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Boca, pra que te quero? 2026

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Práticas do Sesc São Paulo em saúde bucal e educação em saúde: um assunto para todas as pessoas

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Modos de cuidar, modos de viver O corpo constitui o principal meio pelo qual as pessoas experimentam o mundo, estabelecem relações, comunicam identidades e expressam valores. Longe de representar apenas um dado biológico, ele é continuamente constituído pelas experiências sociais que o atravessam e, ao mesmo tempo, participa da produção dessas experiências. A boca revela essa condição de modo singular: mais do que um conjunto de estruturas anatômicas ou um objeto de intervenção clínica, é por meio dela que se materializam práticas, afetos, linguagens e formas de pertencimento que variam entre diferentes grupos e sociedades. Nesse horizonte, o conceito de bucalidade amplia a compreensão da saúde bucal, deslocando-a de uma perspectiva centrada na doença e na técnica para reconhecê-la como uma dimensão inseparável da vida social e cultural. Essa compreensão orienta a atuação do Sesc no campo da saúde, entendida como um espaço de educação e de produção de conhecimento. Nesse sentido, promover saúde implica favorecer a compreensão crítica dos processos que atravessam suas vivências corporais, reconhecendo que o cuidado não se esgota em hábitos ou procedimentos individualizados, mas envolve a construção coletiva de sentidos sobre o corpo e as escolhas que fazemos ao longo da vida. Desde 2018, o projeto Boca, pra que te quero? toma a boca como ponto de partida para refletir sobre as múltiplas dimensões da experiência humana. Em sua sétima edição, o projeto volta-se à produção cultural do desejo, propondo refletir sobre como imagens, discursos e modelos de aparência constroem referências de saúde, beleza e bem-estar. Ao problematizar a naturalização de padrões estéticos – como dentes alinhados, sorrisos homogêneos ou determinadas intervenções estéticas –, propõe refletir sobre os interesses econômicos, as relações de poder e os valores culturais que atravessam a maneira como percebemos o corpo e produzimos o cuidado. A pergunta que dá nome ao projeto permanece aberta justamente porque desloca o interesse das respostas prontas para tornar visíveis os processos que orientam a vida, ampliando o debate sobre as relações entre saúde, estética e diversidade. Essa perspectiva dialoga com os princípios que orientam a atuação do Sesc, reafirmando seu compromisso com a promoção de situações de encontro, a circulação de saberes e a reflexão crítica.

Luiz Deoclecio Massaro Galina Diretor Regional do Sesc São Paulo

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Programa de Saúde do Sesc São Paulo: cuidado, autonomia e promoção da qualidade de vida A promoção da saúde faz parte da trajetória do Sesc São Paulo desde sua fundação, em 1946. Mantida por empresários do comércio de bens, serviços e turismo, a instituição desenvolve ações voltadas aos trabalhadores do setor, seus dependentes e à comunidade, tendo como propósito contribuir para a melhoria da qualidade de vida por meio de iniciativas educativas, culturais, esportivas, assistenciais e de saúde. No campo da saúde, suas ações são orientadas pelos princípios da Atenção Primária, da Saúde Coletiva, da equidade e da integralidade do cuidado, buscando fortalecer a autonomia das pessoas e ampliar sua capacidade de atuar sobre os fatores que influenciam sua saúde e bem-estar. O Programa de Saúde do Sesc São Paulo está organizado em três linhas de atuação: Saúde Bucal e Fisioterapia, voltadas ao público credenciado ao Sesc, e Educação em Saúde, para todas as pessoas. A Saúde Bucal reúne uma ampla rede de serviços clínicos e ações educativas voltadas à promoção, à proteção e à recuperação da saúde. Tais serviços tiveram um alcance expressivo na região, contando com aproximadamente 620 profissionais de saúde bucal, entre cirurgiões-dentistas, técnicos e auxiliares, distribuídos em 176 espaços de atendimento, incluindo consultórios odontológicos, salas de higiene bucal e serviços especializados, como o Centro de Diagnóstico por Imagem e o Laboratório de Prótese Dentária. Essa estrutura realiza, em média, mais de 1 milhão de procedimentos por ano e atende cerca de 50 mil pessoas, evidenciando a abrangência e a relevância dos serviços prestados. A Fisioterapia oferece práticas coletivas voltadas à recuperação da funcionalidade, à promoção da qualidade de vida e ao fortalecimento da autonomia das pessoas. Mais do que oferecer tratamento odontológico, o Sesc desenvolve um modelo de cuidado fundamentado nos Determinantes Sociais da Saúde, na promoção da autonomia, na humanização do atendimento e na redução das desigualdades de acesso aos serviços. A política de acesso ao tratamento odontológico busca priorizar pessoas em situação de maior vulnerabilidade social, reafirmando o compromisso institucional com a equidade. Ao mesmo tempo, investimentos permanentes em qualificação profissional, inovação tecnológica, segurança do paciente e melhoria dos processos assistenciais garantem a oferta de um cuidado seguro, acolhedor e de excelência. 8


Já a Educação em Saúde, oferecida a toda a comunidade, estrutura-se em quatro áreas programáticas: Saúde Bucal, Saúde Mental, Saúde Sexual e Reprodutiva e Qualidade de Vida, desenvolvendo ações educativas, culturais e formativas nas unidades do Sesc e em diversos territórios, em parceria com escolas, empresas, equipamentos públicos e organizações da sociedade civil. Essas ações buscam ampliar conhecimentos, fortalecer o letramento em saúde e estimular o protagonismo das pessoas na construção de práticas de cuidado individuais e coletivas. Realizadas em diferentes linguagens e formatos, contribuem para a formação de cidadãos mais críticos e conscientes sobre os fatores que influenciam a saúde e a qualidade de vida. Entre os projetos que integram essa atuação, destaca-se o Boca, pra que te quero?, uma das iniciativas mais inovadoras do Programa de Saúde do Sesc São Paulo. Realizado desde 2018, o projeto propõe ampliar o olhar sobre a saúde bucal a partir do conceito de bucalidade, compreendendo a boca não apenas como um conjunto de estruturas anatômicas, mas como um território de experiências, relações, afetos, comunicação, cultura e identidade. Neste livreto, convidamos uma gama de especialistas para contribuir com a expansão desses modos de compreender, experienciar e cuidar da boca. Aqui estão os conhecimentos compartilhados por dentistas sanitaristas e especialistas em Saúde Pública, como Carlos Botazzo, que apresenta seu conceito de bucalidade; Joaquim Couto, que traz as experiências da população de rua com o cuidado; Luiz Eduardo de Almeida, que debate as relações identitárias das pessoas queer com suas bocas; Beatriz Dulianel, que, em um conto, apresenta o racismo manifestado e sentido por meio da boca; e, ainda, o professor indígena Leandro Kuaray, que abre alguns dos significados da boca para os Guarani, em outras formas de vida e expressão. Esperamos, assim, compartilhar reflexões e práticas possíveis com estudiosos e profissionais da saúde, bem como estender a todas as pessoas a oportunidade de conhecer e celebrar a diferença, na esperança de que a compreensão do outro e de si propicie e favoreça o cuidado do nós e do eu, em cada pessoa. Boas leituras!

