a vida coletiva, pois não há conservação sem vivência, nem cuidado sem pertencimento”, finaliza.
Reserva Natural Sesc Bertioga (SP).
para ver no sesc / sustentabilidade
DO QUINTAL À FLORESTA
De 2 a 7 de junho, Sesc São Paulo promove Festival
Florestar, ação que destaca a importância das áreas naturais como patrimônio e espaços de aprendizagem, saúde e bem-estar
Para aprofundar o debate sobre as áreas verdes e reforçar a importância desses locais como patrimônio, espaços de aprendizagem, convivência, promoção de saúde e bem-estar, o Sesc São Paulo realiza, de 2 a 7 de junho, o Festival Florestar. A ação em rede terá 29 unidades participantes, na capital, interior e litoral, com 130 ações previstas ao longo desses seis dias.
Com o tema Do quintal à floresta, a programação inclui palestras, debates, vivências, feiras, seminários e visitas mediadas, além de documentários e séries no SescTV e Sesc Digital. A programação do Florestar vai ocupar as unidades participantes e também territórios próximos, como ruas, praças, jardins, parques e unidades de conservação, possibilitando a fruição e o contato com a natureza e com outras pessoas.
Segundo Felipe Campagna De Gaspari, engenheiro agrônomo e técnico em sustentabilidade da Gerência de Educação para Sustentabilidade e Cidadania do Sesc São Paulo, ambientes como parques, bosques, quintais, hortas e trilhas estimulam o convívio, a reflexão e o contato com a natureza. “A interação com esses espaços é
educadora por si só, pois incentiva trocas mais equilibradas entre o natural e o urbano, favorecendo relações sociais mais saudáveis e conscientes, que se ligam aos mais diversos aspectos da nossa vida cotidiana”, ressalta.
A primeira edição do festival aconteceu em junho de 2023. A abertura deste ano será no Sesc São José dos Campos, no dia 2 de junho, às 18h. Na ocasião e também no dia 3 de junho, no Sesc Pompeia, a partir das 18h30, o público poderá conferir uma palestra com o neurobiólogo Stefano Mancuso, autor de cinco livros publicados no Brasil pela Editora Ubu, sendo o mais recente Fitópolis (2026), e fundador do Laboratório Internacional de Neurobiologia Vegetal, em Florença. Mancuso falará sobre como as plantas têm inteligência própria e podem inspirar modelos mais sustentáveis, resilientes e cooperativos de sociedade. Acesse a programação em sescsp.org.br/florestar
Confira destaques:
INTERLAGOS
Vivência Mutirão de Sistema Agroflorestal
Com Somos Socioambiental, na Casa Ecoativa, na Ilha do Bororé, zona Sul. Dias 4 e 5/6, das 10h às 17h. Saída da unidade. Inscrições via portal. GRÁTIS.
PINHEIROS
Feira Florestar SP
Mostra de práticas socioambientais. Dias 6 e 7/6, das 11h às 17h. Na Praça. GRÁTIS.
REGISTRO
Seminário Conhecimentos
Tradicionais e Científicos no Manejo da Paisagem
Com agricultores, coletores de sementes florestais, viveiristas e técnicos envolvidos em ações de restauração ecológica. Dia 6/6, das 10h30 às 13h30. Na Área de Convivência. GRÁTIS.
Nilton Fukuda
PERFORMANCE E ANONIMATO
Com quem estamos nos comunicando quando abrimos mão de uma ideia de anonimato e compartilhamos parte de nossas vidas, desejos e sentimentos na internet? Buscamos o olhar do outro, satisfazer nosso ego ou, ainda, conversar com uma espécie de espelho distorcido?
“Performar nas telas tentando seduzir tanta gente se revelou cansativo, além de arriscado. Cada vez é mais habitual sentir algum mal-estar a respeito dos celulares e das mídias sociais: uso excessivo, perda de tempo, ansiedade, depressão, polarizações, cancelamentos e outras tretas. Como hoje as redes atravessam todas as paredes, e vivemos plugados aos dispositivos interconectados, a vulnerabilidade é enorme, sendo cada vez mais raro sentir sossego ou proteção”, reflete Paula Sibilia, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Tecnológico (CNPq).
Tamanha exposição tem como alguns de seus efeitos colaterais a solidão e a falsa percepção de que, talvez, a interação no mundo real seja algo dispensável, como aponta Fernanda Bruno, professora
da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), coordenadora do MediaLab UFRJ e também pesquisadora do CNPq: “A disponibilidade 24/7 e a ausência de julgamento por parte da IA [inteligência artificial] são vantagens apontadas pelos usuários, que não raro relatam sentirem-se mais confortáveis com IAs do que com humanos. Tais sistemas têm o design de personalidade cuidadosamente projetado para performar intimidade, empatia e concernimento. Não devem contestar ou exibir nenhum comportamento ou fricção que afaste ou perturbe o usuário. O engajamento a qualquer custo e sem hesitação também é a base deste modelo de negócios. Além disso, aprendem com as interações e tendem a se adequar às demandas dos usuários. Prometem não pedir nada em troca. Mais do que entregar uma amizade sob demanda, oferecem amizade sem demanda. O paradoxo de uma amizade sem amigo, de uma relação sem outro”.
Neste Em Pauta, Fernanda e Paula partem de suas pesquisas sobre o impacto da tecnologia nas relações interpessoais para apresentar um panorama do que está em xeque quando sujeitamos elementos tão significativos das nossas personalidades às avaliações de algoritmos.
Companheiros artificiais e simulações do outro
POR FERNANDA BRUNO
O romance Klara e o Sol, de Kazuo Ishiguro, é narrado por uma robô programada para ser uma amiga artificial (AA). Destacada por sua capacidade de observação e atenção, Klara é a AA escolhida pela jovem Josie, de 14 anos, que sofre de grave doença. A adorável Klara se comporta de forma inteligente, sensível e prestativa. Como ela mesma descreve, a sua função é prevenir a solidão e servir. Acredita, inclusive, ter “muitos sentimentos. Quanto mais observo, mais sentimentos se tornam disponíveis para mim”.
Viver na companhia de máquinas já não é estranho ao nosso tecido social, mas o hábito de conversar com elas ainda é novo o suficiente para inquietar. Não sabemos que mutações subjetivas e sociais derivarão daí, mas a história do nosso ecossistema sociotécnico pode dar pistas. A popularização da internet logo de saída perturbou as expectativas com a anunciada ágora global. Ela foi rapidamente invadida pela vida miúda dos relatos íntimos e pela banalidade cotidiana. Aprendemos o quão elástica é a fronteira que demarca o público e o privado. O anonimato, contudo, permaneceu comum por algum tempo na web. Experimentava-se uma nova sociabilidade e a graça de encontros fortuitos, sem saber ao certo quem teclava do outro lado da tela. Não havia dúvidas, contudo, de que humanos sempre estavam lá, ainda que com máscaras, heterônimos e que tais. Hoje, a dúvida é de outra ordem: bots, algoritmos e, recentemente, a inteligência artificial generativa.
Mas no meio do caminho vieram outras coisas. As primeiras encenações da intimidade digitalizada ainda guardavam algum grau de experimentação e autonomia. O usuário tinha algum manejo do contexto e dos contornos de sua performance. Mesmo optando pela configuração pública de um weblog e habilitando comentários, tratava-se de um espaço em boa parte gerido pelo usuário, ainda que mediado por serviços de hospedagem e publicação,
sistemas de indexação e busca etc. A experimentação e a autonomia, claro, tinham limites. Se por um lado a performance do eu podia tensionar as injunções e normas sociais, por outro corria o risco de confiná-lo ainda mais ao olhar e ao crivo do outro, ampliando as margens de captura do que podemos experimentar e performar. A lição de [Michel] Foucault (1926-1984, filósofo francês) sobre os tempos modernos ainda valia: a visibilidade, afinal, permanece sendo uma armadilha.
