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N A VO Z DA E S P E R A N Ç A H Á L Á G R I M A S

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Isabel Gouveia

T í t u l o : N a Vo z D a E s p e r a n ç a H á L á g r i m a s © 2012, Isabel Gouveia e Alêtheia Editores ALÊTHEIA EDITORES E s c r i t ó r i o n a Ru a d o S é c u l o, n . º 1 3 1 2 0 0 - 4 3 3 L i s b o a , Po r t u g a l Te l . : ( + 3 5 1 ) 2 1 0 9 3 9 7 4 8 / 4 9 , F a x : ( + 3 5 1 ) 2 1 0 9 6 4 8 2 6 E-mail: aletheia@aletheia.pt w w w. a l e t h e i a . p t Paginação: Serenela Santos Capa: Serenela Santos Desenhos(Capa e Interior): José Pires Impressão e acabamentos: Várzea da Rainha Impressores, Óbidos w w w. v r i . c o m ISBN: 978-989-622-517-9 Depósito Legal: 349859/12 Outubro de 2012

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Na Voz Da Esperança Há Lágrimas

Isabel Gouveia

NA VOZ DA E S P E R A N Ç A HÁ LÁGRIMAS poesia completa

PREFÁCIO DE FERNANDO PINTO DO AMARAL 3


Isabel Gouveia

(Neste livro foi mantida a ortografia da Língua Portuguesa anterior ao último Acordo Ortográfico)

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PREFテ,IO DE

Fernando Pinto do Amaral


Na Voz Da Esperança Há Lágrimas

ANGÚSTIA E REDENÇÃO  Reunindo toda a poesia de Isabel Gouveia, o presente volume impressiona, desde logo, pela continuidade que desde a juventude tem acompanhado a vocação poética da Autora – falo de vocação sobretudo no sentido de apelo ou chamamento, já que, neste caso, a voz da poesia parece perseguir a Autora, levando-a em busca de si mesma e dos outros, num longo percurso de interrogação que já conta mais de meio século. Cultivando com à-vontade um estilo integrável na tradição lírica portuguesa e assente em leituras de poetas como Pascoaes, Pessoa, Torga, Florbela Espanca ou, acima de tudo, José Régio, a escrita de Isabel Gouveia privilegia muitas vezes o soneto, podendo afirmar-se que é através dessa forma que atinge alguns dos seus momentos mais fortes, mais intensos, mais carregados de sentido. É certo que tal intensidade não se resume apenas aos sonetos, desdobrando-se ocasionalmente em textos mais extensos ou, pelo contrário, condensando-se em breves poemetos cujo pendor elíptico ou enigmático reforça a sua dose de mistério, como acontece em «Veneno que mata» «Nasci para ter / no sangue um veneno / que tudo corrói. / Eu sou a mulher / que faz do pequeno / um mundo que dói.» Oscilando quase sempre entre um registo biográfico intimista, propício a extravasar emoções circunstanciais relacionadas com o decurso da sua existência e, no pólo oposto, composições de maior fôlego nas quais procura analisar – por vezes com humor ou ácida ironia – a sociedade exterior, nos seus fascínios e contradições – veja-se a longa sequência Fragmentos do Passado (2001), dedicada à memória histórica de Portugal – a Autora estabelece com o leitor um pacto de autenticidade que levará muitos a identificar-se, aqui ou além, com os seus anseios, as suas angústias, os seus sonhos ou simplesmente os seus desabafos. Nesse sentido, pode dizer-se que o essencial reside numa profunda interpelação acerca do sentido da nossa presença no mundo, não hesitando em olhar de frente as ocasiões de dolorosa angústia – sobretudo nos sonetos – , mas tentando sempre ultrapassá-la mediante a abertura a uma dimensão metafísica ou mesmo religiosa capaz de redimir o peso dos pecados humanos e o lastro de culpa que deixam na consciência de cada um de nós. Para esse efeito de transcendência avulta o poder particularmente redentor do amor, 7


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com a sua entrega absoluta e desinteressada, a sua dádiva a um outro ser em cujo eco reconhecemos, por vezes, uma verdade apta a desfazer os nós do absurdo e a redimir o sofrimento – veja-se, nesse aspecto, a lição de todo o livro A Minha Mão na Tua (2006), comovente despedida de alguém que se amou a vida inteira e cujas lembranças perduram a cada instante. Para concluir esta breve apresentação, acrescentaria que a escrita de Isabel Gouveia vive, assim, repartida entre a angústia da nossa condição humana – com as suas pequenas fraquezas e a noção da sua inexorável finitude – e, pelo contrário, o pressentimento de uma mensagem mais ampla e potencialmente redentora, escutada muitas vezes em voz baixa ou quase segredada. Estamos aqui perante uma promessa graças à qual se gera o amor – um amor no sentido mais nobre da palavra, um amor que  concede um sentido espiritual à nossa vida, como um perdão que a salvasse do nada. Trata-se, portanto, de deixar aos leitores o vibrante testemunho de uma vida absorvida na sua plenitude e cumprindo um destino que corresponde, afinal, ao de uma «história original» e irrepetível: «Mas assim... vive ao menos escondida, // aqui, dentro do peito, esta vanglória: / hei-de ter com certeza a minha história, / a história original da minha vida.» Fernando Pinto do Amaral

