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Nova Velha Estória

SERVIÇO SOCIAL DO COMÉRCIO SÃO PAULO


CENTRO DE PESQUISA TEATRAL DO SESC apresenta

NOVA VELHA ESTÓRIA Baseado no Conto “Chapeuzinho Vermelho”

com GRUPO DE TEATRO MACUNAÍMA

Concepção e Direção ANTUNES FILHO

Cenografia e Figurinos J.C. SERRONI Iluminação DAVI DE BRITO


UM FIO DE HISTÓRIA REINVENTA 0 TEATRO ^Nova Velha Estória ê uma encenação extraída de um repertório de

narrativas que há séculos se transmitem de pais a filhos, sem que a estrutura se altere. Vem à tona neste trabalho a imaginação popular, alicerce antlqüíssimo sobre o qual a cultura ocidental erigiu o teatro.

Baseado em uma história simples e muito conhecida, o espetáculo não

mostra surpresas e nem desdobramentos que possam diversificar o campo

dramático. Reforçando ainda mais esses limites, o roteiro ignora as versões do conto popular, geralmente intercaladas por advertências morallzantes, e conserva apenas a sequência de episódios. Resta ao espetáculo um

mergulho vertical na direção do ponto onde nasce a representação para o lugar de origem de todas as operações simbólicas. A mesma necessidade — a de ordenar e exprimir os anseios e terrores da vida psíquica — engendra o conto e o teatro. Circulando fora do aconchego familiar, a velha história de Chapeuzinho

Vermelho deve, para poder reviver, forjar entre o palco e a platéia um laço da mesma natureza que aquele que se estabelece nas transmissões orais. Para deixar bem claro que o que se procura é uma comunicação essencial, Nova Velha Estória é contada em uma língua inexistente.

Sendo arte, e portanto Incapaz de mera reprodução, o espetáculo é

necessariamente uma interpretação do conto. Para cada episódio há um paralelismo com os ritos de passagem da infância para a puberdade. Delicadamente as seqúências vão desenhando a maturidade física da

menina, a desejada e temida aproximação do Lobo e, finalmente, o ingresso inevitável na vida adulta. A cada momento desse percurso, pontuado por

objetos emblemáticos, entrelaçam-se o medo e o desejo. Em vez da linha

direta da história original, o espetáculo é pautado por esse movimento oscilatório entre o querer e o não querer.

Fosse apenas isto — embate entre instinto e repressão —, a retomada de Chapeuzinho Vermelho se arriscaria a ser um digesto freudiano para


principiantes. Entretanto, a forma como se conjugam os elementos do espetáculo vai muito além da iniciação sexual. Não há em cena nenhum elemento telúrico que possa sugerir a cadeia de reprodução. Pelo contrário, o Jogo de sedução se realiza em um espaço aéreo, entre figuras vagamente

arcaicas, mais projeções que criaturas de carne

e osso. Também a

cenografia sublinha esse traço, ao propor um ambiente onde predominam

suaves transparências esféricas se elevando do solo. Envelopadas em figurinos esmaecidos, referências a antigas ilustrações e porcelanas, as

personagens vivem no imaginário, um lugar onde há sensualidade, mas não há pele. Seus Jogos de sedução se tornam assim arquiteturas mentais, estratégias para a obtenção de um prazer que pode ser de qualquer

natureza.Por essa brecha a versão de Antunes Filho introduz na fábula uma pitada de fatalidade: o desejo do Lobo, maior que o seu objeto, está destinado a eternizar-se. Não há Chapeuzinho capaz de aplacar uma ânsia desse porte. Por isso a menina do espetáculo não é uma figura inteiramente

singular, mas uma personagem que se destaca do conjunto das amigas

quando é impulsionada para a ação. Cabe ao Lobo a função do princípio ativo, eternamente à espreita, eternamente obrigado a revigorar o ritual de sedução. Com a tarefa de recriar personagens muito conhecidas, mas sem o confortável apoio das palavras ou da verossimilhança, os intérpretes trabalham apenas com a matéria-prima da arte: impulsos, Idéias,

sentimentos. Sem um instante sequer de pueridade — risco que corre quem trabalha sobre abstrações —, vê-se que é possível expressar poeticamente,

com a voz e com o gesto, os complexos estados anímlcos que integram o Jogo da sedução.