Isso se exacerba com a plataformização da web e a proliferação das redes sociais. Os perfis que nelas criamos tornam-se mais atrelados a identidades reais, o anonimato vira prática subversiva ou criminalizada, e a exposição de si não só é performada, como monetizada. A economia de likes e o modelo de negócios das grandes plataformas, alimentado pela extração voraz de dados, direciona a mediação algorítmica para a produção de engajamento a qualquer custo. Novas e mais profundas armadilhas surgem. A promessa de conectar pessoas afundou na competição por visibilidade, seguidores e ganhos, atravessada por discursos de ódio, linchamentos e cancelamentos. O nível de toxicidade dispara nas redes sociais. Aparecem então plataformas e funcionalidades que mudam o foco: não mais conectar pessoas, mas treinar algoritmos em conteúdos personalizados. O TikTok e sua página Para você são expressão dessa inflexão, mas diversas redes têm funcionalidades similares. Tais arquiteturas algorítmicas incitam um engajamento que beira à compulsão, numa rolagem infinita de conteúdos “para você”, gerando reclusão algorítmica. Conforme aponta [Helena] Strecker [pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)], o desejo aqui não é a relação com outras pessoas através de algoritmos, mas a relação com o próprio algoritmo, que espelharia nossos desejos e interesses, livre de todo fardo dos outros.
Viver na companhia de máquinas já não é estranho ao nosso tecido social, mas o hábito de conversar com elas ainda é novo o suficiente para inquietar. Não sabemos que mutações subjetivas e sociais derivarão daí, mas a história do nosso ecossistema sociotécnico pode dar pistas.
Algo similar acontece com a chegada da IA generativa [modelo de inteligência artificial que cria conteúdos com base em banco de dados], em especial os chatbots conversacionais utilizados como companheiros, como Replika e Character.AI, que lideram um mercado com mais de 50 milhões de usuários globais. “Mais que um tutor, um amigo que se importa”, diz o slogan da Replika. Mesmo o ChatGPT, que não foi explicitamente projetado para tanto, vem sendo utilizado como companheiro. Pesquisa recente da Common Sense Media revelou que 72% dos adolescentes estadunidenses já experimentaram companheiros de IA, e mais da metade (52%) seria de usuários regulares. No Brasil, a Talk.Inc (2025) aponta que 58% já usou chatbots de IA generativa como amigo ou conselheiro para tratar de questões pessoais.
A disponibilidade 24/7 e a ausência de julgamento por parte da IA são vantagens apontadas pelos usuários, que não raro relatam sentirem-se mais confortáveis com IAs do que com humanos. Tais sistemas têm o design de personalidade cuidadosamente projetado para performar intimidade, empatia e concernimento. Não devem contestar ou exibir nenhum comportamento ou fricção que afaste ou perturbe o usuário. O engajamento a qualquer custo e sem hesitação também é a base desse modelo de negócios. Além disso, aprendem com as
interações e tendem a se adequar às demandas dos usuários. Prometem não pedir nada em troca. Mais do que entregar uma amizade sob demanda, oferecem amizade sem demanda. O paradoxo de uma amizade sem amigo, de uma relação sem o outro. Como salienta [Sherry] Turkle [socióloga e pesquisadora estadunidense], a aceitação da intimidade artificial deve-se menos ao que ela oferece e mais ao que pode substituir: as custosas relações humanas. O que nos tornamos quando abrimos mão de nossa condição efetivamente relacional? Importante ressaltar que essa relacionalidade envolve não apenas humanos, mas entes técnicos, viventes e outros que humanos.
Klara e o Sol tem algo a nos ensinar. Além de aprender a crer no sol, Klara descobre que sua verdadeira tarefa não era apenas ser amiga de Josie, mas se tornar a própria Josie se esta viesse a falecer. A inquietação dos humanos era se Klara conseguiria penetrar “no coração de Josie” para tornar-se ela. Mas Klara aprende que não se tratava de procurar algo “dentro” da Josie, mas sim naqueles que a amavam. A lição de Klara derruba qualquer essencialidade e aponta para a heterogeneidade das relações que nos constituem. Essa heterogeneidade está em risco na oferta de intimidades ou amizades artificiais disponíveis no mercado. A boa simulação não seria aquela que imita perfeitamente algo, mas a que torna esse algo dispensável. Na lógica generativa do Vale do Silício, o companheiro artificial pretende ser a melhor simulação do outro. Sobretudo porque apaga esse outro.
Fernanda Bruno é professora titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde atua no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura e no Instituto de Psicologia. É coordenadora do MediaLab.UFRJ, pesquisadora do CNPq e cofundadora da Rede latino-americana de estudos em vigilância, tecnologia e sociedade/ LAVITS. Integra a diretoria da Surveillance Studies Network, a rede Tierra Común e a coalizão feminista <A+> Alliance for Inclusive Algorithms.
Performar ou sumir?
POR PAULA SIBILIA
Grandes transformações históricas marcaram o século 21, mas uma é bem nítida: a nossa “compatibilidade” com os artefatos digitais de comunicação. Esses aparelhinhos portáteis de uso individual aos quais nos acoplamos, com suas telas e câmeras sempre latentes, funcionam (e nos fazem funcionar) sem pausa, interagindo com inúmeras pessoas em qualquer momento ou lugar. Trata-se de poderosas máquinas de conexão, pois facilitam os contatos em níveis antes inimagináveis, desafiando todo limite espacial e temporal para propiciar o fluxo constante de informações. Isso incitou a espetacularização do nosso cotidiano com imagens atraentes, à caça de repercussões positivas e validação pública, seguidores e curtidas.
Mas a parafernália digital tem um lado sombrio e (ainda mais) distópico, que recentemente se tornou incontestável: também são máquinas de isolamento, algo que parece desmentir a loquacidade mais óbvia e já assimilada. Graças à nossa simbiose com esses instrumentos, podemos dispensar a presença física dos demais para fazer quase qualquer coisa, como ficou demonstrado nos confinamentos pandêmicos de 2020. Soa contraditório, mas ambas as faces do fenômeno são complementares: se o falatório é imparável, a solidão também se expandiu abissalmente.
Performar nas telas tentando seduzir tanta gente se revelou cansativo, além de arriscado. Cada vez é mais habitual sentir algum mal-estar a respeito dos celulares e das mídias sociais: uso excessivo, perda de tempo, ansiedade, depressão, polarizações, cancelamentos e outras tretas. Como hoje as redes atravessam todas as paredes, e vivemos plugados aos dispositivos interconectados, a vulnerabilidade é enorme, sendo cada vez mais raro sentir sossego ou proteção.
O que fazer, então? Fugir, sumir, partir para o anonimato? Embarcar num detox, essa espécie de hi-
giene mental que assimila tais tecnologias a drogas como o cigarro ou o álcool, propondo uma desintoxicação? Parece sensato; porém, assim como ocorre com qualquer vício, as tentativas de se afastar das redes costumam murchar. Mesmo limitando a própria exposição, é difícil deixar de stalkear alguém ou parar de scrollear na telinha, acumulando só tédio e desgostos. Por quê? Talvez porque se trata de ferramentas inventadas para que sejam usadas dessa forma, então todo o mundo (ou quase todo o mundo) assim as usa: excessivamente, compulsivamente, insatisfatoriamente.
