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Revista E - Janeiro 2026

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Foco nos esportes Por que algumas modalidades têm mais destaque?

Abrir caminhos Ancestral e sagrado na obra de Nádia Taquary

Revista E | janeiro de 2026 nº 7 | ano 32

Legado do diretor Bob Wilson na cena brasileira

Teatro expandido

Infâncias participam do planejamento urbano

Cidade das crianças


ESPORTE É MOVIMENTO 3 DE JANEIRO — 15 DE FEVEREIRO DE 2026


PROGRAMAÇÃO GRATUITA COM A PARTICIPAÇÃO DOS ATLETAS Ana Marcela • Maratona Aquática Ana Sátila • Canoagem Bia Souza • Judô Bruna Alexandre • Tênis de Mesa Paralímpico Carol Gataz e Marcia Fu • Vôlei Duda e Ana Patrícia • Vôlei de Praia Flavia Saraiva, Julia Soares e Lorrane Oliveira • Ginástica Artística Gabrielzinho • Natação Paralímpica Kelvin Hoefler e Pamela Rosa • Skate Petrucio Ferreira • Atletismo Seleção Brasileira de Ginástica Rítmica E MUITO MAIS!

sescsp.org.br/sescverao


CAPA: Detalhe da escultura em bronze Mulher Peixe (2021), de Nádia Taquary, presente na exposição Ò.nà Irin: caminho de ferro, em cartaz no Sesc Belenzinho até 22 de fevereiro. A partir da tradição africana da fundição de metais e da joalheria afro-brasileira, a artista visual baiana cria um universo onírico para reverenciar o legado ancestral de mulheres negras e destacar a importância do poder feminino para o equilíbrio do mundo. Com curadoria de Amanda Bonan, Ayrson Heráclito e Marcelo Campos, a mostra reúne 22 obras de diferentes momentos da carreira da artista, entre esculturas, objetos-esculturas, instalações e uma videoinstalação. Saiba mais na matéria gráfica desta edição. Crédito: Nilton Fukuda

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Legendas Acessibilidade

Em estabelecimentos de uso coletivo é assegurado o acompanhamento de cão-guia. As unidades do Sesc estão preparadas para receber todos os públicos.

O futuro que se avizinha O começo de um novo ano sempre convida à renovação de metas e objetivos e ao planejamento dos caminhos que desejamos seguir. Para projetar o futuro, é igualmente importante revisitar nossa trajetória, reconhecendo o que nos sustentou até aqui e o que continua a nos motivar. Em 1945, na cidade de Teresópolis (RJ), representantes do setor produtivo brasileiro firmaram o compromisso de contribuir para o desenvolvimento nacional e promover o bem-estar social. No ano seguinte, era criado o Sesc – Serviço Social do Comércio, com a missão de ampliar a qualidade de vida dos trabalhadores do comércio de bens, serviços e turismo, de suas famílias e de toda a comunidade. Em 2026, celebramos com orgulho os 80 anos dessa história. Ao longo de oito décadas, o Sesc consolidou sua presença por meio de uma programação abrangente nos campos da cultura, dos esportes, do lazer, do turismo, da saúde e da alimentação. Com 44 centros culturais e esportivos espalhados pelo estado, e na iminência de inaugurar duas novas unidades, Parque Dom Pedro II e Marília, ainda neste primeiro semestre, a entidade promove cursos, oficinas e apresentações que incentivam encontros, ampliam repertórios e fortalecem o desenvolvimento pessoal e coletivo. Que este novo ano seja mais uma oportunidade para reafirmar e expandir esse projeto transformador, cuja importância segue essencial para a sociedade. Abram Szajman Presidente do Conselho Regional do Sesc no Estado de São Paulo


SERVIÇO SOCIAL DO COMÉRCIO – SESC Administração Regional no Estado de São Paulo Av. Álvaro Ramos, 991 – Belenzinho CONSELHO REGIONAL DO SESC EM SÃO PAULO Presidente: Abram Abe Szajman Diretor do Departamento Regional: Luiz Deoclecio Massaro Galina Efetivos: Arnaldo Odlevati Junior, Benedito Toso de Arruda, Dan Guinsburg, Jair Francisco Mafra, José de Sousa Lima, José Maria de Faria, José Roberto Pena, Manuel Henrique Farias Ramos, Marcus Alves de Mello, Milton Zamora, Paulo Cesar Garcia Lopes, Paulo João de Oliveira Alonso, Paulo Roberto Gullo, Rafik Hussein Saab, Reinaldo Pedro Correa, Rosana Aparecida da Silva, Valterli Martinez, Vanderlei Barbosa dos Santos. Suplentes: Aguinaldo Rodrigues da Silva, Antonio Cozzi Junior, Antonio Di Girolamo, Antônio Fojo Costa, Antonio Geraldo Giannini, Célio Simões Cerri, Cláudio Barnabé Cajado, Costabile Matarazzo Junior, Edison Severo Maltoni, Omar Abdul Assaf, Sérgio Vanderlei da Silva, Vilter Croqui Marcondes, Vitor Fernandes, William Pedro Luz. REPRESENTANTES JUNTO AO CONSELHO NACIONAL Efetivos: Abram Abe Szajman, Ivo Dall’Acqua Junior, Rubens Torres Medrano Suplentes: Álvaro Luiz Bruzadin Furtado, Marcelo Braga

Inspirações que o esporte proporciona São de amplo conhecimento da sociedade os benefícios alcançados com a atividade físico-esportiva. Adotar uma rotina ativa, com a prática regular de exercícios, é a recomendação essencial no campo da saúde, com efeitos prolongados ao longo de toda a vida. Escolher uma modalidade com a qual se tenha afinidade é o ponto de partida para o esporte como uma fonte de prazer e bem-estar, garantindo que o praticante permaneça ativo a médio e longo prazo. Mais do que pelo caminho da racionalidade, os parâmetros para a tomada dessa decisão são muitas vezes norteados pelo que o esporte nos traz de intangível. É sobre o encantamento que sentimos ao acompanhar o desempenho de atletas que se desafiam, superam marcas e inspiram gerações de torcedores. Não se trata, portanto, da vitória explicitada pelo pódio, mas das histórias desses protagonistas. Reportagem dessa edição da Revista E reflete sobre as razões que levam determinadas modalidades esportivas a se tornarem populares, enquanto outras lutam para ampliar acesso e visibilidade, atraindo novos praticantes. Um convite para refletir e para adotar um esporte para chamar de seu, como uma resolução positiva num novo ano que se inicia. Boa leitura! Luiz Deoclecio Massaro Galina Diretor Regional do Sesc São Paulo

CONSELHO EDITORIAL | Revista E Adriana Martins Dias, Alan Dias Fernandes, Aline Moreira da Silva Tafner Almeida, Alisson Fabiano Sbrana, Ana Carolina Garcez de Castro, Ana Marilia de Souza Silva, Ana Paula Neves Cabral de Vasconcellos, Anna Raissa Costa Silva, Antonio Carlos F Barbosa, Antonio Fábio Pontes Araújo, Barbara Santos Andre, Branca Zilberleib, Camila Oliveira Silva, Carolina Balza, Carolina Vidal Ferreira, Caroline Figueira Zeferino, Caroline Souza de Freitas, Cecilia Ferreira de Nichile, Christi Lafalce, Claudia Dias Perez Machado, Corina de Assis Maria, Cristina Balland, Deise Lima Moreira, Deleni Mesquita, Denise Ramos da Fonseca, Desiane Pereira da Silva, Diana Gama Santos, Diego Olivares, Diego Polezel Zebele, Diogenes Diviziis, Edmar Rodrigues de Fátima Júnior, Elmo Sellitti Rangel, Felipe Campagna de Gaspari, Fernanda Porta Nova Ferreira da Silva, Fernanda Suemi Perruso, Flavia Teixeira S Coelho, Francisca Meyre Martins Vitorino, Francisco Arlindo Alves, Gabriela Camargo das Graças, Gabriela Grande Amorim, Gabriella Pereira Rocha, Gleiceane Conceição Nascimento, Guilherme Barreto, Heloisa Pinto Ururahy, Helton Henrique Cassiano, Henrique Vizeu Winkaler, Igor Carlos Jatoba Basto, Ivan Lucas Araujo Rolfsen, Ivy Beritelli Jose de Souza, Ivy Granata Delalibera, Janete Bergonci, Joao Ricardo Cotrim Dias, Joao Victor Brito da Silva, Joelme Ismael de Melo, Juliana Neves dos Santos, Julio Ibelli, Karen Cristine Pimentel dos Santos, Lara Fernandes Andrade Teodoro, Leandro Aparecido Pereira, Leandro Henrique da Silva Vicente, Leticia Maciel Amorim da Silva, Lizandra Magalhaes, Luciana Fernanda Vivian de Lemos, Marcelo Baradel, Marcelo Dias de Carvalho, Maria Rizoneide Pereira dos Santos, Mariano Ribeiro da Silva, Marina Reis, Mario Augusto Silveira, Milena Ostan da Luz, Monica Calmon Braga Mendonca, Monique Mendonça dos Santos, Natalie Ferraz Kaminski, Nathalia Quarz Magalhaes, Priscila de Almeida Xavier, Priscila dos Santos Dias, Priscila Rahal Gutierrez, Renata Barros da Silva, Renato Shigueru Yoshinaga, Ricardo Lemos Antunes Ribeiro, Ricardo Tacioli Serafini, Roberta Beatriz Bernardo, Rosana Abrunhosa de Souza, Safhira Delmondes Rodrigues de Sousa, Sandra Ribeiro Alves, Sara Maria da Silva, Sonoe Juliana Ono Fonseca, Stephany Tiveron Guerra, Talita Ferreira dos Santos, Tania Regina da Silva, Tatiana Busto Garcia, Tatiana Fujimori, Tayna Guimaraes Vieira de Oliveira, Thais Amendola, Thais Ferreira Rodrigues, Thamires Magalhaes Motta, Thiago da Silva Costa, Tiago de Souza, Valeria Mantovani de Andrade Alves, Vanessa Ferreira da Silva, Vanusa Soares Souza, Vivianne de Castro. Coordenação-Geral: Ricardo Gentil Coordenação-Executiva: Ligia Moreli e Silvio Basilio Editora-Executiva: Adriana Reis Paulics • Edição de Arte e Diagramação: Lucas Blat • Edição de Textos: Adriana Reis Paulics, Marcel Verrumo, Maria Júlia Lledó e Rachel Sciré • Revisão de Textos: Pedro P. Silva • Edição de Fotografia: Nilton Fukuda • Repórteres: Diego Olivares, Lucas Veloso, Luna D'Alama, Marcel Verrumo, Maria Júlia Lledó, Marina Pereira, Rachel Sciré e Vanessa D'Amaro • Coordenação Editorial Revista E: Adriana Reis Paulics, Marina Pereira, Marcel Verrumo e Rachel Sciré • Propaganda: Edmar Júnior, Jefferson Santanielo, Julia Parpulov e Vitor Penteado • Apoio Administrativo: Juliana Neves dos Santos e Talita Ferreira dos Santos • Arte de Anúncios: Alexandre Calderero, Frederico Zarnauskas, Gabriela Batista Borsoi, Geysa Bernardes, Humberto Mota, Leandro Vicente e Walter Cruz • Supervisão Gráfica: Rogerio Ianelli • Criação Digital Revista E: Cleber Paes e Rodrigo Losano • Circulação e Distribuição: Vanessa Zago Jornalista responsável: Adriana Reis Paulics (MTB 37.488). A Revista E é uma publicação do Sesc São Paulo, sob coordenação da Superintendência de Comunicação Social Distribuição gratuita. Nenhuma pessoa está autorizada a vender anúncios. Esta publicação está disponível para retirada gratuita nas unidades do Sesc São Paulo e também em versão digital, em sescsp.org.br/revistae e no aplicativo Sesc SP para tablets e celulares (Android e IOS). Fale conosco: revistae@sescsp.org.br


SUMÁRIO

entrevista

esporte

bio

gráfica

infância

O legado deixado para o teatro brasileiro pelo diretor estadunidense Bob Wilson, que marcou presença com montagens como a original Garrincha: Uma ópera das ruas (2016)

dossiê

Entre os destaques de janeiro, documentários inéditos exibidos pelo SescTV retratam a saúde pública no Brasil

Os caminhos abertos pela ancestralidade feminina na obra da artista visual Nádia Taquary

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p.16

p.24

p.34

p.40

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Nilton Fukuda (Entrevista e Gráfica); Alf Ribeiro (Bio)

Em resposta à sociedade do cansaço, o pesquisador Sandro Carnicelli, professor da University of the West of Scotland, no Reino Unido, reflete sobre direito ao lazer

Proposta Cidade das Crianças, do psicopedagogo italiano Francesco Tonucci, sugere transformação do espaço urbano a partir da escuta das infâncias

Diante da popularidade de certas modalidades esportivas, atletas compartilham reflexões sobre o que leva algumas ao sucesso midiático e de que forma esse jogo pode virar


Linguista e fundadora da Rádio Novelo, Branca Vianna discute o cenário dos podcasts no Brasil, desafios do mercado e fidelização do público

Conheça como diferentes culturas ao redor do mundo celebram à sua maneira, e em datas distintas, o fechamento de um ciclo para a chegada do Ano Novo

Nina Rizzi (poesia) e Lumina Pirilampus (ilustração)

encontros

inéditos

depoimento

almanaque

P.S.

Mario Augusto Silveira

em pauta

Ângela Siemsen (Encontros); Rodrigo Palazzo (Depoimento); Paulo Pinto/EBC (Almanaque)

Artigos de Cristiane Rogerio e Ilan Brenman abordam o papel dos livros na formação de jovens leitores, a diversidade de temas e os rumos da literatura infantojuvenil

Documentarista Jorge Brennand Jr. fala sobre o processo criativo por trás das câmeras e seu mais recente trabalho, Todos os olhos, um retrato do músico Tom Zé

p.60

p.66

p.70

p.74

p.78

p.82


Programação para quem deseja experimentar sons, ritmos e diversos instrumentos. Participe de atividades coletivas, cursos de curta duração, oficinas, vivências e apresentações para todas as idades e níveis de experiência. 17/1 a 1/2 Nas unidades Consolação, Vila Mariana, Guarulhos, Jundiaí e Santos.


Matheus José Maria

em cena

Uma epidemia de cegueira assola a cidade, privando seus habitantes de enxergar o mundo como antes. A obra clássica Ensaio sobre a cegueira (1995), do autor português e Prêmio Nobel de Literatura José Saramago (1922-2010), ganhou adaptação para os palcos pelo Grupo Galpão. Na montagem (Um) ensaio sobre a cegueira, que esteve em cartaz até 14/12, no Sesc 24 de Maio, o elenco apresentou a história de um homem que, repentinamente, se torna cego. A condição se espalha, provocando uma crise moral e ética, alterando as percepções sobre a vida coletiva. A montagem ainda contou com o ingresso experiência, que convidou 14 pessoas do público para subir ao palco em cada sessão, de olhos vendados, e participar do enredo. Direção e dramaturgia de Rodrigo Portella.

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CURSO SESC DE GESTÃO CULTURAL Inscrições para o processo seletivo: de 5 a 21 de janeiro de 2026 Informações: sescsp.org.br/csgc2026


DOSSIÊ Silvio Tendler (1970-2025), parte da história de pacientes internados em hospitais públicos durante a pandemia de Covid-19 para abordar a importância do Sistema Único de Saúde (SUS). De acordo com a última Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), de 2019, cerca de 70% da população brasileira depende exclusivamente do atendimento público. O filme relata desde a criação do SUS, prevista pela Constituição de 1988, até o atual funcionamento em todo o país.

No documentário Medicina: uma escola para menina (2024), de Renata Lago Philippi, sete médicas cariocas, formadas entre 1930 e 1990, falam sobre preconceitos e desafios do curso de medicina ao exercício da profissão.

Olhares sobre a saúde Documentários inéditos, exibidos pelo SescTV, apresentam reflexões sobre a saúde pública no Brasil, com foco nas histórias de médicos e pacientes

SescTV/Divulgação

E

m janeiro, o SescTV exibe o Especial Saúde, uma programação com três documentários inéditos que partem do depoimento de profissionais da área e de pacientes para abordar perspectivas históricas, sociais e políticas da saúde no país. “Essa seleção de filmes apresenta reflexões importantes sobre políticas públicas, desigualdade social e questões de gênero, que dialogam com um entendimento mais amplo e integral da saúde, considerando, além da dimensão biológica, as dimensões psicológica, social e cultural”, explica Fernando Amodeo Tuacek, gerente do Sesc Digital.

Em 2025, as mulheres se tornaram, pela primeira vez, a maioria entre os médicos no país, como apontou a pesquisa Demografia Médica no Brasil. No documentário Medicina: uma escola para menina (2024), dirigido por Renata Lago Philippi, que estreia dia 9/1, relatos de sete médicas cariocas, formadas entre 1930 e 1990, trazem à tona preconceitos de gênero enfrentados no ingresso do curso de medicina até o exercício cotidiano da profissão. Com estreia no dia 16/1, o filme Saúde tem cura (2025), um dos últimos realizados pelo diretor

Já o documentário Paulo e Eliana (2024), de Caue Angeli e Neide Duarte, acompanhou Paulo Henrique Machado e Eliana Zagui, acometidos por um surto de poliomielite na década de 1980, e que dividiram um quarto na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital das Clínicas por treze anos. No filme, que estreia dia 23/1, eles falam sobre suas vidas para além dos muros do hospital, quando trabalhavam como artistas e escritores. Assista em sesctv.org.br/noar. Disponível também no app e plataforma sesc.digital.

A seleção de filmes apresenta reflexões importantes sobre políticas públicas, desigualdade social e questões de gênero Fernando Amodeo Tuacek, gerente do Sesc Digital 11 | e


DOSSIÊ

Poder feminino

Lia de Itamaracá e Daúde estreiam parceria no disco Pelos olhos do mar (Selo Sesc), com canções compostas por Otto, Emicida, Karina Buhr, Céu e outros compositores.

TRADIÇÃO E MODERNIDADE O Selo Sesc lançou, no dia 27/11, Pelos olhos do mar, álbum que apresenta a parceria fonográfica entre as cantoras Lia de Itamaracá e Daúde. Com produção de Pupillo e Marcus Preto, o álbum reúne 10 faixas que transitam entre clássicos da música brasileira, incluindo cirandas, cocos e boleros, e canções compostas especialmente para o projeto. A faixa que dá nome ao disco, “Pelos olhos do mar”, foi escrita

por Otto, a partir de uma base de Pupillo. Já “Santo Antônio da Boa Fortuna”, de Emicida, é uma oração que busca entrelaçar a tradição e a modernidade, representadas pela união das cantoras. Chico César, Karina Buhr, Céu e Russo Passapusso também fazem parte do time de compositores. O álbum está disponível nas principais plataformas de música e em formato físico nas Lojas Sesc. Escute em sescsp.org.br/selosesc

Em cartaz no Sesc Pompeia desde agosto de 2025, a exposição O poder de minhas mãos será prorrogada até 26/04. A mostra é uma circulação da exposição homônima The power of my hands, organizada pelos governos do Brasil e da França, em parceria com o Museu de Arte Moderna de Paris. Com curadoria de Odile Burluraux, Suzana Sousa e Aline Albuquerque, a mostra é uma representação coletiva da produção artística de mulheres do Brasil, da França, do continente africano e da diáspora. Ao todo, 25 artistas compõem os quatro eixos curatoriais: “Estórias pessoais”, “Histórias e ficções”, “Pessoal é político” e “Performances”. A exposição propõe novas possibilidades de “olhar” o mundo, provocando a reinvenção de imaginários e representações. Confira em sescsp.org.br/opoder

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experiência com a pobreza, o racismo, o alcoolismo e a homossexualidade vivenciadas durante a infância, e que se tornariam temas de sua obra literária. Com os atores Malu Galli e Tiago Martelli, a temporada vai até dia 8/2, de quinta a sábado, às 20h, e domingos, às 18h. Saiba mais em sescsp.org.br/14bis

João Pacca

Adaptação da obra do jovem escritor francês Édouard Louis, a peça Mulher em fuga estreia no Sesc 14 Bis.