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INDÓMITA

Meu destino é errar pelos caminhos, como os mendigos erram, e os proscritos, e todos os que crêem nos seus mitos e são escorraçados dos seus ninhos. Não receio a cobiça dos vizinhos: meus bens são alguns remos e uns barquitos, com os quais corto rios interditos e recebo das águas mil carinhos... Tantos pombos amando nas arribas! Além, vejo um moinho e as suas mós. Não chegues mais, ó rio, à tua foz! Sou pirata do mar das Caraíbas, não temo as nuvens negras e os trovões, nem me domina o medo dos tufões!

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AQUELA VOZ

A voz que me assustou, tonitruante e flébil, como o eco duma prece (contraditório, eu sei, isto parece), a voz que vai no rio, água cantante que atravesso num fôlego, a jusante, muito perto da foz, do Fim que cresce, que cresce e se avoluma e só fenece quando o desânimo caminha avante, ah, essa voz, dolente e imperiosa, que aos meus sonhos arranca algum propósito e, leve como a bela mariposa, se poisa no meu cérebro compósito, que guia os incipientes passos meus, a quem pertence!? A este? Àquele? A Deus?

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ÂNSIA DE LIBERTAÇÂO

Fugir para bem longe, quem me dera! Ser livre como é o pensamento, que o arame farpado é o meu tormento, cilício do meu peito a longa espera! Ser pior que uma escrava de galera!... Mostrar o seio nu exposto ao vento!... Tirai-me da prisão que eu não aguento! Ah, o guarda cruel que me verbera! Deixai-me percorrer os campos loiros, dar caça como outrora aos meus besoiros, deixai-me ser veloz como a gazela, ser simples, tão ingénua como as flores, não ser a prisioneira de tais dores, mas livre como o fumo de uma vela!

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SOLIDÃO

A criança que eu era não sabia que os rios que se cruzam só no mar a solidão afogam a cantar... Se eu própria era a minha companhia! Mas hoje que já cheiro a maresia, a sargaços, a algas, sem achar aqueles que me propus, de início, amar, eu sinto-me qual náufrago sem guia. Ah! Sentar-me nas pedras da saudade e estender minhas mãos à caridade: – Senhor, Senhora, esmola, por amor! Se sou pobre e estou tão abandonada! Mas vós passais, olhais e não dais nada... – Senhor, Senhora, esmola, por favor!

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12. O poderoso vidente Sophros pretende experimentar os seus poderes e divulgá-los de forma inusitada: ele vai adivinhar os números vencedores do totoloto. Quem obedecer a cinco condições determinadas pode mandar-lhe o nome e a morada, para ele lhe transmitir o resultado da sua investigação paranormal… O poderoso vidente Sophros é um idealista, um visionário que despreza o dinheiro ganho no totoloto e o distribui a esmo pelos seus crentes e admiradores... A riqueza material é um desperdício nas mãos de Sophros. O poder mental é a sua única riqueza, aferrolhada num cofre à prova de roubo e adorada por homens de joelhos em terra e mãos em pala sobre os olhos, cegos pelo brilho incandescente que dimana do seu âmago misterioso!... 13. Ter emprego e movimentar-me em reduzidos horizontes, numa vida de burocrata extremamente competente, dava-me a sensação de que, por masoquismo, me havia voluntariamente enclausurado numa torre, num torreão de mosteiro medieval, de cujas janelas, como frestas, se avistavam montes escarpados, tibetanas agulhas ameaçando os céus. Mas agora que fugi, que rasei esses montes de helicóptero, com a sobranceria dos que não pensam na morte, numa queda vertiginosa das alturas, não me sinto mais livre: há milhentos cordelinhos que me ligam, qual marionete, à minha vida passada. Mas eu não sou fantoche, e a inutilidade dos meus movimentos constitui uma ameaça à minha saúde física e mental. 341


