Medir para transformar: o custo da violência contra as mulheres na Ibero-América



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Medir para transformar:
o custo da violência contra as mulheres na Ibero-América
© SEGIB, IIPEVCM [2026]
Todos os direitos reservados.
Esta publicação é uma iniciativa da Secretaria-Geral Ibero-Americana (SEGIB), a Iniciativa Ibero-Americana para Prevenir e Eliminar a Violência contra as Mulheres (IIPEVCM), o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e o Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe (CAF).
Autoria:
Celina Santellán, Economista especialista em gênero.
Coordenação e revisões de:
• Divisão de Gênero da SEGIB
• Unidade Técnica da IIPEVCM
• Gerência de Gênero, Inclusão e Diversidade da CAF
• Escritório para América Latina e o Caribe do UNFPA
Publicação financiada pela Agencia Española de Cooperación Internacional para el Desarrollo (AECID)

BID: Banco Interamericano de Desenvolvimento.
CABA: Cidade Autônoma de Buenos Aires.
CAF: Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe.
CEPAL: Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe.
CONAVIM: Comissão Nacional para Prevenir e Erradicar a Violência contra as Mulheres (México).
DHS: Demographic and Health Surveys.
ENDES: Encuesta Demográfica y de Salud Familiar (Perú) (Pesquisa Demográfica e de Saúde Familiar.
ENDIREH: Encuesta Nacional sobre la Dinámica de las Relaciones en los Hogares (México) (Pesquisa Nacional sobre a Dinâmica das Relações Familiares).
ENIA: Plan Nacional de Prevención del Embarazo no Intencional en la Adolescencia (Plano Nacional de Prevenção da Gravidez Não Intencional na Adolescência).
ENVIGMU: Encuesta Nacional sobre Relaciones Familiares y Violencia de Género contra las Mujeres (Equador) (Pesquisa Nacional de Relações Familiares e Violência de Gênero contra as Mulheres).
ESI: Educação Sexual Integral.
GIZ: Cooperação Alemã para o Desenvolvimento (Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit).
DALY: Anos de Vida Ajustados por Deficiência.
IIPEVCM: Iniciativa Ibero-Americana para Prevenir e Eliminar a Violência contra as Mulheres.
IMSS: Instituto Mexicano do Seguro Social.
INEC: Instituto Nacional de Estatística e Censos (Equador).
NHS: National Health Service (Serviço Nacional de Saúde).
MCO: Mínimos Quadrados Ordinários.
OIT: Organização Internacional do Trabalho.
OMS/OPS: Organização Mundial da Saúde / Organização Pan-Americana da Saúde.
PIB: Produto Interno Bruto.
PNUD: Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.
PSM: Propensity Score Matching (Pareamento por Escore de Propensão).
QALY: Anos de Vida Ajustados por Qualidade.
SEGIB: Secretaria-Geral Ibero-Americana.
UNFPA: Fundo de População das Nações Unidas.
VAN: Valor Actual Neto (Valor Atual Líquido).
VBG: Violência Baseada no Gênero.
VCM: Violência contra as Mulheres.
VCMPE: Violencia contra las Mujeres Ejercida por Parejas o Exparejas (Violência contra a Mulher praticada pelo Parceiro Íntimo ou Ex-parceiro).
VSfp: Violencia Sexual fuera de la Pareja (Violência Sexual fora da Relação de Casal).
• A violência contra as mulheres (VCM) representa não apenas uma grave violação dos direitos humanos, mas também um impacto econômico significativo, estimado em até 5% do PIB em alguns países da região.
• O objetivo central deste relatório é fortalecer as capacidades técnicas das instituições iberoamericanas por meio da análise de 21 estudos de países como AArgentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Espanha, México, Panamá, Paraguai, Peru, Portugal, Uruguai, além de propostas regionais, para facilitar a formulação de políticas públicas baseadas em evidências.
• A análise se sustenta em três pilares transversais:
- Abordagem de direitos humanos: reconhece a violência como uma violação cujos custos são uma expressão quantificável.
- Perspectiva de economia feminista: torna visível os custos diretos, indiretos e intangíveis, incluindo o trabalho de cuidados não remunerado.
- Abordagem interseccional e de curso de vida: reconhece que os impactos variam de acordo com a idade, etnia, classe e outras condições de opressão interligadas.
• Identificam-se quatro estratégias metodológicas principais:
- Método Contábil (Predominante): modelo aditivo que soma custos diretos (despesas com saúde, justiça) e indiretos (lucro cessante por perda de produtividade). É avaliado por sua acessibilidade, embora tenda a ser subestimado.
- Modelo Causal Multinível: uma abordagem sistêmica que soma as perdas em quatro níveis (individual, familiar, comunitário e estatal) e utiliza a lógica causal para demonstrar como a violência reduz capacidades.
- Técnicas Econométricas: utilizam regressões (MCO, PSM, Probit) para isolar o impacto específico da violência sobre variáveis como renda ou saúde, comparando sobreviventes com grupos de controle.
- Análise Input-Output: mede o impacto macroeconômico e como as perdas de renda se propagam pela estrutura econômica do país.
Entre 87% e 95%
dos casos de VCM não chegam aos registros oficiais
• As mulheres e suas famílias assumem o maior ônus econômico, estimado entre 44% e 50% dos custos totais por país para os casos desagregados, devido a despesas do próprio bolso e perda de rendas pessoais. O Estado é o ator que, proporcionalmente, absorve menos custos (11-13%).
• Embora a violência física e a sexual sejam incluídas universalmente, a violência econômica é a dimensão com menor cobertura metodológica.
• Alguns estudos incorporam impactos na saúde e na escolaridade dos filhos (como reprovação escolar e descapitalização de cuidados).
• Subregistro Crítico: estima-se que entre 87% e 95% dos casos não cheguem aos registros oficiais, o que constitui o maior desafio em termos de precisão.
• Nenhum estudo incorpora a análise interseccional (por condição migratória, deficiência ou etnia) em seus resultados finais.
• Predomina a perspectiva anual, o que impede capturar os custos acumulados da violência crônica.
• Recomendações:
- Mapear os dados antes de escolher uma metodologia para assegurar sua viabilidade.
- Tratar o subregistro como uma variável por meio da construção de cenários ou intervalos de estimativa.
- Incorporar a perda de produtividade dos agressores e o impacto do “presentismo” (menor rendimento no trabalho) no cálculo dos custos empresariais.
- Adotar uma visão de longo prazo que inclua custos intergeracionais.
- Promover a transparência publicando procedimentos, pressupostos e microdados em repositórios de acesso aberto para permitir a replicabilidade regional.
A violência contra as mulheres (VCM) representa um custo econômico que chega a atingir 5% do PIB em alguns países da América Latina e do Caribe (Vara-Horna, 2013a), além de constituir uma grave violação dos direitos humanos. Tambem, persistem desafios estruturais na região: subregistro de casos, fragmentação de dados, escassa comparabilidade metodológica e vinculação limitada entre os exercícios de custeio e o planejamento orçamentário.
Esta documento tem como objetivo central fortalecer as capacidades técnicas das instituições ibero-americanas por meio da sistematização das metodologias existentes para o custeio da VCM no âmbito doméstico1. Os produtos esperados servirão como insumos para: a incidência política e a sensibilização; a formulação de políticas baseadas em evidências; a análise de viabilidade e possibilidades de padronização metodológica; a formulação de critérios de qualidade e recomendações para as ferramentas existentes; e a difusão das lições aprendidas dos processos de custeio desenvolvidos na região.
Este trabalho é desenvolvido no âmbito da Iniciativa Ibero-Americana para Prevenir e Eliminar a Violência contra as Mulheres (IIPEVCM) e é promovido em conjunto com a Secretaria-Geral Ibero-Americana (SEGIB), o Banco de Desenvolvimento da América Latina
e do Caribe (CAF) e o Escritório Regional para a América Latina e o Caribe do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), por meio de uma estreita articulação técnica e de uma visão regional orientada a identificar experiências replicáveis e adaptáveis a diferentes contextos nacionais.
O relatório está organizado em sete seções. Após esta introdução, a seção 3 apresenta a nota conceitual, que explicita os critérios de pesquisa e seleção de estudos, o sistema de avaliação de qualidade, a classificação de abordagens e o tratamento da análise interseccional.
A seção 4 oferece um panorama do mapeamento: a caracterização do corpus em termos de distribuição geográfica, temporal, por ator que assume os custos, por abordagem metodológica e por tipos de custos incluídos, apoiada em tabelas descritivas. A seção 5 desenvolve a avaliação comparativa de metodologias, que constitui o núcleo analítico do relatório: organizada pelos quatro critérios de avaliação (precisão, aplicabilidade, replicabilidade e desagregação), analisa os padrões que emergem do corpus com casos ilustrativos para cada dimensão. A seção 6 apresenta as conclusões e sintetiza as descobertas centrais. A seção 7 propõe recomendações destinadas às equipes técnicas que desenvolvam futuros estudos de custeio na região, com especial atenção aos contextos com menor disponibilidade de dados e capacidade institucional.
pode alcançar o custo econômico da violência contra as mulheres em alguns países da América Latina e do Caribe.
1. O conceito de violência doméstica refere-se à violência entre membros do lar, da família ou entre parceiros atuais ou antigos, podendo afetar tanto mulheres quanto homens. Neste estudo, o foco está posto especificamente na violência contra as mulheres praticada por um parceiro atual ou anterior. Não obstante, dado o estado da arte na região, também são incluídas algumas metodologias que abordam conceitos um pouco mais amplos, como a violência contra as mulheres em um sentido mais geral. Para uma sistematização completa das definições operacionais utilizadas na literatura especializada, consulte Mañas Alcón, E. y Gallo Rivera, M. T. (dirs.) (2024).
A presente consultoria se insere em três abordagens que permeiam todas as etapas do trabalho.
• A abordagem dos direitos humanos, que reconhece a violência contra as mulheres como uma violação dos direitos fundamentais, cujos custos econômicos constituem uma expressão quantificável dessa violação.
• A perspectiva da economia feminista, que dá visibilidade aos custos diretos, indiretos e intangíveis, incluindo o trabalho não remunerado de cuidados.
• A abordagem interseccional, que reconhece que os impactos econômicos da VCM não são homogêneos, mas variam de acordo com a combinação de diferentes eixos de discriminação e privilégio. Como destaca Viveros (2023), essa abordagem considera as situações e experiências específicas geradas pelas interações entre diferentes sistemas de opressão, partindo do princípio de que eixos como raça, gênero e a classe, embora possam ser percebidos como dimensões separadas da estrutura social, são experimentados de forma simultânea e interligada na vida das pessoas.
Incorpora-se também a abordagem do curso de vida, que reconhece que os impactos econômicos da VCM variam de acordo com o momento vital das mulheres afetadas. As consequências econômicas da violência não são equivalentes para uma adolescente, uma mulher em idade reprodutiva ou uma mulher idosa. Elas diferem em termos de custos de saúde, perda de renda futura, impacto nas trajetórias educacionais e profissionais, e dependência de redes de cuidados. Essa abordagem é operacionalizada com base na análise interseccional, quando identificamos que a idade se traduz em um marcador de discriminação.
Esses pilares não funcionam como seções separadas da análise, mas como critérios transversais que se aplicam de forma consistente em cada etapa: na seleção de estudos, na elaboração das fichas técnicas, na análise comparativa e na formulação de recomendações.
A presente sistematização tem como objetivo fortalecer as capacidades técnicas das instituições ibero-americanas responsáveis pelas políticas públicas de igualdade e de resposta à violência baseada no gênero. Para isso, são analisadas comparativamente as metodologias de custeio da violência contra as mulheres praticada por seus parceiros íntimos ou ex-parceiros, ou no âmbito doméstico, com o objetivo de gerar produtos que facilitem sua aplicação na formulação, orçamentação e sustentabilidade das políticas públicas na região.
A sistematização não procura estabelecer uma metodologia “correta” nem hierarquizar as abordagens existentes, mas sim identificar suas lógicas metodológicas, pontos fortes, pressupostos, alcances e limitações, de maneira que as equipes técnicas de cada país possam selecionar, adaptar ou combinar abordagens de acordo com seus contextos institucionais e com a disponibilidade de dados.
No que diz respeito aos critérios de inclusão, são incluídos na sistematização os estudos que atendem a todos os critérios abaixo:
• O estudo identifica explicitamente o parceiro ou exparceiro como agressor, ou delimita o âmbito como doméstico ou intrafamiliar, ou estima os custos da violência contra as mulheres em sentido mais amplo, com componentes metodológicos adaptáveis a esse âmbito.
• O estudo foi publicado a partir do ano 2000.
• O estudo estima custos econômicos quantificáveis e não se limita a descrever consequências ou impactos qualitativos.
• O estudo explicita uma metodologia identificável e avaliável.
• O documento completo está disponível on-line para sua análise.
A presente sistematização tem como objeto identificar os pontos fortes e as limitações metodológicas para adaptar as abordagens a cada contexto e disponibilidade de dados.
Quanto aos atores que absorvem os custos considerados, são incluídos estudos que estimam custos em pelo menos um dos seguintes:
• Custos para o Estado: desembolsos nos setores de saúde, justiça, segurança e serviços sociais decorrentes da assistência, perseguição penal e reparação da violência.
• Custos para as sobreviventes: renda perdida, despesas do próprio bolso, impacto patrimonial e outros custos tangíveis e intangíveis que recaem diretamente sobre as mulheres afetadas.
• Custos para as famílias: custos produzidos pela insegurança alimentar, impactos intergeracionais e perdas de renda familiar causadas pela violência.
• Custos para a sociedade: perda de produtividade agregada, carga sobre as redes de cuidado e impacto no bem-estar coletivo. Impactos sobre as empresas, microempresas e empreendimentos (incluindo absentismo, rotatividade e perda de produtividade no tecido produtivo) e custos da sororidade, entendidos como os recursos mobilizados pelas redes comunitárias de apoio entre mulheres para sustentar aquelas que passam por situações de violência.
Por sua vez, a identificação de estudos combinou estratégias sistemáticas e exploratórias em quatro etapas sucessivas.
A primeira etapa consistiu em pesquisas em bancos de dados acadêmicos (JSTOR, SciELO, EBSCO e Google Scholar) por meio de strings (equações de busca) predefinidas e pesquisas exploratórias por país, autor e tema. As strings combinaram termos relativos ao objeto de estudo (violência doméstica, violência por parceiro íntimo, violência contra as mulheres), à abordagem analítica (custo econômico, custeio, impacto econômico) e ao âmbito geográfico ibero-americano. As pesquisas
foram realizadas em espanhol e inglês. O detalhamento das strings utilizadas está incluído no Anexo 1.
A segunda etapa, e a mais produtiva para mapear a produção ibero-americana, foi o rastreamento sistemático de referências bibliográficas (snowballing): a partir de um corpus inicial de estudos identificados, foram rastreadas exaustivamente as citações de cada trabalho, gerando cadeias sucessivas de identificação. Essa estratégia foi especialmente relevante, uma vez que uma parte significativa da produção regional não é facilmente recuperável em bases de dados acadêmicas internacionais.
A terceira etapa consistiu na revisão exploratória dos repositórios dos principais organismos com produção relevante na matéria: CAF, BID, CEPAL, UNFPA, ONU Mulheres, Banco Mundial, OIT e OMS/OPS, bem como páginas web de ministérios e institutos nacionais de estatística de países ibero-americanos.
A quarta etapa consistiu na consulta direta às instituições promotoras desta publicação: SEGIB, IIPEVCM, UNFPA e CAF. Cada uma delas contribuiu para o levantamento com estudos de seu conhecimento ou que foram promovidos no âmbito de seu mandato institucional, os quais nem sempre são recuperáveis por meio de pesquisas em bases de dados acadêmicas ou repositórios públicos. Essa via de identificação revelou-se especialmente relevante para incluir estudos recentes ou em processo de publicação.
Todos os registros identificados foram inseridos em uma base de dados do projeto para sua avaliação de acordo com os critérios de inclusão definidos na seção anterior.
Propõe-se classificar as metodologias identificadas de acordo com sete dimensões analíticas independentes, orientadoras e não excludentes. As três primeiras, principais, e as quatro seguintes, secundárias. Essa classificação multidimensional permite comparar estudos que podem coincidir em uma dimensão, mas diferir em outras, e facilita a identificação de combinações frequentes ou ausentes na região.
1. Estratégia predominante de estimativa
Identifica o mecanismo técnico central pelo qual os custos são calculados. Distinguem-se quatro abordagens:
• O modelo de custeio por componentes ou método contábil, que estima o custo de cada serviço ou recurso associado à VCM de forma separada e os agrega.
• O modelo causal multinível, que adota uma abordagem sistêmica, analisa o impacto da violência a partir da sobrevivente para outros sistemas: individual, familiar, comunitário e estatal. Além disso, utiliza a causalidade para demonstrar que a VCM é uma variável independente que diminui as capacidades (de cuidado e produtivas) e os recursos (saúde, tempo e dinheiro) da sociedade. Por fim, define o “Custo-País” como a soma dos custos nos quatro níveis analisados.
• A regressão econométrica, que isola o impacto causal da violência sobre variáveis de resultado como produtividade, renda ou emprego.