Enquanto as redes foram se tornando cada vez menos sociais e mais refratárias aos laços solidários ou comunitários, apareceram os chatbots animados por inteligência artificial. No final de 2022, somaram-se ao amplíssimo leque de apps e plataformas que fazem o impensável por captar nossa atenção, desdobrando suas estratégias algorítmicas para nos manter grudados a seus black mirrors. Mas trouxeram uma novidade: com eles, já não precisamos nos esforçar para agradar aos outros.
O solilóquio junto ao robô tem algo de masturbatório: é uma opção afável não apenas à insalubridade dos ambientes virtuais, mas também à crescente hostilidade do mundo exterior. Em contraste com a crispação caótica dos espaços públicos, portanto, surge uma panaceia: o consumo solitário na exígua “zona de conforto” de cada um. Ao fomentar esse bem-estar no encapsulamento privado, cria-se certa ilusão — efêmera, mas convincente — de plenitude centrada no eu. E repele-se tudo o que ficaria lá fora: os outros, o real, as imensas possibilidades existenciais que se abortam por serem potencialmente dolorosas ou meramente incômodas.
Uma saída para o desgastante show das redes? Apesar da sua arrogância exibicionista, de fato, os rituais de autoafirmação online têm um ponto fraco paradoxal: precisam avidamente dos olhares alheios. O problema do outro se agiganta nessas circunstâncias e ganha arestas explosivas: depende-se daqueles que rivalizam para obter as mesmas recompensas e se encontram em idênticas condições de solidão barulhenta. Por isso, os coraçõezinhos e
Como hoje as redes atravessam todas as paredes, e vivemos plugados aos dispositivos interconectados, a vulnerabilidade é enorme, sendo cada vez mais raro sentir sossego ou proteção
likes atuam como rápidas descargas anímicas, fruto de negociações inconfessáveis que confirmam ou negam tanto o valor próprio como o alheio.
Não por acaso, essa tensão entre a autonomia egoica e a busca de aplausos se tornou insustentável. Havia que resolver o dilema entre a extenuante demanda de se expor e o (impossível) anseio de anonimato que dela decorre. Foi então quando apareceu o fantasma da IA, prometendo que os outros enfim poderiam deixar de ser um problema.
As atitudes bajuladoras dos chatbots, sua disponibilidade absoluta e seu exagerado servilismo, os posicionam como versões otimizadas de qualquer ser vivo. Afinal, como dizia uma reportagem publicada em meados de 2024 num jornal britânico, quando tudo isso ainda parecia ficção científica para a maioria, embora já houvesse milhões de usuários empolgados com suas “namoradas” virtuais, citando um deles: “os relacionamentos com humanos estão supervalorizados”.
Assim, sem perder seus clientes já viciados na aparelhagem digital, as astutas big techs conseguiram capitalizar a exaustão das redes. As potencialidades são colossais: essa autoajuda sintética pode ser uma câmara de eco ainda mais efetiva que aquela das bolhas inflamadas, com seus vieses cognitivos e suas indignações cheias de trolls ou haters. Ao nos eximir de todo atrito social, a IA permite dar um passo a mais rumo ao isolamento hiperconectado, sem cair na tentação de uma deserção desconectada. Promove práticas de pura autoestima em co-
munhão profunda com os produtos informáticos, evitando a necessidade de lidar com alguém mais.
Os sintomas desta inquietante mudança são variados e abundam. A sologamia ou o casamento consigo mesmo, por exemplo, popularizou-se há mais de uma década. Também naqueles tempos floresceu o mercado dos sex toys, glamourizando a masturbação feminina como uma solução “empoderada” diante de fenômenos altissonantes como a masculinidade tóxica ou o heteropessimismo generalizado.
Ao naturalizar a ideia de que não precisamos de ninguém para estar bem, dado o custo aparentemente inútil que envolve a árdua convivência com outrem, essas novidades sugerem que cada um se basta — ou deveria se bastar — para garantir certa felicidade, segurança e eficácia autossuficiente.
Mas é realmente possível, ou desejável, prescindir dos demais? Uma pergunta tão perturbadora como urgente e inaudita, pelo menos nestes termos. Contudo, o sonho de livrar-se do problema do outro, como se realmente fosse um problema do outro (e não meu ou nosso), não deveria nos surpreender. É algo que os consumidores contemporâneos vêm almejando, ainda mais após a ressaca da superexposição e dos ríspidos embates do último par de décadas.
Paula Sibilia é professora de Estudos de Mídia e do PPGCOM na Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisadora do CNPq. Autora dos livros O homem pós-orgânico (Contraponto, 2002), O show do eu (Contraponto, 2008), Redes ou paredes (Contraponto, 2012), e Eu mereço! Da velha hipocrisia aos velhos cinismos (Ubu, 2026), todos publicados também em espanhol. Fez graduação em Comunicação e em Antropologia na Universidade de Buenos Aires (UBA), mestrado em Comunicação (UFF), doutorado em Saúde Coletiva (IMS-UERJ) e em Comunicação e Cultura (ECO-UFRJ), além de pós-doutorados na Université Paris VIII, da França, e na UBA da Argentina. Coordena a rede internacional de pesquisas Genealogias.
somar
INTELIGÊNCIAS
Para o professor e pesquisador Diogo Cortiz,
é preciso usar a inteligência artificial de maneira consciente e crítica em favor da capacidade humana de produzir conhecimento
POR MARIA JÚLIA LLEDÓ FOTOS NILTON FUKUDA
Otimista, mas de olhos bem abertos. É assim que o cientista cognitivo Diogo Cortiz, uma das referências no debate sobre inteligência artificial (IA) no Brasil, coloca-se diante dos inúmeros desafios econômicos, ambientais, sociais e culturais desencadeados na última década. Doutor em Tecnologias da Inteligência e Design Digital pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), com período de estudos em Antropologia Digital pela Universidade de Paris-Sorbonne, Cortiz investiga como as tecnologias emergentes transformam a sociedade, a economia e o comportamento humano. Em aulas, palestras e em sua coluna Tilt, no portal UOL, além do podcast Deu Tilt, o especialista traduz para um público amplo os resultados de pesquisas científicas,
dados do mercado, legislações e aplicações da IA, desfazendo preconceitos e mal-entendidos.
Hoje, cerca de um terço da população brasileira (32%) com acesso à internet faz uso de ferramentas de inteligência artificial, de acordo com o último levantamento feito pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade de Informação (Cetic.br), divulgado no início do ano. Mas como as pessoas estão utilizando a IA e quais os efeitos desse uso sobre a nossa capacidade de raciocinar e criar? Como fica a autonomia na hora de escolher o que se deseja ver, ler ou ouvir?
Segundo Cortiz, o dilema que temos pela frente é o de que, ao atribuir tarefas de raciocínio e criatividade
para a IA, ganhamos tempo com uma resposta rápida, mas perdemos esforço cognitivo (atenção, raciocínio, memória), fundamental para a aprendizagem. “Hoje a gente começa a entender que a inteligência artificial está se colocando, assim como toda tecnologia, com uma mediadora entre nós e qualquer tipo de produção”, resume.
Neste Encontros, Diogo Cortiz explica a anatomia da inteligência artificial e seus desafios no atual contexto.
DOMÍNIO DA LINGUAGEM
A inteligência artificial é uma tecnologia diferente por conta de três principais características radicais, e a primeira delas é: dominar a linguagem. Isso muda
De olho no futuro, Diogo Cortiz ajuda a refletir sobre impacto da inteligência artificial na sociedade.
tudo. A gente pode até discutir durante horas se a IA é inteligente ou não, criativa ou não, e chegar a conclusões diferentes. Mas há um consenso: ela domina a linguagem. Ela consegue responder o que eu pergunto e fazer as coisas que eu ordeno de maneira eficiente. Tudo isso por meio da linguagem, uma das funções cognitivas humanas mais importantes.