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Para me distrair oiço música clássica, leio os romances em voga – ”Memorial do Convento”, “Jangada de Pedra”7 –, enfeito a casa de camélias brancas e recordo a dama das camélias, enfermiça e pálida, nascida da imaginação de Alexandre Dumas (filho). Contrato pedreiros, ladrilhadores, pintores, canalizadores, para consertar a casa onde hei-de viver os últimos momentos duma vida ociosa e sem préstimo. Compro vestidos, camisolas, saias, blusas, batons, blushes, sombras, cremes de dia e de noite, ampolas de tratamento, vernizes, lacas, para revestir e tratar este corpo votado a uma vida enfadonha, para evitar que este corpo sucumba e se esvazie depressa, como um saco a que lentamente retirem o seu conteúdo. Ah! Mas o pior de tudo é chegar à janela e olhar o mundo que está para além da grade. Agora sim, sinto-me como uma prisioneira irremediavelmente perdida, no mundo enorme duma liberdade que não sei usar, porque nunca deixei de ser escrava, fiel ao meu trabalho, reduzida a limites tão escassos, que desconheço e temo tudo aquilo que se encontra para além das grades! 14. Decorre a Bienal Internacional de Óbidos. No Solar da Praça de Santa Maria há dezenas de obras de arte de cerâmica, esculturas e quadros de arrojada concepção, com um colorido e umas formas inimagináveis, franceses, moçambicanos, brasileiros, alemães, suecos, espanhóis, polacos, portugueses, australianos... Todos os continentes estão representados e comungam a mesma hóstia de beleza, 7 Romances da autoria de José Saramago.

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O mais célebre, Ultimato, põe o rei Carlos I pelas ruas da amargura. António José de Almeida, esse autor acutilante do trabalho mais brilhante, é preso pela censura. Há protestos pela rua. Cotiza-se o povo em massa pra comprar o Adamastor, que nos seus sonhos flutua como um belo cruzador de patriótica raça; entoa-se A Portuguesa, mais tarde o hino da grei; o grande Guerra Junqueiro publica o seu Finis Patriae, que faz da pátria um braseiro onde arde toda a fogaça em honra do nosso rei. Também na caricatura há artistas de mão-cheia, como o Bordalo Pinheiro, ou simplesmente O Bordalo, que faz dos próprios pincéis as armas sempre cruéis com que retrata essa aldeia, pequena, pobre, tristonha, da política com ronha, incompetente, imatura. 5. Pré-revolução Na década de noventa do século dezanove da história universal, é neste clima febril

que se vive em Portugal uma experiência viril de intentona militar para implantar a República. Acontece uma vez mais no campo de Santo Ovídeo da nortenha capital. Seu registo nos anais: mil oitocentos noventa e um, em Janeiro, a trinta e um. É apagado o braseiro e apaziguada a nação por ministros mais cordatos, escolhidos um a um. Há um regresso fugaz ao hábil rotativismo, mas é mero fogo-fátuo saído da sepultura da monarquia que jaz, sem o saber, nessa altura. A facção republicana começa a fazer-lhe frente e elege três deputados que valem por muita gente. Entre eles, o Afonso Costa é o terror do Parlamento, que lhe retira a palavra sempre que ataca, violento. E, a fim de reanimar a monarquia e pôr trava neste deboche verbal, estabelece-se a ditadura do ministro João Franco, que só a faz piorar.

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6. Regicídio Mas é uns anos depois, em mil novecentos e oito, que no Terreiro do Paço a carruagem real, com D. Carlos, rei garboso, a rainha e os seus dois infantes estremecidos, Luís Filipe e Manuel, vinda de Vila Viçosa em direcção ao Palácio, é atacada a granel por gente da Carbonária, por um homem perigoso, de nome Alfredo Costa, e por outro alto e forte a quem chamavam Buiça. O primeiro alveja o rei com dois tiros de revólver. Matando-o, morre também, e ainda na mesma liça: estava escrito nessa lei a que se chama destino. O Buiça, de carabina, com a turba em desatino, Dom Luís Filipe assassina, e a morte lhe sobrevém, porque os agentes da ordem não lhe concedem perdão. A rainha Dona Amélia está de cabeça perdida, num pesadelo brutal. Mas ainda é desferida sobre o infante Dom Manuel uma bala de raspão, e pra lhe salvar a vida 396

o coche, à desfilada, entre gente desvairada, previne, correndo célere, mais algum acto fatal. 7. Reinado de D. Manuel. Implantação da República O jovem Dom Manuel, horrorizado no dia do regícídio sangrento, quis deixar este país, mas acaba em juramento que o leva por outra via e faz dele rei infeliz. Bem cordato, moderado, põe de pé várias medidas propostas pelos partidos unidos na oposição, pois que sendo divididos não tinham aceitação. Mas não deixa de haver erros em que não pode ter mão. A facção republicana, nacionalista ferrenha, rejeita o iberismo, mas vê o colonialismo como a melhor solução. Anticlerical sem medo, propugna a liberdade para todo e qualquer credo. Por isso, ganha respeito e também um novo alento, mas isso não é bastante pra vencer no Parlamento. Só por formas violentas