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O cuidado nas ruas: encontros que produzem mais vida Por Joaquim Gabriel de Andrade Couto Este texto nasce da minha dissertação de mestrado em Saúde Pública na Universidade de São Paulo (USP), “O último a dormir apaga a Lua”: cartografias da produção de cuidado entre a população de rua, título inspirado na música do rapper Criolo, que, a partir da poesia de Giovani Baffô, canta que “em casa de menino de rua, o último a dormir apaga a Lua”. Durante pouco mais de um ano de pesquisa de campo, acompanhei o cotidiano de pessoas em situação de rua em Florianópolis (SC), buscando compreender como o cuidado se produz nesses territórios.

A dimensão existencial do cuidado O cuidado faz parte da nossa constituição como humanidade e nos atravessa ao longo de toda a vida. Antes de qualquer palavra, uma criança foi alimentada, aninhada e embalada. Existimos porque fomos cuidados, e seguimos existindo porque cuidamos e somos cuidados por alguém. O cuidado não é monopólio de nenhuma área de conhecimento, tampouco depende de um diploma ou de uma técnica específica; ele é aquilo que nos identifica como humanos, o tempo todo, mesmo sem consciência disso. Quando o cuidado adentra o campo da saúde, porém, algo se perde pelo caminho. Somos profissionais formados para esquadrinhar o corpo do outro em busca de sinais, sintomas e desvios da norma, enquanto a pessoa à nossa frente se transforma em um conjunto de queixas a resolver. O cuidado, nesse modelo, vira sinônimo de técnica: um protocolo, um procedimento, uma prescrição. Mas cuidado não é a mesma coisa que cura. Cuidar não é apenas corrigir um desvio de uma norma; é, sobretudo, um encontro entre sujeitos. Foi essa outra forma de cuidado que aprendi a reconhecer no percurso da pesquisa. Percorri praças, calçadas e abrigos improvisados, deparando-me com redes de afeto tecidas onde menos se espera: o compartilhamento de um cobertor ou uma garrafa de cachaça para aquecer o corpo em dias frios, o aviso sobre um lugar mais seguro para dormir, o cuidado com os pertences uns dos outros. Ali, o cuidado se produz, em essência, a partir do encontro intersubjetivo: a potência que se cria entre duas existências e que aumenta a potência de vida de quem cuida e de quem é cuidado.

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A singularidade da vida nas ruas Pensar a população em situação de rua exige compreendê-la não como um simples desvio da norma social ou uma escolha individual, mas como um fenômeno socialmente produzido com raízes históricas profundas. Na Europa, a passagem do feudalismo para o capitalismo foi marcada por um violento processo de expropriação: os cercamentos expulsaram camponeses das terras comunais, criando uma massa de pessoas sem seus meios de subsistência, forçadas a vender sua força de trabalho sob o novo modo de produção. A dificuldade de incorporar todos à indústria nascente levou à criminalização daqueles que não estavam submetidos ao trabalho assalariado, dando início à associação entre pobreza, vida nas ruas e periculosidade. No Brasil, esse processo ganhou contornos próprios, diante da formação social marcada pelo colonialismo e pela escravização de povos africanos e indígenas. A abolição, em 1888, não veio acompanhada de qualquer política de reparação – terra, moradia ou trabalho – para a população recém-liberta, lançada à própria sorte. Essa dinâmica racista explica por que a maioria das pessoas em situação de rua no país é negra: não é acaso, mas resultado de um processo histórico de exclusão que se atualiza a cada geração. Viver na rua significa conviver com violências diversas: insegurança alimentar, dificuldade de acesso à água potável e a banheiros, frio, privação de sono e a vigilância constante do corpo e dos próprios pertences. Significa também enfrentar a discriminação frequente, até mesmo dentro dos serviços de saúde, levando essa população a evitar o atendimento, reservando-o para situações extremas.

Reconhecer essas singularidades é o primeiro passo para qualquer cuidado que se pretenda efetivo. Sem isso, o profissional de saúde repete, mesmo sem querer, a mesma lógica de exclusão que empurra essas pessoas para as ruas, tratando como mero objeto de intervenção quem já foi, tantas vezes, tratado como descartável.

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A rua como território de cuidado Ainda que marcada pela precariedade material, a rua não é esvaziada de cuidado – é um território no qual o cuidado é produzido nos encontros cotidianos. Ao acompanhar trajetórias de pessoas que vivem nas ruas, observei como elas próprias constroem estratégias de proteção coletiva: parcerias na divisão de tarefas necessárias à sobrevivência, gestos de atenção com o corpo e com a saúde do outro, relações de afeto que transformam a experiência de vida nas ruas. Durante a pesquisa, acompanhei o encontro entre um casal que mostrou a potência dos afetos como prática de redução de danos: a abstinência do uso de substâncias psicoativas se deu a partir da relação construída entre eles. A rua demonstra, assim, que o cuidado pautado pela criação de vínculo entre os sujeitos é o que sustenta a vida nesses territórios. O cuidado é a força motriz que produz mais vida diante das adversidades que a rua impõe.

Para produzir mais vida Esta pesquisa nos ensina que o cuidado não pode ser enquadrado em protocolos clínicos. Profissionais de saúde precisam estar atentos às diferentes formas de vida, o que exige uma escuta qualificada, centrada no sujeito e em suas singularidades, disposta a reconhecer sua história, seus desejos e suas próprias formas de produzir cuidado. Só assim o encontro entre profissionais de saúde e a população em situação de rua pode deixar de reproduzir exclusão e passar a produzir, de fato, mais vida.