CAMADAS PROFUNDAS
A segunda característica da IA é ser uma tecnologia de propósito geral. Uma tecnologia que cria uma camada de transformação, uma infraestrutura na sociedade, como a eletricidade e a internet. Com a IA, a gente está criando outra tecnologia de propósito geral. Porque ela entra e se espalha muito rapidamente por
todos os setores da sociedade; ela tem a característica de melhoria contínua e constante, e às vezes rápida e acelerada; além de habilitar as próximas inovações.
TERCEIRO FATOR
A terceira característica radical é o fato de a IA criar o paradigma de uma “experiência agêntica” [ou IA Agêntica, que seria a terceira fase da IA], porque a gente está entrando em um mundo onde eu não estou só usando um chatbot. Eu estou criando uma inteligência artificial que começa a fazer coisas para mim, em meu nome. Com a inteligência artificial, a gente está rompendo muitos paradigmas que são econômicos, sociais, culturais, criativos e colocando outras coisas no lugar.
VIÉS CULTURAL
Essas ferramentas são treinadas, especialmente, com conteúdos dos Estados Unidos. Portanto, a representação cultural que prevalece dentro dessas inteligências artificiais são conteúdos desse outro país. A IA vai sempre forçar a mão em uma representação cultural ou estilo, em uma forma de escrita ou em um conceito produzido por escritores e outros pensadores dos Estados Unidos. A inteligência artificial conversa com a gente em português, mas ela é como aquele gringo que veio para o Brasil, fala português, mas pensa em inglês. E se vocês usarem essas ferramentas, vão ver que muitas vezes elas estão raciocinando em inglês para gerar respostas em português.
AUTONOMIA EM RISCO
Acho que a IA pode mudar a sociedade em dois principais sentidos: no enfraquecimento cognitivo da percepção da experiência humana e na possibilidade de utilizá-la para um desenvolvimento. Hoje a gente começa a entender que a inteligência artificial está se colocando, assim como toda tecnologia, com uma mediadora entre nós e qualquer tipo de produção. Toda tecnologia muda a nossa percepção e comportamentos. Isso é fundamental para entender como a gente está criando a partir dessa relação. Qual caminho está seguindo e qual gostaria de seguir. Isso está ficando cada vez mais sensível e a sociedade não está conseguindo perceber que a autonomia humana está se degradando
cada vez mais. A gente começa a criar conteúdos com o uso de inteligência artificial que também pode levar à homogeneização de ideias, de estilos de escrita, estilo artístico, sonoro e audiovisual.
COLAPSO COGNITIVO
Daron Acemoglu [Nobel de Economia de 2024] é um pesquisador que fez o mapeamento de um colapso do conhecimento humano. Ele fala que existe o conhecimento individual e o conhecimento coletivo. Quando você precisa aprender algo, você desenvolve aquela competência e vai gerando e acumulando conhecimentos que são coletivos. Só que, quando se passa a ter uma inteligência artificial extremamente eficiente em dar respostas, a gente já não se envolve mais e não há mais um esforço cognitivo. Isso acaba não gerando conhecimento coletivo. Então, a própria IA, pelo fato de ser extremamente boa, pode limitar a continuidade de criação do conhecimento humano. Outra consequência é uma produção cada vez maior de conteúdos que são pasteurizados, alimentando outras inteligências artificiais. É como tirar uma fotocópia da fotocópia: você vai perdendo qualidade. Já existem alguns estudos que falam do colapso desse modelo também.
MEGA INFRAESTRUTURA
A inteligência artificial não roda na “nuvem”, ela roda num data center. Ela precisa de energia e utiliza um chip chamado GPU. Quando a gente fala desses clusters, desses data centers de IA, está falando de uma quantidade absurda de chips, sendo
que uma GPU custa em torno de 30 a 40 mil dólares. Então, a gente está falando de uma infraestrutura gigantesca que demanda muitos recursos financeiros e físicos. Tem, ainda, toda uma questão sobre os data centers, onde precisam ser construídos, só que eles demandam uma quantidade de energia absurda e isso acaba se tornando um gargalo. Tudo isso acaba levando a um impacto ambiental e social para as comunidades onde se instalam os data centers. Consome-se muita água que, quando retorna à natureza, volta com uma série de substâncias que impactam a comunidade local. No Brasil, a gente está vivendo um momento de atração de data centers. Por uma questão de soberania, é importante ter o processamento de dados dentro do país, mas muitas vezes, as big techs instalam data centers no Brasil para prestar serviços para a Europa. Esse é um desafio que está começando a ganhar discussão política.
LEGISLAÇÃO EM DEBATE
O Marco Regulatório da Inteligência Artificial do Brasil ainda está em uma fase de incerteza e indefinições. Participei como especialista das audiências públicas do Projeto de Lei nº 2.338/2023, que foi aprovado no Senado, e que tramitou, no ano passado, na Câmara dos Deputados. O projeto tem algumas lacunas, muitas definições que não são razoáveis. Ela se inspira na Lei de Inteligência Artificial da União Europeia, mas não é uma cópia. É uma possível legislação em que, dependendo do tipo de aplicação, do caso de uso, vai considerar o tipo de risco. Por exemplo, para um sistema
que dá um diagnóstico médico, os riscos são elevados. O ponto que está em maior debate é sobre direitos autorais. Enquanto as empresas de tecnologia não querem tratar desse tema, toda uma cadeia cultural e jornalística está forçando a necessidade de haver uma remuneração de conteúdos usados no treinamento de inteligência artificial. E esse é o principal ponto de conflito hoje.
BOAS PRÁTICAS
A gente tem um desafio enorme de restaurar a necessidade da importância do esforço cognitivo. A gente aprende quando passa por esse esforço que traz uma recompensa a longo prazo. A inteligência artificial, quando gera uma resposta, traz uma recompensa de curto prazo e efêmera. Ela resolve aquele problema, mas aquele problema não gerou o desenvolvimento de uma habilidade, uma competência, um conhecimento. Sou um defensor da IA, embora tenha todo esse olhar crítico da tecnologia, que é importante para melhorar o uso e discutir, obviamente, todo o impacto social e cultural que isso traz.
O cientista cognitivo, professor da PUC-SP e colunista do portal UOL Diogo Cortiz esteve presente na reunião do Conselho Editorial da Revista E, no dia 30 de abril. A mediação do bate-papo foi de Adriano Alves Pinto, gerente adjunto na Gerência de Artes Visuais e Tecnologia do Sesc.
inéditos
PARTIDA DE VÔLEI À SOMBRA DO VULCÃO
POR SÍLVIA GOMEZ ILUSTRAÇÕES ADRIANA KOMURA
Escrita em 2021 para o Grupo Galpão (MG), esta peça teatral, que virou um filme dirigido por Clarissa Campolina e Fernanda Vianna, foi construída durante a pandemia em diálogo com o grupo. O texto aqui publicado é o excerto inicial da obra, que reflete esse encontro e se inspira, em especial, em uma história de viagem contada em uma das reuniões pela atriz Teuda Bara (1941-2025), uma das fundadoras do Galpão e referência do teatro nacional, falecida aos 84 anos em Belo Horizonte no dia 25 de dezembro de 2025. À sua luminosa memória!
“Eu tô grávida. Esperando um furacão, um fio de cabelo, uma bolha de sabão. E vou parir. Sobre a cidade. Quando a noite contrair. E quando o sol dilatar. Vou dar à luz”.