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pode alcançar o poder, repudia as horas lentas em que esperar é morrer. Procura apoio integral em sociedades secretas, assim como a Carbonária, que alcança sempre os seus fins por via revolucionária: do panfleto violento até à morte sangrenta, ou outros meios afins. Apressa-se a Carbonária, nos quartéis, a incrementar um movimento exemplar. É na planta topográfica que o jornal republicano, intitulado O Século, ofertara aos assinantes que é traçado todo o plano da revolta na cidade, em pontos-chave de peso: o seu Quartel-General e mais o Quartel do Carmo, e ainda o próprio Palácio Real das Necessidades, onde o rei seria preso. É marcado o movimento prò dia quatro de Outubro. Um dos seus chefes civis, chamado Miguel Bombarda, trabalha em Rilhafoles, tratando loucos em barda. Um pouco antes da hora marcada para a função,

vem um deles por aí fora que o assassina, malvado, mas ele consegue salvar o mapa da operação ao peito aconchegado. Julgando-se ao princípio falhada a revolução, um dos seus chefes navais cai logo em depressão. É brioso marinheiro, é o Cândido dos Reis. Angustiado de mais, no esquecimento se afunda com um tiro bem certeiro. Que fraca premonição! A força que sublevada se concentra na Rotunda, sob a chefia avançada, feroz, revolucionária, do mestre da Carbonária, chamado Machado Santos, agrega mais elementos, civis e também soldados, que impedem os movimentos dos homens aquartelados, fiéis à casa real; e a armada sita no Tejo, sem embargo de o Almirante morrer de uma forma inglória, tem um papel importante no desenrolo da história. Apesar de os revoltosos cumprirem o seu desejo, saindo vitoriosos, 397


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o rei Manuel II ainda tem o ensejo de partir prà Ericeira, e daí para Inglaterra, que o abriga, humanitária. Foge assim à Carbonária e à situação afrontosa de ouvir o povo que entoa só laudes provocatórias, no dia cinco de Outubro de mil novecentos e dez, nessa manhã gloriosa em que se implanta a República, nos Paços do Município da cidade de Lisboa.10

10 OBRAS CONSULTADAS: “Dicionário Enciclopédico da História de Portugal”, Publicações Alfa (1990) GODINHO, Vitorino Magalhães, “Ensaios II”, Editora Sá da Costa (1978) “História de Portugal”, sob a direcção de José Hermano Saraiva, Publicações Alfa (1983) PERES, Damião, “História de Portugal”, Portucalense Editora, 1935 “Portugal Contemporâneo”, sob a direcção de António Reis, Publicações Alfa (1989) SARAIVA, José António, e HENRIQUES, Júlio,”O 28 de Maio e o Fim do Liberalismo”, Livraria Bertrand (1977) VIEIRA, Padre António, “Cartas”, Imprensa Nacional (1971) VIEIRA, Padre António, “Sermões”, Lello & Irmão, Editores (1951)

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DA HISTÓRIA /PERSONAGENS E FACTOS (O Passado era uma folha em branco, mas os humanos, ao prestarem atenção a eles próprios e também aos outros, ao ambiente e aos acidentes naturais, fizeram dessa folha literatura, ou pintura, a colorida tela que os encheu de glória, que não tem preço e que se chama HISTÓRIA)

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3 - BAGAGEM QUE EU LEVE

[Bagagem que eu leve, tão pobre e pesada, não serve a ninguém.]23 É trecho tão leve de música alada que nem o ouvido melhor o retém.

Vou-me perdendo aos poucos pela estrada e vou sofrendo os pontapés das gentes. Me deixam moribunda e desprezada, ao sabor dos mais tristes incidentes.

Se a bagagem é pobre, quem lhe liga importância? Mais a mais é pesada e não serve a ninguém.

Minha estrada é longa, passa em mil povoados, e a minha bagagem, tão pobre e pesada, tem dias contados, não serve a ninguém.

(Já me encontro ajoujada, tenho as costas em arco. Todos riem de mim, minha testa é um charco.)

Minha estrada é longa, passa em mil povoados, e a minha bagagem, tão pobre e pesada, tem dias contados. ……………………….. Provinciana de chita mal vestida, não encontro a cidade dos meus sonhos, no caminho ninguém me dá guarida, me alimento de figos e medronhos.