Com direção da atriz, escritora e dramaturga Inez Viana, o espetáculo Mulher em fuga estreia no Sesc 14 Bis no dia 15/1. A peça é uma adaptação dos livros de autoficção Monique se liberta (Todavia, 2024) e Lutas e metamorfoses de uma mulher (Todavia, 2023), do escritor francês Édouard Louis, que parte da própria

Navaneli Mesquita

DA LITERATURA AO PALCO


DOSSIÊ CENA NEGRA BRASILEIRA Para celebrar os 80 anos do Teatro Experimental do Negro (TEN), as Edições Sesc São Paulo e a Editora Perspectiva lançam a edição comemorativa do livro Teatro Experimental do Negro: testemunhos e ressonâncias, organizado por Abdias Nascimento (1914-2011), Elisa Larkin Nascimento e Jessé Oliveira. O livro reúne passado e

presente da cena teatral negra brasileira, por meio da articulação de testemunhos de Guerreiro Ramos (1915-1982), Roger Bastide (1898-1974), Florestan Fernandes (1920-1995) e Augusto Boal (19312009) com textos de artistas e pesquisadores contemporâneos, como Hilton Cobra, Onisajé, Cristiane Sobral e Aldri Anunciação.

A publicação foi realizada com apoio do Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (Ipeafro), responsável pela preservação do acervo de Abdias Nascimento. A obra traz ainda um ensaio fotográfico histórico de José Medeiros, que registrou a força estética e política das montagens do TEN. Saiba mais em sescsp.org.br/edicoes

As Edições Sesc São Paulo e a Editora Perspectiva lançam a edição comemorativa do livro Teatro Experimental do Negro: testemunhos e ressonâncias, que reúne textos de artistas e pesquisadores do passado e do presente, além de imagens de um acervo histórico.

José Medeiros

Reencantar para resistir Para marcar o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, instituído pela Lei nº 11.635/2007, em homenagem à Ialorixá Mãe Gilda de Ogum, o Centro de Pesquisa e Formação (CPF) do Sesc realiza em 21/1 o curso Reencantar para resistir:

tecnologias de Axé contra a intolerância religiosa. A atividade será conduzida pelo professor doutor em semiótica e linguística geral pela Universidade de São Paulo (USP) e Babalorísà Sidnei Nogueira de Sàngó. Os módulos, apresentados das 11h

às 18h, abordarão tecnologias de cura, modos de existir e epistemologias do Axé que sustentam os povos de terreiro há séculos, além de estratégias práticas para combater o racismo religioso. Inscreva-se em sescsp.org.br/cpf

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Ricardo Ferreira

FAÇA SUA CREDENCIAL PLENA

A Credencial Plena do Sesc é um benefício gratuito para pessoas com registro em carteira, que são estagiárias, temporárias, se aposentaram ou estão desempregadas há até dois anos em empresas do comércio de bens, serviços e turismo e seus dependentes familiares. Com a Credencial Plena você tem acesso prioritário e descontos na programação e serviços pagos do Sesc. Qual é a validade da Credencial Plena?

Como fazer a Credencial Plena?

Relacionamento com Empresas

A Credencial Plena tem validade de até 2 anos - para estagiários a validade da Credencial corresponde ao período de vigência do estágio e para desempregados a validade é de até 24 meses após a rescisão do contrato de trabalho..

On-line pelo aplicativo Credencial Sesc SP ou pelo site centralrelacionamento.sescsp.org.br. Se preferir, nesses mesmos canais, é possível agendar horários para realização desses serviços presencialmente, nas Centrais de Atendimento das unidades.

É o programa que facilita o acesso ao credenciamento dos funcionários das empresas parceiras dos ramos do comércio de bens, serviços e turismo. Nessa parceria, além do credenciamento, os aproximamos de nossa vasta programação e serviços. Saiba mais em sescsp.org.br/empresas

Quem pode ser dependente na Credencial Plena? • • • •

Cônjuge ou companheiro de união estável de qualquer gênero Filho, enteado, irmão, neto, tutelado e pessoa sob guarda com até 24 anos Pai, mãe, padrasto e madrasta Avôs e avós

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Acesse o texto Tudo o que você precisa saber sobre a Credencial Plena do Sesc


Com um catálogo plural e de alta qualidade, as Edições Sesc oferecem livros que promovem o acesso à educação, às artes e à cultura. Nossos títulos são cuidadosamente selecionados para estimular o pensamento crítico e o diálogo sobre temas relevantes da atualidade.

saiba mais


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entrevista

Desfrutar do tempo livre Pesquisador e educador físico Sandro Carnicelli reflete sobre o direito ao lazer em uma sociedade exausta, e como colocá-lo em prática pode promover o desenvolvimento social POR MARCEL VERRUMO FOTOS NILTON FUKUDA

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rincar em um parque, assistir a um show ou peça de teatro, viajar e conhecer um novo lugar. São diversas as maneiras de aproveitar o tempo. Em meio à diversão, nem sempre refletimos sobre os impactos que as nossas escolhas de lazer têm na sociedade, no meio ambiente e na nossa vida cotidiana. Esse não é o caso de Sandro Carnicelli, pesquisador que fez do lazer o seu objeto de trabalho e estuda como torná-lo uma prática mais alinhada à sustentabilidade. Bacharel em educação física, Carnicelli é professor de Estudos de Turismo e Lazer, na University of the West of Scotland, no Reino Unido, onde é vice-diretor do Centro de Cultura, Esporte e Eventos. Também é autor de artigos publicados em diversos periódicos nacionais e internacionais, e membro da Academia Internacional para o Desenvolvimento da Pesquisa em Turismo no Brasil. Na universidade e fora dela, trabalha para promover um lazer que seja sustentável em suas dimensões ambiental,

econômica e social. Entre as ações exitosas que já executou, está a capacitação para alunos dialogarem com o poder público na busca por espaços mais inclusivos. Ao refletir sobre o lazer na contemporaneidade, o pesquisador defende que essa prática assume hoje outra dimensão. Se no passado era tida como parte do tempo para as pessoas se recuperarem de suas jornadas de trabalho e poderem retornar a ela, hoje é reconhecida como essencial à construção e ao desenvolvimento dos indivíduos. “O lazer é uma transformação do ser humano por meio das relações que se criam com o espaço, o ambiente, com outras pessoas, com atividades, com objetos”, define o estudioso. Nesta Entrevista, Sandro Carnicelli reflete sobre o conceito de lazer hoje, aborda sua conformação em tempos de mídias digitais e de transformações no mercado de trabalho, e pensa como esse direito pode contribuir para o desenvolvimento social.

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entrevista

O lazer é uma transformação do ser humano por meio das relações que se criam com o espaço, o ambiente, outras pessoas, atividades, objetos. É essa relação com o mundo que vai além da divisão trabalho e não trabalho.

O que se entende por lazer hoje? Por muito tempo, o conceito de lazer foi baseado na ideia de tempo livre em oposição ao tempo de trabalho. Mesmo na literatura, se você olhar, há uma relação com o tempo de trabalho. Mas e o lazer da criança, por exemplo? Alguns debates começaram a aparecer devido às pessoas que não trabalham. A ideia de lazer como algo oposto ao tempo de trabalho começou a ficar ultrapassada. Hoje, o lazer é visto de diferentes formas. Claro que ainda existe uma relação de tempo, mas o lazer também pode ser visto como um estado de ânimo, com outras perspectivas de desenvolvimento social, de participação comunitária, de engajamento. A ideia de que lazer é tempo, necessariamente, começou a se diluir. Do meu ponto de vista, a gente não pode se esquecer das relações de trabalho e não trabalho na vida adulta, mas tem que lembrar que o lazer é muito mais do que isso. O lazer é uma transformação do ser humano por meio das relações que se criam com o espaço, o ambiente, outras pessoas, atividades, objetos. É essa relação com o mundo que vai além da divisão trabalho e não trabalho.

Qual a diferença, se é que ela existe, entre o conceito de lazer e ócio? Em algumas línguas, a palavra lazer não existe e, no seu lugar, é usada a palavra ócio ou tempo livre. Comumente, dizem que, no caso de ócio, em inglês idleness, você não tem um movimento, não faz nada, não produz. Enquanto no caso de lazer, haveria uma ideia de que você está em movimento e fazendo algo. Agora, mesmo essa definição, ela não é muito correta, porque nela a gente transforma a palavra lazer quase que em um conceito neoliberal de ter que produzir algo, de ter que fazer algo.

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O artigo 24 da Declaração Universal dos Direitos Humanos afirma que: “Todo ser humano tem direito a repouso e lazer”. Como foi a construção histórica desse direito? Quando as sociedades foram se desenvolvendo, pós-revolução industrial, havia a ideia de tempo de trabalho e tempo de não trabalho. Esse último, na verdade, era o tempo para você se recuperar para voltar ao trabalho, ou seja, havia uma ideia de constante produção. O seu tempo livre, o seu tempo de lazer, era aquele tempo que você se recuperava para poder produzir e trabalhar mais. A ideia de lazer como direito humano está associada à concepção de que o lazer pode contribuir para a sua formação e o seu desenvolvimento. O lazer não é só uma recuperação para a volta ao trabalho, mas é parte integral da sua construção como ser humano numa sociedade.

Qual o impacto das tecnologias no tempo que deveria ser dedicado ao lazer? Por mais que as redes sociais estejam aí há um bom tempo, se você olhar de uma perspectiva histórica, é um processo muito recente ainda. Em 2014, organizamos um congresso da Leisure Studies Association [Associação de Estudos de Lazer, em tradução livre] e um dos produtos desse evento foi a organização de um livro chamado Digital leisure cultures [Culturas de lazer digital, em tradução livre], que já trazia alguns aspectos do lazer digital. Já existiam algumas pesquisas no mundo, inclusive aqui no Brasil, como na Unesp [Universidade Estadual Paulista] de Rio Claro, sobre o tema. Mas ele veio


crescendo muito nesses últimos 15 anos. É claro que isso mudou com a transformação e o acesso a telefones celulares, que criaram um boom de ofertas de lazer digital. As mídias sociais são um desses lazeres, mas a gente já interagia com o telefone muito antes. Se você lembrar do jogo da cobrinha do telefone, isso já mostrava uma relação de lazer com o mundo digital. O que as mídias sociais fazem é ocupar ainda mais esse tempo. Não só o tempo de lazer está sendo consumido por mídias sociais, mas elas estão ditando qual tipo de lazer as pessoas devem consumir. Isso é baseado em algoritmos que vão indicar que, se você tem determinado perfil, você tem a tendência de consumir certos produtos e certas atividades. Dependendo do seu engajamento online, vão aparecer mais atividades de aventura, de shopping ou de rua. Isso leva a um hiperconsumo, a uma sociedade que está sempre em busca da informação para aumentar o consumo no lazer.

E como os conceitos de lazer e sustentabilidade se relacionam? A relação principal entre lazer e sustentabilidade está conectada à ideia de consumo. Tudo o que nós fazemos como seres humanos está relacionado ao consumo, seja do ar que a gente respira à roupa que a gente veste ou

à comida que compramos. O consumo está ao nosso redor, mas a gente não discute tanto a produção do que consome. Quando a gente pensa o lazer e o consumo do lazer, tem que estimular as pessoas a pensarem o que ou quem produz aquilo que elas estão consumindo, porque existem atividades com um nível mais alto de consumo de matérias-primas e de ambiente do que outras, com menor impacto. Quando a gente fala em turismo, por exemplo, essa é uma atividade de lazer que, naturalmente, tem um impacto maior de consumo, porque envolve deslocamento e, normalmente, existe um impacto maior de emissão de carbono. Claro que existe o cicloturismo, no qual as pessoas vão de bicicleta de uma distância à outra, ou seja, existem exceções. Mas o turismo que envolve pegar um avião ou um ônibus tem um certo consumo de CO₂, uma emissão devido ao deslocamento. A atividade do turismo também incentiva outros tipos de consumo secundário, como compras de novas roupas, por exemplo. Existem pesquisas que mostram que, na Europa, pessoas que vão viajar tendem a comprar roupas novas na semana anterior, não por necessidade, mas pelo fato de mostrar ou vestir algo novo durante o momento de lazer, durante a viagem. O turismo em si aumenta elementos de consumo. Uma das pesquisas que a gente desenvolveu na universidade é

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entrevista

sobre o conceito de decrescimento. Há pessoas que leem o título da nossa investigação e pensam: “você quer menos turista”. E não é sobre ter menos turista, é sobre como a gente consegue controlar o movimento do turismo para que as comunidades locais sejam empoderadas e possam decidir o que o turista deve fazer, o que pode consumir ou não. Porque o visitante é um hóspede na casa de alguém. Mudando isso, você consegue alterar padrões de consumo.

pessoas, pode levar a uma consciência ambiental que vai alterar o comportamento dessa criança, quando ela se tornar uma adulta. Agora, se a gente não promove o contato da criança, do jovem e do adulto com o meio natural, a gente acaba segmentando as opções de lazer e as pessoas com maior poder de compra vão acabar consumindo mais e praticando um consumo que, normalmente, causa um impacto maior no meio ambiente.

Então, quais iniciativas de lazer podem promover a sustentabilidade?

Como o governo poderia investir em políticas públicas de lazer para promover a sustentabilidade?

Eu sempre tenho ótimas memórias da minha infância, das ruas de lazer, de espaços públicos onde pessoas de diferentes classes sociais se reuniam para praticar esporte, atividades, se encontrar. Esse tipo de opção desenvolve as pessoas. Essas ruas de lazer, esse uso do espaço público para educar as pessoas sobre a possibilidade de usar o tempo em contato com a natureza, em contato com outras

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Eu gosto muito da ideia de um tripé entre política pública, desenvolvimento comunitário e lazer. Um dos exemplos é a Praça de Bolso do Ciclista, em Curitiba (PR), que foi o projeto de desenvolvimento comunitário de uma praça, um ambiente público. Nela, há a criação de uma área de lazer pela comunidade, a partir do engajamento com o poder


entrevista

O lazer não é só uma recuperação para a volta ao trabalho, mas é parte integral da sua construção como ser humano numa sociedade

público. A comunidade local sugeriu ideias e os dirigentes "compraram" para desenvolver o espaço. Existem diferentes formas de engajamento social. Uma das atividades que faço com os meus alunos é ensinar vias de contato com o poder público. A gente precisa ensinar, nas universidades e na escola, quais as formas para que os cidadãos possam entrar em contato com esse setor. Quando eu morava no Brasil, nunca aprendi isso. Como você contata um vereador? Como você conversa com um deputado? Como você fala com um senador? Se a gente conseguir isso e conseguir movimentar as pessoas a entenderem formas de contato com o poder público, podem-se criar possibilidades de apresentação de ideias, de sugestão de opções de lazer que vão beneficiar a comunidade. Isso inclui o fechamento de ruas para as crianças brincarem, atividades lúdicas em parques públicos, iluminação durante a noite nessas áreas. O primeiro passo é pela educação: ensinar como falar e influenciar mudanças para que o lazer possa ser oferecido.

Como você tem desenvolvido essa ideia na universidade? Existe um projeto educacional que a gente está desenvolvendo entre as universidades da Escócia e Inglaterra, que começou na Universidade York St. John. A gente ensina os alunos a se comunicarem com o poder público. Tive um aluno cadeirante que morou por 20 anos na frente da praia, sem nunca ter ido até a água, porque não tinha acesso. Por meio do processo educativo, a gente conseguiu fazer com que ele escrevesse para os diferentes níveis de poder público, solicitando que fosse implementada uma esteira para que cadeirantes pudessem acessar a água. Esse pode ser o caso dele, mas poderia haver outras pessoas na comunidade na mesma situação. Isso foi inspirado por um projeto que aconteceu em Bondi Beach, na Austrália, que também é uma praia superpopular, mas que por muitos anos não tinha acessibilidade para cadeirantes. Ações como essa mostram como é importante que você encontre vias de comunicação para criar opções de lazer.

Hoje, no Brasil, há uma discussão sobre a redução da escala de trabalho 6 por 1. Como o lazer pode ser pensado no contexto de propostas como essa? O primeiro ponto é pensar no direito ao lazer. Em uma escala 6 por 1, não há direito ao lazer, há direito à recuperação, e volta-se para aquela ideia de que você tenha uma folga para se recuperar e voltar ao trabalho. Agora, é interessante que aqui no Brasil, eles estão discutindo a escala 6 por 1. Na Europa, a discussão é de 4 dias de trabalho, ao invés de 5. Ou seja, a ideia de 6 por 1 foi ultrapassada há 50, 60, 100 anos por lá. Nesses outros países, estão pensando como a gente pode ter uma sociedade mais feliz porque, numa sociedade mais feliz, você vai ter um custo menor do sistema público de saúde, vai ter uma pessoa produzindo de forma mais feliz aquilo que precisa. Existem algumas pessoas discutindo diferentes formas de trabalho no futuro. Quando eu era jovem, me prometiam que eu não ia trabalhar, que ia ter um robô para tudo e eu teria muito tempo livre. O que se vê hoje em dia é uma situação quase oposta a isso. As pessoas trabalham mais para poder consumir mais. Então, me surpreende, morando fora, o quão resistentes são as pessoas para mudanças da escala de trabalho no Brasil. É surpreendente porque é difícil pensar que algumas pessoas não conseguem ver os benefícios sociais e humanos de uma troca de regime de trabalho.

Segundo pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o número de pessoas que pediram demissão bateu recorde em 2024. Esta pode ser mais uma consequência de uma sociedade que não tem como prioridade o direito ao lazer? A gente vive em uma sociedade exausta por muitos motivos. E isso não só no Brasil. O que acontece no Reino Unido, hoje, é que as pessoas trabalham no que eles chamam de “zero horas de contrato”. Elas não são registradas para um trabalho de 35 ou 40 horas, mas podem trabalhar quantas horas quiserem, como um autônomo. Isso está levando as pessoas a trabalharem 40,

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entrevista

As mídias sociais estão ditando qual tipo de lazer as pessoas devem consumir. Isso é baseado em algoritmos que vão indicar que, se você tem determinado perfil, você tem a tendência de consumir certos produtos e certas atividades.