“Grávida”, canção de Arnaldo Antunes, por Marina Lima.
“Não planejar demais. Às vezes, deixar-se nas mãos do acaso pode revelar-se útil, principalmente se o lugar é desconhecido”.
“Um bom par de sapatos e um caderno de anotações”, Tchékhov
Quem, como:
Uma mulher gesta um estado de fúria.
Uma única narrativa em fluxo que viaja pelos integrantes do Galpão, essa companhia de teatro que sempre nos levou em viagem. De algumas delas, nunca mais voltamos. Mas continuamos – com ela – sempre partindo, grávidos de sua imaginação. (Narrativa a ser revezada pelas pessoas como num carrossel)
Itinerário:
1. Aceitar que as coisas são estranhas
Uma mensagem digitada aos poucos a um destinatário desconhecido.
Alguém disse que a gente viaja não tanto para saber como é o mundo para além da nossa porta, mas para entender de onde a gente veio. Por isso, eu parti.
E, agora, estou tentando voltar. Mas alguma coisa muito estranha aconteceu. (......digitando)
Eu não consigo retornar. Música.
2. Conhecer as regras do vôlei Imagens de partidas de vôlei. Ou os próprios atores jogam vôlei.
“O objetivo é enviar a bola por cima da rede, de modos que ela toque o chão do adversário”, ele dizia desse jeito, “de modos que” e eu ficava muito ansiosa esperando o início da aula porque eu sabia que em algum momento ele diria “de modos que” porque ele sempre arranjava um jeito de empregar “de modos que” nas frases e eu gostava muito de ver o professor de antebraços fortes empregando “de modos que” numa aula de educação física porque basicamente eu gosto de homens e mulheres com antebraços fortes e bem desenhados e muito mais de homens e mulheres com antebraços fortes e bem desenhados que usam “de modos que”.
O que era o caso dele.
Por isso também, nunca me casei – por nunca mais ter encontrado exatamente esse tipo de homem ou mulher.
Os homens e as mulheres não dizem mais “de modos que”.
Ou, quando dizem, não possuem antebraços fortes e bem desenhados.
Muito difícil encontrar essas duas coisas combinadas.
Eu, pelo menos, nunca mais encontrei.
Se você conseguiu, parabéns. Congratulations.
Mas não foi o meu caso.
O que não quer dizer que eu não esteja ótima. Na verdade, só contei isso para explicar por que eu parti.
Porque eu sempre fui o maior lixo jogando vôlei.
3. Aceitar que as coisas podem ficar ainda mais estranhas Mensagem a um interlocutor desconhecido.
É. Não sabem me dizer sobre o meu destino. (...digitando)
Não há passagens de volta nas companhias e quando pergunto ao atendente... (troca de linguagem/agora vemos a continuação da mensagem, mas narrada)
BH, sim, “bi-eidi”, Minas Gerais-Brasil, não sabem o que é “bi-eidi” e muito menos BH, eu repito BH-BRASIL, eles respondem, senhora, me perdoe, este destino não temos disponibilidade, com licença, senhora, libere a fila, excuse-me, madam, this is the line for Latin America, essa é a fila para América Latina, NEXT, próximo.
Eles me chamam de madam e em algum momento sempre perguntam o que uma madame como eu veio fazer em um lugar que não fala sua língua?
(...voltamos a ver apenas a digitação)
Sinto tontura.
Eu tenho cara de madam?
Tontura e náusea queimante.
É um tipo de ironia numa língua que eu não entendo?
(mensagem volta a ser narrada)
‘O que uma madam como a senhora veio fazer em um lugar que não fala sua língua? Please, madam’
(ela está furiosa)
Que língua eu deveria falar, sir?
Me diga, por favor. Que língua eu estou falando, fucking shit sir? Tontura e náusea queimante. “Esta língua é a minha pátria”, tem uma música no meu país que diz isso, sir!
Que língua é esta que o senhor acha que eu estou falando?
(ela está ofegante, alguém precisa acalmá-la.
Voltamos a ver apenas a digitação)
Me dei conta de que não entendo nenhuma língua direito, apenas a do meu país. (mensagem volta a ser narrada)
Você me entende enquanto tento contar este relato? O relato de uma viagem sem retorno?
Um relato ainda é um relato se não temos como voltar para o lugar de onde viemos?
Bom, mas parece que não consta. Nem tipo baldeação. Eu amo a palavra baldeação. Me faz pensar em coca-cola de máquina, livros de geografia e atlas de bolso.
Eu amo os atlas de bolso.
Mas a verdade é que o meu país aparentemente só consta no meu velho e manjado atlas de bolso. (mensagem volta a ser digitada)
É uma coisa muito estranha. (...digitando)
Sinto tontura e náusea queimante. (... digitando)
Uma coisa estranha pra valer.
4. Saber a diferença entre saque por baixo e saque por cima Imagens de partidas de vôlei de praia. Ou os atores jogam.
Porque, de alguma forma, pessoas com antebraços fortes e bem desenhados, ou melhor, bem ‘torneados’ porque ‘torneado’ me faz pensar em torneios com pessoas saudáveis e bronzeadas, ah, não importa, o que quero dizer é que, de alguma forma, homens e mulheres com antebraços fortes e torneados estão aptos a eficientes saques por cima.
O saque é a principal arma do vôlei, de modos que toda jogada começa com um saque, toda jogada termina com um corte explosivo que toca o chão, na verdade, os melhores jogadores de braços fortes e torneados abrem crateras explosivas com suas cortadas fulminantes no solo, entendeu? Se você não entende isso, você não entende nada de vôlei, você passou a vida fingindo que sabia o que era voleibol, mas você não sabe o que é voleibol se você não conhece a diferença entre sacar por cima e sacar por baixo.
Eu nunca consegui sacar por cima.
Já me senti muito humilhada por isso.
O meu saque por cima nunca foi capaz de ultrapassar a rede e chegar do outro lado e tocar o chão do adversário.
Na verdade, eu sempre era a última a ser escolhida, a que sobrava, aquela de quem diziam: ‘merda, alguém tem de ficar com ela’. Então, eu esperava no banco de reserva com meus fones de ouvido escutando Rita Lee porque levantava o meu astral que, você deve imaginar, ficava lá embaixo.
Música dançante.
Não tenho antebraços fortes e torneados, como pode-se comprovar.
Nunca tive força nem fibra nem músculos nem tendões nem autoconfiança nem vigor nem poder nem fúria suficiente para sacar por cima.
Muito menos fúria.
Alguém disse que você precisa de pelo menos uma porção de fúria para dar um belo saque por cima ou uma cortada capaz de abrir crateras no terreno adversário.
Eu estava à procura disso.
Eu estava à procura dessa fúria quando soube do vulcão. Desejava adquiri-la.
Mas fúria não é uma coisa assim que a gente compra no supermercado.
Você precisa fazer um caminho até ela. Uma peregrinação.
É isso que eu desejava quando soube do vulcão. O vulcão do outro lado do mundo que me fez partir, na verdade, a imagem daqueles amigos em uma
PARTIDA DE VÔLEI À SOMBRA DO VULCÃO.
Projeção:
uma turma de amigos joga vôlei à frente de um vulcão em erupção na Islândia.
Como se fosse um evento qualquer, como se a terra sob seus pés não estivesse em estado de fúria.
A mesma fúria que eu sempre procurei para conseguir dar um saque por cima numa partida de voleibol.
Por isso, quando vi a imagem, ou melhor, quando soube que aquele vulcão não pararia de cuspir fogo e fúria antes que eu o encontrasse, eu parti.
