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Minha admiração por Gilberto Gil nasceu precisamente em 13 de junho de 1966 quando ele fez sua estreia no Fino da Bossa da TV Record cantando “Eu vim da Bahia”. Do alto da cabine de som do teatro fiquei tomado pela sensação de que lá estava um novo craque da canção. Voz, violão, impressionante confiança no taco de sua música cuja letra anunciava que o samba ajuda o baiano a viver. Quando se trata de samba os baianos falam com orgulho e segurança. O samba vem de lá, quer queiram, quer não. Um mês depois (11/7/66) Gil voltou ao Fino da Bossa para cantar mais duas composições, “Procissão” e “Viramundo”. Nas rodas dos músicos paulistanos já se falava de Gil com o respeito merecido, com a admiração que o baiano despertava. Gilberto Gil tinha nome em ritmo e harmonia, predestinado à arte dos sons. Elis Regina, antenada como era, sacou logo o poder de fogo de Gil e gravou com Jair Rodrigues “Louvação” que ganhou tremenda repercussão numa emissora de rádio. Assim é que a palavra


Louvação estalou como título de seu primeiro disco gravado em março de 1967. É dele que trata o episódio inaugural da série “Muito Prazer, Meu Primeiro Disco”: “Louvação”, primeiro LP de Gilberto Gil. Logo na primeira faixa Gil se joga de cabeça, louvando a quem bem merece e discursando um hino com sintonia de caráter e esperança de quem não espera conformado e fala de peito lavado. Louvado e lavado são palavras que Torquato Neto junta numa letra inteligente para a música de Gil. Ao atacar resoluto Gil já entra em campo vencedor. Esse disco torna-se um verdadeiro recordista ao apresentar quatro canções que obtiveram desusada repercussão a despeito de ser uma estreia. De fato, o primeiro bloco do que viria a ser sua imensa obra começa com “Louvação” e as outras três canções que ele cantaria por toda a vida como se fossem novidades da hora: “Roda”, “Viramundo” e “Procissão”, configurando um início auspicioso. O baião estilizado “Procissão” descreve uma cena tão comum no interior baiano onde Gil se criou, a dos fiéis caminhando em fila a rezar atrás de andores ornamentados com fitas coloridas de papel crepom, entoando hinos de esperança no que acreditam pois é Jesus quem prometeu. “Se existe um Jesus no firmamento, cá na terra isso tem que se acabar”. “Viramundo” é nordeste puro abordando as virações de um possível guerrilheiro que dá pulos para não ser preso nos desatinos da vida e sonha com festa, trabalho e pão como tantos outros virados passaram pelo período da ditadura militar. Das quatro, “Roda” me parece a mais instigante distribuída pelo estribilho de seis versos que descrevem passos cronológicos da ação que se desenvolve em cinco segmentos. Cada estrofe se inicia com base na mesma frase melódica do estribilho que vai imperar por toda a composição construída praticamente nas variações de sete


notas: “Meu povo, preste atenção” é a clave básica; na segunda, “Na roda que eu te fiz” apenas as duas últimas notas são alteradas; “Quero mostrar a quem vem” é a terceira ligeiramente diferente; e assim por diante, “Aquilo que o povo diz” é a quarta; “Posso falar, pois eu sei”, a quinta; “Eu tiro os outros por mim”, a sexta; “Quando almoço, não janto”, a sétima e “E quando canto é assim” é a oitava que anuncia o estribilho. Este aproveita a mesma melodia de sete notas por seis vezes seguidas, porém de outra forma: “Agora vou divertir” é a primeira; “Agora vou começar” é a segunda; “Quero ver quem vai sair”, a terceira; “Quero ver quem vai ficar”, a quarta; “Não é obrigado a me ouvir” a quinta e “Quem não quiser me escutar” a sexta. É de um compositor que sabe construir a canção inteira rodando em torno da melodia de sete notas. Esse conjunto de catorze claves melódicas vai se repetindo por cinco sequências idênticas exceto no final da última, a que encerra os cinco atos dessa peça musical. No fundo é um discurso em que o autor propõe divertir abordando sua passagem pela terra e ressaltando os pobres que “quando almoçam não jantam”, e predizendo o destino de “quem quer ser mais do que é” na roda “onde se diz o que diz”. É a roda do povo. Uma sucessão de cenas para cada estrofe, o que pode ter origem na experiência do letrista João Augusto como diretor do grupo Teatro dos Novos de Salvador. É a composição mais incisiva quanto ao aspecto social, à luta pela igualdade que desse modo se amarra à obra de Gilberto Gil e seus parceiros Torquato Neto, Capinam e João Augusto na quadra de seu primeiro disco. Não é pois nenhuma surpresa que ao inscrever uma composição para o Festival da TV Record de 1966 (o de “A Banda” e “Disparada”) Gil deixe o assunto no ar embora bem claro para quem quiser prestar