50, 60, 70 horas por semana. Quanto mais aumenta o seu consumo, mais você tem que trabalhar, então, você cria uma sociedade que está exausta. Isso leva a um grande índice de doenças relacionadas à saúde mental. Você vê uma sociedade marcada por um aumento de pessoas que pedem para parar de trabalhar ou que se demitem; uma série de pessoas que trocam um determinado tipo de trabalho, que tinham uma carreira e não querem seguir, porque aquilo está desgastando relações familiares e sociais. O que a gente vê é que, quanto mais você aumenta o consumo, mais você força o povo a trabalhar. E quanto mais você força o povo a trabalhar e ganhar para aquilo, mais pode causar problemas sociais, daí, você entra em um ciclo vicioso. Se for pensar na sociedade de 30 ou 40 anos atrás, quais eram os gastos que as pessoas tinham? Quantos novos gastos apareceram na nossa conta bancária nesse período, que não existiam naquela época? Existe uma série de outros tipos de consumo que começam a aparecer nas contas bancárias – nesse caso, estou falando da população de classe média e de classe média alta.

crescer, ela se preocupe com pessoas de diferentes classes sociais. Se você isola as diferentes classes sociais, aquelas crianças só entendem as dinâmicas econômicas, políticas e de lazer daquela classe. Ou seja, no caso da classe social média alta, quais são as opções de lazer de uma criança? Normalmente, são cheias de segurança, de muros, de atividades altamente protegidas e que levam a um maior consumo. E daí, você tem uma outra classe que é banida desses espaços. Uma das coisas que a gente precisa pensar é como o lazer pode ser utilizado para que as classes sociais interajam, se compreendam e se engajem. Quanto mais você consegue fazer com que as diferentes classes sociais interajam de uma forma positiva, por meio do lazer, mais chances você tem de fazer o capital social se desenvolver em diferentes formas. E, assim, o lazer consegue contribuir para diminuir a desigualdade.

Como ações na área de lazer podem nos ajudar a enfrentar as desigualdades sociais e promover a justiça social? Um dos principais problemas, hoje, é o isolamento social. Quando crianças de classe média brincam com crianças de classe média, crianças de classe alta brincam com crianças de classe alta, crianças de classe baixa brincam com crianças de classe baixa. É quando existe uma ideia de que a minha filha vai à escola e não tem crianças de classe alta, média e baixa na mesma classe. Isso faria com que ela entendesse as dificuldades, problemas, privilégios de diferentes crianças. O que eu espero de uma criança que interagiu com diferentes classes sociais é que, quando

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Assista a trechos da Entrevista com o o sociólogo Sandro Carnicelli, realizada no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc, em abril de 2025.


sescsp.org.br/relicario

KARNAK AO ViVO NO SESC_1999

Show realizado em dezembro de 1999 no Sesc Pompeia, o “Karnatal”, com repertório de Estamos Adorando Tókio

Relicário: Karnak (ao vivo no Sesc 1999) Disponível em

Visite a loja virtual e conheça o catálogo completo sescsp.org.br/selosesc /selosesc


esporte

Dados do levantamento Pesquisas do Ano 2024 do Google apontam para a ginástica artística como o assunto esportivo mais procurado do ano, sendo a campeã olímpica Rebeca Andrade, a personalidade mais pesquisada pelos brasileiros na internet.

Esporte popular

BRASILEIRO


Evelson de Freitas

esporte

Do boxe à ginástica, do tênis ao skate: por que certas modalidades viram fenômenos de popularidade e outras lutam por um lugar no pódio?

Luiza Moraes/COB

POR LUCAS VELOSO


esporte

U

ma prática milenar usada para caças e guerras hoje ocorre em arenas pacíficas e silenciosas, onde qualquer sopro de vento pode mudar tudo. Na modalidade esportiva tiro com arco, o objetivo é simples de explicar e difícil de executar: a 70 metros do alvo, atletas precisam reunir técnica, precisão e concentração para acertar o centro da mira. Nos Jogos Olímpicos, a modalidade é disputada em provas individuais, por equipes masculinas, femininas e mistas. A cada flecha, somam-se os pontos, anel por anel. Além disso, entram nessa conta chuva, sol, rajadas de vento e, na hora do disparo, o destino do atleta é definido por um centímetro. Em competições longas, uma milimétrica distância pode separar anos de preparação entre a classificação histórica e o resultado esquecido. Apesar desse caráter dramático, e de suspense, e embora esteja presente no programa olímpico desde 1972, o tiro com arco está longe de figurar entre os esportes mais populares no Brasil. Esse contraste ilumina uma pergunta central: o que faz uma modalidade despontar, ganhar popularidade e atrair novos adeptos? E o que faz um esporte perder força, deixar de chamar atenção ou ser esquecido? Ao longo da história do esporte brasileiro, várias práticas tiveram picos de visibilidade: o boxe, nos anos 1960, a Fórmula 1, nos anos 1990, e o tênis, na virada dos anos 2000. Cada esporte viveu seu auge impulsionado por fatores específicos, que vão desde ídolos esportivos até repercussão midiática, mas nem todas conseguiram transformar essa onda de entusiasmo do público em prática esportiva pelo país. Um exemplo dessa oscilação aparece nos dados do levantamento Pesquisas do Ano 2024, do Google. No Brasil, as Olimpíadas lideraram as buscas nacionais,

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um impulso que pode lançar nomes ao estrelato, mas nem sempre sustenta a modalidade a longo prazo. A ginástica artística vive hoje esse movimento: além de ser o assunto esportivo mais procurado do ano, teve Rebeca Andrade como a personalidade mais pesquisada pelos brasileiros na internet, superando figuras centrais da política e do entretenimento, como o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e a cantora Madonna. O skate segue uma lógica semelhante com Rayssa Leal entre os nomes mais pesquisados na categoria “esportistas”, ao lado da ginasta Simone Biles e do jogador de futebol Memphis Depay. Esses dados revelam como atletas carismáticos e midiáticos transformam práticas esportivas em fenômenos culturais. Num cenário em que a crise climática, as eleições e o futebol – Eurocopa, Copa América e Copa do Brasil – estão entre os eventos mais procurados, esportes como tiro com arco raramente conseguem romper um ciclo restrito de interesse e se estabelecer no imaginário nacional.

ESTRUTURA, CUSTO E OPORTUNIDADE Para a atleta Graziela Yaci, representante do Brasil em competições de tiro com arco, popularizar um esporte é uma equação que depende de elementos básicos. “A gente precisa de estrutura para conseguir emplacar novos atletas. Falta política pública. Se tivessem mais projetos como o que eu participei, teria muito mais gente no esporte”, observa. Sua trajetória como atleta teve início ainda na adolescência. Às margens do rio Cuieiras, na aldeia Kuanã, a cerca de 65 quilômetros de Manaus, a jovem Graziela Yaci, do povo Karapãna, se organizou com a família para participar de um torneio criado pelo Arquearia Indígena, projeto da Fundação Amazônia Sustentável. Em 2013, era apenas mais uma atividade entre rios e floresta, mas dali sairia


esporte

A skatista Rayssa Leal, a "Fadinha", está entre os nomes mais midiáticos e pesquisados na internet, junto à ginasta estadunidense Simone Biles, e ao jogador de futebol holandês Memphis Depay.

Gaspar Nóbrega/COB

o início de um percurso sem fronteiras. Cinco anos depois, ela se tornaria atleta da seleção brasileira e a primeira mulher indígena a representar o país na modalidade em competições internacionais. Natural de uma região sem energia elétrica direta, onde acompanhar as Olimpíadas pela televisão era um fato raro, Yaci só iniciou os treinos após a instalação de uma escola estadual próxima ao rio, perto da aldeia. Ali, durante as seletivas do projeto, primeiro escolhendo jovens para uma apresentação

em Manaus, depois, percorrendo as comunidades ao longo dos rios Cuieiras e Negro, ela foi selecionada entre 12 adolescentes, sendo a única mulher. A rotina passou a incluir idas semanais à capital amazonense, para treinar tiro com arco olímpico, acompanhada pelo técnico Roberval dos Santos, e retornos à comunidade. Até que, no início de 2014, a atleta se mudou de vez para a Vila Olímpica, em Manaus (AM). Em 2019, ela se mudou para Maricá (RJ). A trajetória que começou na beira do 27 | e


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Primeira mulher indígena a representar internacionalmente o país no tiro com arco, Graziela Yaci, do povo Karapãna, em disputa pela medalha de bronze nos Jogos Panamericanos de Lima, no Peru, em 2019.

NEM TUDO SÃO MEDALHAS Essa relação entre oportunidade e visibilidade aparece de forma direta no relato do nadador Gabriel Geraldo dos Santos Araújo, o Gabrielzinho, dono de cinco medalhas de ouro e uma de prata em Jogos Paralímpicos. Para ele, a natação paralímpica cresce quando deixa de ser um evento isolado e passa a ter um caminho objetivo: da base ao alto rendimento. Gabrielzinho também defende a importância de mais atletas participando de competições locais, para uma evolução em trajetória contínua. “Aproveitando mais os atletas de ponta, prova-se que todo mundo pode chegar aonde quiser”.

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Além do desempenho dos atletas, outro fator que contribui para ampliar o interesse das pessoas é a visibilidade que recebem da mídia. Para Gabrielzinho, existe uma relação direta entre a exposição da natação paralímpica e o reconhecimento da modalidade como profissão. “Quanto mais pessoas acompanharem o esporte, mais valorização vamos ter”, defende. Sua história exemplifica a transformação de vidas que o esporte pode gerar. Gabrielzinho nasceu com uma malformação congênita, a focomelia, caracterizada pela ausência dos membros superiores e encurtamento dos membros inferiores. Nadou, nas primeiras vezes, em uma competição escolar em Corinto (MG), incentivado pelo próprio professor de educação física que o levou aos Jogos Escolares de Minas Gerais. Hoje, com múltiplas medalhas, coleciona relatos de crianças e jovens que entraram na piscina inspirados por ele. “É mais do que uma evolução, é uma realização pessoal que me motiva cada vez mais.”

Jonne Roriz/COB

rio e segue por centros de treinamento de alto rendimento evidencia como um projeto local pode contribuir para outro de dimensão nacional.


esporte

PAÍS DO FUTEBOL O jornalista e pesquisador Celso Unzelte, professor da Faculdade Cásper Líbero, acredita que a relação da população brasileira com o esporte é marcada por contradições históricas. “O brasileiro não gosta de esporte, gosta de vencer”, analisa. Esse fato explicaria os ciclos de popularidade diretamente relacionados à performance de atletas. Fórmula 1 e tênis são exemplos emblemáticos: seus auges coincidem com eras de Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet e Gustavo Kuerten, o Guga. Já em modalidades como iatismo e tiro isso não ocorre, mesmo com atletas vitoriosos, pois permanecem com baixo engajamento. Para Unzelte, há ainda um dilema estrutural: a mídia não cobre porque o público não acompanha ou o público não acompanha porque a mídia não cobre? Ele acrescenta que o peso esmagador do futebol, considerado mais do que um esporte, funciona como “traço cultural do dia a dia”. O pesquisador explica que a “monocultura futebolística” reduziu o espaço das outras modalidades, criando um cenário em que o desafio de grande parte das demais práticas esportivas é “conseguir algum espaço”. Dados do Google Trends entre 2020 e 2025 confirmam a desigualdade na disputa das modalidades por popularidade. Em cinco anos, o termo “futebol” jamais caiu a índices próximos de zero, algo que acontece com quase todas as demais modalidades. O futebol apresentou o maior pico absoluto – 100 pontos – em 30 de julho de 2023, durante a Copa do Mundo Feminina, e manteve estabilidade semanal entre 25 e 30 pontos ao longo de todo o período, sendo o único esporte a conservar interesse contínuo. A ginástica artística, por sua vez, passou praticamente invisível por quase todo o período, com buscas constantes de um ponto. Seu único grande salto ocorreu em 28 de julho de 2024, quando atingiu 44 pontos, coincidindo com as apresentações da ginasta Rebeca Andrade nos Jogos Olímpicos de Paris. O skate registrou seu maior pico em 25 de julho de 2021 – 37 pontos – exatamente na semana da medalha de Rayssa Leal e da estreia olímpica da modalidade. O surfe alcançou seu recorde em 28 de julho de 2024, com 29 pontos, novamente em período olímpico. Fora desse ciclo, aparece abaixo de um ponto. Os dados revelam que a maior parte

dos esportes depende quase exclusivamente do calendário olímpico para chamar atenção, enquanto o futebol se mantém na vida cotidiana. Diogo Silva, ex-atleta olímpico de taekwondo e atual Coordenador-Geral de Inteligência Esportiva no Ministério do Esporte, concorda que a atenção midiática determina a sobrevivência de uma modalidade. Ele lembra que, a partir de 2012, com o avanço das transmissões pela internet, todas as competições da federação passaram a ser exibidas, mas a diferença entre as plataformas é enorme. “Quando a transmissão se dá em TV aberta, o alcance é extraordinário. Cidades com 15, 10 mil pessoas conseguem ter acesso”, exemplifica. Já a transmissão digital alcança uma parcela menor da população: “Nem todos têm banda larga e celular”. Ele destaca ainda o papel das redes sociais, que aproximam atletas e diferentes públicos. “Você acompanha tudo: treinamento, bastidores e resultados dos atletas.” Por outro lado, Diogo Silva aponta que o país não conseguiu transformar megaeventos esportivos em políticas duradouras. Para o ex-atleta olímpico, a ausência de modelos sustentáveis faz com que o entusiasmo gerado por Jogos Panamericanos, Copas e Olimpíadas se esgote rapidamente. “É entender que andar de bicicleta é bom, é gostoso, é lazer. Isso é cultura esportiva. Mas não criamos políticas para manter e conduzir essa cultura.”

MULHERES E PCDS A desigualdade também manifesta-se de forma diferente sobre mulheres e pessoas com deficiência. O Brasil viveu, nos últimos ciclos, uma das trajetórias mais representativas do esporte paralímpico no mundo. Em Paris 2024, alcançou seu melhor desempenho: 89 pódios – 25 ouros, 26 pratas e 38 bronzes – e garantiu, pela primeira vez, um lugar entre os cinco primeiros no quadro geral. Com 280 atletas, a delegação brasileira foi a maior em uma competição fora do país, com recorde também no número de mulheres: 117 convocadas, responsáveis por 43 medalhas, incluindo 13 ouros. Foram seis recordes mundiais, oito paralímpicos e conquistas inéditas em modalidades como badminton, tiro esportivo e triatlo. 29 | e


esporte

Nos Jogos Olímpicos de Paris em 2024, o Brasil alcançou seu melhor desempenho: 89 pódios. No entanto, para a atleta Bruna Alexandre, do tênis de mesa, ainda falta o reconhecimento social de atletas com deficiência no país.

Se, para a tenista de mesa, a barreira principal está na forma como o país enxerga pessoas com

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deficiência, para Aline Silva, uma das maiores atletas da história do wrestling brasileiro, o desafio passa pela oferta de modalidades e pelo gênero. Fora dos tatames, ela foi a primeira mulher na direção da Confederação Brasileira de Wrestling e idealizadora da ONG Mempodera, que cria trajetórias esportivas para meninas. Ela conta que sua carreira só foi possível porque teve acesso a esportes fora do padrão escolar. “Se eu tivesse contato só com esportes de bola, provavelmente não seria atleta”, constata. Por isso, Aline Silva defende a ampliação do repertório esportivo no currículo escolar. “Quando a gente oferece esportes diferentes, dá a chance de descobrir novos talentos.” Ainda assim, a atleta lembra que quando mulheres chegam ao alto rendimento, elas enfrentam limitações impostas. No wrestling, ela conta que

Gaspar Nóbrega/COB

Mesmo assim, a atleta Bruna Alexandre, do tênis de mesa, aponta as diferenças de tratamento entre modalidades olímpicas e paralímpicas. “Os Jogos Paralímpicos quase não são transmitidos no Brasil. O Olímpico é transmitido 24 horas”, compara. Para ela, ainda falta o reconhecimento social de atletas com deficiência como profissionais capazes. Bruna Alexandre elogia a estrutura do Comitê Paralímpico Brasileiro e destaca que “resultados não faltam”, mas a visibilidade permanece desproporcional. Em 2024, ela se tornou a primeira atleta paralímpica brasileira convocada também para disputar os Jogos Olímpicos. A classificação foi especial não apenas para ela, mas “para as pessoas com deficiência do Brasil e do mundo”, reforça.


esporte

as mulheres são proibidas de lutar a modalidade greco-romana. “Enquanto a gente for proibida, é impossível equilibrar o jogo. Estamos presentes pela metade.” Ou seja, desigualdades de gênero e de raça ainda atravessam tanto esportes de grande projeção quanto modalidades invisibilizadas. “Isso é na sociedade, no esporte e, também, nas Olimpíadas.”

FUTURO POSSÍVEL Para o pesquisador Odilon José Roble, mestre e doutor em educação e diretor da Faculdade de Educação Física da Universidade de Campinas (Unicamp), o esporte brasileiro “reproduz as mazelas sociais”, refletindo barreiras que atravessam classe, raça e gênero. É o que chama de “direito de insistir”: jovens pobres, mulheres e pessoas negras têm seus sonhos contestados muito antes de terem qualquer chance real de permanecer na modalidade. “A mulher e a pessoa negra ouvem muito cedo: ‘você está perdendo tempo, vai trabalhar’”, afirma. A pressão social determina quem desiste antes mesmo de experimentar o alto rendimento e explica por que poucas modalidades conseguem permanecer no imaginário popular. “Fora do futebol, a expectativa de ascensão não é validada socialmente”, analisa.

Para o medalhista olímpico, a qualidade do percurso de um atleta transforma vidas não apenas pela performance, mas pelo que ele chama de "pertencimento". Ou seja, a estrutura oferecida por um projeto esportivo é capaz de criar um ambiente de proteção, disciplina e de novos horizontes. “Talvez, a coisa mais importante para um jovem seja a sensação de pertencer”, acredita. Iniciativas como o Instituto Reação, com sedes nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso e Rio Grande do Norte, onde crianças e adolescentes treinam ao lado de atletas da seleção brasileira, “o jovem aprende que é possível”, porque a referência está ao seu lado. “Esse ambiente de continuidade e expectativa realista produz atletas, mas gera também cidadãos preparados para o mundo, inclusive aqueles que não seguirão carreira esportiva”, conclui.

Para Gabriel Geraldo dos Santos Araújo, o Gabrielzinho, dono de cinco medalhas de ouro em Jogos Paralímpicos, a natação paralímpica cresce quando deixa de ser um evento isolado.

