caipirismo osé ntônio da ilva e ocelino oares
material educativo
Caras leitoras e leitores, Este material educativo propõe maneiras de perceber, ler, criar e refletir sobre trabalhos dos artistas José Antônio da Silva e Jocelino Soares. A proposta parte de um conjunto de trabalhos de arte, que estão na exposição Caipirismo, no Sesc Bom Retiro. O material foi desenvolvido para educadores, professores e outras pessoas interessadas em expandir seus diálogos com a exposição. Como a exposição e a ação educativa ocorreram durante a pandemia da COVID 19, as propostas do material foram imaginadas tanto para as pessoas que visitaram ou visitarão a exposição presencialmente, quanto para quem optar por acessar seus conteúdos pelos meios digitais. Para navegar pelas obras acesse http://bit.ly/tourcaipirismo
Concepção e redação do Material Educativo: Auana Diniz e Flora Valentini.
Para começar sugerimos que dedique um tempo e assista este percurso, em vídeo, da exposição. Você pode pausar, voltar, acelerar... https://www.instagram.com/tv/CG5DcaLABhg/?igshid=13pigrjaz2j9f
Construções da paisagem
JOCELINO SOARES. Esperando a jardineira, 2019. Óleo sobre tela, 60 x 100 cm
JOSÉ ANTÔNIO DA SILVA. Algodoal, 1966. Óleo sobre tela, 59 x 100 cm
construçõEs
da paisagEm O que chamou sua atenção nas duas pinturas à primeira vista? Como você viu elas juntas? Quais sinais da ação humana você percebe nas pinturas? De que modo a presença e o uso das tecnologias sugerem modificações nas duas paisagens?
O campo antigamente era o campo, era tudo, era a nossa vida, dali saía tudo...o campo hoje virô lavora de cana. Aonde tem cana tá a fome, tá a miséria, num tem pássaro, num tem alegria, num tem nada... JOSÉ ANTONIO DA SILVA (SANT’ANNA, Silva: Quadros e Livros, 1993) Para quem nunca viu uma plantação de girassol, o primeiro encontro é algo fascinante... Um dia, sem saber, fui até a plantação imaginando vê-las todas radiantes. Não consigo mensurar a minha tristeza quando vi a máquina colhendo e triturando “os meus” girassóis. JOCELINO SOARES (SOARES, Memorial: um artista caipira e seu universo, 2010)
Saberes do tempo
JOCELINO SOARES Jardineira das 8h40 2018 Óleo sobre tela 60 x 80 cm
sabErEs do tEmpo Nas pinturas de Jocelino Soares encontramos muitas representações de Ipês. E não é para menos, afinal essa espécie é uma pioneira, ou seja, cresce rápido mesmo em terras degradadas, e sua sombra possibilita o crescimento de outras plantas. Essa árvore é encontrada em muitas regiões do país, tanto nos campos quanto nas cidades. Os Ipês florescem a partir de julho até setembro, marcando o período de seca em vários lugares, já que a quantidade de flores depende da pouca irrigação do solo, típica do período. Assim como a presença desta árvore é um indício do tempo, marcando uma estação do ano na pintura, as sombras indicam um período do dia importante para a vida no campo: a manhã. Como você imagina as cores e as luzes dessa paisagem ao meio dia? As casas e as árvores da imagem ao lado estariam iluminadas da mesma forma ao pôr-do-sol?
Saberes do tempo
Percurso da luz Podemos ter uma ideia de como a incidência da luz solar interfere nas cores observando objetos do nosso cotidiano. Que tal investigar o modo como a luz percorre sua casa ou outro lugar? • Para fazer essa investigação escolha um objeto e posicione ele próximo a uma janela ou outro espaço que receba luz. • Posicione o objeto da sua escolha, observe e registre a maneira como a luz interfere nele em 3 momentos diferentes do dia. O registro pode ser feito com desenho, fotografia ou outro meio de sua preferência. • Se quiser compartilhe os registros nas suas redes sociais com as hashtag #caipirismo #sescbomretiro #percursodaluz
Saberes do tempo
Observar a luz e sua trajetória é um saber também usado na arquitetura vernacular, para iluminar construções que não contam com energia elétrica. Na arquitetura vernacular, as construções são feitas com recursos regionais e se adequam ao ambiente que estão inseridas, como é o caso das conhecidas casas de pau-a-pique e também as de taipa de pilão, típicas de São Paulo no período colonial. Para saber mais e ver exemplos de arquitetura vernacular no Brasil e no mundo: https://bit.ly/3pAYAgz
Para não sair de nós
JOSÉ ANTÔNIO DA SILVA Saudade da minha terra 1981 Nanquim sobre cartão 15,5 x 25 cm
Para não sair dE nós Você já teve que mudar de um lugar para o outro? Ou a sua família? O que provocou essa mudança? Há marcas de saudades nestes deslocamentos? É possível mapear elementos que permaneceram destes deslocamentos? E o que ficou para trás?