• A análise macroeconômica input-output, que estima o impacto sobre o produto ou o crescimento utilizando matrizes de insumo-produto.
2. Ator que absorve os custos
Identifica sobre quem recaem os custos estimados. Essa dimensão é relevante porque diferentes metodologias privilegiam a perspectiva de um ator em detrimento de outros, o que produz estimativas parciais que nem sempre são comparáveis entre si. Distinguem-se três categorias:
• Custos absorvidos pelas sobreviventes e suas famílias: despesas do próprio bolso (saúde/justiça) e custo-oportunidade por renda e tempo perdidos.
• Custos absorvidos pelo Estado por meio de serviços públicos de saúde, justiça e proteção: gastos diretos com serviços públicos e perda de receita fiscal (impostos não arrecadados devido à baixa produtividade).
• Custos absorvidos pela sociedade:
- Setor Empresarial (Médias e Grandes Empresas): perda de valor agregado por ineficiência operacional das sobreviventes, agressores e testemunhas (perda de produtividade no trabalho).
- Microempresas e Empreendimentos: perda de vendas e freio ao desenvolvimento de negócios liderados por mulheres.
- Rede Social Comunitária: custos de solidariedade ou sororidade. Essas redes podem ser informais (apoio em tempo e dinheiro), articuladas por vínculos pessoais, ou formais, por meio de organizações da sociedade civil que financiam serviços de abrigo, assessoria legal e acompanhamento que o sistema público não consegue oferecer.
3. Alcance territorial
Identifica o nível de agregação geográfica do estudo. Essa dimensão é especialmente relevante para avaliar a replicabilidade das metodologias em contextos com alta heterogeneidade territorial, como é o caso de vários países ibero-americanos.
• Nacional;
• Subnacional;
• Misto.
4. Segundo o perpetrador e os atos violentos considerados
Diferenciam-se as pesquisas que:
• Limitam-se exclusivamente à violência exercida por parceiros íntimos ou ex-parceiros (VCMPE)
• Abordam a violência baseada no gênero (VBG), incluindo outros perpetradores (familiares, conhecidos, empregadores ou desconhecidos).
Também são mapeados os estudos de acordo com os atos violentos considerados:
• Violência física;
• Violência sexual;
• Violência psicológica;
• Violência econômica.
5. Alcance micro/setorial e macroeconômico
Identifica o nível de agregação econômica da análise. Distinguem-se dois níveis principais:
• Macroeconômico, quando o estudo estima o impacto agregado da VCM sobre a economia nacional, tipicamente expressado como porcentagem do PIB ou em termos absolutos no âmbito nacional (custos-país).
• Microeconômico ou setorial, quando a análise se limita a atores, setores ou intervenções específicas. Dentro desse nível, distinguem-se três variantes:
- Setorial, quando o estudo restringe a análise a um determinado setor (saúde, justiça, proteção social, entre outros) e estima a carga que a VCM impõe sobre esse setor.
- Custeio de políticas ou intervenções, quando se estima o custo de implementação de uma política, programa ou serviço específico, geralmente a partir da análise orçamentária ou do custo unitário dos benefícios.
- Impacto sobre a produtividade, quando o foco está na perda de capacidade produtiva das sobreviventes, de sua família ou das empresas.
• Alguns estudos combinam ambos os níveis, estimando tanto os custos microeconômicos desagregados quanto seu impacto agregado sobre variáveis macroeconômicas.
6. Incorporação de custos intergeracionais
Diferenciam-se os estudos que não incorporam custos intergeracionais daqueles que os incorporam, sejam eles despesas com o cuidado de filhos e filhas, impacto na saúde materno-infantil, risco de mortalidade infantil, atenção a filhos e filhas em casas de acolhimento, custos associados à insegurança alimentar, despesas com escolaridade (reprovação, tratamentos pedagógicos), etc.
7. Perspectiva temporal
Em função de se são realizadas estimativas:
• Anuais.
• De longo prazo.
Nem todos os estudos identificados apresentam o mesmo nível de desenvolvimento metodológico, o que é de se esperar, uma vez que respondem a objetivos institucionais, contextos nacionais e recursos disponíveis diferentes. Essa heterogeneidade não constitui um obstáculo para o mapeamento, mas determina a profundidade da análise possível para cada estudo e o tipo de comparações legítimas entre eles.
Com o fim de sistematizar essa variação de maneira transparente, propôs-se uma caracterização do perfil metodológico de cada estudo a partir de quatro perguntas binárias aplicadas de forma homogênea. Cada pergunta refere-se a uma dimensão analítica diferente:
Pergunta de análise Dimensão analítica associada Descrição
O estudo explicita sua metodologia?
Identifica as fontes de dados utilizadas?
Diferencia entre tipos de custos (diretos, indiretos, intangíveis)?
Quantifica os resultados?
Transparência do processo de estimativa
Rastreabilidade dos dados
Integralidade conceitual da abordagem
Capacidade de produzir evidência quantificável
Permite avaliar a clareza e a explicitação dos procedimentos utilizados para estimar os custos.
Examina se o estudo especifica a origem das informações utilizadas e sua possibilidade de verificação.
Analisa se o estudo abrange diferentes categorias de custos e reflete a complexidade do fenômeno.
Avalia se o estudo apresenta estimativas numéricas ou resultados mensuráveis sobre os custos analisados.
A análise do corpus levantado mostra que a grande maioria dos estudos responde afirmativamente às quatro perguntas, o que reflete um nível de desenvolvimento metodológico relativamente homogêneo na produção ibero-americana recente. Apenas um número reduzido de casos apresenta ausências em alguma das dimensões, principalmente na explicitação da metodologia. Essa distribuição tem implicações para a análise comparativa: antes de estabelecer hierarquias entre os estudos, o exercício permite identificar quais dimensões estão sistematicamente presentes na região e quais constituem áreas de desenvolvimento incipiente.
3.7. Análise interseccional transversal
Isso não significa que os estudos levantados realizam análises a partir de uma abordagem interseccional, o que exigiria examinar como a interação entre diferentes eixos de desigualdade produz configurações específicas de vulnerabilidade. Salvo raras exceções, os estudos de custeio revisados praticamente não incorporam análises interseccionais: na grande maioria dos casos, a perspectiva interseccional permanece no campo do ideal ou é reconhecida como uma limitação explícita
do estudo, sem chegar a ser operacionalizada no desenho metodológico nem na produção de resultados desagregados.
Para cada estudo do corpus registra-se, em relação a oito variáveis que expressam as relações de poder e as opressões que afetam as mulheres, particularmente aquelas que enfrentam discriminações múltiplas, se a variável é reconhecida conceitualmente, se é operacionalizada no desenho metodológico e se produz desagregações nos resultados. As oito variáveis levantadas são:
• Idade;
• Condição migratória;
• Deficiência;
• Pertencimento étnico-racial;
• Nível socioeconômico;
• Região geográfica;
• Situação profissional;
• Pessoas a cargo no domicílio.Quando um estudo não apresenta desagregação por nenhuma variável, registra-se se a ausência é justificada (o estudo reconhece explicitamente a limitação) ou não justificada.
Dimensões e variáveis dos estudos
Estima-se que, em 2019, existiam mais de 60 pesquisas em todo o mundo sobre esse tema (Vara-Horna, 2019). No contexto ibero-americano registrado e após aplicar a estratégia de pesquisa definida, foram analisados 21 estudos da Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Espanha, México, Panamá, Paraguai, Peru, Portugal, Uruguai e regionais que contribuíram para consolidar as metodologias atuais na região. A seguir, identificamse algumas características do conjunto, com o objetivo de colocar à disposição dos tomadores de decisão ferramentas técnicas que permitam exercer influência orientada para políticas que ampliem efetivamente o direito das mulheres, adolescentes e meninas de viver sem violência Esta análise decorre da exploração do mapeamento de metodologias mencionado
4.1.1. Método contábil
Descrição
O método contábil é a abordagem predominante nos estudos de custeio da VCM. Sus lógica consiste em identificar os custos específicos gerados pela violência e agregá-los em uma estimativa total. Como apontam Day, McKenna e Bowlus (2005), o método pode ser concebido como uma grande matriz de efeitos sobre diferentes aspectos da sociedade: cada célula representa um custo potencial para um indivíduo ou organização, e a soma de todas as células produz o custo total.
Dentro de cada categoria, a operação é sempre a mesma: estima-se a quantidade de bens ou serviços utilizados em consequência da violência, e essa quantidade é multiplicada pelo custo unitário do serviço correspondente.
De acordo com Morrison e Orlando (2004), os impactos da VCM são classificados, em primeiro lugar, em duas grandes categorias de custos tangíveis.
• Os custos diretos compreendem as despesas reais e os desembolsos monetários realizados por diferentes agentes (Estado, sobreviventes, famílias e sociedade) para a prevenção, atenção e punição da violência, e incluem serviços de saúde, justiça, segurança e proteção social.
• Os custos indiretos, por outro lado, representam o valor dos recursos perdidos ou o lucro cessante atribuível à violência, e se associam principalmente à perda de produtividade no trabalho remunerado e não remunerado, bem como à renda não recebida por incapacidade ou morte prematura.
Alguns estudos que utilizam o método contábil como o da CONAVIM (2016) para o México e Mañas Alcón e Gallo Rivera (2024) para a Espanha incorporam também o cálculo de custos intangíveis, que representam a dimensão mais profunda e, paradoxalmente, a mais difícil de quantificar.
• Definem-se como custos intangíveis aqueles impactos não materiais que, embora não tenham um valor de mercado direto, geram uma perda significativa de bem-estar e qualidade de vida, tanto para as sobreviventes quanto para a sociedade (Vara-Horna, 2020). Diferentemente das despesas do próprio bolso ou da perda de salários, os intangíveis abrangem:
- Abalos emocionais (dor, sofrimento, medo, angústia, tristeza, ansiedade e perda da autoestima);
- Sequelas psicológicas (traumas pessoais, perda de confiança interpessoal e deterioração da saúde mental a longo prazo);
- E impactos sociais, como a deterioração da coesão social e a perda de liberdade, e o impacto vital, entendido como a perda de anos de vida por mortes prematuras ou anos vividos com deficiência. Devido à sua complexidade, muitos estudos optam por definir os custos intangíveis qualitativamente, sem monetizá-los, a fim de manter a prudência estatística (CAF, 2025; Vara-Horna, 2013a; Fundação ARU, 2022).
O método contábil é a abordagem predominante entre os estudos de custeio da VCM. Sua lógica consiste em identificar os custos específicos gerados pela violência e agregá-los em uma estimativa total.
No entanto, outros empregam técnicas específicas:
• O indicador QALY (anos de vida ajustados pela qualidade), utilizado, por exemplo, no estudo de Mañas Alcón e Gallo Rivera (2024) para a Espanha), atribui um valor monetário a cada ano de vida com saúde perfeita e estima quanta qualidade de vida uma mulher perde devido a lesões físicas ou sexuais severas.
• A disposição a pagar (willingness to pay), aplicada pela CONAVIM (2016) para o México e inspirada em estudos da Inglaterra e do País de Gales, consiste em perguntar às sobreviventes quanto estariam dispostas a investir para não sentir medo ou para se sentirem seguras. O valor atual líquido de renda futura projeta o fluxo de salários potenciais que teria sido gerado por uma mulher falecida prematuramente por feminicídio.
• Por fim, a investigação para a Espanha (Mañas Alcón e Gallo Rivera, 2024) também recorre às indenizações judiciais como indicador dos danos morais e emocionais reconhecidos pelos tribunais.
Por ser um modelo aditivo que agrega desembolsos classificados por categorias, o método contábil pode ser implementado com diferentes estratégias de coleta e processamento de dados, que não são mutuamente excludentes.
• A abordagem bottom-up ou microcusteio parte de estudos de caso ou pesquisas (representativas ou não) aplicadas a sobreviventes. Identifica o custo unitário de um serviço ou item e multiplica esse custo pelo número de vezes em que foi utilizado ou pelo número de incidentes registrados, o que requer informações detalhadas sobre o uso de serviços e preços unitários. Embora permita uma análise mais aprofundada dos efeitos pessoais e das despesas do
próprio bolso, sua principal limitação é o alto custo e o tempo demandado para desenvolver pesquisas com representatividade populacional, levantar e ajustar registros administrativos, ou entrevistar sobreviventes e prestadores de serviços quando não se dispõe de fontes primárias que coletem as variáveis necessárias. De qualquer forma, alguns estudos optam pela coleta de dados primários próprios, o que oferece maior controle sobre a qualidade e a pertinência das informações. O Guia da UNFPA (2023) introduz uma distinção complementar dentro do microcusteio: a separação entre custos de implantação, despesas únicas necessárias para iniciar um serviço, como equipamento ou desenvolvimento de protocolos, e custos operacionais recorrentes, como salários e suprimentos. Essa distinção é relevante para o planejamento financeiro de políticas públicas, onde confundir ambas as categorias pode produzir subestimativas do orçamento sustentável necessário. O mesmo guia propõe o custeio baseado em atividades (ABC, por sua sigla em inglês), que permite atribuir as despesas globais de uma instituição a atividades específicas do roteiro crítico, calculando o custo por pessoa atendida mesmo quando os registros administrativos não estão classificados por tipo de violência.
• A abordagem top-down consiste em determinar a proporção dos orçamentos públicos anuais destinada à atenção ou à prevenção da violência (Curcio e Frenkel, 2020 e Mañas Alcón & Gallo Rivera, 2024). Para isso, é necessário ter acesso aos lançamentos de despesa associados às ações de prevenção e abordagem (CAF, 2025). D’Alessandro et al. desenvolvem essa abordagem em profundidade em um estudo metodológico encarregado pela CAF, com aplicação piloto na Argentina, para o qual está prevista uma segunda fase no Uruguai.
Independentemente da modalidade de implementação, o método contábil pode contar com o apoio de ferramentas auxiliares. Os roteiros críticos permitem mapear a sequência de serviços que efetivamente utilizam as sobreviventes após uma situação de violência (saúde, justiça, proteção social, entre outros), facilitando a identificação dos custos a serem estimados. Sua utilidade analítica se amplia quando inclui duas dimensões frequentemente omitidas. A primeira é a duração do processo: o estudo da Argentina (CAF, 2025) introduz o roteiro crítico como uma variável temporal que ajusta os custos em função do tempo transcorrido entre a primeira denúncia e a resolução efetiva, estimando, por exemplo, deslocamentos específicos à delegacia, à procuradoria, aos centros de saúde e para acompanhamento psicológico. A segunda é a pertinência cultural: em contextos rurais ou com presença de comunidades indígenas, o roteiro crítico deve incluir tempos adicionais para tradução e adaptação dos serviços a diferentes cosmovisões, o que impacta tanto no uso de recursos quanto nos tempos de atendimento (Fundação ARU, 2022; Ministério da Mulher do Panamá, 2025).
Os custos unitários escalados, por sua vez, permitem monetizar esses usos quando não se dispõe de dados primários: aplica-se um custo unitário por tipo de serviço às estimativas de prevalência ou frequência de uso obtidas de fontes secundárias.
A aplicação de custos unitários ganha precisão quando é ponderada de acordo com a intensidade do dano. O estudo da Bolívia (Fundação ARU, 2022) classifica os custos em três níveis: moderado, grave e gravíssimo, o que produz variações significativas no custo unitário aplicado: uma intervenção psicológica pode exigir de 12 a 48 sessões, dependendo da gravidade do caso. Na mesma linha, o estudo da Argentina (CAF, 2025)
constrói perfis de vulnerabilidade compostos que segmentam as mulheres afetadas de acordo com a intensidade da violência, a persistência da exposição e a resposta institucional recebida, ativando cestas de custos diferenciadas para cada perfil.
Além disso, para monetizar o impacto no trabalho, costumam ser utilizadas três aproximações:
• Capital humano: captura o valor da perda de tempo de trabalho devido a ausências ou baixa produtividade (presentismo) baseando-se na conversão de salários.
• Atrito: concentra-se nos custos de substituição e reciclagem de pessoal (rotatividade).
• Valor agregado: traduz os dias perdidos de trabalho na perda de valor de produção que cada pessoa gera para a economia.
Um elemento técnico central do método contábil é o uso da análise diferencial, também denominada “método da fração atribuível”. Dado que as sobreviventes utilizariam certos serviços inclusive na ausência de violência, uma estimativa correta não soma o total de serviços utilizados pelas sobreviventes, mas apenas o uso diferencial em relação à população não afetada pela violência, tomado como uma aproximação do custo efetivamente atribuível à violência. Quando existem diferenças observáveis entre grupos, é possível incorporar técnicas de regressão para controlá-las, embora subsista o pressuposto de que as características não observáveis não afetam de forma diferenciada o uso dos serviços (Day, McKenna e Bowlus, 2005).
Estudos disponíveis
No corpus, mais da metade dos estudos com metodologias disponíveis aplica essa abordagem, totalizando 14 dos 21 estudos mapeados:
Estudo País / âmbito Aplicação do método contábil
CONAVIM (2016) México
Curcio e Frenkel (2020)
Vários países
Utiliza a metodologia contábil diferenciando custos diretos e indiretos. Complementa sua análise utilizando os custos unitários por nível de assistência médica aprovados pelo IMSS.