Eu sabia que eu não tinha muitos dias, ou melhor, eu sabia que eu precisava chegar a tempo porque a fúria não te espera, ela tem suas particularidades, a fúria em estado puro não para pelos indecisos medrosos cagões, ela só aceita os que peregrinaram por ela em sacrifício, a terra é rara e caprichosa quando se manifesta porque essa é a natureza efêmera dos portais.
Se não, não seriam portais. Seriam shoppings.
......
Por isso, eu arrumei as malas o mais rapidamente que eu pude e parti.
Parti em busca do vulcão.
Sílvia Gomez atua como dramaturga, roteirista e jornalista. Autora de peças como O céu cinco minutos antes da tempestade, Mantenha fora do alcance do bebê e Lady Tempestade. Suas peças foram traduzidas para o alemão, espanhol, francês, inglês, italiano, mandarim e sueco, tendo sido encenadas e lidas em países como Argentina, Bolívia, Colômbia, Escócia, Espanha, Inglaterra, México e Portugal. Em 2026, venceu o Prêmio Shell de Teatro e o Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA), com Lady Tempestade. Desde 2017, dá aulas de dramaturgia.
Adriana Komura nasceu em São Paulo (SP). É bacharel em Editoração pela Universidade de São Paulo. Ganhadora do prêmio de mérito da 47th e 49th Society of Publication Design (categoria Ilustração), também foi selecionada para o Prêmio Jabuti 2018 (categoria Ilustração) e para o World Illustration Awards 2023 (categoria Publicações).
Atualmente, atua como designer e ilustradora freelancer.
música PLURAL brasileira
Celso Tavares, gerente na TV Cultura, celebra retorno do programa Bem Brasil, que reestreia no canal e no SescTV com shows realizados no Sesc Itaquera
POR MARCEL VERRUMO
As manhãs de domingo ganham uma variedade de sonoridades com a reestreia neste mês do icônico programa Bem Brasil, exibido ao vivo, a partir das 12h, na TV Cultura e no SescTV. Assim como no projeto original – criado em 1991 e exibido até 2008 –, a proposta é ampliar o espaço para uma diversidade de músicos, sejam eles consagrados ou em ascensão, de diferentes origens e estilos Os shows são realizados nas dependências do Sesc Itaquera, na zona Leste da capital paulista, de onde também é possível assistir às apresentações presencialmente, de forma gratuita.
Gerente de produção do programa na época e hoje responsável por uma equipe de gestão integrada de operação e produção do novo
projeto, Celso Tavares celebra o retorno do programa à grade televisiva. O Bem Brasil foi um marco na história da televisão.
As gravações ocorriam na Cidade Universitária da Universidade de São Paulo (1991-1995) e, posteriormente, nas unidades do Sesc Interlagos (1995-2005) e Pompeia (2005-2008). “O sucesso do Bem Brasil era, entre outros motivos, porque ele falava com a família, unia todos em um horário muito bom. Também era um bom produto e um belo evento presencial”, recorda Tavares.
Caetano Veloso, Charlie Brown Jr., Bezerra da Silva (1927-2005), Barão Vermelho, Daniela Mercury e Zé Ramalho, entre outros, passaram pelos palcos do projeto, chegando aos lares de milhões de brasileiros, em um
momento de alta penetração da televisão aberta no país.
Neste Depoimento, Tavares relembra momentos de criação do programa e de seus primeiros anos, e compartilha as expectativas para o seu retorno. Também aborda os desafios de produzir a atração em um novo contexto midiático, marcado por uma multiplicidade de telas, e destaca o compromisso da TV Cultura, que tem como presidente Maria Angela de Jesus e como vice-presidente Beth Carmona, em produzir conteúdos alinhados à educação e à cidadania.
Bem Brasil
O programa, que é um patrimônio da TV Cultura, nasceu em maio de 1991. A TV Cultura tinha alguns programas musicais com certa segmentação, de música sertaneja
Nadja Kouchi
depoimento
raiz, de jazz. Na época, eu era gerente de produção e estávamos pensando em ter mais um programa musical. Entendíamos que éramos uma emissora pública e que faltava alguma atividade cultural aos finais de semana na cidade de São Paulo, que poderíamos oferecer algo à população. Nesse período, a Cidade Universitária [campus da Universidade de São Paulo (USP) no bairro do Butantã, na região Oeste da capital paulista] tinha um fluxo de famílias muito grande aos finais de semana. Então, surgiu a ideia de fazermos um evento de música gratuito para a população, que também fosse transmitido como um programa da TV Cultura.
estreia
Depois de um acordo com a reitoria da USP, fizemos uma intervenção no anfiteatro, criamos um cenário,
investimos em uma tenda branca muito bonita e estreamos. O Bem Brasil decolou com muita rapidez. Levávamos artistas de muito peso, as pessoas gostavam de participar. Foi um sucesso e, em 1995, o crescimento do programa levou a TV Cultura a buscar uma parceria com o Sesc. O Bem Brasil passou a ser transmitido do Sesc Interlagos e, a partir de 2005, foi transferido para o Sesc Pompeia. A gente já teve Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Titãs. Na época, o Wandi Doratiotto participava do [grupo musical] Premeditando o Breque, era um músico conhecido, que fazia publicidade e tinha certo humor na própria interpretação. A gente achou que ele cairia muito bem como apresentador. E realmente caiu como uma luva. O programa virou um evento que proporcionava o que nós
buscávamos, que era unir as famílias nas manhãs de domingo, e atingiu o alvo perfeitamente.
sucesso
O espaço na televisão para a música não era grande e a gente oferecia isso. Uma das funções da TV Cultura é mostrar a diversidade cultural do Brasil. Exibir um programa musical era algo que, com certeza, daria certo. Eu acho que o sucesso do Bem Brasil era, entre outros motivos, porque ele falava com a família, unia todos em um horário muito bom. Também era um bom produto e um belo evento presencial. A gente pensava em grandes nomes, mas também naqueles que a mídia não mostrava muito. Desde o início, o caminho sempre foi de apelo popular diverso, mostrando a diversidade regional e de gênero.
Belchior (1946-2017) em apresentação no Bem Brasil, realizada no Sesc Interlagos.
Acervo
depoimento
retorno
A TV Cultura tem muitas marcas icônicas: o Roda Viva, que está fazendo 40 anos; o Rá-Tim-Bum (1990-1994), o Castelo Rá-Tim-Bum (1996-1997), o Cocoricó (1996-2013), o Mundo da Lua (1991-1992). Estamos trabalhando para reativar algumas dessas marcas e o Bem Brasil estava na nossa meta. Queríamos voltar com o programa [as exibições foram encerradas em 2008] e surgiu a possibilidade de uma parceria com o Sesc. Temos uma expectativa muito boa para relançar esse produto. Hoje, trabalhamos com o conceito de ecossistema. Você tem uma multiplicidade de telas, então, o Bem Brasil vai estar presente no streaming, no YouTube. Temos uma área de digital bem estruturada e pretendemos estar em todas as telas. Com a TV 3.0, que vai ser uma união de televisão com internet, é preciso estar extremamente atento a isso. Haverá uma dinâmica maior de imagens e um detalhamento mais rico e diverso. Haverá uma unidade móvel de vídeo 4K, contando com câmeras fixas, duas gruas, câmera móvel e um drone para imagens aéreas. A ideia é captar o clima de lazer que o ambiente propõe, onde famílias se encontram e relaxam ao som de boa música e muito verde. A curadoria atual é feita a quatro mãos, pela TV Cultura e pelo Sesc. Temos uma lista que vai do pop ao samba, do pagode ao forró. Buscamos a diversidade não só em termos de gênero, mas também de regiões. Pensamos em mostrar a diversidade da música no Brasil, que é admirada no mundo inteiro.