Como todas as belas obras de arte, Nova Velha Estória deixa para seu

espectador uma herança de Inquietação. O Lobo, suspenso em uma transparência, permanecerá encantado, pronto para corporiflcar outra vez o moto-perpétuo do desejo. É uma Imagem sintetizando a afirmação de

Antunes Filho sobre a complementaridade do bem e do mal. ALVES DE LIMA Crítico Teatral


O RITUAL DE SEDUÇÃO Jsf uero tratar as palavras como se fossem eletrodos. As palavras têm uma pulsão psíquica, uma alma, um cerne eletromagnético. Quando invento uma línguaficcional, estou começando a estudar de novo o português, a restaurar o sentido das palavras.

l\ão existe confronto, mas complementaridade. Não digo que as pessoas têm de cometer o mal. Temos é que colocar o mal no seu lugar, sem pretender erradicá-lo.

E necessário que o Lobo exista, no lugar a ele destinado. Nós temos de passar por este processo de iniciação, compreender que a sedução está presente no mundo, assim como o certo e o errado. Eu rompi com a noção antagônica dos gregos, de Dionísio e Apoio. Estou no princípio shivaísta — a complementaridade Shiva e Shakti. Trabalho o ator dentro dessa cosmogonia do Vishna.


(çfuero a razão, a sabedoria. Não quero o ator tomado, emocionado. Ele só fica emocionado quando é ignorante.

ÍNstou atrás do comediante, que é uma instância superior do ator. Não confundir comediante com o cômico de rádio e tevê. O comediante usa a peça, está acima dela. Tem de ter uma visão de mundo, uma sabedoria. Tem de ler e pensar, porque só assim pode se tornar um homem livre. Não há liberdade sem sabedoria. No Brasil, as pessoas têm a ilusão de que são livres, mas estão acorrentadas a tolices, a preconceitos, à ignorância do pais. A liberdade é uma alegria, mas também umfardo. Por isso, o comediante é quase um monge.

l\o momento de grandes crises, o mundo procura os gênios, volta aos clássicos, volta aos padrões arquetípicos, aos fundamentos. Mesmo porque o universo é relativo, como disse Einstein, e o tempo é cíclico, é uma espiral inventada, está tudo estático no movimento. É sempre a mesma primavera. Só que com uma disposição diferente das folhas.

ANTUNES FILHO


NOVA VELHA ESTÓRIA Baseado no Conto Chapeuzinho Vermelho

CONCEPÇÃO E DIREÇÃO ANTUNES FILHO CENOGRAFIA E FIGURINOS J.C. SERRONI

ILUMINAÇÃO DAVI DE BRITO

ELENCO Geraldo Mário DUENDE/SOLDADO Ian Cristian

LOBO Inês de Carvalho SEGUNDA AMIGA

Ludmila Rosa

CHAPEUZINHO Luiz Furlanetto MÃE/AVÓ Sandra Babeto PRIMEIRA AMIGA


JL oda a mitologia, seja do povo ou dos eruditos, preserva a iconografia da aventura espiritual que os homens vêm seguindo repetidamente durante milênios e que, onde quer que ocorra, revela características tão constantes que as mitologias do mundo se assemelham umas às outras, como dialetos de uma mesma língua.

O mesmo ocorre com o Conto de Fadas, que procede do Mito.

Em realidade, o conteúdo do conhecimento tradicional (folclore) ê Metafísico. Se não o reconhecemos se deve sobretudo

à nossa ignorância abismai da Metafísica. Enquanto existir o material do conhecimento tradicional,

continuará havendo um terreno propício para construir a superestrutura do pleno entendimento iniciático.

JOSEPH CAMPBELL


A MATÉRIA-PRIMA DA ARTE

X

heater is not often as enchanting as José Alves Antunes Filho’s Nova Velha Estória (“New Old Story”), a sly, wlse, adult version of “Little Red Ridinghood” performed by Mr Filho’s Brazilian Company, Grupo de Teatro Macunaíma, at the Repertório Espanol’s Gramercy Arts Theater as part of the New York International Festival of the Arts.

(...) Nova Velha Estória is perfect fantasy perfectly realized.

como a Nova Velha Estória de Antunes Filho, uma versão adulta, astuta e inteligente de Chapeuzinho Vermelho, apresentada pela Companhia Brasileira de Antunes Filho, Grupo de Teatro Macunaíma, no Repertório EspanoFs Gramercy Arts Theater, dentro da programação do Festival Internacional de Artes de Nova York.