O custeio por componentes é aplicado no relatório regional do PNUD/CAF para três intervenções estatais selecionadas: Argentina (Dispositivo ESI do Plano ENIA), Equador (Programa de Casas de Acolhimento da Secretaria de Direitos Humanos) e Peru (Assistência econômica para sobreviventes indiretas de feminicídio – Programa Aurora).
Vara Horna (2013a) Peru (empresas) Combina o método contábil com uma abordagem sistêmica para determinar perdas de produtividade.
Vara Horna (2013b) Equador (microempresas)
Aplica o método contábil por meio de uma abordagem bottom-up e distingue as perdas econômicas das microempresas, tanto por receitas não recebidas quanto por despesas diretas que descapitalizam o negócio.
Vara Horna (2015) Bolívia Emprega o método contábil para identificar unidades de custo e multiplicá-las pelo uso de serviços ou dias perdidos.
ELA (2020) CABA, Argentina Utiliza uma lógica aditiva baseada em nomenclaturas de saúde e perda de jornadas de trabalho.
Mañas Alcón & Gallo Rivera (2024) Espanha
CAF (2025) Argentina
CAF (em processo) Uruguai
Pita Barros et al. (2008) Portugal
Fundação ARU (2022) Bolívia
Ministério da Mulher (2025) Panamá
Serviço Nacional da Mulher (2010) Chile
UNFPA (2023) América Latina e o Caribe
Aplica o modelo contábil integrando uma abordagem ascendente (bottom-up) para os custos de trabalho e de saúde com uma aproximação descendente (topdown) e a extrapolação de dados internacionais para os custos legais. Também inclui a análise input-output e a metodologia de Heeks et al. (2018), baseada na extrapolação dos custos sociais do crime da Inglaterra e do País de Gales para o contexto espanhol.
Adota a abordagem contábil para estimar os custos de prevenção e os custos assumidos pelo Estado (Poderes Judiciário e Executivo), com base na soma dos créditos devidos (acumulados). Para os custos assumidos pelas sobreviventes, sugere-se utilizar roteiros críticos como guia de despesas.
Aplicação do método contábil em processo.
Calcula os custos do serviço nacional de saúde com base no produto dos episódios médicos pelo preço estimado por episódio.
Combina o microcusteio (para serviços de saúde e justiça) com o método de capital humano. Inclui a ponderação dos custos de acordo com a intensidade do dano (moderado, grave ou gravíssimo).
Aplica o método contábil diferenciando custos diretos e indiretos. Tem como foco as despesas do próprio bolso realizadas pelas vítimas e seus familiares, com base em informações coletadas de processos de casos reais.
Aplica o método por meio da análise de recursos públicos executados em níveis de assistência, proteção, sanção e prevenção. Avalia os custos diretos das mulheres por meio de pesquisas com usuárias de centros de assistência, permitindo quantificar o investimento privado em serviços públicos e privados.
O guia metodológico propõe o Custeio Baseado em Atividades (CBA), um método misto que integra o macrocusteio (top-down) e o microcusteio (bottom-up).
Vantagens e limitações
Entre as principais vantagens desse método estão a possibilidade de dimensionar o problema em relação a outros problemas sociais e orientar a alocação estratégica de fundos públicos. Por sua vez, é útil para avaliar o custo-efetividade nas políticas de prevenção.
Quanto às suas limitações, a principal reside na subestimação dos custos devido à omissão de categorias cruciais (como o impacto nos filhos que testemunham a violência) e ao alto subregistro de denúncias.
Alguns autores também questionam a arbitrariedade associada à seleção das categorias de custos a serem incluídas (discricionária), o que muitas vezes dificulta a comparação entre diferentes estudos. Por fim, este método tem dificuldades para capturar adequadamente a dor, o sofrimento e a perda de qualidade de vida
(custos intangíveis), que muitas vezes são calculados separadamente por meio de outros métodos, como o DALY ou o QALY.
4.1.2. Modelo causal multinível
Descrição
Baseado na lógica do método contábil, o modelo causal multinível baseia-se na premissa de que o custo total em nível de país equivale à soma das perdas em quatro níveis: individual, familiar, comunitário e estatal.
Além disso, utiliza uma lógica causal que se baseia em demonstrar que a violência, entre outras coisas, diminui os recursos e as capacidades das pessoas, o que se traduz em um custo econômico mensurável.
Estudos disponíveis
Identificam-se três estudos baseados no método do modelo causal multinível:
Estudo País / âmbito
Aplicação do modelo
Vara Horna (2017) Paraguai Estudo pioneiro que aplicou esse marco para realizar uma estimativa nacional dos custos da violência contra as mulheres.
Vara Horna (2020) Equador Segundo estudo integral de custo-país na região, que incorporou novas categorias de análise, como a insegurança alimentar.
Vara Horna (2019) Villa El Salvador, Peru Aplicação do modelo no âmbito local para calcular os custos da inação no distrito.
Vantagens e limitações
Entre as principais vantagens do modelo causal multinível se destaca sua capacidade para capturar a real magnitude do problema ao integrar quatro níveis de análise: individual, familiar, comunitário e estatal. Diferentemente do método contábil, este modelo não se limita a somar as despesas, mas sim demonstra previamente, de forma estatística, que a violência reduz os recursos e as capacidades das pessoas antes de atribuir-lhes um valor monetário. Isso permite dar visibilidade a categorias frequentemente ignoradas, como os gastos de sororidade, o impacto na saúde e na escolaridade dos filhos e os custos gerados pelos agressores e testemunhas nas empresas. Ao quantificar o impacto no valor agregado empresarial, também
proporciona argumentos de rentabilidade para a prevenção organizacional.
Suas principais limitações dizem respeito à complexidade e ao custo de implementação, uma vez que requer combinar pesquisas de grande escala com análises de orçamentos e contas nacionais, o que demanda tempo e recursos consideráveis. Apesar de sua amplitude, os resultados costumam ser considerados apenas o limite inferior do custo real, dado que muitas categorias ficam de fora por falta de registros ou para manter estimativas conservadoras. Sua precisão também está condicionada à existência de registros administrativos integrados e estudos de roteiro crítico representativos, escassos na região.
Descrição
Vários estudos utilizam técnicas econométricas para isolar o impacto da violência. Para isso, recorrem a diferentes ferramentas para estimar os efeitos e os custos da violência contra as mulheres, entre elas as regressões lineares por mínimos quadrados ordinários (MCO), o Propensity Score Matching (PSM) e os modelos Probit. As regressões são utilizadas para analisar a relação de associação entre uma variável dependente (como a produtividade do trabalho feminino) e um conjunto de variáveis independentes ou explicativas (como os casos de violência). A metodologia se concentra em isolar o impacto específico de cada tipo de violência sobre o resultado econômico, permitindo calcular quanto diminui, em média, a produtividade (ou a variável dependente de interesse) diante do aumento de um caso de agressão, enquanto os demais fatores permanecem constantes.
• Os modelos de Mínimos Quadrados Ordinários (MCO) são aplicados especialmente para estimar o lucro cessante ou a perda de renda associada à violência, comparando a renda de mulheres que sofreram violência com a daquelas que não sofreram, controlando por fatores como idade, escolaridade, local de residência ou presença de filhos. Também são utilizados para explicar variações nos custos de saúde relacionados com a violência.
• O Propensity Score Matching (PSM) é uma técnica de comparação caso-controle que procura isolar o efeito específico da violência. Dado que as mulheres sobreviventes e aquelas não afetadas pela violência costumam apresentar características socioeconômicas diferentes, o PSM realiza um pareamento estatístico entre uma sobrevivente e uma não sobrevivente com perfil semelhante (por exemplo, em termos de renda, idade ou ocupação), permitindo atribuir as diferenças observadas em saúde, produtividade ou outros resultados ao efeito da violência, e não a outras variáveis.
• Finalmente, os modelos Probit e Probit Ordenado são utilizados quando a variável de interesse representa probabilidades ou categorias, em vez de valores monetários. Essas técnicas permitem estimar, por exemplo, como a violência aumenta a probabilidade de sofrer danos físicos ou emocionais, ou como deteriora a autopercepção do estado de saúde. Em alguns estudos, essa deterioração da saúde autopercebida é posteriormente utilizada como base para calcular maiores custos futuros com atenção médica.
Estudos disponíveis
Do total, somente 3 estudos têm a regressão como metodologia central e exclusiva. A seguir, se enumeram os casos que utilizam essa técnica:
Estudo País / âmbito Aplicação do modelo
Licona Gómez e Otero Rivero (2015) Cartagena da Índias, Colômbia
Ribero e Sánchez (2004) Colômbia
Díaz e Miranda (2010) Peru
Utiliza um modelo de regressão linear múltipla por meio de mínimos quadrados ordinários (MCO) para quantificar a diminuição da produtividade do trabalho feminino.
Estimam um modelo econométrico do tipo Probit para explicar a probabilidade de ocorrência da violência intrafamiliar a partir de variáveis socioeconômicas e características do lar. Além disso, aplicam técnicas de Propensity Score Matching (PSM).
Utilizam técnicas de pareamento (Propensity Score Matching – PSM) para simular a aleatoriedade de um tratamento, controlando as características observáveis associadas à violência e avaliando as diferenças em renda e horas trabalhadas entre sobreviventes e não sobreviventes.
Entre as principais vantagens do modelo causal multinível se destaca sua capacidade para capturar a real magnitude do problema ao integrar quatro níveis de análise: individual, familiar, comunitário e estatal.
Além disso, cinco estudos incorporam técnicas econométricas em suas metodologias, apesar de utilizarem outra abordagem principal:
Estudo País / âmbito Aplicação do modelo
Pita Barros et al. (2008)
Vara Horna (2013a, 2015 e 2020)
Portugal Utiliza análise de regressão por meio de mínimos quadrados ordinários (MCO) para controlar fatores alheios à violência que possam influenciar os custos da atenção médica. Além disso, aplica um modelo Probit ordenado (ordered probit) para analisar a relação entre o estado de saúde autopercebido e a presença de violência doméstica.
Peru, Bolívia e Equador
Morrison e Orlando (2004)
Vantagens e limitações
Colômbia
Embora empregue uma abordagem sistêmica, aplica análise de regressão com covariáveis para ajustar as diferenças entre grupos de sobreviventes/ agressores e grupos de controle, permitindo calcular com maior precisão os dias perdidos devido à violência.
Destacam o Propensity Score Matching (PSM) como uma abordagem não paramétrica superior às comparações simples. É utilizado para fazer o pareamento de mulheres sobreviventes com mulheres não sobreviventes com probabilidades similares de sofrer violência, permitindo medir o impacto “puro” sobre a renda e a participação laboral.
Os métodos econométricos proporcionam maior rigor estatístico do que os modelos contábeis tradicionais ao procurar isolar o impacto causal da violência contra as mulheres. O uso dessas técnicas (especialmente o PSM) permite superar o viés das “comparações ingênuas” (naïve comparisons) ao construir grupos de controle rigorosos, isolando o efeito econômico real da violência de outros fatores como a pobreza ou a educação. Por sua vez, as regressões MCO são avaliadas por sua capacidade para quantificar a relação direta entre o aumento dos casos de violência e a diminuição da produtividade. No entanto, é possível identificar algumas limitações estruturais e técnicas. Em primeiro lugar, essas metodologias exigem grandes bases de microdados e sistemas de informação integrados, algo pouco frequente em muitos países em desenvolvimento (Duvvury et al., 2004). Por sua vez, exigem testar e assegurar a comparabilidade entre
grupos que podem diferir em suas características observáveis e não observáveis (como os grupos de mulheres sobreviventes e não expostas à violência).
A multicolinearidade, a alta variância dos dados e a presença de numerosos valores nulos podem tornar as estimativas instáveis e reduzir sua significância estatística. Finalmente, trata-se de metodologias complexas, tanto em sua estimativa quanto em sua comunicação, o que pode dificultar sua utilização para a incidência política e a tomada de decisões.
4.1.4. Análise Input-Output
Descrição
A metodologia input-output permite avaliar como as perdas iniciais causadas pela violência contra as mulheres se propagam por todo o sistema produtivo de um país por meio de efeitos multiplicadores. Para isso,
Os métodos econométricos proporcionam maior rigor estatístico ao procurar isolar o impacto causal da violência contra as mulheres. Entretanto, são metodologias complexas, tanto em sua estimativa quanto em sua comunicação, o que dificulta sua utilização para a tomada de decisões.
utiliza uma matriz de equações lineares que descreve as inter-relações entre os diferentes setores da economia. Sua lógica baseia-se na introdução dos custos diretos da violência (como despesas médicas ou renda perdida) como um choque de demanda no fluxo circular da renda para calcular três tipos de impactos:
• Impacto direto: efeito imediato nos setores que proporcionam serviços às sobreviventes (saúde, justiça, etc.).
• Impacto Indireto: efeito nos setores que fornecem insumos aos setores anteriores (segunda rodada).
• Impacto Induzido: efeito derivado das mudanças na renda e no consumo das famílias (terceira rodada).
Estudos disponíveis
Somente há um estudo:
Estudo País / âmbito
Mañas Alcón & Gallo Rivera (2024)
Aplicação do modelo
Espanha Inclui uma análise de input-output para medir o impacto macroeconômico multiplicador da violência na economia espanhola, como complemento às estimativas realizadas com base no modelo contábil.
Vantagens e limitações
Entre suas vantagens estão a possibilidade de captar a magnitude da perda para a economia como um todo, além dos agentes diretamente afetados, identificar setores de atividade críticos que sofrem mais “fugas” de renda devido à violência e quantificar o multiplicador (por exemplo, na Espanha, 1 euro de renda perdida provoca uma perda total de 2,73 euros).
Sua limitação mais relevante diz respeito ao requerimento de informação prévia muito detalhada e de alta qualidade (por exemplo, do Modelo Contábil) para alimentar a análise macro. Além disso, envolve complexidade técnica e a necessidade de tabelas simétricas atualizadas da economia nacional. No estudo da Espanha, somente foi possível aplicar à violência de gênero (no âmbito da relação de casal), uma vez que, para a violência sexual fora da relação de casal, não se dispunha de microdados com o nível de detalhe necessário sobre os itinerários de impacto. Por fim, o modelo assume relações lineares e padrões de consumo constantes, o que pode simplificar em excesso as reações da economia.
4.1.5.
Autoria e ano
País/região
Vara Horna (2017) Paraguai
Vara Horna (2019) Peru (Villa El Salvador)
Vara Horna (2020) Equador
Vara Horna (2013a) Peru
Vara Horna (2013b) Equador
Vara Horna (2015) Bolívia
CAF (em processo) Uruguai
Ministério da Mulher (2025) Panamá
CONAVIM (2016) México
Fundação ARU (2022) Bolívia
Método
Modelo causal multinível
Modelo causal multinível
Modelo causal multinível
Método contábil
Método contábil
Método contábil
Método contábil
Método contábil
Método contábil + custos unitários escalados
Método contábil + microcusteios
ELA (2020) Argentina (CABA) Método contábil + microcusteios
Serviço Nacional da Mulher (2010) Chile
UNFPA (2023)
Método contábil (microcusteio e macrocusteio)
América Latina e o Caribe Método contábil (microcusteio e macrocusteio)
Curcio e Frenkel (2020) Argentina, Equador e Peru Método contábil (microcusteio e macrocusteio)
Mañas Alcón & Gallo Rivera (2024) Espanha
CAF (2025) Argentina
Pita Barros et al. (2008) Portugal
Método contábil + input output + roteiro crítico + custos unitários escalados
Método contábil + roteiro crítico teórico
Método contábil + custos unitários escalados + Econométrico (MCO)
Ribero e Sánchez (2004) Colômbia Econométrico (Probit + PSM)
Díaz e Miranda (2010) Peru
Econométrico (PSM)
Licona Gómez e Otero Rivero (2015) Cartagena, Colômbia Econométrico (MCO)
Barros (2006) Portugal Não disponível
Em relação ao ator que absorve os custos da violência, predominam os estudos que adotam abordagens mistas ou multinível, incorporando simultaneamente os custos assumidos pelo Estado, pelas sobreviventes, pelas famílias e/ou pela sociedade. Essa tendência reflete
uma evolução metodológica em direção a abordagens mais integrais, que buscam captar a distribuição social e econômica dos impactos da violência.
Estudos de abordagem mista ou multinível
Identificam-se seis estudos que consideram custos absorvidos por mais de um ator:
Estudo País / âmbito Atores ou níveis de análise considerados
Vara Horna (2020) Equador
Vara Horna (2017) Paraguai
UNAM (2016) México
Pita Barros et al. (2008) Portugal
ELA (2020) CABA, Argentina
Vara Horna (2019) Villa El Salvador, Peru
Fundação ARU (2022) Bolívia
Serviço Nacional da Mulher (2010) Chile
Analisa de forma integral as mulheres (nível individual), os domicílios, a comunidade (empresas e microempreendimentos) e o Estado.
Utiliza o modelo causal multinível para cobrir as mulheres, seus domicílios, as empresas e o governo.