Alessandra Cabral/CPB

O pesquisador também aponta para um problema quase imperceptível no debate público: o pós-carreira. No Brasil, “o atleta se aposenta aos 25, 30 anos, sem diploma e sem profissão, e é jogado no mercado de trabalho”. A ausência de políticas que articulem esporte e educação torna a trajetória do atleta um risco: quanto mais alto o nível que o esportista alcança, mais difícil se torna conciliar estudos. Odilon José Roble defende o modelo europeu de carreira dupla, no qual bolsas e apoios dependem do desempenho escolar: “O atleta estuda com flexibilidade, recebe apoio condicionado às notas e chega ao fim da carreira com um diploma.” Para ele, essa política não é um luxo, mas uma base para “equalizar oportunidades” e impedir que o esporte se torne apenas um ciclo de ascensão e descarte. Faz coro a essas ideias o judoca e gestor social Flávio Canto, fundador do Instituto Reação, que vê nos projetos de base um elemento que falta às políticas públicas brasileiras. Canto observa que boa parte das medalhas das últimas Olimpíadas veio de atletas formados em iniciativas sociais – uma novidade dos últimos 10 ou 15 anos. 31 | e


para ver no sesc / esporte

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para ver no sesc / esporte

VIDA EM MOVIMENTO Unidades do Sesc São Paulo convidam o público a conhecer, experimentar e praticar diferentes modalidades esportivas, na edição de 2026 do Sesc Verão

DIVERSAS UNIDADES

Sesc Verão no Centro Treinos, bate-papos e vivências esportivas em locais icônicos do centro de São Paulo. Com Vanderlei Cordeiro, Kelvin Hoefler, Bruna Alexandre, Natalia Falavigna, Gabrielzinho e Ayo Frutuoso. Dia 8/1, quarta, das 8h às 20h, Centro de São Paulo. GRÁTIS.

Sesc Verão no MASP Ação especial dedicada à ginástica e suas múltiplas expressões. Com Julia Soares, Lorrane Oliveira e Seleção Brasileira de Ginástica Rítmica. Dia 25/1, domingo, 8h às 18h, no vão livre do MASP. GRÁTIS.

“A programação parte de uma visão expandida do esporte, entendendo-o como fenômeno em constante transformação, atravessado por afetos, histórias e pelos modos como cada pessoa se relaciona com o próprio corpo”, explica Carol Seixas, gerente na Gerência de Desenvolvimento Físico-Esportivo do Sesc. Para organizar esses elementos, o Sesc Verão adota cinco grandes grupos de práticas: "originárias", "em expansão ou reemergência", "comunitárias", "novas" e "populares". “São momentos de encontro, descoberta e troca, que incentivam cada pessoa a experimentar diferentes modalidades, reconhecer suas próprias formas de se mover e incorporar o esporte como parte do cotidiano, com prazer e autonomia”, completa Carol Seixas. Confira destaques de programação nas unidades:

Circuito de Ginástica Rítmica Seleção Brasileira de Ginástica Rítmica realiza uma série especial de apresentações, vivências e encontros em que o público é convidado a conhecer de perto a modalidade. Dia 22/1, às 20h (Araraquara); dia 23/1, às 20h (Pinheiros); dia 24/1, às 10h30 (Guarulhos), e às 16h30 (Bom Retiro); dia 25/1, às 10h30 (Santo Amaro), e às 15h, no vão livre do MASP. GRÁTIS.

Circuito com Caio Bonfim O atleta olímpico convida o público a se aproximar da marcha atlética por meio de demonstrações, treinos abertos e bate-papos. Dia 31/1, às 9h (Campinas), e às 15h30 (Pinheiros); dia 1º/2, às 10h30 (Avenida Paulista), e às 15h (Consolação); dia 5/2, às 20h (Jundiaí); dia 6/2, às 18h30 (Ribeirão Preto); dia 7/2, às 18h e às 20h (Sorocaba); e dia 8/2, às 10h30 (Taubaté). GRÁTIS. 33 | e

Matheus José Maria

O Sesc Verão 2026 inicia suas atividades neste mês com o tema Esporte é Movimento, reforçando a ideia de que o ato de se mexer é uma expressão cultural, encontro e construção de novas formas de viver o território. Entre 3/1 e 15/2, unidades do Sesc em todo o estado oferecem aulas abertas, festivais, vivências, oficinas e atividades recreativas gratuitas, convidando o público a experimentar diferentes modalidades, descobrir outros jeitos de se movimentar e reconhecer o esporte como direito, lazer e espaço de convivência cotidiana.


bio

Entre realidade

E SONHO Além de arrebatar plateias ao redor do mundo, Bob Wilson deixou marcas profundas no teatro brasileiro POR DIEGO OLIVARES

A

definição de gênio, para grande parte da crítica de arte, é utilizada para nominar quem inaugura o inédito, uma nova forma de fazer. Alguém capaz de criar um estilo próprio a partir das referências herdadas e, com isso, abrir uma perspectiva nunca antes vista, fadada a influenciar tudo o que virá depois. Esse retrato veste com precisão o diretor teatral estadunidense Robert “Bob” Wilson, que saiu de cena em 31 de julho de 2025 aos 83 anos. Sua morte provocou uma onda de homenagens vindas tanto de profissionais que dividiram com ele os palcos quanto de uma numerosa plateia de admiradores, espalhados por todo o planeta. Nascido em Waco, no Texas (Estados Unidos), em 1941, Wilson estudou arquitetura e artes visuais antes de se entregar às artes cênicas, caminho que definiria sua linguagem artística. O olhar do arquiteto e a mão do artista plástico sempre estiveram presentes em seus espetáculos, nos quais cada gesto era calculado como parte de uma composição visual maior. Foi com obras como Deafman glance (1970) e Einstein on the beach (1976), em parceria com o compositor Philip Glass, que Wilson se tornou um divisor de águas no teatro. Suas encenações aboliam a pressa,

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esticavam o tempo até o limite e transformavam a luz em protagonista. Para alguns, um golpe de estranhamento; para outros, a abertura de um horizonte completamente novo. “Wilson deu à cena a liberdade expressiva da música”, define Luiz Fernando Ramos, professor titular de história e teoria do teatro da Universidade de São Paulo (USP). “Talvez, sua maior contribuição tenha sido evidenciar, com o próprio manuseio da materialidade cênica, em termos inventivos e inovadores, que o teatro pode dispensar a psicologia e os esquemas dramáticos de encaixes cognitivos fechados, e servir-se de uma sintaxe aberta, como se a cena fosse uma arte em si mesma, independente da literatura e de conteúdos pré-fixados.” Muito antes de se tornar um nome sagrado nas retrospectivas do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), nos Estados Unidos, ou da Bienal de Veneza, na Itália, Bob Wilson já tinha no Brasil um território de acolhida, desde sua primeira passagem, ainda em 1974, quando apresentou, no Theatro Municipal de São Paulo, o espetáculo The life and times of Joseph Stalin. A obra recebeu o título de The life and times of Dave Clark, para evitar problemas com a censura da época.


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Alexandre Nunis


bio

Décadas depois, já no século 21, o Sesc São Paulo se tornaria não apenas espaço de apresentação, mas uma espécie de embaixada afetiva de sua obra, trazendo ao público brasileiro a radicalidade de um teatro que parecia falar mais com o olhar do que com a palavra. Essa relação, que se aprofundaria ao longo de décadas, fez de Bob Wilson uma presença constante e um interlocutor raro entre a vanguarda internacional e o público daqui.

do teatro contemporâneo. O ápice desse salto veio em 1976, quando, em parceria com o compositor Philip Glass, apresentou Einstein on the beach, uma ópera de quase cinco horas sem enredo tradicional, construída a partir de imagens visuais hipnóticas, gestos coreografados e a música minimalista de Glass. O espetáculo rompeu convenções, provocou a crítica e arrebatou o público no Festival de Avignon, na França, consolidando seu criador como um artista capaz de reinventar a linguagem teatral.

ORIGEM DA LINGUAGEM

A partir daí, cada nova obra se tornava um acontecimento: sempre imprevisível, ora celebrada com entusiasmo, ora recebida com espanto, mas nunca ignorada. Sua estética, marcada por uma precisão quase arquitetônica da luz e do movimento, passou a ser referência para quem pensa os limites entre teatro, artes visuais e música. “Desde o princípio, em suas primeiras experiências performativas, Wilson trabalhou com o tempo, ou com um ralentar do mesmo levado aos extremos da quase paralisia, mas nunca efetivamente interrompido, como suas telas em vídeos moventes iriam propor muitos anos depois”, reflete o professor da USP, ao falar sobre um dos traços mais marcantes da linguagem do dramaturgo.

Filho de uma família conservadora, Wilson parecia ter a vida encaminhada para um futuro convencional – até que a gagueira o obrigou a buscar novos caminhos de expressão. A dificuldade em articular as palavras fez com que seus pais o matriculassem numa escola de dança, numa tentativa de desenvolver sua autoestima. Ali, a professora Byrd Hoffman o orientou a perceber o corpo como aliado, não como obstáculo. Esse exercício de atenção física se tornaria um dos pilares de sua criação: mais do que o texto, era o gesto, o tempo e a presença que construiriam significado em cena. O encontro com Hoffman foi um divisor de águas tão determinante em sua vida, que o diretor a homenageou colocando o nome da professora na fundação que organiza seus trabalhos. Wilson, porém, não seguiu uma trajetória direta para o palco. Em 1959, aos 18 anos, ingressou na Universidade do Texas, em Austin, para estudar administração de empresas. Três anos depois, largou o curso. Foi nesse período que o acaso abriu espaço para a arte. Trabalhando na cozinha de um hospital psiquiátrico da cidade, pediu para ser transferido ao setor de recreação. Ali, aplicou exercícios que aprendera nas aulas de dança, incentivando pacientes a transformarem sua energia em desenho, movimento e criação. Em 1963, mudou-se para a cidade de Nova York e ingressou no Pratt Institute, no qual estudou arquitetura e design de interiores. Formou-se em 1965, mas já estava envolvido em criações cênicas. Entre os trabalhos de estudante, assinou o desenho de marionetes para Motel, peça do dramaturgo Jean-Claude van Itallie (1936-2021). Para se manter financeiramente, conciliava o ateliê com trabalhos como terapeuta infantil, sempre orbitando entre a disciplina e a invenção. Os anos 1970 foram decisivos para que Wilson deixasse de ser apenas uma promessa da cena alternativa nova-iorquina para se tornar um dos artistas mais celebrados

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Ramos ainda complementa que o silêncio nunca foi um pressuposto. “Mas quase uma consequência da exploração da sonoridade como um elemento tão relevante quanto as palavras e o plano semântico. Já a luz, senão naquele começo, mas, ao longo dos anos, cada vez mais, foi se tornando a maior singularidade de sua obra. Wilson elevou a iluminação de teatro à condição de grande arte.”

BOB NO BRASIL Acostumado a exportar suas montagens para os grandes centros culturais do mundo, Bob Wilson carregava consigo um prestígio que o precedia. De países europeus aos Estados Unidos, suas obras eram capazes de gerar debate, admiração e, muitas vezes, até certo estranhamento. Essa energia de constante deslocamento e circulação de ideias também o trouxe ao Brasil, onde encontrou não apenas um público curioso, mas também uma instituição disposta a investir em projetos de fôlego: o Sesc São Paulo. Em um território de liberdade criativa, o diretor estadunidense instalou algumas de suas montagens mais emblemáticas em solo brasileiro. Aqui construiu um diálogo que duraria mais de uma década. O produtor Ricardo Muniz foi o responsável por fazer a ponte entre diretor e instituição no ano de 2009, quando


bio

Em A dama no mar e Garrincha, espetáculos que contaram com elenco brasileiro, Bob Wilson teve a parceria de André Guerreiro Lopes na assistência de direção. As lembranças de Lopes revelam detalhes da convivência com um criador meticuloso, capaz de transformar um simples gesto em centro de gravidade da cena. “Ele pode parar a cena e ficar 15 minutos iluminando a mão da atriz”, conta.

Alexandre Nunis

Essa precisão vinha acompanhada de uma forma muito particular de dirigir os atores, quase sempre a partir de imagens. “Eu me lembro de ele pegar um papelzinho e dizer: 'fale para esse papelzinho como se fosse uma criança que não pudesse ser acordada'. Então, ele dava essa imagem, pedia quase um sussurro”, diz Lopes, destacando como o mestre conseguia guiar a cena por metáforas delicadas.

Os atores Willem Dafoe e Mikhail Baryshnikov como a dupla de palhaços tragicômicos no espetáculo The old woman (2014), dirigido por Bob Wilson.

trouxe ao Brasil o espetáculo Quartett, em que Wilson dirigiu a premiada atriz francesa Isabelle Huppert. Foram apenas quatro concorridas apresentações no Sesc Pinheiros, e mais três no Teatro do Sesi, em Porto Alegre (RS). O suficiente para inaugurar uma relação que se estendeu por outras seis montagens nos anos seguintes: Dias felizes (2010), A última gravação de Krapp (2012), Ópera dos três vinténs (2012), Lulu (2012), A dama do mar (2013), The old woman (2014) e Garrincha – Uma ópera das ruas (2016), produção original para o Sesc. Neste meio tempo, o diretor também apresentou a sua versão para Macbeth, de William Shakespeare (15641616), voltando ao Theatro Municipal de São Paulo. “A colaboração da equipe internacional e a equipe nacional sempre foi muito próxima, eficiente e criativa”, recorda Muniz. De acordo com o produtor, Wilson ficou tão impressionado com o cenário que a equipe brasileira construiu para as apresentações em território nacional da peça A última gravação de Krapp, que arcou com os custos de levar o mesmo aparato para outros países onde o espetáculo foi montado.

Apesar da partitura rigorosa de luzes, movimentos e pausas, os intérpretes não se sentiam limitados. “Perguntaram para Willem Dafoe [ator estadunidense que trabalhou diversas vezes com Wilson, inclusive nas apresentações de The old woman, no Sesc Pinheiros] se ele se sentia preso naquele tipo de trabalho, se ele se sentia limitado por essa partitura imposta. Ele falou o contrário: ‘eu me sinto completamente livre, porque não tenho que me preocupar com mais nada; eu tenho uma partitura tão precisa que danço dentro dela, e simplesmente vivo cada instante’.” Essa lógica fazia com que os ensaios durassem literalmente até os últimos minutos antes da cortina subir. “Até a estreia, ele criava. A cada instante, ele estava criando”, explica Lopes, lembrando que o processo era menos sobre fixar e mais sobre descobrir continuamente. Às vésperas da abertura do teatro, Bob ainda reforçava sua filosofia de cena aos atores. “Ele dizia: 'ouça como um cão, divirta-se e não se deixe afetar por quem quer que seja que esteja na plateia'.”

RIGOR EM CENA “O primeiro pedido que faço ao ator que encontro é que fique parado no palco por cinco minutos. Aprendo muito observando-o ficar em pé. Depois, peço que caminhe. Pergunto se ele pode andar do ponto A ao ponto B em três minutos, mesmo que seja apenas um metro. Não peço nenhuma expressão: quero apenas que o ator ande, que controle o corpo. Depois, pergunto se pode ler. Mesmo um simples jornal. Para mim é importante ouvir as cores da voz do ator. Uma vez que os elementos técnicos são aprendidos, o intérprete se torna livre para sentir e pensar qualquer coisa.

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bio

Não tenho ideia do que esses atores estão pensando, e não quero saber – isso cabe a eles. Nenhum diretor, coreógrafo ou compositor pode dizer a um intérprete como se sentir. Bob Wilson (1941-2025)

significado que ele quer passar. Eternizar certas questões, eternizar certas relações sociais, sentimentos pessoais e políticos contextualizados em uma sociedade.” Ambas as atrizes ressaltam que, apesar do rigor, havia espaço para uma escuta generosa, capaz de incorporar até mesmo as características particulares dos atores brasileiros. A disciplina extrema não excluía a sensibilidade para perceber quando a vida surgia de onde menos se esperava. No fim, a lição que ficou é que o teatro, sob sua batuta, podia ser inventado, “entre o real e o sonho, entre a palavra e o inefável, entre o momento e o incomensurável, suspensos no tempo e no espaço”, como resume Bete Coelho.

EPIFANIAS VISUAIS Não tenho ideia do que esses atores estão pensando, e não quero saber – isso cabe a eles. Nenhum diretor, coreógrafo ou compositor pode dizer a um intérprete como se sentir.” Essa fala de Bob Wilson, em uma entrevista coletiva concedida em Berlim, nas vésperas da estreia de sua adaptação para O retrato de Dorian Gray, em 2022, sintetiza a relação do diretor com o trabalho do ator. O gesto, a voz, a respiração, a disciplina física vinham sempre antes da emoção. Mas longe de significar uma prisão, esse rigor técnico era, na visão de quem trabalhou com ele, uma forma de libertação. A atriz Bete Coelho, que participou das montagens brasileiras dirigidas por Wilson, recorda que o processo exigia “uma disposição absolutamente antipsicológica e um preparo corporal e vocal direcionados para a partitura dessas precisões”. Nos bastidores, o que parecia frieza se revelava em outra chave: uma dedicação quase religiosa ao detalhe, que só podia ser sustentada pela repetição incansável e pela confiança entre atores e direção. “Acho que o público percebe que para atingir aquela estética rigorosa exige-se um trabalho repetitivo, árduo, de construção e ensaio. Talvez percebam, também, o nosso prazer em ver surgir uma criação única e bela, da qual você é um participante ativo num ambiente silencioso, propício e reverente ao teatro”, resume Coelho. Para Lígia Cortez, que também integrou o elenco de A dama do mar e Garrincha, a precisão do gesto em Wilson não era um capricho formal, mas parte essencial de sua concepção de cena. “Toda a precisão do Bob Wilson faz pleno sentido na relação estética com o

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Bob Wilson costumava dizer que “as palavras são os inimigos do teatro”. Talvez por isso seja difícil condensar em linguagem o alcance de sua obra. Sua morte, no dia 31 de julho de 2025, não encerra um ciclo, mas reafirma um percurso que transformou a cena contemporânea em algo mais vasto do que a simples representação. Para alguns, seus espetáculos eram enigmas. Para outros, epifanias visuais. Entre a luz que se deslocava milimetricamente e os corpos que habitavam o palco com a lentidão de um sonho, ele construiu uma estética que parecia vir de outro tempo. Talvez de outro mundo. No Brasil, encontrou plateias e parceiros que o ajudaram a traduzir sua radicalidade em encontros calorosos, como se a precisão glacial de suas composições ganhasse novas camadas diante do olhar brasileiro. Ali, deixou rastros que continuam a reverberar na memória dos que o viram e dos que pisaram no palco sob sua direção. “Isso modificou, sim, o nosso panorama cênico, dentro das atuações, dentro das criações, e dentro da conclusão do espetáculo para a plateia”, reflete Lígia Cortez. “Foi uma experiência que não vai voltar nunca mais, e deixou sua marca para o teatro brasileiro. Não por ele ser uma pessoa estrangeira, mas por ele estar aqui, e incentivar o que somos”. É difícil medir o tamanho do vazio deixado por sua ausência. Quando pensa na imagem que fica após as experiências com Wilson, Bete Coelho puxa pela memória uma frase que sempre ouvia do diretor: “open your eyes”. Um recado para abrir os olhos não só para o palco, mas para o mundo – para estarmos atentos, presentes e prontos para transformar cada gesto em algo maior do que nós mesmos.


para ver no sesc / bio

PLATEIAS BRASILEIRAS Entre 2009 e 2016, Bob Wilson veio ao Brasil e apresentou diferentes montagens nos palcos do Sesc São Paulo

Julian Mommert

O público brasileiro teve a oportunidade de assistir a importantes montagens do encenador estadunidense Bob Wilson em unidades do Sesc. Sua estreia nos palcos da instituição foi em 2009, na unidade de Pinheiros, com o espetáculo Quartett, que contou com a premiada atriz francesa Isabelle Huppert no elenco. Nos anos seguintes, Bob Wilson voltou ao Sesc para apresentar seis outras

montagens: Dias felizes (2010), A última gravação de Krapp (2012), Ópera dos três vinténs (2012), Lulu (2012), A dama do mar (2013), The old woman (2014) e Garrincha – Uma ópera das ruas (2016). O site do SescTV disponibiliza a adaptação em vídeo de Garrincha: Uma ópera das ruas, encenada por 16 atores e um sexteto musical. A obra se baseia no desenho de ritmo, cenário e luz do diretor, ao investigar o eterno gênio das pernas tortas, bicampeão da Copa do Mundo em 1958 e 1962.