23 FREIRE, Natércia, Rio Infindável - “Provinciana”. Poema reproduzido na citada antologia, p. 62.

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DICIONÁRIO FUTURO

1. Palavras…Palavras…Palavras… Palavras contraditórias palavras emocionadas gritadas com muito fel palavras sopradas nos bastidores do tempo palavras jogadas numa roleta cruel… Palavras…Palavras…Palavras… 2. Palavras mal enroupadas, de sílabas enchapeladas ou letras acentuadas que as convenções desrespeitam, chamando para si mesmas olhares e atenções e flechas passando firmes, voando em fogo cruzado… Palavras mal cedilhadas, palavras tão sibilantes, trocando o s por z, conforme o executante que liga apenas ao som e agride a língua em que lê… 3. Palavras originais que nunca cumpriram regras e assumem vestes estranhas, que lutam por um lugar no dicionário da hora, 567


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e acabam por encontrá-lo quando já são muito idosas mas felizmente conservam essa frescura de outrora… 4. Palavras sempre rendidas aos exclusivos senhores das casas de alta costura que lhes fabricam as vestes… Tecidos, cores e tons, último grito da moda, bem podem ser rejeitados se um dia desanda a roda. 5. Palavras tão inocentes em luta por um lugar no léxico nacional que só o povo promove… Hão-de fazer reprovar alguns meninos de escola que as estampam nas paredes e as abrigam quando chove na quentura da sacola. 6. Palavras perfeitas simétricas geometricamente puras melodiosas dando as mãos numa dança sublime equivalentes na altura dos sons pausadas fluentes correndo correndo num leito sem pedras 568


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em busca da sua foz… Aí se lançam num mar imenso, aí se perdem umas das outras. Sem descobrirem o seu mistério soltam perfume como de incenso.

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ÍNDICE

Palavras Ocas...................................... 43 Maldita Seja a Hora............................ 44 PREFÁCIO Enferma............................................. 45 Angústia e Redenção............................ 7 Vazio.................................................. 46 Sonho................................................. 47 1ª PARTE Regresso ao Passado............................ 48 ATRÁS DO TEMPO (1950-1962)... 11 Indómita............................................ 13 Aquela Voz......................................... 15 Ânsia de Libertação............................ 16 Solidão............................................... 17 Orgulho............................................. 18 Multidões........................................... 19 Fraternidade....................................... 20 Loucura.............................................. 21 Alucinação......................................... 22 Mais Pobre do que Job....................... 23 Prece.................................................. 24 Paradoxo............................................ 25 Calvário............................................. 26 Reflexões Durante uma Tourada......... 27 Catedral de Estilo Gótico................... 28 Terça-Feira de Entrudo....................... 29 Angústia............................................. 30 Soterrados.......................................... 31 Mocidade Perdida............................... 32 Cigano............................................... 33 Diário duma Mulher.......................... 34 Perspectiva de Encontro Fora do Espaço........................................... 35 Carta.................................................. 36 Perspectiva Errada.............................. 37 Êxtase................................................. 38 A Minha Filha.................................... 39 A Meu Filho....................................... 40 Boneca............................................... 41 Aos Meus Poetas................................. 42 570

OS SETE DIAS PASSADOS (Publicado em 1965)......................... 49 E Nada me Satisfez............................. 51 Incoerência......................................... 52 Diatribe.............................................. 53 Calmaria............................................ 54 Mentir-me não Adianta...................... 55 Sem Rumo Pensado............................ 56 O Bem e o Mal.................................. 57 À Mesa de Trabalho............................ 62 Tinta de Ódio Tenho a Lança............. 64 Culpabilidade..................................... 65 Em Cada Dia que Passa...................... 67 Escravidão.......................................... 68 Não Sou Deificada............................. 69 Alcemos a Ponte dos Dias Serenos...... 70 Atrás do Sossego da Conformação...... 71 Este Mundo de Magia........................ 72 Eu já Não Sinto a Vida....................... 73 Sou como um Pássaro Mudo.............. 74 Presente, Passado e Futuro.................. 75 Cofre Misterioso................................ 76 Seus Olhos Fuzilavam de Cólera......... 77 Se Eu Pudesse Encontrar-me.............. 78 Milagre de Corpo Aumentado............ 79 Ouvi-nos, Senhor!.............................. 80 Vida de Membros Partidos................. 81 Navego Sozinha.................................. 82 No Cimo de Mil Cerros..................... 83 Desencanto........................................ 84