(...) Nova Velha Estória é uma fantasia perfeita realizada de forma perfeita.

THE NEW YORK TIMES, Wednesday,

June, 12, 1991.


Filho’s brilllance is evident in many ways: the actor’s finely tuned movements, gestures, evocatlons of primai agression, curiosity and lust.

O

brilho de Antunes Filho fica evidente de diversas maneiras: os movimentos delicadamente harmônicos do ator, evocações da agressão, curiosidade e sensualidade primordiais.

THE VILLAGE VOICE NY, June, 25, 1991.

Un espectáculo completo, verdaderamente experimental,

con fabulosos resultados, dignos de un centro de estúdios cuya labor es autenticamente válida y sin desperdício. Antunes Filho demuestra que en Brazil hay algo más que folklore, el maravllloso folklore brasileno, cuya personalidad él enfoca a aires mucho más universales, sin perder el maravllloso sabor de lo autóctono brasileno. Un trabajo digno de su internacionalidad.

(...) Teatro elaborado desde las complicadas raíces humanas. EL PERIODICO, Cadiz, Espanha 20 de Septiembre de 1992.


o

que fascina em Nova Velha Estória ê a habilidade de Antunes Filho em transformar a matéria-prima fornecida pelo conto numa reflexão sutil e envolvente.

(...) Antunes demonstra em Nova Velha Estória que sua veia Inventiva corre a pleno vapor. JORNAL DA TARDE Sábado, 30.03.1991.

Ivova Velha Estória é um espetáculo

na contramão de tudo o que se tem visto nos nossos palcos. Há uma simplificação que contrasta com o frenesi de imagens e efeitos à la George Lucas em que vem naufragando o fenômeno teatral. Nesta redução ao essencial se encontra a complexidade e a difícil execução do espetáculo. Este o grande mérito de Antunes.

TOLHA DA TARDE Terça-Feira, 26.03.1991.

^Nova Velha Estória dribla o risco

de ser um Freud para principiantes e põe à prova a capacidade do teatro de unir palco e platéia em torno de uma narrativa essencial. O ESTADO DE SÃO PAULO Quinta-Feira, 28.03.1991.


C/om Nova Velha Estória, Antunes Filho resolveu recontar a estória de Chapeuzinho Vermelho e do Lobo Mau. Pegou arquétipos bem definidos de pureza e maldade e botou tudo num liquidificador, relativizando o bem e o mal; inventou uma língua própria (palavras ininteligíveis) para contar a fábula que Já faz parte do inconsciente coletivo; e construiu uma pérola. Mais ou menos como uma poesia halkal - o poema miniatura onde muitas coisas se dizem com um mínimo de meios - Nova Velha Estória um severo exercício de linguagem. (...) Nessa fábula tão bem contada, o cenário de J.C. Serroni tem papel determinante. Com imensas bolas de acrílico suspensas sobre o palco, ele te transporta a um mundo onde tempo e espaço não importam. A peça é lírica, lúdica, hilariante.

FOLHA DE LONDRINA Terça-Feira, 16.06,1992.


SERVIÇO SOCIAL DO COMÉRCIO Administração Regional no Estado de São Paulo Presidente do Conselho Regional: Abram Szajman Diretor do Departamento Regional: Danilo Santos de Miranda Gerente do SESC Consolação: José Menezes Neto Gerente Adjunto: Mário Damineli NOVA VELHA ESTÓRIA

Assistente de Direção: Beth Accioly / Assistente de Cenografia e Figurinos: Telumi Helen / Assistente de Iluminação: Beato Ten / Trilha Sonora e Operação de Som; Raul Teixeira / Assessoria de Imprensa: Ana Maria Cerqueira Leite / Divulgação: Beth Accioly

Catálogo Ilustração: Laurabeatriz / Produção Gráfica: Marimar Chimenes Gil, Katia Veríssimo Sato Acceto, Paulo Roberto Gomes da Silva, Zildenor Antonio de Araújo / Seleção e Organização de Textos: Beth Accioly Novembro/95


Impressão - SG SERVIÇO SOCIAL DO COMÉRCIO SAO PAULO

Rua Dr. Vila Nova, 245 - Fone: 256-2322


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