Inclui as despesas diretas e indiretas das mulheres, o custo do sistema penitenciário e os orçamentos de programas públicos.
Divide a análise entre a perspectiva do Serviço Nacional de Saúde (Estado) e a perspectiva privada das mulheres (despesas do próprio bolso).
Analisa os custos para o sistema público de saúde, a despesa privada das mulheres e a perda de produtividade para os empregadores.
Ainda que exclua o Estado, analisa três níveis: individual (mulheres), domicílio e comunidade.
Analisa os domicílios (incluindo as mulheres individualmente), a comunidade (que envolve tanto o Estado quanto as organizações da sociedade civil) e o mundo produtivo (empresas).
Considera três âmbitos: o Estatal, a sociedade civil organizada (ONGs) e as mulheres (tanto usuárias de serviços quanto trabalhadoras em empresas).
Estudos centrados no custo do Estado
São interessantes os casos dos estudos do Chile (Serviço Nacional da Mulher, 2010) e da Bolívia (Fundação ARU, 2022), que documentam e identificam os custos associados ao trabalho das organizações não governamentais (ONGs). As ONGs preenchem lacunas estruturais do sistema público por meio de representação legal gratuita, gestão de albergues e abrigos, e trabalho de divulgação e acompanhamento, recursos que não são contabilizados nos orçamentos estatais nem nas despesas do próprio bolso das mulheres afetadas.
Apenas dois estudos do corpus se concentram exclusivamente no custeio de políticas públicas e intervenções estatais. A Metodologia Regional PNUD/ CAF (Curcio e Frenkel, 2020) é complementar, e não equivalente, aos estudos de custo-país, com aplicação prática na Argentina (Plano ENIA), no Equador (Casas
Estudo País / âmbito
Vara Horna (2013) Peru
Vara Horna (2015) Bolívia
Licona Gómez e Otero Rivero (2015) Cartagena de Índias, Colômbia
Vara Horna (2013a) Equador
de Acolhimento da Secretaria de Direitos Humanos) e no Peru (Assistência econômica do Programa Aurora).
O Guia do UNFPA (2023) propõe uma abordagem análoga para custear a provisão de três serviços essenciais a partir da perspectiva institucional: casas de acolhimento, serviços de assessoria e aconselhamento, e atendimento de saúde para sobreviventes, com aplicação regional para a América Latina e o Caribe. Diferentemente dos estudos de custo-país, ambas as ferramentas buscam estabelecer pisos normativos de alocação orçamentária que permitam aos Estados planejar e garantir a cobertura mínima de serviços destinados às pessoas sobreviventes.
Estudos centrados nos custos absorvidos pela sociedade
São quatro as pesquisas que se concentram especificamente no impacto econômico dentro das empresas e na produtividade do trabalho:
Abordagem ou alcance da análise
Dedica-se exclusivamente a medir a perda de produtividade, o absentismo e a rotatividade no trabalho em 211 empresas peruanas (48,5% no setor de serviços e comércio; 42,3% no setor manufatureiro; e 9,1% no setor extrativo e de infraestrutura).
Segue a mesma lógica metodológica do estudo peruano, aplicando-a a empresas de médio e grande porte da Bolívia. Exclui explicitamente as microempresas para se concentrar em organizações com estruturas formais de recursos humanos.
Concentra-se unicamente na diminuição da produtividade no trabalho das mulheres no setor manufatureiro da cidade.
Concentra-se exclusivamente no impacto econômico sobre as mulheres proprietárias de microempresas. Analisa o custo de oportunidade associado aos dias de trabalho perdidos e à descapitalização dos empreendimentos devido a despesas com saúde decorrentes da violência.
Ao realizar uma análise multinível, observa-se que as mulheres e suas famílias concentram
entre 44% e 50%
do custo total da violência.
A maioria das pesquisas analisadas limita-se exclusivamente à violência praticada pelo parceiro íntimo ou ex-parceiro. Essa delimitação busca dar visibilidade à violência na relação de casal não como uma questão privada, mas como um obstáculo estrutural para o desenvolvimento.
Os estudos mencionados acima utilizam o valor agregado e o presentismo como eixo central de sua estrutura de custos, argumentando que a omissão da perda de produtividade oculta a maior parte do impacto real da violência na economia.
Estudos centrados nos custos absorvidos pelas sobreviventes
Com exceção do estudo do Panamá (Ministério da Mulher, 2025), nenhum dos estudos considerados concentra-se exclusivamente nas mulheres e nos domicílios como principais atores que absorvem os custos, sem mencionar, pelo menos, a dimensão comunitária ou do trabalho. O caso mencionado concentra-se especificamente nas despesas diretas assumidas pelas mulheres sobreviventes de violência doméstica e pelos familiares das vítimas de feminicídio, diferenciando ainda os impactos de acordo com a área geográfica urbana ou rural/regional.
Comparação de custos absorvidos pelos diferentes atores
Da revisão dos estudos que aplicam o modelo causalmultinível surge uma descoberta relevante: ao comparar a distribuição dos custos entre os diferentes atores, são as mulheres e suas famílias que assumem o maior ônus econômico, estimado entre 44% e 50% do custo total do país (Vara-Horna, 2017, 2019 e 2020). Isso se deve à descapitalização por despesas do próprio bolso com saúde e justiça, bem como à perda de renda pessoal. As empresas ocupam o segundo lugar (VaraHorna, 2017), enquanto o Estado aparece como o ator que, proporcionalmente, absorve menos custos (1113%) (Vara-Horna, 2020), destinando seus recursos principalmente à resposta reativa em vez da prevenção.
Por outro lado, de acordo com o estudo da Bolívia (Fundação ARU, 2022), as mulheres e os domicílios absorvem 71,3% do custo total, sendo o acesso ao sistema judicial o principal motor dessa despesa (75% de seus custos individuais). As empresas assumem 18,7% pela perda de produtividade, por absentismo e presentismo. O Estado cobre 9,9%, destinando quase metade desse montante ao sistema judiciário (48,5%)
e 45,8% à assistência às vítimas. As organizações da sociedade civil representam os 0,2% restantes, complementando serviços de prevenção e saúde que o sistema público não consegue cobrir.
É importante ressaltar que essa distribuição por ator explica por que as estimativas agregadas como porcentagem do PIB não são comparáveis entre os estudos. Um estudo que considera apenas os custos estatais produzirá inevitavelmente um valor menor do que aquele que inclui também os custos do próprio bolso, trabalhistas e comunitários, mesmo quando a prevalência da violência seja similar em ambos os países. Por isso, os resultados agregados do corpus são apresentados no Anexo 3 a título de referência informativa, mas não devem ser interpretados como base para comparações entre países. A comparabilidade do corpus reside em suas dimensões metodológicas, não na magnitude de suas estimativas.
Quanto à distribuição por país, o Peru concentra o maior número de estudos do corpus (3), seguido pela Argentina, Bolívia, Colômbia, Equador e Portugal (2 cada um). Chile, Espanha, México, Panamá, Paraguai e Uruguai contam cada um com um estudo. Entre os países membros da IIPEVCM, Bolívia, Colômbia, Espanha, Panamá, Portugal e Uruguai têm pelo menos um estudo no corpus, enquanto Andorra e República Dominicana permanecem sem estudos de custeio próprios. Na escala regional, dois estudos têm alcance para a América Latina e o Caribe: a Metodologia PNUD/CAF (Curcio e Frenkel, 2020) e o Guia do UNFPA (2023).
Existe uma clara predominância dos estudos de âmbito nacional (16 sobre 21 incluídos ), que pretendem incidir na política pública de alto nível, permitindo comparar o custo da violência com o Produto Interno Bruto (PIB) de cada país.
Os três estudos têm alcance subnacional ou local, concentrando-se em territórios específicos (cidades ou distritos) para capturar dinâmicas locais detalhadas:
Estudo País / âmbito
Licona Gómez e Otero Rivero (2015) Cartagena de Índias, Colômbia
PNUD (2019) Villa El Salvador, Peru
ELA (2020) CABA, Argentina
Alcance territorial ou temático
Centrado especificamente na produtividade no trabalho do setor manufatureiro do distrito de Cartagena.
Pesquisa local sobre os custos da falta de ação na prevenção da violência neste distrito de Lima.
Estudo centrado exclusivamente na Cidade Autônoma de Buenos Aires.
Finalmente, a Metodologia Regional PNUD/CAF (Curcio e Frenkel, 2020) se classifica como mista porque desenvolve uma metodologia de aplicação para toda a região da América Latina e o Caribe, mas sua validação foi realizada por meio de estudos de caso específicos que combinam programas nacionais e locais na Argentina, Equador e Peru. O mesmo ocorre com a metodologia proposta no UNFPA (2023).
A maioria das pesquisas analisadas limita-se exclusivamente à violência praticada pelo parceiro
íntimo ou ex-parceiro (VCMPE). Essa abordagem é adotada pelos estudos da CAF (2025), Díaz e Miranda (2010), ELA (2020); Fundação ARU (2022), Ministério da Mulher (2025), Serviço Nacional da Mulher (2010), e pela série de pesquisas de Vara-Horna no Peru (2013a), Bolívia (2015), Paraguai (2017) e Equador (2020). Essa delimitação busca dar visibilidade à violência praticada pelo parceiro íntimo não como uma questão privada, mas como um obstáculo estrutural para o desenvolvimento.
Por outro lado, um grupo específico de estudos incorpora um alcance mais amplo em relação à violência baseada no gênero (VBG), incluindo outros perpetradores (familiares, conhecidos, empregadores ou desconhecidos):
Estudo País / âmbito Tipos ou âmbitos de violência considerados
Mañas Alcón & Gallo Rivera (2024) Espanha
Vara Horna (2019) Villa El Salvador, Peru
Licona Gómez e Otero Rivero (2015) Cartagena, Colômbia
Analisa separadamente a violência de gênero no âmbito da relação de casal e a violência sexual fora da relação de casal (VSfp).
Abrange tanto a violência baseada no gênero íntima quanto a não íntima.
Inclui violência intrafamiliar, interpessoal e sexual exercida pelos diferentes tipos de agressores.
Curcio e Frenkel (2020) Vários países Define a violência contra as mulheres de forma ampla, incluindo múltiplos perpetradores e âmbitos, tanto públicos quanto privados.
CONAVIM (2016) México
UNFPA (2023)
Considera a violência nos âmbitos comunitário, institucionais e profissionais.
Guia para a América Latina e o Caribe - Aborda a violência na relação de casal, mas sua metodologia foi concebida para cobrir também casos de violência sexual (que podem ser perpetrados por outras pessoas).
Os estudos priorizam a violência física, sexual e psicológica, enquanto a violência econômica continua sendo a menos abordada.
Essa diferença no alcance afeta a comparabilidade: os estudos que incluem outros perpetradores tendem a produzir estimativas de custos mais elevadas, mas dificultam isolar o peso específico da violência do parceiro íntimo ou ex-parceiro se não apresentam uma desagregação detalhada.
Em relação aos atos violentos considerados, há maior heterogeneidade. A violência física está presente em todos os estudos, sem exceção. A violência sexual está incluída em todos os casos analisados, ainda que em Pita Barros, et al. (2008) sua incorporação não esteja claramente documentada e em ELA (2020) os atos sexuais tenham sido considerados apenas como agravantes, e não como itens de custo independentes para esse ano.
A revisão do corpus mostra que a violência psicológica é reconhecida como um componente central da violência contra as mulheres, embora sua inclusão nos estudos varie de acordo com a disponibilidade e a qualidade dos dados. Os trabalhos mais recentes tendem a monetizar seus efeitos por meio dos custos com saúde mental, atenção psicológica e perdas de produtividade, especialmente associadas ao presentismo e à deterioração do bem-estar emocional.
Alguns estudos, como os de Mañas Alcón & Gallo Rivera (2024), Vara-Horna (2013, 2015, 2020) em vários países da América Latina e CAF (2025), integram explicitamente a violência psicológica em suas estimativas econômicas. Outros, como ELA (2020) e CONAVIM (2016) , reconhecem sua relevância conceitual, mas enfrentam limitações metodológicas e de registros administrativos que dificultam sua medição de forma específica e comparável. Em conjunto, a tendência do corpus aponta para a reconstrução de roteiros críticos e sintomas de saúde mental para captar os custos associados a esse tipo de violência.
A violência econômica é a dimensão com menor cobertura: apenas seis estudos a incluem explicitamente: (Vara Horna, 2020, 2019, 2013a e 2017, Curcio e Frenkel, 2020 e Mañas Alcón & Gallo Rivera, 2024). Sua ausência nos demais casos constitui um vazio metodológico relevante, uma vez que a violência econômica gera custos diretos e indiretos que os outros atos não capturam.
4.5. Segundo o alcance micro/ setorial e macroeconômico
Dez dos dez estudos combinam análise micro e macro: estimam tanto os custos que recaem sobre atores individuais (mulheres, domicílios, empresas e Estado ) quanto seu impacto agregado sobre variáveis macroeconômicas, tipicamente expressado como porcentagem do PIB. Os estudos que alcançam esse duplo objetivo permitem dimensionar a VCM como um problema de desenvolvimento econômico e não apenas de bemestar individual, permitindo maior influência nas políticas públicas. Os três estudos baseados no modelo causal multinível (Equador, Paraguai, Villa El Salvador) e o do Peru (2013) são os casos mais desenvolvidos nessa dimensão.
Sete estudos têm alcance exclusivamente micro ou setorial: Pita Barros, et al. (2008)(Portugal, setor da saúde), ELA (2020) (Argentina/CABA, setores da saúde e do trabalho agregados), Licona Gómez e Otero Rivero (2015) (Cartagena de Índias, setor manufatureiro), Vara Horna (2013) (Equador, microempresas)
Díaz e Miranda (2010) (Peru, mercado de trabalho e setor educacional), Ministério da Mulher (2025) (Panamá, domicílios e sobreviventes) e Serviço Nacional da Mulher (2010) (Chile, estatal e sobreviventes). As metodologias do PNUD/CAF (Curcio e Frenkel, 2020) e do UNFPA (2023) têm alcance setorial estatal, dado que financiam intervenções específicas sem escalar ao nível macroeconômico.
Doze estudos incorporam custos intergeracionais. CONAVIM (2016) para o México é o mais explícito: inclui despesas para o cuidado de filhos e filhas, o impacto na saúde materno-infantil e o risco de mortalidade infantil. A metodologia PNUD/CAF incorpora essa dimensão de forma parcial e diferenciada por país: no Peru considera os filhos e filhas órfãos por feminicídio; na Argentina trabalha com adolescentes no âmbito do programa de educação sexual integral; e no Equador contempla a assistência a filhos e filhas em casas de acolhimento. Vara Horna (2019) para Villa El Salvador inclui custos por reprovação escolar como indicador de impacto intergeracional. O estudo do Panamá (Ministério da Mulher, 2025) também estima os custos para filhos e filhas órfãos do feminicídio, quantificando uma despesa de 2.710 balboas panamenhos anuais por filho, diferenciado de acordo com a área urbana ou rural/regional. O estudo do Chile (Serviço Nacional da Mulher, 2010) contribui com a dimensão setorial estatal ao incluir os atendimentos a crianças e adolescentes com problemas decorrentes da violência intrafamiliar.”
Os seis estudos restantes não incorporam essa dimensão. Vara Horna (2020) para o Equador inclui custos decorrentes da insegurança alimentar, despesas de escolaridade (reprovação, tratamentos pedagógicos) e saúde dos filhos e filhas. Vara Horna (2017) para o Paraguai quantifica as despesas do próprio bolso em saúde infantil e a perda em massa de dias letivos (mais de 200 mil dias por ano). CAF (2025) para a Argentina incorpora explicitamente em sua “cesta de despesas” os custos de substituição dos cuidados infantis, deslocamentos e alimentação dos filhos durante processos judiciais, bem como as despesas educacionais decorrentes de mudanças de escola. Ribero e Sánchez (2004) para a Colômbia quantificam o impacto na saúde de menores de 5 anos (doenças respiratórias
e digestivas agudas) e monetizam o atraso escolar (estimado em 0,5 anos de atraso) em comparação com domicílios sem violência. Mañas Alcón e Gallo Rivera (2024) estima especificamente os custos dos serviços de cuidados de menores não prestados pelas mães sobreviventes (totalizando mais de 6 milhões de euros em sua opção conservadora). Díaz e Miranda (2010) para o Peru no estudo de determinantes, estimam o custo do atraso escolar e analisam os níveis de nutrição (hemoglobina) em menores de 5 anos. O estudo da Bolívia (Fundação ARU, 2022), por outro lado, inclui a perda do cuidado parental por feminicídio e o custo dos cuidados não remunerados assumidos por familiares, alertando que a falta de intervenção nesses casos reproduz a violência de forma intergeracional e, com ela, seus custos futuros para o Estado.
Os estudos centrados exclusivamente no setor empresarial, como os da Bolívia (2015) e do Peru (2013a) de Vara Horna, ou outros como os de Pita Barros et al. (2008) para Portugal e Licona Gómez e Otero Rivero (2015) para Cartagena de Indias omitem a quantificação de custos diretos dos filhos e filhas, embora os primeiros mencionem o impacto na prole como uma fonte de presentismo e distrações para a mãe trabalhadora.