SESCTV

Garrincha – Uma ópera nas ruas (2016) Registro do espetáculo homônimo dirigido por Bob Wilson, encenada por 16 atores e um sexteto musical. A obra apresenta uma dramaturgia pautada na música executada ao vivo. Assista em sesctv.org.br/ programas-e-series/garrincha

Confira a programação de teatro das unidades neste mês em sescsp.org.br.

Sob direção de Bob Wilson, o espetáculo Garrincha – Uma ópera das ruas é composto de uma partitura de elementos: música, linguagem falada, movimento, figurinos, luz e espaço que ampliam possibilidades de contar a vida do jogador e mito do futebol Mané Garrincha.

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HONRAR CAMINHOS Das raízes da ancestralidade africana, o feminino e a espiritualidade orientam as criações da artista visual Nádia Taquary POR RACHEL SCIRÉ FOTOS NILTON FUKUDA


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As obras da exposição Ònà Irin: caminho . de ferro são dispostas em meio aos trilhos da instalação Ogum (2023).


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m um momento de incertezas, a artista visual baiana Nádia Taquary teve um encontro com Ogum. O orixá mostrava a necessidade de entender o medo como uma energia que, em vez de paralisá-la, poderia ser transmutada e colocá-la em movimento. Enquanto assimilava a orientação de Ogum, começou a surgir o projeto de uma sala imersiva, espelhada e com trilhos de trem, que evocasse o “mistério do caminho”. “Ali, para onde se olhasse, não faltaria caminho, você só precisaria decidir caminhar”, conta a artista. O ambiente teria pouca luz, porque “tudo é muito velado, a gente não tem certeza, não sabe o que acontecerá”. O importante, ela explica, “é saber que o futuro está revelado no presente, como uma possibilidade de seguir em frente”. O projeto foi compartilhado com Amanda Bonan e Marcelo Campos, do Museu de Arte do Rio (MAR), na cidade do Rio de Janeiro, que, junto ao artista e curador Ayrson Heráclito, sugeriram expandir a instalação naquela ocasião para receber, entre os trilhos, a trajetória da artista, com a prata, o bronze e o cobre, metais que também representam Ogum, orixá que tem o domínio da metalurgia, do ferro e das ferramentas. Assim, os três curadores conceberam Ò . nà Irin: caminho de ferro, primeira exposição individual de Nádia Taquary, inaugurada em 2023, no MAR, que passou pelo Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (MUNCAB), em Salvador, no ano de 2024, e que chegou ao Sesc Belenzinho, em outubro de 2025.

A altivez de Iansã, uma das orixás femininas representadas na série de esculturas Yabás.

“Os trilhos não são cenográficos. A exposição acontece dentro da instalação, o que também é interessante porque não é usual ver uma artista mulher com uma instalação deste porte”, comenta Amanda. A expografia conduz o público por um ambiente onde as sensações de sonho e realidade se misturam, assim como estão embaralhadas as fronteiras do mundo físico e espiritual – o que ressalta a cosmopercepção iorubana, segundo a qual todos os universos estão conectados. O diálogo entre as obras também se estabelece a partir da reverência ao feminino ancestral, recorrente nas pesquisas e nas produções de Taquary. Em Mulher Pássaro e Menina Pássaro, por exemplo, as peças destacam a importância do poder feminino como equilíbrio do mundo e apresentam as Ìyámis, mães ancestrais, associadas aos pássaros, guardiãs do poder de criação, da grande cabaça da existência. “São esculturas muito bem executadas, em que há beleza, mas aquilo atinge outros níveis de sensibilidade. As pessoas são tocadas de forma artística-espiritual”, descreve a curadora. A série Oriki, é o que não se vê traz inspirações das máscaras Geledés (artefato cultural iorubá utilizado em rituais) e provoca o público a saudar legados. Na face espelhada de bronze de cabeças adornadas com búzios, miçangas, plumas e palhas, é possível reconhecer identidades. “Cada conta encaminha para um entendimento, uma compreensão do que a obra representa. A palha vai levar para Obaluaê, o lagdba para Omulu. Cada material é um elemento vivo desse sagrado, um signo africano. Eu não conseguiria, realmente, separar nada no meu trabalho dessa identidade, dessa presença negra”, conclui a artista. 43 | e


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O encontro das esculturas em bronze Mulher Pássaro (2021) e Menina Pássaro (2023).

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A força do feminino reluz no brilho da cabaça da obra Menina Pássaro (2023).

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A escultura EG05, com miçangas de vidro da República Tcheca e âmbar nigeriano, integra a série Oriki, é o que não se vê (2024).


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O lagdba compõe a cabeça de mais uma escultura da série Oriki, é o que não se vê (2024).

Detalhe dos búzios na obra Mundo/Ifá (2012), situada na entrada da exposição pela relação com Ifá, senhor de todos os destinos.

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O feminino ancestral é homenageado por meio de obras com figuras míticas, como Mulher Peixe (2021).

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A Iaô, da série Yabás, é apresentada com a pena vermelha (Ekodidé) e a pintura ritualística da iniciação.

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À esquerda: detalhe da textura das escamas da escultura em bronze Mulher Peixe (2021). Acima: trilhos de ferro que representam os caminhos abertos por Ogum.

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para ver no sesc / gráfica

ENCANTO E PODER Experiência sensorial e simbólica entrelaça arte contemporânea, ancestralidade e espiritualidade afro-brasileira em exposição no Sesc Belenzinho Para Juliana Braga, gerente na Gerência de Artes Visuais e Tecnologia do Sesc São Paulo, a exposição é um espaço de encontro com a “poética onírica” de Nádia Taquary. “A singularidade da prática dessa artista ressalta a função social que o Sesc São Paulo busca ter em seu cotidiano. Partindo da tradição da escultura, ela nos ensina, coletivamente, a força e o poder de mulheres negras, em um caminho de emancipação e resistência.”

A joalheria afro-brasileira é a inspiração da videoinstalação Abre Caminhos (2013).

Em cartaz no Sesc Belenzinho, a exposição Ò.nà Irin: caminho de ferro, de Nádia Taquary, homenageia mulheres negras que trilharam caminhos de liberdade e resistência. Na trajetória da artista baiana, que parte de investigações sobre a joalheria afro-brasileira e a arte tradicional africana, objetos que emanam beleza transcendem o caráter de adorno para afirmar identidades. É o caso da videoinstalação Abre caminhos, que traz uma grande penca de balangandãs, item utilizado como

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pecúlio (poupança), não à toa, no próprio corpo das “escravizadas de ganho” durante a luta, para a compra de suas alforrias. A curadoria de Amanda Bonan, Ayrson Heráclito e Marcelo Campos apresenta 22 obras de diferentes momentos da carreira da artista, entre esculturas, objetos-esculturas, instalações e uma videoinstalação, além de uma paisagem sonora com a voz da cantora Virgínia Rodrigues, criada pelo músico e pesquisador Tiganá Santana.

Entre trilhos infinitos que encaminham as energias de Exu Olónan (o dono dos caminhos) e de Ogum (o senhor dos caminhos), a potência feminina ancestral se apresenta com altivez e encantamento, como na série de esculturas Yabás, que representa mulheres conectadas com o sagrado, como Iemanjá e Iansã. “Elas estão de olhos fechados porque o centro é para dentro. É preciso muita concentração para saber quem você é e não se perder, não se paralisar diante do medo e continuar seguindo naqueles caminhos de ferro, quando muitos acessos e reconhecimentos são negados”, explica Nádia Taquary.

BELENZINHO

Ò.nà Irin: caminho de ferro Até 22/2. Terça a sábado, das 10h às 21h. Domingos e feriados, das 10h às 18h. GRÁTIS. Saiba mais em sescsp.org.br/belenzinho


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Cidade das

CRIANÇAS Centros urbanos podem se tornar territórios de brincadeira, conexão com a natureza e exercício de cidadania a partir da escuta das infâncias POR MARIA JÚLIA LLEDÓ

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ra uma vez uma cidade onde as crianças podiam brincar livremente e sem medo. Nela, jogar bola, subir em árvore, correr, fazer estrelinha ou passar horas de olho numa fila de formigas carregando pequeninos pedaços de folhas na praça eram ações corriqueiras. Atravessar a rua não era um problema, nem andar de bicicleta na vizinhança. Deitar-se na grama, sob a copa de uma árvore, era algo comum depois do pique-pega. Esse cenário que parece ter saído das páginas de um conto de fadas, na realidade, vem minguando ano após ano no Brasil, com a verticalização das cidades, o aumento do medo da violência, a substituição de parques e praças por condomínios

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fechados e a valorização de áreas de lazer privadas. Sem espaços naturais, nem meios para brincadeiras, trocas e descobertas, as infâncias são mediadas por telas, entre quatro paredes. Em resposta, um movimento amparado pelo trabalho do psicopedagogo italiano Francesco Tonucci, 85 anos, volta-se para a escuta e o protagonismo infantil como ferramentas de transformação do planejamento urbano. Criado e implementado em 1991 – primeiramente, na cidade italiana de Fano, onde nasceu Tonucci –, Cidade das Crianças é um projeto político que visa mudar os centros urbanos, tendo meninos e meninas

como parâmetros de mudança. No documentário Cidade Sonhada, lançado em 2025, produzido pela Allma Hub, dirigido por Luiza Campos e Pedro Paulo de Andrade, o educador parte da reflexão: “como seria se o olhar infantil moldasse o futuro das nossas cidades?”. Em depoimento, recorda como a própria infância serviu de referência para o trabalho que desenvolveria quando adulto. “Na minha infância, então há 80 anos, e na infância dos meus filhos, ou seja, há cerca de 50 anos, todas as crianças, pela tarde, depois de terem comido e terem feito a lição, saíam de casa. A rua era como o ‘terceiro tempo’, digamos, uma terceira


Nilton Fukuda

Na Praça Pôr do Sol, no bairro Alto de Pinheiros, em São Paulo, crianças brincam, em contato com a natureza.

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oportunidade. Eu acredito que havia ali uma grande importância para o nosso desenvolvimento. Porque aquele era o momento em que a criança poderia viver a experiência da autonomia e da transgressão. Às vezes, escolhíamos violar as regras e pagar as consequências, mas tudo isso ajudava a construir um senso moral”, conta. Segundo Tonucci, se uma cidade é boa para as crianças, ela é boa para todos. Para isso, é necessária a participação de meninos e meninas na prefeitura, como consultores, bem como o cumprimento dos direitos das crianças de circular com independência pelos espaços públicos, de brincar livremente e de exercer autonomia. “Dessa forma, os governos passariam a considerar a infância como o indicador de uma cidade saudável e sustentável”, explica a educadora peruana Lorena Morachimo,

coordenadora da Rede Mundial de Cidades das Crianças, que esteve no Brasil em outubro do ano passado, no Sesc Piracicaba [leia mais em Lá fora e aqui dentro]. O atual modelo urbano, explica Morachimo, foi desenhado logo depois da Segunda Guerra Mundial para a reconstrução das cidades europeias, e projetado para um cidadão em particular: “homem, trabalhador e motorizado”. A educadora explica que se essa cidade moderna foi feita para esse tipo de cidadão, é porque ela atende apenas os direitos dessa categoria, atentando contra os direitos de mulheres, idosos, crianças, imigrantes e pessoas com deficiência. “Tonucci diz que se depositamos toda a decisão política nas infâncias, podemos ter meninos e meninas como garantia de

bem-estar para todos. Então, precisamos assumir as crianças como parâmetro de mudanças para a transformação que queremos. E se antes dizia-se que tínhamos que investir na infância porque ela é o futuro da humanidade, hoje sabemos que as crianças são o presente. Temos que dar uma resposta às crianças hoje”, enfatiza.

BRINCAR AO AR LIVRE Imagine se a sua rua fosse fechada nos finais de semana para jogar bola? E se houvesse uma praça ou um parque perto da sua casa, com muitas árvores e um banco para descansar? Desejar esses lugares sintetiza uma preocupação central: a cidade está oferecendo espaços públicos para as infâncias? E de que forma? Afinal, é no desenho urbano que se prevê a experiência do “lado de fora”, ou seja, do brincar na rua, no parque ou na praça. Essas e outras atividades, no entanto, estão comprometidas pela falta de políticas públicas e de equipamentos bem cuidados e seguros. O resultado? Uma infância dentro de casa, mediada por telas. De acordo com Isabel Barros, especialista em infâncias e natureza do Instituto Alana, as experiências do lado de fora, em contato com a natureza – “não necessariamente um lugar inacessível e longe, mas áreas próximas” – vem reduzindo cada vez mais. Barros descreve que antes havia os quintais, dentro de casa, onde as crianças tinham acesso ao ar livre e contato com outras crianças. À medida que cresciam, elas eram autorizadas a explorar o seu território: primeiro, a rua, depois, o bairro. Passavam a ir a pé para a escola, para a casa de uma avó ou faziam alguma compra para a mãe.

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Além de usufruirem de permanentes e de diversas atividades na programação, as infâncias participam no Sesc São Paulo com sugestões de ações, como o Cinema na Piscina, no Sesc Piracicaba, durante o encontro Chamem as crianças: a cidade como um espaço vivo e partilhado, realizado em outubro do ano passado.

Matheus José Maria

“Essas experiências são o que a gente chama de ‘raio de ação’, ou seja, o espaço onde a criança tem autorização para se mover com independência, sem precisar de um adulto. No entanto, esse polígono dentro de uma cidade, onde a criança tinha essa mobilidade ativa e autônoma, foi encolhendo ao longo das décadas. Hoje, uma criança de 10 ou 12 anos, nas nossas cidades, não tem autorização para andar 200 metros ao redor da casa”, ressalta. Os impactos desse quadro, segundo a especialista em infâncias e natureza, incidem diretamente sobre “a saúde física e mental, o bem-estar social e até mesmo sobre o sentimento de pertencimento e cidadania”, ressalta. Atentas à necessidade de qualificação dos espaços públicos para as crianças exercerem o direito de brincar sem interferências, regras e limitações impostas por adultos, a gestora cultural

Tatiana Weberman e a produtora audiovisual Juliana Borges criaram a Flora, uma kombi itinerante que faz parte do projeto Slow Kids, nascido em 2013 dedicado às infâncias. Em setembro de 2025, a Flora estacionou, pela primeira vez, na área externa do Museu do Ipiranga e da Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, no Parque Ibirapuera. Voltada a crianças de zero a 10 anos, a Kombi carrega a proposta do brincar livre, natural e diverso, a partir de elementos como folhas, sementes, bambus, tintas naturais, instrumentos e livros. “A gente sentia que, dentro de uma cidade como São Paulo, as crianças estavam cada vez mais distantes de experiências profundas com a natureza. E, ao mesmo tempo, a gente já vinha, há anos, observando, no Slow Kids, como o brincar ao ar livre produz transformações muito potentes no corpo e no emocional das crianças”,

explica Tatiana Weberman. Como alternativa ao aparato tecnológico que acompanha as infâncias hoje, a possibilidade de brincar a céu aberto e experimentar texturas, sons, cheiros e cores de elementos da natureza cativa meninos e meninas. “O maior aprendizado é esse: as crianças passam a ler a cidade com outros olhos. Elas entendem que o território tem memória, natureza, ancestralidade, diversidade e vida. E quando uma criança percebe isso, ela começa a cuidar do espaço, do outro, do planeta e de si mesma”, observa Weberman.

PEQUENOS CIDADÃOS Enquanto iniciativas pontuais buscam atender, paulatinamente, o maior número possível de crianças, o poder público engatinha em ações que levam em consideração as necessidades e as ideias das crianças. No Brasil, o primeiro 57 | e


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município reconhecido como integrante da rede internacional Cidade das Crianças foi Jundiaí, em outubro de 2018. A 49 quilômetros da cidade de São Paulo, Jundiaí passou a integrar a Rede Mundial de Cidades das Crianças e, com isso, assumiu como diretrizes: a escuta das infâncias sobre suas impressões e contribuições para o planejamento urbano, com a criação do Comitê das Crianças, em 2019; e a devolução da autonomia para elas se deslocarem e ocuparem os espaços públicos.

feriados, das 9h às 17h, de vias públicas), Áreas da Infância (espaço qualificado, público e ao ar livre, de contato com a natureza) e Parques Naturalizados. Atualmente, além de Jundiaí, fazem parte da Rede Brasileira de Cidades da Criança no estado de São Paulo: Itu, Itupeva, Jarinu, Louveira, Mococa, Mogi das Cruzes, Rio Claro e Vinhedo. Outros municípios de diferentes estados somam-se, entre alguns, Benevides (PA), Boa Vista (RR), Brasiléia (AC), Fortaleza (CE) e Pelotas (RS).

Lá criou-se um capítulo dentro do Plano Diretor do Município, exclusivo às políticas para a criança, além de diversos programas e iniciativas como: Ruas de Brincar (fechamento, aos domingos e

Coordenador da Rede Brasileira de Cidades das Crianças, Marcelo Peroni ressalta que a responsabilidade dessa proposta idealizada por Francesco Tonucci é de todos, portanto, intersetorial. “Do poder

público e da iniciativa privada, de todos nós que construímos essa cidade de alguma maneira”, lembra. E, ao contrário do que se possa imaginar, explica Peroni, não é uma cidade cheia de parquinhos. “Mas uma cidade que permita que todo o espaço urbano possa ser ocupado por uma criança. E quando a gente pensa que todo espaço urbano pode ser ocupado por uma criança, automaticamente, ele pode ser ocupado pelas outras pessoas. Por exemplo: uma calçada pensada para ser confortável para uma mãe ou para um cuidador andar com um carrinho, também é melhor para um idoso. É essa cidade da convivência, que não separa as pessoas, pelo contrário, que as integra no dia a dia – uma Cidade das Crianças”, arremata.

Folhas, galhos, sementes e outros elementos naturais entram no dia a dia das crianças, que experimentam o livre brincar em contato com a natureza em parques e outros espaços, onde também estaciona a Flora, uma kombi itinerante que busca qualificar áreas públicas para as infâncias.

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Ignacio Aronovich

para ver no sesc / infância

No Sesc Interlagos, os Espaços Lúdicos são compostos por brinquedos com arquitetura especial (como o Jacaré Gigante), que proporcionam estímulos sensoriais, motores e visuais para crianças de todas as idades.