Em Saudades da minha terra (1981) Silva desenha uma família montada num burrinho e andando em direção à frase “saudades do meu sertão”.
Nessa época o artista tinha se mudado para a cidade de São Paulo e com o desenho ele registra a saudade do lugar que morava antes. Mas, podemos ler na sua imagem também um sentimento de nostalgia, de um sertão paulista que mudou muito. Numa live sobre seu livro “Júlia, a louca da aldeia”, Jocelino Soares também fala sobre o sertão do noroeste paulista, que não existe mais da mesma forma. Lembra do sofrimento dos trabalhadores, que tiveram de migrar para a cidade, e da sua própria experiência, dizendo “eu fiz de tudo para sair da roça, agora faço de tudo para ela não sair de mim”.
Para não sair de nós
Falar sobre o sertão paulista nos faz lembrar dos sertões nordestinos, também muito presentes na vida daqueles que moram em São Paulo. O filme O homem que virou suco conta a história de Deraldo, paraibano que chega a São Paulo na década de 1970 para sobreviver de seu trabalho na cidade. A experiência da migração está evidente nas cenas em que o personagem lê a carta da noiva de um colega, cuja família está considerando se mudar para São Paulo e fugir da miséria: https://canalcurta.tv.br/filme/?name=o_homem_que_ virou_suco
Três cenas do trecho do filme no qual o personagem lê a carta (29min39s - 32min39s)
O HOMEM QUE VIROU SUCO. Diretor: João Batista de Andrade. Produtora: Raíz Produções Cinematográficas. 1980, São Paulo
Festejos e representações
JOSÉ ANTÔNIO DA SILVA. Festa, 1957. Óleo sobre tela, 25x40 cm
JOCELINO SOARES. Festa de São João, 2020. Óleo sobre tela, 70 x 90 cm
FEsTEJOs E
REPREsENTAçÕEs Nas cidades grandes e no meio rural acontecem as mesmas festas? Quais as diferenças entre elas e as festas que as duas pinturas representam? Quais outras festas típicas do interior de São Paulo, presentes também em outras regiões do Brasil, você conhece? De que forma as festas “juninas” são comemoradas nas cidades? Como o campo e seus habitantes estão presentes nelas?
Ler e criar representações de quem mora e trabalha no campo, chamados de caipiras, pede cuidado. Com frequência essas representações, mesmo nas festas juninas escolares, são carregadas de preconceitos. Personagens como o Jeca Tatu continuam presentes no imaginário popular, e reforçam o estereótipo dos moradores do campo como pessoas preguiçosas, doentes e descuidadas, escondendo as dificuldades da vida em lugares com grande desigualdade social. Nos trabalhos de Silva e Soares essas representações são diferentes, carregam as marcas de quem, com orgulho, vê a si mesmo como caipira. Como eles escolheram pintar as personagens destes festejos? Se quiser volte à página 13 para olhar outros detalhes dessas representações.
Festejos e representações
Para refletir mais sobre os preconceitos e os contextos dos caipiras paulistas sugerimos a leitura do artigo Festas juninas nas escolas: lições de preconceito, de Judas Tadeu de Campos e o filme Jeca Tatu (1959) que expõe a personagem e seu estereótipo ao mesmo tempo que faz relações com suas condições precárias de vida. Para conhecer mais folguedos populares: A Folia de Reis: https://bit.ly/3ln5faT O Cururu: https://glo.bo/2UwtbNN O Fandango Caiçara: https://bit.ly/36nb1Vw A Romaria de São Gonçalo: https://bit.ly/32QAVPo
Outros gritos
JOSÉ ANTÔNIO DA SILVA O grito do Ipiranga 1976 Óleo sobre tela 82 x 150 cm
Outros gritos É fácil fazer uma conexão entre os quadros Grito do Ipiranga (1976) e Independência ou Morte (1888), afinal, é comum aos dois a temática da Independência do Brasil (1822). A pintura de Pedro Américo foi encomendada para ocupar o salão de honra do Museu Paulista, próximo à pintura de grande escala há duas pinturas de Almeida Júnior: “Caipira picando fumo” e “Amolação interrompida” - atualmente, as duas pinturas pertencem ao acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo. Juntos, os três quadros criaram uma identidade paulista e uma versão sobre a participação de São Paulo na história do Brasil. Quase cem anos depois, a pintura de José Antônio da Silva reorganiza os elementos presentes na obra de Pedro Américo. Quais elementos mudam de lugar nas duas pinturas? E o que muda na representação das figuras? Estes aspectos resultam em uma mudança de narrativa?