A maioria dos estudos adotam uma perspectiva anual: estimam os custos associados à VCM em um ano de referência. O único estudo com perspectiva de longo prazo é o Licona Gómez y Otero Rivero (2015) para Cartagena de Indias, que analisa o período 2004-2013 por meio de um modelo de regressão. A predominância da perspectiva anual reflete tanto uma convenção metodológica do campo quanto uma limitação prática. Entretanto, essa escolha temporal impede capturar os custos acumulados da violência crônica, que é precisamente a forma mais frequente de violência pelo parceiro íntimo.
A análise dos diversos estudos realizados na IberoAmérica permite identificar semelhanças e divergências nos métodos utilizados para estimar os custos da violência contra as mulheres. Não existe um modelo único nem definitivo, pelo que a escolha metodológica depende da disponibilidade de dados e dos objetivos da pesquisa.
Antes de apresentar a avaliação comparada, convém precisar uma distinção que atravessa o corpus e condiciona quais comparações são legítimas entre os estudos: a diferença em seu objetivo analítico. Alguns estudos buscam estimar o custo total da violência para uma economia nacional (custo-país); outros se orientam para dimensionar o custo de políticas ou programas específicos (custeio de políticas); outros restringem a análise a determinados setores, como saúde ou justiça (custeio setorial); e outros priorizam o impacto agregado sobre a produtividade ou o crescimento econômico (impacto econômico).
Cabe ressaltar que a combinação entre estratégia de estimativa e ator considerado produz perfis diferenciados, embora não seja de forma mecânica. Os estudos com perspectiva multiator, geralmente sob o método contábil ou causal multinível, tendem a produzir estimativas de custo-país; os centrados no Estado costumam orientar-se para o custeio de políticas; e os enfocados no setor empresarial se aproximam a análises de impacto produtivo. O custeio setorial, por sua vez, pode surgir tanto do método contábil quanto do econométrico, de acordo com o setor analisado e as fontes disponíveis.
Essas categorias não se excluem mutuamente e, frequentemente, coexistem em um mesmo estudo. No entanto, permitem compreender por que pesquisas
que utilizam métodos semelhantes podem produzir estimativas substancialmente diferentes e por que nem toda comparação direta entre resultados é metodologicamente válida.
A maioria das pesquisas procuram dar visibilidade ao impacto econômico da violência e pretendem promover a elaboração, a avaliação e a sustentabilidade das políticas públicas e privadas que ajudem a preveni-la e combatê-la.
No que diz respeito à classificação dos custos, a maioria das metodologias coincidem em agrupar os custos em três grandes categorias: custos diretos (despesas reais com serviços), custos indiretos (perda de produtividade e renda) e custos intangíveis (sofrimento emocional e dor).
Além disso, todos os modelos requerem pesquisas de prevalência de grande escala oficiais (como as pesquisas DHS, ENDES no Peru2 ou a Macropesquisa na Espanha); pesquisas levantadas para fins do estudo, ou registros administrativos oficiais para realizar suas estimativas.
Também é frequente, diante da fragmentação das informações, a estratégia de combinar diferentes técnicas para preencher os vazios de dados. Isso ocorre nos estudos da CONAVIM (2016) para o México, ELA (2020) para a Argentina (CABA), Curcio e Frenkel (2020) para a Argentina, Equador e Peru, Mañas Alcón & Gallo Rivera (2024) para a Espanha, CAF (2025) para a Argentina, Pita Barros et al. (2008) para Portugal e Ribero e Sánchez (2004) para a Colômbia.
As principais diferenças entre os métodos utilizados nos estudos estão no procedimento de cálculo e na inclusão de atores que absorvem os custos. Quanto às duas abordagens principais, o método contábil é um modelo
2. As pesquisas DHS (Demographic and Health Surveys: pesquisas internacionais padronizadas que coletam dados de alta qualidade sobre saúde, população e nutrição em países em desenvolvimento, implementadas historicamente pela ICF International e financiadas principalmente pela USAID), implementadas no Peru por meio da ENDES, constituem uma fonte contínua e representativa que, desde 2008, mede a prevalência e os tipos de violência pelo parceiro íntimo contra as mulheres.
Embora não tenham sido concebidas para estimar custos econômicos, oferecem insumos-chave: permitem estabelecer uma linha base de prevalência, segmentar os impactos ao vincular a violência com indicadores de saúde e sociais, e servir de base para estudos que integram outras fontes (saúde, justiça).
Não capturam diretamente custos intangíveis (como saúde mental) nem alguns indiretos (como perda de produtividade), o que exige estratégias metodológicas adicionais.
As metodologias diferem principalmente em seus procedimentos de cálculo e nos atores cujos custos são incorporados. A maioria dos estudos partem de análises microeconômicas extrapoladas no âmbito nacional.
aditivo que soma categorias específicas de custos, cuja principal crítica é que essas categorias costumam ser arbitrárias e podem omitir custos cruciais, tendendo à subestimação; os métodos econométricos, por outro lado (como o PMS e o MCO), utilizam técnicas de pareamento para comparar grupos de sobreviventes com grupos de controle, o que permite isolar o impacto “puro” da violência de outros fatores como a educação ou a riqueza.
Quanto ao nível de agregação, o microcusteio (bottomup ou por ingredientes) identifica cada insumo necessário para um serviço e os soma de baixo para cima, sendo muito preciso, mas exigindo informações extremamente detalhadas; enquanto o macrocusteio (top-down) utiliza grandes componentes orçamentários ou registros oficiais para determinar o custo unitário de cima para baixo, sendo mais simples de aplicar, mas com dependência total da qualidade dos registros públicos.
A maioria dos estudos são de caráter microeconômico e extrapolam os resultados no âmbito nacional, embora metodologias como a de insumo-produto (inputoutput) adotem uma abordagem macroeconômica, que considera a estrutura econômica do país para medir como as perdas de renda dos domicílios se propagam pelo fluxo circular da renda, gerando efeitos diretos, indiretos e induzidos.
Na avaliação da produtividade, alguns modelos se limitam à conversão de salários (renda perdida), o que costuma subestimar o custo real, enquanto outros incorporam o valor agregado (produtividade marginal) e o presentismo (menor rendimento estando presente), elevando significativamente as estimativas para as empresas e para o PIB.
Finalmente, no que diz respeito à medição de intangíveis, certos métodos utilizam indicadores como o QALY (Quality-Adjusted Life Year, ou seja, anos de vida ajustados por qualidade) ou o DALY (Disability-Adjusted Life Year, anos de vida ajustados pela deficiência) para monetizar a dor e o sofrimento, atribuindo um valor para os anos de vida perdidos em razão da morte prematura ou da deficiência, enquanto outros estudos simplesmente mencionam esses custos de forma qualitativa devido à complexidade de sua medição.
A avaliação a seguir não organiza a análise estudo por estudo, mas por dimensão analítica. Para cada critério, identifica-se o padrão geral que emerge do corpus, analisam-se os casos que ilustram com maior clareza os pontos fortes e as limitações de cada abordagem, e apontam-se as tensões ou dificuldades metodológicas que o campo enfrenta de forma transversal. Os estudos são citados como casos ilustrativos, não como unidades de análise exaustivas.
Qualidade e rastreabilidade de fontes
O corpus exibe uma marcante heterogeneidade na qualidade das fontes de dados utilizadas. Os estudos de maior precisão são aqueles que combinam fontes primárias coletadas especificamente para esse fim com estatísticas administrativas auditadas. O estudo de Vara-Horna (2020) sobre o Equador combina dados da ENVIGMU (Pesquisa Nacional sobre Relações Familiares e Violência de Gênero contra as Mulheres do INEC), uma pesquisa empresarial específica com 8.093 colaboradores, uma pesquisa com microempreendedoras e contas nacionais, o que produz estimativas com maior rastreabilidade do que os estudos que operam exclusivamente com dados secundários.
O estudo de Portugal (Pita Barros et al., 2008) apresenta um caso metodologicamente destacado na dimensão de precisão porque utiliza uma amostra de usuárias de centros de atenção primária (n=518) e preços oficiais do NHS (National Health Service), o que permite uma estimativa dos custos adicionais por VCM com base empírica sólida para o setor saúde, embora com alcance setorial restrito.
No extremo oposto, vários estudos do corpus trabalham com dados de prevalência de pesquisas não concebidas para custeio e aplicam pressupostos de extrapolação com escassa documentação. Isso não invalida os resultados, mas limita a capacidade de avaliar a margem de erro das estimativas.
O sub-registro e a falta de dados específicos são os principais desafios para estimar os custos da violência contra as mulheres. Soma-se a isso a limitada interoperabilidade entre os registros de saúde, justiça e serviços sociais.
Tratamento do subregistro
O subregistro, juntamente com a falta de pesquisas específicas de prevalência e custos, é o principal desafio em termos de precisão em todos os estudos de custeio da VCM, e a forma como cada metodologia aborda essa questão é um dos critérios diferenciadores mais relevantes do corpus. A VCM tem níveis de subregistro comprovadamente elevados: o estudo do México (CONAVIM, 2016) aponta que apenas 13,6% dos casos resultam em denúncia formal; o estudo do Equador (Vara Horna, 2020) estima que as denúncias representam 5% dos casos reais.
Os estudos que trabalham com pesquisas de vitimização, como os do Equador, Paraguai (Vara Horna, 2017 e 2020) ou Argentina (CABA) (ELA, 2020) , abordam o subregistro de forma mais direta porque a prevalência estimada nas pesquisas é notavelmente mais alta do que a prevalência registrada administrativamente. Entretanto, até mesmo as pesquisas de vitimização apresentam limitações para capturar a violência psicológica e econômica, cujo subregistro dentro da própria amostra pode ser significativo.
A isso se soma um desafio estrutural de interoperabilidade entre fontes: os registros administrativos de saúde, justiça e serviços sociais raramente são concebidos para serem cruzados entre si, o que dificulta a construção de uma imagem integrada do percurso institucional das mulheres afetadas. Quando os estudos combinam fontes de natureza distinta, os critérios de definição de caso, os períodos de referência e as unidades de análise nem sempre são compatíveis, o que introduz inconsistências que afetam a comparabilidade interna de cada estudo.
Os estudos que trabalham predominantemente com dados administrativos, como Pita Barros et al. (2008) para Portugal , centrado no sistema de saúde, produzem estimativas que refletem o custo dos casos atendidos, mas não do universo de mulheres afetadas. Isso gera uma subestimação estrutural que a maioria dos estudos reconhece em suas advertências, mas que raramente quantifica de forma explícita.
Um problema adicional que o corpus começa a documentar é a ausência de etiquetas específicas de
violência de gênero nos registros administrativos. O estudo do Chile (Serviço Nacional da Mulher, 2010) alerta que inúmeros atendimentos por lesões são registrados como casos gerais no sistema de saúde, o que impede determinar qual proporção da capacidade instalada está sendo efetivamente consumida pela violência doméstica e produz uma subestimativa que não pode ser corrigida apenas com fatores de ajuste por subregistro.
Um padrão recorrente no corpus é a declaração de “estimativas conservadoras” sem especificação do intervalo de subestimação provável. A exceção parcial são os estudos que constroem cenários alternativos, como o de ELA (2020) sobre Buenos Aires, que diferencia cenários de gravidade moderada, grave e gravíssima, produzindo um intervalo de estimativa que torna visível a sensibilidade do resultado aos pressupostos sobre a intensidade da violência. Similar é a abordagem da CAF (2025).
A representatividade dos estudos varia de acordo com o alcance territorial e o desenho amostral. Os estudos nacionais com pesquisas probabilísticas representativas têm maior solidez nesse aspecto. Os estudos subnacionais, como o de Villa El Salvador, distrito de Lima com aproximadamente 200 mil mulheres segundo o Censo de 2017, têm representatividade restrita ao universo específico analisado, mas oferecem um nível de detalhe na estimativa de custos que dificilmente se obtém com amostras nacionais.
Um desafio específico no corpus ibero-americano é a representatividade das pesquisas de vitimização em relação às populações de alta vulnerabilidade: mulheres rurais, mulheres em situação migratória, mulheres com deficiência, mulheres indígenas e mulheres afrodescendentes estão sistematicamente subrepresentadas ou invisibilizadas nas pesquisas utilizadas como fonte, o que produz estimativas que subestimam o custo da VCM para esses grupos populacionais e contribui para tornar invisível sua situação específica.
Como modelos de estudos que incorporam desagregações de custos para grupos vulneráveis, aparecem os do Panamá (Ministério da Mulher, 2025) e da Bolívia (Fundação ARU, 2022). Neles são contabilizadas as despesas com transporte, alimentação e hospedagem custeados pelas sobreviventes para acessar serviços localizados em centros urbanos, custos que a maioria dos estudos do corpus não registra, produzindo estimativas que subestimam sistematicamente o custo real para as mulheres rurais.
Avaliação da precisão
Os estudos de maior precisão no corpus combinam pesquisas de vitimização com estatísticas administrativas e dados econômicos setoriais. A precisão diminui quando os estudos escalam estimativas de custo unitário a partir de dados de prevalência provenientes de fontes não concebidas para custeio. O tratamento do subregistro é uma debilidade transversal do corpus, e a construção explícita de cenários ou intervalos de estimativa é uma prática pouco estendida que valeria a pena sistematizar como recomendação metodológica.
O estudo da Espanha (Mañas Alcón e Gallo Rivera, 2024) realiza estimativas com diferentes metodologias que apresentam resultados que podem ser interpretados como pisos inferiores e superiores. A Bolívia (Fundação ARU, 2022) constrói intervalos explícitos com limite inferior e superior a 95% de confiança para suas estimativas de renda, dias de hospitalização e impedimento, produzindo um intervalo de custo total entre 1,6% e 1,8% do PIB.
Requerimentos de dados e capacidade técnica
A aplicabilidade de uma metodologia depende, em primeiro lugar, da disponibilidade dos dados que requer e, em segundo lugar, da capacidade técnica necessária para implementá-la. Essas duas condições nem sempre se dão simultaneamente nos países ibero-americanos, e sua combinação define o perfil real de viabilidade de cada abordagem.
O modelo causal multinível, tal como é desenvolvido por Vara Horna no Equador, Paraguai e Peru, requer três inquéritos específicos realizados simultaneamente (inquérito aos lares, inquérito empresarial e inquérito a microempreendedoras), além de contas nacionais, análise orçamental e estatísticas administrativas desagregadas. Essa é a abordagem mais abrangente em termos de cobertura de atores e tipos de custos,
mas também a que apresenta maiores exigências.
Sua implementação requer financiamento externo significativo e equipes técnicas interdisciplinares: os estudos do Equador e Paraguai foram possíveis graças à cooperação da GIZ e à articulação com universidades locais com capacidade de coleta de dados primários.
A metodologia contábil por componentes, utilizada no estudo do México (CONAVIM, 2016) e no de Curcio e Frenkel (2020) para a CAF/PNUD, tem requisitos mais acessíveis: trabalha principalmente com pesquisas de vitimização existentes, estatísticas administrativas setoriais e custos unitários de serviços públicos.
Sua viabilidade é maior em países que já dispõem de pesquisas nacionais de violência (como a ENDIREH no México ou a ENVIGMU no Equador) e sistemas de informação nas áreas de saúde e justiça com dados desagregados por tipo de violência. Os estudos do Panamá (Ministério da Mulher, 2025) e da Bolívia (Fundação ARU, 2022) ilustram que o método contábil é adaptável com requisitos de dados médios: ambos combinam processos institucionais, entrevistas guiadas e tabelas de preços de serviços públicos e privados para reconstruir trajetórias de casos sem a necessidade de pesquisas nacionais desenhadas especificamente para o custeio. Essa modalidade é especialmente relevante para países com sistemas estatísticos em desenvolvimento ou sem pesquisas de vitimização atualizadas.
A análise de regressão econométrica, representada no corpus pelo estudo de Licona Gómez e Otero Rivero (2015) para Cartagena de Indias, pelo estudo de Ribero e Sánchez (2004) para a Colômbia e pelo estudo de Díaz e Miranda (2010) para o Peru , requer bases de microdados individuais com informações simultâneas sobre exposição à violência e variáveis de resultado (estado de saúde, produtividade no trabalho, renda). Essa condição é exigente: poucas pesquisas iberoamericanas permitem vincular a exposição à violência com resultados econômicos no âmbito individual.
O estudo de Portugal pôde ser realizado porque utilizou dados de usuárias de atenção primária com acompanhamento clínico, um desenho de pesquisa que não está disponível na maioria dos países da região.
A análise input-output, presente no estudo da Espanha (2022), requer matrizes de insumo-produto atualizadas e estatísticas de emprego desagregadas por setor e sexo. A disponibilidade dessas matrizes varia significativamente: Espanha, Brasil, México e Argentina têm matrizes nacionais atualizadas, enquanto em vários países da América Central e do Caribe a disponibilidade é limitada ou as matrizes estão desatualizadas.