Joaquim Gabriel de Andrade Couto é cirurgião-dentista sanitarista, mestre e

doutorando em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP). 13


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O que é bucalidade e como ela impacta as formas de ver e de cuidar da boca Por Carlos Botazzo É bastante comum as pessoas terem dúvidas sobre algo em sua boca ou sua condição bucal. Naturalmente, dúvidas podem surgir em relação a qualquer parte do corpo, mas é provável que, pelo fato de a boca humana achar-se em centralidade em nossa existência, as pessoas expressem, com mais frequência, dúvidas bucais. Bem, pode parecer exagerado, porém é certo que manifestamos questionamentos quando sentimos alguma coisa, visto que raramente conseguimos visualizar nosso corpo todo. Ao contrário, apenas uma parte do nosso corpo é visível diretamente. Por isso, contamos com a ajuda do espelho para ver o que se mantém diretamente invisível. Essas observações vêm do tempo em que pratiquei a clínica. Conheço profissionais que não gostam de ser abordados fora do consultório, e mesmo alguns dizem sentir-se incomodados quando, no ambiente coletivo dos serviços públicos de saúde, pacientes se aproximam em busca de algum diálogo. Confesso que muitas vezes eu também me senti dessa maneira, principalmente quando as abordagens aconteciam em espaços de socialização e até em filas de cinema. Exageros à parte, se o tempo e o lugar permitiam, com prazer me estendia nos detalhes. É importante destacar que nem todos têm as mesmas preocupações. Há quem se preocupe mais com as partes duras – como dentes ou ossos – enquanto outros se mostram preocupados com língua, bochecha e gengivas, não raro, com a garganta e o arco bucofaríngeo, ou seja, a entrada por onde descem os alimentos depois de mastigados. Assim, cada pessoa teria um modo próprio de ser afetada por diferentes problemas, ou antes, pelo modo como percebe certos sintomas ou incômodos com origem na cavidade bucal. Este fato pode indicar a impossibilidade de termos orientações gerais, válidas para qualquer pessoa em qualquer situação, o que tornaria praticamente impossível pensar formas de promover a saúde, ainda mais se pensarmos o corpo tomado em seu conjunto. No entanto, esse aparente problema é facilmente contornado, pois a subjetividade humana, isto é, o mundo das nossas sensações, percepções, sentimentos, sonhos etc., é tão rica e variada que impediria qualquer abordagem comum.

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Naturalmente, essa subjetividade toda tem um componente individual muito acentuado – cada um é cada qual, como se diz –, mas o fato é que é possível, na vida social, agrupar tendências com base em percepções e visões comuns de mundo etc. Individualmente, somos únicos, claro, até por conta da nossa identidade pessoal, mas não somos seres afastados da vida coletiva. Isso facilita agrupar tendências comportamentais que, no fundo, são identitárias. Isso pode ser observado na política, no esporte, na música, no cinema, na gastronomia e em toda a imensa gama de atividades humanas, tal como a psicologia e a psicanálise nos ensinam. Dá-se o mesmo no ensino e na saúde. Desse modo, seria mais apropriado iniciar essa conversa abordando o que é comum, para depois verificar as situações divergentes. Eu começaria com uma afirmação simples, que toma as funções bucais como fundamento. Devemos considerar, como ponto de partida, a experiência bucal de cada um e de cada uma, aquilo que vem a ser o modo como cada pessoa usa socialmente sua boca. As funções bucais também podem ser vistas como trabalhos, dado que, ao funcionar, a boca produz alguma coisa: um trabalho mecânico, uma sensação, um prazer, uma palavra, um gesto de carinho. Pensar desse modo tem suas vantagens, pois nos permite avaliar riscos ou diferentes possibilidades; saímos das generalizações e focamos diretamente naquilo que interessa. De modo geral, podemos dizer que os trabalhos ou funções bucais se repartem em três possibilidades distintas e abrangentes, centrais para a vida psíquica e social humana: a manducação, a erótica e a linguagem. A palavra manducação vem do latim manducatio, manducare, isto é, comer (em italiano, mangiare; em francês, manger). Implica apreender, triturar, insalivar, deglutir. De certo modo, é o mundo entrando pela nossa boca, o consumo do mundo! Este movimento todo inicia o processo da digestão: o bolo alimentar é formado e envolvido pela saliva, o que nos permite engolir sem esforço; a delicadeza das mucosas da boca não tolera o contato com alimentos rígidos e secos. Para além do consumo, a manducação mantém relação com o desejo e com a razão. Podemos comer aquém ou além do necessário e nem sempre os alimentos mais recomendados ou “úteis”. Via de regra, comemos as coisas de que gostamos. Contudo, reconhecidamente, comer é uma prática social, profundamente ligada à cultura de um povo.

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A erótica (do grego Eros, amor) nos nutre por dentro e por fora. Todo o corpo apresenta essa propriedade sensorial e, no entanto, a boca se acha em posição de vantagem em relação a outras partes do corpo, salvo as genitais, propriamente, a despeito de que a cavidade bucal pode ser tomada nessa condição. Mucosas, língua, músculos, saliva: este é um conjunto altamente sensível e ativo – mesmo quando, nos jogos sexuais, funciona como boca receptiva. A relação boca-seio é parte da vida primordial do bebê. A um só tempo, é nutricional e erótica. Trata-se, como dispositivo, da manifestação do caráter erógeno dessa relação. A princípio, o consumo do corpo do outro é, naturalmente, impositivo. Na vida adulta, essa eroticidade se recupera – mas, desta vez, o desfrutar o corpo do outro por meio da boca se dá de forma consentida. Nessa relação, também há consumo, mas de forma mediada pelo psiquismo (em geral, por um pingo de razão). Por esse motivo, podemos dizer que produção, razão e psiquismo, nessa particular função da boca, se dão como produção de fatos eróticos. A boca se mostra biologicamente disposta para tal. Finalmente, a linguagem. Todo o corpo “fala”, de modo não verbal. As manifestações sociais humanas, as construções do ser humano, tudo comunica. Contudo, a língua falada, ou verbal, é a atividade essencial da boca. “No princípio, era o verbo”. É por meio de suas vísceras que a boca fala. Isso pode parecer estranho, mas é assim, deste modo. E são as mesmas vísceras que nos permitem falar mais de mil idiomas.