TV Cultura
Fazemos uma televisão com compromissos de cidadania, de
formação de cidadãos. Temos obrigação de dar espaço na mídia para quem não está tendo espaço. Se você olhar a TV aberta hoje, você tem um espaço pequeno para atrações musicais, a não ser eventos específicos e que viram grandes shows, mostrados pelas redes maiores. Mas você praticamente não tem um programa musical fixo na grade. Com o Bem Brasil, a ideia é voltar a ter isso. A nossa obrigação é abrir esse espaço. Como TV pública, temos a consciência de que somos diferente do que é uma TV privada e com a característica comercial. Temos obrigações e compromissos com a sociedade, com a população, e isso nos move em termos de programação. Sempre houve a preocupação da TV Cultura em ser um espaço para a cultura, considerando a cultura em um sentido amplo.
televisão
A televisão aberta é uma mídia de massa. Eu, particularmente, acho que o Brasil conseguiu uma integração de um país continental por meio da televisão. Hoje, as classes A e B assistem muito menos, porque estão mais presentes no streaming do que na TV aberta. Mas mesmo com a competição com essas plataformas, a televisão ainda tem um papel muito grande nas classes C e D. A TV aberta, eu vou dizer isso até o fim, é o entretenimento mais barato que existe: você compra um aparelho e ele não custa mais nada. Mas o mundo midiático está cada vez maior, por isso a gente quer estar em todo ecossistema. A gente não pode ficar restrito.
carreira
Estou completando cinco décadas na televisão. Sou graduado em
Comunicação pela FAAP [Fundação Armando Alvares Penteado], nos anos 1970. No segundo ano da faculdade, comecei a trabalhar como redator na antiga TV Tupi. Depois, vim para a TV Cultura, fui produtor, diretor de programa. Então, comecei a acumular cargos executivos e passei a trabalhar em outras empresas [Celso trabalhou na MTV Brasil, Rede Bandeirantes e Globo, além de ter sido vice-presidente da FremantleMedia, produtora e distribuidora na qual produziu conteúdos para uma variedade de emissoras nacionais e internacionais]. Depois de cerca de 35 anos, voltei para a TV Cultura, que é uma casa da qual tenho lembranças incríveis. Televisão é o que eu quis fazer desde que eu me inscrevi para o vestibular. Talvez eu seja uma das poucas pessoas que fizeram exatamente o que queriam e estão trabalhando nisso até hoje. Eu sei fazer outras coisas? Talvez até saiba, mas, depois de tanto tempo, digo que sei fazer televisão e tenho vocação para isso.
compromisso
A televisão tem um lado de entretenimento muito grande e bastante utilizado pelas TVs privadas. Na TV pública, obviamente que trabalhamos com entretenimento, mas temos um compromisso com a educação, com a informação, com a formação de cidadania. A TV pública, cada vez mais, tem que ser uma prestadora de serviço para a população. Essa é a função da TV Cultura desde quando ela foi criada nos anos 1960. Eu vejo a televisão dessa forma. Por isso que, para mim, foi muito importante voltar para TV Cultura depois de grandes experiências em TVs privadas. Aqui, uno a minha vocação com o meu ideal.
ALMANAQUE
Na cara do gol
Espaços em São Paulo valorizam a cultura do futebol e apresentam histórias e personagens memoráveis
POR ALEXANDRE RAITH
Até se transformar na prática esportiva como conhecemos hoje, o futebol trilhou pelos campos ingleses, dividindo espaço com o rúgbi, esteve presente nos encontros da elite inglesa do século 19 e chegou às classes populares, como brincadeira em espaços improvisados. O esporte desembarcou oficialmente no Brasil no fim do mesmo século, trazido por Charles William Miller (1874-1953), considerado o “pai do futebol”, e rapidamente se tornou parte da identidade nacional. Aqui, ganhou sotaque próprio em campos de terra batida e em várzeas de rios.
Poucos países transformaram o futebol em expressão cultural tão ampla quanto o Brasil. “Extrapolou a própria ideia de esporte, o qual tem como foco a competição, mas que proporciona os mais fortes vínculos de pertencimento na vida das pessoas”, afirma Ademir Takara, bibliotecário do Centro de Referência do Futebol Brasileiro, setor responsável por pesquisar e documentar o acervo do Museu do Futebol. “E a devoção pode ser explicitada por meio de outras atividades como o colecionismo de camisas ou figurinhas”, completa.
A história do futebol brasileiro também é contada pelos pés de seus craques. De Pelé (1940-2022) a Marta, passando por Garrincha (1933-1983), Zico, Romário e Ronaldo. As cinco conquistas da seleção masculina, em 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002, ajudaram a eternizar o Brasil como referência mundial do esporte. A expectativa cresce para o torneio mundial em 2026, o primeiro disputado em três países e o maior da história, com 48 seleções.
Já o futebol feminino, durante décadas negligenciado e até proibido no Brasil entre 1941 e 1979, vive um momento de reconstrução histórica. A geração liderada por Marta abriu caminhos para novas atletas e fortaleceu debates sobre igualdade e investimento. Em 2027, o país sediará a Copa do Mundo Feminina da FIFA, tornando-se a primeira nação sul-americana a receber o torneio.
Mas o futebol brasileiro sobrevive também na várzea, nos campeonatos de bairro, nos narradores de rádio, nos hinos e nas coleções de camisas, flâmulas, ingressos e álbuns de figurinhas. Além de ocupar bibliotecas e de movimentar livrarias especializadas. Neste Almanaque, destacamos quatro espaços para conhecer o universo do futebol, além de curiosidades sobre a criação dos hinos dos clubes.
No Museu do Futebol, na zona Oeste de São Paulo, imagens, sons e relatos contam a história e celebram a modalidade.
TERRA BATIDA
O futebol de várzea se expandiu a partir da prática na região da Várzea do Carmo, no centro de São Paulo, às margens do rio Tamanduateí, no século 19. Com a expansão urbana na área central, a prática se deslocou para bairros periféricos, em campos de terra batida. As equipes eram informais, ligadas a comunidades e fábricas. Hoje, a Federação Paulista de Futebol Varzeano (FPFV) reúne cerca de 3 mil times cadastrados, que participam de torneios municipais e regionais e de copas independentes. Além de competir, essas agremiações exercem um papel de sociabilidade e convivência. “São símbolos de identidade local, fortalecem vínculos comunitários e
oferecem caminhos para jovens dentro e fora de campo. São fundamentais para a organização dos bairros e para a inclusão social”, afirma José Soares de Miranda, presidente da entidade. Espaços públicos, como o Parque Sete Campos, na Cidade Ademar, se consolidaram como pontos de encontro para a tradicional pelada.
Parque Sete Campos
Estrada do Alvarenga, 2.781, Cidade Ademar. São Paulo-SP Aberto diariamente, das 7h às 19h. Grátis.
Nilton Fukuda
No Parque Sete Campos, em Cidade Ademar, na zona Sul da capital, futebol de várzea resiste.
ALMANAQUE
HINOS
A origem dos hinos revela como cultura, história e futebol caminham juntos. O caso mais emblemático é o do cantor Lamartine Babo (1904-1963) que, após ser desafiado em um programa de rádio, nos anos 1940, criou 11 marchinhas para clubes cariocas, como Flamengo, Vasco, Botafogo, Fluminense, Bangu e América, esse último, o seu time do coração. Enquanto o cantor Lupicínio Rodrigues (1914-1974) assinou o hino do Grêmio, em 1953. Nos campos paulistas, o Corinthians adotou a versão do radialista Lauro D’Ávila (falecido em 1985), lançada em 1952, que conquistou a torcida com o refrão “campeão dos campeões”. Já o do Palmeiras tem relevância histórica. Composto em 1949 pelo maestro Antônio Sergi (1913-2003), surgiu anos após a mudança de Palestra Italia para a denominação atual, motivada por um decreto do governo brasileiro durante a Segunda Guerra Mundial que proibiu agremiações de utilizarem denominações ligadas aos países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão).