Aplicabilidade em contextos subnacionais
O corpus inclui três estudos de alcance subnacional que ilustram tanto as vantagens quanto os limites desse nível de análise. O estudo de Buenos Aires (ELA, 2020) pôde ser realizado com dados do sistema de saúde da Cidade e uma pesquisa de vitimização local, o que permitiu um nível de desagregação por tipo de serviço e por cenário de gravidade que dificilmente teria sido possível em escala nacional. O estudo de Villa El Salvador (Vara-Horna, 2019) aproveitou a escala reduzida para realizar uma pesquisa exaustiva em domicílios a 504 mulheres, com maior profundidade do que as pesquisas nacionais de prevalência. Por sua vez, o estudo de Licona Gómez e Otero Rivero (2015) para a cidade de Cartagena de Indias utiliza estatísticas do Centro de Observação e Acompanhamento do Delito (COSED), baseadas em Medicina Legal, e dados do Inquérito Anual Industrial (EAM) do DANE, de caráter nacional.
Os dois primeiros casos sugerem que os estudos subnacionais podem ser mais viáveis para administrações locais com sistemas de informação próprios e maior capacidade de articular dados administrativos e dados de pesquisa. Sua principal limitação é a extrapolação: os resultados não podem ser agregados mecanicamente em escala nacional sem ajustes por heterogeneidade territorial.
Avaliação da aplicabilidade
Um dilema central que atravessa o corpus é a tensão entre exaustividade e viabilidade. As abordagens mais completas, que abrangem múltiplos atores e tipos de custos, são também as mais caras e tecnicamente exigentes: exigem recursos e conhecimentos para a coleta de dados primários (em termos de tempo, orçamento, elaboração, anonimização e processamento), equipes multidisciplinares, acesso a microdados integrados e capacidades avançadas de modelagem econômica e estatística. As abordagens mais viáveis, que trabalham com dados disponíveis e capacidades técnicas mais estendidas, produzem estimativas necessariamente parciais.
Documentação metodológica e transparência das pressuposições
A replicabilidade é provavelmente a dimensão em que o corpus apresenta maior heterogeneidade. Alguns estudos documentam seus procedimentos com detalhes suficientes para que uma equipe técnica competente possa reproduzi-los; outros apresentam resultados sem explicitar suficientemente os pressupostos, as fontes intermediárias ou os procedimentos de cálculo.
Os estudos do grupo de Vara-Horna que utilizam o modelo causal multinível têm como ponto forte a consistência do quadro metodológico entre os países, que é aplicado com a mesma estrutura no Equador, Paraguai e Peru/Villa El Salvador, o que produz uma arquitetura comparável, embora os dados e os resultados sejam diferentes. Isso facilita a réplica porque o desenho geral está documentado e as variações entre os países correspondem a adaptações de fontes, e não a alterações na lógica do modelo. A principal limitação de replicabilidade neste grupo é que o modelo requer capacidades de coleta de dados primários que não estão disponíveis em todos os contextos.
O estudo de Curcio e Frenkel (2020) tem um ponto forte específico em replicabilidade por desenho: foi concebido explicitamente como uma metodologia transferível, com etapas definidas, identificação de fontes-tipo e exemplos de aplicação em três países. O manual de cinco etapas é o componente mais diretamente transferível para o tipo de ferramenta que o Produto 3 procura produzir. Similar é o caso do guia do UNFPA (2023), que inclui fases definidas de preparação, coleta e análise, calculadoras padronizadas e um modelo de recursos e necessidades para projetar a ampliação da cobertura. Ao contrário dos estudos de custo-país, sua replicabilidade não depende da disponibilidade de pesquisas nacionais de prevalência, mas de registros administrativos de serviços, o que amplia sua viabilidade para contextos com menor densidade estatística.
O estudo do México (CONAVIM, 2016) tem uma extensa documentação metodológica, mas os pressupostos de extrapolação da ENDIREH para a estimativa de custos nem sempre estão suficientemente explicitados. Isso limita a capacidade de terceiros para avaliar a sensibilidade do resultado aos pressupostos adotados. A lógica de custeio por itinerários de casos típicos do Panamá (Ministério da Mulher, 2025) é replicável em qualquer contexto nacional que disponha de centros de atendimento com registros sistematizados ou com capacidade de reconstruir despesas do próprio bolso por meio de entrevistas. A estrutura de três atores (famílias, comunidade e empresas) da Bolívia (Fundação ARU, 2022) é igualmente transferível para outros contextos nacionais com sistemas estatísticos de densidade média. Este último também inclui uma documentação metodológica extensa e detalhada.
O estudo de Licona Gómez e Otero Rivero (2015) sobre produtividade no trabalho utiliza regressão linear múltipla por mínimos quadrados ordinários e tem uma documentação estatística adequada, embora tenha uma base de dados primária própria. A técnica em si é amplamente conhecida e pode ser replicada com microdados semelhantes de outro contexto.
A maioria dos estudos é publicada como relatórios de resultados sem microdados anexados, o que impede a verificação independente e a atualização com dados mais recentes.
Um problema recorrente no corpus é a escassa disponibilidade das bases de dados utilizadas por terceiros. A maioria dos estudos são publicados como relatórios de resultados sem microdados anexados, o que impede a verificação independente e a atualização com dados mais recentes. Isso é particularmente relevante para os estudos que constroem suas estimativas sobre pesquisas próprias realizadas com financiamento de cooperação: quando o projeto é concluído, os dados ficam à disposição da equipe de pesquisa, mas não são necessariamente depositados em repositórios de acesso aberto.
Essa situação contrasta com o caso do estudo de Pita Barros et al. (2008) para Portugal onde os dados do NHS são públicos e passíveis de auditoria, o que permite que a estimativa possa ser atualizada com relativa facilidade, aplicando a mesma metodologia a dados mais recentes do sistema de saúde.
Avaliação da replicabilidade
A escalabilidade, entendida como a capacidade que tem um desenho metodológico para ser aplicado em diferentes países com adaptações razoáveis, é maior nas abordagens contábeis por componentes do que nos modelos de regressão econométrica. As abordagens contábeis trabalham com categorias de serviços e tipos de custos que têm equivalentes na maioria dos países ibero-americanos, embora a qualidade e a disponibilidade dos dados para estimar custos unitários variem. Os modelos de regressão dependem de bases de microdados com características específicas que não estão disponíveis universalmente.
O modelo causal multinível ocupa uma posição intermediária: sua arquitetura é escalável e foi aplicada em quatro países, mas sua implementação ótima requer a coleta de dados primários específicos, o que condiciona sua aplicação em contextos sem financiamento externo.
Desagregação por tipo de serviço e setor
A maioria dos estudos do corpus desagregam os custos por setor ou tipo de serviço, ainda que com variações na cobertura setorial. Os setores de saúde e justiça são os mais frequentemente incluídos. A proteção social e os serviços de atenção psicossocial especializados têm menor presença, possivelmente porque os dados administrativos sobre esses serviços estão menos sistematizados do que os de saúde e justiça.
O setor do trabalho, como categoria de custo, aparece nos estudos que estimam a perda de produtividade, mas sua inclusão metodológica é heterogênea: alguns estudos estimam essa perda por meio de dias de trabalho perdidos (absentismo), outros por meio do presentismo, e outros por meio do impacto na trajetória de renda a longo prazo. Essas categorias não são equivalentes e produzem estimativas de diferente magnitude e interpretação.
Os estudos que desagregam por tipo de violência (física, sexual, psicológica, econômica) são uma minoria: vários estudos se concentram na violência física e sexual porque a documentação clínica e judicial desses tipos de violência é mais sistemática, enquanto a violência psicológica e a econômica têm maior subregistro, inclusive em pesquisas de vitimização.
Desagregação territorial
A desagregação territorial é uma limitação frequente nos estudos nacionais. A maioria produz estimativas em nível de país sem desagregação por região, área urbana/rural ou características do município. São exceções o Ministério da Mulher (2025) para o Panamá e a Fundação ARU (2022) para a Bolívia. Essa limitação é relevante para os países ibero-americanos com alta heterogeneidade territorial, onde as diferenças em termos de prevalência, acesso a serviços e estrutura econômica entre as áreas urbanas e rurais podem ser muito significativas.
Os estudos subnacionais, precisamente, oferecem uma maior desagregação territorial por desenho. O estudo
A
desagregação interseccional é uma das principais lacunas identificadas e reflete limitações estruturais dos sistemas estatísticos ibero-americanos.
de Buenos Aires desagrega por tipo de violência, por nível de gravidade e por setor de atenção. O estudo de Villa El Salvador desagrega por nível de impacto (individual, familiar, comunitário) na escala de um distrito específico. Nenhum dos estudos nacionais do corpus produz estimativas equivalentes para diferentes regiões ou províncias do mesmo país.
Desagregação interseccional
Essa é a dimensão em que o corpus apresenta as maiores lacunas. Aplicando o sistema de oito variáveis definido na nota metodológica, a maioria dos estudos incorpora o nível socioeconômico de forma implícita (por meio de dados de pesquisa que incluem variáveis de renda ou escolaridade), mas não o desagregam nos resultados finais.
Entre os estudos que produzem desagregações, o da Espanha (Mañas Alcón e Gallo Rivera, 2024) calcula idade, situação profissional e dependentes no domicílio. Para a Bolívia, a Fundação ARU (2022) desagrega por idade e área geográfica, enquanto o Panamá (Ministério da Mulher, 2025) e o Chile (Serviço Nacional da Mulher, 2010) incluem dependentes no domicílio como variável calculada. A idade é registrada na maioria dos estudos por meio de faixas etárias nas pesquisas, mas raramente há uma desagregação por grupos de idade nas estimativas de custo. A condição migratória, a deficiência e a pertencimento étnico-racial são as variáveis mais ausentes no corpus: apenas alguns estudos as reconhecem conceitualmente, e um número ainda menor as operacionaliza em sua elaboração ou as incorpora na apresentação dos resultados. Uma exceção parcial é o Panamá (Ministério da Mulher, 2025), que inclui a pertinência cultural como variável qualitativa no roteiro crítico das comunidades indígenas, embora sem chegar a produzir estimativas de custo desagregadas por pertença étnico-racial.
Essa ausência não é casual nem atribuível apenas às limitações das equipes de pesquisa: reflete as lacunas estruturais dos países nos sistemas estatísticos iberoamericanos. As pesquisas de vitimização disponíveis na região raramente têm tamanhos amostrais suficientes para produzir estimativas confiáveis para subpopulações de mulheres migrantes, mulheres com deficiência,
mulheres afrodescendentes ou mulheres indígenas. A ausência nos estudos de custeio reproduz e amplifica uma ausência prévia nas fontes de dados.
A exceção mais notável no corpus nessa dimensão é o estudo de Villa El Salvador, que, devido ao seu caráter subnacional e ao perfil sociodemográfico do distrito, pôde incorporar análises por situação de emprego, tipo de convivência e presença de dependentes no domicílio com maior detalhe do que os estudos nacionais. No âmbito nacional, a Bolívia (Fundação ARU, 2022) e o Panamá (Ministério da Mulher, 2025) aproximam-se desse nível de detalhamento ao desagregar por área urbana e rural. A Bolívia soma ainda uma desagregação por intensidade do dano (moderado, grave e gravíssimo), que funciona como proxy do perfil de vulnerabilidade, produzindo estimativas diferenciadas de acordo com a gravidade da violência. O Panamá é o único estudo nacional do corpus que mostra também como a área geográfica modifica substancialmente tanto os valores quanto a composição dos custos, incluindo a pertinência cultural como variável em territórios com presença indígena.
Avaliação da desagregação
As lacunas identificadas na dimensão de desagregação, em particular na ausência de análise interseccional, não são apenas uma limitação do corpus existente, mas uma oportunidade metodológica para os exercícios futuros. Vários países ibero-americanos dispõem de registros administrativos que, se fossem articulados com pesquisas de vitimização, permitiriam incorporar variáveis como condição migratória ou situação de deficiência, sem a necessidade de coletar dados primários adicionais.
O mapeamento sistemático de 21 estudos de custeio da violência contra as mulheres no âmbito doméstico, produzidos na Ibero-América entre 2004 e 2025 confirma que a região dispõe de um corpus metodológico próprio, diversificado e em expansão, embora heterogêneo em termos de rigor, abrangência e comparabilidade. As descobertas a seguir sintetizam os padrões mais relevantes para orientar futuros exercícios de custeio na região.
O método contábil predomina, mas não é suficiente por si só. Mais da metade dos estudos do corpus aplicam variantes do método contábil. Sua força reside na acessibilidade de sua lógica aditiva e em sua capacidade para articular dados de fontes heterogêneas. Sua debilidade estrutural é a tendência à subestimação por omissão de categorias de custo e pela dependência de registros administrativos que refletem apenas os casos atendidos, e não o universo de mulheres afetadas. Essa dependência acarreta riscos concretos: subestimar sistematicamente a magnitude do fenômeno, invisibilizar as mulheres que não tiveram acesso a serviços formais, e produzir estimativas que variam mais em função da cobertura institucional do país do que da prevalência real da violência. Em contextos com registros administrativos fragmentados, incompletos ou com baixa taxa de denúncia, pode refletir mais as limitações do sistema de dados do que o custo efetivo da violência. Os estudos mais completos do corpus combinam essa abordagem com outras técnicas, como a análise input-output, o custeio pelo roteiro crítico
ou os modelos econométricos, o que sugere que a complementação metodológica é uma prática necessária e não uma exceção. A Bolívia (Fundação ARU, 2022) e o Panamá (Ministério da Mulher, 2025) ilustram ainda que essa combinação é viável com requisitos de dados médios, articulando processos institucionais e entrevistas diante da falta de pesquisas nacionais específicas.
O subregistro é o desafio de precisão mais crítico e menos resolvido do campo. As estimativas dos estudos revisados sugerem que entre 87% e 95% dos casos de violência pelo parceiro íntimo não chegam aos registros oficiais. Nenhum estudo do corpus resolve esse problema de forma definitiva, embora aqueles que articulam pesquisas de vitimização com dados administrativos se aproximem mais da magnitude real do fenômeno: enquanto os registros administrativos capturam apenas os casos que entraram no sistema, as pesquisas permitem estimar a prevalência real na população, incluindo as mulheres que não denunciaram, não tiveram acesso a serviços ou foram atendidas por redes informais de apoio. Essa articulação não apenas amplia a cobertura das estimativas, mas permite dimensionar a lacuna entre a demanda real de serviços e a oferta institucional disponível, um insumo direto para o planejamento orçamentário. A construção explícita de cenários ou intervalos de estimativa, uma prática presente em poucos estudos é o mecanismo mais transparente para tornar visível a incerteza das estimativas e deveria ser incorporada como prática padrão.
A Ibero-América dispõe de um corpus metodológico próprio e em expansão sobre o custeio da violência contra as mulheres, embora persistam desafios de comparabilidade e precisão.
A cobertura geográfica do corpus é desigual. O Peru concentra o maior número de estudos (3), seguido pela Argentina, Bolívia, Colômbia, Equador e Portugal (2 cada um). Chile, Espanha, México, Panamá, Paraguai e Uruguai contam cada um com um estudo. Entre os países membros da IIPEVCM, Bolívia, Colômbia, Espanha, Panamá, Portugal e Uruguai têm pelo menos um estudo no corpus, enquanto Andorra e República Dominicana permanecem sem estudos de custeio próprios. Essa distribuição reflete, em parte, a disponibilidade de pesquisas nacionais de vitimização e, em parte, a presença de equipes técnicas e redes de cooperação com experiência na área. Os países que não possuem estudos próprios não estão isentos de violência, mas sim carecem de instrumentos para medi-la e de estruturas institucionais para financiar sua medição.
Existem vazios significativos na América Central, no Caribe hispano-falante e em Portugal. Essa distribuição reflete, em parte, a disponibilidade de pesquisas nacionais de vitimização e, em parte, a presença de equipes técnicas e redes de cooperação com experiência no tema. Os países que não possuem estudos próprios não estão isentos de violência, mas sim carecem de instrumentos para medi-la e de estruturas institucionais para financiar sua medição.
A análise interseccional é uma lacuna persistente do corpus. A maioria dos estudos reconhece, em termos conceituais, que os impactos econômicos da VCM variam conforme as condições sociais das mulheres afetadas. No entanto, poucas pesquisas operacionalizam essa premissa no desenho metodológico ou produzem desagregações por condição migratória, deficiência, pertencimento étnico-racial ou situação profissional nos resultados. Essa lacuna não é atribuível apenas às equipes de pesquisa: reflete limitações estruturais dos sistemas estatísticos ibero-americanos, que raramente dispõem de amostras de tamanho suficiente para produzir estimativas confiáveis para essas subpopulações. Superá-la requer tanto melhorias nos instrumentos de medição quanto decisões de política estatística que priorizem a desagregação.
A replicabilidade é desigual e depende mais do desenho do que da abordagem. Os estudos que documentam seus procedimentos com maior detalhamento declaram explicitamente seus pressupostos e articulam fontes verificáveis por terceiros, que são replicáveis, independentemente da abordagem metodológica que adotem. A escassa disponibilidade de microdados para verificação independente é um problema transversal do corpus, que limita a acumulação de conhecimento
Os países que não possuem estudos próprios não estão isentos de violência, mas sim carecem de instrumentos para medi-la e de estruturas institucionais para financiar sua medição.
no campo. Nenhum estudo ibero-americano do corpus deposita seus dados em repositórios de acesso aberto.