Como produzimos os sons A coordenação mecânica das vísceras acontece próxima ao lobo frontal esquerdo, na Área de Broca, enquanto a área de significação situa-se na parte posterior do cérebro, na Área de Wernicke. Língua, dentes e lábios: a maior parte dos sons que emitimos é formada nas pregas vocais, situadas na laringe, e modulada na boca e, em parte, pelas fossas nasais. Todavia, os idiomas possuem formas diferentes de produzir sons bucais. Alguns são produzidos como estalidos entre as bochechas e a língua, ou eventualmente, na garganta, enquanto outros sons são produzidos pela contração dos lábios. Os grupos vocálicos e consonantais são classificados, quanto ao local, em dentolinguais, linguopalatais, dentoalveolares e labiais. Alguns sons são fricativos. Naturalmente, há muito mais coisas em relação a esse tema – aqui foi feito apenas um resumo¹.

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Sabemos que os bebês “oralizam” já a partir do quinto ou sexto mês, produzindo sons e ruídos que, apesar de inicialmente desconexos, são fundamentais para o posterior controle da fala e para estabelecer todo o sistema de significação e de produção de sentido. Aliás, mesmo quando ainda não “falam”, os bebês se comunicam: eles conseguem interpretar aspectos sutis na relação parental e reconhecem a fisionomia dos pais e de outras pessoas cuidadoras. Tudo isso vem a significar a complexidade desse território. Nessa condição, não é difícil perceber o quanto ele é importante em nossa economia corporal, mas não apenas do ponto de vista da sobrevivência. Por tudo isso, ressalta-se a sua centralidade para nossa experiência subjetiva. Os trabalhos ou as funções bucais são essas; podemos virar para um lado ou para outro, e sempre iremos resvalar nesta tríade: manducação, erótica e linguagem.

É bom pensar que função é uma coisa que não se vê, mas cujo efeito se sente. Você não vai conseguir ver sua mastigação, por exemplo. Ou “ver” sua fala, ou mesmo “ver” a sexualidade presente neste lugar. Todavia, sentirá. Há vivências bastante simples e que ilustram esse ponto perfeitamente. Por exemplo, se você colocar um punhado de castanhas na boca e mastigá-las, em poucos segundos, elas formarão uma pasta, impregnadas pela saliva; os dentes revelam a eficácia da mastigação e, sob ação das enzimas salivares, os amidos das castanhas são liberados. Finalmente, os sabores se tornam evidentes ao paladar. A formação do paladar nos permite distinguir os alimentos de que gostamos de comer. As pessoas formam uma verdadeira biblioteca de sabores, em geral desenvolvida até o final da adolescência, e muito raramente alguém “troca” de paladar. Também o beijo nos permite claramente perceber ou sentir uma função da boca; ou pronunciar as belas e boas palavras, e os oradores são exímios nesta arte. Enfim, é nessa repartição que são constituídas as experiências bucais dos sujeitos.

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Como cuidar da boca: dicas práticas Muitas vezes perguntam: como cuidar disso tudo? Como limpar os dentes? Existem técnicas apropriadas para realizar a limpeza bucal? A língua também deve ser escovada? Bem, nossa sociedade assiste a um boom de produtos para proceder a essa limpeza. Não por acaso, as prateleiras das farmácias vivem abarrotadas de instrumentos com esta finalidade. Devemos simplificar o assunto, sempre observando uma regra básica: mantenha tudo isso limpo! Para começar, cuide da alimentação. Eleja alimentos fibrosos e detergentes, como, por exemplo, ao comer a laranja inteira; evite excessos no consumo de alimentos que contêm açúcar, foque na alimentação natural (ou “comida de verdade”) e fuja dos ultraprocessados! O uso do fio dental é recomendado e você deve utilizar uma escova de dentes não muito dura e com a qual você se sinta confortável. Aparelhos que funcionam com jatos intermitentes de água sob pressão são ótimos para remover restos alimentares grudados entre os dentes e conseguem quebrar o ciclo de reprodução de bactérias. Todavia, o uso adequado do fio dental e da escova permite controlar satisfatoriamente a formação de placa (ou biofilme) e apresenta um efeito espetacular.

Para além do cuidado: padrões estéticos e a boca Finalmente, para desenvolver um pensamento crítico em relação a procedimentos estéticos aplicados às bocas, algumas palavras precisam ser ditas. Todos sabemos que o corpo pode ser visto como uma grande tela. Desde tempos pretéritos, os humanos realizaram e ainda realizam inscrições e desenhos na pele, sobretudo em partes expostas, por exemplo. Também inseriram determinados objetos de osso, madeira ou metal, atravessando as narinas, as orelhas e os lábios. Tais práticas são observadas entre todos os povos e, mesmo na contemporaneidade das sociedades urbanas, experimentaram expressivo aumento. Os dentes não ficaram de fora dessa perspectiva. Um novo padrão estético foi construído, de modo que possuir dentes claros se tornou um “standard”, principalmente entre os que trabalham em plataformas midiáticas, influenciadores ou agentes do mercado financeiro.

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Naturalmente, cada um é livre para proceder com seu corpo como lhe aprouver. Mas é necessário ter prudência. Muitas dessas práticas implicam o desgaste do esmalte, a camada mais externa e brilhante dos dentes, e esse desgaste é irreversível, ou seja, é um estado permanente. Com isso, em conjunto, o dente poderá sofrer infiltrações, e esta prática expõe a dentina subjacente a agentes microbianos. Isso se chama biocorrosão. Muitas pessoas públicas ostentam um sorriso padronizado, exibindo dentes perfeitamente alinhados e branquinhos. Também se tornaram comuns intervenções que visam aumentar a massa aparente nas bochechas, nos lábios e nas pregas que se localizam entre o nariz e a bochecha. Bem, liberdade é isso. E hoje, lá onde isso é desejado, substituiu-se a correção ortodôntica pela correção da imagem da face – lábios, bochechas e dentes. O desejo de performar é um evento prostético. Ou seja, esses “enchimentos” não substituem nem recuperam funções; dizem respeito ao gênero, à sexualidade e à generificação dos corpos². O colega Luiz Eduardo de Almeida, em sua pesquisa, destaca que alguns procedimentos odontológicos, como a reanatomização dentária, as cirurgias bucomaxilofaciais e a harmonização orofacial, são fundamentais para a reafirmação do gênero, impactando diretamente na qualidade de vida dessas pessoas. Essa é, enfim, a bucalidade. Pudemos perceber como a boca humana acha-se em permanente exposição e, desde o nascimento, ela se mantém em centralidade até o final dos nossos dias. Com essas breves palavras, espero ter aberto um diálogo com o público.