ACERVO LITERÁRIO
Com cerca de 900 títulos, a Livraria Barrilete, na Bela Vista, no Centro de São Paulo, consolidou-se como a primeira do país dedicada exclusivamente ao futebol. A ideia surgiu em 2021, quando o sócio Carlos Nakaharada conheceu lojas temáticas em Montevidéu (Uruguai) e Buenos Aires (Argentina) durante uma viagem para acompanhar a final da Copa Libertadores da América. De volta a São Paulo, decidiu investir nesse nicho. Leitor assíduo, ele já mantinha uma biblioteca particular voltada ao tema, além de uma coleção de camisetas de clubes e seleções, exibidas ocasionalmente na vitrine. O nome da livraria homenageia o “barrilete cósmico”, expressão eternizada na narração argentina do segundo gol de Diego Maradona (1960-2020) contra a Inglaterra na Copa do Mundo de 1986. “Ele foi um personagem folclórico na história do futebol mundial”, diz Nakaharada.
Livraria Barrilete
R. Dr. Luís Barreto, 103, Bela Vista, São Paulo-SP De quarta a domingo, das 14h às 20h. Grátis. Mais informações: instagram.com/livrariabarrilete
Arquivo Nacional
Lamartine Babo (com microfone à mão), criador de 11 marchinhas para clubes cariocas, como Flamengo, Vasco, Botafogo, Fluminense, Bangu e América.
Livraria Barrilete, na Bela Vista, no Centro de São Paulo, é considerada a primeira do país dedicada ao futebol.
HISTÓRIA E CULTURA
Ao percorrer as 18 salas expositivas do Museu do Futebol, na zona Oeste de São Paulo, o visitante vive uma jornada sensorial em que imagens, sons e relatos contam a história e celebram a cultura da modalidade masculina, feminina e de várzea. Identidade, diversidade e inclusão são temas que levam à reflexão sobre como essa paixão nacional atravessou classes sociais, influenciou comportamentos e se tornou identidade nacional. “A valorização do futebol feminino é um dos pilares do museu, refletindo o compromisso em ampliar narrativas e dar visibilidade a histórias que por muito tempo foram apagadas. O futebol de várzea se expressa tanto na exposição principal quanto
na programação de mostras temporárias, evidenciando sua importância na formação da cultura futebolística”, conta Takara. Em 2026, a exposição Amarelinha homenageia a célebre camisa da Seleção Brasileira.
Museu do Futebol
Praça Charles Miller, s/n, Pacaembu. São Paulo-SP De terça a domingo, das 9h às 18h. Entrada: R$24 (inteira) e grátis para crianças até 7 anos. Entrada gratuita às terças-feiras. Mais informações: museudofutebol.org.br
Há mais de um século, brasileiras driblam desafios e avançam campo adentro, conquistando reconhecimentos.
MULHERES EM CAMPO
O Brasil carrega na trajetória do futebol feminino marcas de resistência e atraso estrutural. Mulheres já jogavam desde os anos 1920, mas a prática foi proibida em 1941 por decreto do presidente Getúlio Vargas (1882-1954), permanecendo ilegal até 1979 e sendo oficialmente regulamentada apenas em 1983. Apesar desse cenário, o país tornou-se uma potência ao participar de todas as edições do torneio mundial, com destaque para o vice-campeonato em 2007 e o surgimento de ícones
como a jogadora Marta, eleita seis vezes a melhor do mundo. A elite do Campeonato Brasileiro reúne 18 equipes, das quais seis são paulistas, entre elas a Ferroviária, que criou o time feminino em 2001, muito antes dos principais clubes paulistas e cariocas. “O fomento é consolidado com as categorias de formação. É um espelho para agremiações que almejam ter um projeto esportivo voltado às mulheres”, afirma Nuty Silveira, diretora da modalidade na Ferroviária.
Ler é transitar: entre bibliotecas, livros e pela literatura brasileira
O primeiro contato de que me lembro com um livro aconteceu por volta dos meus cinco anos de idade. Embora os detalhes tenham se perdido na memória, permanece viva a lembrança de um exemplar repleto de ilustrações que despertou em mim um encantamento imediato, como se aquelas páginas revelassem um universo até então desconhecido. Presente de minha mãe, aquele livro refletia o incentivo que ela e meu pai dedicavam à leitura em nossa casa. Ao longo da infância, outros livros chegaram, provocando experiências literárias que, desde cedo, passaram a alimentar minha imaginação.
Logo as bibliotecas surgiram em minha vida: além de visitas semanais à unidade da escola, conduzidas pela professora ao lado de toda a turma, recordo-me que a descoberta de um ônibus biblioteca na região despertou intensamente minha curiosidade. Tratavase de um serviço público que disponibilizava o empréstimo de livros em áreas periféricas da capital. Empolgado, insisti para que minha mãe realizasse meu cadastro e, pouco tempo depois, lá estava eu emprestando um título após o outro. Para mim, ainda criança na Vila Brasilândia dos anos 1980, aquele ônibus era algo extraordinário, como se a literatura, em vez de permanecer distante, nas prateleiras das bibliotecas, atravessasse a cidade para se aproximar das pessoas, encurtando caminhos e ampliando o acesso à informação e ao conhecimento.
À medida que amadurecia como leitor, passei a buscar novos espaços e possibilidades de leitura. Mais do que os livros em si, os ambientes das bibliotecas se tornaram verdadeiros espaços de inspiração e acolhimento. Em meio a esse transitar, o que mais gostava era perder-me nas longas fileiras de estantes dos acervos recém-descobertos e explorar
os grandes arquivos com fichas que indicavam a localização das obras nas prateleiras. Aos poucos, a literatura revelou-se para mim não apenas como uma manifestação artística, mas também como um poderoso retrato das múltiplas culturas, vivências e identidades que dão forma à nossa sociedade. Nesse percurso, movido pelo fascínio despertado pelas bibliotecas e pelos livros, decidi cursar Biblioteconomia.
Hoje, imagino ter sido na atmosfera envolvente das bibliotecas que aprendi a reconhecer a força dos atravessamentos proporcionados pela literatura brasileira, sobretudo a contemporânea. Encontrei na arte da palavra um território vibrante de diversidade e inventividade, que é, cotidianamente, a minha fonte de pesquisa, fruição e desenvolvimento pessoal e profissional. De modo que se torna impossível não celebrar a presença marcante dessas vozes, que ecoam para além das margens, atravessam fronteiras e fazem ressoar, mundo afora, a riqueza da nossa literatura.
Atuando como bibliotecário nas bibliotecas do Sesc São Paulo, sigo acreditando no fomento desta produção literária transformadora, capaz de expandir horizontes e ampliar as formas de compreendermos a nós mesmos e à nossa coletividade. Da mesma forma, acredito ser essencial valorizar a apropriação das bibliotecas pelas comunidades, para a reafirmação desses espaços como ambientes de encontros, imaginação e pertencimento. Assim como foram e ainda são para mim.
Marco Antonio Rosa Junior é graduado em Biblioteconomia, com especialização em Educação, Leitura e Biblioteca. Atua como bibliotecário no Sesc Pinheiros.