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INCÓMODA VERDADE (Publicado em 1972)......................... 85 A Vós…............................................. 86 A Vergonha........................................ 87 Contenção.......................................... 88 Um Senhor Formalizado.................... 89 Labirinto............................................ 90 Os de Cima........................................ 91 Redenção............................................ 92 Pigmeus Feitos Gigantes..................... 93 Gigantes Ridículos............................. 94 Desterro............................................. 95 Corcéis Brancos.................................. 96 Frustração.......................................... 98 Apontamento..................................... 99 A Gente era Toda Igual..................... 100 O Incêndio de Cinq-Sept................. 101 Consumatum Est............................. 102 O Corso........................................... 103 Os de Corpo Inteiro......................... 105 Voo Branco...................................... 106 Erro Subjectivo................................. 107 Julgamento Parcial............................ 108 O Homem Só.................................. 109 Rude Monte..................................... 110 Retrocesso Formal............................ 111 A Maca de Hospício......................... 112 Palhaço e Palhaços............................ 113 TANGENTES E CONSEQUENTES (Publicado em 1977)....................... 115 Auto-Retrato.................................... 117 Repúdio........................................... 118 Interrupta......................................... 119 Desencontro..................................... 120 O Vencedor Vencido........................ 121 Sáfaro Terreno.................................. 122 O Gesto........................................... 123

Aquelas Mãos................................... 124 Duplicidade..................................... 125 Baila, Baila, Dançarina Incauta......... 126 Homenagem.................................... 127 O Palhaço Só tem Alma................... 128 Choque Intenso................................ 129 Abominação..................................... 130 A Reunião........................................ 131 Encontro Casual............................... 132 Circuito Fechado.............................. 133 Vala Profunda................................... 134 Psicanalítico..................................... 135 Ovelha Tresmalhada......................... 136 Pressentimento................................. 137 Desmaio........................................... 138 Luta Intestina................................... 139 Palhaço............................................. 140 Peça de Maquinismo........................ 141 As Duas Pombas............................... 142 A Domadora de Tigres..................... 143 O Porsche......................................... 144 Estase............................................... 145 Simetria............................................ 146 Mulher............................................. 147 Indefinido........................................ 148 SONETOS IMPERFEITOS SOBRE A NOITE, O SOL, O MAR E A PAISAGEM (1950-1965)......... 151 Soneto Panteísta n.º 1...................... 152 Soneto Panteísta n.º 2...................... 154 Paz de Galhos Secos.......................... 155 Soneto Panteísta n.º 3...................... 156 A Cruz Jacente................................. 157 A Última Cartada............................. 158 Insónia............................................. 159 O Banjo e Eu................................... 160 O Egocentrista................................. 161 571


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O Castelo de Areia........................... 162 Memorando..................................... 163 Rosas Encarnadas............................. 164 A Criança e A Lua Cheia.................. 165 SONETOS SOBRE A ANGÚSTIA (1950-1965).................................... 167 1.Foragida da Sorte.......................... 169 2.Sinto as Horas............................... 170 3.Donde Vem?.................................. 171 4.Ruíram as Esperanças.................... 172 5.Gostaria de Ler.............................. 173 6.Perdi-me na Floresta...................... 174 7.Não Sei......................................... 175 8.Caminhamos Ligeiros.................... 176 9.Nada Há....................................... 177 10.Ilusões que Morreram.................. 178 11.Sinto as Trevas............................. 179 12.Em Manhãs................................. 180 13.Passaste à Minha Porta................ 181 14.Tenho Saudades........................... 182 15.Os meus Dedos........................... 183 16.Só de Mim Falo........................... 184 17.Eis a Ré....................................... 185 18.Do que Pensava........................... 186 19.A Vida que Vivemos.................... 187 20.Teu Rosto está mais Pálido.......... 188 21.Frequentemente eu Sinto............. 189 22.O Menino de Falas Estudadas..... 190 23.Que é Feito dessa Glória.............. 191 24.Estou Morta de Cansaço............. 192 25.Toada da Morte........................... 193 26.Faz-me Pena…............................ 194 27.Todos Pensam de Mim................ 195 28.As Figuras Geométricas Traçadas. 196 POEMAS VÁRIOS (1950-1975).................................... 197 572

1.Quem tem a Pretensão de Ser Poeta...................................... 199 2. Retrospectivo............................... 200 3. O Intruso..................................... 201 4. Pessimismo................................... 202 5. Recordação................................... 203 6. Liberdade..................................... 204 7. Doação......................................... 205 8. Cobardia...................................... 206 9. O Insulto..................................... 207 10.Falsos Amigos.............................. 208 11. Do “romance neo-realista” da Quinta de Ribeiroa...................... 209 1. – Senhor Regedor......................... 209 2. – Encomenda............................... 211 12. A Palavra Retida......................... 212 13. Veneno que Mata....................... 213 14. No Palco.................................... 214 15. Prolixidade................................. 216 16. A Minha Vida............................ 217 17. Rastilho...................................... 218 18. Misantropia................................ 219 19. Inquietação................................ 220 20. Letargia...................................... 221 21. Saudade . ................................... 222 22. A Teia de Esperança.................... 223 23. O Baile....................................... 224 24. Penetrabilidade........................... 225 25. Navegação.................................. 226 26. Onde Está a Verdade.................. 227 27. Pobres Filhos de Lisa.................. 229 28. Hora Trocada............................. 230 29. Força Motriz.............................. 231 30. O Poeta Desprezado................... 232 31. O Cego...................................... 233 32. Inadaptação................................ 234 33. Inventário do Tempo Perdido..... 235 34. O Senhor Inspector.................... 236