Carlos Botazzo é odontologista, doutor em Saúde Coletiva e livre-docente em Ciências Sociais em Saúde. Professor associado do Departamento de Política, Gestão e Saúde, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP). Glossário ¹A Fonética é o campo da Linguística que estuda como os sons são produzidos e ouvidos pelo corpo humano. Um som fricativo, por exemplo, é produzido pela passagem do ar por um canal muito estreito na boca, gerando fricção (como o som de “f”, produzido quando os dentes superiores tocam o lábio inferior). ²Generificação é um processo cultural, social e político que classifica os corpos humanos como masculinos ou femininos a partir do nascimento, resultando em uma série de expectativas sobre comportamentos, com imposições que se estendem até a direitos civis.

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A Importância da Boca para o Povo Guarani Mbya Por Leandro Kuaray Mirim dos Santos Para o nosso povo Guarani Mbya, o corpo humano não é compreendido apenas como uma estrutura biológica ou mecânica, mas sim como um lugar sagrado onde dimensões terrenas e divinas se encontram. Dentro dessa perspectiva cosmológica, a boca assume uma centralidade que ultrapassa infinitamente a função fisiológica da nutrição ou da sobrevivência física. Embora seja o canal de entrada dos alimentos que sustentam a matéria, ela é, fundamentalmente, o portal por onde se manifesta a alma e a conexão com o sagrado. Compreender a importância da boca para os Guarani Mbya exige um mergulho em sua filosofia mais profunda, na qual a palavra, o som e o sopro criador dão sentido à própria existência. Para entender o papel da boca na cultura Guarani Mbya, é preciso compreender o Ayu. Para os Mbya, Ayu não significa apenas “palavra” ou “linguagem”, no sentido gramatical; o termo é traduzido de forma mais precisa como “alma-palavra” ou “porção divina da linguagem”. Na mitologia de criação do nosso povo Guarani, o Deus Criador, Nhanderu Tenonde, criou os fundamentos da linguagem antes mesmo de moldar a própria Terra e o espaço físico. Quando uma criança nasce e começa a falar, os Guarani Mbya reconhecem que uma divindade enviou uma alma-palavra para habitar aquele corpo. Assim, a boca funciona como o instrumento sagrado por onde essa porção divina se exterioriza e se comunica com o plano terreno. Falar, para um Guarani Mbya, é um ato de manifestação da própria alma.

Por essa razão, o uso da boca exige extrema responsabilidade espiritual: o que sai dela tem o poder de construir a harmonia ou desequilibrar o cosmos.

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A dimensão mística da boca se torna ainda mais evidente nas práticas rituais realizadas na Opy (a casa de rezas tradicional). Nesses espaços, os líderes espirituais, conhecidos como xeramoi (pajés), utilizam a boca como o principal veículo de cura e de equilíbrio da comunidade. É através dela que são entoados os Mborai – os cantos sagrados transmitidos pelos deuses. O canto dos Guarani Mbya não possui um propósito estético ou de entretenimento; ele é uma prece contínua que sustenta a estrutura do mundo e afasta as imperfeições da Terra. Além disso, a boca é o meio pelo qual se utiliza o petyngua (o cachimbo sagrado). A fumaça do tabaco verdadeiro, ao ser soprada pela boca do xeramoi (pajé), atua como um elemento purificador. O yvytu (sopro) que sai da boca carrega a energia vital e as intenções espirituais do rezador, servindo como uma ponte direta de comunicação que eleva os pedidos dos Guarani Mbya até Nhanderu e traz as bênçãos divinas de volta à comunidade. Historicamente, a cultura Guarani Mbya estruturou-se sem o uso da escrita alfabética ocidental. Toda a riqueza dos conhecimentos médicos, astronômicos, históricos e mitológicos foi – e continua sendo – preservada exclusivamente através da oralidade.

A boca dos mais velhos (os sábios, anciãos e anciãs) funciona como a biblioteca viva do povo. É por meio das narrativas contadas ao redor do fogo que as novas gerações aprendem quem são, de onde vieram e como devem se comportar. A boca que narra os mitos de origem preserva a identidade étnica e garante a continuidade do povo contra as pressões da sociedade envolvente. Em mais de quinhentos anos de contato e colonização, a persistência na transmissão oral da língua nativa através da fala cotidiana foi a maior arma de resistência dos Guarani Mbya. Manter a boca falando o idioma Guarani é um ato político de demarcação de sua existência como povo originário diferenciado.

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A importância da boca também molda o comportamento social cotidiano dos Guarani por meio do Mbyá Reko, que representa o sistema jurídico, cultural e ético de conduta do povo Guarani. Para alcançar o teko porã (o bem viver ou a vida plena e harmoniosa), o controle sobre a boca é fundamental. Existe uma profunda valorização do silêncio e da moderação no falar. Os Guarani Mbya consideram que falar em excesso, gritar ou proferir palavras com raiva esvazia a alma e atrai más energias. A boca deve ser guardada para palavras belas, verdadeiras e que promovam a paz coletiva. A fofoca, a mentira ou a discórdia são vistas como doenças do espírito que entram e saem pela boca. Assim, o domínio sobre o próprio falar é um sinal de amadurecimento espiritual e de respeito.

A cura pela boca... Os Guarani possuem um conhecimento botânico ancestral profundíssimo. Utilizamos cascas, folhas e raízes (como o pacuri, o cipó-neve e a própria ervamate) em infusões, banhos e chás para tratar desde problemas respiratórios e digestivos até infecções e vários outros problemas que afetam o corpo.