Não existe e nem é conveniente que exista uma metodologia única. Os estudos mais úteis para a incidência política não precisam ser necessariamente os mais sofisticados do ponto de vista metodológico, mas sim aqueles que articulam rigor técnico com comunicabilidade de resultados e com conexão explícita com as decisões de políticas. Alguns exemplos que cumprem com esses pontos são os estudos de Curcio e Frenkel (2020), Fundação ARU (2022), CONAVIM (2016), Vara-Horna (2019 e 2020), CAF (2025), CONAVIM (2016) e Mañas Alcón & Gallo Rivera (2024).
A recomendação metodológica relevante não é prescrever uma única abordagem, mas sim articular critérios para que cada país avalie qual abordagem é viável, dado seu contexto institucional e estatístico,
com estimativas modulares que possam ser ampliadas progressivamente.
As descobertas deste mapeamento apontam, em conjunto, para uma agenda compartilhada: os dados são um insumo para a ação. Além de melhorar a precisão técnica dos estudos, a produção de estimativas (desagregadas com enfoque interseccional) amplia sua utilidade política. Permite identificar quais populações estão sendo sistematicamente excluídas dos sistemas de proteção, fundamentar decisões de alocação orçamentária com evidência diferenciada, alimentar debates normativos com dados que tornem visíveis as desigualdades estruturais e fornecer base empírica para as campanhas de sensibilização. Um corpus metodológico mais robusto, mais desagregado e conectado às decisões de política pública é, em última instância, uma condição para que a medição do custo da violência se traduza em sua redução efetiva.
Um corpus metodológico mais robusto e desagregado é fundamental para traduzir a medição do custo da violência em políticas públicas mais eficazes.
A partir da análise sistemática das pesquisas revisadas, formulam-se as seguintes recomendações técnicas organizadas segundo seus alcances, as oportunidades identificadas e os desafios metodológicos estruturais:
1. Antes de escolher a metodologia, mapear a disponibilidade de dados
A principal variável que condiciona a viabilidade de um estudo de custeio não é a preferência metodológica, mas sim a disponibilidade de pesquisas nacionais de vitimização e a qualidade dos registros administrativos nas áreas de saúde, justiça e serviços sociais. As equipes técnicas deveriam começar por um diagnóstico das fontes disponíveis antes de definir a abordagem, utilizando como referência a classificação de requerimentos que foram desenvolvidos na seção 4 deste relatório.
Em contextos com dados limitados, as abordagens contábeis de macrocusteio com fontes orçamentárias são um ponto de partida viável que pode ser complementado progressivamente. Mas a falta de dados não deve ser tratada apenas como uma restrição metodológica: é uma descoberta em si mesma, que revela decisões de política estatística, lacunas institucionais e prioridades implícitas dos sistemas de informação. Documentá-la explicitamente no estudo transforma uma limitação em evidência.
2. Articular pesquisas de vitimização com dados administrativos
Os estudos mais precisos do corpus combinam pesquisas de vitimização com estatísticas administrativas setoriais. Os países da IIPEVCM que já dispõem de pesquisas nacionais de violência atualizadas (como o Uruguai, com a EVBGG) têm condições favoráveis para estudos de custeio de maior alcance.
Para os países que não dispõem de pesquisas próprias, uma alternativa imediata é a utilização dos módulos de violência incorporados em pesquisas domiciliárias multipropósito, com estimativas conservadoras explicitadas como tais.
3. Tratar o subregistro como variável, não como advertência
O subregistro não deve ser mencionado apenas nas limitações do estudo. Deve incorporar-se como um parâmetro explícito na elaboração, com cenários diferenciados que permitam produzir intervalos de estimativa em vez de valores únicos. Os estudos de Buenos Aires (ELA, 2020), Bolívia (Fundação ARU, 2022) e da Argentina (CAF, 2025) oferecem modelos de construção de cenários adaptáveis a outros contextos.
4. Medir o presentismo e avaliar o trabalho não remunerado como categorias de custo independentes
Duas dimensões do custo produtivo são sistematicamente subestimadas no corpus. A primeira é o presentismo, entendido como a diminuição do rendimento laboral das mulheres afetadas enquanto permanecem em seus postos de trabalho. Os estudos que o incluem estimam que pode representar até 73% do custo total do trabalho para as empresas, superando amplamente o absentismo, que é a categoria que a maioria dos estudos mede. A segunda é o trabalho não remunerado de cuidados: quando a violência interrompe ou restringe a capacidade de cuidado das mulheres afetadas, esse custo recai sobre outros membros da família ou sobre redes informais de apoio sem registro econômico. Para monetizá-lo, os novos estudos podem utilizar a renda por hora das trabalhadoras domésticas como valor de referência, ou fórmulas híbridas que combinem esse valor com o custo de oportunidade do tempo da mulher afetada.
O presentismo e o trabalho não remunerado de cuidados são duas dimensões do custo produtivo sistematicamente subestimadas nos estudos sobre violência contra as mulheres.
Não se trata apenas de reduzir custos presentes, mas de evitar o acúmulo de custos futuros que o Estado e as famílias terão de assumir de qualquer maneira.
5. Incorporar os custos associados à perda de produtividade dos agressores
As equipes técnicas deveriam incorporar, também, os custos do presentismo e do absentismo dos agressores e das testemunhas diretas no ambiente de trabalho. Os agressores, na qualidade de trabalhadores assalariados, também registram perdas de produtividade associadas aos processos judiciais, às restrições de aproximação e ao impacto psicológico do exercício da violência. As pessoas que são testemunhas ou que dedicam tempo para conter ou ajudar colegas em situação de violência geram um custo adicional que vários estudos do corpus identificam, mas que nenhum quantifica de forma sistemática. Omitir essas categorias pode subestimar o custo total empresarial em mais de 50% (Vara-Horna, 2013).
6. Incorporar a perspectiva de longo prazo por meio de custos intergeracionais
A violência na relação de casal é um fenômeno crônico, não um evento pontual, e seus custos se acumulam ao longo do tempo. Os estudos anuais capturam uma fração do impacto real. Em contextos em que não é possível um desenho longitudinal, incorporar pelo menos os custos para filhos e filhas como uma categoria específica (despesas com saúde infantil, absentismo escolar, custos de substituição de cuidados) amplia o alcance do estudo sem aumentar significativamente os requerimentos de dados.
Quando o desenho orçamentário ou institucional não permita um acompanhamento longitudinal, uma alternativa metodologicamente válida é incluir estimativas do custo-oportunidade para toda a vida, projetando o impacto da evasão escolar sobre trajetórias de renda futuras e o custo da transmissão intergeracional da violência como mecanismo que perpetua o gasto social nas gerações seguintes. Essa perspectiva transforma o argumento da prevenção: não se trata apenas de reduzir custos presentes, mas de evitar o acúmulo de custos futuros que o Estado e as famílias terão de assumir de qualquer maneira.
7. Dar visibilidade à violência econômica como categoria de custo independente
Somente seis estudos do corpus incluem a violência econômica de forma explícita. Sua ausência não significa que seja menos prevalente, mas sim que os instrumentos de medição disponíveis a capturam com menos sistematicidade do que a violência física. Novos estudos poderiam incluir estimativas do impacto patrimonial da violência econômica, levando em consideração categorias como a perda ou deterioração de bens, o endividamento forçado e a restrição do acesso a renda própria..
8. Desagregar os resultados por variáveis interseccionais desde a concepção
A ausência de uma análise interseccional no corpus não é apenas uma limitação técnica, mas uma decisão de desenho que pode ser revertida em estudos futuros. No entanto, reflete um problema estrutural mais profundo. A escassez de dados desagregados por condição migratória, pertencimento a povos indígenas ou afrodescendentes, situação de deficiência ou orientação sexual é, em grande medida, consequência da ausência de políticas públicas que adotem uma abordagem interseccional e coloquem essas populações específicas no centro. Sem uma demanda por informações articulada a partir da política, os sistemas estatísticos não geram a oferta de dados correspondente.
Nos países onde existem registros administrativos com algum grau de desagregação, uma opção viável é o cruzamento desses registros com pesquisas de vitimização, evitando a necessidade de coletar dados primários adicionais. Para os países sem essa capacidade instalada, a alternativa mais factível é a incorporação de sobreamostras de populações específicas nas pesquisas de vitimização, em coordenação com os institutos nacionais de estatística. Ambas as estratégias, no entanto, exigem como condição prévia uma decisão política explícita de dar visibilidade a essas populações, tanto na agenda de dados quanto na elaboração das intervenções.
Sem uma demanda por informações articulada a partir da política, os sistemas estatísticos não geram a oferta de dados correspondente.
9. Conectar explicitamente as estimativas com decisões orçamentárias
Expressar o custo da VCM como percentagem do PIB e comparar o custo da violência com o custo da prevenção são estratégias interessantes para a incidência no debate e nas políticas públicas. Nesse sentido, conceber estudos com esse vínculo em mente permite identificar desde o início quais decisões de alocação orçamental ou quais intervenções específicas se pretende informar. As metodologias de Curcio e Frenkel (2020) e do UNFPA (2023) oferecem orientação nesse sentido.
10. Documentar os procedimentos com padrões de replicabilidade
Os estudos ibero-americanos têm uma lacuna de replicabilidade que não se deve ao rigor da análise, mas sim à documentação. Publicar os pressupostos intermediários, dos procedimentos de cálculo e, quando possível, os microdados em repositórios de acesso aberto permitiria a acumulação de conhecimento no campo e a atualização das estimativas sem necessidade de repetir a coleta de dados do zero. A IIPEVCM, a SEGIB, o UNFPA e a CAF podem promover essa prática como condição para os financiamentos que articulem.
11. Construir plataformas de cooperação regional para preencher os vazios metodológicos e institucionais
Os vazios identificados neste mapeamento, tanto geográficos quanto metodológicos e interseccionais, não podem ser resolvidos isoladamente em cada país. A
ausência de estudos de custeio não reflete a ausência do problema, mas sim a falta de condições institucionais e técnicas para medi-lo.
Preencher essa lacuna requer estratégias de cooperação regional que não se limitem à transferência de documentos, mas que promovam a construção de capacidades sustentadas no tempo. Nesse sentido, a conformação de espaços de trabalho conjunto entre as equipes técnicas dos países membros, orientados especificamente para o desenvolvimento de custeio adaptados a cada contexto, pode contribuir para avançar rumo a uma maior cobertura de custeios. Esses espaços podem adotar diferentes formatos: comunidades de prática, assistência técnica entre pares, fundos competitivos para pesquisas colaborativas ou plataformas de intercâmbio de microdados sob protocolos acordados.
O valor agregado da articulação regional reside não apenas na produção de conhecimento compartilhado, mas na legitimação política das estimativas: os estudos respaldados por redes institucionais têm maior capacidade de incidência do que aqueles produzidos de forma isolada.
Um exemplo concreto dessa abordagem de desenvolvimento progressivo é o da CAF, cuja metodologia está sendo aplicada de forma incremental em diferentes contextos nacionais, permitindo ajustar e fortalecer o modelo a partir de cada nova implementação. Esse tipo de trajetória, em que a metodologia é aperfeiçoada no próprio processo de aplicação, representa um modelo de cooperação técnica sustentável que a região poderia replicar em outros âmbitos institucionais.
Preencher essa lacuna requer estratégias de cooperação regional que não se limitem à transferência de documentos, mas que promovam a construção de capacidades sustentadas no tempo.
As strings de busca utilizadas combinaram termos associados ao objeto de estudo, à abordagem analítica e ao contexto geográfico. A seguir, detalham-se alguns dos principais termos empregados nas buscas em espanhol e inglês:
• “Custeio violência contra as mulheres”
• “Custos econômicos violência de gênero”
• “Metodologias violência doméstica”
• “Economic costs intimate partner violence”
• “Custos econômicos violência contra mulheres”
Esses termos foram utilizados tanto individualmente quanto em combinações, e se complementaram com pesquisas exploratórias por país, autor(a) e referências citadas na literatura relevante.
Autoria e ano Título
Vara Horna, A. (2020) Os custos-país da violência contra as mulheres no Equador
Vara Horna, A. (2013) Os custos empresariais da violência contra as mulheres no Peru: Uma estimativa do impacto da violência contra a mulher nas relações de casal na produtividade do trabalho das empresas peruanas
Curcio, J. A. e Frenkel, J. (2020)
Mañas Alcón, E. e Gallo Rivera, M. T., (dirs.), (2024)
Comissão Nacional para Prevenir e Erradicar a Violência contra as Mulheres (CONAVIM), (2016)
Metodologia de custeio de políticas públicas para a abordagem integral nos eixos de prevenção, assistência e reparação da violência contra as mulheres e as meninas
Impacto da violência de gênero e da violência sexual contra as mulheres na Espanha (II) Uma avaliação de seus custos em 2022
País
Entidade promotora Método
Equador GIZ (Programa PreViMujer), Universidade de San Martín de Porres
Peru Agência de Cooperação Alemã GIZ (ComVoMujer), Universidade de San Martín de Porres (USMP), BMZ
América Latina e o Caribe (Argentina, Equador, Peru)
PNUD e Corporação Andina de Fomento (CAF)
Espanha Delegação do Governo contra a Violência de Gênero, Ministério da Igualdade; Universidade de Alcalá
O custo da violência contra as mulheres no México México
Vara Horna, A. (2019) O custo da não prevenção: Análise e recomendações para combater a violência contra as meninas e as mulheres a partir da experiência de Villa El Salvador
Vara Horna, A. (2015) Os custos empresariais da violência contra as mulheres na Bolívia
Licona Gómez, G. e Otero Rivero, J., (2015) Efeitos da violência de gênero na produtividade laboral da mulher na cidade de Cartagena no período 2004-2013 [Tese de licenciatura].
Pita Barros, P.L., Lisboa, M., Barrenho, E., Cerejo, D. (2008)
Health care costs of domestic violence against women – evidence from Portugal
Secretaria de Governo, CONAVIM, UNAM (PUEG)
Peru/ Villa El Salvador Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e Prefeitura de Villa El Salvador
Bolívia
Cartagena, Colômbia
Portugal
Cooperação Alemã (GIZ), Programa Regional ComVoMujer e a Câmara de Comércio e Indústria BolivianoAlemã
Universidade de Cartagena
Ministério da Saúde de Portugal
Modelo causal multinível NÃO
Método contábil NÃO
Método contábil (microcusteio e macrocusteio) SIM
Método contábil + roteiro crítico + custos unitários escalados + input output SIM
Método contábil + custos unitários escalados NÃO
Modelo causal multinível NÃO
Método contábil SIM
EconométricoRegressão linear múltipla (MCO)
Método contábil + custos unitários escalados + EconométricoRegressão linear múltipla (MCO)
SIM
SIM
Vara Horna, A. (2017) Os custos-país da violência contra as mulheres no Paraguai Paraguai
GIZ, ComVoMujer, Ministério da Mulher do Paraguai
Modelo causal multinível NÃO
Autoria e ano Título
CAF (2025) D'Alessandro, M., Prieto, S., Sanchez Malcolm, M., de la Fuente, X. e del Franco, A.
Estudo sobre os custos da violência contra as mulheres no âmbito doméstico na América Latina. Exercício de custeio teórico. Caso Argentina.
ELA, OSIM, ISALUD (2020) Investir na prevenção da violência doméstica: opção ou necessidade? Os custos da violência doméstica contra as mulheres e seu impacto no âmbito da saúde e do trabalho: Estudo na Cidade de Buenos Aires. Resumo executivo
Ribero, R. e Sánchez, F. (2004)
Determinantes, efeitos e custos da violência intrafamiliar na Colômbia.
Lisboa, M. (2007) Prevenir ou Remediar. Os custos sociais da violência contra as mulheres
Vara Horna (2013) Os custos invisíveis da violência contra as mulheres para as microempresas equatorianas.
Díaz, R. e Miranda, J.J. (2010)
Aproximação do custo econômico e determinantes da violência doméstica no Peru.
Sem dados Uruguai
UNFPA (2023) Guia para a estimativa de recursos e custeio de três serviços essenciais para a assistência a mulheres sobreviventes de violências
Fundação ARU (2022) Estimativa do custo da não intervenção na violência contra as mulheres (Bolívia).
Ministério da Mulher (2025)
Serviço Nacional da Mulher (2010)
Dimensão da Violência Doméstica e Feminicídio no Panamá: Estimativa de Despesas
Resumo executivo: Estimativa do custo da violência contra as mulheres no Chile no contexto intrafamiliar
País
Argentina CAF - Géneras
Argentina (Cidade de Buenos Aires)
União Europeia, Banco Mundial, ELA, OSIM, ISALUD
Colômbia Centro de Estudos para o Desenvolvimento Econômico (CEDE) da Universidade dos Andes, financiado pelo FONADE e pelo Departamento Nacional de Planejamento
Portugal Sem dados
Equador Cooperação Alemã para o Desenvolvimento - GIZ (Programa Regional ComVoMujer).
Peru Consórcio de Investigação Econômica e Social (CIES), com o apoio da Agência Canadense para o Desenvolvimento Internacional (ACDI) e do IDRC.