LÁ FORA E AQUI DENTRO Áreas verdes, espaços de brincar naturalizados e atividades dedicadas a todas as infâncias fazem parte da estrutura e da programação permanente do Sesc São Paulo

Milene Milan

Quando uma criança entra em uma unidade do Sesc São Paulo, seja na capital, no litoral ou no interior do estado, um portal se abre para brincadeiras e trocas que permeiam desde o espaço externo – jardim, parques e outras áreas verdes – ao interno – Espaço de Brincar, Teatro, entre outros. Dessa forma, o Sesc reafirma seu compromisso como um território que proporciona a livre circulação, o livre brincar, a autonomia e, consequentemente, novos aprendizados para todas as infâncias. A fim de discutir a importância desses espaços e ações nas cidades, o projeto Chamem as crianças a cidade como um espaço vivo e partilhado foi realizado em outubro do ano passado, no Sesc Piracicaba. O encontro propôs uma reflexão

sobre as áreas urbanas a partir da escuta das crianças e de suas necessidades. Dele participaram técnicos dos Programas Espaço de Brincar e Curumim do Sesc, além de educadores infantojuvenis das unidades para acompanhar os bate-papos com a educadora peruana Lorena Morachimo, coordenadora da Rede Mundial de Cidades das Crianças, o coordenador da Rede Brasileira de Cidades das Crianças, Marcelo Peroni, e o pensador italiano Francesco Tonucci, fundador e idealizador da Rede Mundial de Cidades das Crianças. “O Sesc fez o exercício de ouvir as crianças para a programação. Saíram coisas maravilhosas, como o Cinema na Piscina. Esse evento foi importantíssimo para reafirmar o compromisso com

uma infância mais livre, em espaços naturalizados. E naturalizar espaços significa trazer mais elementos da natureza, como um tronco de árvore, pedras, areia, água e, também, tempo”, conta Rosana Abrunhosa, que integra a Gerência de Estudos e Programas Sociais. Além da curadoria de programações com atividades realizadas ao longo do ano, espaços permanentes nas unidades do Sesc São Paulo valorizam a conexão com a natureza e o brincar ao ar livre, caso do Jardim da Brincadeiras, nas unidades de Interlagos e de Itaquera. Esse contato direto com a natureza também está presente no Sesc Jundiaí – localizado ao lado do Jardim Botânico da cidade – e do Sesc Bertioga, que abriga uma reserva natural. “Falar em uma infância saudável é falar em uma cidade apropriada para as crianças, ou seja, para todas as pessoas. Por consequência, é pensar a questão ambiental ali, muito presente”, complementa Rosana Abrunhosa. Confira esses e outros espaços nas unidades do Sesc São Paulo, além da programação para as infâncias nesse mês em sescsp.org.br 59 | e


LITERATURA PARA AS INFÂNCIAS


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m 2026, o prêmio Hans Christian Andersen, considerado o Nobel da literatura infantojuvenil, vai anunciar seus vencedores e, pela primeira vez, o Brasil estará fora da lista dos indicados. Apesar disso, esse é um dos gêneros literários que mais cresce no país, acompanhado pelo número de eventos, selos e exposições dedicadas à literatura para as infâncias. A ausência na premiação – organizada a cada dois anos pela International Board on Books for Young People (IBBY) – levanta questões sobre o apoio institucional ao setor, a visibilidade internacional das obras brasileiras, as políticas públicas de incentivo à leitura e à publicação, além do impacto do mercado editorial nas escolhas temáticas e estéticas.

Ilustração Juliana Russo

Para a jornalista e escritora Cristiane Rogerio, mestre em arte educação pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp), é preciso observar que “(...) há um gap [lacuna] entre o que estamos questionando, lutando e até publicando (impulsionados por editoras pequenas e produções independentes, inclusive), e o que vemos valorizado no campo da arte e da educação”. Além disso, ela questiona: “Que Brasil estamos exibindo lá fora? É o da diversidade? Primeiro, talvez, devêssemos refletir sobre o que estamos dando a ver aqui dentro, nos espaços escolares, nas políticas públicas de livros e leituras, no mercado editorial”.

Outro obstáculo no meio do caminho é o hábito da leitura. Hoje, no país, o percentual de não leitores (53%) ultrapassa o número de leitores (47%), segundo dados mais recentes da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil 2024. Para o escritor Ilan Brenman, autor de dezenas de livros infantis, premiado na categoria Literatura Infantil do prêmio Jabuti 2024, ainda “falta um despertar da sociedade civil e do poder público para a importância da literatura infantil na formação do indivíduo”. “Claro que livros infantis divertem e entretêm, mas são muito mais: são umas das primeiras janelas para repertórios linguísticos e visuais das crianças. E crianças que ouvem histórias lidas por seus pais e professores chegam mais preparadas para a vida. Esta é uma afirmação embasada por uma profusão de pesquisas em diversas áreas científicas. Ler ou não literatura infantil para as crianças, desde pequenas, pode acarretar profundos desdobramentos em suas vidas”, defende Brenman. Neste Em Pauta, Cristiane Rogerio e Ilan Brenman refletem sobre o papel dos livros na formação das crianças, os desafios encontrados por autores, educadores e leitores, e os rumos da literatura para as infâncias.

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Nossos compromissos com os rumos da literatura infantil brasileira POR CRISTIANE ROGERIO

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“O conhecimento do conhecimento compromete.” Iniciando um caminho para conversar sobre literatura infantil no Brasil contemporâneo, eu arrisco colocar em evidência esta frase contida no livro A árvore do conhecimento (Editorial Psy II, 1995), dos biólogos e pesquisadores chilenos Humberto Maturana e Francisco Varela. Completa-se assim: “Compromete-nos porque, ao saber que sabemos, não podemos negar o que sabemos”. Os rumos da literatura infantil podem – ou devem – estar atrelados a esta espécie de pacto. Hoje conhecemos muito mais a fundo e ampliamos as reflexões sobre o que é e como produzimos o sistema literário do final do século 19 para cá. Como nos comportamos pós-colonização e pós-escravização. Quem escolhemos para ter o privilégio de ser educado, de aprender a ler e de escolher o que ler. Estamos sendo convidados a mudar de rota. Olhar para o que foi feito antes e não temer questionar os modos de produzir livros, as formas de fazer as obras circularem e as maneiras de mediar leituras nos mais variados espaços. Quem se tornou autor, autora? Que tipo de livros foram publicados quanto à forma e ao conteúdo? Quais edições chegaram aonde? Como foi a formação de professores para o ensino da literatura nesse percurso de tempo? Para uma literatura digna, pensada para as infâncias em sua ampla pluralidade, há de se focar em duas premissas inegociáveis: a primeira é o avanço que demos quanto à confecção de um livro, no que se refere à exploração desse objeto nos aspectos da

materialidade. Das primeiras palavras da história ao acabamento de uma edição, cada elemento conta com importância narrativa ou informativa. “Refletindo sobre o livro como um objeto que se relaciona com diferentes áreas como as artes, o design e a literatura, passei a considerá-lo como um objeto híbrido, que habita um novo território criado entre as fronteiras desta área”, escreve a pesquisadora Camila Feltre, doutora em arte e educação, em seu livro É um livro…? Mediações e leituras possíveis (Cultura Acadêmica, 2017). Uma conjunção de experiências e estudos fez com que, dos anos 2000 para cá, começássemos a classificar determinados livros como “livro ilustrado” (do inglês picture book) ou “livro-álbum” (traduzido do francês l’album), nomenclatura em discussão entre os acadêmicos. Trata-se de uma perspectiva nova de criação, no entanto, mais do que isso, de leitura. “No termo ‘livro ilustrado’, o adjetivo não denota apenas uma qualidade do substantivo – a de conter ilustrações. Ele o transforma em outra coisa. Num livro ilustrado é preciso muita atenção às imagens e à maneira como elas se entrelaçam, não só com as palavras (se as houver), mas também com as outras imagens com as quais ela se relaciona, pois a unidade narrativa se dá com a contribuição de múltiplos elementos. Nele, a palavra altera o sentido das imagens, as imagens alteram o sentido das palavras e a unidade do todo é maior do que a soma dessas partes”, define o pesquisador Odilon Moraes, em sua dissertação de mestrado no Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Para certa parte da população, houve um aumento de estudos e de cursos formativos, fortificando uma rede de interesse que vem transformando o mercado editorial da área (influenciou até mesmo os direitos autorais), as ações de políticas públicas e os conceitos de leitura, leitor/leitora. A segunda premissa é assumirmos que não há mais espaço para livros infantis que, de alguma maneira, firam a dignidade de alguém. Quem usa esses termos é a pesquisadora Ananda Luz, mestre em ensino e relações étnico-raciais pela Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), uma das-coordenadoras


Tal qual outros campos da sociedade brasileira, no mercado de literatura infantojuvenil é hora de fazer perguntas sob a lupa das práticas antirracistas e da percepção decolonial dos cursos de pós-graduação O livro para a infância e Educação e relações étnico-raciais n’A Casa Tombada. “Por muito tempo, os criadores de livros invisibilizaram e estereotiparam histórias, culturas e pessoas. Personagens negras, quando apareciam nos livros, estavam em situações de violência ou não tinham uma narrativa que lhes apresentassem e valorizassem, tornando-as desinteressantes para quem as lesse. Muitas não tinham nomes, famílias, desejos ou suas representações eram desumanizadas”, apontou a pesquisadora na abertura do catálogo da exposição Karingana – Presenças negras no livro para as infâncias, em cartaz no Sesc Piracicaba [de maio a novembro], e da qual é curadora. “Há ainda muito a se problematizar. Livros racistas ainda são publicados, direitos autorais violados, acervos com pitadas de censura ainda são encontrados por aí. A saída é uma só: para não dar espaço a opiniões frágeis, é essencial colocar em evidência o que veio antes, o que atravessou, o que nos escapou”, elaboro em O livro para a infância – caminhos que se entrelaçam, que lancei recentemente com a editora Quatro Cantos. Estudar coletivamente é a estratégia mais potente. Tal qual outros campos da sociedade brasileira, no mercado de literatura infantojuvenil é hora de fazer perguntas sob a lupa das práticas antirracistas e da percepção decolonial. Enfrentar o racismo editorial assumido especialmente desde a força da obra de Monteiro Lobato (1882-1948) que, por décadas, ditou o que era qualidade literária para crianças; cumprir, com coragem, as leis 10.639/2003 e 11.645/2008, que estabeleceram as temáticas africanas, afro-brasileiras e indígenas no currículo oficial da rede de ensino.

Assumir o compromisso com os desdobramentos éticos e estéticos destas mudanças, rumo a uma ampla bibliodiversidade. Pela primeira vez, desde 1984, o Brasil não teve autores de livros infantis indicados para o Prêmio Hans Christian Andersen [que anunciará os vencedores em 2026], uma espécie de “Nobel” da área em que já vencemos três vezes. Anunciado sempre na Feira do Livro Infantil de Bologna, na Itália (uma das mais importantes do mundo), é curado pelo IBBY (Organização Internacional para o Livro Infantil e Juvenil). O repertório brasileiro tem prestígio fora, com traduções de obras em diversos idiomas e reconhecimentos internacionais. Mas há um gap [lacuna] entre o que estamos questionando, lutando e até publicando (impulsionados por editoras pequenas e produções independentes, inclusive), e do que vemos valorizado no campo da arte e da educação. Que Brasil estamos exibindo lá fora? É o da diversidade? Primeiro, talvez, devêssemos refletir sobre o que estamos dando a ver aqui dentro, nos espaços escolares, nas políticas públicas de livros e leituras, no mercado editorial. Para onde sonhamos crescer após a desanimadora pesquisa Retratos da Leitura 2024, mais recente, em que, pela primeira vez, a proporção de não leitores é maior do que a de leitores na população brasileira? Com a desigualdade de acesso ainda em alta, temos poucas chances de fechar essa equação. Porém, os caminhos estão postos e há muita gente que sabe exatamente o que fazer.

Cristiane Rogerio é jornalista e mestre em arte educação pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e autora de O livro para a infância – caminhos que se entrelaçam (Quatro Cantos, 2025). É uma das coordenadoras dos cursos de pós-graduação lato sensu O livro para a infância e Criação de livro ilustrado n’ A Casa Tombada, em São Paulo (SP). Na revista Crescer, é colunista da seção Livros que amamos e curadora da lista Os 30 Melhores Livros Infantis do Ano.

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Livros de hoje, leitores de amanhã POR ILAN BRENMAN

Há muitos anos, uma mãe se aproximou de mim e disse: “Seu livro foi libertador para minha filha. Libertou-a de uma imagem de perfeição que estava engessando seu comportamento cotidiano”. Outro casal mandou uma mensagem para minhas redes sociais dizendo que outro livro que escrevi para crianças havia ajudado muito a combater uma rotina noturna extenuante. Tal livro é sobre uma criança que pede para dormir na cama dos pais e descreve um diálogo bem-humorado entre pai e filha sobre o tema. Essas mensagens, centenas delas, me acompanham há anos, falando de marcas, emoções compartilhadas e momentos inesquecíveis que os livros proporcionam entre crianças, pais, avós e educadores.

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Como criador, não faço livros para libertar nem salvar ninguém. Não acredito nesse tipo de livro para crianças, aquele que pretende ensinar ao outro o caminho correto a ser seguido. Clarice Lispector [1920-1977] dizia que escrevia para sobreviver, para transformar e organizar o caos interior em que vivia. Escrever, para ela, era uma forma de sobrevivência. Eu escrevo nesse mesmo espaço que Clarice descrevia. Escrevo porque amo, sofro, porque me interessam os detalhes grandiosos das pequenas coisas cotidianas, porque minhas memórias infantis colidem com a infância das minhas filhas. Escrevo porque sinto um prazer inenarrável em fazer livros que possam chegar aos mais recônditos lares em vários países. E é exatamente por causa dessa forma de escrever que os livros podem, sim, salvar, libertar e transformar vidas. Sempre digo que a literatura infantil é a oração da infância, assim como o brincar é a sua profissão. Tenho calafrios quando pessoas, ainda que bem-intencionadas, se referem a esse produto cultural de primeira grandeza como “livrinho”, algo menor, sem importância, mero entretenimento passagei-

ro. Claro que livros infantis divertem e entretêm, mas são muito mais: são umas das primeiras janelas para repertórios linguísticos e visuais das crianças. E crianças que ouvem histórias lidas por seus pais e professores chegam mais preparadas para a vida. Esta é uma afirmação embasada por uma profusão de pesquisas em diversas áreas científicas. Ler ou não literatura infantil para as crianças desde pequenas pode acarretar profundos desdobramentos em suas vidas. Lembro uma cena que exemplifica bem o olhar de soslaio que parte da sociedade dirige aos livros infantis e a seus autores. Chegando a um hotel para participar de uma importante feira literária do país, uma amiga escritora me reconheceu e prontamente me apresentou a um escritor premiadíssimo de romances para adultos, de quem sou fã. Quando ela mencionou que eu era autor de livros infantis, o colega fez um gesto com a mão, expressando certo desdém. Eu, educadamente, e com serenidade, disse: “Você sabe que, se eu e meus colegas escritores de literatura infantil não existíssemos, você não teria leitores para os seus maravilhosos romances. Somos nós que preparamos os seus leitores”. O autor ficou um pouco constrangido e me pediu desculpas. Ele disse que nunca havia considerado essa perspectiva. Faço este preâmbulo para tentar compor um quadro de como a sociedade percebe aqueles que trabalham com objetos culturais destinados à infância, ao mesmo tempo em que reconhecemos que esse trabalho pode transformar uma sociedade inteira. Os países mais desenvolvidos priorizam totalmente a primeira e a segunda infância. Não é à toa que seus jovens, banhados constantemente por linguagens narrativas quando crianças, estão no topo das avaliações internacionais, como o Pisa [Programa Internacional de Avaliação de Estudantes], que avalia alunos de 15 anos em leitura, matemática e ciências, a cada triênio. Infelizmente, o Brasil sempre aparece nas últimas posições. Portanto, há uma relação direta entre formar leitores competentes, capazes não apenas de decodificar, mas de compreender o que leem, e o desenvolvimento global do indivíduo e da sociedade.


É urgente fortalecer políticas públicas e privadas que incentivem a leitura desde os primeiros anos de vida e reconhecer, de forma efetiva, que formar leitores é também formar cidadania, memória e futuro A situação no Brasil se agravou ainda mais em 2024, quando a pesquisa Retratos da Leitura revelou que, pela primeira vez, a porcentagem de não leitores superou a de leitores. 53% dos brasileiros não leem livros, e nos últimos quatro anos houve uma redução de quase sete milhões de leitores no país. Circulando pelo Brasil, frequentando livrarias, bienais, feiras literárias, escolas públicas e privadas, acompanhando a produção nacional de literatura infantil, podemos vislumbrar caminhos para mudar essa rota. Bienais e feiras literárias lotadas. Uma produção editorial de alta qualidade, que não deixa nada a desejar ao resto do mundo. Uma diversidade incrível de temas, autores e ilustradores. Somos uma verdadeira usina de criatividade literária. O que falta, então? Lembro-me agora de um encontro com uma professora alemã que estava em São Paulo ensinando numa escola particular. Ela comentou que não entendia por que as crianças às quais dava aulas particulares de alemão em mansões não tinham nenhum espaço para livros em seus quartos. Na cidade que havia morado na infância, numa região proletária na Alemanha, todas as casas tinham uma pequena biblioteca para os filhos. Falta um despertar da sociedade civil e do poder público para a importância da literatura infantil na formação do indivíduo. Esse despertar também precisa acontecer dentro do próprio meio literário e suas instâncias representativas, que algumas vezes replicam preconceitos contra criadores de livros infantis, afastando-os de lugares de destaque em eventos literários, como

se um autor infantil não pudesse dialogar em alto nível com romancistas. Escrever para crianças não é tarefa fácil. Grandes autores, de José Saramago [1922-2010] a C. S. Lewis [1898-1963], já comentaram a dificuldade de escrever para crianças. Elas são críticas implacáveis, inteligentes e perspicazes. Rejeitam moralismos simplistas e buscam histórias autênticas e com certa complexidade. Desde 2010, tenho publicado dezenas de livros na Europa, Ásia e América Latina. Uma jornada dura, com investimentos próprios, mas que levou um autor brasileiro para mercados como Vietnã, Romênia, Polônia, Taiwan, França, Alemanha, Canadá, Grécia, Espanha, entre outros países. Aliás, a Espanha é meu segundo maior mercado, com mais de 200 mil exemplares vendidos. Conto isso porque, provavelmente, se eu escrevesse romances, o impacto dentro do meu próprio país seria diferente. Falo da minha trajetória, mas muitos colegas enfrentam desafios semelhantes, levando histórias brasileiras a milhões de crianças pelo mundo. A literatura infantil brasileira apresenta uma qualidade textual, visual e gráfica de altíssimo nível, com uma diversidade admirável de temas, criadores e editoras. Não por acaso, já tivemos três vencedores do Hans Christian Andersen, o mais prestigioso prêmio da literatura infantil mundial. Por isso, é urgente fortalecer políticas públicas e privadas que incentivem a leitura desde os primeiros anos de vida e reconhecer, de forma efetiva, que formar leitores é também formar cidadania, memória e futuro.