... E a luta pela boca No mundo atual, a boca também é para resistir. A nossa existência plena está sob constante e violenta ameaça. A floresta que nos cerca está sendo devastada, os rios sagrados estão sendo poluídos pelo mercúrio e pelo esgoto, e o asfalto das grandes metrópoles avança implacavelmente sobre as nossas tekoa. É exatamente diante desse cenário de opressão que a boca assume o seu papel mais urgente, cortante e visceral: ela se torna a nossa principal trincheira de resistência política. Os não indígenas muitas vezes alimentam a ilusão de que a nossa luta se faz apenas com o vigor do corpo, ocupando fisicamente as terras ancestrais ou resistindo de peito aberto diante dos tratores e das forças repressivas do Estado. Eles não conseguem compreender que a nossa maior e mais indestrutível força reside na boca. É através dela que mantemos viva a nossa língua colonialmente encurralada.

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Falar o Guarani Mbya em pleno século XXI, em meio à pressão esmagadora da homogeneização cultural e tecnológica, é um ato de rebeldia radical. Cada vez que abrimos a boca para pronunciar as palavras que nossos antepassados falavam, nós rasgamos o projeto de apagamento que foi traçado para nós desde o primeiro dia da colonização. A nossa boca grita contra as teses jurídicas que tentam roubar nosso direito à terra, contra o racismo estrutural que sofremos nas cidades e contra a invisibilidade institucional. A nossa voz carrega o peso de todos aqueles que foram calados à força ao longo da história. A boca que um dia apenas cantava a harmonia da criação, hoje precisa clamar por justiça em tribunais e microfones, impedindo que o mundo seja engolido pela ganância. A importância da boca para os Mbya reside na sua centralidade para a sobrevivência cultural e espiritual do Guarani Mbya. Pela boca, os rezadores entoam os cantos sagrados que mantêm o equilíbrio do mundo; pela boca, a memória ancestral e os saberes.

Leandro Kuaray Mirim dos Santos é indígena Guarani Mbya, professor e residente da Terra Indígena Ribeirão Silveira.

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Ancião indígena Guarani Mbya, Ejino Chaapei, e seu petyngua, cachimbo sagrado. O fumo desempenha um importante papel espiritual e cultural em sua comunidade. Para refletir: como se dá o olhar de cuidado em saúde quando se consideram as subjetividades, as tradições e a cultura de um povo? Registro de Cadu de Castro, fotógrafo, historiador, etnógrafo e mestre em Sociedade, Cultura e Fronteiras. Cadu desenvolve e executa projetos em comunidades indígenas e entre povos tradicionais (quilombolas e caiçaras) desde 2005.

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As prostéticas bocas-queer (território bucal da população LGBTQIAPN+³): (re)significando e/ou (des)construindo (pre)conceitos Por Luiz Eduardo de Almeida Olá! Que satisfação em ter você comigo! Espero corresponder às suas expectativas, afinal, se nos encontramos, é porque a temática despertou sua curiosidade e/ou interesse. Ademais, para que a leitura seja mais bem aproveitada, você precisará de duas coisas: sua boca e sua mente aberta para novas reflexões. A apresentação do conteúdo deste texto4 será dinamizada por meio de duas questões direcionadoras, sendo elas: “O que são identidades LGBTQIAPN+?” e “Como a boca se articula com as identidades LGBTQIAPN+?”

O que são identidades LGBTQIAPN+? O ser humano é um constructo composto por dimensões biológicas, psicológicas, sociais e culturais, atravessado por interseccionalidades e marcado pela diversidade existencial. Sob a ótica do biopoder de Foucault5 (que molda e normatiza a vida) e da necropolítica de Mbembe6 (que dita quem tem o direito de viver e quem é deixado para morrer), a diversidade, em nosso atual cenário capitalista e de herança colonial, ganha o caráter de risco social. Corpos são disciplinarizados pelos ditames de grupos hegemônicos. Quanto maior o desalinhamento em relação a essa norma, maiores serão as barreiras para a sobrevivência e para a garantia da dignidade existencial. Nesse contexto, a cis-heteronormatividade7 impõe-se como a única forma legítima de existência, rotulando as vivências LGBTQIAPN+ como anormais. Essa engrenagem preconceituosa materializa-se na depreciação e na eliminação física de corpos. O impacto da violência varia de acordo com o grau de desalinhamento: a população LGBA (lésbicas, gays, bissexuais e assexuais), essencialmente cisgênera e com maior passabilidade8, concentra esforços na criminalização do preconceito e no reconhecimento de suas famílias; já as identidades TQI+ (transgêneros, queers, intersexos e outras), ainda lutam pelo direito elementar de existir, pela despatologização e pela aceitabilidade de suas identidades. Produzir conhecimento contra essa intolerância é fundamental para desconstruir os argumentos opressores e fortalecer as vítimas.

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Não obstante, como cirurgião-dentista e professor que sou, deparei-me com uma crucial questão: como posso utilizar os meus conhecimentos odontológicos para evidenciar as identidades LGBTQIAPN+? E assim surgiu a boca.

Como a boca se articula com as identidades LGBTQIAPN+? Para além dos limites do fisiologismo odontológico tradicional, adota-se aqui a “boca botazziana”9 , que deixa de ser apenas um órgão puramente dentarizado e passa a ser entendida como um território corpóreo, socialmente influenciado, central na formação do psiquismo, da subjetividade, do desejo e da própria identidade do indivíduo. Ademais, por sua potência pulsátil e sensorial, emerge o papel genital da boca – um aparato “genital-generificado” forrado de mucosa, lubrificado por saliva e apto a dar e receber prazer. Na práxis, a língua e as texturas celebram o sexo bucal, promovendo ilimitados encontros de identidades de gênero e sexualidades. Contudo, em interface com as identidades LGBTQIAPN+, a boca também é disciplinarizada pela cis-heteronormatividade coercitiva, que impõe o binarismo (bocas masculinas e femininas) e repudia pensamentos, expressões¹0 e práticas que rompam com essa norma. Mais do que isso, a boca é o alvo físico da opressão: lábios ensanguentados, dentes perdidos e ossos faciais quebrados são marcas literais da violência contra esse grupo. A emancipação, portanto, exige a “queerização” da boca e a validação de suas tecnologias bucossociais. A relação entre a boca e suas funções eróticas é especialmente destacada na comunidade LGBTQIAPN+; são bocas que vivenciam e celebram diferentes sexualidades e identidades de gênero, e é por meio dessas mesmas bocas que seus modos de viver e seu direito de existir são reivindicados. Essas bocas tornam-se “prostéticas bocas-queer”, dotadas de “próteses bucossociais” humanas e políticas que materializam desejos cruciais na afirmação existencial LGBTQIAPN+. Essa diversidade reflete-se em plurais performances (“boca-cis”, “boca-trans”, “boca-travesti”, entre outras) que buscam ser ouvidas em seus respectivos lugares de fala, demandando políticas públicas de cuidado.