Uruguai CAF
Sem dados UNFPA
Bolívia UNFPA
Panamá
Chile
Ministério da Mulher e Faculdade de Economia da Universidade do Panamá, 2025
Serviço Nacional da Mulher, Governo do Chile
Método País IIPEVCM
Método contábil + roteiro crítico teórico NÃO
Método contábil + microcusteios NÃO
EconométricoProbit + PSM SIM
Sem dados SIM
Método contábil NÃO
Econométrico - PSM NÃO
Método contábil SIM
Método contábil (microcusteio e macrocusteio)
Método contábil adaptado a países em desenvolvimento
Sem dados
SIM
Método contábil SIM
Método contábil (microcusteio e macrocusteio) NÃO
Autoria e ano AlcancePerpetrador
Vara Horna, A. (2020) 1. Parceiro / ex-Parceiro
Vara Horna, A. (2013) 1. Parceiro / ex-Parceiro
Curcio, J. A. e Frenkel, J. (2020) 1. Parceiro / ex-Parceiro 2. Outros perpetradores
Mañas Alcón, E. e Gallo Rivera, M. T., (dirs.), (2024)
Comissão Nacional para Prevenir e Erradicar a Violência contra as Mulheres (CONAVIM), (2016)
1. Parceiro / ex-Parceiro 2. Outros perpetradores
1. Parceiro / ex-Parceiro
Vara Horna, A. (2019) 1. Parceiro / ex-Parceiro 2. Outros perpetradores
Vara Horna, A. (2015) 1. Parceiro / ex-Parceiro
Licona Gómez, G. e Otero Rivero, J., (2015) 1. Parceiro / ex-Parceiro 2. Outros perpetradores
Pita Barros, P.L., Lisboa, M., Barrenho, E., Cerejo, D. (2008)
Alcance - Ator que assume os custos
1. Domicílio 2. Estado 3. Empresas 4. Microempresas 5. Sororidade
1. Domicílio 2. Estado 3. Empresas 4. Microempresas 5. Sororidade
3. Empresas 4. Microempresas
1. Domicílio 2. Estado 3. Empresas 5. Sororidade 6. Individuais
1. Domicílio 2. Estado 6. Individuais
1. Domicílio 5. Sororidade 6. Individuais
AlcanceViolências
1. Física 2. Sexual 3. Psicológica 4. Econômica
1. Física 2. Sexual 3. Psicológica 4. Econômica
1. Física 2. Sexual 3. Psicológica 4. Econômica
1. Física
2. Sexual 3. Psicológica
1. Física 2. Sexual 3. Psicológica 4. Econômica
1. Física 2. Sexual 3. Psicológica 4. Econômica
3. Empresas 1. Física 2. Sexual 3. Psicológica 4. Econômica
3. Empresas 6. Individuais
1. Física 2. Sexual 3. Psicológica
1. Parceiro / ex-Parceiro 2. Estado 6. Individuais 1. Física
Vara Horna, A. (2017) 1. Parceiro / ex-Parceiro 1. Domicílio 2. Estado 3. Empresas 4. Microempresas 6. Individuais
CAF (2025)
D'Alessandro, M., Prieto, S., Sanchez Malcolm, M., de la Fuente, X. e del Franco, A.
1. Parceiro / ex-Parceiro
1. Física 2. Sexual 3. Psicológica 4. Econômica
1. Domicílio 2. Estado 3. Empresas 6. Individuais
1. Física 2. Sexual 3. Psicológica 4. Econômica
Serviços considerados Tipos de custos calculados
Saúde, justiça, proteção, educação, administração, suporte social (sororidade), microemprendimentos.
Saúde, justiça, serviços sociais, programas preventivos, segurança no trabalho.
Educação Sexual Integral, Casas de acolhimento, assistência econômica a vítimas indiretas de feminicídio.
Assistência sanitária (AP e AE), processos legais e policiais, sistema penitenciário, mudanças, casas de acolhimento e serviços de ONG.
Assistência médica, psicológica, legal, transporte, alimentação, mudança, serviços penitenciários, programas de prevenção (PAIMEF, CONAVIM).
Assistência médica, organizações de mulheres, delegacias, tribunais, procuradoria, albergues, abrigos familiares.
O estudo se concentra na produtividade laboral (dias de trabalho) e não no custo dos serviços públicos de saúde ou justiça.
Produtividade laboral no setor manufatureiro.
Consultas, tratamentos médicos, exames diagnósticos, fármacos e transporte.
Saúde, justiça, sistema penitenciário, serviços sociais, albergues e programas de prevenção.
Assistência sanitária integral, processos judiciais, serviços de segurança (custódia e dispositivos), Programa Acompanhar, Linha 144 e transporte.
1. Diretos (despesas do próprio bolso, orçamento estatal)
2. indiretos (custo-oportunidade, valor agregado perdido, perda fiscal)
Demora, absentismo, presentismo, rotação de pessoal, investimento direto em prevenção
1. Diretos 2. Indiretos
1. Tangíveis diretos (despesas) 2. Tangíveis indiretos (renda perdida) 3. Intangíveis (dor e perda de vidas)
4. Impactos macroeconômicos (diretos, indiretos e induzidos)
1. Tangíveis diretos 2. Tangíveis indiretos 3. Intangíveis
1. Diretos (Despesas do próprio bolso) 2. Indiretos (custo-oportunidade: dias perdidos, dívida: dinheiro emprestado, custos por reprovação escolar)
2. Indiretos (absentismo: dias não trabalhados, presentismo; rendimento reduzido, demoras e rotação)
Perda de produtividade laboral (custo indireto)
1. Diretos (sanitários: NHS
2. Indiretos (privados: perda de renda,tempo, incapacidade laboral)
1. Diretos (Despesas do próprio bolso e governamentais)
2. Indiretos (renda perdida, de domicílio: tempo cuidado, comunitários: produtividade empresarial e microemprendimentos).
1. Diretos (estatal: justiça, segurança e serviços sociais; despesas do próprio bolso das vítimas: saúde, transporte, assessoria legal e alojamento)
2. Indiretos (tempo de trabalho perdido por faltas ou demissões, valorização de tarefas domésticas e de cuidado utilizando como referência o salário de trabalhadoras de casas particulares)
Autoria e ano
ELA, OSIM, ISALUD (2020)
Ribero, R. e Sánchez, F. (2004)
AlcancePerpetrador
1. Parceiro / ex-Parceiro
1. Parceiro / ex-Parceiro
Alcance - Ator que assume os custos
1. Domicílio 2. Estado 3. Empresas
1. Domicílio 2. Estado
AlcanceViolências
1. Física 2. Sexual
1. Física 2. Sexual 3. Psicológica
Serviços considerados Tipos de custos calculados
Assistência médica de emergência, reabilitação de saúde física e psíquica, consultas em instituições públicas, assessoramento jurídico, programa Acompanhar.
Mercado de trabalho, saúde pública, educação e sistema de justiça/proteção estatal.
1. Diretos (sanitários: assistência médica, fármacos)
2. indiretos (perda de produtividade laboral e em tarefas de cuidado não remunerado)
1. Diretos (Despesas estatais em prevenção, detecção, assistência clínica e processos judiciais)
2. Indiretos (Perda de renda do trabalho, desemprego, dias de hospitalização, e efeitos na saúde e educação infantil)
Lisboa, M. (2007) Sem dados Sem dados Sem dados Sem dados Sem dados
Vara Horna (2013) 1. Parceiro / ex-Parceiro 4. Microempresas 6. Individuais 1. Física 2. Sexual 3. Psicológica
Setor de microfinanças (microcréditos), serviços de saúde, instâncias judiciais e o mercado informal.
1. Diretos (descapitalização: Gasto de dinheiro do negócio para atender urgências médicas, roubos por parte do parceiro ou sabotagem de bens.)
2. Indiretos (rendimentos por dias de trabalho perdidos: incapacidade, assistência a juízos, assistência a familiares).
Díaz, R. e Miranda, J.J. (2010) 1. Parceiro / ex-Parceiro 1. Domicílio 6. Individuais 1. Física 2. Sexual 3. Psicológica
Mercado de trabalho (produtividade e renda) e setor educativo (rendimento escolar).
2. Indiretos (perda de renda do trabalho, variação nas horas trabalhadas e atraso no aproveitamento escolar dos filhos)
Sem dados Sem dados Sem dados Sem dados Sem dados Sem dados
UNFPA (2023) 1. Parceiro / ex-Parceiro 2. Outros perpetradores 2. Estado 1. Física 2. Sexual 3. Psicológica
Fundação ARU (2022) 1. Parceiro / ex-Parceiro 1. Domicílio 2. Estado 3. Empresas 6. Individuais 7. ONGs 1. Física 2. Sexual 3. Psicológica
Serviços de casas de acolhimento, serviços de assessoria e aconselhamento (psicológico, legal e em situações de crise) e serviços de saúde para mulheres sobreviventes de violências física e sexual.
Saúde (emergências, hospitalização, apoio psicológico), Justiça (denúncias, representação legal, laudos periciais), Prevenção (capacitações), serviços sociais (abrigos) e serviços funerários.
1. Diretos
Ministério da Mulher (2025)
1. Parceiro / ex-Parceiro
1. Domicílio
6. Indivíduos
1. Física
2. Sexual
3. Psicológica
Serviço Nacional da Mulher (2010)
1. Parceiro / ex-Parceiro
1. Domicílio 2. Estado 6. Individuais 7. ONGs 1. Física 2. Sexual 3. Psicológica 4. Econômica
Saúde (consultas, radiografias, cirurgias, hospitalização), serviços especializados (trabalho social, psicologia, assistência jurídica), logística (transporte, alimentação, fotocópias, hospedagem) e serviços funerários (sepultamento, transportes).
Justiça (Poder Judiciário, Ministério Público, Defensoria), Saúde (Rede de Assistência, saúde mental), Segurança (Carabineros, PDI), Serviços Sociais (SENAME, SENCE) e o setor privado (ONGs e empresas como o Banco do Estado Microempresas).
1. Diretos (despesas do próprio bolso em saúde, justiça e trâmites) 2. Indiretos (renda perdida por inatividade das vítimas, perda de produtividade: absentismo e presentismo nas empresas e capital humano perdido por feminicídio)
3. Intangíveiss (mencionados qualitativamente: angústia, baixa autoestima, adiamento do projeto de vida, e monetizados parcialmente por meio do custo social do feminicídio)
1. Diretos
1. Diretos (Despesas com saúde, trâmites legais, segurança, transporte, mudanças e sepultamentos)
2. Indiretos (Endividamento, perda de bens, renda e trabalho doméstico perdidos por feminicídios)
3. Intangíveis (Sofrimento emocional e efeitos na saúde física/mental dos filhos e filhas)
Resultados dos estudos sobre custos econômicos da violência
Autoria e ano Custos
Resultados principais
Vara Horna, A. (2020) 4,608 milhões de dólares A violência contra as mulheres custa 4,28% do PIB do Equador. As próprias mulheres assumem 49,9% do custo.
Vara Horna, A. (2013) 6,744 milhões de dólares (3,7% do PIB)
Curcio, J. A. e Frenkel, J. (2020)
Equador: 3,6M de dólares; Peru: 4,8M soles peruanos (estimados)
Mañas Alcón, E. e Gallo Rivera, M. T., (dirs.), (2024) Várias estimativas que oscilam entre 1,378 e 4,085 milhões de euros para a VG
Comissão Nacional para Prevenir e Erradicar a Violência contra as Mulheres (CONAVIM), (2016)
$245.118.266.538 pesos mexicanos
Vara Horna, A. (2019) 240,8 milhões de soles peruanos (72,9 milhões de dólares)
Vara Horna, A. (2015) Aproximadamente 1,976 milhões de dólares por ano
Licona Gómez, G. e Otero Rivero, J., (2015) Diminuição de $769.500 pesos na produtividade trimestral por caso adicional
Pita Barros, P.L., Lisboa, M., Barrenho, E., Cerejo, D. (2008)
140€ por vítima ao ano (custo adicional)
Vara Horna, A. (2017) USD 1.450,6 milhões (5,12% do PIB)
CAF (2025) D'Alessandro, M., Prieto, S., Sanchez Malcolm, M., de la Fuente, X. e del Franco, A. 15,318 milhões de dólares (somando prevenção e abordagem)
ELA, OSIM, ISALUD (2020) $3.939 milhões de pesos correntes (2018)
Perda de 70 milhões de dias de trabalho por ano; o presentismo explica 73% dos custos diretos
Identificação de lacunas de investimento (Peru: 45,8% de desigualdade entre alocado e necessário). Proposta de 5 passos para custeio integral.
O custo tangível da VG (Opção C) é estimado em 3,015 milhões de euros (0,23% do PIB). A VSfp soma outros 848,5 milhões
O custo da violência contra as mulheres no México representa 1,4% do PIB em 2015.
A VBG custa 240,8 milhões de soles peruanos anuais. As mulheres assumem 44,7%, seus familiares 11,1% e a comunidade 44,2%. Assim que 74,3% do custo é por custo-oportunidade.
A violência contra as mulheres equivale a uma perda de 6,46% do PIB da Bolívia.
Um aumento em 1 caso de violência intrafamiliar diminui a produtividade laboral trimestral feminina, em média, em $769.500 pesos.
As vítimas têm custos de saúde 22% superiores aos das não vítimas. Desse custo, 90% é assumido pelo Estado (NHS).
A VcM afeta a 36 de cada 100 mulheres. As empresas assumem 38% do custo total, enquanto as mulheres e suas famílias assumem 48%.
O custo total (prevenção + abordagem) é estimado em $15,318 milhões de dólares para 2022. O Estado assume 0,1% do PIB, enquanto as vítimas absorvem custos equivalentes a 2,9% do PIB
A violência doméstica custou aproximadamente $3.939 milhões de pesos (137 milhões de dólares) em 2018. O custo médio por mulher é de $24.376 pesos.
Autoria e ano Custos
Ribero, R. e Sánchez, F. (2004) As mulheres sobreviventes de maltrato severo recebem uma renda aproximadamente 70% mais baixa
Lisboa, M. (2007) Sem dados
Vara Horna (2013) Custo de oportunidade entre 8,7 e 49 milhões de dólares anuais
Díaz, R. e Miranda, J.J. (2010) O impacto anual por mulher vítima de violência situa-se em uma faixa de 1.150 a 1.500 soles peruanos
Resultados principais
A VIF gera uma perda econômica anual de 8,76 bilhões de pesos (3,93% do PIB).
O maltrato severo aumenta a probabilidade de desemprego feminino em 8 pontos percentuais. As crianças em lares com VIF apresentam um atraso escolar de 0,5 ano em comparação com seus pares em lares sem violência.
Sem dados
No Equador, 50 de cada 100 proprietárias de microempresas foram sobreviventes de violência por seus parceiros.
A violência causa a perda de 6,7 milhões de dias de trabalho por ano no âmbito nacional.
A perda de capital devido a despesas do próprio bolso afeta a 49,7% das empresas, enquanto 8,3% chegam à falência ou ao endividamento extremo por esse motivo.
As mulheres que não sofrem violência geram mais renda de trabalho do que aquelas que são agredidas.
Em famílias que não vivem na pobreza, a violência está associada a uma taxa de atraso escolar 1,1% maior.
Sem dados Sem dados Sem dados
UNFPA (2023) Sem dados Sem dados
Fundação ARU (2022) Alcance micro com uma despesa média por mulher de 4.300 a 5.000 bolivianos anuais. O custo anual total da violência é estimado entre 3.900 e 4.660 milhões de bolivianos. Representa entre 1,6% e 1,8% do PIB
Ministério da Mulher (2025)
Serviço Nacional da Mulher (2010)
Violência Doméstica: Entre 2.986.55 balboas panamenhos (Urbana) e 4.709,25 balboas panamenhos (Rural) por caso, onde 77,85% - 91,84% corresponde à saúde.
Despesa total das mulheres entrevistadas de $181.705.711 pesos chilenos no último ano. Despesa pública total identificada de $32.195.470.643 pesos chilenos.
Mulheres e seus domicílios (71,3%), Empresas (18,7%) e a Comunidade, que inclui o Estado (9,9%) e as ONGs (0,2%).
Feminicídio: Despesas de sepultamento e funerária por uma média de 3.450,00 balboas panamenhos (Urbana). Despesas funerárias de 1.500,00 balboas panamenhos mais 300,00 balboas panamenhos adicionais por transportes aquáticos/terrestres do corpo (Rural). Impacto em Criação: Os familiares assumem aproximadamente B/. 2.710,00 anuais em despesas diretas por cada filho(a) órfão de feminicídio.
A despesa pública total em VIF foi de $32.195 milhões de pesos chilenos, onde 76,6% destinouse a assistência e somente 10% a prevenção primária.
O custo econômico do feminicídio (49 casos) foi estimado em $2,577 milhões de pesos chilenos por renda do trabalho perdida e $705 milhões de pesos chilenos por perda de trabalho doméstico não remunerado.
O setor das ONGs contribui com um subsídio invisível para o Estado por meio do trabalho voluntário, equivalente a 38% de seu investimento.
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