Na Voz Da Esperança Há Lágrimas

35. Isolada(mente)............................ 237 36. Passeio........................................ 238 37. Não sou Uma, mas Três.............. 239 38. Reclusão..................................... 240 39. Purificação-Inspiração................ 241 40. Sombra Apagada........................ 242 41. Triste Destino............................. 243 42. A Um Poeta Mal-Amado............ 244 43. Carta em Branco........................ 245 44. Farsantes.................................... 246 45. Lenço Brando das Ondas............ 247 46. Remorsos?.................................. 248 47. Os Homens Distraídos............... 249 48. Miragem de Poeta...................... 250 49. Confissão................................... 251 50. O Carrossel Algarvio.................. 252 51. Sigo em Frente........................... 253 52. A Pequena Telepata.................... 254 53. Amor Amoris - I (1. a 10.).......... 255 54. Amor Amoris – II (1. a 3.)......... 256 55 Prisioneira.................................. 257 56. “Pecadora”.................................. 258 57. Femina/Versus/Homo................ 259 58. Eva Integral................................ 267 POEMAS VÁRIOS (1975-1990).................................... 269 1. Solidão......................................... 270 2. A Importância de Esperar............. 271 3. Poema Neutro.............................. 272 4. Cada Boca, Sua Língua................. 273 5. Medo da Vida.............................. 275 6. Apontamento............................... 276 7. Palhaço......................................... 277 8. A Planta Abandonada................... 278 9. O Bosque..................................... 279 10. A Manada.................................. 280 11. Teatro de Fantoches.................... 281

12.Encontro a Sós............................ 282 13. Persona non Grata...................... 283 14. Metafísico Sinal.......................... 284 15. Epitáfio Justo.............................. 285 16. Introversão................................. 286 17. Mensagem.................................. 287 18. Rotina Matinal........................... 288 19. Espelho Cruel............................. 289 20. Planeta Secundário..................... 290 21. A Papoila Sangrenta.................... 292 22 Jogos Mortais.............................. 293 23. Platonismo................................. 294 24.A Outra Metade.......................... 295 (APÊNDICE) POEMAS DA ADOLESCÊNCIA (1947-1949).................................... 297 Explicação Prévia.............................. 299 A Expressão do Tempo ou a Poesia Situada............................ 300 Após a Discórdia o Acordo............... 302 Outono............................................ 303 Fado................................................. 304 Quando eu For Velha....................... 305 Sátira................................................ 306 Insatisfação....................................... 307 Paixão.............................................. 308 Morrer para Viver............................. 309 Apelo................................................ 310 Como te Adoro................................ 311 Dedicação........................................ 312 Por que não me escreves?.................. 313 Poema.............................................. 314 A Montra de Brinquedos.................. 315 Dolorosa.......................................... 316 História Original da Minha Vida...... 317 Não te Lembras?............................... 318 Crítica.............................................. 319 573


Isabel Gouveia

Mulher Vulgar.................................. 320 A Uma Mulher Ignorada.................. 321 Onde Posso Encontrar-Te?............... 322 Meus Olhos Lentamente.................. 323 Mãe-Coragem.................................. 324 Olhar Misterioso.............................. 325 Indiferença....................................... 326 Comunhão....................................... 327 2ª PARTE APONTAMENTOS EM VERSO 1985-1995 (1. a 27.)........................ 331 FRAGMENTOS DO PASSADO (Publicado em 2001)....................... 351 1. Fundação da Nacionalidade.......... 352 2. Conservação da Independência..... 356 3. Descobrimentos........................... 361 4. Perda da Independência e Restauração.................................... 370 5. Padre António Vieira.................... 377 6. Do Liberalismo............................ 380 7. Da Regeneração à Implantação da República.................................... 391