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Por fim, uma vez que falamos em cuidado, é mister ressaltar que a atenção integral à saúde bucal de pessoas LGBTQIAPN+ deve ser pensada e dinamizada sob duas dimensões indissociáveis: • Da boca para fora: adotar um acolhimento humanizado que conheça a história do paciente, considerando sexo, gênero, orientação sexual e o uso respeitoso do nome social, sempre que necessário. • Da boca para dentro: compreender que o sofrimento existencial crônico e o estresse de minorias têm impacto sobre fatores como ansiedade, depressão, tabagismo, alcoolismo, uso de substâncias e psicotrópicos, distúrbios alimentares, xerostomia e barreiras de acesso ao serviço. Esses fatores ampliam drasticamente os riscos de cárie, periodontite, perdas dentárias, disfunção temporomandibular, câncer bucal, manifestações orais de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e traumas orofaciais.

Agradecimentos Agradeço primeiro a você, leitor, por me acompanhar até aqui. Em seguida, não poderia encerrar sem agradecer, por suas contínuas e diferenciadas presenças durante meu percurso de estudos de gênero, à equipe do Sesc SP e aos professores Dr. Carlos Botazzo (o mestre da bucalidade e dos bucaleiros), Dr. Fábio Mialhe e à Dra. Valéria de Oliveira. Não se esqueçam: agradecer é reconhecer a importância daqueles que foram fundamentais.

Luiz Eduardo de Almeida é professor associado do curso de Odontologia da

Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Doutor em Odontologia (Saúde Coletiva) pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). 31


Glossário 3LGBTQIAPN+ é uma sigla que busca que busca representar a diversidade de orientações sexuais, identidades de gênero e características sexuais possíveis aos seres humanos: lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, queers, intersexuais, assexuais, pansexuais, pessoas não binárias e, incluídas pelo sinal de +, outras identidades e orientações que compõem a pluralidade da comunidade. 4O conteúdo deste texto reflete uma análise do artigo “As corporeidades das identidades LGBTQIA+ a partir do território bucal: as prostéticas bocas-queer”, publicado em 2024 no periódico Physis. 5Paul-Michel Foucault (1926-1984), filósofo francês. Seu conceito de biopoder pretende explicar como a população é controlada na contemporaneidade em diversos aspectos, como saúde, reprodução, educação e trabalho. Trata-se não apenas de um mecanismo de vigilância, mas também de um mecanismo que molda a vida cotidiana e o comportamento das pessoas. Por exemplo: a coleta e a análise de dados pessoais realizadas por empresas a partir das redes sociais e o seu uso para a personalização de algoritmos que ditam quais conteúdos são exibidos ou não a cada indivíduo. 6Achille Mbembe (1967) é um filósofo camaronês. Ele parte do conceito de biopoder de Foucault e se aprofunda em compreender como seus dispositivos são utilizados para justificar as relações de inimizade e as perseguições contemporâneas, analisando quais são os corpos que são “deixados para morrer”. 7Cis-heteronormatividade é um sistema social que normatiza as formas de vida a partir da heterossexualidade (atração entre pessoas de gêneros opostos) e da cisgeneridade (quando uma pessoa se identifica com o mesmo sexo biológico que lhe foi atribuído ao nascer). 8A ideia de “passabilidade” vem da possibilidade de uma pessoa ser lida socialmente como pertencente a um grupo identitário diferente de sua origem: por exemplo, quanto mais uma pessoa trans for percebida como cisgênera, maior a sua passabilidade. 9Referência ao conceito de “bucalidade” criado pelo pesquisador Carlos Botazzo; para saber mais, leia o artigo “O que é bucalidade e como ela impacta as formas de ver e cuidar da boca”, nesta mesma publicação. 10Para saber mais: o pajubá (ou bajubá) é um dialeto criado, originalmente, por travestis e mulheres trans como uma forma de comunicação segura e de resistência. Mistura palavras em português com outras de diversas origens, como o nagô e o iorubá.

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Vladimir: o picolé ou o sabor da democracia racial (a boca na comensalidade) Por Beatriz Carlos Correa Dulianel O conto a seguir faz parte da minha dissertação de mestrado defendida na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM/ Unicamp). Como uma mulher negra e cirurgiã-dentista, sempre me inquietava pensar se o racismo poderia afetar a bucalidade das pessoas negras. Será que uma pessoa exposta a violências constantes poderia exercer sem limitação as funções para as quais a boca se encontra anatomicamente apta? Será que as funções da boca – como a alimentação, a manducação, a erótica e a linguagem – não seriam afetadas pelo racismo? Essa foi uma das principais forças motoras do projeto: contribuir para demonstrar não só que o racismo existe, mas também quais são seus impactos na saúde e, especificamente, na saúde bucal da população negra. Tratar de um tema tão dolorosamente denso e que me atravessava de maneira tão importante exigiu um trabalho muito pessoal e íntimo – tanto que a dissertação foi escrita na primeira pessoa. Realizei entrevistas com pessoas negras do Movimento Negro de Campinas e, embora manejando um roteiro, as entrevistas procuravam captar narrativas, demandando, em diversos momentos, relatos sobre episódios e experiências biográficas. Para a análise, recorri à metodologia iniciada por Grada Kilomba. Em seu livro Memórias da plantação, a autora analisa narrativas de mulheres negras que contam como o racismo as atravessa nas mais variadas situações do dia a dia. Segundo a autora, a partir dessas narrativas centradas nos sujeitos, é possível reconhecer que

o racismo não é algo pontual na vida das pessoas negras, mas algo “que se repete incessantemente ao longo da biografia de alguém

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Inspirada por seu trabalho, decidi fazer entrevistas centradas nos sujeitos, a fim de expor o quanto as bucalidades negras também são afetadas pelo racismo nos momentos corriqueiros da vida. A intenção foi não apagar o sentimento transmitido pelos entrevistados nos seus relatos. Era necessário tentar captar as entonações, os olhares, bem como as comunicações involuntárias, que se expressam nas interrupções, nos engasgos e nas vozes embargadas. Com esse mesmo objetivo, também escrevi alguns contos a partir dos relatos dos entrevistados, um dos quais você irá ler, que reverberam no campo da bucalidade. Para entender como o racismo atravessa as bucalidades negras, é preciso pensar nessa boca que fala e não fala, que engole ou regurgita, que transa e não transa, com todos os seus “comos” e “porquês”. Desejo que este conto o inquiete, como me inquietou.