Outros gritos
José Antônio da Silva, O grito do Ipiranga, óleo sobre tela, 1976, 82 x 150 cm
Pedro Américo, Independência ou morte, óleo sobre tela, 1888, 4,15 x 7,60 m. Fonte: Google Arts & Culture
Outros gritos
São diversas as mudanças entre um quadro e outro. Entre elas podemos observar em Independência ou Morte um caipira no canto esquerdo, em primeiro plano, mas diferenciado dos representantes da monarquia que estão em destaque. Ele veste branco, vermelho e azul, cores que se repetem várias vezes na composição, numa menção à bandeira da França e seus ideais de liberdade condizentes com a independência de uma colônia.
Outros gritos
Assim, esta representação reflete um projeto político que associa o caipira à inocência, trabalho e, principalmente, sua independência em relação ao Império no contexto após Proclamação da República, em que o quadro foi encomendado. Nos rascunhos iniciais de Américo, o lugar do caipira era ocupado por um homem negro, que foi realocado para o fundo do quadro na versão final, ocupando posição de menor destaque. Especula-se que na época as autoridades que encomendaram a pintura não queriam associar São Paulo à escravidão, mas sim reforçar a formação do povo paulista como a mescla de brancos e indígenas. Como pode ser observado no quadro maior, o caipira na obra de José Antonio da Silva está em destaque e é um homem negro. Isso muda a narrativa oficial do evento histórico? De que forma? Adicionando-se a imagem do caipira negro, quais visões sobre os moradores do interior paulista são questionadas?
Corpos a rodar
JOSÉ ANTÔNIO DA SILVA. Baile na roça, 1969. Óleo sobre cartão,15,5 x 23,5 cm
JOCELINO SOARES. Ciranda, 2020. Óleo sobre tela, 70 x 90 cm
corpos a rodar Ciranda Cirandinha Vamos todos cirandar Vamos dar a meia volta Volta e meia vamos dar (trecho da cantiga Ciranda, Cirandinha)
A pintura Ciranda e o desenho Baile na Roça registram danças coletivas e em roda, que acontecem em volta das luzes da fogueira e da eletricidade. E elas parecem acompanhadas de canções. Como em outras partes do país, as danças da região de São José do Rio Preto são muito presentes no cotidiano, nas festas, nos folguedos e nas brincadeiras tradicionais. De quais outras canções ou cantigas você se lembra ao olhar para estas imagens?
Corpos a rodar
Corpos a rodar
Re-inventar a roda As danças em roda são ensinadas pelos mais velhos aos mais novos e com isso continuam vivas, vão sendo modificadas pelos corpos que dançam. Que tal criar novas formas de se movimentar, a partir do que você já sabe? • Para começar sua invenção procure um lugar onde você gostaria de se movimentar. • De quais brincadeiras com o corpo você se lembra? Use os movimentos delas para criar uma sequência de três movimentos. • Depois de criar sua sequência, mudando um pouco ou muito daquilo que você lembrou, crie maneiras de rodar e dançar com eles. • Se quiser compartilhe a nova dança nas suas redes sociais com as hashtag #caipirismo #sescbomretiro #reinventararoda
Exposição Caipirismo José Antônio da Silva e Jocelino Soares Curadoria Odécio Visintin Rossafa Garcia e Romildo Sant’Anna Idealização Odécio Visintin Rossafa Garcia Equipe Sesc Ana Luisa Sirota, Carolina Barmell, Geraldo Ramos Jr., Giuliano Almeida Ziviani, Ilona Hertel, Ivoneide Oliveira, Jairo da Silva, José Lucas Gonçalves, Karina Musumeci, Larissa Meneses, Leonardo Borges, Mariana Thalacker, Michael Anielewicz, Nilva Luz, Odair Freire dos Santos, Paulo Henrique Cavalcante, Suellen Barbosa, Thais Franco, Vania Vassalo Assistente de Curadoria Lelé Arantes Produção Executiva Colchete Projetos Culturais Projeto Expográfico Ricardo Amado Design gráfico e sinalização Mariana Afonso e Natalia Zapella Projeto Luminotécnico Charly Ho Laudos de Conservação Bernadette Ferreira Ibarra, Cristiana de Freitas e Lucia Mafra Montagem fina Éderson José de Abreu e Gustavo Silva Rosa Fotografia Nanah Farias e Natália Tonda Captação e edição de vídeos Taus Produções Audiovisuais Revisão Isabela Maia Ação Educativa Auana Diniz Supervisão do educativo Silvio Ariente Educadores Mariana Bomfim, Pool Amaral, Daniel Barros e Gustavo de Jesus Tomaz