A Viagem Necessária........................ 413 A Condição Humana....................... 414 O Reverso do Amor......................... 415 Amigos Dúbios................................ 416 Todo Aquele..................................... 417 Elogio do Percurso Breve.................. 418 A Sorte “Cuspida”............................ 419 No Rio dos Meus Enganos............... 420 O Implacável Tempo........................ 422 Fotografia Antiga.............................. 423 Na Praia da Nazaré........................... 424 O Rosto do Medo............................ 425 Pégaso de Asas Cortadas................... 426 Memória.......................................... 427 A Molécula de Génio....................... 428 Alma Gémea.................................... 429 Contrastes........................................ 430 A Criação Poética............................. 432 A Verdade das Coisas........................ 433 Ela…................................................ 434 Recordações..................................... 435 Trilogia da Gaveta de Segredos......... 436 O Chorume das Primeiras Águas...... 438 DA HISTÓRIA /PERSONAGENS E FACTOS....................................... 439 A CesárioVerde................................. 440 A José Régio..................................... 442 A Fernando Pessoa............................ 444 A Teixeira de Pascoaes....................... 445 A Pablo Neruda................................ 446 A Miguel Torga................................ 448 Em Memória de Virgínia Woolf....... 449 Planeta Terra.................................... 450 Segunda Guerra Mundial................. 454

ESCUTA O CORAÇÃO DO MUNDO (Publicado em 2005)....................... 399 DO SER HUMANO........................ 400 Os Homens Sábios........................... 401 Terra Prometida................................ 402 1. Ter ou não Ter é a Questão........... 404 2.Ter ou não ter é a Questão............. 405 Corpos Voláteis................................ 406 Mulher............................................. 407 O Pântano da Vida........................... 409 A MINHA MÃO NA TUA As “Janeiras”..................................... 410 (Publicado em 2006) (1. a 52.)........ 467 A Asa Partida.................................... 412 574


Na Voz Da Esperança Há Lágrimas

POEMAS DATADOS E EXTRAÍDOS DO DIÁRIO “PONTE LEVADIÇA” III VOL (Publicado em 2007)....................... 503 Émulos Frustrados............................ 505 Se Esquiva Passo ao Largo................ 506 Máscaras Diferentes.......................... 507 Mil Anos que Vivesse em Solidão..... 508 Deserto sem Fim.............................. 509 Satyrica............................................ 510 1. O famoso Adufe........................... 510 2. A Batuta de Aço........................... 510 3. Pontos e Vírgulas.......................... 511 4. O Rei Vai Nu............................... 511 5. Caiu o Ministro............................ 512 6.Concurso de Primeiros-Ministros.. 513 7. Cultura de Gosto Formatado........ 514 Bichos Selvagens............................... 515 Amor Eterno.................................... 516 Abelha Persistente............................. 517 O Zénite de Angústia....................... 518 Guerreiros Iníquos........................... 519 Prenda de Aniversário....................... 520 Dúvida Metódica............................. 521 Coração de Pedra.............................. 522 Conversas com o Além..................... 523 Minha Árvore................................... 524 Biografia dos Humildes.................... 526 Vale de Lágrimas.............................. 527 Natascha kampusch.......................... 528 Romper o ciclo................................. 529 CALEIDOSCÓPIO (POEMÁRIO) (inéditos, com raras excepções)........ 531 Sempre te Busquei . ......................... 532 Aquele Dom..................................... 533 Pseudo-Idealistas.............................. 534 Fase Lunar........................................ 535

Sequência de Rostos......................... 536 Persona com Vários Rostos............... 537 Porta Estreita.................................... 538 Vãs Filosofias.................................... 539 Evocação.......................................... 540 O Enigma........................................ 541 Salão Monteiro................................. 542 O Medo era o Papão......................... 543 O Eixo Imaginário........................... 544 Fantasia............................................ 545 Suicídio Duplo................................. 546 Matas Desbravadas........................... 547 Complexidade Humana................... 548 Poesia-Paixão.................................... 549 Concisão, Palavras Poucas................. 550 Repto Falhado.................................. 551 Os Incêndios.................................... 552 O Mel Engodo do Mal..................... 554 O Sentido da Vida – I...................... 555 O Sentido da Vida – II..................... 556 Noivas de Santo António.................. 557 Novas Sete Maravilhas...................... 558 Contemplando o Mosteiro............... 559 Prisioneiros sem norte...................... 560 Canto Póstumo................................ 561 Os Meus Fantasmas.......................... 562 MOTES IMPERFEITOS.................. 563 1. Canção Roubada às Estrelas.......... 563 2. Santa Teresa.................................. 564 3. Bagagem que eu Leve................... 566 DICIONÁRIO FUTURO................. 567 1. Palavras…Palavras…Palavras….... 567 2.Palavras Mal enroupadas................ 567 3. Palavras Originais......................... 567 4. Palavras Sempre Rendidas............. 568 5. Palavras Tão Inocentes.................. 568 6. Palavras Perfeitas.......................... 568

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