O sinal toca, o volume de vozes infantis aumenta. É possível sentir no ar o alvoroço do momento mais esperado do dia. O tão ansiado intervalo das aulas chegou. Vladimir, a única criança negra do grupo, divertia-se junto de seus colegas de turma. Gracejos puxavam novos gracejos, às vezes protestos bem-humorados, mas sempre risadas. “É bom”, pensava Vladimir, mais com o sentimento do que com as palavras. Aninha se aproximou do grupo de Vladimir, segurando um picolé. Generosa, ela ofereceu o picolé para a menina à sua frente. A menina, sorridente, pegou o sorvete, deu uma tímida mordida e o devolveu. “Podia ter deixado o palito!”, gritou Marcelão, para provocar mais uma risada geral. A dona do picolé também riu, mas seguiu o ritual. Após mais uma pequena mordida, ofereceu o picolé ao próximo menino na roda, um garoto falante que deu uma mordida bem grande no sorvete. “Wow! Podia ter deixado a mão da Aninha!”, gritou Marcelão. Mais risadas. E o picolé foi seguindo, assim, de boca em boca, de riso em riso, refrescando a fresca amizade da criançada. E o picolé durava...

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No ritual de Aninha, chegou a vez de Vladimir. Quando ela o viu, hesitou um pouco. Ninguém reparou na hesitação, nem no olhar aturdido da menina. Mas, no final, ela decidiu que o ritual não poderia ser interrompido assim. O picolé foi parar na mão de Vladimir. “Pô, Marcelão! Cê babou no picolé inteiro!”, caçoou o menino, que, depois de uma rápida e modesta mordida, fez um gesto de devolvê-lo à dona. Aninha olhou para o picolé na mão de Vladimir. A boca ensaiou duas frases que não saíram, mas, por fim, Aninha conseguiu dizer: “Não, não, pode ficar”. Vladimir entendeu tudo, não precisava de nenhuma explicação. Na verdade, todo mundo entendeu tudo. Aninha percebeu o clima que gerou. “E agora?”, perguntava seu coração acelerado. Ela sabia muito bem o que seu gesto significava. “E agora?” Ela sentiu que tinha de fazer algo. Como faria em outras ocasiões, diante de pessoas que, por motivos inconfessáveis, causavam-lhe repulsa, ela desviou a atenção para outra pessoa presente na roda. De um jeito afetado, ela colocou as mãos na cintura e disse: “O Marcelão babou no picolé inteiro!” Todo mundo caiu na gargalhada. O riso foi libertador. Todo mundo estava constrangido por saber o que todo mundo sabia. Rir do Marcelão era melhor do que reconhecer o que havia acontecido. Aquele momento viraria uma piada eterna da turma: “Que isso, Marcelão?! Você babou no picolé inteiro!” Todo mundo sempre ria da piada, inclusive Marcelão. Só Vladimir não ria. Vladimir não. A piada virou para ele uma tortura. Todas as vezes em que ele a ouvia, ele lembrava da vergonha que se instalou dentro dele, ele lembrava que tinha algo que ele não podia esconder e que para muita gente era repulsivo. Depois do picolé, ele se tornou mais tímido. Ele não deixava de estar com os outros. Mas ele estava e não estava. Ele sabia que não era nem mais nem menos do que ninguém ali. Mas ele também sabia que isso não mudava nada. Não estava entre iguais. Na escola, ele nunca mais conseguiu sentir inteiramente outra vez que “era bom”.

Beatriz Carlos Corrêa Dulianel é odontologista pela Universidade de São Paulo, especialista em Saúde Coletiva e da Família e em Docência em Saúde, além de mestre em Saúde Coletiva: Políticas e Gestão em Saúde. 36


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Como se credenciar A Credencial do Sesc é um direito das pessoas que trabalham com registro em carteira, são estagiárias, temporárias, aposentadas ou estão desempregadas há até 2 anos, em empresas do comércio de bens, serviços e turismo, bem como de seus dependentes familiares. Com a credencial, você tem acesso prioritário a diversos benefícios, entre eles descontos na compra de ingressos e em serviços pagos do Sesc, como tratamento odontológico e cursos. Além disso, quem tem Credencial Plena pode usufruir de viagens, passeios e hospedagens em hotéis e pousadas do Sesc pelo Brasil.

Confira mais informações em sescsp.org.br/credencialplena

Sobre o Sesc O Serviço Social do Comércio é uma entidade privada com finalidade pública, criada em 1946 por iniciativa do empresariado do setor de comércio de bens, serviços e turismo, e que tem como missão contribuir para a qualidade de vida dos trabalhadores dessas categorias, seus dependentes e da sociedade em geral. No estado de São Paulo, o Sesc conta com uma rede de 44 unidades, incluindo centros culturais e esportivos, bem como unidades especializadas. Oferece atividades de turismo social, programas de saúde, educação para a sustentabilidade, a diversidade e a acessibilidade, alimentação, programas especiais para crianças, jovens e pessoas idosas, além do Sesc Mesa Brasil – programa institucional de combate à fome e ao desperdício de alimentos. O Sesc desenvolve, assim, uma ação de educação não formal permanente, com o intuito de valorizar as pessoas ao estimular a autonomia, a convivência e o contato com expressões e modos diversos de pensar, agir e sentir.

Impresso em agosto de 2026 | Tiragem: 3500 exemplares


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Saiba mais sobre o projeto e a programação de Boca, pra que te quero? sescsp.org.br/bocapraquetequero 40


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