atenção. Essa canção é “Ensaio geral”, defendida brilhantemente por Elis Regina e que suscitou discussões no júri despertadas por um dos membros que não se conformava com o quarto lugar na classificação final. Era Mario Lago, comunista declarado. O disco traz ainda outra composição que esteve na mira de Gil para o Festival da Record do ano seguinte, o samba “Mancada”. Lembro-me perfeitamente de sua dúvida entre inscrever essa ou outra composição que também cantou com violão numa noite no apartamento de meu vizinho Guilherme Araújo, então empresário dos baianos. Era “Domingo no parque” que acabou sendo a escolhida por ser mais adequada a uma competição de canções. Muito mais que adequada, transformou-se na marca registrada do intérprete Gilberto Gil em sua inesquecível apresentação que conquistou a plateia participativa do Festival. Nesse ano, 1967, pela primeira vez os compositores cantaram suas canções dispensando os cantores, um fato sobremaneira importante no curso da história da canção brasileira. Por sua vez “Mancada” seria sucedido por vários outros sambas tipo remelexo de Gil, assim como “Meio de campo”. Aqui vale a pena retornarmos a “Domingo no parque”. Sua estrutura já estava praticamente montada na cabeça de Gil antes de ser elaborada. Basta ouvir outra composição desse disco: “Água de meninos”. As mudanças de andamento, a dinâmica da interpretação à medida que a narrativa avança e a levada do violão para o verso “que quis a feira acabar”, exatamente a mesma que vai marcar “Domingo no Parque”, estão a demonstrar que esse esquema de composição já habitava seu subconsciente. Importante mencionar que as canções inscritas nos festivais deveriam ser inéditas, motivo pelo qual “Domingo no parque” não figura no primeiro disco de Gilberto Gil.


É ainda nele que se revela a percepção quanto aos rumos da tecnologia universal. Como faria muitos anos mais tarde acertando em cheio o futuro da internet, Gil como que prevê o significado da chegada do homem à lua em “Lunik 9”. Mudando de andamento mais uma vez ele combina admiravelmente a poesia com o momento histórico da guerra dos astronautas. A lua foi alcançada afinal, e o que será do verso sem luar? O que será do mar, da flor, do violão? Talvez as derradeiras noites de luar. Obra prima com certeza, desse que é um dos raros casos de músico completo: compositor, letrista, intérprete e instrumentista. Tudo com tal vibração, com tanta competência, com tamanha musicalidade e emoção que não se chega à conclusão sobre em qual das modalidades Gilberto Gil é melhor. Desde o primeiro disco, “Louvação”, esse dilema nos persegue até hoje.

Zuza Homem de Mello outubro / 2020

Texto integrante do projeto Muito Prazer, Meu Primeiro Disco, realizado pelo Sesc Pinheiros, idealizado por Lucas Nobile, com curadoria e entrevistas de Lucas Nobile e Zuza Homem de Melo, mediação de Adriana Couto e produção de Ercilia Lobo. Episódio com participação de Gilberto Gil disponível em youtube.com/sescpinheiros e plataforma sescsp.org.br/meuprimeirodisco.


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