Ilan Brenman é escritor com mais de 80 livros publicados e obras traduzidas para mais de 17 países, premiado no Brasil e no exterior. Doutor em educação pela Universidade de São Paulo (USP), ainda é palestrante nas áreas de educação, cultura e parentalidade. Em 2024, venceu o prêmio Jabuti de Melhor Livro Infantil por Cabo de guerra (Santillana Educação, 2023). Também escreve para o público adulto e lançou, neste ano, o título Histórias para guiar a sua jornada (Vestígio, 2025).

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encontros

Universo

SONORO

Fundadora da Rádio Novelo, Branca Vianna atuou 25 anos como tradutora simultânea e hoje se dedica a produzir e apresentar podcasts jornalísticos com histórias diversas POR LUNA D’ALAMA

C

riada em 2019, no Rio de Janeiro, a Rádio Novelo é considerada a maior produtora de podcasts jornalísticos do país. Em quase sete anos, já foi responsável pela produção de mais de 30 programas, entre projetos próprios e os destinados a clientes como a revista Piauí (Foro de Teresina e O Sequestro da Amarelinha), o Museu do Ipiranga e a Japan House. Em agosto de 2020, a produtora lançou sua primeira série original, Praia dos Ossos, referência no estilo narrativo em língua portuguesa, com milhões de acessos e downloads. No ano passado, a Novelo divulgou a série Avestruz Master, sobre uma grande fraude financeira ocorrida no país, nos anos 2000, que usava a criação de avestruzes como fachada para um esquema de pirâmide. À frente da produtora está a linguista Branca Vianna, que por 25 anos trabalhou como intérprete

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simultânea, e hoje empresta sua voz aos podcasts Rádio Novelo Apresenta e Fio da Meada. “Quando surgiram os podcasts, para mim, se abriu um mundo maravilhoso. Vi como algo muito natural, pois sou multitasking. Já estava acostumada a ouvir e prestar atenção em outra língua, traduzir, falar com as colegas de cabine para ver se estava tudo certo etc.”, lembra Vianna. Neste Encontros, a fundadora da Rádio Novelo fala sobre as diferenças e semelhanças entre rádios e podcasts, como surgem as histórias dos programas, de que modo equilibrar interesse público e interesse do público. Explica, também, como tratar temas sensíveis (como abuso sexual) e analisa o mercado de podcasts no Brasil – um dos maiores do mundo – , entre outros assuntos do universo da podosfera.

RÁDIO X PODCAST O podcast é um formato em áudio que você pode baixar, que não está online o tempo todo, como uma emissora de rádio. Alguns podcasts, especialmente nos Estados Unidos, têm essa tradição de serem programas que, às vezes, começam em rádio – ou fazem o caminho contrário. Aqui no Brasil, algumas rádios pegam certos programas e os transformam em podcasts. Então, a diferença não é muito grande, especialmente quando se trata de rádios públicas da Europa e dos EUA. Para mim, é só um arquivo em áudio – pode ser qualquer coisa, mais ou menos experimental. Pode ter entrevista, ser narrativo ou uma experimentação sonora. Realmente, a diferença entre rádio e podcast é uma fronteira muito difícil de delinear.

ORIGEM DAS HISTÓRIAS No caso de Praia dos Ossos, contei sobre o assassinato de Ângela Diniz (1944-1976) para Paula Scarpin e Flora Thomson-DeVeaux [diretora de criação e diretora de pesquisa, respectivamente, da Rádio Novelo], e achamos que seria uma boa história para contar em podcast. Isso foi em 2018, dois anos antes do lançamento. Começamos a pesquisar e vimos que havia muita gente envolvida na faixa dos 80 anos, e que poderíamos entrevistá-los. Então, tiramos do papel um plano antigo de criar a nossa própria produtora. Depois disso, a jornalista Carol Pires, que cobre política, propôs um podcast sobre o então presidente Jair Bolsonaro. Retrato Narrado foi lançado em setembro de 2020, com seis episódios e uma faixa bônus.


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Ângela Siamsen


encontros

Naquele momento, era preciso saber quem era esse homem, como foi sua infância, de onde surgiram suas ideias e obsessões. Carol foi investigar, viajou à cidade onde ele nasceu [GlicérioSP], conversou com familiares, com quem trabalhou com ele no Exército. Já o podcast Collor vs Collor surgiu por sugestão da jornalista Dora Kramer. Então, cada história vem de um lugar diferente. A gente está sempre alerta.

A maioria das pautas sai da própria redação da Rádio Novelo, mas a gente também recebe muitas sugestões de ouvintes ou pessoas conhecidas (família, amigos). Distribuímos as pautas de acordo com o interesse e o perfil de cada repórter. Também trabalhamos com freelancers, que podem sugerir a pauta ou serem pautados. O tempo que leva depende de cada história. Algumas “viram” em semanas, outras em um ano. O podcast Sala de Espera, sobre aborto legal no Brasil, levou uns 15 meses entre a pesquisa e o lançamento, em julho de 2025. Uma história de 20 minutos da Rádio Novelo Apresenta, por exemplo, pode levar seis meses para ficar pronta. Às vezes, é porque o fato está acontecendo à medida que estamos apurando, em outras levamos um ghosting [sumiço] de alguém. Aí a pauta fica na gaveta. As histórias que “viram” mais rápido são entrevistas em que você não precisa reunir vários áudios nem viajar. A edição e a sonorização são as partes mais rápidas. Também tem história que achamos que será longa e não rende, e outras para as quais prevemos meia hora e acabam ocupando um episódio inteiro.

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Kevin Rodrigues

TEMPO DE APURAÇÃO

PRAIA DOS OSSOS Não considero esse um podcast de true crime, porque não investiga o crime, não tem mistério. No assassinato da Ângela Diniz, nunca houve dúvidas de quem a matou, porque o Doca Street (1934-2020) era um assassino confesso. A questão era abordar como aquele crime foi visto pela opinião pública, pela imprensa, pela Justiça. Isso aconteceu em 1976, e qualquer pessoa mais nova que eu não deve se lembrar desse caso. Então, no primeiro episódio, a gente conta o crime e, a partir dali, as narrativas criadas em torno dele. Também abordamos quem era Ângela Diniz: uma mulher bonita, sedutora, glamourosa. Mas ela não morreu por ser sexy e provocante – morreu por ser mulher. O caso, em si, é um feminicídio clássico que a gente vê tanto pelo Brasil e por outros países. Mais que o caso, nos interessava o contexto político daquilo que aconteceu no meio da ditadura, na segunda onda do movimento

feminista. Hoje, passados cinco anos e meio do lançamento, Praia dos Ossos já deve ter superado sete milhões de downloads. A cada vez que sai mais alguma coisa sobre a Ângela Diniz, como filmes ou séries, nossa audiência aumenta.

RELEVÂNCIA E INTERESSE Há histórias nos nossos podcasts que são engraçadas, chamamos de “bobo alegre”. São ótimas, a gente adora. Mas, mesmo nessas, sempre existe um fundinho de alguma coisa a mais, para podermos contar uma boa história. Temos que justificar para nós mesmos e para o público por que estamos contando determinada história agora. Qual é a relevância dela? Às vezes, são histórias que aconteceram 30 anos atrás, no século 19 ou ontem. É superimportante essa justificativa. Em geral, isso tem a ver com um contexto mais amplo, seja político, histórico, social, nacional ou regional. É raro


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contarmos uma história apenas porque é divertida, engraçada ou bizarra. Aliás, recebemos sugestões em que pessoas dizem: “Acho que vocês vão adorar!”. Isso já é um sinal de que, provavelmente, a gente não vai adorar. Podemos passar para outro veículo que tenha mais a ver com essas pautas, pois raramente contamos uma história só por contá-la.

MERCADO DE PODCASTS Tem cada vez mais gente produzindo podcasts. Não acho que o mercado esteja saturado, nem de perto. O Brasil é realmente um dos países em que mais se ouvem podcasts, mas, mesmo assim, ainda é um número pequeno de pessoas [em relação ao total da população]. Acho que a audiência só vai aumentar com a diversificação da produção: podcasts para crianças, adolescentes, de esporte, de música, regionais, de uma cidade específica, de um nicho. Assim, deve aumentar o público e consolidar esse mercado. Se você olhar na lista dos 50 podcasts com maior audiência do Spotify, por exemplo, vai perceber que são todos meio parecidos. De repente, a onda vira "mesacast" com vídeo [podcast de vídeo ou videocast, em que os participantes se reúnem para uma conversa informal, como numa mesa-redonda], aí vai todo mundo produzir. Agora a onda é produzir podcast sobre o bem-estar das mulheres ou sobre religião. Se diversificar, acho que aumenta o público. Ainda tem muito espaço.

VIABILIZAR PROJETOS Você pode fazer um podcast regular sozinho, sem equipe de edição, publicação, divulgação.

É possível, mas muito difícil. Então, de modo geral, o ideal é você ter anunciantes, apoio do terceiro setor, anúncios dinâmicos, programáticos, automáticos. Minha sugestão é atirar para todos os lados. Além disso, tentar trabalhar com plataformas (como Audible, Deezer, Globoplay). Estou nesse negócio há seis anos e já presenciei uns três ciclos diferentes. Antes ninguém sabia o que era um podcast. De repente, tudo quanto é plataforma queria financiar algum, qualquer coisa. Recebemos muita reclamação de que temos anúncios nos podcasts, mas estamos fazendo um produto caro, especializado, que leva tempo, com uma equipe grande de jornalistas experientes. Se tivermos que cobrar mensalidade para conseguirmos nos pagar sem anunciantes, o valor vai lá na estratosfera. Então, como ouvinte, também acho chato, mas ouço o anúncio. É importante.

TEMAS SENSÍVEIS A gente já tratou de casos de abuso sexual, por exemplo. Esse é um dos crimes em que a pessoa que sofreu a violência não consegue se livrar fisicamente do ocorrido. E o relato dispara esse gatilho, por isso temos que tomar muito cuidado. Por outro lado, do ponto de vista jornalístico, você precisa dos detalhes do fato, saber o que aconteceu, para poder checar. Então, é um equilíbrio muito complicado e difícil de fazer. Não somos uma redação investigativa, como a [Agência] Pública ou a [revista] Piauí. No podcast Silenciadas, da Piauí, as jornalistas Cristina Fibe e Mari Faria falam bastante sobre como é difícil cobrir temas de abusos, pois não há um protocolo, algo no manual de redação. Você não aprende na

faculdade a fazer uma apuração dessas. Esse podcast não trata sobre detalhes dos casos, mas sobre como cada um deles foi recebido quando chegou às redações. Mostra como é difícil apurar e publicar casos de abuso sexual no Brasil, especialmente quando os acusados são homens muito poderosos, ricos e com conexões influentes.

RADAR LIGADO Gosto de histórias. As que eu mais gosto em podcast são as surpreendentes, seja do Rádio Novelo Apresenta, do This American Life, do Radiolab, de qualquer um desses podcasts. Pode ser até um tema banal, sobre o qual está todo mundo falando na imprensa, nas redes sociais. Mas o podcast pega uma história e a vira do avesso, mostra um aspecto que ninguém pensou. Ou conta essa história de um jeito completamente diferente e isso faz o público parar para ouvir. Quando ouço algo assim, penso: “Achava que já sabia tudo desse assunto, mas nunca tinha pensado nesse aspecto”. Pode ser uma história triste, engraçada, tanto faz. É isso que mais me interessa nas histórias que ouço, produzo e das quais gosto. O podcast Praia dos Ossos é um bom exemplo. Pegamos uma história que muita gente já conhecia, explicamos e surpreendemos. Fizemos as pessoas pararem e refletirem.

A podcaster e fundadora da Rádio Novelo, Branca Vianna, participou da reunião do Conselho Editorial da Revista E, no dia 26 de novembro de 2025. A mediação do bate-papo foi de Claudia Dias Perez Machado, coordenadora de conteúdo integrado do Sesc Digital. 69 | e


PASSIFAUNA

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POR NINA RIZZI ILUSTRAÇÃO LUMINA PIRILAMPUS


marina pra ouriço-mar

tudo no mundo começou com um sim porisso gosto que cê respire me dizendo sim enquanto os grilos estridulam ramo’ curumim avie

sei pouco, muito pouco de ti. que tens sete monossílabos no nome, que esplendes e espocas como um verão inaugural. teu horizonte é um provável. como um peixe que deixa o rastro veloz no ar, é a tua mão esquerda. afeita a negros me vens ou apelos. e à ambidestra escrita da poesia. não sei se me entendes: antes de os pássaros, as algas, as luzes nervosas de um farol e as águas acolhidas nas piscinas existirem, já eras olhos, algas, sereias, conchas que me surpreendiam numa curva do teu pescoço, uma água viva entre os artelhos e nos fundos, uma mão deixada sobre a tua barriga e pélvis, um respiro, um arfar, tênue gemido entre as espumas. os poucos sinais do código, com que nos entendemos, falam de presságios, ternuras, chegânsias e um vocabulário precioso da arte nordestina. sei: teu silêncio é a marca dos teus pés nas areias, o andamento rítmico de um verso na tarde alheia. e tuas palavras em lentidão, águas que se bifurcam quando cortadas de repente. uma cesura. nunca soubeste: desejaria ser para ti como vigilante de uma marina. quem sabe, no fluir de um verão veloz adivinharás. e em nossa branda extensão, cerraremos nossos lábios.

hey lagarto, dizes que sou a mais bonita das águas das terras tropicais dos desertos secos de todas as árvores de cima y debaixo de quaisquer plantas dizes mas saiba só quero ser a mais bonita dos teus quintais

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inéditos

hey salamandro, labareda é uma palavra bonita.

hey coyote, és esplêndido assim teus costados enfeitados de sol

hey pangolim, qualquer nesga de luz são mil sóis que vão te abrindo vértebras costelas vãos és feito açude, labareda a carregar bichos folhas ninas em tuas escamas encarnadas

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inéditos

hey robalo, tens uma nascente tão comprida desaguando forte a pura pororoca teu leito branco minhas fozes negras

eu amo como você é um bicho que gosta de cascas de árvore folhas caídas pedras lama sol e de mim

Nina Rizzi é escritora, tradutora, professora e pesquisadora. Formada em história pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e mestra em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Traduziu obras de Abi Daré, Alice Walker, bell hooks, Chimamanda Adichie, entre outros. É autora de diversos livros, como Diáspora não é lar (Pallas, 2025) e o infantil A melhor mãe do mundo (Cia. das Letrinhas, 2022). Em 2025, foi semifinalista no Prêmio Jabuti, na categoria Tradução, pela obra Da próxima vez, o fogo (Companhia das Letras, 2024), de James Baldwin. Lumina Pirilampus é artista visual e arte-educadora. Formada em artes visuais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e especializada em Literatura para as infâncias pel'A Casa Tombada. Por meio da criação de narrativas visuais, explora mundos digitais e analógicos, expondo seus trabalhos em livros, animações e projeções mapeadas. É também autora-ilustradora dos livros: Biguru (Cia. das Letrinhas, 2025), Eudice (Biruta, 2024), Minha vó ia ao cinema (Cia. das Letrinhas, 2023) entre outros.

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depoimento

OLHOS NOS OLHOS Experiente entrevistador de escritores, músicos e outros artistas, o documentarista Jorge Brennand Jr. traça um retrato íntimo de Tom Zé em novo documentário POR VANESSA D’AMARO

Rodrigo Palazzo

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uem é o homem por trás das canções, da poesia e da experimentação? Essa é a pergunta que move o diretor Jorge Brennand Jr. no documentário Todos os olhos, realizado pelo SescTV, com estreia prevista para 2026. Além de revisitar a trajetória de Tom Zé – um dos maiores e mais originais nomes da música brasileira –, Brennand captura as inquietações, afetos e visão de mundo do baiano de Irará, por meio de depoimentos de familiares, amigos e parceiros da música. O resultado é uma coletânea de histórias e bastidores que, sob diferentes prismas, revelam a mente criativa de um artista prestes a completar 90 anos – tão inovador e inventivo quanto sempre foi. “Tom Zé não é um homem muito preocupado com registros. O negócio dele é música ao vivo. Ele

acha que vai morrer em cima do palco”, revela o documentarista. Aos 73 anos, e com mais de 35 de carreira, Brennand percorreu um caminho profissional pouco convencional, mas sempre orbitou o universo das artes. Antes de se dedicar ao audiovisual, trabalhou em uma empresa de auditoria, estudou violão clássico, compôs trilhas sonoras e já foi mentor de dois jovens da Lapa, bairro boêmio da capital fluminense, que resolveram fazer rap juntos. Eram Skunk (1967-1994) e Marcelo D2, criadores do Planet Hemp. O episódio virou, inclusive, história de cinema: Brennand é interpretado pelo ator argentino Ernesto Alterio em Legalize já – Amizade nunca morre (2017), longa-metragem que conta a trajetória da dupla.

Seu interesse pelo audiovisual começou naquela época, final dos anos 1980, enquanto registrava os bastidores dos shows dos amigos. Não demorou para o hobby virar profissão. Em meados da década de 1990, ele assumiu a direção do programa de televisão Encontro marcado com a arte (exibido pelo canal da TV a cabo Bravo Brasil), entrevistando escritores, músicos, atores e outras personalidades brasileiras. Foram 125 vídeos que moldaram seu estilo de trabalho: registros íntimos, câmera fechada e parada. Adotou este mesmo método em Todos os olhos. Neste Depoimento, o documentarista reflete sobre os bastidores das filmagens, discute a obra e a originalidade de Tom Zé e a paixão pela entrevista e pelo registro de histórias de vida. 75 | e


depoimento

Tom em outras ocasiões depois disso. Com o tempo, a figura humana começou a me instigar muito mais do que o músico.

Rodrigo Palazzo

personagem

No documentário Todos os olhos, a ideia do diretor Jorge Brennand Jr. foi captar a inquietação, juventude e criatividade de Tom Zé.

take 1 Sou documentarista há 35 anos, mas acabei no audiovisual por acaso. No início dos anos 1990, eu era muito amigo do Skunk (1967-1994) e do Marcelo D2. Na época, nós todos morávamos na Lapa [bairro da cidade do Rio de Janeiro]. Eu era mais velho do que eles. Dizem que fui um mentor do Planet Hemp porque aconselhava muito os dois. Sempre gostei de câmeras e de vídeo. Comecei a gravar os shows do grupo. Algum tempo depois, conheci a empresa que promovia o Encontro marcado com a arte, com o jornalista Araken Távora (1934-1991). Ele entrevistava escritores, atores e músicos em vídeo. Em 1995, assumi esse trabalho, mas sugeri um formato documental. Fazia perguntas curtas, filosóficas e incisivas – e eles respondiam livremente. Gosto muito de trabalhar com depoimentos. Mais tarde, levei o programa para a TV a cabo. Entrevistei mais de 125 pessoas: João Ubaldo Ribeiro (1941-2014), Ariano Suassuna (1927-2014), Regina Casé, Sandra Kogut, Dercy Gonçalves (1907-2008). Continuei trabalhando

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com projetos documentais. Criei outros dois: um sobre jornalistas e a mídia; outro sobre profissionais do audiovisual – sempre explorando esse formato.

humano Eu me identifico muito com o que disse Sandra Kogut quando a entrevistei em 1997: “o ser humano é a melhor paisagem”. Acho isso muito bonito. O humano é, ao mesmo tempo, familiar e misterioso. Isso me emociona. Não existem dois seres iguais, e essas diferenças ficam sempre evidentes para mim. Acho que é por isso que acabo amando todas as pessoas que entrevisto.

tom Sou músico, estudei violão clássico. Me apaixonei pelo Tom Zé muito jovem. Me lembro de ir à loja de discos, nos anos 1970, e ficar ouvindo os vinis dele. Eu era fascinado pelo trabalho dele – sempre foi meu ídolo na música popular. Eu o conheci pessoalmente em 1998, quando nos deu uma entrevista no Encontro marcado com a arte. Encontrei o

A ideia original era fazer um documentário que discutisse a inquietação, a juventude, a força de trabalho e a criatividade do Tom Zé. Entrei em contato com o SescTV, que abraçou a ideia imediatamente. Em 2022, começamos a gravar em São Paulo e no Rio de Janeiro. Quando assisti aos três primeiros depoimentos, percebi que os entrevistados falavam muito sobre “o homem” Tom Zé, não apenas sobre “o artista”. Quando a gente faz um documentário, sempre pensa: “quando é que vai aparecer o personagem?”. E ele surgiu ali, nessas primeiras gravações. Achei muito mais bonito do que tinha imaginado. Então, escolhi o nome Todos os olhos, que é uma canção em que ele diz: "De vez em quando / Todos os olhos se voltam pra mim / De lá de dentro da escuridão / Esperando e querendo / Que eu seja um herói / Mas eu sou inocente". Criamos um retrato da pessoa Tom Zé, a partir das pessoas mais próximas dele: família, como a esposa, filhos e netos, além de artistas que trabalharam diretamente com ele. Nós não tratamos da carreira, dos prêmios, do sucesso, do reconhecimento. Tratamos do humano.

entrevista Não adianta ficar fazendo muitas perguntas: Tom Zé só vai dizer aquilo que tem vontade. Washington Olivetto, inclusive, comenta isso no documentário: “Ele faz o que quer fazer e não faz


depoimento

concessões”. Gravamos com Tom Zé durante dois dias. O primeiro, foi no apartamento onde vive, e o segundo, no lugar onde trabalha. Ele já começou a entrevista dizendo que não é de falar porque, na verdade, se preparou a vida toda para o palco. Daí nos conta tudo: lembra o quanto aprendeu com os mais velhos em Irará (BA), sua cidade natal. Apesar de vir de uma família simples, teve a oportunidade de estudar, cursou música na Universidade Federal da Bahia (UFBA), em Salvador, onde viveu um momento de vanguarda artística naquela época. Ele tem uma sede de saber incrível. Leonardo Lichote [ jornalista e crítico musical] comenta que ele tinha a vivência do sertanejo e a formação de vanguarda – e conseguiu cruzar esses dois aspectos em sua obra.

versatilidade Para mim, na música do Tom Zé cabe tudo. E essa é a grande qualidade dela. Do ruído branco às passagens bíblicas, tudo tem espaço ali. Ele experimenta para prender a atenção das pessoas, mas também cria composições mais tradicionais – como "Se o caso é chorar" ou "O riso e a faca". Ele é um músico fantástico, que estudou com os melhores professores. Quando saiu da Bahia

e chegou a São Paulo, viu que tudo era gigante. Compreendeu que havia espaço para se fazer qualquer coisa. Acho que ele sentiu: “esse aqui é o meu lugar”. No documentário, Lichote comenta que Caetano Veloso demorou para compreender a cidade – chamou tudo de “mau gosto”, como diz a música [“Sampa”]. Mas não o Tom Zé. Ele entendeu São Paulo assim que desceu do ônibus. Olhou para os arranha-céus, viu negros, nordestinos, japoneses na rua… viu gente rica, pobre e de classe média ocupando os mesmos lugares. Ele se entregou e se integrou à cidade. Tanto que escreveu “São, São Paulo” como uma homenagem.

juventude Não me impressiona esse fascínio dos jovens pelo Tom Zé. Isso acontece porque ele está sempre ligado no agora. Às vezes, é a juventude quem chancela o que ele cria. E ele é inquieto: quando percebe que um trabalho está prestes a terminar, já começa a pensar no próximo. Considero o Tom Zé um artista eternamente contemporâneo. Isa Grinspum Ferraz [socióloga e documentarista] diz no documentário: “ele é sempre novo, de novo”. Nós entrevistamos Mallu Magalhães, Fernanda Takai, João Marcelo Bôscoli, Marcus Preto

e Marcelo Segreto. Todos relatam suas experiências com ele. Acho interessante que o Tom Zé não tem pose. Ele não impõe obstáculos para o jovem chegar perto. Não adota aquela postura de “sou mais experiente”. É tão anárquico que, quando o jovem se aproxima, tímido, para conversar, acaba se sentindo à vontade rapidamente.

lições Eu gosto muito da entrevista com o filho Everton Pontes Martins, que é médico oncologista. Acho muito tocante o depoimento dele sobre o pai – e gosto também do que os netos dizem. É lindo quando a Neusa [esposa e empresária de Tom Zé] fala que o que mais valoriza nele é o caráter. A maneira como ele fala da Neusa também é muito especial. Ele a consulta em tudo o que cria: tudo passa por ela. Se ela não gosta, diz: “isso não está à sua altura”, e ele acata. Ele comenta que é uma maravilha quando alguém tem a coragem de dizer: “não perca tempo com isso”. Ugo Giorgetti [cineasta que trabalhou com o compositor no filme Sábado (1994)] também diz algo muito significativo sobre a maneira como encara o envelhecimento. Para Ugo, Tom Zé enfrenta o tempo de forma altiva – algo que todos nós deveríamos imitar.

EU ME IDENTIFICO MUITO COM O QUE DISSE A SANDRA KOGUT QUANDO A ENTREVISTEI EM 1997: “O SER HUMANO É A MELHOR PAISAGEM” 77 | e


ALMANAQUE

Celebrado durante os meses de janeiro e fevereiro, o Ano Novo Chinês também é festejado na cidade de São Paulo, no bairro da Liberdade.

Ano novo, ano todo Diversidade de datas e de festejos marca rituais de virada de ano em diferentes povos e culturas

A

época que marca a passagem de Ano Novo como costumamos celebrar foi criada em 46 a.C., por um decreto do líder romano Júlio César, que fixou 1º de janeiro em referência ao mês do antigo deus romano Jano, considerado o protetor das entradas e saídas, dos inícios e dos finais. Essa celebração se manteve com a transição para o calendário gregoriano, utilizado até hoje. O simbolismo que envolve o início de um novo ciclo também permeia outras culturas que celebram essa

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passagem de tempo em datas diferentes ao longo do ano. Para os povos Guarani Mbyá, o Ara Pyaú (“tempo novo”, no idioma guarani), que acontece entre agosto e outubro, está relacionado à passagem cíclica da natureza e a um momento de renovação espiritual. Já o Diwali, conhecido como Festival das Luzes nas comunidades hindus, é festejado entre outubro e novembro, marcando a vitória da luz sobre a escuridão. Conheça cinco culturas que comemoram o rito anual de passagem de ciclo de maneiras distintas e em datas diferentes.

Paulo Pinto/EBC

POR MARINA PEREIRA


ANO NOVO CHINÊS Celebração mais importante das culturas asiáticas, o Ano Novo Chinês, também conhecido como Festival da Primavera ou Ano Novo Lunar, ocorre durante os meses de janeiro e fevereiro em países como China, Vietnã, Japão, Malásia, Filipinas, Indonésia e Taiwan. Seu significado está ligado à família, purificação, sorte e renovação espiritual. As festividades duram 15 dias e obedecem aos ciclos da lua, encerrando com o Festival das Lanternas. Cada novo ano é regido por um dos 12 animais do zodíaco chinês que influenciam a energia de cada período. Segundo o calendário chinês, 2026 será o ano do Cavalo, símbolo de movimento, coragem, entusiasmo e energia expansiva. “Entre os principais rituais estão a limpeza da casa para expulsar o mau agouro; um grande jantar de reunião

familiar, considerada a noite mais importante do ano; oferendas aos ancestrais; decorações na cor vermelha, além de fogos de artifício e danças tradicionais, como a do Leão e do Dragão que, segundo a lenda, eram utilizadas como estratégia para derrotar o monstro Nian, uma criatura que atacava aldeias no inverno e que temia o vermelho, o barulho e a luz”, relata Shifu Luis Mello, um dos mestres do Templo Lohan, com sede em São Paulo e um dos espaços que realizam o Ano Novo Chinês na cidade.

Templo Lohan Rua Conselheiro Furtado, 445, Liberdade, São Paulo-SP templolohan.com

Leandro Karaí Mirim / Acervo MCI

ANO NOVO GUARANI MBYÁ O calendário guarani está ligado à trajetória da lua e segue as transformações da natureza. Enquanto o conceito de tempo no calendário gregoriano é linear, para os Guarani ele é cíclico, regido pelas mudanças físicas e espirituais. Ara Pyaú, na língua guarani, significa “tempo novo” e simboliza um novo ciclo da natureza, um período de fortalecimento e renascimento. Durante esse processo são realizadas colheitas de milho, batata, mandioca, feijão, amendoim, respeitando os ciclos da lua. Realizam-se também ritos religiosos como os batizados de crianças com erva mate e a indicação de nomes sagrados, batismo dos alimentos e consagração das sementes. As comemorações ocorrem entre agosto e outubro, com rituais de música e dança. “No começo de agosto iniciamos a cerimônia do Ara Pyaú fazendo comidas tradicionais, sagradas. É uma forma de celebrar nossos ancestrais”, explica Irene Jaxuka Mirim, da aldeia Tekoá Yvy Porã, na Vila Jaraguá, zona Oeste da cidade, membro do Conselho Indígena Aty Mirim (gestor parceiro do Museu das Culturas Indígenas). Em São Paulo, o Museu e aldeias como a Tekoá Yvy Porã promovem vivências abertas ao público durante a celebração.

Entre agosto e outubro, celebra-se o Ara Pyaú, que na língua guarani significa “tempo novo”.

Aldeia Tekoá Ivy Porã Estr. Turística do Jaraguá, Vila Jaraguá. São Paulo-SP instagram.com/yvyporajaragua/ 79 | e


ALMANAQUE ANO NOVO HINDU

Ramakrishna Vedanta Ashrama/Divulgação

Conhecido como Diwali ou Festival das Luzes, o Ano Novo Hindu é uma celebração que simboliza a vitória espiritual do dharma sobre o adarma, ou seja, da luz sobre as trevas, do bem sobre o mal e do conhecimento sobre a ignorância. Diwali significa uma fileira ou série de luzes: uma junção das palavras sânscritas “dipa” (luz, aquilo que ilumina) e “wali” (fileira ou extensão). Celebrado durante cinco dias, entre a segunda quinzena de outubro e a primeira quinzena de novembro, coincide com a lua nova (Amavácia), de acordo com o calendário lunar hindu, e serve como um lembrete para os seguidores do hinduísmo manterem seu dharma, a sua luz, na vida cotidiana. O primeiro dia é conhecido como Dhanteras ou Yama Deepam. Neste dia, os hindus limpam suas casas e instalam diversas lamparinas. As portas são decoradas

ANO NOVO JUDAICO com desenhos conhecidos como “rangoli”, feitos de pós coloridos, arroz e pétalas de flores. O auge do festival acontece no terceiro dia, quando essas lâmpadas são colocadas nos parapeitos de templos e casas, enquanto outras são colocadas à deriva em rios e córregos. Para o monge Swami Tapoyajnananda, da Ordem Ramakrishna do Centro Ramakrishna Vedanta Ashrama, “esse é um momento para refletir sobre a luz interior e buscar o crescimento espiritual”. Em São Paulo, templos hindus e centros culturais, como o Vedanta Ashrama, realizam apresentações e rituais ao longo do ano.

Centro Ramakrishna Vedanta Ashrama Largo Senador Raul Cardoso, 204 e 146, Vila Clementino. São Paulo-SP vedanta.org.br

O Festival das Luzes, ou Ano Novo Hindu, simboliza o triunfo da luz sobre as trevas, e é festejado entre outubro e novembro.

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Uma das datas mais importantes do calendário hebraico, o Ano Novo Judaico é a festa que marca a criação divina de Adão e Eva. Para os judeus, a festa de Rosh Hashaná, em tradução literal, “cabeça do ano”, é um tempo de renovação espiritual. “Celebrado nos dias 1º e 2 de Tishrê, o primeiro mês do calendário judaico, em geral em setembro, segundo a tradição rabínica, é o período em que judeus participam de serviços religiosos especiais nas sinagogas, recitam orações, ouvem o toque do shofar (instrumento de sopro feito do chifre de carneiro) e refletem sobre suas ações e relacionamentos no ano anterior", detalha o Rabino Uri Lam, da Congregação Israelita de São Paulo Templo Beth-El. Nesse período, os costumes culinários são marcados principalmente por alimentos doces, como a maçã com mel, o Chalá Agulá, pão trançado, moldado em formato redondo; a romã, que simboliza fartura e fertilidade; a tâmara, que representa a doçura da vida que se almeja para o ano; e a cabeça de peixe, um símbolo da esperança no comando do próprio destino. Na capital paulista, a comunidade judaica celebra o Rosh Hashaná desde o início do século 20, em sinagogas e centros culturais, como o Clube A Hebraica.

A Hebraica Rua Hungria, 1000, Pinheiros. São Paulo-SP ahebraica.org.br


Luci Judice Yizima

Outra tradição do Shogatsu, o Ano Novo japonês, é socar o arroz (símbolo de bençãos e boa fortuna) no pilão.

ANO NOVO JAPONÊS Celebrado também em 1° de janeiro, o Shogatsu, como é conhecido o Ano Novo japonês, é o feriado mais importante para a comunidade nipônica. As tradições desse dia incluem decorar a casa com elementos relacionados a práticas espirituais. O Kagami-mochi é uma decoração tradicional, normalmente colocada sobre a mesa de jantar. Composta por dois bolos feitos de arroz (mochi), um sobre o outro em um pedestal, com uma laranja de sabor azedo (daidai) no topo. Acredita-se que o arroz conserva o espírito puro, trazendo bênçãos e boa fortuna. Outro elemento é o Shimenawa, uma corda trançada feita de palha de arroz ou cânhamo, que serve para demarcar um espaço sagrado. Colocado nos portões das casas, outro elemento marcante é o Kadomatsu. Feito a partir da junção de galhos de pinheiro, talos de bambu e, muitas vezes, flores de ameixeira, destina-se a dar as boas-vindas aos espíritos ancestrais, além

de chamar longevidade, prosperidade e perseverança. Desde os anos 1910, comunidades japonesas no bairro da Liberdade organizam cerimônias, como o Motitsuki Matsuri, ou o Festival do Bolinho da Prosperidade. Realizado pela Associação Cultural e Assistencial da Liberdade (ACAL) desde 1976, o evento, que está na 52ª edição, expressa gratidão por todas as dádivas do ano que se encerra, e deseja saúde, paz e harmonia para o ano que se inicia. Como há o fuso horário, à meia-noite do dia 31/12 no Japão corresponde ao meio-dia de São Paulo, quando o Festival do Motitsuki celebra o Ano Novo na cidade.

Festival Motitsuki Matsuri Praça da Liberdade África-Japão, Liberdade. São Paulo-SP instagram.com/acal_liberdade_oficial/ 81 | e


P.S.

Vivendo a vida na esportiva

Teve ainda muito mais: a parte do Mario torcedor. Minha primeira lembrança esportiva marcante foi a triste eliminação da Copa do Mundo de 1986 contra a França, nos pênaltis. Não entendia bem, mas percebi como o esporte influenciava as pessoas. Vi tios, pai e amigos chorarem pelo futebol pela primeira vez. Depois, vieram outras memórias, boas e ruins: o ouro olímpico de Aurélio Miguel, em 1988, no judô, as manhãs de domingo assistindo Ayrton Senna, os meninos do vôlei masculino e o ouro inédito em Barcelona 1992, o tetracampeonato mundial de futebol, imortalizado pelo “É Tetraaaa” – como esquecer esse dia? Em 1996, a dupla de vôlei de praia colocou as mulheres no topo do pódio pela primeira vez com Jacqueline e Sandra, conquista inesquecível. Outro marco aconteceu em 1997, quando surgiu um menino, manezinho da ilha de Florianópolis, cabeludo: Gustavo Kuerten, nosso Guga. Primeiro brasileiro campeão de tênis em Roland Garros. Foi no mesmo ano em que comecei meus estudos em educação física, transformando paixão em profissão.

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No trabalho, impossível não citar memórias marcantes das edições do Sesc Verão, projeto que celebrou 30 anos em 2025. A primeira vez, foi como estagiário no Sesc Consolação, em 2000, na caminhada rumo ao Vale do Anhangabaú, em sua 5ª edição. Depois, a 14ª edição sobre Inteligências Múltiplas, já como técnico no Sesc Pompeia, que discutia a adaptabilidade humana. E, por fim, em 2016, no Sesc Itaquera, quando desenvolvemos uma quadra oficial de handebol e, em parceria com a Federação, recebemos eventos relevantes. Na edição atual, as unidades vão apresentar eixos temáticos que associam modalidades, mostrando por que algumas práticas se tornam populares, enquanto outras, nem tanto, e qual é o papel do praticante, dos territórios e dos ídolos nacionais. Será um momento de experimentação e de construir novas memórias. Recentemente, ouvi em uma padaria, no litoral de São Paulo, o seguinte comentário: “Como ele mudou. Antes rude, agora, leva a vida mais na esportiva. Está feliz”. Refleti bastante sobre isso e percebi como o esporte é sinônimo de uma vida boa, leve, integrada e com propósito. Só posso desejar a todos que leem este texto que consigam também viver a vida na esportiva – porque ela é, de fato, muito boa.

Mario Augusto Silveira é especialista em esporte e política pela Universidade de Campinas (Unicamp) e em fisiologia do exercício pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Atua como técnico da Gerência de Desenvolvimento Físico-Esportivo do Sesc São Paulo.

Lucas Blat

Passei minha primeira infância na zona Norte de São Paulo, na beira da rodovia Fernão Dias, quando a vida era mais simples, nos anos 1980. Vôlei com um elástico esticado no poste, basquete nas cestas das lixeiras das casas, corridas no quarteirão, bicicletas... Ah! Quase vivíamos nelas. Em paralelo, sempre houve o futebol, aquele que me ajudou a ser quem sou. Dos campinhos de terra, das ruas duras e ásperas às quadras oficiais, não demorou muito e lá estava eu: primeiro, representando a rua, depois, a escola, o bairro e, por fim, o clube da região.


JANEIRO 2026


sescsp.org.br

DISTRIBUIÇÃO GRATUITA VENDA PROIBIDA

Marco Antonio (foto); Lucas Blat (colagem)

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